A Morte de Orfeu

Orfeu era filho de uma Musa e de um príncipe da Társia. Tendo herdado da mãe o dom da música, ninguém podia resistir à sua arte de tocar e cantar. Suas melodias faziam mover os rochedos dos montes e mudavam o curso dos rios.
Um dia, Orfeu conheceu a bela Eurídice e acabou por casar com ela. Ambos eram muito felizes. Passado pouco tempo, porém, Eurídice foi mordida por uma serpente, e morreu. A dor de Orfeu foi tão intensa que resolveu descer aos Infernos, numa tentativa desesperada de recuperar a sua amada.
Empreendeu então uma temível viagem ao mundo das profundezas, algo que jamais alguém se atrevera fazer. Tangeu a sua lira e conseguiu que todos os vigilantes o deixassem passar. Ali chegado, cantou uma canção tão bela e pungente que o senhor do Hades e sua mulher se aproximaram para escutar melhor…
“Ninguém, sob a magia de sua voz, era capaz de lhe recusar fosse o que fosse; arrancou lágrimas de ferro a Plutão e moveu o Inferno a restituir o que o Amor procurava”.
Entregaram-lhe Eurídice, mas com uma condição. Não devia olhar para trás, enquanto ela o seguisse, durante o retorno à superfície terrestre. Saíram ambos pelos portões do Hades e encetaram a subida pelo caminho que os conduziria ao mundo dos vivos. Orfeu ia na frente e sentia, por entre as trevas, que Eurídice o seguia, mas ansiava por olhar de relance para certificar-se de que assim era. Estavam quase chegando, a luz do dia já inundava o caminho e Orfeu rejubilava de alegria. Olhou para trás… cedo de mais! Eurídice ainda vinha na caverna. Estendeu os braços numa tentativa desesperada de agarrá-la, mas o vulto da amada esgueirara-se de novo para o mundo subterrâneo. Orfeu só conseguiu ouvir uma voz débil dizer “Adeus”!
Tentou segui-la, mas tal não era permitido. Os deuses não consentiam duas entradas no reino dos mortos a alguém ainda vivo. Vagueou então pelo mundo, sem nada para além da sua lira, que tocava continuamente. Seus únicos companheiros eram os rochedos, os rios e as árvores, que o escutavam deleitados. Assim passou muito tempo até que, enfim, um bando de Ménades foi ao seu encontro. Assassinaram-no, despedaçando-o, membro após membro, acabando por atirar a cabeça ao tumultuado rio Hebro, que a transportou rio abaixo, até a foz, e daí às praias de Lesbos, onde as Musas a recolheram e enterraram, no santuário da ilha, ainda perfeitamente intacta, apesar da força corrosiva das águas. Reuniram os membros desconjuntados do seu corpo e depositaram-nos num túmulo, no sopé do monte Olimpo.
É aí que ainda hoje os trinados dos rouxinóis são mais melodiosos do que em qualquer outro lugar.

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Fonte: “A Mitologia“, Edith Hamilton.

Um concerto ultrarromântico

Desde há muitos anos que ouço o Concerto nº2 para Piano e Orquestra[1] de Rachmaninoff[2], em disco e ao vivo. Lembro-me bem, a primeira audição foi de uma gravação que tem como pianista Vladimir Ashkenazy[3], numa interpretação, aliás, excelente. Depois assisti ao vivo  a interpretações dos pianistas Evgeny Kissin[4] (a minha preferida), Mikhail Pletnev[5] e Nelson Freire[6]. Em disco, as audições distribuem-se por dezenas de interpretações diferentes, de grandes maestros, orquestras e pianistas, entre as quais, uma do próprio Sergei Rachmaninoff.

Estamos obviamente perante um grande clássico desse tardio e ultrarromântico compositor. Talvez o concerto mais romântico de sempre. Tanto que serviu de banda sonora a um filme que também é justamente considerado por muitos o mais romântico de todos os tempos – “Brief Encounter”[7] (Breve Encontro), do magnífico realizador britânico David Lean[8].

Aqui fica um registo dessa peça imortal, com a Filarmonica Teatro Regio Torino, dirigida por Ginandrea Noseda e com a excelente e bela Khatia Buniatishvili, ao piano. Para desfrutar.

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Notas:

[1] A palavra “concerto” deriva do termo latino “concertare” que significa “dialogar”. Concerto para piano (ou outro qualquer instrumento) e orquestra não é mais, pois, do que um diálogo entre esse instrumento e a orquestra respetiva.

[2] Compositor e maestro russo (1873-1943) que se exilou nos EUA, onde faleceu, tendo vivido também na Suíça.

[3] Pianista e maestro russo (1937), que se exilou, no tempo da União Soviética, no Ocidente. É o atual presidente da Sociedade Rachmaninoff.

[4] Outro pianista russo. Começou muito jovem a ter contacto com o piano. É considerado um dos maiores pianistas do mundo. Tem hoje 42 anos de idade.

[5] Russo, igualmente. E também um dos grandes pianistas mundiais. Nasceu em 1957 (14 de abril).

[6] Brasileiro, natural de Boa Esperança, Minas Gerais. Hoje, com 69 anos, é um pianista com excelente reputação mundial.

[7] Filme ainda a preto-e-branco, de 1945. Como protagonistas desse encontro breve, Celia Johnson e Trevor Howard.

[8] Um dos meus realizadores (diretores) favoritos. Entre outros, dirigiu “Doutor Jivago”, Lawrence da Arábia”, “A Ponte sobre o rio Kwai”, “Passagem para a Índia”, “A Filha de Ryan”. Privilegiava nos seus filmes os grandes cenários naturais. É considerado um mestre da montagem cinematográfica.