Ainda e sempre: a Liberdade

Estátua da Liberdade, em Budapeste.

Os atropelos aos direitos humanos que ocorrem hoje na Bielorrússia, tal como vêm ocorrendo em Hong Kong, na China e em tantos outros lugares, mostram-nos a sorte que temos por vivermos em liberdade. Deveríamos lembrar-nos disto todos os dias. É verdade que não há sistema de poder no mundo que não tenha cometido, ao longo da história, abusos do poder. Mas nós – refiro-me às democracias liberais respeitadoras dos direitos humanos e da divisão de poderes – fomos os únicos que reduzimos esses abusos para níveis nunca antes alcançados. Costumo dizer: “se queres aquilatar o desenvolvimento social de um país, visita as prisões, os hospícios e os lares de idosos”. Comparar uma prisão na Noruega com outra na Chechénia é como comparar a noite com o dia. As grandes assimetrias nas sociedades humanas têm tudo que ver com a liberdade. Claro que também com outras coisas, como educação, corrupção, religião, etc, mas acima de tudo com a liberdade, pois só com liberdade se pode melhorar todo o resto. Deveríamos ter sempre em consideração o quão preciosa é a liberdade e jamais embarcar em aventuras que a possam pôr em causa. A liberdade é avessa a extremismos, a radicalismos, a dogmas. A liberdade é tolerante. Porém, em nome da sua própria sobrevivência, a liberdade não pode tolerar a intolerância (“paradoxo da liberdade”): a sociedade livre não pode permitir que aqueles que querem destruí-la levem a sua avante…

“Avante”, uma palavra que nos remete para o festa que o Partido Comunista pretende levar a cabo nestes tempos de pandemia, uma intenção polémica que certamente vai concretizar-se e em torno da qual temos a dizer o seguinte.

1- Não existe nenhum partido comunista (ou marxista), com o peso que o PCP tem em Portugal, no mundo socialmente desenvolvido. A representação que os partidos marxistas têm em países como a Noruega, a Suécia, a Finlândia, o Canadá, a Nova Zelândia, a Austrália, a Suíça, a Holanda, entre outros com os maiores índices de desenvolvimento humano, é meramente residual, entre 0% e 1%. Mesmo em Itália, onde tinha força considerável, o Partido Comunista (entretanto reformado, o que nunca aconteceu em Portugal) praticamente desapareceu. Nesses países, o marxismo é uma ideologia anacrónica, apoiada por alguns excêntricos. Em Portugal, o PC e o BE (partidos ideologicamente próximos e ambos de inspiração marxista) atingem em conjunto uns absurdos 15% de representatividade no parlamento português.

2- A causa principal desta representatividade remonta ao período fascista. A ideologia marxista é ainda, em larga medida, uma reação à ditadura salazarista. Os extremos auto-alimentam-se e tendem a anular o espaço entre eles. É por isso que ainda é comum os comunistas considerarem aqueles que são do centro-direita, do centro, ou mesmo do centro-esquerda, de “fascistas”. Toda a gente sabe que um dos principais inimigos do PC, talvez o principal, é o PS, que segue invariavelmente, segundo os comunistas, uma “política de direita contrária aos interesses dos trabalhadores”. Muitos jovens de hoje, cujos pais ou outros familiares lutaram contra o fascismo, têm uma ligação emocional aos partidos marxistas, uma atitude em parte compreensível mas mais próxima da religião do que da racionalidade. A componente religiosa do marxismo é, aliás, algo bastante estudado e largamente documentado. Tal como há fações no interior das religiões que reclamam para o si o purismo da doutrina, também há inúmeros marxismos, cada um pretendendo ser o melhor intérprete da doutrina verdadeira. Essa é a razão, de resto, do surgimento de tantos partidos de inspiração marxista.

3- O PCP não proferirá uma palavra para condenar os revoltantes atentados à liberdade perpretados pelo ditador Lukashenko. Para o PCP, todo o sofrimento causado pelos estados autoritários seus amigos é apenas um efeito secundário do medicamento – o marxismo – que promete a cura para a grande doença social: a desigualdade.

4- O valor social máximo de um marxista é, portanto, a igualdade. Para atingi-la, como a teoria antevê (“ditadura do proletariado”) e a história confirma, abdica da liberdade. Porém, acontece que as sociedades não-livres, incluindo as comunistas ou supostamente comunistas, são as mais desiguais da história, e as sociedades liberais são as menos desiguais (embora tenhamos muito a fazer para as tornar mais igualitárias). Isto é um facto. Perdida a liberdade, jamais alcançaremos a igualdade. Finalmente, privados de liberdade, sem sequer igualdade e muito menos prosperidade, perdemos tudo, tornamo-nos escravos do nosso amo: se nos revoltarmos, somos presos e, eventualmente, torturados ou mortos; se nos submetermos, transformamo-nos em autómatos, seres sem responsabilidade pelos seus atos.

5- As modernas sociedades comunistas são, pois, as mais desiguais da história. Os ditadores comunistas, chamem-se Estaline, Ceausescu, Castro, Dos Santos, Jong-un ou Jinping estão, ou estavam, durante os respetivos períodos de governação, entre os indivíduos mais ricos e com vidas mais sumptuosas do mundo. As suas riquezas, porém, ao contrário do que acontece com os empresários capitalistas, não resultam de uma atividade económica produtiva, antes do roubo que esses ditadores praticam sobre os seus próprios países e povos.

6- A festa do “Avante!” será, pois, segundo a perspectiva comunista, mais um momento de “afirmação da grande capacidade do Partido”, um grande e inadiável evento cultural e político, uma oportunidade para mostrar, mais uma vez, os benefícios desse maravilhoso medicamento de largo especto chamado marxismo. Um “covidezinho” aqui outro ali, a acontecerem, mais não serão que manifestações de um efeito secundário irrelevante face à eficácia do tratamento que, embora alguns ainda não o saibam, nos irá salvar a todos.

**************************************************