A mente ideológica

A democracia não precisa de heróis. Apenas homens normais desapegados do poder.

Investe-se uma grande quantidade de

inteligência na ignorância quando se sente

uma profunda necessidade de ilusão.1

Saul Bellow

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1. Introdução

Temos nos debruçado, e já lá vão alguns anos, sobre uma questão, intrigante e complexa, que é a seguinte: porque há pessoas que admiram ou toleram líderes e regimes autoritários? Um indivíduo racional não deveria admirar um ditador — mas isso é apenas o que alguns pensam. Porque o que acontece, com uma frequência que desafia a lógica, é que a admiração por líderes autoritários está mais difundida do que, à primeira vista, poderíamos pensar. O que vem ocorrendo um pouco por todo o mundo democrático, por exemplo, nos Estados Unidos, no Brasil e na Hungria, com as eleições de Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán, todos eles líderes autoritários, é algo que inquieta e deixa apreensivas as pessoas de boa vontade. O caso de Trump — um líder boçal, mentiroso, instável, inculto, vaidoso, corrupto, chantagista, autoritário e intolerante (e talvez algo mais: veja-se o caso Epstein) à frente da maior potência militar mundial é particularmente preocupante.

Torna-se, assim, premente perceber porque a admiração por governantes autoritários está tão disseminada, e para isso precisamos de recorrer a algumas áreas de conhecimento. Desde logo, aquelas que se debruçam sobre a evolução da nossa espécie. Mas também precisamos de estudar algo mais específico: perscrutar o interior do próprio cérebro humano. Necessitamos, ainda, de avaliar a forma como avança o conhecimento científico, o único factual e, logo, verdadeiro. Será necessário ainda conhecer as principais teorias da ciência política e compará-las entre si. Tentaremos perceber a influência que o ambiente tem na formação da mente ideológica — desde a educação em casa aos livros que se leem (ou não), passando pelo meio social e académico, pelas crises económicas e sociais que ciclicamente ocorrem, sem esquecer a influência das redes sociais. E, finalmente, iremos analisar como se formou na opinião publica mainstream, ao longo de um século, essa excrescência do marxismo cultural chamado wokismo (quando se abre muito os olhos só se vê aquilo que se quer), e como esse movimento cultural de esquerda proporcionou o crescimento da extrema direita. É isto que tentaremos fazer mais abaixo, mas antes, para que não restem dúvidas, vejamos, através da análise histórica, porque todos os ditadores são maléficos, ao revelarem quatro características que tentaremos expor de seguida.

2. A personalidade do autocrata

Em primeiro lugar, todos os ditadores adoram o poder. Logo que o alcançam não querem perdê-lo, ou seja, só podem ser afastados à força, o que implica que eles próprios a usem para reprimir ou eliminar quem quer afastá-los. Daqui resulta que qualquer sociedade onde exista um ditador seja uma sociedade violenta, com todo o sofrimento associado. Em segundo lugar, quase todos os grandes ditadores amam a sumptuosidade. Salvo raras exceções (como a de Salazar, em Portugal, e, ao que parece, do atual líder chinês Jinping), os ditadores, sobretudo os que mais clamam serem representantes do povo, deixam esse mesmo povo na miséria enquanto levam uma vida de luxo, e amiúde de luxúria e perversidade. Em terceiro lugar, a vida humana não tem qualquer valor para a maioria dos ditadores; eles não sentem empatia com o próximo e muitos evidenciam sintomas claros de psicopatia, enquanto alimentam o mito do herói, amiúde explorado na imprensa que controlam e nos manuais escolares que definem. Em quarto lugar, todos os ditadores odeiam a liberdade. Os espíritos liberais, críticos, tolerantes e autónomos são os seus principais inimigos e, consequentemente, são perseguidos, detidos e eliminados. De facto, a realidade histórica mostra-nos que fascistas, nazis e comunistas tinham e têm, como inimigo fundamental, os liberais. Isto acontece hoje, com ideólogos russos, como os ultranacionalistas Dugin, Limonov e Kholmogorov (aqui), ou com marxistas, como os anticapitalistas Zlavoj Zizek (aqui), Perry Anderson e David Harvey, tal como acontecia há cem anos, quando nacionalistas e socialistas alemães, se uniram contra o mercantilismo e liberalismo ocidental (a Inglaterra era, na altura, a nação mais odiada), através da criação do partido nacional-socialista alemão, mais conhecido por partido nazi (Hayek, 1944).

2.1. Adoração do poder

Consideremos, brevemente, alguns casos de líderes autoritários, para mostrarmos como apresentam as características comportamentais apresentadas no parágrafo anterior. Relativamente ao fascínio pelo poder, os números não enganam. Kim Il-sung, apropriadamente designado como o “Presidente Eterno da República”, inaugurou uma dinastia, continuada por seu filho, Kim Jong-Il, e seu neto, Kim Jong-un, que dura há 78 anos. Fidel Castro governou Cuba durante 49 anos e a ditadura prolongou-se com seu irmão, Raúl, e continua até hoje. Tito governou a Jugoslávia por 35 anos. Estaline esteve à frente da União Soviética durante 30 anos. Salazar e Franco estiveram no poder 36 anos, Mao, 27 anos, e Putin já vai em 25. Xi Jinping alterou as reformas iniciadas por Deng Xiaoping no interior do Partido Comunista Chinês para se manter mais tempo no poder (Dillon, 2024). Muitos outros ditadores não se perpetuaram no poder porque foram depostos pela força (Hitler, Mussolini, Pal Pot).

Claro que, para quem adora o poder, o principal medo é perdê-lo. É por isso que os ditadores contam com a proteção de guarda-costas, exércitos pessoais, carros blindados, bunkers, residências secretas, disfarces e até sósias, ao contrário do que se passa na maioria dos países livres, sobretudo na Europa, onde os governantes andam à vontade no meio do povo (Marcelo Rebelo de Sousa) e se deslocam em transportes públicos ou de bicicleta (Olaf Palme). Fidel Castro, por exemplo, tinha à sua disposição um centro de investigação bactereológico para analisar todos os alimentos que consumia, além de um provador permanente. A sua paranóia era tal que até os quartos de hotel onde as personalidades estrangeiras pernoitavam quando visitavam Cuba estavam equipados com câmeras de filmar. E não era apenas por uma questão de controlo, era também um meio de chantagem: muitos recebiam prostitutas de luxo fornecidas pelo regime, e isso poderia ser usado para obter vantagens em caso de necessidade (Sánchez, 2014).

2.2. Viver em grande

Quanto ao gosto dos ditadores pela sumptuosidade, vejamos brevemente alguns exemplos. Lenine, o líder revolucionário dos trabalhadores, era transportado num Rolls-Royce Silver Ghost, equipado com esquis e correntes para superar as estradas com neve, e vivia numa sumptuosa mansão em Gorki, nos arredores de Moscovo (Kershaw, 2022). Fidel Castro, por seu turno, era proprietário de um património fabuloso, incluindo a ilha paradisíaca Cayo Piedra e o iate Aquarama II — para além de um número incontável de imóveis e do controlo de toda a economia cubana — enquanto o povo vivia (e vive ainda) na miséria, sendo que era também psicopata, pois descartava, quando já não lhe interessavam, mesmo os seus mais fiéis servidores, não sentindo qualquer remorso pelo sofrimento infligido (Molina, 2010). Reinaldo Arenas, um poeta cubano, várias vezes preso em Cuba, que conseguiu fugir da ilha, escreveu na sua autobiografia, já no exílio:

Descobria agora uma fauna que em Cuba me era desconhecida; a dos comunistas de luxo. Lembro-me de que, no meio de um banquete na Universidade de Harvard, um professor alemão me disse: “Eu de certo modo compreendo que possas ter sofrido em Cuba, mas eu sou um grande admirador de Fidel Castro e estou muito satisfeito com o que ele fez em Cuba.” O homem tinha naquele momento um grande prato de comida à sua frente e eu disse-lhe: “Acho muito bem que você admire Fidel Castro, mas nesse caso não pode continuar com esse prato de comida, porque nenhuma das pessoas que vivem em Cuba, salvo a oficialidade cubana, pode comer comida dessa.” Peguei no prato e atireio-o contra a parede.2

Achamos que esta declaração merece uma pausa, antes de continuarmos para outro psicopata, um dos homens mais ricos do planeta (quiçá, o mais rico)… Falamos, claro, de Vladimir Putin, possuidor de vários palácios soberbos, um deles na região de Krasnodar, na costa do Mar Negro, o maior edifício residencial privado da Rússia. Mas a jóia da coroa parece ser “a pequena Versalhes” em Valdai, nas margens do Lago Valdaiskoye. Isolada no meio de uma reserva natural, entre Moscovo e S. Petersburgo, a propriedade estende-se por 250 hectares. É difícil e seria até fastidioso descrever todo o luxo instalado nesta propriedade que conta com uma mansão para Putin e outra mansão para a sua namorada — a multimedalhada ginasta russa, Alina Kabaeva — e uma linha férrea exclusiva.3 Enquanto isso, muitos russos morrem de frio em regiões remotas do país.

Por seu turno, Nicolae Ceausescu, o “Génio dos Cárpatos” e líder comunista que governou a Roménia durante 24 anos, detinha um Palácio de Primavera com 80 salas, piscina interior, salão de cinema e casas de banho com torneiras de ouro, enquanto o povo romeno vivia na mais extrema miséria. Daniel Ortega e a mulher, Rosario Murillo, “socialistas” que governam em conjunto a Nicarágua desde 2006, possuem uma fortuna estimada em mais de 2.500 milhões de dólares, controlando o mercado de combustíveis, a comunicação social e um grande número de empresas, algumas das quais através de testas de ferro. Como habitualmente acontece com estes defensores do povo, o povo, propriamente dito, vive miseravelmente. É o que acontece também com Kim Jong-un, líder incontestado da Coreia do Norte, possuidor de uma fortuna fabulosa, detentor de 17 palácios e amante de luxos requintados como carros opulentos (mais de uma centena), aviões a jato, carro blindado com casa de banho, cavalos puro-sangue, uma coleção de relógios avaliada em 8 milhões de dólares e um iate de luxo. A morte por fome na Coreia do Norte é cíclica, mas Kim adora caviar preto iraniano, porcos dinamarqueses, conhaque francês e uisque americano.4

Temos depois os aspirantes a ditadores, como Trump ou Orbán. A fortuna de Trump, que, apenas desde que iniciou o segundo e atual mandato como presidente dos Estados Unidos, há pouco mais de um ano, aumentou mais de mil milhões de dólares (um bilião para para os padrões brasileiros e americanos)5 está avaliada em quase 6 mil milhões (6 biliões) de dólares. Orbán é o político mais bem pago do mundo e as empreses que giram em torno do governo húngaro, que lidera, viram os seus lucros aumentados exponencialmente. Este aumento súbito da riqueza dos empresários amigos, bem como de familiares, adensam a suspeita de recurso a testas de ferro por parte de Orbán.

Claro que a lista de ditadores afortunados é muito mais longa e poderíamos continuar com vários outros, como Lukashenko, Mbasogo (o ditador atualmente há mais tempo no poder: 47 anos) e muitos outros líderes africanos, ou o novo líder religioso iraniano, Mojtaba Khamenei, detentor de um património que inclui mansões em Londres, hotéis de luxo e campos de golfe em várias cidades europeias, e contas chorudas na Suíça.6 Mas talvez possamos ficar por aqui.

2.3. Psicopatia

Hitler (15 a 20 milhões), Estaline (mais de 40 milhões) e Mao (estima-se que mais de 50 milhões) são responsáveis, em conjunto, por mais de 100 milhões de mortes, constituindo-se como três dos maiores assassinos da história da humanidade. Hitler inspirou-se em Benito Mussolini para cultivar a aura de herói de que necessitava para galvanizar as massas alemãs (Rees, 2012). Pol Pot, um líder cambojano comunista, considerado, em alguns meios de comunicação social, “a maior máquina de matar do século XX”,7 conseguiu a “proeza” de liquidar 1/4 da população do seu próprio país em cerca de três anos — milhões de pessoas.

Putin, que age como chefe de uma máfia, controlando toda a economia russa (Kasparov, 2015), não hesita em enviar para a morte certa centenas de milhares dos seus jovens concidadãos. Tendo em conta que nas guerras modernas é muito difícil ocupar com tropas outro país ou região, dada a grande concentração populacional em cidades, a estratégia de Putin é a de arrasar indiscriminadamente esses centros urbanos reduzindo-os a escombros. É uma estratégia recorrente utilizada na Chechénia, na Síria e na Ucrânia. Se tiver tempo, Putin chegará facilmente ao patamar dos milhões de mortes.

Apesar de estes ditadores terem sido, ou serem, responsáveis por um número inacreditável de vítimas mortais, o sofrimento que outros líderes autocráticos infligiram, através da repressão generalizada, não pode ser negligenciado. Salazar, em Portugal, Franco, em Espanha, os ditadores militares da América Latina (Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, etc.), geralmente de “direita”, ou os ditadores africanos, geralmente de “esquerda” foram, ou são, responsáveis por incontáveis mortes e por episódios de tortura e encarceramento de seres humanos inocentes. Como se pode ver, o número de vítimas da chamada esquerda é bastante superior ao da chamada direita. Mas este não é um problema quantitativo e muito menos um problema entre esquerda e direita, como veremos mais à frente, antes pelo contrário.

2.4. Ódio à liberdade

Todos os ditadores odeiam a liberdade e gostam de ser obedecidos. É precisamente por isso que são ditadores. E se é verdade que nem todos eles possuem as características apresentadas no ponto 2 — há alguns, poucos, ditadores que têm uma vida relativamente modesta — e em relação ao ponto 3 há gradação relativamente à psicopatia, todos, absolutamente todos, preenchem as condições dos pontos 1 e 2 — todos adoram e poder e odeiam a liberdade.

É por isso que se munem de todos os meios repressivos possíveis para se manterem no poder. Isto deveria alertar-nos para a extrema importância das instituições democráticas e para a necessidade de manutenção da independência institucional em relação ao poder executivo. Tribunais e imprensa são geralmente os primeiros alvos dos pré-ditadores — como Trump, hoje, ou Putin, na fase anterior à do poder absoluto — e a sua autonomia deve ser assegurada, pois são dois dos mais importantes pilares da liberdade. (Enquanto escrevemos este artigo, o governo golpista da Guiné-Bissau — um país de língua oficial portuguesa — mandou espancar até à morte o ativista Vigário Luís Balanta, de 35 anos, e prepara-se para fechar vários órgãos de comunicação social).

Os liberais, com a sua tolerância, o seu desapego, e mais do que desapego a sua desconfiança do poder (daí a ênfase que colocam na limitação dos governos), bem como o seu amor à liberdade (individual e de associação), ao livre mercado, à propriedade privada e à autonomia contratual são os maiores inimigos de todos os ditadores, sejam de esquerda ou de direita. É por isso que a verdadeira dicotomia da ciência política atual não é entre esquerda e direita, mas entre democracia e ditadura, liberdade e opressão, tolerância e autoritarismo. (Ramón, 2024; Applebaum, 2020).

É fácil ver, pelo último parágrafo, que quando nos referimos a liberalismo, não estamos a pensar em nenhum tipo de programa político-partidário, nenhum tipo de liberalismo específico, económico ou outro, como é o caso do conhecido termo inventado pejorativamente — neoliberalismo — para desacreditar o liberalismo. O liberalismo não dispensa a ação do Estado nem é alheio aos direitos sociais conquistados pelos indivíduos. Muito pelo contrário. Quando nos referimos a liberalismo, estamos a falar de uma doutrina geral que visa garantir as liberdades acima referidas, defendendo, para isso, instituições que controlem o poder. O liberal é um indivíduo atento aos abusos de poder, que considera a liberdade um fim em si mesmo — uma vez que sem liberdade o ser humano deixa de ter responsabilidade pelos seus atos (passa a ser um escravo do poder estabelecido) e todos os avanços sociais (incluindo a diminuição da desigualdade) conquistados pelas democracias liberais são perdidos.

3. A dicotomia esquerda/direita é anacrónica

Apesar da capacidade destrutiva das ditaduras, é de certa forma natural que a maioria dos súbditos dos ditadores, intoxicados com propaganda, admirem os seus líderes. Mas como entender, sem nos indignarmos, que nos países democráticos, com imprensa livre, algumas pessoas sintam admiração, quando não verdadeira veneração, por líderes autocratas? E assim regressamos à nossa questão fundamental. Trata-se de uma questão intrigante, sobretudo porque as respostas simplistas — que as pessoas são estúpidas ou ignorantes — são redutoras. Há muita gente inteligente e erudita que defende ideologias antidemocráticas.

Esta é, portanto, a grande questão que se coloca, num mundo onde os regimes autoritários ganham terreno aos democráticos, onde a polarização, o extremismo e a aversão a tudo o que é liberal crescem, tal como aconteceu há um século quando líderes totalitários aspiraram a controlar o mundo. Vivemos de novo umas dessas crises provocadas pelo desespero. As crises económica, social, habitacional, conduzem inevitavelmente a uma crise de valores.

Neste contexto, a velhinha dicotomia esquerda/direita que dominou o debate político da segunda metade do século XX, perde sentido. Não há grandes diferenças entre um social-democrata, um democrata-cristão ou um liberal-social. Todos eles defendem as instituições democráticas e sabem que elas são mais importantes do que qualquer indivíduo, por mais popular que seja. Da mesma forma, não há grandes diferenças entre um simpatizante fascista, ou nazi, ou marxista. Todos eles tenderão a apoiar qualquer político disposto a pôr em prática as correspondentes ideologias, pouco lhes importando se há separação de poderes ou se os poderes estão concentrados num único indivíduo providencial.

A verdadeira dicotomia é, portanto, a que separa defensores da democracia dos apoiantes de autocracias, porque é entre eles que existe uma verdadeira clivagem, não entre os democratas de esquerda e de direita. Além disso, sabe-se que uma vez iniciada a radicalização de qualquer um dos lados dos extremos políticos, ela tende a agravar-se do outro lado, e vice-versa. Alimentado pelo ódio ao outro extremo, o nosso ódio aumenta também. E, assim, insaciáveis, estamos dispostos a aceitar tudo: fantasias, distorções, mentiras e calúnias. Não é preciso esperar muito tempo até que a maioria se movimente apenas no espaço das redes sociais, circunscrita a uma tribo radical.

Habituados aos soundbites das redes, deixamos de ter paciência para ler um livro e tolerância para ouvir uma crítica. Qualquer dissonância é tida como hostil e considerada uma ameaça. A tendência é considerar quem não alinha connosco como inimigo e empurrá-lo para o extremo oposto. Não há mais lugar para a crítica, para a tolerância, para o razoável. E com isto não nos apercebemos que somos iguaizinhos aos do outro lado, pois utilizamos precisamente os mesmos métodos. Desprezamos o autocrata inimigo mas apoiamos outro — o nosso. Perante tudo isto, é lícito concluir que a rigidez ideológica remete para a teoria da ferradura na política, onde o fascismo e o comunismo acabam por se encontrar nos extremos. A ideologia incentiva o dogmatismo do crente, num efeito de autorreforço: os avanços para o extremismo são tanto mais fáceis quanto mais profundamente envolvido se estiver (Zmigrod, 2025).

4. A mente ideológica

A ideologia nasceu com boas intenções. Como a palavra indica, estava destinada a ser a ciência das ideias, mas transformou-se numa guerra de ideologias, tal como aconteceu com as religiões. É bastante curioso que tenha sido um pensador iluminista, condenado à morte por “aristocracia” e encarcerado numa prisão de Paris nos tempos tenebrosos pós Revolução Francesa, Antoine Destutt de Tracy, o homem que cunhou o termo “ideologia”. Tracy queria tornar científico o estudo da formação das ideias — como nascem e se desenvolvem em nós através da “sensação” e da “dedução” —, orientá-lo para a verdade e afastá-lo da superstição.

O Reinado de Terror terminou antes da prevista execução de Tracy (mas com a execução do sanguinário Robespierre), que acabou por ser libertado. Poucos anos depois, Destutt de Tracy publicou a sua obra de referência, Elementos de Ideologia, que viria a ser traduzida para inglês por Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano.

A louvável intenção de livrar as ideias de superstições, crenças, influências metafísicas e tradições bafientas não vingou. Pelo contrário, a “ciência das ideias” não tinha as ferramentas necessárias para ser realmente uma ciência e foi tomada de assalto por pensadores dogmáticos que reclamaram o estatuto de ciência para as suas doutrinas pseudo-científicas. A ideologia foi perdendo o estatuto de ciência, sendo atacada primeiro por Napoleão e, mais tarde, por Marx, até se transformar numa espécie de idolatria —a veneração de pensadores ou líderes dogmáticos e autoritários — atingindo o máximo grau negativo que tem hoje.

Tracy não dispunha das ferramentas realmente científicas que possuímos agora, pois não estavam disponíveis no seu tempo. Referimo-nos a áreas do conhecimento que vão das ciências naturais à psicologia, passando pela filosofia do conhecimento e pela filosofia política. É através delas que vamos analisar mais detalhadamente a mente ideológica, tendo em conta o que se consideram ser as ideologias mais extremistas (embora, claro, nenhuma delas o reconheça), casos do fascismo, nazismo, nacionalismo, comunismo e islamismo radical. Os crentes destas ideologias odeiam a nossa civilização: a liberdade, a democracia, a tolerância, a justiça, o bem-estar social.8

4.1. Biologia evolucionista — da Idade da Pedra às redes sociais

Do ponto de vista evolutivo, foi muito importante para os humanos, ainda em tempos remotos, juntarem-se em grupos. Só através de coligações foi possível sobreviverem e defenderem-se, quer de outros grupos rivais — algo que também acontece com outros primatas — quer de membros violentos dentro do próprio grupo. Mas apenas na nossa espécie se desenvolveu até níveis de destruição inimagináveis este enorme esforço coletivo para atacar outros grupos e defender-se dos ataques contrários. A população humana tem sido consistentemente perturbada por rivalidades e conflitos étnicos e religiosos, que muitas vezes escalam para guerras civis e genocídios. O antagonismo racial na América, a história dos pogroms na Europa, a carnificina que se seguiu à dissolução da Jugoslávia, os inumeráveis conflitos étnicos em África, como, por exemplo, o massacre racial no Rwanda, mostram-nos a relevância que a pertença ao grupo tem na evolução da humanidade (Boyer, 2018).

Com a passagem do tempo e o desenvolvimento tecnológico e científico, acabaram por aparecer as coligações de agressão proativa (Wrangham, 2019), que culminaram em forças armadas com grande poderio bélico, as quais, quando comandadas por líderes autoritários, têm uma maior probabilidade de usar o seu potencial de destruição. Daí a apetência muito enraízada para nos alistarmos em agremiações, sejam religiosas, ideológicas, clubísticas ou outras. Somos animais sociais e isso implica que a nossa individualidade não pode permanecer isolada, necessita identificar-se com outras individualidades — as nossas mentes têm de interagir com outras mentes — e isso impele-nos à integração no grupo, satisfazendo o sentimento de pertença que nos é tão característico. Devido à predominância da vida coletiva na evolução humana, o sentimento de pertença ao grupo e os aspetos normativos dessa pertença tendem a ter precedência na nossa mente em relação às questões factuais (Gat, 2022). A individualidade e o pensamento livre surgiram muito mais tarde na evolução humana e não estão, por isso, tão enraízados nos nossos genes. É por isso que toda a luta humana é uma luta contra a natureza, sobretudo contra a nossa própria natureza. E é também por isso, que um extremista consegue entender outro extremista, mas dificilmente entenderá um liberal.

Isto é confirmado pela história e pelo que se passa no mundo, hoje. Hitler pactuou secretamente com Estaline para dividirem a Europa entre eles (Molotov-Ribbentrop); Putin, Lukashenko, Jinping, Jong-un e Khamenei dão-se todos bem, apesar de dois deles serem fascistas (ou nacional-populistas), dois serem comunistas e outro ser um teólogo autocrata. Basta ver as votações nas Nações Unidas para se perceber a convergência dos ditadores (incluindo alguns aspirantes a ditadores, como Trump ou Orbán). Em geral, estes ditadores têm como principal inimigo o que genericamente é designado por Ocidente, ou, em termos ideológicos, as democracias liberais.

O que acontece, muitas vezes, é que os Estados Unidos são confundidos como o expoente máximo deste tal Ocidente, mas os Estados Unidos, de acordo com o Índice da Democracia publicado por The Economist, entre outros estudos, são uma democracia imperfeita. Os países ocidentais socialmente mais desenvolvidos são as democracias liberais nórdicas (Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia) às quais poderíamos juntar outras democracias europeias, como a Suíça, os Países Baixos e a Irlanda, e, fora da Europa, países como o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia — os socialmente mais avançados, mais pacíficos e mais felizes do planeta. A prova final dessa superioridade social é a forma como as pessoas sem voz — doentes mentais, presos e idosos em fim de vida — são tratados nestes países: com a dignidade que merecem. (Um artigo nosso sobre esses países-modelo pode ser lido aqui).

No entanto, o ódio que muitas pessoas têm aos Estados Unidos leva-as a juntarem-se às ditaduras e a virarem-se não apenas contra os Estados Unidos mas contra a democracia liberal, que representa, em termos ideológicos, o grande inimigo desses regimes autoritários. Claro que os ditadores conhecem isto muito bem e exploram as fragilidades internas das democracias para as atacarem. É o que se passa com os exércitos de trolls, financiados por partidos políticos e até por países, como a Rússia (talvez a maior fábrica mundial de trolls) e a China, que alimentam o radicalismo nas redes sociais. Uma vez mentalmente radicalizado, o crente não procura a verdade, apenas busca a confirmação das suas convicções — e essas ele encontra por toda a parte. Em vez de modificarmos as nossas crenças à luz de novas informações, utilizamos as nossas crenças para julgar essas novas informações.9 O espírito crítico fica definitivamente obliterado. O homo da Idade da Pedra e o sapiens sapiens da internet patilham a mesma mentalidade tribal.

A votação por uma paz duradoura na Ucrânia mostra alguns dados curiosos. As principais ditaduras unem-se, como sempre. A China mantém a sua posição hipócrita de não querer comprometer-se, enquanto, na prática, apoia a Rússia. E Lula vota ao lado dos aspirantes a ditadores, Orbán e Trump.

4.2. Psicologia social

Alguns autores distinguem entre razão epistemológica — a necessidade de seguirmos a verdade — e a razão social — a necessidade de nos identificarmos com um grupo — sendo que, em conflito, a segunda geralmente prevalece sobre a primeira, ou seja, frequentemente, adaptamos a realidade à nossa ideologia e não o contrário (Fitoussi, 2025). É por isso que as ideologias mais radicais, sejam de esquerda ou de direita, são tão parecidas no ódio que sentem umas pelas outras.

E uma vez adotada uma ideologia, o custo social e psicológico de voltar atrás é muito elevado. A posição adotada condiciona a posição futura, e é por isso que a inteligência passa a ser usada para justificar a ideologia e não para procurar a verdade. Entra-se num círculo vicioso. A razão social prevalece e a lucidez é trocada pelo bem estar psicológico. Não é possivel ajustar a ideologia à realidade (por isso esta é tão diabolizada), então ajusta-se a realidade à ideologia. Karl Popper descreveu assim o processo pelo qual nos envolvemos mais e mais:

Uma vez que tenha sacrificado a sua consciência intelectual em relação a um ponto pouco importante, um indivíduo não quer ceder com demasiada facilidade; o indivíduo deseja justificar o auto-sacrifício convencendo-se da bondade fundamental da causa, que é vista como pesando mais do que qualquer pequeno compromisso moral ou intelectual que possa ser requerido. Com cada um desses sacrifícios morais ou intelectuais, o indivíduo fica cada vez mais profundamente envolvido, fica pronto a apoiar os seus investimentos morais ou intelectuais na causa com mais investimentos.10

Além dos mecanismos psicológicos sobre a cegueira ideológica, vários estudos sugerem que certas pessoas têm uma tendência natural para o autoritarismo. Uma psicóloga judia, fugida do nazismo, Else Frenkel-Brunswik, intrigada (como nós) com o que levaria as pessoas a se tornarem extremistas (ela estudava, sobretudo, os nazismo e fascismo), publicou, em conjunto com outros autores, no já longínquo ano de 1950, um livro que é uma referência incontornável na área da psicologia social — A Personalidade Autoritária. Nos seus estudos, Else descobriu várias clivagens interessantes entre crianças com personalidades autoritárias e crianças com personalidades liberais; descobriu que as crianças “liberais” eram mais flexíveis e adaptáveis à realidade do que as “autoritárias”. A personalidade autoritária é convencional, rígida e intolerante à ambiguidade.

Os estudos de Frenkel-Brunswik confirmaram o que o psicólogo nazi, Erich Ludolf Jaensch, já havia descoberto na década de 1930: algumas pessoas tinham as qualidades do alemão ideal e outras possuíam as características de uma pessoa que poderia constituir um perigo para o regime nazi. O tipo “J” era o de indivíduos cuja perceção era inequívoca, bem definida, firme, maquinal e integrada — eram indivíduos rígidos, masculinos, agressivos e membros fiáveis do Partido Nazi. Em contraste, Jaensch postulou um tipo “S” — indivíduos propensos à sinestesia, com tendências sensoriais mais soltas e fragmentadas, mais contaminados pelas emoções, liberais de todas as formas que os nazis detestavam.

No seguimento destes estudos, Leor Zmigrod, uma cientista da área da neurociência política, constatou, num estudo em Inglaterra com centenas de participantes, e, em 2016, noutro estudo que envolveu mais de 700 americanos, que os indivíduos mais extremistas, fossem de esquerda ou de direita, tinham uma flexibilidade mental diminuída quando lhes eram apresentadas tarefas que avaliam a adaptabilidade na perceção visual e em quebra-cabeças linguísticos. Ela descobriu ainda que os indivíduos mais radicais são extremamente confiantes quanto à certeza das suas opiniões. Isto reforça o que David Dunning e Justin Kruger descobriram em 1999: os indivíduos com classificações mais baixas em testes de conhecimento têm mais confiança nas provas realizadas do que os indivíduos que revelam maiores conhecimentos através desses mesmos testes11. Ou seja, os mais ignorantes são igualmente os mais convencidos. O neurocientista Dean Burnett sintetiza o fenómeno desta maneira:

Reconhecer as suas próprias limitações e as capacidades superiores dos outros é algo que requer inteligência. Daí haver pessoas que discutem acaloradamente com outras sobre assuntos dos quais não têm qualquer experiência direta, mesmo que a outra pessoa tenha estudado a matéria durante a vida inteira. O nosso cérebro só tem as nossas próprias experiências em que se basear, e os nosso pressupostos de referência são que toda a gente é igual a nós. Portanto, se formos idiotas…12

Além disso, investigações recentes com recurso a aparelhos de neuroimagiologia mostraram que as pessoas mais conservadoras tendem a ter a amígdala direita (fundamental na geração de emoções) maior do que as politicamente liberais. Outros estudos revelam que experiências traumáticas também podem causar radicalismo ideológico. E estudos sobre criminosos condenados por crimes com convicção ideológica — cometidos por extremistas de esquerda ou de direita e islamitas — mostram que muitos deles sofreram experiências de rejeição ou de fracasso — no trabalho, nas amizades ou em relacionamentos românticos (Zmigrod, 2025).

4.3. Filosofia do conhecimento (epistemologia)

De acordo com os filósofos e cientistas liberais, o conhecimento científico avança pondo em questão as teorias científicas estabelecidas, refutando-as. Pelo contrário, o “conhecimento” ideológico visa confirmar as próprias convicções, procurando a verificação e não a refutação das mesmas, não podendo, portanto, ser considerado científico. Pode parecer complicado, mas é bastante simples. É sempre possível melhorar uma teoria científica. Isto é óbvio porque é assim que a ciência avança. Pelo contrário, as ideologias radicais são dogmas, não são refutáveis — tal como uma religião não é refutável, é uma questão de fé — e, por isso, não são científicas.

Esse critério de demarcação começou a ser traçado em finais de 1919 por um jovem austríaco de 17 anos, desiludido com o marxismo, chamado Karl Popper. Popper começou a estudar a teoria marxista e percebeu que a pretensão científica do marxismo não passava disso mesmo: uma pretensão. Ele observou um antagonismo profundo entre, por exemplo, as atitudes de Marx e Einstein. Nas suas próprias palavras:

O que mais me impressionou foi a afirmação clara do próprio Einstein de que consideraria a sua teoria como indefensável se ela falhasse em certos testes. Assim, escreveu, por exemplo: “Se a deslocação para o vermelho das linhas espectrais devido ao potencial gravitacional não existir, então a teoria da relatividade geral será indefensável”. Aqui estava uma atitude completamente diferente da atitude dogmática de Marx, Freud, Adler, e ainda mais da dos seus seguidores. Einstein estava à procura de experiências cruciais, cuja concordância com as suas previsões de modo algum estabeleceria a sua teoria; ao passo que o desacordo, como foi o primeiro a sublinhar, mostraria que a sua teoria era indefensável. Esta, achei eu, era a verdadeira atitude científica. Era absolutamente diferente da atitude dogmática que constantemente proclamava ter encontrado “verificações” para as suas teorias favoritas. Assim, para o fim de 1919, cheguei à conclusão de que a atitude científica era a atitude crítica, que não procurava verificações mas testes cruciais; testes que pudessem refutar a teoria testada, embora nunca pudessem estabelecê-la.13

Alguns anos mais tarde Popper tinha desenvolvido completamente o seu critério de demarcação entre ciência e pseudociência, o qual publicou na obra de referência A Lógica da Descoberta Científica, em 1934. De acordo com esse critério, uma teoria científica tem de ser testável ou refutável ou falsificável. É isso que acontece nas ciências empíricas, mas não ocorre nas pseudociências, seja a interpretação marxista da História (vulgo, marxismo) a interpretação racista da História (vulgo, nazismo) ou a interpretação nacionalista (vulgo, fascismo). O critério de demarcação de Popper é reconhecido por um conjunto de cientistas que conhecem a sua obra (incluindo vários prémios Nobel), entre eles, Richard Feynman, John Eccles, David Deutch e Hermann Bondi, que afirmou: “Nada mais há para a ciência do que o seu método, e nada mais há para o seu método do que o que foi dito por Popper”.14

O desconhecimento do critério de demarcação leva muita gente a aceitar teorias falsas, sejam de esquerda ou de direita. Estas teorias são, em geral, populistas, com respostas simples e dogmáticas para problemas complexos, e são demasiadas vezes encaradas como uma revelação entre os fracos de espírito. Daí o fechamento em tribos, a que se assiste nos partidos mais extremistas, onde se procuram constantemente verificações em vez de refutações, mas também no comentário político e no fenómeno mais recente das redes sociais — sem dúvida, o principal centro de radicalização e polarização nas nossas sociedades atuais.

Do ponto de vista epistemológico, as ideologias radicais situam-se no campo religioso e não no campo científico, como (pelo menos, algumas) pretendem.15 O islamismo radical, com as suas componentes religiosa e ideológica é, quanto a isto, paradigmático. A fidelização ao grupo é mais uma característica (entre muitas outras) que as ideologias partilham com a religião. É preciso fazer sacríficios para demonstrar a fidelidade. E tal como nas religiões se pratica o jejum, se ora regularmente, se cumprem promessas ou se fazem peregrinações, o crente ideológico participa em manifestações, faz campanha, distribui propaganda ou ataca violentamente os adversários em debates. “Tal como a utilização de tatuagens distintivas no mundo do crime serve para impossibilitar que um indivíduo seja recrutado por outra rede mafiosa, certas declarações públicas são, acima de tudo, promessas de lealdade eterna a um clã”.16 O carácter religioso das ideologias radicais é algo há muito estudado, não restando dúvidas de que a mente ideológica é, no seu mecanismo, similar à mente religiosa. Estaline, por exemplo, encontrou no marxismo uma nova fé, logo após ter abandonado os estudos no seminário teológico de Tbilissi (Kershaw, 2022). A ostracização dos não-crentes é outra característica comum a religião e ideologia.

4.4. Ciência política

O que caracteriza a dicotomia verdadeira em ciência política, aflorada acima, a saber, a divergência entre visões democráticas e visões autoritárias, é que para as primeiras o mais importante são as instituições, enquanto para as segundas o mais importante são os indíviduos capazes de levar a cabo o que propõe determinada ideologia.

Para percebermos isto temos de recuar aos primórdios da ciência política e à questão primordial com que os teóricos se confrontavam e que era a seguinte: Quem deve governar? Claro que as respostas a esta pergunta dependem das ideologias. Platão disse que devem governar são os sábios (o filósofo-rei); Marx disse que a dinâmica da História catapultará a classe operária ao poder; e a resposta mais comum é que deve governar o povo.

O governo do povo denominou-se, na Grécia Antiga, democracia, mas é reconhecido que o povo nunca governou em lado nenhum porque, simplesmente, isso é uma impossibilidade. O povo só pode “governar” através de representantes que, tendo em conta estudos e inquéritos realizados ao longo do tempo, um pouco por todo o mundo — raramente se elevam acima da mediania, quer moral, quer intelectualmente. Assim sendo, a pergunta que se deve colocar é a seguinte: de que forma podemos livrar-nos, por meios pacíficos, de políticos nefastos? Esta questão evita confusões entre as definições (sempre improdutivas) de “democracia” (pois todos se consideram verdadeiros democratas) e consagra como resposta a democracia liberal, aquela onde ocorrem eleições e existe separação de poderes, imprensa livre e respeito pelos direitos humanos, incluindo os das minorias.

É por isso que as instituições são tão importantes para os democratas liberais, enquanto os pseudo-democratas populistas e autoritários tendem a admirar personalidades. A importância das instituições democráticas fica bem patente quando olhamos para alguns líderes autoritários — como Donald Trump, Viktor Orbán, Benjamin Netanyahu ou Jair Bolsonaro — todos eles aspirantes a ditadores, mas que podem ser (ou já foram) afastados do poder graças, precisamente, às instituições democráticas. Nada garante que escolhamos bons governantes em democracia; mas a democracia é o único regime que garante a possibilidade de corrigirmos o erro. O desconhecimento sobre o papel crucial das instituições democráticas é uma das razões que podem facilitar o surgimento de personalidades ideológicas.

4.5. Psicologia ambiental

A vida familiar, escolar e, em geral, social, a (des)informação recolhida, o percurso académico, os livros que se leem (ou não), tudo isso pode influenciar a tendência para o autoritarismo ou para o espírito liberal. E não basta os autores que rejeitam as ideologias totalitárias para se amar a democracia e a liberdade. Vários estudos indicam que uma educação familiar muito rígida pode gerar mentes igualmente rígidas, dogmáticas, ideológicas. E uma vez formada, uma mente ideológica dificilmente se deforma. As crises sociais, e a ocorrência de períodos significativos de pobreza, desemprego e desigualdade, ou de imigração em massa, quando a crise é no exterior, também radicalizam as pessoas, as quais se revoltam contra o sistema e contra os políticos democráticos (nas ditaduras as revoltas são reprimidas), sendo que esse descontentamento é naturalmente aproveitado pelos políticos populistas. As crises económicas são cíclicas e embora as suas consequências venham sendo minimizadas, com um crescente apoio dos governos, quem as sofre não quer saber disso.

Poder-se-ia pensar que tudo se resolveria com uma boa formação escolar e académica, afinal, é tudo uma questão de Educação. Sim, mas qual? Muitas das nossas universidades, sobretudo nas áreas sociológicas, são escolas ideológicas. Essa tradição é bastante antiga e remonta à primeira academia, fundada por Platão, como forma de difundir as suas ideias. A esmagadora maioria dos alunos destas universidades ficará, eventualmente para sempre, condicionada pela linha ideológica da sua escola. Isto acontece porque a necessidade de aceitação social é particularmente forte na adolescência e no início da fase adulta, bem como a necessidade de aceitação em grupos de amizade. Além disso, estes cursos nas áreas das ciências sociais nem sempre conduzem a empregos bem remunerados — o que gera, muitas vezes, ressentimento contra o sistema e radicalização —, e por isso muitos alunos optam por um percurso académico mais longo, no decurso do qual têm de produzir trabalhos que são avaliados por professores da linha ideológica da escola, e produzem artigos “científicos” que são avaliados pelos seus pares, igualmente formados na mesma linha ideológica. Entra-se num círculo vicioso que se autoalimenta, onde, entre a ideologia e a realidade, a primeira sai sempre vencedora. Por estranho que pareça, muitas universidades são verdadeiros “templos de irracionalidade”.17

Pode realmente parecer estranho para os mais incautos, mas se pensarmos que a revolta de muitos intelectuais — nomeadamente os que vamos analisar de seguida como precursores do wokismo — se dirigiu, precisamente, contra a razão, chegaremos à conclusão de que não há qualquer exagero em considerar um número significativo de universidades de estudos sociais como templos de irracionalidade. É a pura verdade.

4.6. Wokismo e reacionarismo — os extremos autoalimentam-se

Um dos fenómenos ideológicos mais debatidos, muito influenciado pela academia, é o chamado wokismo. Para entender este fenómeno temos de recuar um século, até 1923 e ao Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, na Alemanha, onde se encontraram vários intelectuais marxistas, desiludidos com a pouca adesão dos operários ocidentais à ideologia que defendiam. Estes intelectuais chegaram à conclusão de que a fraca adesão dos operários à teoria de Marx se devia ao domínio cultural exercido pelas instituições ocidentais onde viviam.18 Se o problema era cultural, a resposta tinha de ser cultural. Unindo marxismo e psicanálise, duas pseudociências então em voga (ver citação de Popper acima), os intelectuais daquela que anos mais tarde (anos 60) ficou conhecida como Escola de Frankfurt chegaram à conclusão de que as instituições culturais do Ocidente — família tradicional, moral sexual, educação, arte — funcionam como um mecanismo de dominação psicológica, forçando os trabalhadores a aceitar essa dominação como natural. O que era necessário, então, não era uma revolução económica violenta, mas uma revolução cultural gradual. Esta abordagem “filosófica” e sociológica ficou conhecida como Teoria Crítica, em homenagem a Max Horkheimer, que a apresentou pela primeira vez em 1937.

Assim começou o ataque às instituições culturais do Ocidente que culminou no wokismo — um ataque deveras eficaz, pois conduziu ao domínio da academia, da linguagem usada nos meios de comunicação tradicionais, da política cultural de governos e da forma politicamente correta como nós próprios devemos comunicar. Os intelectuais da Escola de Frankfurt tiveram que fugir da Alemanha após a ascenção de Hitler e refugiaram-se nos Estados Unidos. Em 1934, o Instituto de Pesquisa Social reabre em Nova Iorque, afiliado à Universidade de Columbia. Dez anos depois, Max Horkheimer e Theodor Adorno publicam Dialética do Esclarecimento. A sua tese fundamental é que a ilustração, o progresso, a razão e a ciência não libertaram a humanidade, antes a escravizaram. Herbert Marcuse, em 1955, publica Eros e Civilização, afirmando que a repressão sexual é a base do capitalismo, e advoga a libertação sexual total. Cria a Nova Esquerda e ensina política de identidade nas universidades americanas. Em 1964, Marcuse publica O Homem Unidimensional: a sociedade capitalista controla-nos com consumo, entretenimento, comodidade — pensamos ser livres, mas somos apenas escravos.

A única solução é a destruição completa do sistema cultural vigente. Marcuse torna-se o herói intelectual das revoltas estudantis de 1968: o Ocidente é opressivo; a família é a célula do fascismo capitalista; a moral tadicional é dominação. Entretanto, outro elemento da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin, justifica a morte da arte tradicional — a fealdade (honesta) passa a ser uma virtude enquanto a beleza (suspeita) é malvista, e o único critério estético é o da provocação. Nos anos 80 e 90 do século XX as ideias da teoria crítica são assimiladadas pelos pós-modernistas franceses (Foucault, Derrida, Lyotard), que as radicalizam. Michel Foucault afirma: “todo o conhecimento é poder”. Nos anos 90 surge a Teoria Crítica da Raça, advogando que a sociedade americana está estruturada para oprimir minorias raciais. Judith Butler afirma que o género de um indivíduo é uma criação social performativa e que o sexo biológico é uma construção social; não há mulher nem homem naturais, apenas papéis impostos pelo poder. Para Edward Said, professor de literatura da Universidade de Columbia, toda a cultura ocidental é imperialismo disfarçado. O Ocidente deveria envergonhar-se permanentemente da sua história.

Eis a origem histórica do wokismo, o seu percurso e o seu padrão claro — o ódio ao Ocidente. Não deixa de ser irónico que intelectuais fugidos de uma atroz ditadura totalitária, refugiados num país livre, tenham atacado de forma tão violenta e injustificada a própria liberdade. As suas ideias são um excelente exemplo do papel nocivo das ideologias radicais. As suas teorias não passam de dogmas, de pseudo-ciência, de formas insidiosas e engenhosas de construção de carreiras académicas. E têm como consequência o aumento exponencial, que se verifica um pouco por todo o lado, das contrapartidas de extrema-direita. De facto, nas universidades de ciências sociais não há liberdade, antes há temas proibidos, perguntas censuradas e autores malditos. O pensamento pseudo-científico, mas politicamente correto, é mais uma das formas pelas quais se condiciona a mente ideológica.

5. Conclusão

O futuro é aberto. Ninguém sabe se a radicalidade ideológica irá crescer ou diminuir, ou se passará por fases de crescimento e de decréscimo (o mais provável). A consequência mais importante da subsistência da radicalidade ideológica e da prevalência em largas zonas do globo do autoritarismo é a ausência de paz no mundo. Os estados democráticos têm medo dos estados autoritários e vice-versa, e por isso rearmam-se. A experiência da Guerra Fria mostra-nos como o medo impulsionou a corrida aos armamentos e como a corrida aos armamentos exponencia a capacidade de destruição dos estados (incluindo a capacidade nuclear).

Poderíamos esperar que, com o reforço de uma educação para a liberdade, com o passar do tempo, esse amor pela liberdade prevalece-se nos nossos genes. Mas o mais provável é que essa visão seja demasiado ingénua, pelo menos nos curto e médio prazos. Assim sendo, só nos resta defender a liberdade nos nossos países de tradição judaico-cristã, genericamente conhecidos, no seu conjunto, por Ocidente. Defender a liberdade significa lutar por ela todos os dias.19 O que está a acontecer nos Estados Unidos e na guerra da Rússia contra a Ucrânia (só para citar dois exemplos) lembra-nos que a democracia tanto pode implodir por dentro, como pode ser destruída por fora.

Provavelmente, a maioria dos cidadãos comuns das nossas sociedades, cujas tendências autoritárias analisámos acima, sentiriam a falta da liberdade a partir do momento em que a perdessem. As redes sociais onde alimentam a sua raiva deixariam de existir. No entanto, muitos não têm sequer noção desse perigo, outros terão mas não se importam — pois consideram a democracia liberal um sistema injusto e corrupto ou, simplesmente hipócrita — e outros, ainda, têm uma vida tão desoladora que nem sequer pensam nisso.

Independentemente destas considerações, os factos dizem-nos que vivemos, nas nossas sociedades ocidentais e capitalistas (para usar um termo do marxismo)20, no melhor mundo de sempre. Já nos referimos aos países socialmente mais desenvolvidos — os mais justos, igualitários e felizes; aqueles onde os que não têm voz são tratados com dignidade. Isso deveria bastar como prova definitiva, mas não é isso que acontece, graças às distorções ideológicas da realidade. Steven Pinker apelidou estas distorções de contrailuminismos, uma vez que foi o grande movimento iluminista — esse verdadeiro Renascimento político, depois do primeiro ensaio democrático realizado na Grécia Antiga — que nos conduziu, como já realçámos, às sociedades mais prósperas, progressistas e livres de sempre (Pinker, 2018).

Abramos os nossos olhos para o mundo belo que criámos — esse verdadeiro milagre da multiplicação — dos pães,21 dos cuidados de saúde, da água potável, dos transportes, das férias pagas, das aposentadorias, dos direitos humanos universais, da paz! (Sim, os países socialmente mais desenvolvidos são também os mais pacíficos). Isso não prova que as nossas sociedades sejam perfeitas, mas deveria alertar-nos para que só através delas podemos aspirar a sermos ainda melhores.

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Notas:

1 Saul Bellow, Jerusalém — Ida e Volta, Tinta da China, Lisboa, 2011 (ed. orig., 1976), p. 205.

2 Reinaldo Arenas, Antes que Anoiteça, Asa, Lisboa, Porto, 1993 (ed. orig. 1992), p. 273.

3 https://expresso.pt/guerra-ucrania/2026-01-01-valdai-a-pequena-versalhes-de-putin-como-e-o-palacio-isolado-que-moscovo-acusa-a-ucrania-de-ter-atacado-com-drones-a817bbaa

4https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/controversa-fortuna-de-kim-jong-un-o-36-homem-mais-poderoso-mundo.phtml

5https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/trump-aumentou-fortuna-pessoal-em-mais-de-mil-milhoes-de-euros-desde-que-comecou-o-segundo-mandato

6 https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/mansoes-em-londres-hoteis-de-luxo-e-contas-na-suica-o-imperio-do-novo-lider-supremo-do-irao#:~:text=Mans%C3%B5es%20em%20Londres%2C%20hot%C3%A9is%20de,supremo%20do%20Ir%C3%A3o%20%2D%20Dinheiro%20%2D%20S%C3%81BADO

7 https://observador.pt/programas/e-o-resto-e-historia/pol-pot-a-maior-maquina-de-matar-do-seculo-xx/

8 Não apenas odeiam, como, em muitos casos, sentem inveja do nosso sucesso. O caso islamista é paradigmático. A civilização islâmica foi na Idade Média a mais avançada e, curiosamente, uma das mais tolerantes. Quando perdeu esse protagonismo e o Ocidente conquistou a supremacia económica, científica, tecnológica e cultural, a reação islamista foi de negação. Ao contrário de países como a Coreia do Sul, o Japão e Singapura, com culturas diferentes da nossa, mas que adotaram rapidamente os nossos métodos económicos e prosperaram em poucos anos, os países islâmicos mais fundamentalistas fecharam-se em si próprios e refugiaram-se na suposta superioridade da sua cultura. Vivem no mundo de outrora, reforçam as tradições religiosas anacrónicas e diabolizam a cultura ocidental. Em vez de corrigirem os próprios erros, apontam os erros dos ocidentais, fomentando guerras religiosas que deveriam ter terminado há bastante tempo (Lewis, 2002). Esta atitude de culpar o Ocidente por tudo o que corre mal é típica dos inimigos das sociedades abertas.

9 Samuel Fitoussi, Porque se Enganam os Intelectuais, Bertrand, Lisboa, 2025, p. 131.

10 Karl Popper, Busca Inacabada – Uma autobiografia intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008 (ed. orig. 1974), p. 54.

11 O resultado deste estudo deu origem ao célebre Efeito Dunning-Kruger.

12 Dean Burnett, O Cérebro Idiota, Presença, Lisboa, 2017, p. 123.

13Karl Popper, ob. cit., p. 60.

14 Brian Magee, Popper, Fontana Press, London, 1985, p. 9.

15 Sobre o carácter religioso do marxismo, ver nosso artigo aqui

16 Samuel Fitoussi, ob. cit., p. 151.

17 Samuel Fitoussi, ob. cit., p. 89.

18 Antonio Gramsci, um intelectual italiano preso pela ditadura de Mussolini, já havia adiantado o conceito de “hegemonia cultural” nos seus Cadernos do Cárcere (iniciados em 1929).

19 Popper alertou-nos para este problema através da sua formulação do paradoxo da tolerância. Não podemos ser tolerantes com os intolerantes, sob pena de estes abolirem a própria tolerância. É por isso que muitos partidos e organizações extremistas, que defendem ideologias autoritárias, deveriam ser constitucionalmente ilegalizados.

20 Roger Scruton, em Against the Tide, pp. 19-20, interroga-nos sobre a propriedade de descrever as nossas sociedades como “capitalistas” e se, em vez disso, não seria mais esclarecedor descrevê-las como elas realmente são — democracias liberais.

21 Isto é literalmente verdade. O pai da Revolução Verde, Norman Borlaug, desenvolveu, na segunda metade do século XX, estirpes de trigo, milho e arroz com uma produtividade muito superior à dos seus antepassados. Isto combinado com novas técnicas de fertilização, irrigação e gestão de colheitas multiplicou a produtividade alimentar de forma exponencial, contrariando as anteriores previsões pessimistas de Malthus.

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Referências:

  • Applebaum, Anne, O Crepúsculo da Democracia — O Fracasso da Política e o Apelo Sedutor do Autoritarismo, Bertrand, Lisboa, 2022 (ed. orig., 2020).
  • Arenas, Reinaldo, Antes que Anoiteça, Edições Asa, Porto, 1993 (ed. ori., 1992).
  • Bellow, Saul, Jerusalém — Ida e Volta, Tinta da China, Lisboa, 2011 (ed. orig., 1976).
  • Boyer, Pascal, Minds Make Societies — How cognition explains the world humans create, Yale University Press, New Haven and London, 2018.
  • Burnett, Dean, O Cérebro Idiota, Presença, Lisboa, 2017.
  • Dillon, Michael, Xi — O que precisamos saber sobre o líder mais poderoso do mundo, Ideias de Ler, Lisboa, 2026 (ed. orig., 2024).
  • Fitoussi, Samuel, Porque se Enganam os Intelectuais, Bertrand, Lisboa, 2025.
  • Gat, Azar, Ideological Fixationfrom the stone age to today’s culture wars, Oxford University Press, New York, 2022.
  • Hayek, Friedrich, O Caminho da Servidão, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1990 (ed. ori., 1944).
  • Kasparov, Garry, O Inimigo que Vem do Frioa liderança de Putin e a grande ameaça à paz mundial, Clube do Autor, Lisboa, 2016 (ed. ori., 2015).
  • Kershaw, Ian, Personalidade e Poderconstrutores e demolidores da Europa Moderna, D. Quixote, Lisboa, 2022.
  • Lewis, Bernard, O Médio Oriente e o Ocidente — o que correu mal?, Gradiva, Lisboa, 2003 (ed. orig., 2002).
  • Magee, Bryan, Popper, Fontana Press, London, 1985 (ed. orig. 1973).
  • Molina, Hilda, Mi verdadde la revolución cubana al desencanto; la historia de una luchadora, Planeta, Buenos Aires, 2010.
  • Pinker, Steven, O Iluminismo Agora — em defesa da razão, ciência, humanismo e progresso, Presença, Lisboa, 2018.
  • Popper, Karl, Conjecturas e Refutações, Almedina, Lisboa, 2003 (ed. orig. 1963).
  • Popper, Karl, Unended Quest — An Intellectual Autobiography, Open Court, Illinois, 1985 (ed. orig. 1974).
  • Rallo, Juan Ramón, Liberalismo — Os 10 Princípios Fundamentais da Ordem Política Liberal, Presença, Lisboa, 2024.
  • Rees, Laurence, The Dark Charisma of Adolf Hitler — leading millions into the abyss, Ebury Press, London, 2012.
  • Sánchez, Juan Reinaldo, A Face Oculta de Fidel Castro, Planeta, Lisboa, 2014.
  • Scruton, Roger, Against the Tide, Bloomsbury, London, 2022.
  • Snyder, Timothy, Sobre a Tirania — Vinte Lições do Século XX, Relógio D’Água, Lisboa, 2017.
  • Wrangham, Richard, Goodness Paradoxhow evolution made us both more and less violent, Profile Books, London, 2019.
  • Zmigrod, Leor, O Cérebro Ideológicouma ciência radical das mentes suscetíveis, D. Quixote, Lisboa, 2025.

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A Festa do “Avante”

O marxismo é uma religião.

Apesar de algumas críticas, o Partido Comunista pretende levar a cabo, nestes tempos de pandemia, a sua “Festa do Avante”. A festa irá realizar-se e, face à reconhecida boa organização do partido, provavelmente irá correr bem. Para nós, a verdadeira questão não é essa. O que queremos salientar é o caráter religioso desta manifestação: o fervor comunista que faz com que as pessoas se dirijam ao Seixal como os católicos se dirigem a Fátima; e a fé, a esperança numa vida no paraíso, seja, no caso dos comunistas, na Terra ou, no caso dos católicos, no Céu. Para tal temos de enquadrar a “Festa do Avante” e a atuação do PCP nos contextos políticos nacional e internacional.

1- Não existe nenhum partido comunista (ou marxista), com o peso que o PCP tem em Portugal, no mundo socialmente desenvolvido. A representação que os partidos marxistas têm em países como a Noruega, a Suécia, a Finlândia, o Canadá, a Nova Zelândia, a Austrália, a Suíça, a Holanda, entre outros com os maiores índices de desenvolvimento humano, é meramente residual, entre 0% e 1%. Mesmo em Itália, onde tinha força considerável, o Partido Comunista (entretanto reformado, o que nunca aconteceu em Portugal com o PCP) praticamente desapareceu. Nesses países, o marxismo é uma ideologia anacrónica, estudada por alguns académicos e apoiada por alguns excêntricos. Em Portugal, o PC e o BE (partidos ideologicamente próximos e ambos de inspiração marxista) atingem em conjunto uns 15% de representatividade no parlamento português.

2- A causa principal desta representatividade remonta ao período fascista. A militância comunista é ainda, em larga medida, uma reação à ditadura salazarista. Os extremos alimentam-se e tendem a anular o espaço entre eles. É por isso que ainda é comum os comunistas considerarem aqueles que são do centro-direita, do centro, ou mesmo do centro-esquerda, de “fascistas”. Toda a gente sabe que um dos principais inimigos do PC, talvez o principal, é o PS, que segue invariavelmente, segundo os comunistas, uma “política de direita contrária aos interesses dos trabalhadores”. Muitos jovens de hoje, cujos pais ou outros familiares lutaram contra o fascismo, têm uma ligação emocional ao Partido Comunista, uma atitude em parte compreensível mas mais próxima da religião do que da racionalidade. A componente religiosa do marxismo é, aliás, algo bastante estudado e largamente documentado. Tal como há fações no interior das religiões que reclamam para o si o purismo da doutrina, também há inúmeros marxismos, cada um pretendendo ser o melhor intérprete da doutrina verdadeira.

3- O PCP não proferirá uma palavra para condenar os revoltantes atentados à liberdade perpetrados pelo ditador Lukashenko, que oprime o povo bielorusso, enquanto decorre a “Festa do Avante”. Para o PCP, todo o sofrimento causado pelos estados autoritários seus amigos é apenas um efeito secundário do medicamento — o marxismo — que promete curar a grande doença social: a desigualdade.

4- O valor social máximo de um marxista é, portanto, a igualdade. Para atingi-la, como a teoria antevê (ditadura do proletariado) e a história confirma, abdica da liberdade. Porém, acontece que as sociedades não-livres, incluindo as comunistas ou supostamente comunistas, são as mais desiguais da história, e as sociedades liberais são as menos desiguais (embora tenhamos muito a fazer para as tornar mais igualitárias). Isto é um facto. Perdida a liberdade, jamais alcançaremos a igualdade. Finalmente, privados de liberdade, sem sequer igualdade e muito menos prosperidade, perdemos tudo, tornamo-nos escravos dos ditadores: se nos revoltarmos, somos presos e, muito provavelmente, torturados ou mortos; se nos submetermos, transformamo-nos em autómatos, seres sem responsabilidade pelos próprios atos.

5- As modernas sociedades comunistas são, pois, as mais desiguais da história. Os ditadores comunistas, chamem-se Estaline, Ceausescu, Castro, Santos, Jong-un ou Jinping estão, ou estavam, durante os respetivos períodos de governação, entre os indivíduos mais ricos e com vidas mais sumptuosas do planeta. As suas riquezas, porém, ao contrário do que acontece com os empresários capitalistas, não resultam de uma atividade económica produtiva, antes do roubo que esses ditadores praticam sobre os seus próprios países e povos, onde impera a miséria.

6- A “Festa do Avante!” será assim, segundo a perspetiva comunista, mais um momento de “afirmação da grande capacidade do Partido”, um grande e inadiável evento cultural e político, uma oportunidade para mostrar, mais uma vez, os benefícios desse maravilhoso medicamento de largo espectro chamado marxismo. Um “covidezinho” aqui e outro ali, a acontecerem, mais não serão que manifestações de um efeito secundário irrelevante face à eficácia do tratamento que, embora alguns ainda não o saibam, nos irá salvar a todos.

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Foto retirada de: rtp.pt

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Darwin

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Darwin dedicou a vida toda à ciência.

A autobiografia de Darwin foi editada em Portugal, pela Relógio D’Água, em 2004. Escrito seis anos antes da sua morte, e dedicado aos filhos e netos, é um livrinho interessante, sincero, um balanço de vida. Lendo-o, descobrimos que Darwin foi um homem atreito a doenças, muito metódico, persistente e viajado, agnóstico, simples e modesto. Esta característica – a modéstia – foi mesmo a principal que retirámos da leitura do texto, para lá de muitas curiosidades. De facto, os intelectuais verdadeiramente grandes – pelo menos os que mais apreciamos – são todos modestos. Escreve Darwin: A minha capacidade de seguir um raciocínio longo e abstracto é muito limitada; por esta razão nunca poderia ter sido bem sucedido em metafísica ou matemática (…) a minha memória é tão fraca sob um certo aspecto que nunca fui capaz de me lembrar de uma data ou de um verso durante mais de alguns dias[1]. Vale a pena refletir. Darwin, um homem que privou e se correspondeu com os maiores intelectuais do seu tempo, venerado por muitos deles, não se tinha em grande conta (com capacidades tão moderadas como as minhas, é na verdade surpreendente que tenha assim influenciado de modo considerável as opiniões dos homens de ciência sobre alguns pontos importantes[2]) e o seu maior orgulho era o de ter tido pela ciência natural um amor invariável e ardente[3].

Um dos aspetos interessantes desta pequena autobiografia é, precisamente, a referência a inúmeras personalidades contemporâneas do autor, o que confere a este documento uma importância histórica (sobretudo, para a história da ciência) significativa. Por coincidência, hoje mesmo saiu um artigo na revista “E”, do semanário “Expresso”, da autoria de Francisco Louçã[4], onde este conhecido economista, político e comentador refere o “fascínio” que Marx e Engels, nutriam por Darwin, chegando Engels ao ponto de apresentar Marx como o Darwin das ciências sociais, para reforçar a sua reivindicação científica. Ainda de acordo com Louçã, Marx chegou a remeter a Darwin um exemplar do Capital (enviou, na mesma altura, outro exemplar a Spencer, acrescentamos nós), mas apenas obteve uma resposta polida, referindo que os assuntos tratados ultrapassavam o conhecimento do biólogo. Verifica-se, assim, que a admiração de Marx por Darwin não era recíproca. É isso que esta Autobiografia confirma: dos mais de cem nomes citados não consta o de Marx (nem o de Engels), apesar de o “Doutor Vermelho” ter convivido mais de 30 anos, no mesmo país (a Inglaterra), com o autor da Teoria da Evolução.

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Notas:

[1] P. 129.

[2] P. 134.

[3] P. 130.

[4] O título do artigo é “O Detetive que Queria Decifrar a Suprema Intriga”, edição 2367 da Revista do Expresso, de 10 de março de 2018. Na mesma edição saiu outro artigo sobre Marx e o marxismo, mais curto mas mais interessante que o de Louçã (muito mais independente e realista), da autoria de Luciano Amaral (professor-assistente da Nova School of Business & Economics), sob o título “Somos Todos Marxistas”.

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A nossa edição:

Charles Darwin, Autobiografia, Relógio D’Água, 2004.

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Foto retirada de: www.smithsonianmag.com

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O Centenário da Revolução Bolchevique

Comemoram-se um pouco por todo o mundo os cem anos da Revolução Russa de 1917, que se completam precisamente hoje, dia 7 de novembro (de acordo com o calendário gregoriano, que a Rússia só adotou em 1918). As análises publicadas sobre tão importante efeméride refletem inevitavelmente posições ideológicas vincadas, de acordo com o apoio ou a rejeição (é difícil um meio-termo), mais ou menos explícitos, à doutrina de Marx. Tendo em conta que através da revolução na Rússia, bem como noutros lugares, se procurou pôr em prática as ideias daquele sociólogo alemão, a nossa análise, aqui e agora, não se baseará exclusivamente numa perspetiva histórica (relatar o que aconteceu e, por vezes, divagar sobre o que poderia ter acontecido), como as que, em geral, têm sido veiculadas, mas também numa crítica ao materialismo dialético de Marx, base dos inúmeros marxismos que povoam a Esquerda Radical. Será uma crítica sintética, assente em dez pontos, como se segue.

  1. A teoria de Marx é uma profecia histórico-económica. Decreta o fim do capitalismo, mas esse fim nunca ocorreu nem se vislumbra como possa ocorrer. O máximo que se conseguiu foi a transferência dos meios de produção das mãos dos capitalistas para as mãos do novo poder instituído – o capitalismo de Estado.
  2. Dado que, de acordo com a teoria, o capitalismo não é mais do que uma etapa no processo histórico que culminará no comunismo, a sua eliminação só será possível se houver uma regressão no tempo. O fim do lucro, o fim do juro, o fim do dinheiro, o fim do comércio, o fim das trocas, e assim sucessivamente até à vida fechada da tribo. É isso que, precisamente, quer dizer “comunismo” – a integração da produção e do consumo, sem intermediários, no mesmo espaço fechado.
  3. Por isso (por não ser possível com um estalar de dedos voltar ao comunismo), Marx não tinha qualquer proposta económica para o tempo pós-revolução, para a vida dos operários após a conquista do poder: tudo teria de começar do zero. Por essa razão, Lenine não sabia o que fazer quando o poder lhe caiu nas mãos. Nada na teoria de Marx lhe indicava um caminho. Como o próprio Lenine admitiu, dificilmente se encontra na obra de Marx uma palavra sobre a economia do socialismo. Não admira, portanto, que, do ponto de vista económico, os regimes marxistas, um a um, tivessem falhado.
  4. A profecia de Marx aponta para o fim das classes, logo que a “classe operária” vença a burguesia (de acordo com a teoria de Marx todas as outras classes desaparecem) e tome o poder. Ora, não é logicamente possível provar que, após a vitória do proletariado, persista para sempre uma única classe e que, com ela, acabe a exploração. Será muito mais provável que se formem (ou se mantenham) sub-classes dentro da classe operária, (ou que outras classes, ou sub-classes, não sejam absorvidas por ela), com interesses diversos, que logo entrarão em conflito entre si. E, mais uma vez, teríamos de recuar no tempo, provavelmente até à época em que Marx viveu (ao contrário do que Marx previra a revolução não se deu num país onde o capitalismo estava desenvolvido, mas numa Rússia pouco industrializada), para que a revolução proletária fosse possível, uma vez que hoje, e mais ainda no futuro, o número de operários e a correspondente classe é (será) cada vez menor no mundo desenvolvido. As classes sociais estão em constante transformação. Mas, além do argumento lógico, há também o teste empírico: não ocorreu, de facto, o fim das classes, como prevê a teoria, após a revolução: antes se formou uma classe dirigente, com todos os privilégios, e uma massa enorme, sem privilégio algum. Portanto, a profecia do fim das classes também falhou.
  5. A teoria marxiana só pode ser entendida e explicável como uma resposta humanitária à subjugação terrível a que foi submetido o operariado daquele tempo (sobretudo mulheres e crianças), vítima de um capitalismo selvagem. É por isso, mais do que muitas outras, uma teoria datada. E apesar de ser uma resposta justa e humanitária, querer validá-la por “mil anos”, constitui, por si só, uma demonstração do espírito determinista, da inconsistência científica e da arrogância intelectual de Marx.
  6. Karl Marx e o seu amigo Engels concluíram que o Estado, através das instituições políticas, não seria capaz de reformar a sociedade e evitar que os operários fossem tratados como escravos. A única forma de libertar os trabalhadores do jugo capitalista seria a revolução, dado que a estrutura do Estado e o enquadramento legal eram controlados pela burguesia. Ora, o que aconteceu foi precisamente o contrário. As sociedades capitalistas foram capazes de reformar-se (criando, por exemplo, o welfare state)  e as sociedades revolucionárias transformaram-se em tiranias: repressão aos opositores e notória decadência social, com todo o tipo de carências materiais, mas sobretudo com a carência de liberdade.
  7. O foco exclusivo da filosofia marxiana nas questões económicas é claramente exorbitado. Segundo Marx, é a condição económica que determina quer a pertença a uma classe, quer a consciência dessa pertença. O próprio pensamento humano é, assim, condicionado pela consciência de classe. Acontece que, neste aspeto, pese embora o contributo para uma visão mais apurada sobre a importância da condição material da humanidade, o “economismo” de Marx é demasiado redutor. O pensamento humano, mais concretamente o pensamento social humano, não pode ser reduzido à consciência de classe, é muito mais do que isso. O altruísmo ou o egoísmo não dependem da consciência de classe. E é muito curioso observar que na Rússia revolucionária foi precisamente uma ideia – a crença no marxismo – que manteve o regime, uma vez que a miséria era mais que muita, contrariando, assim, mais uma vez, a teoria de Marx.
  8. O caráter profético da doutrina de Marx cria nos espíritos mais desavisados a ideia de inevitabilidade: se é certo que a revolução chegará (o que é legitimado pelo estatuto “científico” da teoria), nada mais resta do que tudo fazer para que chegue o mais depressa possível. Como é evidente, qualquer profecia histórica (e esta não foge à regra) tem um claro fundo religioso. E é o caráter religioso do marxismo que inevitavelmente o conduz a contradições internas – por uma lado é necessário lutar por uma melhoria da situação dos trabalhadores, mas por outro tem de se desejar o pior para precipitar a revolução – como se pode verificar pela atuação dos partidos marxistas de hoje, visível sobretudo nos países socialmente mais atrasados, uma vez que nos países desenvolvidos o peso específico do marxismo é cada vez menor (facto que, como vimos no ponto 4, mais uma vez, contradiz as previsões de Marx).
  9. Mas o efeito mais nefasto da profecia marxiana tem que ver com a forma como se dará a revolução. Há duas hipóteses: a) os trabalhadores podem simplesmente aproveitar o colapso da estrutura capitalista para tomarem o poder, que cairá de maduro, praticamente sem derramamento de sangue ou b) podem ter que precipitar uma revolução violenta. Marx não é claro sobre isto, e a sua ambiguidade permite todo o tipo de leituras. É, em grande parte, graças a esta ambiguidade que existem tantos marxismos (radicais e moderados), alguns adeptos ou, pelo menos, tolerantes face à violência. (Relacionado com isto está, evidentemente, a ideia de que só através da luta nas ruas se garantirão os direitos dos trabalhadores). A teoria de Marx, como outras teorias radicais, revela-se um claríssimo obstáculo à paz social.
  10. Marx não acreditava no poder político para transformar a sociedade. Para ele, o poder efetivo dependia da evolução das máquinas e do sistema das relações económicas de classe. É significativo que se comemorem os cem anos da revolução russa quando se realiza mais um congresso da Web Summit em Lisboa. Hoje também muitos falam do poder da tecnologia; em contraponto, caberá, aos que acreditam na política, impor o primado da política. É certo que vivemos um período histórico complicado (houve algum que não o fosse?). Tal como aconteceu no período da revolução industrial, também a revolução digital produzirá (já está produzindo) problemas sociais graves. Mas tal como a revolução industrial vingou, também vingará a revolução digital. Muitos reclamarão, certamente. Mas os países que mais rapidamente se adaptarem à nova era ganharão vantagem sobre os que não o fizerem. Que a humanidade seja capaz de fazer as reformas necessárias para enfrentar esta revolução tecnológica, sem necessidade (mesmo que seja uma necessidade meramente teórica) de recorrer a uma revolução política violenta. Que tenhamos aprendido alguma coisa com as tragédias desencadeadas pela revolução bolchevique de há cem anos.

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Foto retirada de marxismo.org.br.

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Democracia ou Tirania

Se começarmos a revolucionar a sociedade e a erradicar as suas tradições, não poderemos travar esse processo se e quando nos apetecer. Numa revolução tudo é questionado, incluindo os objetivos dos revolucionários bem intencionados – objetivos que se desenvolveram a partir – e que faziam necessariamente parte – da sociedade que a revolução destruiu. 

Algumas pessoas dizem que não se importam com isso; que o seu maior desejo é limpar completamente a tela – criar uma tábula rasa social e recomeçar do zero, pintando nela um sistema social absolutamente novo. Mas não deveriam ficar admirados se descobrissem que, em destruindo a tradição, a civilização desaparecia com ela. Eles iriam verificar que a Humanidade havia regressado à situação em que Adão e Eva começaram – ou, usando uma linguagem menos bíblica, que haviam regressado ao estado animalesco. Tudo o que esses progressistas revolucionários poderiam então fazer seria recomeçar o lento processo da evolução humana (e desse modo chegar, daqui a alguns milhares de anos, talvez, ao novo período de capitalismo que os conduziria a uma outra revolução radical, seguida de mais um regresso à condição animalesca, e assim sucessivamente, para todo o sempre). Por outras palavras, não há qualquer razão concebível para que uma sociedade cujo conjunto tradicional de valores tenha sido destruído se converta, de motu proprio, numa sociedade melhor (a menos que acreditemos em milagres políticos, ou esperemos que, uma vez desmantelada a conspiração dos diabólicos capitalistas, a sociedade tenda naturalmente a tornar-se bela e boa).

Os marxistas, claro está, não admitirão isto. Mas a ideia marxista, ou seja, a ideia de que a revolução social nos conduzirá a um mundo melhor, só é compreensível à luz dos pressupostos historicistas do marxismo. Se soubermos, com base numa profecia histórica, qual deverá ser o resultado da revolução social, e se soubermos que esse resultado será tudo aquilo por que ansiamos, nesse caso, então – mas nesse caso apenas – poderemos considerar que a revolução, com todo o seu indizível sofrimento, constitui um meio para alcançar o objetivo de uma indizível felicidade. Mas, com a eliminação da doutrina historicista, a teoria da revolução torna-se totalmente insustentável.

A ideia de que a revolução terá por tarefa livrar-nos da conspiração capitalista e, com ela, da oposição à reforma social, está muito disseminada. Mas é uma ideia insustentável, ainda que suponhamos, por um momento, que tal conspiração exista. Com efeito, uma revolução tem tendência a substituir os velhos senhores por novos senhores, e quem garante que esses novos irão ser melhores? A teoria da revolução ignora o aspeto mais importante da vida social: que aquilo de que necessitamos não é tanto de boas pessoas, mas de boas instituições. Mesmo o melhor dos homens pode ser corrompido pelo poder. Mas as instituições que permitam aos governados exercer algum controlo efetivo sobre os governantes forçarão até os maus de entre estes últimos a agir de acordo com o que os primeiros consideram ser os seus interesses. Ou, para pôr a questão de outro modo: nós gostaríamos de ter bons governantes, mas a experiência histórica demonstra-nos que não é provável que o obtenhamos. E é por isso que é tão importante criar instituições que impeçam mesmo os maus governantes de causar demasiado dano.

Existem apenas duas espécies de instituições governamentais: aquelas que permitem uma mudança de governo sem derramamento de sangue e as que não o permitem. Mas se o governo não puder ser mudado sem derramamento de sangue, não poderá, na maioria dos casos, ser destituído de modo nenhum. Não precisamos de discutir palavras, ou pseudo-problemas como o significado verdadeiro ou essencial da palavra “democracia”. Podemos escolher as designações que quisermos para os dois tipos de governo. Eu, pessoalmente, prefiro chamar “democracia” ao tipo de governo que pode ser afastado sem violência, e “tirania” ao outro. Mas, tal como disse, não se trata aqui de uma discussão de palavras, mas sim de uma importante distinção entre dois tipos de instituições.

Os marxistas foram ensinados a pensar não em termos de instituições, mas de classes. As classes, todavia, nunca governam, não mais do que as nações. Os governantes são sempre pessoas determinadas. E, seja qual for a classe de que são oriundos, quando chegam ao governo passam a pertencer à classe dirigente.

Os marxistas, hoje em dia, não pensam em termos de instituições. Depositam a sua fé em determinadas personalidades, ou talvez no facto de determinadas pessoas terem pertencido anteriormente ao proletariado – uma consequência da sua fé na importância predominante das classes e das lealdades de classe. Os racionalistas, pelo contrário, mostram-se mais inclinados a confiar nas instituições para controlar as pessoas. É esta a principal diferença.

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A nossa edição:

Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, Lisboa, 2003, pp. 458-460.

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O marxismo é uma religião irreformável

holodomor
A adaptação da realidade à ideologia é apenas um dos aspetos religiosos do marxismo.

É sabido que dos dois regimes totalitários do século XX, o estalinismo é o que está menos documentado. Estaline não só foi um criminoso sem escrúpulos, como procurou a todo o custo deturpar a História. Apesar disto, há factos que inúmeros testemunhos resgataram das trevas e nos permitem, cruzados com outras fontes de informação, ir conhecendo melhor, a cada dia, esse período tenebroso dos tempos soviéticos. Não é objetivo deste curto artigo apresentar bibliografia sobre o tema, até porque qualquer interessado pode encontrar imensa documentação numa simples pesquisa na internet. E, fora da rede (é sempre aconselhável não ficar “enredado”), todos os anos são publicados inúmeros livros e artigos sobre o assunto. É sabido, por exemplo, que graças à desastrosa política agrícola de Estaline morreram, vítimas da fome, milhões de pessoas. Na Ucrânia, uma das repúblicas mais afetadas, esse morticínio ficou conhecido por “Holodomor” (que etimologicamente quer dizer, precisamente, “morte pela fome”). Podem ver aqui um interessante documentário sobre esse massacre do início dos anos 30 do século passado.

Mas o que nos interessa neste artigo não é documentar Holodomor ou o estalinismo. O que nos propomos é evidenciar o caráter religioso do marxismo, algo que pode parecer surpreendente, mas que está identificado e estudado por vários historiadores e sociólogos, entre outros1. Mais: ao contrário de outras religiões, o marxismo é irreformável, pois alimenta-se de um radicalismo que, além de constituir uma das suas principais características, faz parte da sua identidade. Se hoje é praticamente impensável assistirmos a uma alta figura da Igreja negar, por exemplo, a Inquisição (vimos recentemente o Papa pedir desculpa pelas atrocidades cometidas pela Igreja Católica), o mesmo não se pode dizer de um marxista, como ficou patente, na presente semana, pela declaração no Parlamento de António Filipe, negando que o Holomor tenha existido (aqui). Tudo não terá passado de uma invenção da “extrema-direita ucrâniana” e “uma grosseira violação da verdade histórica”. Esta projeção típica dos marxistas, advém, precisamente, da sua atitude irracional e religiosa: reescrever a história, deturpá-la, negá-la, apagá-la nos aspetos que podem, na sua perspetiva, manchar a doutrina (na verdade, o dogma) marxista. Muitos se lembrarão ainda do que disse Bernardino Soares, outro membro do PCP, relativamente à Coreia do Norte: “Tenho dúvidas de que não haja lá uma democracia”.

Voltando à questão de Holodomor, vejamos o que acrescenta o ilustre deputado António Filipe. Segundo ele, as causas da fome na União Soviética e, particularmente, na Ucrânia, deveram-se “aos efeitos devastadores da crise económica mundial de 1929”, às “condições climatéricas extremamente adversas” e também a “conflitos gerados em torno das alterações verificadas na estrutura  da organização da propriedade fundiária” (bela frase!). É verdade que, embora existam provas a favor da tese de genocídio, não há um consenso absoluto entre os historiadores sobre esta matéria (há muita discussão em torno do conceito jurídico de “genocídio”); mas, apesar disso, ninguém minimamente honesto ousa negar a responsabilidade direta de Estaline na fome que atingiu não apenas a Ucrânia mas também o Cazaquistão, o Norte do Cáucaso e algumas regiões do Volga, entre outras. Essa fome foi o resultado da coletivização agrícola forçada (apropriação das terras por parte do Estado) e da perseguição (expropriação, deportação e assassinato) aos camponeses.

Poderemos ver através de uma busca rápida na internet um sem-número de blogues, sítios, portais, etc. onde se nega a responsabilidade de Moscovo sobre esses milhões de mortos. (Esta negação dos crimes de Estaline por parte dos marxistas mostra a ligação entre ambos, apesar dos esforços que muitos desenvolvem — como é o caso da historiadora Raquel Varela — para separá-los). Não admira. Outra vertente religiosa dos marxismos (sim, há muitos, mas os elementos apontados neste artigo são comuns a todos) é a propaganda e, associado a esta, o proselitismo. Procura-se por todos os meios arregimentar forças, deturpando a realidade se for preciso. Os marxistas não andam de porta-em-porta como as testemunhas de Jeová ou os mórmons, mas tal como eles têm uma “cassete”, sempre pronta a ser usada em comícios, manifestações, tempos de antena, etc. Qualquer discordância será sempre vista como sintoma de ignorância ou perversidade, pois a doutrina é a verdade e a salvação. Enquanto um homem livre estará disposto a aceitar ideias diferentes e, inclusive, estará disposto, se a tal o convencerem com argumentos, a alterar as que defende, o marxista jamais mudará as suas. Tal como os profetas, a missão dos marxistas é mostrar que existe um paraíso (a sociedade sem classes), e angariar para a sua causa o maior número possível de discípulos.

Mas o caráter religioso do marxismo não se revela apenas pelo negacionismo histórico e pelo proselitismo, longe disso. Um outro elemento, relacionado com estes, é a completa rejeição de responsabilidades, sempre que algo corre mal. Tal como em muitas religiões (veja-se o que acontece hoje com o islamismo radical), a culpa é dos infiéis, dos não-crentes (no caso do marxismo, os não-crentes são os “capitalistas”, a “direita”, a “burguesia”, o “grande capital”, o “imperialismo” e outras abstrações do género), ou seja, é sempre o inimigo quem é responsável pelos males do mundo e pelo insucesso das tentativas de erradicá-los. Ou então é porque a verdadeira doutrina não foi aplicada, houve um desvio, um percalço, um erro humano, porque o marxismo, esse, é certo e científico. O insucesso, quando não pode ser negado, transforma-se num castigo que resulta do desvio à doutrina, por não terem sido cumpridos os preceitos da ortodoxia, tal como alguém que, desviando-se dos ensinamentos dos evangelhos, sofre as inevitáveis consequências da heresia que cometeu.

Há ainda um outro elemento que já foi tratado por nós noutros artigos: a ideia de degenerescência. O mundo capitalista piora sempre. Será salvo apenas quando vivermos numa sociedade comunista, para a qual não há qualquer alternativa válida. (Tal como os judeus esperam o Messias, a humanidade espera o advento do comunismo: não se sabe quando virá, mas é certo e inevitável que virá um dia). As consequências disto são que: a) uma vez que o advento do comunismo é inevitável, não importa que tenha sido derrotado algumas vezes e que venha a sê-lo ainda algumas mais, pois, no final, ele vencerá; e b) o mundo capitalista piora a cada dia, mas isto não é apenas uma constatação, é também um desejo, pois só a destruição do capitalismo (seja de que maneira for: por implosão ou por revolução) permitirá  o regresso à pureza do comunismo, quando não existia propriedade privada, nem comércio, nem dinheiro, nem mais valia. Esta atitude do “quanto pior, melhor” já teve várias consequências trágicas. O exemplo mais conhecido foi o que se passou com a ascensão do nazismo: os marxistas não se lhe opuseram porque pensavam, precisamente, que quanto pior a Alemanha ficasse, tanto melhor para eles e para as suas hipóteses de implantarem o regime comunista. O resultado foi trágico, como se sabe.

O moralismo ideológico (confundindo ideologia com ética) é mais um dos elementos do marxismo. Consubstancia-se no ataque ao caráter dos adversários, e não numa crítica às suas ideias. (Quem estiver interessado em ler um artigo sobre o maior moralista português — José Saramago — pode fazê-lo aqui). Os capitalistas são maus porque são egoístas, exploram os trabalhadores, só pensam no lucro e não hesitam em subjugar outros povos. E não existe nenhuma gradação de capitalismo, não há capitalismo melhor ou pior, qualquer forma é igualmente malévola. Esta visão maniqueísta da sociedade é, evidentemente, outro dos elementos religiosos do marxismo: há os crentes e os hereges; nós e os outros; os bons e os maus. Claro que este radicalismo conduz facilmente ao ódio sobre os adversários — um ódio quantas vezes mascarado de amor (ver, por exemplo, o nosso artigo sobre Zizek aqui), pois baseia-se, assim creem os marxistas, na visão científica de um paraíso na terra. O “amor”, a palavra mais sedutora de qualquer vocabulário, serve frequentemente para camuflar embustes monumentais.

Já quando aplicado aos próprios marxistas, o moralismo transforma-se — deixa de ser maniqueísta e passa a ser relativo. Se, por exemplo, devido a uma ação revolucionária, há alguém inocente que morre, isso é considerado um dano colateral não condenável, porque a intenção era boa, plena de amor, e isso é que é importante. Eis o que disse Arthur Koestler, um judeu comunista, nascido na Hungria e naturalizado britânico, que, apesar de romper com o estalinismo, manteve esse sentimento nostálgico, e simultaneamente desastroso, de que as intenções são mais importantes que os resultados:

Nos anos 30, a conversão à fé comunista (…) foi a expressão sincera e espontânea de um otimismo nascido do desespero (…). Deixar-se atrair pela nova fé, penso-o ainda, foi um erro louvável. Estávamos enganados pelas boas razões; e continuo a acreditar que, apenas com algumas exceções (…) aqueles que, desde o início, denegriram a revolução russa o fizeram por motivos menos louváveis do que o nosso erro. Existe um mundo entre o amoroso desencantado e os seres incapazes de amar.

Ou seja: aqueles que não embarcaram na aventura comunista, que não sujaram as mãos com o sangue do povo inocente (e podem até ter estado entre o povo vítima do desvario comunista), eram incapazes de amar. E (só) os que amam podem ser desculpados do ódio porque esse ódio, afinal, brota do amor. Eis a posição (tipicamente hegeliana) de um marxista nostálgico (imagine-se, a partir dela, como será a de um marxista sonhador!)… Como se pode constatar, o marxismo tem muito mais de religião (aquilo que não quer ser, mas é) do que de ciência (aquilo que pretende ser, mas não é).

Uma teoria científica pode (e deve) ser testada, pois é confrontável com a realidade. Como disse Einstein, o espaço é o que se mede com uma régua, e o tempo é o que se mede com um relógio. Ora, o instrumento mais adequado para medir teorias sociais, a prazo, é a História. Mas quando os resultados da História não são agradáveis, os marxistas não reagem como cientistas (aceitando-os) mas como crentes (negando-os, deturpando-os ou desculpabilizando-os). É a aspiração científica que torna, ao contrário de outras, a religião marxista irreformável.

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Adenda:

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado em 1990 por dois economistas insuspeitos, preocupados com a pobreza e a injustiça social – Amartya Sen e Mahbud ul Haq. A partir de 1993, o IDH vem sendo usado pelo PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para elaboração do seu relatório anual. Em 2015 (último relatório divulgado – aqui), os dez países onde o IDH foi mais elevado foram os seguintes: 1º Noruega; 2º Austrália; 3º Suiça; 4º Dinamarca; 5º Holanda; 6º Alemanha; 7º Irlanda; 8º Estados Unidos; 9º Canadá; 10º Nova Zelândia. Destes dez países, o único que tem no seu parlamento deputados de um partido marxista é a Irlanda (3 dos 218 lugares das duas câmaras do país, ou seja, 1,4%); os restantes nove países não têm quaisquer deputados ou senadores marxistas nos seus parlamentos. Entre câmaras altas, baixas e únicas, estamos a falar de um universo de 2.991 representantes. Destes, apenas três são de um partido de inspiração marxista (formado em 1996 por Joe Higgins, que é ainda o seu líder – o Partido Socialista da Irlanda). Ou seja: os marxistas têm 0,1% de representatividade parlamentar no universo dos 10 países socialmente mais desenvolvidos do mundo. Ao que parece, há aqui uma tendência que podemos, talvez, resumir desta maneira: quanto mais desenvolvido é um país, menor é a representação marxista no seu parlamento.

Finalmente, sabemos que estes dados, e sobretudo a tendência que evidenciam, não impressionarão os brilhantes intelectuais da Esquerda extremista (que, como vimos, os deturparão, dissimularão ou desvalorizarão). Ainda assim, são reais.

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Notas:

1 Deixamos apenas duas citações ilustrativas da nossa afirmação.

1ª- “o comunismo, ao contrário do que sucede com os socialistas, apresenta-se como uma filosofia que é na realidade uma fé; e fé com dois aspectos: um para a acção imediata do revolucionário, o outro para sustentar uma futura sociedade. O único ponto fraco desta fé é o seguinte: é uma fé na vida em si, ou melhor, nos aspectos temporais e espaciais da vida, no que, por exemplo, vai em contradição com a própria ciência de que se socorre para os aproveitamentos técnicos, a qual, como se sabe, é cada vez menos temporal e menos espacial. Além de tudo nunca filosofia alguma foi mais frágil e, para falarmos francamente, mais absurda que a materialista em que os comunistas se apoiam. Mas é simples, compreensível e aí pode residir um dos seus elementos de vitória. Isto é, podemos ter de um momento para o outro uma sociedade comunista, economicamente certa, na medida em que for socialista, e não, como agora, um capitalismo de Estado, mas filosoficamente errada; e, para a Humanidade, o que está filosoficamente errado está vitalmente errado; quer dizer: condenado à morte” (Agostinho da Silva, “Textos e Ensaios Filosóficos II”, Âncora Editora, Lisboa, 1999, p. 91).

2ª- “Parece que Engels estava preparado para tolerar a intolerância e ortodoxia dos marxistas. No seu Prefácio à primeira tradução inglesa do Capital escreve (cf. Cap., 886) que esse livro “é muitas vezes chamado, no Continente, a Bíblia da classe trabalhadora”. E em vez de protestar contra um qualificativo que converte o socialismo “científico” numa religião, Engels vai demonstrar, nos seus comentários, que o Capital merece esse título, porquanto “as conclusões a que se chega nessa obra, estão cada vez mais a converter-se nos princípios fundamentais do grande movimento das classes trabalhadoras” em todo o mundo. A partir daqui basta um passo para a perseguição aos herejes e a excomunhão dos que conservarem o espírito crítico, isto é, científico. O mesmo espírito que um dia inspirou Engels, assim como Marx”. (Karl Popper, “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 316).

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ilustração retirada de: Euromaidan Press.

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Pós-escrito (1986) à Autobiografia Intelectual de Popper

Foi-me pedido pelos editores deste livro que escrevesse um curto pós-escrito, e foi posta a questão de saber se ainda penso como pensava quando escrevi originalmente o livro em 1969 e quando disse (na página 176) que sou o filósofo mais feliz que conheci.

A questão refere-se ao meu otimismo, à minha crença em que vivemos num mundo maravilhoso. Esta minha crença não fez mais que reforçar-se com o tempo. Sei bem que há muita coisa errada na nossa sociedade ocidental. Mas ainda não tenho dúvidas de que ela é a melhor que alguma vez existiu. E muito do que está errado é devido ao facto de ser dominada pela religião. Refiro-me à crença religiosa dominante de que o mundo social em que vivemos é uma espécie de inferno. Esta religião é difundida pelos intelectuais, em especial os que têm como profissão o ensino, e pelos meios de comunicação. Há quase uma competição pela condenação e ruína: quanto mais radicalmente se condena a nossa sociedade ocidental, maior parece a possibilidade de se ser ouvido (e talvez, de desempenhar um papel de primeiro plano nela).

De mãos dadas com esta propaganda, de acordo com a qual as nossas democracias liberais ocidentais estão condenadas, está a crença, partilhada por muitos intelectuais, de que o marxismo é uma ciência, e que podemos “saber”, graças ao poder preditivo da ciência, que o credo marxista acabará por sair vitorioso. E a inevitabilidade da vitória do comunismo implica que o Ocidente deveria simplesmente render-se em vez de tentar – em vão, claro! – resistir à inexorável propagação do comunismo através do uso da força militar. De modo que seria o Ocidente o único responsável por uma guerra atómica. Deste modo, o Ocidente é visto como um terrível monstro que ameaça o mundo, numa tentativa sem sentido de impedir o advento do paraíso comunista na terra.

Os intelectuais são, com razão, progressistas; mas o progresso não é fácil de alcançar, e o mero progressivismo é perigoso, visto que pode levar facilmente a decisões erradas. Voltando-se para o marxismo como um programa progressivo e vendo-o refutado, os intelectuais tornaram-se ainda mais radicais. Porque descobriram que podem conservar o seu credo marxista se responsabilizarem a resistência ao marxismo dos Estados “capitalistas” (ou seja, não marxistas) pelo facto do marxismo ser tão mal sucedido. (Por exemplo, muitos podem pensar que foi essa resistência que forçou a União Soviética a gastar tanto dos seus recursos em armamentos).

O sonho de uma utopia marxista e de um radicalismo utópico e o ódio pelo Ocidente não marxista levou a coisas como o apoio à violência e a afirmação de que liberdade no Ocidente está presentemente ligada ao industrialismo, como forma escondida do totalitarismo, e , portanto, ainda pior do que qualquer forma manifesta do totalitarismo. Esta é a roupagem moderna de uma doutrina política característica dos comunistas ocidentais, que encontrei pela primeira vez em 1919: a política do “quanto pior, melhor” (para as oportunidades do comunismo).

Parece-me que há apenas uma coisa que podemos aprender com os russos: dizem ao seu povo que está a viver na melhor sociedade de sempre.

Qualquer pessoa que esteja preparada para comparar seriamente a nossa vida nas democracias liberais ocidentais com a vida noutras sociedades será forçada a concordar que temos na Europa e na América do Norte, na Austrália e na Nova Zelândia, as melhores sociedades e as mais igualitárias que alguma vez existiram no decurso da história humana. Não só há muito poucas pessoas que sofrem agudamente de falta de alimentos ou falta de alojamento, mas há infinitamente mais oportunidades para os jovens escolherem o seu próprio futuro. Há uma pletora de possibilidades para os que desejam aprender, e para os que desejam divertir-se de várias maneiras. Mas talvez o mais importante é que estamos preparados para dar ouvidos a críticas informadas e ficamos certamente felizes se forem feitas sugestões razoáveis para o melhoramento da nossa sociedade. Porque a nossa sociedade não só está aberta à reforma, como está ansiosa por reformar-se.

Apesar de tudo isto, a propaganda a favor do mito de que vivemos num mundo horrível tem tido sucesso.

Abram os olhos e vejam como é belo o mundo, e como temos sorte, nós, os que estamos vivos!

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A nossa edição:

Karl Popper, Busca Inacabada – Autobiografia Intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008, pp. 273-5

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Um Encontro com o Marxismo

Mantive-me socialista durante vários anos, mesmo depois de ter rejeitado o marxismo; e se pudesse haver um socialismo combinado com liberdade individual, ainda seria socialista. Porque nada poderia ser melhor do que viver uma vida modesta, simples e livre numa sociedade igualitária. Passou-se algum tempo até eu reconhecer que isto não era mais que um belo sonho, que a tentativa para alcançar a igualdade põe em perigo a liberdade e que, perdida a liberdade, nem sequer entre os não-livres haverá igualdade.

O encontro com o marxismo foi um dos acontecimentos mais importantes do meu desenvolvimento intelectual. Ensinou-me uma porção de lições que jamais esqueci. Mostrou-me a sabedoria do dito socrático, “Sei que nada sei”. Tornou-me um falibilista e inculcou em mim o valor da humildade intelectual. E tornou-me mais consciente das diferenças entre pensamento dogmático e pensamento crítico.

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A nossa edição:

Karl Popper, Busca Inacabada — Autobiografia Intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008, pp. 57-8.

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O Capital – Livros I e II

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Os dois primeiros livros de O Capital, publicados pela editora brasileira Boitempo.

Não se pode compreender a fundo “O Capital” de Marx, especialmente o primeiro capítulo, sem o paciente estudo e assimilação de toda a “Lógica” de Hegel. Consequência disto é que, depois de meio século, não se conhece um só marxista capaz de compreender Marx1.

Lenine

1- A PROBLEMÁTICA DAS EDIÇÕES D’O CAPITAL

O Capital (cujo título completo é O Capital: Crítica da Economia Política 2 é uma obra monumental, dividida em quatro volumes. Marx trabalhou cerca de vinte anos na sua construção, e apenas o Livro I – O Processo de Formação do Capital 3 – foi, em 1867, na Alemanha, editado por ele4. Só depois de Marx ter morrido (em 1883), é que Engels editou os livros II e III, respetivamente, em 1885 e 1894. O último volume (Livro IV) só foi publicado após a morte de Engels (1820-1895), em 1905, numa edição de Kautsky.

Para lá da extensão, O Capital é igualmente uma obra complexa. A sua organização constituiu um grande problema. Os manuscritos que Marx deixou tiveram que ser interpretados, ordenados e estruturados para, com base neles, Engels editar os livros II e III5. No entanto, Engels não se limitou a esse papel escrutinador. “Em seu árduo trabalho editorial, ele também entendeu ser necessário preencher diversas lacunas no corpo do texto marxiano, estabelecendo conexões e desenvolvendo pontos que julgava não estarem suficientemente explicitados”6, de tal forma que alguns estudiosos da obra, sustentados em investigações recentes, chegam a admitir que a autoria dos livros II e III deveria ser atribuída a Friedrich Engels e não a Karl Marx 7.

Porém, Engels jamais aceitaria essa autoria. A sua fidelidade a Marx foi total. Engels dedicou-se, após a morte de Marx, à obra essencial do amigo, deixando para segundo plano, ou mesmo abandonando, os seus projetos pessoais (apesar de ainda ter publicado um livro de sua autoria)8. Este grande trabalho de Engels foi muito importante e continua, hoje, praticamente desconhecido do grande público. E foi também um trabalho ingrato: os manuscritos deixados por Marx sobreviveram até à atualidade9 e têm sido alvo de um minucioso escrutínio por parte de especialistas, muitos dos quais apontam erros substanciais ao trabalho do pobre Engels. Isto seria sempre inevitável, e só o facto de Engels se ter sujeitado a críticas que (ele sabia) iriam durar muito para lá da sua vida, já prova a extraordinária amizade que o ligava a Marx.

2- ENQUADRAMENTO HISTÓRICO-SOCIAL D´O CAPITAL

O Capital é uma obra de Economia que deve ser encarada sob um ponto de vista mais amplo. É esta, aliás, a perspetiva do próprio Marx, que reclama um enquadramento histórico do capitalismo, sem o qual este dificilmente será compreendido. Aliás, segundo ele, o indivíduo não é mais do que uma peça na engrenagem do imparável processo histórico10, sendo inútil qualquer tentativa para contrariar esse processo. Este aspeto de O Capital é muito importante, pois revela que a obra essencial do marxismo não pode ser desligada do contexto histórico nem, sobretudo, de uma visão político-social, defendida por Marx e Engels, que podemos apelidar de historicista11. Por outras palavras, o processo histórico da luta de classes, tal como Marx o desvendou, teve um início, um meio (a época de capitalismo selvagem em que Marx viveu) e teria um fim com o advento da sociedade socialista, e a tomada do poder pelo proletariado.

A teoria histórica de Marx desenvolve-se em três fases: a) análise das forças económicas do capitalismo e a sua influência sobre as relações entre as classes (O Capital trata apenas deste ponto); b) a inevitabilidade da revolução; c) a emergência da sociedade sem classes12. É a partir da análise realizada em O Capital (alínea a) que Marx retira as conclusões (erradas) das alíneas b) e c). De uma análise sobre o presente e o passado, Marx retira conclusões ousadas para o futuro; a partir de um conhecimento empírico, factual, histórico, Marx deduz o futuro, o qual nunca pode ser empírico, factual nem, obviamente, histórico. É por isso, que a teoria marxiana falha.

A previsão de Marx, e dos teóricos marxistas, era que o colapso do capitalismo e a tomada do poder pela classe operária ocorreria primeiro nos países onde o capitalismo estivesse mais desenvolvido. Ora, isso não aconteceu nem se vislumbra onde tal possa acontecer. Pelo contrário, as revoluções operárias (ou em nome dos operários e camponeses) realizaram-se em países pouco desenvolvidos do ponto de vista capitalista e foram impostas de forma violenta às populações. Mais: económica e socialmente, foram um desastre. Os marxistas usam normalmente dois tipos de “argumentos” para justificarem o fiasco que resultou dos governos comunistas: não estavam reunidas as “condições objetivas” ou, por outro lado, não existiram “condições políticas” (em geral, por inépcia dos governantes) para implementar a verdadeira doutrina comunista. Em suma: tudo o que possa correr mal não pode decorrer da teoria marxista, porque esta está correta, mas de algum fator externo.

Nós, porém, temos duas justificações diferentes, uma decorrente da doutrina de Marx, outra derivada dos marxismos. Pelo lado do próprio Marx, este quis que a sua doutrina fosse científica e materialista, procurou limpá-la da especulação filosófica (como ele próprio disse: “não basta interpretar o mundo, é preciso mudá-lo”). Marx pensou erradamente que o comportamento humano seria linearmente determinado pelo processo histórico, pelo condicionamento económico e social. Tinha uma visão determinista, possuía conhecimentos de Economia e de História, mas fraco entendimento de Psicologia; conhecia mal o género humano: sobretudo o seu apego à liberdade. Isso conduziu-o ao historicismo. Por seu turno, os marxistas confundiram intenções com realidade. Se a intenção é boa, o resultado deverá ser igualmente bom, pensaram eles. Se algo falha, a culpa não é, naturalmente, de quem é bem-intencionado… Ora, esta confusão revelar-se-ia um erro fatal; um erro associado a morte e a sofrimento; um erro que – embora residual nas sociedades mais avançadas de hoje – ainda persiste.

3- CONTEÚDO D’ O CAPITAL

Já nos referimos à extensão e ao detalhe desta obra de referência, uma das mais famosas de sempre. O Capital não é, de forma alguma, uma obra fácil. Louis Althusser13, um marxista francês, avisa, em “Advertência aos leitores do Livro I d’O Capital“, que, “para ser compreendido, o Livro I precisa ser relido quatro ou cinco vezes consecutivas”14. Não seguimos o aviso de Althusser: lemos o Livro I, e também o Livro II, apenas uma vez. Isso não nos impediu – nem deve impedir ninguém – de emitir opinião sobre uma obra em que, apesar dos detalhe e minúcia, transparece de forma bem clara a intenção de seu autor: denegrir o sistema capitalista, denunciando aquilo que ele considera ser o seu caráter iníquo.

Marx viveu numa época em que o capitalismo selvagem, sem regras, proliferava na Europa, sobretudo em Inglaterra, fruto da Revolução Industrial. Foi uma época chocante, com horários de trabalho desumanos, condições degradantes, trabalho infantil, abuso do trabalho feminino, salários miseráveis, direitos sociais praticamente inexistentes. Marx indignou-se, justamente, com esta situação. Procurou as causas, o modus operandi do sistema capitalista. Tal como os economistas burgueses, que não fizeram mais do que “traduzir, sistematizar e fazer a apologia doutrinária das ideias dos agentes dessa produção (capitalista), presos às relações burguesas de produção”15, também Marx não fez mais do que tomar em mãos a apologia dos interesses dos trabalhadores, mostrando como estes são explorados e precisam revoltar-se para derrotarem os capitalistas.

No Livro I, Marx mostra-nos como se dá essa exploração. Ele mostra que cada época tem, do ponto de vista económico, o seu modo de produção – é este que caracteriza e define cada época histórica. Quando as sociedades humanas viviam ainda fechadas, toda a produção era consumida no seio da tribo, não havia troca, nem comércio16, nem dinheiro, tudo isso apareceu mais tarde, com o desenvolvimento técnico, particularmente dos transportes. No modelo económico que antecedeu o capitalismo – o feudalismo – o senhor feudal detinha os meios de produção, nos quais se incluía a força de trabalho do servo. E foi apenas com o surgimento da sociedade burguesa, quando o servo conquistou a liberdade e passou a poder vender a sua força de trabalho, tornando-se um assalariado, que surgiu, verdadeiramente, o capitalismo. O capitalista passou a ser o detentor dos meios de produção: a) o capital constante (matérias-primas terrenos, maquinaria, etc) e b) o capital variável (a força de trabalho).

É neste momento que surge o ponto crucial da “lei” de Marx – a teoria da mais-valia. Só existe capitalismo porque no ciclo de produção e circulação se estabelece uma mais-valia; e só existe mais-valia porque existe o trabalhador livre, portador da força de trabalho. É usando a força de trabalho em seu benefício (explorando-a) que o capitalista cria a mais-valia, aquilo que os ricardianos apelidavam de lucro. Isto acontece porque a força de trabalho – que, como qualquer outra mercadoria, deveria ser comprada pelo seu valor17 (o tempo de trabalho necessário), no caso, o tempo necessário à produção dos meios de subsistência do próprio trabalhador  – é usada pelo capitalista muito para lá do necessário. Se, por exemplo, o tempo de trabalho que cobre as necessidades de subsistência do trabalhador for de 6 horas e a jornada de trabalho imposta ao assalariado for de 12 horas (como foi durante bastante tempo), as restantes 6 horas constituem uma mais-valia, capital que pode metamorfosear-se em vários tipos, como o capital-monetário18, o capital-mercadoria ou o capital produtivo. Esta é a questão fulcral de O Capital.

A nova teoria económica de Marx, baseada na mais-valia, corta com a chamada corrente da Economia Política, cujos representantes maiores são Adam Smith e David Ricardo, sobretudo em dois aspetos. Em primeiro lugar, ao introduzir o próprio conceito de mais-valia. Enquanto aqueles economistas se referem a “lucro”, ou seja, a uma dedução ao salário que é adiantado pelo capitalista ao trabalhador, considerada equivalente à parcela de trabalho que este adiciona à matéria-prima, Marx vem dizer  que essa dedução corresponde a trabalho excedente, a uma parte não remunerada do trabalho, ou seja, a uma mais-valia, que deve constituir, segundo Marx, uma categoria própria – e muito importante – de qualquer teoria económica. Em segundo lugar, Marx introduz o importantíssimo conceito de “força de trabalho”. Esta força de trabalho é portadora de um valor específico – como “a gravidade pode ter um peso especial, o calor uma temperatura especial, ou a eletricidade uma voltagem especial”19 – e não um valor que não é rigoroso, tal como o que está incluído no conceito simples, e anterior a Marx, de “trabalho”. É o conceito específico de força de trabalho que nos permite avaliar o valor do trabalho incorporado numa mercadoria (o trabalho socialmente necessário para a sua produção e reprodução) e, simultaneamente, nos permite avaliar com rigor o valor apropriado pelo capitalista como mais-valia (ou mais -valor).

Evidentemente, isto passa-se na época da Revolução Industrial, pelo que o capital dessa época se designa por “capital industrial”, e é este que Marx analisa nas suas fases de produção e circulação, as quais estão intimamente ligadas e formam uma unidade20. Esta unidade também pode ser chamada de “capital total”. Neste ciclo maior, o capital transforma-se sucessivamente em capital-mercadoria, capital-monetário e capital-produtivo (cada um deles com seu ciclo especifico e todos interligados) num processo contínuo que se reproduz indefinidamente. O mais óbvio destes ciclos menores é, aparentemente, o capital-monetário porque, de acordo com Marx, a sua “finalidade e motivo propulsor – a valorização do valor, o ato de fazer dinheiro e a acumulação – apresentam-se aqui numa forma evidente (comprar para vender mais caro)”21.

Não vamos entrar em detalhes sobre o que se passa em cada ciclo, nem decompor outros conceitos importantes da teoria económica de Marx. Limitamo-nos, modestamente, ao essencial, tendo o cuidado de relembrar que este artigo se refere “apenas” aos livros I e II de O Capital. Há que reconhecer muito mérito a Marx. Para lá da nova perspetiva que introduziu sob o ponto de vista económico, Marx produziu igualmente uma obra erudita, sob os pontos de vista histórico, social e, pelo menos no Livro I, até literário.

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Notas:

1 Lenine citado em “Os Pêssegos Verdes”, de Augusto Meyer, Edição da Academia Brasileira de Letras, 2002.

2 No desenvolvimento do presente trabalho adotaremos sempre o título abreviado, aquele, aliás, pelo qual a principal obra de Marx (e Engels) foi popularizada : O Capital.

3 Livro II- O Processo de Circulação do Capital; Livro III- O Processo Total da Produção Capitalista; Livro IV- Teorias do Mais-Valor.

4 Marx nasceu em Trier, no sudoeste da Alemanha (Renânia), a 5 de maio de 1818, e faleceu em Londres, a 14 de março de 1883.

4 O Livro I é composto de textos escritos por Marx entre 1866 e 1875; o Livro II, de textos surgidos entre 1868 e 1881; o Livro III, de um manuscrito redigido em 1864-1865.

5 O Capital- Crítica da Economia Politica, Livro II- O Processo de Circulação do Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, Nota da Tradução (Rubens Enderle), p. 14.

6 Isso mesmo nos diz David Harvey em Para entender O Capital: Livros II e III, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, p. 15.

8 A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado. Temos  Uma edição brasileira desta obra. Lafonte, São Paulo, onde Engels não esconde o seu fascínio pelos tempos tribais, quando não existiam ainda as instituições que figuram no título do seu último livro.

9 Manuscritos que foram classificados em grandes grupos, denominados Manuscrito I, II, III… até VIII.

10Meu ponto de vista, que apreende o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode menos do que qualquer outro responsabilizar o indivíduo por relações das quais ele continua a ser socialmente uma criatura, por mais que, subjetivamente, ele possa se colocar acima delas” (Prefácio da 1ª edição de O Capital, escrito por Karl Marx, ob. cit., Livro I, p. 80).

11 Empregamos aqui o termo “historicismo” no sentido popperiano. Neste sentido, uma teoria historicista caracteriza-se por prever (ou determinar) o futuro da sociedade. Para Marx, essa sociedade futura seria dominada pela classe operária. Ainda no jargão popperiano, trata-se de uma teoria (social) “fechada”. Para Popper, o futuro é aberto, indeterminável. Daí o título da sua obra, de 1945, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, tratada em artigo deste blogue, que pode ser lido aqui.

12 Estas fases foram (bem) definidas por Karl Popper (A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 136). 

13 Louis Althusser (1918-1990), filósofo marxista, foi professor da École Normale Supérieure de Paris. Em 1980, imagine-se, matou a mulher por estrangulamento.

14O Capital- Crítica da Economia Politica, Livro I – O Processo de Produção de Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2013, p. 44.

15 O Capital- Crítica da Economia Política, Livro II – O Processo de Circulação do Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, p. 99.

16 “A circulação de mercadorias é o ponto de partida do capital”. (Livro I, p. 223).

17 É muito importante perceber que qualquer mercadoria só tem valor porque tem trabalho associado. A força de trabalho tornou-se, com o capitalismo, ela própria, uma mercadoria.

18 O dinheiro que não é investido não pode ser considerado capital.

19 Livro II, p. 99 (Prefácio da primeira edição, escrito por Engels).

20 “processo inteiro apresenta-se como unidade do processo de produção e do processo de circulação; o processo de produção torna-se mediador do processo de circulação, e vice-versa” (Livro II, p.179). 

21 Livro II, p. 138.

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As nossas edições:

  • Karl Marx, O Capital – Crítica da Economia Politica, Livro I – O Processo de Produção de Capital, Editorial Boitempo, São Paulo, 2013.
  • Karl Marx, O Capital – Crítica da Economia Politica, Livro II – O Processo de Circulação do Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014.

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Porque deixei de ser marxista

Marx contou sempre com o apoio de Engels para o seu projeto.

Não me recordo exatamente em qual dia, mas foi numa data importante, numa noite em que o Partido Comunista encheu o Campo Pequeno. Eu deveria ter 17 ou 18 anos, no máximo, foi em 1975 ou 1976. Um amigo, bastante mais velho, com quem conversava, regular e apaixonadamente, sobre a política efervescente da época, militante do PCP, levou-me com ele. Lembro-me de estar no meio de uma multidão enorme, com uma braçadeira vermelha colocada; lembro-me da força daquela multidão, do som ensurdecedor que se produzia quando gritávamos as palavras de ordem em uníssono. Eu já havia experimentado aquela sensação de força, por exemplo no 25 de abril, mas ali, além desse sensação agradável, senti também uma outra que me assustou. Na verdade, para ser sincero, aterrorizou-me. Senti-me anulado por aquela força coletiva — um átomo que se anima na mesma direção de todos os outros; uma gota diluída numa corrente, sem qualquer possibilidade de escape. Alguém que se opusesse de alguma forma ao que ali se passava seria pura e simplesmente esmagado. Isso foi óbvio para mim. Naquela altura eu ainda não lera Marx, mas o que senti foi suficiente para que me interrogasse sobre as minhas ideias.
Em primeiro lugar, interroguei-me se queria ser um “coletivista”. E por mais voltas que desse, a resposta interior era sempre “não”. Era sobretudo uma intuição. Eu não sabia muito bem explicar porquê. Mas o coletivismo assustava-me. Só mais tarde percebi que, politicamente, o que se opõe ao coletivismo é o individualismo. Eu era, de facto, e por natureza, um individualista. Infelizmente, esta palavra tem ainda hoje uma conotação negativa, de tal forma que muito boa gente, sendo politicamente individualista, tem quase (ou tem mesmo) vergonha de o dizer. Tal facto deriva de um equívoco: o de se confundir “individualismo” com “egoísmo”. Porém, o que se opõe ao egoísmo não é o coletivismo, é o altruísmo. Assim, uma pessoa pode perfeitamente ser coletivista e egoísta ou ser individualista e altruísta. Esta distinção, que me parece de uma lógica irrefutável, não poderia sair, obviamente, de uma cabeça pobre como a minha, fê-la um senhor chamado Karl Raimund Popper. Mas foi muito importante para me sentir melhor com a minha irritante intuição. Depois, com o tempo, acabei por perceber que as sociedades coletivistas são também sociedades totalitárias. Não poderia ser de outra maneira, uma vez que as ideologias coletivistas sobrevalorizam o todo (chamemos-lhe sociedade, coletividade, organismo, nação, estado, as terminologias são pouco importantes) em detrimento do indivíduo — e é nisso que reside a sua suposta superioridade — uma entidade infinitamente mais poderosa e perfeita que o mero indivíduo, sendo que este apenas deve servir essa organização social superior. Essa aspiração totalitária e coletivista uniu, como se sabe, ideologias tão diversas como o marxismo e o nazismo. Não nego que a doutrina marxista tenha aspetos positivos. Marx foi um pensador ilustríssimo, extremamente útil no contexto histórico da sua época, mesmo que a sua teoria seja, desde há muito, anacrónica. De facto, nem mesmo as teorias das ciências exatas resistem ao tempo. Poderá uma teoria social, lidando com variáveis imprevisíveis como “homem” e “poder”, fazê-lo? É evidente que não. A presunção de conhecimento sobre a natureza humana é, aliás, o elemento mais perigoso da teoria de Marx. Uma presunção que sujeitou os povos, onde os comunistas conquistaram o poder, às purgas, aos trabalhos forçados, às torturas, aos assassinatos de muitos milhões de indivíduos. Uma história trágica que só um crente pode justificar. É por isso que o comunismo é uma religião que desde o fim da minha adolescência até hoje, e suponho que para sempre, deixou de me convencer.

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Foto retirada de: gsetaoeducacional.com.br.

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