O individualista

mariana

Mariana Mortágua. O novo fenómeno da política (à) portuguesa.

Uma palavra que continua a fazer parte da retórica da (extrema) Esquerda é o termo “individualismo”. Os demagogos e demagogas oficiais (como Mariana Mortágua) continuam a confundir as pessoas, deliberadamente ou por mera ignorância, fazendo a associação entre “individualismo” e “egoísmo”, considerando-os sinónimos, embora estes conceitos, no jargão da sociologia política, nada tenham a ver um com o outro.

Na verdade, o que se opõe ao egoísmo é o altruísmo e o antónimo de “individualismo” é “coletivismo”. Assim, um indivíduo pode ser altruísta e individualista, bem como outro qualquer pode ser egoísta e coletivista. Do ponto de vista político, ser individualista significa ser autónomo; e a autonomia pode (e deve) ser vista como um processo – que se iniciou nos tempos do tribalismo e que continua em curso.

Só quando o homem se emancipou da tribo é que começou a pensar sobre o mundo de uma forma racional, e dessa atividade nasceram a filosofia e as ciências, enfim, nasceu uma nova cultura. Antes, nos tempos tribais, não existia individualismo. Cada indivíduo tinha o seu papel bem definido no seio fechado da tribo, era, por assim dizer, uma peça do coletivismo tribal, não possuía pensamento crítico.

Ora, o que os apologistas do coletivismo desejam é, precisamente, um regresso à sociedade fechada e previsível da tribo. Talvez esta afirmação soe um pouco estranha e excessiva, mas basta ler algumas obras (como A Origem da Desigualdade entre os Homens, de Rousseau, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels, e O Capital, de Marx) para se comprovar que ela faz todo o sentido. A tribo representa para os coletivistas uma espécie de paraíso perdido, com seu modo de vida harmonioso e integrado: homem e natureza.

O fio condutor das visões destes autores é a ideia de “degenerescência”, que percorre a nossa cultura desde os tempos de Platão até agora: houve uma descida aos infernos, que se seguiu ao abandono do modo de vida tribal. Esta ideia não é totalmente estranha, se pensarmos que, a partir de certo ponto, as mudanças sociais ocorreram muito mais depressa que as alterações biológicas, e a nossa mente funciona ainda, em larga medida, como funcionava no período tribal, há milhares de anos, não se tendo ajustado ainda a novas formas de sociedade.

(Veja-se a nossa necessidade de pertença a entidades coletivas – pátrias, nações, cidades, bairros, religiões, ideologias, partidos políticos, clubes de futebol, etc. – entidades que estamos dispostos a defender, não de uma forma racional e livre, mas apenas porque são a “tribo” à qual pertencemos; veja-se igualmente o fenómeno de massas que foi o nazismo, e o seu caráter tribal e irracional, etc., etc.).

A ideia de degenerescência é constatável no discurso pessimista dos extremistas de Esquerda (e de Direita): tudo o que acontece na nossa cultura corrompida é mau; a sociedade capitalista resulta de uma sequência de pecados – como o comércio, o dinheiro, a industrialização, a mais-valia, os bancos, os mercados financeiros (e até, como se vê hoje, em Portugal, o turismo) – que nos irá conduzir ao abismo. É por isso que é preciso regressar à segurança, ao mundo bem ordenado e ao comunismo da tribo.

O individualista, pelo contrário, não quer este regresso à sociedade fechada. Ele aceita um futuro aberto, que não sabe qual será, mas que está disposto a construir. O individualista, portanto, é aquele que ama a liberdade. Para compreendê-lo, porém, é preciso ir além de Marx.


foto retirada de http://www.vip.pt

O Capital – Livros I e II

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Os dois primeiros livros de O Capital, publicados pela editora brasileira Boitempo.

1- A PROBLEMÁTICA DAS EDIÇÕES D’O CAPITAL

O Capital (cujo título completo é O Capital: Crítica da Economia Política[1]) é uma obra monumental, dividida em quatro volumes. Marx trabalhou cerca de vinte anos na sua construção, e apenas o Livro I – O Processo de Formação do Capital[2] – foi, em 1867, na Alemanha, editado por ele[3]. Só depois de Marx ter morrido (em 1883), é que Engels editou os livros II e III, respetivamente, em 1885 e 1894. O último volume (Livro IV) só foi publicado após a morte de Engels (1820-1895), em 1905, numa edição de Kautsky.

Para lá da extensão, O Capital é igualmente uma obra complexa. A sua organização constituiu um grande problema. Os manuscritos que Marx deixou tiveram que ser interpretados, ordenados e estruturados para, com base neles, Engels editar os livros II e III[4]. No entanto, Engels não se limitou a esse papel escrutinador. “Em seu árduo trabalho editorial, ele também entendeu ser necessário preencher diversas lacunas no corpo do texto marxiano, estabelecendo conexões e desenvolvendo pontos que julgava não estarem suficientemente explicitados”[5], de tal forma que alguns estudiosos da obra, sustentados em investigações recentes, chegam a admitir que a autoria dos livros II e III deveria ser atribuída a Friedrich Engels e não a Karl Marx[6].

Porém, Engels jamais aceitaria essa autoria. A sua fidelidade a Marx foi total. Engels dedicou-se, após a morte de Marx, à obra essencial do amigo, deixando para segundo plano, ou mesmo abandonando, os seus projetos pessoais (apesar de ainda ter publicado um livro de sua autoria[7]). Este grande trabalho de Engels foi muito importante e continua, hoje, praticamente desconhecido do grande público. E foi também um trabalho ingrato: os manuscritos deixados por Marx sobreviveram até à atualidade[8] e têm sido alvo de um minucioso escrutínio por parte de especialistas, muitos dos quais apontam erros substanciais ao trabalho do pobre Engels. Isto seria sempre inevitável, e só o facto de Engels se ter sujeitado a críticas que (ele sabia) iriam durar muito para lá da sua vida, já prova a extraordinária amizade que o ligava a Marx.

2- ENQUADRAMENTO HISTÓRICO-SOCIAL D´O CAPITAL

O Capital é uma obra de Economia que deve ser encarada sob um ponto de vista mais amplo. É esta, aliás, a perspetiva do próprio Marx, que reclama um enquadramento histórico do capitalismo, sem o qual este dificilmente será compreendido. Aliás, segundo ele, o indivíduo não é mais do que uma peça na engrenagem do imparável processo histórico[9], sendo inútil qualquer tentativa para contrariar esse processo. Este aspeto de O Capital é muito importante, pois revela que a obra essencial do marxismo não pode ser desligada do contexto histórico nem, sobretudo, de uma visão político-social, defendida por Marx e Engels, que podemos apelidar de historicista[10]. Por outras palavras, o processo histórico da luta de classes, tal como Marx o desvendou, teve um início, um meio (a época de capitalismo selvagem em que Marx viveu) e teria um fim com o advento da sociedade socialista, e a tomada do poder pelo proletariado.

A teoria histórica de Marx desenvolve-se em três fases: a) análise das forças económicas do capitalismo e a sua influência sobre as relações entre as classes (O Capital trata apenas deste ponto); b) a inevitabilidade da revolução; c) a emergência da sociedade sem classes[11]. É a partir da análise realizada em O Capital (alínea a) que Marx retira as conclusões (erradas) das alíneas b) e c). De uma análise sobre o presente e o passado, Marx retira conclusões ousadas para o futuro; a partir de um conhecimento empírico, factual, histórico, Marx deduz o futuro, o qual nunca pode ser empírico, factual nem, obviamente, histórico. É por isso, que a teoria marxiana falha.

A previsão de Marx, e dos teóricos marxistas, era que o colapso do capitalismo e a tomada do poder pela classe operária ocorreria primeiro nos países onde o capitalismo estivesse mais desenvolvido. Ora, isso não aconteceu nem se vislumbra onde tal possa acontecer. Pelo contrário, as revoluções operárias (ou em nome dos operários e camponeses) realizaram-se em países pouco desenvolvidos do ponto de vista capitalista e foram impostas de forma violenta às populações. Mais: económica e socialmente, foram um desastre. Os marxistas usam normalmente dois tipos de “argumentos” para justificarem o fiasco que resultou dos governos comunistas: não estavam reunidas as “condições objetivas” ou, por outro lado, não existiram “condições políticas” (em geral, por inépcia dos governantes) para implementar a verdadeira doutrina comunista. Em suma: tudo o que possa correr mal não pode decorrer da teoria marxista, porque esta está correta, mas de algum fator externo.

Nós, porém, temos duas justificações diferentes, uma decorrente da doutrina de Marx, outra derivada dos marxismos. Pelo lado do próprio Marx, este quis que a sua doutrina fosse científica e materialista, procurou limpá-la da especulação filosófica (como ele próprio disse: “não basta interpretar o mundo, é preciso mudá-lo”). Marx pensou erradamente que o comportamento humano seria linearmente determinado pelo processo histórico, pelo condicionamento económico e social. Tinha uma visão determinista, possuía sólidos conhecimentos de Economia e de História, mas fraco entendimento de Psicologia; conhecia mal o homem: as suas aspirações, a sua capacidade de transformação e, sobretudo, o seu apego à liberdade. Isso conduziu-o ao historicismo. Por seu turno, os marxistas confundiram intenções com realidade. Se a intenção é boa, o resultado deverá ser igualmente bom, pensaram eles. Se algo falha, a culpa não é, naturalmente, de quem é bem-intencionado… Ora, esta confusão revelar-se-ia um erro fatal; um erro associado a morte e a sofrimento; um erro que – embora residual nas sociedades mais avançadas de hoje – ainda persiste.

3- CONTEÚDO DE O CAPITAL

Já nos referimos à extensão e ao detalhe desta obra de referência, uma das mais famosas de sempre. O Capital não é, de forma alguma, uma obra fácil. Louis Althusser[12], um marxista francês, avisa, em “Advertência aos leitores do Livro I d’O Capital“, que, “para ser compreendido, o Livro I precisa ser relido quatro ou cinco vezes consecutivas”[13]. Não seguimos o aviso de Althusser: lemos o Livro I, e também o Livro II, apenas uma vez. Isso não nos impediu – nem deve impedir ninguém – de emitir opinião sobre uma obra em que, apesar dos detalhe e minúcia, transparece de forma bem clara a intenção de seu autor: denegrir o sistema capitalista, denunciando aquilo que ele considera ser o seu caráter iníquo.

Marx viveu numa época em que o capitalismo selvagem, sem regras, proliferava na Europa, sobretudo em Inglaterra, fruto da Revolução Industrial. Foi uma época chocante, com horários de trabalho desumanos, condições degradantes, trabalho infantil, abuso do trabalho feminino, salários miseráveis, direitos sociais praticamente inexistentes. Marx indignou-se, justamente, com esta situação. Procurou as causas, o modus operandi do sistema capitalista. Tal como os economistas burgueses, que não fizeram mais do que “traduzir, sistematizar e fazer a apologia doutrinária das ideias dos agentes dessa produção (capitalista), presos às relações burguesas de produção”[14], também Marx não fez mais do que tomar em mãos a apologia dos interesses dos trabalhadores, mostrando como estes são explorados e precisam revoltar-se para derrotarem os capitalistas.

No Livro I, Marx mostra-nos como se dá essa exploração. Ele mostra que cada época tem, do ponto de vista económico, o seu modo de produção – é este que caracteriza e define cada época histórica. Quando as sociedades humanas viviam ainda fechadas, toda a produção era consumida no seio da tribo, não havia troca, nem comércio[15], nem dinheiro, tudo isso apareceu mais tarde, com o desenvolvimento técnico, particularmente dos transportes. No modelo económico que antecedeu o capitalismo – o feudalismo – o senhor feudal detinha os meios de produção, nos quais se incluía a força de trabalho do servo. E foi apenas com o surgimento da sociedade burguesa, quando o servo conquistou a liberdade e passou a poder vender a sua força de trabalho, tornando-se um assalariado, que surgiu, verdadeiramente, o capitalismo. O capitalista passou a ser o detentor dos meios de produção: a) o capital constante (matérias-primas terrenos, maquinaria, etc) e b) o capital variável (a força de trabalho).

É neste momento que surge o ponto crucial da “lei” de Marx – a teoria da mais-valia. Só existe capitalismo porque no ciclo de produção e circulação se estabelece uma mais-valia; e só existe mais-valia porque existe o trabalhador livre, portador da força de trabalho. É usando a força de trabalho em seu benefício (explorando-a) que o capitalista cria a mais-valia, aquilo que os ricardianos apelidavam de lucro. Isto acontece porque a força de trabalho – que, como qualquer outra mercadoria, deveria ser comprada pelo seu valor[16] (o tempo de trabalho necessário), no caso, o tempo necessário à produção dos meios de subsistência do próprio trabalhador  – é usada pelo capitalista muito para lá do necessário. Se, por exemplo, esse tempo for de 6 horas e a jornada de trabalho imposta ao assalariado for de 12 horas (como foi durante bastante tempo), as restantes 6 horas constituem uma mais-valia, capital que pode metamorfosear-se em vários tipos, como o capital-monetário[17], o capital-mercadoria e o capital produtivo. Esta é a questão fulcral de O Capital.

A nova teoria económica de Marx, baseada na mais-valia, corta com a chamada corrente da Economia Política, cujos representantes maiores são Adam Smith e David Ricardo, sobretudo em dois aspetos. Em primeiro lugar, ao introduzir o próprio conceito de mais-valia. Enquanto aqueles economistas se referem a “lucro”, ou seja, a uma dedução ao salário que é adiantado pelo capitalista ao trabalhador, considerada equivalente à parcela de trabalho que este adiciona à matéria-prima, Marx vem dizer  que essa dedução corresponde a trabalho excedente, a uma parte não remunerada do trabalho, ou seja, a uma mais-valia, que deve constituir, segundo Marx, uma categoria própria – e muito importante – de qualquer teoria económica. Em segundo lugar, Marx introduz o importantíssimo conceito de “força de trabalho”. Esta força de trabalho é portadora de um valor específico – como “a gravidade pode ter um peso especial, o calor uma temperatura especial, ou a eletricidade uma voltagem especial”[18] – e não um valor que não é rigoroso, tal como o que está incluído no conceito simples, e anterior a Marx, de “trabalho”. É o conceito específico de força de trabalho que nos permite avaliar o valor do trabalho incorporado numa mercadoria (o trabalho socialmente necessário para a sua produção e reprodução) e, simultaneamente, nos permite avaliar com rigor o valor apropriado pelo capitalista como mais-valia (ou mais -valor).

Evidentemente, isto passa-se na época da Revolução Industrial, pelo que o capital dessa época se designa por “capital industrial”, e é este que Marx analisa nas suas fases de produção e circulação, as quais estão intimamente ligadas e formam uma unidade[19]. Esta unidade também pode ser chamada de “capital total”. Neste ciclo maior, o capital transforma-se sucessivamente em capital-mercadoria, capital-monetário e capital-produtivo (cada um deles com seu ciclo especifico e todos interligados) num processo contínuo que se reproduz indefinidamente. O mais óbvio destes ciclos menores é, aparentemente, o capital-monetário porque, de acordo com Marx, a sua “finalidade e motivo propulsor – a valorização do valor, o ato de fazer dinheiro e a acumulação – apresentam-se aqui numa forma evidente (comprar para vender mais caro)”[20].

Não vamos entrar em detalhes sobre o que se passa em cada ciclo, nem decompor outros conceitos importantes da teoria económica de Marx. Limitamo-nos, modestamente, ao essencial, tendo o cuidado de relembrar que este artigo se refere “apenas” aos livros I e II dessa obra ciclópica chamada O Capital. Há que reconhecer muito mérito a Marx. Para lá da nova perspetiva que introduziu sob o ponto de vista económico, Marx produziu igualmente uma obra erudita, sob os pontos de vista histórico, social e, até, literário. Uma obra de qualidade incontornável. Deveríamos fechar este artigo com uma “conclusão”, mas tal deverá ser realizado apenas após a leitura dos livros III e IV. Até lá.


Notas:

[1] No desenvolvimento do presente trabalho adotaremos sempre o título abreviado, aquele, aliás, pelo qual a principal obra de Marx (e Engels) foi popularizada : O Capital.

[2] Livro II- O Processo de Circulação do Capital; Livro III- O Processo Total da Produção Capitalista; Livro IV- Teorias do Mais-Valor.

[3] Marx nasceu em Trier, no sudoeste da Alemanha (Renânia), a 5 de maio de 1818, e faleceu em Londres, a 14 de março de 1883.

[4] O Livro I é composto de textos escritos por Marx entre 1866 e 1875; o Livro II, de textos surgidos entre 1868 e 1881; o Livro III, de um manuscrito redigido em 1864-1865.

[5] O Capital- Crítica da Economia Politica, Livro II- O Processo de Circulação do Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, Nota da Tradução (Rubens Enderle), p. 14.

[6] Isso mesmo nos diz David Harvey em Para entender O Capital: Livros II e III, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, p. 15.

[7] A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado. Temos  Uma edição brasileira desta obra. Lafonte, São Paulo, onde Engels não esconde o seu fascínio pelos tempos tribais, quando não existiam ainda as instituições que figuram no título do seu último livro.

[8] Manuscritos que foram classificados em grandes grupos, denominados Manuscrito I, II, III… até VIII.

[9] “Meu ponto de vista, que apreende o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode menos do que qualquer outro responsabilizar o indivíduo por relações das quais ele continua a ser socialmente uma criatura, por mais que, subjetivamente, ele possa se colocar acima delas” (Prefácio da 1ª edição de O Capital, escrito por Karl Marx, ob. cit., Livro I, p. 80).

[10] Empregamos aqui o termo “historicismo” no sentido popperiano. Neste sentido, uma teoria historicista caracteriza-se por prever (determinar) o futuro da sociedade. Para Marx, essa sociedade futura seria dominada pela classe operária. Ainda no jargão popperiano, trata-se de uma teoria (social) “fechada”. Para Popper, o futuro é aberto, indeterminável. Daí o título da sua obra, de 1945, A Sociedade Aberta e seus Inimigos, tratada em artigo deste blogue, que pode ser lido aqui.

[11] Estas fases foram (bem) definidas por Karl Popper (A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 136). 

[12] Louis Althusser (1918-1990), filósofo marxista, foi professor da École Normale Supérieure de Paris. Em 1980, imagine-se, matou a mulher por estrangulamento.

[13]  O Capital- Crítica da Economia Politica, Livro I – O Processo de Produção de Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2013, p. 44.

[14] O Capital- Crítica da Economia Política, Livro II – O Processo de Circulação do Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, p. 99.

[15] “A circulação de mercadorias é o ponto de partida do capital”. (Livro I, p. 223).

[16] É muito importante perceber que qualquer mercadoria só tem valor porque tem trabalho associado. A força de trabalho tornou-se, com o capitalismo, ela própria, uma mercadoria.

[17] O dinheiro que não é investido não pode ser considerado capital.

[18] Livro II, p. 99 (Prefácio da primeira edição, escrito por Engels).

[19] “O processo inteiro apresenta-se como unidade do processo de produção e do processo de circulação; o processo de produção torna-se mediador do processo de circulação, e vice-versa” (Livro II, p.179). 

[20] Livro II, p. 138.

Portugal e o Turismo

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Os Caretos na Rua Augusta, em Lisboa.

Ao deslocarmo-nos há dias pelo Norte de Portugal – em Amarante, no Alto Douro Vinhateiro e no Porto (sétima cidade europeia onde o turismo mais cresceu) – verificámos o mesmo fenómeno a que já assistíramos recentemente em outras partes do país, sobretudo nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, em Lisboa, no Alentejo e no Algarve: um fluxo turístico que varre Portugal de Norte a Sul, de Este a Oeste, algo nunca visto até hoje.

Se virmos bem, era apenas uma questão de tempo. Portugal tem condições ímpares para a prática turística: clima excelente, boa gastronomia, gente acolhedora, riquezas naturais e culturais, diversidade, custo de vida baixo, tranquilidade e segurança. A oferta tem vindo a adaptar-se à crescente procura, sobretudo no que toca ao alojamento, com a proliferação de hotéis, albergues, casas de campo, apartamentos particulares, etc. Muita gente ganha a vida trabalhando na área do turismo, cada vez mais.

O turismo representa já uma percentagem muito importante do PIB nacional, e isto quer dizer que, se não fossem as receitas deste setor, estaríamos numa posição muito pior do que aquela em que infelizmente nos encontramos. José Hermano Saraiva referia-se muitas vezes, em seus programas televisivos, à importância do turismo e à vocação de Portugal para essa atividade económica. E tinha toda a razão: Portugal é um país turístico por excelência; poderia e deveria aproveitar muito melhor esse potencial, ser para a Europa o que a Florida é para os Estados Unidos, por exemplo. Por que não?

O turismo deveria ser, de facto, o nosso setor económico estratégico, visto não termos dimensão, nem reservas naturais, nem localização para sermos uma grande potência noutras áreas. Claro que devemos ser competitivos, mas se os outros o forem tanto quanto nós (e geralmente são-o mais), perderemos sempre, pois estamos na periferia da Europa e não temos massa crítica (mercado interno) para crescermos (já para não falarmos da inépcia dos nossos políticos, da corrupção, da nossa tradicional dependência do Estado, etc., etc.).

O turismo é, pois, estratégico porque é aquilo em que somos naturalmente bons. Isto é tão óbvio que chega a ser patético assistir ao coro de críticas que ultimamente se tem erguido contra o fluxo turístico. É algo verdadeiramente incompreensível: reclamamos porque não há dinheiro e reclamamos contra quem vem cá deixar o seu dinheiro. Esquecemos, ou ignoramos, que só nos desenvolvemos quando nos abrimos ao mundo. Fecharmo-nos só nos tornará ainda mais estúpidos. E mais pobres também.

Alfama à Solta

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Alfama. Muitos capilares, poucas veias e uma única artéria.

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Metade do gesto elegante é pura hipocrisia. Mas isso não lhe retira o encanto.

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Uma vez que defendo, no campo do conhecimento, o abandono da metafísica, enquanto matéria filosófica, aparentemente não restará à Filosofia qualquer papel, uma vez que todas as ciências dela se emanciparam. Porém, embora cada ciência tenha o seu objeto próprio, já todas estiveram integradas numa única disciplina – a Filosofia. Isto quer dizer que todas elas mantêm uma ligação entre si, apesar da sua autonomia. A disciplina que trata dessa ligação, que une todas as ciências, é precisamente a Filosofia.

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O ser humano que se aventura no desconhecido, qual passarinho lançado no espaço antes do acordo da mãe, é, em geral, o mais nobre e generoso.

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O milagre económico da Direita redunda, em geral, em desastre social; o milagre social da Esquerda redunda, em geral, em desastre económico.

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Os sintomas de clubite aguda são, amiúde, a ponta do iceberg de uma patologia crónica, por definição incurável, face à incapacidade do indivíduo reconhecer – e tão pouco admitir – o seu estado de mania ou depressão.

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O futebol é a forma socialmente aceite de desejarmos o pior aos nossos vizinhos e amigos.

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A Liberdade, individual ou coletiva, é algo tão amplo, profundo e desconhecido que chega a ser assustador. É por isso que as regras sociais não são suficientes, precisamos de outras balizas para não nos sentirmos perdidos no mundo. A adoção de dogmas, pessoais ou coletivos, é o preço a pagar pelo medo da Liberdade.

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São desinteressantes as entrevistas em que os convidados falam de si próprios. As vidas privadas têm, por vezes, interesse público, mas quase nunca quando analisadas em causa própria. É entediante a conversa sobre idiossincrasias de personalidades infladas pelo sopro mediático. Fernando Pessoa tinha razão: a publicidade da vida privada é, esteticamente, algo desprovido de valor.

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Nenhuma carreira produz resultados tão definidos como a de advogado – 1% de heróis e 99% de cretinos.

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Os problemas da Esquerda em relação ao Estado resumem-se a uma questão de cor.

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Esquerda e Direita são como dois sacos onde cada um – de acordo com a sua história pessoal – coloca o que quer. Eu há muito que despejei cada um deles. E para que não restassem dúvidas, lancei os sacos no lixo.

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É verdade, às vezes, fico hesitante. É que vejo tanta gente com ar professoral, convencida da sua sapiência, que fico de pé atrás – quem me diz que não acontece o mesmo comigo?

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Não é procurando provas que confirmem a nossa posição que a fortalecemos. Fazêmo-lo buscando provas contrárias à nossa posição.

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Os ideólogos mais empolgados continuam falando como se estivéssemos ainda na Guerra Fria. Entretanto o mundo “pula e avança”.

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Há “filósofos” que nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos) e há filósofos que não nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos). Só estes últimos são filósofos verdadeiros. Quem não reconhecer a diferença entre os dois géneros não percebe nada de Filosofia.

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Há duas obras que nos fazem entender melhor o que são o totalitarismo e o historicismo, e ambas escritas na ressaca da II Guerra Mundial. Refiro-me aos trabalhos monumentais de Karl Popper e Hannah Arendt, respetivamente, “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” e “Origens do Totalitarismo”, duas das obras mais importantes do século XX. Quem não as leu terá certamente uma perspetiva mais pobre sobre a centúria onde mais seres humanos pereceram, face à incúria de políticos irresponsáveis.

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Em matéria política, a sabedoria está do lado do homem comum, não do dos intelectuais.

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As melhores sociedades humanas são aquelas onde se tenta minimizar o mal. As piores são aquelas onde se tenta maximizar o bem.

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Governar um país é como navegar à bolina. Ora para estibordo, ora para bombordo, apenas o necessário para manter o rumo.

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Pouco importa teres muitos conhecimentos se não tiveres com quem os discutir; pouco importa estares num lugar paradisíaco  se não tiveres com quem o partilhar; pouco importa o amor que tens no coração se não tiveres a quem o dar. As únicas coisas que te consomem sozinho são o ódio e a inveja.

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John Stuart Mill disse uma vez o seguinte ao liberal francês Alexis de Tocqueville: ” o gosto em fazer com que os outros se submetam a um modo de vida que consideramos mais útil para eles do que eles próprios consideram não é muito comum na Inglaterra”. É por isso que gosto tanto dos ingleses.

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Dois dos maiores países do mundo transformaram-se em Estados comunistas na sequência da Grande Guerra. A Rússia pela ajuda que a Alemanha deu a Lenine e a China por se sentir injustiçada com os termos do Tratado de Versalhes.

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Se algum pensamento te perturba, lembra-te que sentimentos negativos atingem a todos. Alguns ultrapassam-nos mais facilmente porque não são tão exigentes com eles próprios como tu és contigo.

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Muitas obras antigas não teriam sido realizadas se, naquele tempo, já existissem psicólogos.

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As ideologias são medicamentos fora de prazo.

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Gosto de pessoas que falham, que erram, que se enganam. Gosto de pessoas humanas. Mas pior que os infalíveis são os moralistas. Estes são os seres mais perniciosos em sociedade.

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Para Einstein o tempo é aquilo que se mede com um relógio e o espaço o que se mede com uma régua. E como se medem as teorias políticas? O instrumento adequado para medi-las é a História.

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Escrever bem implica dizer o que se pretende usando o menor número de palavras dentro do leque mais vasto possível.

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Que coisa é essa do comunismo, senão um regresso ao passado, ao tempo da gens, quando não existia ainda a propriedade privada, o casamento monogâmico, o comércio, o dinheiro vil? Os comunistas discordam da civilização, mas servem-se dela. Nenhum comunista larga tudo para viver em grupo fechado, na natureza.

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O excesso de culpa pode fazer-nos virar contra nós próprios até ao insuportável, e levar-nos a cometer um crime; a ausência de culpa pode transformar-nos em loucos psicopatas. Em nenhum outro lugar, como dentro de nós, é tão importante o equilíbrio.

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Acontece com frequência conceder-se maior tolerância a alguns seres humanos prolixos, extravagantes ou geniais, a quem não se leva a mal o exagero, a indelicadeza quando não a ofensa. A tolerância que eu possa ter – e tenho – não tem a ver com esses critérios. Em mim, os extraordinários não têm sobre os ordinários qualquer privilégio.

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O tempo é um imenso rolo compressor que tudo nivela.

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O princípio da morte sem dor (morte assistida) deveria ser consagrado numa sociedade verdadeiramente humana, como o é o “não matarás”, por exemplo. O verdadeiro salto civilizacional dar-se-á quando dedicarmos a quem parte a mesma atenção e cuidado que dedicamos a quem entra na vida.

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Nada pode mostrar-nos melhor a importância do equilíbrio do que um bom vinho.

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Nenhuma outra palavra é mais adequada como sinónimo de bode expiatório: judeu.

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Envelhecemos e tornamo-nos mais pragmáticos, menos idealistas; ficamos mais tolerantes, mas jamais menos sensíveis.

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A terminologia social e política é fértil em equívocos. Por exemplo, é comum considerar os partidos marxistas-leninistas, e a esquerda mais radical, como “progressistas”. Ora, isto é uma enorme falácia, frequentemente ignorada. De facto, a génese dos pensamentos de Marx e Engels (e antes deles de Platão e Rousseau, entre outros) é conservadora e retrógrada: representa o regresso ao passado, ao tempo sem Estado, sem propriedade privada, sem pensamento crítico, sem ciência e filosofia – é o regresso ao tribalismo mágico. E se é legítimo querer e defender este regresso, já é completamente ilegítimo querer impô-lo aos outros, mesmo que para tal se use os mais variados subterfúgios, como o de apelidar esse caminho de “progressista”.

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Faz-me confusão a militância canina; o fervor de Testemunha de Jeová; o comportamento tribal; a completa ausência de autocrítica; a realidade distorcida e falseada pela cegueira ideológica (ou religiosa, ou clubística, ou outra qualquer); a incapacidade de perceber que são aqueles que mudam da direita para a esquerda e da esquerda para a direita quem faz o caminho, porque a vida é uma navegação à bolina, não uma viagem a favor do vento.

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Há três tipos de marxistas: 1) Os que nunca leram “O Capital”; 2) Os que leram “O Capital” e não o entenderam; 3) Os que leram e entenderam “O Capital”. Noventa e nove por cento dos marxistas atuais pertencem aos dois primeiros grupos. Isso explica, em larga medida, porque existe um abismo entre a doutrina de Marx e os diversos marxismos.

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Os melhores medidores do desenvolvimento social de um Estado são as prisões e os hospitais psiquiátricos.

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Por princípio não sou anti-comunista, sou anti-ditador. Dado que a ditadura engloba vários géneros (fascismo, comunismo, nazismo, etc.), sou, subsidiariamente, anti-fascista, anti-comunista, etc.

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Todos precisamos de reconhecimento e os que afirmam o contrário são porventura os mais carentes. Então, por que Pessoa detestava ser reconhecido? Em primeiro lugar, por uma questão de pudor; em segundo, porque, como qualquer perfecionista, era inseguro. Insegurança e pudor, eis as características do esteta.

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O bom político é aquele que adapta as suas ideias à realidade e o mau político aquele que adapta a realidade às suas ideias.

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A diferença entre o grande e o pequeno artista é que o primeiro tenta compreender e o segundo procura ser compreendido.

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Podes interpretar uma bela melodia sem nunca teres estudado música. Podes pintar um belo quadro sem nunca teres tido um mestre. Mas não podes ser filósofo sem estudares filosofia; arriscas-te a dizer apenas disparates.

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A História da Filosofia é a história de Platão, Aristóteles, uma legião de seguidores e meia dúzia de contestatários. São estes últimos os que me interessam.

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Há no mundo inúmeros artistas. Talvez haja mesmo um artista escondido em cada um de nós. Mas não devemos esperar que o Estado sustente a nossa vocação artística. A primeira vocação que se exige a cada um(a) é aquela de governar-se honestamente.

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Por que, relativamente às teorias políticas, nunca é possível chegar a acordo, nem sequer saber, ou provar, qual a melhor ou mais adequada a determinadas circunstâncias? Porque, como mostrou Popper, as ciências sociais não adotam o método (de testabilidade) das ciências naturais. Pode parecer demasiado simples, mas é isto mesmo.

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Mais do que um ato de liberdade, a adesão a um partido político ou a uma ideologia, é a entrada numa prisão.

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Quem te convenceu que o teu governo é melhor que o teu patrão?

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A água da nascente cai, provocando milhares de milhões de bolhinhas que logo desaparecem. Estas bolhas somos nós. Umas duram mais uma fração de segundo que outras. A diferença de duração pode equivaler à diferença entre vivermos 10 ou 90 anos. O tempo real é o da água que corre. Se a nascente secar o tempo é finito, caso contrário, eterno. É isto o tempo.

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Não basta proclamar o amor para se ser nobre. Isso seria demasiado fácil e criaria a ilusão de que somos todos iguais, o que manifestamente não somos. Pelo contrário, algo nos diferencia nos esforços que fazemos (ou não) para aceitarmos, compreendermos e minimizarmos as nossas raiva, frustração e impotência e, quantas vezes, o ódio – esse irmão gémeo do tão banalizado amor. É esse esforço  – que quanto mais difícil maior valor humano contém – que pode, surpreendentemente, conduzir-nos ao amor verdadeiro. Aliás, ele é já, em si mesmo, um genuíno ato de amor.

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A principal diferença entre o idealista e o realista é que o primeiro se preocupa com as intenções e o segundo com os resultados.

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Há ideias perversas que veiculam a mensagem de que existem nações melhores. Mas o que existe apenas são nações piores, no período determinado em que, nestas, aquelas ideias proliferam.

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A Esquerda acredita que o homem nasceu bom e foi a sociedade que o corrompeu. A Direita, pelo contrário, acha que o homem é um ser imperfeito por natureza. É curioso que este pessimismo da Direita permita, no entanto, acreditar numa sociedade satisfatória; e que o otimismo original da Esquerda se transforme num permanente pessimismo (quando não, desespero) face à impossibilidade de reconduzir o homem ao seu estádio natural.

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Apesar dos graves problemas, vivemos no melhor mundo de sempre, um mundo maravilhoso. É esta mensagem simples e verdadeira que temos o dever de transmitir aos vindouros.
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Nada se pode sobrepor à minha experiência (adoto aqui a frase de Rogers), nem sequer uma teoria científica. É com base naquela que, crítica e racionalmente, aceito ou rejeito esta.
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Há dois tipos de inflamação neuronal – a clubite e a partidarite. E desiluda-se quem ache que os sintomas são dissemelhantes. Ambas tornam o paciente acrítico, sobretudo à saudável autocrítica que nos ajuda a discernir a realidade.
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Se tivesse de escolher uma ciência puramente humana, não me viraria para a Medicina, a Filosofia ou a Psicologia. Escolheria outra muito mais paradoxal. Uma ciência que, criada, desenvolvida e reinventada por nós, ganhou uma vida própria que todos os dias procuramos desvendar: a Economia.
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A maior contradição das religiões cristãs, e sobretudo da católica, prende-se com a ritualização da morte. Existe uma contradição insanável entre a crença na vida após a morte e a tristeza profunda a que se assiste nos velórios e funerais. Essa contradição é ainda mais paradoxal quando – o que acontece frequentemente – a morte traz consigo a libertação de um sofrimento atroz.
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Nenhuma questão macroeconómica se pode explicar e, sobretudo, antever apenas pelos números. Há sempre uma variável largamente indeterminada que influencia as decisões dos agentes económicos: as célebres expectativas. Nenhum político devia ignorá-las.
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Só sendo independente se pode ser convergente. O dependente é sempre divergente.
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Há várias formas de te dedicares à causa pública e de ajudares o próximo. A pior delas é alistares-te num partido político.
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Aprecio formas. Detesto formalismos.
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O racionalismo não nos conduz à felicidade, mas deveria garantir-nos a paz.
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Flaviando

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Cidade do Panamá, Panamá.

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Montego Bay, Jamaica.

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Havana, Cuba.

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Fernando de Noronha, Brasil.

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Cozumel, México.

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S.Petersburgo, Rússia.

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Granada, Espanha.

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Lisboa, Portugal.

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Estocolmo, Suécia.

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Helsínquia, Finlândia.

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Talin, Estónia.

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Klaipeda, Lituânia.

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Gdansk, Polónia.

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Riga, Letónia.

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Hamburgo, Alemanha.

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Georgetown, Ilhas Caimão.

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Gibraltar. Reino Unido.

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Tavira, Portugal.