Será a Federação Russa um estado patrocinador do terrorismo?

Para 494 dos 596 deputados europeus, sim, a Federação Russa é um estado patrocinador do terrorismo e um estado que usa meios terroristas. 58 deputados votaram contra a resolução. Ou seja, cerca de 83% votaram a favor e apenas 10% contra. Os restantes 10% correspondem aos 44 deputados que se abstiveram. A resolução foi, assim, aprovada por uma larguíssima maioria e reiterou o apoio inabalável às independência, soberania e integridade territorial da Ucrânia, no interior das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, e a condenação da guerra ilegal de agressão, não provocada e injustificada, da Federação Russa.

O Parlamento Europeu exortou a União Europeia e os seus estados membros a desenvolverem um quadro jurídico para a designação de estados patrocinadores do terrorismo e estados que usam meios do terrorismo, e instou os líderes europeus a considerarem a inclusão da Rússia nessa lista europeia de estados patrocinadores do terrorismo e instou os estados membros a contribuírem para o isolamento internacional abrangente da Rússia. A resolução pedia também que o grupo Wagner, apoiado pelo estado russo, e os kadyrovites, bem como outros grupos armados financiados pela Rússia e em atividade na Ucrânia, fossem incluídos na lista europeia de pessoas, grupos e entidades envolvidos em atos de terrorismo. Foi pedido um nono pacote de sanções, alargando o número de indivíduos sujeitos a essas medidas sancionatórias. Foi solicitada a prevenção, investigação e processamento de quaisquer formas de ludibriar as sanções.

Os eurodeputados apelaram ainda a um renovado apoio às investigações independentes em curso sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos pela Rússia, e realçaram que a vertente guerra de agressão sobre a Ucrânia “destaca a necessidade de uma avaliação histórica e jurídica completas e um debate público transparente sobre os crimes do regime soviético, sobretudo na própria Rússia, porque a falta de responsabilidade e justiça só conduz à repetição de crimes semelhantes”.

Analisando a votação da resolução c9-0482/2022, aprovada por larga maioria, como já foi dito, constatam-se duas coisas — uma que já se previa à partida e outra verdadeiramente surpreendente.

  • A primeira é que os votos contra a resolução vieram quase todos dos extremos políticos à esquerda e à direita do Parlamento.
  • A segunda é que, para além dos votos contrários à resolução dos dois deputados portugueses do PCP, já esperados, e da posição tipicamente hipócrita dos deputados do Bloco de Esquerda, que se abstiveram, houve cinco deputados do Partido Socialista que também se abstiveram.

Não sabemos se isto é de alguma forma embaraçoso para o PS. Só sabemos que é uma vergonha para o país.

**************************************************

De Kherson ao Seixal

Os ucranianos libertaram este fim de semana a estratégica cidade de Kherson, que estava há meses sob jugo das forças russas. Apesar das desastrosas perdas humanas que esta guerra sem sentido já provocou, a chegada dos soldados ucranianos foi saudada com júbilo em Kherson e um pouco por todo o mundo, pelo menos entre os que amam a liberdade. Para estes é incompreensível que alguém possa tolerar ou apoiar uma potência invasora que pretende pura e simplesmente varrer do mapa um estado soberano, aniquilando, se para tal for necessário, todo um povo.

Porém, o que é incompreensível para uns é perfeitamente justificável para outros: ao mesmo tempo que os ucranianos libertavam Kherson, reuniam numa conferência no Seixal largas centenas de militantes comunistas que, ao invés de condenarem Putin pela ignóbil invasão russa, condenam os americanos, a NATO e a União Europeia.

Muitos perguntarão como tal é possível, mas a razão fundamental é simples. O comunismo, mais propriamente a ideologia em que se apoia — o marxismo-leninismo — é uma religião. Não uma religião que promete o paraíso num lugar distante, mas antes uma religião que promete o paraíso na Terra. O caráter religioso do marxismo foi já dissecado por vários autores e revela-se em múltiplos aspetos. Alguns deles patentes na conferência levada a cabo pelos comunistas, este fim de semana, no Seixal.

Desde logo, (1) a despersonalização: pouco importa o que cada indivíduo pensa, os comunistas orgulham-se de que o que conta, independentemente das pessoas, é o dogma ideológico, a doutrina do partido e a autoridade do coletivo; depois, (2) o maniqueísmo: de um lado, os bons — os trabalhadores — do outro os maus — o Grande Capital e seus esbirros; finalmente, (3) a ritualização: símbolos, cânticos, palavras de ordem, toda uma velha liturgia, seguida com convicção absoluta, quando não, com o mais puro fanatismo.

A total submissão à ideologia (a unanimidade de que tanto se orgulham) é, entre todos, o aspeto mais pernicioso da doutrina comunista. Dissidências não são admitidas. Discordância implica expulsão. E uma vez no poder, seja em que lugar do planeta for, a perseguição aos hereges será efetiva e implacável. Os comunistas condenam o Ocidente porque, mais do que o capitalismo, a burguesia ou a desigualdade, o que, acima de tudo, os comunistas odeiam nas democracias liberais é a primazia que nestas é conferida à liberdade.

Liberdade celebrada em Kherson, ausente no Seixal.

**************************************************

Alfama à Solta

House on Fire, em Eswatini. Criatividade à solta.

******************************

Nas ditaduras importam as personalidades; nas democracias, as instituições.

******************************

A iliteracia científica das populações — potenciada pelo nacionalismo romântico (direita) ou pelo internacionalismo utópico (esquerda) — constitui um campo fértil para a implementação de ideologias totalitárias.

******************************

A narrativa de Putin sobre o Ocidente é um sofisma, porque nunca houve uma ameaça ocidental à Rússia depois da Guerra Fria. A Alemanha, que fora combatida pelos americanos na II Guerra Mundial, foi fortemente apoiada por estes aquando da sua transição para um estado de direito democrático. O mesmo aconteceria com a Rússia pós-soviética, mas Putin optou pela autocracia, e precisa alimentá-la com a narrativa antiamericana.

******************************

Não deixa de ser irónico — ainda que trágico — que a palavra “Ucrânia” signifique “fronteira”.

******************************

Uma vez que somos todos diferentes, só se consegue implantar a igualdade pela força, ou seja, com uma ditadura. Mas uma vez o ditador no poder o que cresce não é a igualdade, é a desigualdade.

******************************

Sábio é aquele cuja sede de captar o desconhecido é superior à de verter o que conhece.

******************************

Sou politicamente um individualista não porque me considere diferente ou melhor que os outros, mas porque considero que um coletivo de pessoas é mais rico se muitas delas pensarem de forma diferente do que se pensarem todas da mesma maneira.

******************************

Os intelectuais marxistas do Ocidente são maioritariamente burgueses ou, à boa maneira do Mestre, vivem à conta dos amigos.

******************************

O problema que se passa com os profetas da desgraça é que ficam torcendo que as suas profecias se concretizem e por todo o lado veem tendências dessa concretização. E mesmo que as desgraças não aconteçam, está criado o estado de ansiedade e medo que junta cada vez mais crentes, incluindo muitos jovens desamparados, à tribo da desesperança.

******************************

Parece que está na moda seguir influencers. Já eu sigo influencers que são avessos a modas.

******************************

Há mil e uma maneiras de ver um problema. Mas sempre aparece um idiota ou um génio com a milésima segunda.

******************************

O romantismo transposto para a política converte-se em nacionalismo.

******************************

Antes da ciência atual — altamente teórica — houve uma ciência diferente, baseada no desbravamento da natureza, uma ciência descritiva, catalogadora, protagonizada por verdadeiros heróis, intrépidos aventureiros, que enfrentaram grandes perigos e adversidades nas suas viagens à descoberta do mundo natural. Essa ciência — assaz contraditória em seus termos, aos olhos de hoje — era a ciência romântica.

******************************

As sociedades mais atrasadas são exclusivas — prevalece a visão de que existe uma parte da humanidade boa e outra parte da humanidade má. Pelo contrário, as sociedades mais avançadas são inclusivas — todas as pessoas são iguais na sua dignidade humana, não existem pessoas boas ou más.

******************************

Foi Cedric Price, um celebrado arquiteto inglês, quem disse um dia que as cidades são como os ovos. Primeiro apareceram as cidades ovo cozido, as cidades antigas e medievais, muralhadas. Depois apareceram as cidades ovo estrelado, com os serviços no centro e os dormitórios na periferia. Hoje em dia as cidades mais cosmopolitas são do tipo ovo mexido, com polos de serviços e habitações espalhados por todo o lado.

******************************

Bom dia Mr. Dawkins, é um prazer pôr os meus genes a falar com os seus.

******************************

A liberdade não tem cor. Não adianta pintá-la.

******************************

Tenho ideias. Tenho até ideais. Mas não tenho ideologia.

******************************

Quando a liberdade é relativa a ideologia é absoluta. E vice-versa.

******************************

O aspeto mais deplorável das ideologias românticas é a prevalência das intenções sobre os resultados.

******************************

O Universo pode expandir-se e contrair-se, existindo por ciclos consecutivos de nascimento e morte, tipo ovo e galinha. Ou pode o tempo não ser linear, mas circular, e não haver morte nem nascimento do Universo.

******************************

O gesto elegante pode até ser pura hipocrisia. Mas isso não lhe retira o encanto.

******************************

Embora cada ciência tenha o seu objeto próprio, já todas estiveram integradas numa única disciplina – a Filosofia. Isto quer dizer que todas mantêm uma ligação entre si, apesar da sua autonomia. A disciplina que trata dessa ligação, que une todas as ciências, é precisamente a Filosofia.

******************************

O ser humano que se aventura no desconhecido, qual passarinho lançado no espaço antes do acordo da mãe, é, em geral, o mais nobre e generoso.

******************************

O milagre económico da Direita redunda, em geral, em desastre social; o milagre social da Esquerda redunda, em geral, em desastre económico.

******************************

Os sintomas de clubite aguda são, amiúde, a ponta do iceberg de uma patologia crónica, por definição incurável, face à incapacidade do indivíduo reconhecer — e tão pouco admitir — o seu estado de mania ou depressão.

******************************

Clubite é a forma socialmente aceite de desejarmos o pior aos nossos vizinhos e amigos.

******************************

A Liberdade, individual ou coletiva, é algo tão amplo, profundo e desconhecido que chega a ser assustador. É por isso que as regras sociais não são suficientes, precisamos de outras balizas para não nos sentirmos perdidos no mundo. A adoção de dogmas, pessoais ou coletivos, é o preço a pagar pelo medo à Liberdade.

******************************

São desinteressantes as entrevistas em que os convidados falam de si próprios. As vidas privadas têm, por vezes, interesse público, mas quase nunca quando analisadas em causa própria. É entediante a conversa sobre idiossincrasias de personalidades infladas pelo sopro mediático. Fernando Pessoa tinha razão: a publicidade da vida privada é, não apenas esteticamente, algo desprovido de valor.

******************************

Nenhuma carreira produz resultados tão definidos como a de advogado — 1% de heróis, 99% de cretinos.

******************************

Esquerda e Direita são como dois sacos onde cada um — de acordo com o trajeto pessoal — coloca o que quer. Eu há muito que despejei cada um deles. E para que não restassem dúvidas, lancei os sacos no lixo.

******************************

É verdade, às vezes, fico hesitante. É que vejo tanta gente com ar professoral, convencida da sua sapiência, que fico de pé atrás — quem me diz que não acontece o mesmo comigo?

******************************

Não é procurando provas que confirmem a nossa posição que a fortalecemos. Fazêmo-lo buscando provas contrárias à nossa posição.

******************************

Os ideólogos mais empolgados continuam falando como se estivéssemos ainda na Guerra Fria. Entretanto o mundo “pula e avança”.

******************************

Há filósofos que nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos) e há filósofos que não nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos). Só estes últimos são filósofos verdadeiros.

******************************

Há três obras que nos proporcionam um melhor entendimento sobre o que são historicismo, totalitarismo e coletivismo, todas escritas na ressaca da II Guerra Mundial. Refiro-me aos trabalhos monumentais de Karl Popper e Hannah Arendt, respetivamente, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos e Origens do Totalitarismo, e ao trabalho não tão monumental mas igualmente indispensável de Friedrich Hayek, O Caminho da Servidão, três das obras mais importantes do século XX. Quem as não leu terá certamente uma perspetiva mais pobre sobre a centúria em que tantos milhões de seres humanos pereceram, face à incúria de políticos irresponsáveis.

******************************

Em matéria política, a sabedoria está tanto do lado do homem comum como do dos intelectuais.

******************************

As melhores sociedades humanas são aquelas onde se tenta minimizar o mal. As piores são aquelas onde se pretende maximizar o bem.

******************************

Governar um país é como navegar à bolina. Ora para estibordo, ora para bombordo, apenas o tempo necessário para manter o rumo.

******************************

Manuel Teixeira-Gomes renunciou ao cargo de Presidente da República, em protesto contra a falta de ética dos políticos do seu tempo. Manuel Teixeira-Gomes era um algarvio culto, leal, altruísta e um excelente escritor. Já outro algarvio, também Presidente da República, Cavaco Silva, é tecnocrata, conspirador, egocêntrico e calculista — o pior presidente da história portuguesa. Não poderia haver contraste maior.

******************************

Pouco importa teres muitos conhecimentos se não tiveres com quem os discutir; pouco importa estares num lugar paradisíaco  se não tiveres com quem o partilhar; pouco importa o amor que tens no coração se não tiveres a quem o dar. As únicas coisas que te consomem sozinho são o ódio e a inveja.

******************************

John Stuart Mill disse uma vez o seguinte ao liberal francês Alexis de Tocqueville: ” o gosto em fazer com que os outros se submetam a um modo de vida que consideramos mais útil para eles do que eles próprios consideram não é muito comum na Inglaterra”. Eis por que gosto tanto dos liberais ingleses.

******************************

Dois dos maiores países do mundo transformaram-se em estados comunistas na sequência da Grande Guerra. A Rússia pela ajuda que a Alemanha deu a Lenine e a China por se sentir injustiçada com os termos do Tratado de Versalhes.

******************************

Se algum pensamento te perturba, lembra-te que sentimentos negativos atingem a todos. Alguns ultrapassam-nos mais facilmente porque não são tão exigentes com eles próprios como tu és contigo.

******************************

Muitas obras antigas não teriam sido realizadas se naquele tempo já existissem psicólogos.

******************************

As ideologias são medicamentos fora de prazo.

******************************

Gosto de pessoas que falham, que erram, que se enganam. Gosto de pessoas humanas. Mas pior que os infalíveis são os moralistas. Estes são os seres mais perniciosos em sociedade.

******************************

A moral não se apregoa, pratica-se e é tudo. Jesus foi revolucionário porque rejeitou a moral vigente; por isso era conhecido como o “amigo dos pecadores”; e por isso foi condenado à morte.

******************************

Para Einstein o tempo é aquilo que se mede com um relógio e o espaço o que se mede com uma régua. E como se medem as teorias políticas? O instrumento adequado para medi-las é a História.

******************************

Escrever bem implica dizer o que se pretende usando o menor número de palavras dentro do leque mais vasto possível.

******************************

Que coisa é essa do comunismo, senão um regresso ao passado, ao tempo da gens, quando não existia ainda a propriedade privada, o casamento monogâmico, o comércio, o dinheiro vil? Os comunistas discordam da civilização, mas servem-se dela. Nenhum comunista larga tudo para viver em grupo fechado, na natureza.

******************************

O excesso de culpa pode fazer-nos virar contra nós próprios até ao insuportável, e levar-nos a cometer um crime; a ausência de culpa pode transformar-nos em loucos psicopatas. Em nenhum outro lugar, como dentro de nós, é tão importante o equilíbrio.

******************************

Acontece com frequência conceder-se maior tolerância a alguns seres humanos prolixos, extravagantes ou geniais, a quem não se leva a mal o exagero, a indelicadeza quando não a ofensa. A tolerância que eu possa ter — e tenho — não tem a ver com esses critérios. Em mim, os extraordinários não têm sobre os ordinários qualquer privilégio.

******************************

O tempo é um imenso rolo compressor que tudo nivela.

******************************

O princípio da morte sem dor deveria ser consagrado numa sociedade verdadeiramente humana, como o é o “não matarás”, por exemplo. O verdadeiro salto civilizacional dar-se-á quando dedicarmos a quem parte a mesma atenção e cuidado que dedicamos a quem entra na vida.

******************************

Nada pode mostrar-nos melhor a importância do equilíbrio do que um bom vinho.

******************************

Nenhuma outra palavra é mais adequada como sinónimo de bode expiatório: judeu.

******************************

Envelhecemos e tornamo-nos mais pragmáticos, menos idealistas; ficamos mais tolerantes, mas jamais menos sensíveis.

******************************

A terminologia social e política é fértil em equívocos. Por exemplo, é comum considerar os partidos marxistas-leninistas, e a esquerda mais radical, como “progressistas”. Ora, isto é uma enorme falácia, frequentemente ignorada. De facto, a génese dos pensamentos de Marx e Engels (e antes deles de Platão e Rousseau, entre outros) é conservadora e retrógrada: representa o regresso ao passado, ao tempo sem Estado, sem propriedade privada, sem pensamento crítico, sem ciência e filosofia – é o regresso ao tribalismo mágico. E se é legítimo querer e defender este regresso, já é completamente ilegítimo querer impô-lo aos outros, mesmo que para tal se use os mais variados subterfúgios, como o de apelidar esse caminho de “progressista”.

******************************

Faz-me confusão a militância canina; o fervor de testemunha de Jeová; o comportamento tribal; a completa ausência de autocrítica; a realidade distorcida e falseada pela cegueira ideológica (ou religiosa, ou clubística, ou outra qualquer); a incapacidade de perceber que são aqueles que mudam da direita para a esquerda e da esquerda para a direita quem faz o caminho, porque a vida é uma navegação à bolina, não uma viagem a favor do vento.

*******************************

Há três tipos de marxistas: 1) Os que nunca leram “O Capital”; 2) Os que leram “O Capital” e não o entenderam; 3) Os que leram e entenderam “O Capital”. Noventa e nove por cento dos marxistas atuais pertencem aos dois primeiros grupos. Isso explica, em larga medida, porque existe um abismo entre a doutrina de Marx e os diversos marxismos.

******************************

Os melhores medidores do desenvolvimento social de um Estado são as prisões, os hospitais psiquiátricos e os lares de idosos.

******************************

Por princípio não sou anti-comunista, sou anti-ditador. Dado que a ditadura engloba vários géneros (fascismo, comunismo, nazismo, etc.), sou, subsidiariamente, anti-fascista, anti-comunista, etc.

******************************

Todos precisamos de reconhecimento e os que afirmam o contrário são porventura os mais carentes. Então, por que Pessoa detestava ser reconhecido? Em primeiro lugar, por uma questão de pudor; em segundo, porque, como qualquer perfeccionista, era inseguro. Insegurança e pudor — eis as características do esteta.

******************************

O bom político é aquele que adapta as suas ideias à realidade e o mau político aquele que adapta a realidade às suas ideias.

******************************

A diferença entre o grande e o pequeno artista é que o primeiro tenta compreender enquanto o segundo procura ser compreendido.

******************************

A História da Filosofia é a história das ideias de Platão, Aristóteles, uma legião de seguidores e meia dúzia de contestatários. São estes últimos os que me interessam.

******************************

Há no mundo inúmeros artistas. Talvez haja mesmo um artista escondido em cada um de nós. Mas não devemos esperar que o Estado sustente a nossa vocação artística. A primeira vocação que se exige a cada um(a) é aquela de sustentar-se honestamente.

******************************

Mais do que um ato de liberdade, a adesão a um partido político ou a uma ideologia, é a entrada numa prisão.

******************************

Quem te convenceu de que o teu governo é melhor que o teu patrão?

******************************

A água da nascente cai, provocando milhares de milhões de bolhinhas que logo desaparecem. Estas bolhas somos nós. Umas duram mais uma fração de segundo que outras. A diferença de duração pode equivaler à diferença entre vivermos 10 ou 90 anos. O tempo real é o da água que corre. Se a nascente secar o tempo é finito, caso contrário, eterno.

******************************

Não basta proclamar o amor para se ser nobre. Isso seria demasiado fácil e criaria a ilusão de que somos todos iguais, o que manifestamente não somos. Pelo contrário, algo nos diferencia nos esforços que fazemos (ou não) para aceitarmos, compreendermos e minimizarmos as nossas raiva, frustração e impotência e, quantas vezes, o ódio — irmão gémeo do tão banalizado amor. É esse esforço  — que quanto mais árduo for maior valor humano conterá — que pode, surpreendentemente, conduzir-nos ao amor verdadeiro. Aliás, ele é já, em si mesmo, um genuíno ato de amor.

******************************

A principal diferença entre o idealista e o realista é que o primeiro valoriza as intenções e o segundo os resultados.

******************************

Há ideias perversas que veiculam a mensagem de que existem nações melhores que outras. Mas o que existe apenas são nações piores, no período determinado em que, nestas, aquelas ideias proliferam.

******************************

A Esquerda acredita que o homem nasceu bom e foi a sociedade que o corrompeu. A Direita, pelo contrário, acha que o homem é um ser imperfeito por natureza. É curioso que este pessimismo da Direita permita, no entanto, acreditar numa sociedade satisfatória; e que o otimismo original da Esquerda se transforme num permanente pessimismo (quando não, desespero) face à impossibilidade de reconduzir o homem ao seu estádio natural.

*******************************

Apesar dos graves problemas, vivemos no melhor mundo de sempre, um mundo maravilhoso. É esta mensagem simples e verdadeira que temos o dever de transmitir aos vindouros.

******************************

Nada se pode sobrepor à minha experiência (adoto aqui a frase de Carl Rogers), nem sequer uma teoria científica. É com base naquela que, crítica e racionalmente, aceito ou rejeito esta.

******************************

Há dois tipos de inflamação neuronal — a clubite e a partidarite. E desiluda-se quem ache que os sintomas são dissemelhantes. Ambas tornam o paciente acrítico relativamente à realidade.

******************************

Se tivesse de escolher uma ciência puramente humana, não me viraria para a Medicina, a Filosofia ou a Psicologia. Escolheria outra muito mais paradoxal. Uma ciência que, criada, desenvolvida e reinventada por nós, ganhou uma “vida” que todos os dias procuramos desvendar: a Economia.

******************************

A maior contradição das religiões cristãs, e sobretudo da católica, prende-se com a ritualização da morte. Existe uma contradição insanável entre a crença na vida após a morte e a tristeza profunda a que se assiste nos velórios e funerais. Essa contradição é ainda mais paradoxal quando — o que acontece frequentemente — a morte traz consigo a libertação, após um sofrimento atroz.

******************************

Nenhuma questão macroeconómica se pode explicar e, sobretudo, antever apenas pelos números. Há sempre uma variável largamente indeterminada que influencia as decisões dos agentes económicos: as célebres expectativas. Nenhum político devia ignorá-las.

******************************

Só sendo independente se pode ser convergente. O dependente é sempre divergente.

******************************

Há várias formas de te dedicares à causa pública e de ajudares o próximo. A pior delas é alistares-te num partido político.

******************************

Aprecio formas. Detesto formalismos.

******************************

Não admira aquele impulso que nos conduz à taberna após o funeral de um amigo. A vida não é mais que uma curta bebedeira em que nos esquecemos que o nosso lugar não é aqui: estamos apenas no pequeno intervalo de uma peça que durará eternamente sem nós.

******************************

A Literatura realista é bem mais interessante que a fantástica. É mais ampla, complexa, divertida, dramática, empolgante e, afinal, fantástica pela simples razão de que a realidade é sempre mais surpreendente que a nossa imaginação.

******************************

Às vezes apetece perguntar aos jovens de vinte e de trinta anos: já pensaram como vão ser daqui a outros vinte, trinta anos? Não? Pois eu digo-vos o seguinte: ou vão pensar exatamente o mesmo que pensam hoje — o que significará que se quedaram estupidamente petrificados — ou vão pensar algo completamente diferente — o que significará que a vida vos ensinou alguma coisa e devem, por isso, ser mais calmos, contidos e prudentes, relativamente ao que julgam saber, pois a vossa perspetiva inevitavelmente se transformará.

******************************

Dois modelos económicos são confrontados, em geral, nas eleições democráticas: o keynesiano e o liberal. Muitos são fiéis a um ou outro desses modelos. Mas alguns dividem-se e votam de acordo como que acham melhor em cada momento eleitoral. Estes têm razão. A teoria económica é como a teoria da luz. Tal como esta pode ser onda ou partícula, também a economia é, consoante as circunstâncias, keynesiana ou liberal.

******************************

Houve em tempos em Portugal um grande humorista chamado Herman José. Algumas das personagens que criava eram tão interessantes que ele, no meio delas, nos parecia absolutamente banal.

******************************

O problema do exímio contador de histórias é ser primo do boateiro.

******************************

Não são apenas o clima, a luz, as frutas, os queijos, o azeite, o vinho e o pão mediterrânicos que são os melhores do mundo. As mulheres são também as mais belas.

******************************

Uma sociedade decente não é uma sociedade de iguais, pois todos somos diferentes e à diferença temos direito. Uma sociedade decente é uma sociedade de homens e mulheres livres.

******************************

Brincar é bonito. Zombar é feio. A linha divisória entre uma ação e outra é marcada pelas educação e sensibilidade.

******************************

O problema do utópico é que, de tanto elevar o olhar, deixa escapar a realidade que lhe corre debaixo dos pés.

******************************

O que fundamentalmente caracteriza a atividade humana é a sua luta contra a Natureza. Pares de óculos, preservativos e deuses não passam de armas diversas de uma mesma luta pela emancipação. Uma luta interminável, à qual não podemos pôr cobro. Se isso acontecesse, pura e simplesmente extinguir-se-ia a Humanidade.

******************************

Gosto dos dias largos da Primavera quando o tempo não corre, escorre.

******************************

Não tenho nada contra os que invocam o seu direito ao irracionalismo desde que não protestem quando o irracionalismo um dia lhes cair em cima.

******************************

Os mandatos presidenciais de Cavaco e Marcelo mostram como é muito fácil equivocarmo-nos e como, por vezes, temos a incrível sorte de acertar.

******************************

O caráter efémero, superficial e ilusório da moda não se manifesta apenas no mundo das passarelas e do design. Toda a sociedade é afetada pelo fenómeno do modismo.

******************************

De todas as modas, as mais perniciosas são as modas intelectuais.

******************************

O problema da sexologia é que vê o sexo como uma espécie de tecnocracia. Ora no sexo, como em qualquer arte — e o sexo nos humanos é também arte — a técnica é, sem dúvida, importante, mas a técnica sem expressão é vazia. O mais importante no sexo é a alma.

******************************

O nacionalismo é um mito e os mitos são como os cogumelos: há os comestíveis e os venenosos.

******************************

Racionalistas não sabem prever o futuro.

******************************

Podes estar convencido de que és um inteligente acima da média. E, se reparares à tua volta, em círculos cada vez mais largos, é bem provável que a maioria pense como tu. O cerne da questão, porém, não consiste nessa impossibilidade estatística (de facto, não é possível a maioria estar acima da média) mas na tua convicção: com ela já pisaste, pelo menos com um pé, o terreno lúbrico da estupidez.

******************************

O pioneirismo do que chamamos de Descobrimentos Portugueses tem pouco que ver com “descobertas”. Feitos muito mais extraordinários foram levados a cabo por diversos povos, muitos séculos antes da epopeia portuguesa – os Polinésios, por exemplo, que, em simples canoas, percorreram mais de mil milhas marítimas para colonizarem terras, como a Ilha de Páscoa, ou os Vikingues, que, nos seus navios rudimentares chegaram à América. A grande novidade dos chamados Descobrimentos foi o estabelecimento regular do comércio de longa distância, que impulsionou um novo período, mercantilista, que viria a culminar no que hoje se conhece por globalização.

******************************

As notas de rodapé são como os acabamentos de uma casa: pormenores importantes.

******************************

Kant e Popper correspondem, na Filosofia, a Newton e Einstein, na Física. Outro grande filósofo aparecerá quando houver uma nova revolução na Física.

******************************

A presunção e o convencimento são, respetivamente, a estupidez dos ignorantes e a dos eruditos.

******************************

Crer ou não crer, eis a questão.

******************************

O ódio é um amor magoado.

******************************

Num país de (péssimos) críticos, nada mais natural do que um país crítico.

******************************

Abril não tem cor. Trouxe-nos a liberdade para o pintarmos como quisermos.

******************************

Não são as leis progressistas que tornam melhor o Povo. É o Povo progressista que torna as leis melhores (a propósito da eutanásia).

******************************

Dois intelectuais, dois ganhadores do Nobel, dois escritores, dois famosos interventores sociais do início do século XXI: Llosa e Saramago. Os pensamentos de ambos estão nos antípodas. Mostrará a história, um dia, quem tinha razão? Não sei, talvez ninguém saiba ou talvez seja impossível saber. Mas sei que, apesar de saber muitíssimo pouco, sou Llosa e não Saramago.

******************************

A estupidez é provocada tanto pela carência de inteligência como pelo seu excesso.

******************************

O historicista tem horror da mudança. Procura pará-la (Platão), domá-la (Hegel) ou prevê-la (Marx).

******************************

Divulgar o que te vai na cabeça, sim. Desde que tenhas em consideração o que vai na cabeça de muitos outros.

******************************

Apregoar uma moral ou impô-la a si próprio. Eis a diferença entre o ideólogo e o filósofo.

******************************

Jesus foi não apenas um judeu, mas um judeu cheio de zelo. Um zelota.

******************************

Liberdade não é ideologia. Liberdade é o que possibilita termos, ou não, uma ideologia.

******************************

Bendito aquele que não precisa de ser pai para gostar de crianças e bendito o que não precisa de ser idoso para respeitar os mais velhos. Benditos todos os que não precisam de ser mudos para amarem os que não têm voz.

******************************

A verdadeira oposição não é entre esquerda e direita, pois as esquerda e direita moderadas estão ambas no campo da democracia, do direito e do respeito pelo indivíduo, bem como a extrema-esquerda e a extrema-direita estão ambas no campo da tirania. A verdadeira oposição é entre liberdade e opressão, entre isonomia e injustiça. E sim, sim, os extremos tocam-se.

******************************

Há lugares no mundo que podemos amar, embora só os conheçamos de passagem. Como uma mulher inesquecível com quem estivemos uma única vez.

******************************

Tal como algumas pessoas correm 10 kms por dia para manterem a boa forma física, eu pronuncio dez vezes por dia a frase “não julgues ninguém exceto a ti mesmo” para manter a boa forma mental.

******************************

Gosto tanto do equilíbrio que eu próprio não passo de um mediano.

******************************

Apesar das nossas melhores intenções, não desejo influenciar o comportamento das pessoas, ajudá-las a mudar num sentido melhor, porque, além de me sentir demasiado ignorante para isso, sempre haverão grandes diferenças entre todos nós, e o mundo seria mais desinteressante se essa heterogeneidade diminuísse ou acabasse. Genética e ambiente fazem de cada ser, único no mundo. O nosso dever, portanto, só pode ser o de respeitar cada pessoa na sua singularidade. E as nossas melhores intenções devem dirigir-se não para o indivíduo, mas para melhorar e garantir uma sociedade em que cada um, no respeito pelo outro, possa ser plenamente quem é.

******************************

Tenho um problema antigo com o conceito mais comum de “coerência”, que geralmente quer dizer: “acreditar no mesmo até ao fim”.

******************************

Não há discurso mais odioso do que aquele baseado na (suposta) superioridade moral.

******************************

Freud = fraude.

******************************

O maior absurdo da vida reside no contraste entre a consciência humana e a inconsciência da Natureza.

******************************

Há pessoas más com más ideias, pessoas más com boas ideias, pessoas boas com más ideias e pessoas boas com boas ideias (simplificando, claro). Se a primeira e última categorias não suscitam dúvidas, as duas intermédias dão aso a inúmeras confusões.

******************************

Não deixa de ser curiosa esta aparente contradição: os coletivistas preocupam-se sobretudo com os comportamentos individuais, enquanto os individualistas se preocupam sobretudo com o comportamento das instituições.

******************************

Sem futebol, vai morrer muito mais gente de desespero e de tédio do que do novo corona vírus.

******************************

As redes sociais vieram infantilizar um público ávido de fait-divers.

******************************

Beethoven ficaria furioso se soubesse que a sua sonata “Quase uma Fantasia” fora rebatizada de “Sonata ao Luar”. O “delito”, ocorrido dez anos após a sua morte foi perpretado pela imaginação do crítico alemão Heinrich Rellstab, que associou o início da famosa peça à imagem de um barquinho navegando no lago de Lucerna numa noite de lua cheia.

******************************

O elogio fúnebre é-me impossível. Fico sem ar, sem ânimo, sem palavras. E quanto maior a intimidade, maior o pudor.

******************************

A Filosofia Oriental debruça-se sobretudo sobre o indivíduo, por forma a que a sua vida seja a mais apropriada para viver em qualquer tipo de sociedade. A Filosofia Ocidental debruça-se sobretudo sobre a sociedade, por forma a que esta seja a mais apropriada para que nela viva qualquer tipo de indivíduo.

******************************

Os países depauperados são aqueles onde o papão “Grande Capital” tem maior acolhimento.

******************************

Detesto tanto a rotina que um dia destes morro só para saber como é.

******************************

O sábio é um eterno aprendiz.

******************************

Há mulheres muito bonitas que são como a fruta normalizada: sem cheiro, sem sabor, sem substrato.

******************************

São três as características das teorias sociológicas:

1- Não nascem do nada, têm sempre algo em que se baseiam — outras ideias ou teorias;

2- São resposta a questões sociais concretas: por isso aparecem sempre em períodos de convulsão social;

3- São datadas no tempo: como qualquer produto humano, não podemos extrapolá-las para o futuro, pois ficam fora de prazo.

******************************

Quem é o liberal? Um indivíduo que sabe:

1- Que o poder político (entenda-se, o Estado) é sempre um mal;

2- Que o poder político é sempre um mal, mas é, também, sempre um mal necessário.

******************************

Só há uma possibilidade de eternidade: o nada. Uma vez que existe alguma coisa, nada é eterno.

******************************

Tudo o que não precisamos é destes aparentes cinismo e frieza que bailam no lábio inferior de António Costa. (Em tempos de catástrofe).

******************************

Para perceber quem somos temos de sair da nossa paróquia, abarcar o mundo.

******************************

Há algo mais importante que a revolução: a vida!

******************************

Em tempos difíceis, duros, catastróficos, precisamos mais de estadistas (Marcelo) do que de políticos (Costa). Políticos há muitos, estadistas há poucos. Mas quem é, afinal, o estadista? Aquele que sofre as penas do povo, com o povo.

******************************

Não gosto de utopias nem de distopias. Prefiro o otimismo militante na luta por um mundo melhor.

******************************

Uma das razões porque não sou um crítico ainda mais severo da política externa da maior potência mundial — os Estados Unidos — é porque penso sobre as alternativas. Serão preferíveis a Rússia, ou a China, ou uma grande coligação islâmica liderada pela Turquia?

******************************

O liberal não defende apenas as liberdades política e económica. Defende de igual forma a liberdade de pensamento. Ele não é fiel a nenhum partido, nenhuma ideologia, nenhuma moda, nenhum dogma, apenas à sua consciência.

******************************

Para conheceres o teu país precisas de conhecer o mundo.

******************************

Quase nunca se parte para uma discussão com a atitude construtiva de aprender; quase sempre se parte com a atitude destrutiva de vencer o interlocutor.

******************************

Não há romantismo sem heróis, nem heróis sem romantismo.

******************************

Os Bem-Intencionados, na Rua do Paraíso, nos arrabaldes de Alfama, era uma coletividade onde todos os dias se jogava à batota. Foi assim durante décadas, o que corrobora a ideia de que os bem-intencionados são com frequência batoteiros.

******************************

A grande diferença entre as ciências ditas “naturais” e as apelidadas “humanas”, é que estas estão impregnadas de ideologia. Não admira, é por isso mesmo que são “humanas”.

******************************

O marxismo e a guerra

O marxismo é uma religião e, tal como outras religiões, tem várias correntes – leninista, estalinista, trotskista, etc.

Quem não é da nossa religião é nosso inimigo, e é por isso que, onde vigora a religião, a perseguição aos hereges é efetiva e implacável.

As diversas seitas marxistas divergem entre si em vários pontos, mas o que as une é a convergência na identificação do principal inimigo – o maldito Ocidente e o seu modo de vida liberal e capitalista.

Assim, qualquer luta contra o Grande Satã é também a nossa luta, não importa que monstro tenhamos de engolir.

Putin? É apenas mais um.

**************************************************

Notas breves sobre a Guerra

Foto retirada de https://veja.abril.com.br/mundo/como-a-economia-mundial-sente-os-efeitos-do-ataque-de-putin-a-ucrania/.

1- Ao contrário do que aconteceu no Iraque de triste memória, desta vez os americanos e os ingleses tinham razão. Houve mesmo invasão em larga escala.

2- Como é possível que, depois da Chechénia, do novichok, das execuções, das invasões, da Síria, dos ciberataques, só agora tanta gente no Ocidente tenha percebido quem é, realmente, Putin? E quantos séculos de subjugação tornaram possível que tantos russos não vejam, ou não queiram, ou não possam ver?

3- O povo ucraniano abandonado à sua sorte – que triste sorte! E como fica a nossa consciência nisto? É deprimente.

4- A decisão da Alemanha de abandonar precocemente a energia nuclear foi um erro. Sob vários pontos de vista, um erro crasso.

5- Só em tempo de guerra é lembrado o valor da paz. De resto, esse velho sonho de Kant que deveria constituir a base das relações internacionais – tem pouco eco na agenda das forças políticas mundiais. Urge o desarmamento nuclear. Precisam-se novos Churchill e Eisenhower.

6- Quando distinguimos entre ditaduras e ditadores, quando uns nos são mais simpáticos que outros, deveríamos perceber que algo de errado se passa connosco. Não há ditaduras nem ditadores suaves.

7- A verdadeira dicotomia não é entre esquerda e direita, isso é anacrónico. A verdadeira dicotomia é entre democracia (como a entendemos no Ocidente, a chamada “democracia liberal”) — onde podemos ter a esperança de nos vermos livres de políticos indesejáveis por meios pacíficos — e tirania — onde os ditadores como Putin só podem ser travados com derramamento de sangue.

8- O nacionalismo é uma das piores doenças do nosso tempo.

9- Haverá algum comunista em Portugal que sinta vergonha pela posição do PCP sobre esta guerra? Claro que não. Se sentisse teria de deixar de ser comunista. Teria de apostatar. O comunismo é uma religião.

10- O posicionamento ideológico que procura, se não justificar, pelo menos relativizar a agressão de Putin é revoltante. Quase tanto quanto a própria guerra.

11- Glória ao povo ucraniano! Glória a Navalny e aos russos que se manifestam em Moscovo, S. Petersburgo e outras cidades contra esta guerra, que tem um responsável máximo — o déspota Putin!

**************************************************

Progresso ou degenerescência

A evolução das ideias é semelhante à evolução das espécies. Umas ramificam-se, outras morrem, outras renascem quando se pensava que já estavam extintas. Quando um homem quer difundir as suas ideias, a primeira coisa que faz é fundar uma escola. O pioneiro desta estratégia – que se revelou até hoje incrivelmente bem sucedida – foi Platão, quando criou a sua célebre Academia. Desde aí, as escolas vêm florescendo, dentro das ciências ditas “humanas”, na Filosofia, na Sociologia, na própria Economia, e a sua influência estende-se, talvez surpreendentemente para os mais distraídos, até às ciências ditas “naturais”. (Há sempre quem lute pela integridade da Ciência e essa luta é, enquanto espécie, a nossa maior esperança).

Quase todos nós somos, hoje, mesmo sem o sabermos, discípulos de uma ou outra escola. O homem é um animal religioso, precisa de acreditar em algo, e, nesse sentido, as ideologias transmitidas pelas escolas sociológicas são as religiões modernas, tanto mais fervorosas quanto mais radicais. As ideologias podem ser enquadradas em dois grandes grupos. Os indivíduos que pertencem ao primeiro grupo acreditam que vivemos no melhor mundo de sempre; os membros do segundo grupo, sob forte influência da ideia platónica de degenerescência, acreditam que o mundo corre para o abismo e que, portanto, é urgente salvá-lo. Os do primeiro grupo acreditam mais nas instituições do que nos líderes; os do segundo grupo acreditam em líderes messiânicos que conduzirão as massas – há demasiado tempo encerradas na caverna – à descoberta da verdade.

**************************************************

Vamos a votos

Reflexão eleitoral à mesa do café: o bom rumo de um país é uma navegação à bolina; bordos cerrados para mais rapidamente atingirmos o destino. Quatro, oito, doze ou mais anos no mesmo sentido ou, ao invés, uma mudança de rumo estão dependentes das decisões do eleitorado flutuante, que é quem comanda efetivamente o nosso navio.

**************************************************

Varela radical

Foto de Varela retirada do sítio esquerdaonline.com.br. Sempre rodeada de livros, procura vincar a sua faceta intelectual. Entretanto, os livros que ela própria publica baseiam-se em trabalho de pesquisa feito por jovens bolseiros1, que se queixam de um “inferno laboral”. 2

Raquel Varela, paga por todos nós, continua em grande forma a debitar asneiras nas rádio e televisão públicas. Como tal é possível, não sei. Mas sei que isto revela muito daquilo que somos. A última tirada de Varela – que costuma deixar os companheiros de painel meio aparvalhados com os seus dislates – foi no programa de ontem, “O Último Apaga a Luz”, quando pronunciou, com naturalidade, que a economia é “ideológica”. Varela tinha obviamente como alvo o sistema económico em que vivemos, dito capitalista, esse sistema maldito que ela tanto deplora. Nenhum dos interlocutores lhe respondeu. Mas o que algum deles lhe poderia ter dito é que, sim, o homem é um animal potencialmente ideológico e, nesse sentido, tudo o que é humano está impregnado de ideologia. Acresce, porém, que a economia é também uma ciência e, tal como em outras ciências, mais ou menos influenciadas pela ideologia, há coisas estabelecidas. Por exemplo, em astronomia, pensava-se até certa altura que o sol rodava em torno da Terra, mas hoje sabe-se que é a Terra que roda em torno do sol. Em biologia, pensava-se que havia uns homúnculos minúsculos dentro do sémen humano, mas hoje sabe-se que são os genes que detêm e transmitem as instruções para a construção dos corpos (na verdade, de tudo o que é vivo). Em física, pensava-se que o átomo era o último constituinte da matéria, mas hoje sabe-se que há inúmeras partículas elementares dentro do próprio átomo, não sendo este, portanto, indivisível. E por aí fora.

Ora, também em economia, se chegou a pensar que a eliminação do lucro (ou, para usar uma linguagem marxista, a eliminação da “mais valia”) traria progresso, paz, prosperidade e igualdade ao mundo, mas hoje sabe-se que as atividades económicas lucrativas é que proporcionam progresso, bem-estar, desenvolvimento e, quando combinadas com políticas sociais adequadas, as sociedades mais felizes e mais igualitárias de que temos conhecimento. Pelo contrário, as sociedades que procuraram eliminar o lucro sempre trouxeram miséria, sofrimento, um pequeno grupo de privilegiados no poder e o restante povo oprimido.

Isto é histórico, e a história é a melhor ferramenta que temos para avaliar as ideologias. Supostamente, uma “historiadora”, como Raquel Varela, deveria sabê-lo. Mas, ao contrário, ela deturpa a própria história, porque, projetando em outros a sua personalidade dogmática (a projeção é uma marcada característica psicológica dos demagogos), é ela quem está completamente condicionada pela ideologia.

Por fim, deveriam dizer-lhe ainda, que sim, é bem possível, como vimos, que a nossa ideologia ou, num sentido mais lato, as nossas ideias, inclusive as económicas, nos influenciem. É por isso que devemos estar sempre vigilantes e atentos relativamente aos factos e à realidade, e nos interroguemos, a cada passo, sobre em que medida a nossa perspetiva está limitada pela nossa matriz ideológica. Esta é a atitude dos moderados e tolerantes, pois sabem que são influenciáveis, cometem erros e não são infalíveis. Mas não é nada disso que se passa com a radical Varela, inflada de certezas, paga pelos contribuintes para continuar a dizer alarvidades. E são alarvidades e não meros disparates, porque a sociedade que Raquel Varela preconiza, como todas as outras onde foi tentado o socialismo radical, é um tipo de sociedade onde não existe liberdade, onde, a despeito da propaganda, homens e mulheres sofrem as agruras da prisão, da tortura e, amiúde, a agonia da própria morte.

**************************************************

Notas:

1 A este propósito, lembrei-me do que escreveu Richard Dawkins no prefácio à edição de 1989 de “O Gene Egoísta”: “tomei recentemente conhecimento de um facto desagradável: existem cientistas influentes com o costume de colocarem os seus nomes em publicações em cuja composição não desempenharam qualquer papel. Aparentemente, alguns cientistas de categoria mais elevada reivindicam autoria conjunta de artigos em que a sua contribuição se resumiu ao espaço de bancada, aos fundos de investigação e à revisão do manuscrito. Pelo que sei, podem ter-se construído reputações científicas inteiramente baseadas no trabalho de estagiários e de colegas! Não sei o que se poderá fazer para combater esta desonestidade”. (Richard Dawkins, “O Gene Egoísta”, Gradiva, Lisboa, 2021, p. 29).

2 https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/bolseiros-queixam-se-de-inferno-laboral-de-raquel-varela.

**************************************************

Os liberais

Alguns liberais famosos: Mises, Hayek, Smith, Kant, Popper e Llosa. (montagem nossa a partir de imagens retiradas da Wikipédia).

Quem foram os maiores inimigos da realeza e da Igreja, no tempo em que alguns homens (e também algumas mulheres) lutavam pela separação de poderes? Quem foram os inimigos dos absolutistas em Portugal e na Europa? Quem foram os representantes e símbolo da burguesia mercantil que Marx tanto detestava? Quem uniu, na Alemanha, socialistas, conservadores e nacionalistas num ódio-comum que viria a culminar na criação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, mais conhecido por Partido Nazi (Partido Nazista, para os amigos brasileiros)? Quem era o alvo a abater, em Itália, pelo Partido Nacional Fascista, de Mussolini, com o apoio da Igreja? Quais são os regimes que o assassino Putin abomina e procura armadilhar? E já agora, quem são, apesar de tão poucos ainda, os arqui-inimigos de Francisco Louçã, Ricardo Paes Mamede, João Teixeira Lopes e outros elementos das Esquerda e Direita sectárias, hoje, em Portugal?

A resposta comum a todas estas perguntas é simples: os liberais.

Por estas e outras razões de peso, é nosso dever repudiar esses abomináveis amantes da liberdade e do constitucionalismo – os detestáveis liberais.

**************************************************

O Grande Capital

O Liechtenstein em primeiro plano e, ao fundo, separada pelo Reno, a Suíça. O homem ordena, em seu benefício, a natureza.

Depois de uma viagem de 5,935 quilómetros pela Europa, regressámos a Portugal. Do Liechtenstein e da Suíça para baixo, a paisagem vai mudando, e com ela a organização, o ordenamento e a própria condição das estradas por onde circulamos. França, Espanha e, finalmente, Portugal, sempre a descer no mapa e na qualidade. Regressámos ao país por Vila Real de Santo António e seguimos pela Nacional 125. Nas bermas da rodovia acumulam-se o mato, o lixo e a desordem.

Mas, para lá da paisagem, algo que constatámos na Suíça e que contrasta flagrantemente com o que se passa em Portugal, é a descentralização. O que se tem passado em Portugal com a apelidada “bazuca” seria impensável na Suíça, um país que é, ele próprio, uma bazuca. António Costa (e Silva), o estratega, amigo de António Costa, o primeiro-ministro, foi encarregado de elaborar um plano para identificar as principais áreas onde aplicar os muitos milhões que a União Europeia vai entregar a Portugal. Isto é realmente o cúmulo do provincianismo — acreditar em indivíduos omniscientes — algo que jamais aconteceria na Suíça, talvez o país mais descentralizado do planeta. Em Portugal, pelo contrário, tudo passa pelos indivíduos providenciais, adstritos aos gabinetes ministeriais em Lisboa. O resto é paisagem, praticamente abandonada.

É a este abandono que se devem os grandes incêndios que deflagram regularmente em Portugal, muito mais do que aos “grandes interesses económicos” tão propalados pelos ideólogos de uma esquerda anacrónica, que tem no nosso país uma representatividade exacerbada, quando comparada com o que se passa na Europa civilizada.

Mas o arqui-inimigo da esquerda marxista é uma entidade abstrata chamada “Grande Capital”, um papão repetidamente agitado pelos discursos de Jerónimo de Sousa, um beato bem-intencionado dessa igreja laica que é o Partido Comunista Português. Já os suíços, pelo contrário, não têm medo nenhum do “Grande Capital”, convivem pacificamente com ele todos os dias. Falar-se do “Grande Capital” num país cronicamente depauperado como Portugal é ridículo, risível, de facto, uma anedota que se contaria com agrado, não fora a vergonha por haver tantos compatriotas que nela acreditam.

Algo que seria igualmente impensável na Suíça é o protagonismo que se dá em Portugal a tantos e tantos comentadores. Somos, de facto, um país de palradores. Um caso paradigmático é o de Raquel Varela, uma ideóloga lunática, supostamente historiadora, com amplo espaço mediático na rádio e televisão públicas, ou seja, paga por todos nós. As ideologias radicais estão confinadas na Suíça (e nos outros países socialmente avançados) à academia, onde alguns excêntricos, de resto, com uma credibilidade muitíssimo superior à de Varela, se dedicam ao seu estudo, não à sua divulgação. Acontece assim porque seria inútil propagandear algo que uma população culta e educada reconhece como anacrónico e irrealista.

Portugal, pelo contrário, mantém-se um país de teóricos e críticos, e não surpreende, portanto, que se mantenha um país crítico.

O endividamento crónico da terceira república portuguesa, fruto de opções marcadamente ideológicas, contrárias à racionalidade económica, hipoteca, de forma trágica, a vida das novas gerações.

Como diria o outro, “é a economia, estúpido!”

**************************************************