Uma frase para emoldurar

Alberto Manguel chegou a acordo com a edilidade de Lisboa e vai transferir para esta cidade a sua biblioteca de cerca de 40 mil livros.

“Precisamos que nos lembrem, dia após dia e noite após noite, que a essência da Utopia é a sua inexistência e que a responsabilidade dos intelectuais não é acalentarem sonhos e planos para uma sociedade utópica que nunca se concretizará, mas sim manifestarem-se com vista a aperfeiçoar a sociedade de que dispomos agora, fragilmente enraizada nesta terra.”

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Alberto Manguel, Revista do Expresso nº 2499, de 19 de setembro de 2020, p. 22. (Tradução de Madalena Alfaia).

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Foto retirada de: http://livros-autografados.blogspot.com/2016/04/biblioteca-particular-de-alberto-manguel.html.

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Porque dormimos?

Matthew Walker fotografado no seu laboratório do sono. Foto de Saroyan Hamphrey.

Podemos pensar que uma ou duas noites mal dormidas não causam grandes problemas, até porque no fim de semana podemos dormir mais tempo e colocar o sono em dia. Puro engano. Os danos no cérebro e no corpo que a privação do sono provoca não são reparáveis com noites em que durmamos mais para compensar o sono perdido. Pelo contrário, o déficit de sono nunca é recuperável, apenas acumulável. Assim, se dormirmos regularmente menos de sete horas por noite, os danos físicos e mentais, mais cedo ou mais tarde, acabarão por surgir1.

Que tipo de danos? Bom, praticamente todos. As doenças mentais causadas pela falta de sono vão desde a esquizofrenia à doença de Alzheimer, passando pela depressão, o distúrbio bipolar, a ansiedade e o suicídio; e as doenças fisiológicas provocadas pela carência de sono passam, entre outras patologias, pelo cancro, a diabetes, os ataques cardíacos, a infertilidade, a obesidade e a imunodeficiência. Pode parecer exagerado, mas não é: estas conclusões são sustentadas por décadas da melhor investigação científica e têm por base um incontável número de experiências, levadas a cabo um pouco por todo o mundo2. De resto, o livro que aqui analisamos, Porque Dormimos?, é fruto de uma longa investigação (de mais de vinte anos) do seu autor, Matthew Walker.

1- Sono, o enigma desvendado

Até há muito pouco tempo, ninguém sabia exatamente porque dormimos. O assunto era demasiado controverso. Um dos problemas é que se procurava uma função única, um “cálice sagrado” que todos queriam encontrar. As teorias eram diversificadas: o sono é um período em que o corpo conserva energia; dormir é uma oportunidade para oxigenar os globos oculares; dormir é um estado não consciente em que realizamos os desejos reprimidos quando estamos acordados… e havia também quem dissesse o que parecia mais óbvio: dormimos para descansar. Mas, afinal, essa resposta não era assim tão óbvia, pois isso implicaria que um lenhador precisasse de muito mais tempo de sono que um empregado de escritório ou um reformado, o que não é o caso.

Nas últimas duas décadas, porém, as neurociências tiveram um desenvolvimento incrível e contribuíram de forma decisiva para tornar essas e outras respostas obsoletas. O sono é infinitamente mais complexo, relevante e interessante do que se pensava. Sobretudo, é vital: o que quer dizer que a sua carência acarreta graves prejuízos para a saúde. Estas descobertas foram possíveis graças a equipamentos que vieram permitir a realização de ressonâncias magnéticas e tomografias, as quais juntamente com o uso de elétrodos3, tornaram possível detetar as regiões do cérebro que estão (ou não) mais activas4 em determinado momento. Por outro lado, a montagem de laboratórios do sono em universidades e centros de investigação proporcionaram o desenvolvimento de estudos sobre os efeitos, no corpo e na mente, provocados pela privação do sono, a maior parte das vezes comparando os resultados obtidos por um grupo de pessoas que dorme normalmente com os de outro grupo de pessoas privadas de um sono completo5.

E não restam dúvidas: dormimos porque dormir é tão vital como comer, beber ou respirar. De acordo com a mais recente investigação, o sono é “a atividade mais eficaz que podemos levar a cabo para repor diariamente a saúde do nosso cérebro e do nosso corpo – até ao momento é o melhor esforço da Mãe Natureza para contrariar a morte”6. Ou seja, para a ciência atual, a questão já não é a de se saber para que é que o sono é benéfico. Em vez disso, a pergunta que se faz é se existirá alguma função biológica que não beneficie de uma boa noite de sono. E a resposta que milhares de estudos já realizados nos dão é: não, não existe. Por outro lado, todas as patologias são agravadas e muitas causadas pela falta de sono.

2 – O que nos leva a dormir ou ter dificuldade em fazê-lo

Há dois fatores paralelos que, combinados, determinam os períodos do dia em que nos sentimos mais despertos ou sonolentos: o ritmo circadiano (Processo-C) e a pressão do sono (Processo-S), esta determinada pela acumulação de um químico no cérebro chamado adenosina7. Quando o ritmo circadiano está alto e o nível de adenosina baixo (por exemplo, de manhã), sentimos um agradável estado de vigília plena, e estamos prontos para enfrentar as vicissitudes do dia; pelo contrário, quando chega a noite, depois de estarmos 15 horas acordados, o nosso cérebro está inundado com altas concentrações de adenosina, enquanto o ritmo circadiano está a diminuir, baixando os níveis de atividade e alerta. São, portanto, estes os fatores naturais que nos induzem à vigília ou ao sono. Qualquer perturbação num destes (ou em ambos os) processos é prejudicial para o nosso sono e para a nossa saúde.

Além destes processos, há ainda outra substância, uma hormona, que dá o “tiro de partida” para o sono – a melatonina. Esta hormona, libertada por uma glândula situada algures nas profundezas da parte de trás do cérebro chamada pineal, sob ordens do núcleo supraquiasmático (ver nota 9), é libertada na corrente sanguínea enviando uma mensagem clara ao cérebro e ao corpo, “está escuro! está escuro!”, assinalando assim a hora de dormirmos. Após começarmos a dormir, a concentração de melatonina vai diminuindo até se desligar completamente quando a luz do dia emerge da noite. A ausência de melatonina informa o nosso corpo de que o sono foi cumprido e é tempo de vigília. Depois, com o anoitecer, os níveis de melatonina começam a subir até atingirem o pico, iniciando-se assim um novo ciclo.

De salientar que o ritmo circadiano8 não regula apenas os horários do sono, mas também os de comer, beber, as emoções, a quantidade de urina que o corpo produz, a temperatura interior do corpo, o metabolismo e, entre outros, a libertação de inúmeras hormonas. Os ritmos circadianos são variáveis entre espécies mas também entre indivíduos9. No que diz respeito ao sono, há três tipos de pessoas, cada uma com o seu cronotipo, de acordo com os diferentes ritmos circadianos: o “tipo matutino” (constituído pelos indivíduos que despertam mais cedo de manhã e se sentem sonolentas não muito depois do início da noite) que engloba cerca de 40% da população; o “tipo vespertino” (constituído por pessoas que adormecem mais tarde e, logo, acordam mais tarde também) que inclui cerca de 30% da população; e um tipo intermédio, algures entre os dois primeiros, com ligeira inclinação para a vivência noturna, que engloba os restantes 30%.

Há sobretudo duas substâncias que, por serem mais comuns, prejudicam o sono. A cafeína e o álcool. A cafeína bloqueia e desativa os recetores da adenosina, bloqueando, assim, o sinais de sonolência que esta envia para o cérebro. Os efeitos da cafeína começam a sentir-se cerca de meia-hora depois de bebermos um café, por exemplo, mas a sua característica mais problemática é o prolongamento desses efeitos no tempo, em qualquer caso, de várias horas. De facto, a eliminação da cafeína do organismo depende de uma enzima produzida pelo fígado, muito diferenciada entre indivíduos, por fatores genéticos. Assim, há pessoas cuja enzima é mais eficaz a eliminar a cafeína, mas a maioria demora mais de sete horas a eliminá-la da corrente sanguínea. Isso quer dizer que a grande maioria das pessoas que bebem café depois do jantar vai certamente ter dificuldades em adormecer. Já o álcool produz um efeito igualmente nocivo, mas muito mais enganador10. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o álcool não ajuda a adormecer mais depressa e nem sequer proporciona um sono mais profundo. O álcool fragmenta o sono e provoca breves momentos de despertar, embora a pessoa não se aperceba disso. O fígado e os rins demoram horas a degradar e excretar o álcool, de modo que o consumo de bebidas alcoólicas à noite irá inevitavelmente prejudicar o sono.

Para além da cafeína e do álcool (e também outras drogas e o tabaco), outros fatores externos que conflituam com o sono são a iluminação excessiva, sobretudo as luzes LED11, as temperaturas elevadas e os horários prematuros de iniciar as aulas e de pegar ao trabalho. Entrar no trabalho ou na escola às oito da manhã (e às vezes mais cedo) priva milhões de pessoas de dormirem o suficiente, sobretudo os “vespertinos” que, naturalmente, são impelidos a ir para a cama mais tarde. Os prejuízos na saúde das pessoas, e os custos para a sociedade e as empresas, são incalculáveis. É por isso que a fixação de horários diversificados seria uma medida que, além de simples, traria um impacto extremamente positivo, tanto maior quanto mais alargado. Mas existem fatores internos que também prejudicam o sono. Distúrbios psicológicos como a ansiedade e a depressão, entre outros, podem condicionar o sono. Mais grave é quando a falta de sono e esses distúrbios se auto-alimentam, criando um círculo vicioso difícil de quebrar. A solução, de acordo com Walker, não passa pela tomada de comprimidos para dormir, uma vez que estes não nos induzem a dormir naturalmente (impedindo-nos por isso de receber os benefícios do sono), antes funcionam como sedativos e podem mesmo provocar a morte. Mais à frente aludiremos ao que Walker propõe para dormirmos melhor.

3- A ciência do sono

Pode dizer-se que a moderna ciência do sono começou em 1952, quando o professor da Universidade de Chicago Nathamiel Kleitman e o seu aluno Eugene Aserinsky descobriram que temos dois tipos de sono diferentes: NREM e REM12. O primeiro, predominante num primeiro ciclo de sono e o segundo nos últimos ciclos (são considerados cinco ciclos de sono sensivelmente de hora e meia cada, num sono normal de entre sete a oito horas). O sono NREM, quando não existem movimentos rápidos dos olhos, produz ondas cerebrais mais lentas e longas, enquanto o sono REM, quando o movimento ocular é rápido e acompanhado de sonhos, produz ondas cerebrais curtas e rápidas, muito semelhantes às emitidas quando estamos acordados. Ambos os tipos de sono são indispensáveis para a nossa saúde física e mental.

Quando começaram a medir as ondas lentas do sono NREM, nas décadas de 1950 e 1960, os cientistas consideraram que o cérebro estaria ocioso ou até adormecido nesses momentos. Mas isto estava profundamente errado. As ondas cerebrais do sono NREM espalham-se harmoniosamente desde o meio do cérebro, no tálamo, bloqueando a transferência da perceção de sinais exteriores, até ao cimo do cérebro, o córtex. A perda da sensação de consciência explica porque não sonhamos durante o sono NREM e faz com que o córtex descanse, entrando no modo de funcionamento por defeito. É então que as memórias de curto prazo são transportadas do seu local de armazenamento provisório, o hipocampo, para outro mais seguro, o neocórtex. Isto não acontece apenas nos humanos, mas também nos chimpanzés, orangotangos, bonobos, gatos, ratinhos e até nos insetos. Está provado também que o sono NREM, sobretudo na fase 2, melhora as capacidades motoras, daí ser muito importante nas crianças e nos desportistas, entre outros.

É também muito importante perceber o que acontece quando o sono NREM é prejudicado nos indivíduos mais velhos, o que, infelizmente, acontece com grande frequência. Isto tem implicações graves na memória destas pessoas, e está diretamente relacionado com a doença de Alzheimer.13 Finalmente, outro aspeto a ter em conta quanto ao sono NREM é que este atua como calmante, permitindo que o ramo de luta ou fuga do sistema simpático se acalme, diminuindo o risco de pressão alta e a ocorrência de apoplexias. Um bom sono NREM é, portanto, vital.

Sono REMSono NREM
Ondas cerebrais com frequência rápida e caótica.Ondas cerebrais com frequência lenta e sincronizada.
Ondas produzidas em quatro aglomerações distintas do cérebro. Ondas produzidas no centro dos lobos frontais.
Ondas tipo rádio FM.Ondas tipo rádio AM .
Entrada sensorial do tálamo aberta.Entrada sensorial do tálamo fechada.
Corpo totalmente paralisado (atonia).Corpo não-totalmente paralisado.
Com sonhos.Sem sonhos.
Indivíduos com potencial criativo elevado se acordados neste período.Indivíduos pouco ou nada criativos se acordados neste período.
Sem episódios de sonambulismo.Possibilidade de episódios de sonambulismo.
Pouco sensível à temperatura, ao exercício físico e à alimentação.Sensível à temperatura, ao exercício físico e à alimentação.
Diferenças entre os sonos REM e NREM.

Como se pode verificar pelo quadro acima, o sono REM tem características bastante diferentes do sono NREM. Desde logo as ondas produzidas pelo cérebro durante o sono REM, de frequência curta e rápida, são mais semelhantes ao estádio de vigília do que ao período de sono NREM. É por isso que o sono REM é muitas vezes chamado de “sono paradoxal”: um cérebro que parece estar acordado (com partes 30% mais ativas do que no estado de vigília) e um corpo claramente adormecido. Durante o sono REM o corpo perde completamente a tonacidade e os músculos pura e simplesmente paralisam, transformando-nos em prisioneiros dentro do próprio corpo. Isto acontece para que possamos sonhar à vontade. Seria muito perigoso se durante alguns sonhos extremamente movimentados nós próprios nos pudéssemos mover. Assim, a Natureza, através do processo evolutivo, resolveu o assunto obrigando-nos à imobilidade durante os períodos de sono REM.

O sono REM é um estado caracterizado por uma forte ativação nas regiões visuais, motoras, emotivas e autobiográficas do cérebro, e por uma desativação relativa nas regiões que controlam o pensamento racional. Uma questão particularmente importante do sono REM está relacionada com os sonhos, uma vez que só neste modo de sono podemos sonhar. Calcula-se que entre 35% a 55% das preocupações e emoções que experimentamos durante o dia reapareçam à noite quando sonhamos.14 A princípio pensou-se que os sonhos fossem um sub-produto do sono REM, mas posteriormente descobriu-se que os sonhos têm uma função própria. Ou melhor, duas.

A primeira tem que ver com a nossa saúde mental e emocional. De facto, os sonhos fazem um trabalho de terapia noturna: quando sonhamos com experiências traumáticas ou dolorosas sentir-nos-emos mais aliviados e calmos quando voltarmos a recordá-las. Isto acontece porque a única altura das 24 horas do dia em que a concentração de um químico relacionado com o stress, a noradrenalina, é completamente desligado no interior do cérebro, é durante o sono REM.15 A segunda tem a ver com a nossa apetência para a interpretação de expressões faciais, a resolução de problemas e a criatividade.

As áreas do nosso cérebro dedicadas à descodificação dos sinais que nos chegam das expressões faciais são as áreas que o sono REM equilibra durante a noite para que possam estar operacionais na manhã seguinte. Experiências com pessoas privadas de sono REM mostraram que estas tiveram dificuldades em ler expressões faciais, vivenciando um mundo adverso e ameaçador que não correspondia à realidade.16 Finalmente, a função mais extraordinária dos sonhos é a de ampliar a criatividade. Quando sonhamos, o nosso cérebro reúne vastos segmentos dos conhecimentos adquiridos, misturando-os de forma inspirada e, enveredando por atalhos, descobre soluções para problemas anteriormente impenetráveis. É por isso que quando acordamos após um sonho temos uma maior probabilidade de criar peças artísticas valorosas, como poemas ou canções, e maior apetência para resolver problemas, como anagramas. Os exemplos são vastos e variáveis, muitos deles famosos: Mendeleev viu a tabela periódica num sonho; Keith Richards compôs os acordes de “Satisfaction” durante o sono REM;17 Paul McCartney acordou com a melodia de “Yesterday” na cabeça. St. Paul Boux, um poeta surrealista francês, colocava na porta do quarto, antes de dormir, uma placa que dizia: “Não perturbar: poeta trabalhando.”

Esta ligação e mistura criativa de informações é o que distingue o nosso cérebro dos computadores. Os nossos “algoritmos” são diferentes e bem podemos falar de um “algoritmo do sonho”. As pessoas que sonham com um problema têm uma probabilidade muito maior de o resolver do que aquelas que não sonham. O cérebro durante o sonho conjuga a memória recente sobre um determinado assunto com outras antigas relacionadas com o mesmo assunto e ainda outras hipotéticas relações, proporcionando respostas altamente criativas, inacessíveis a quem não sonha.18

Tudo isto nos conduz a um grave problema: tendo em conta 1) que os nossos adolescentes acordam cada vez mais cedo para irem para a escola, 2) que o ritmo circadiano na adolescência se adianta algumas horas e que 3) é no final do nosso sono que prevalece o sono REM com sonhos, estamos a privar os adolescentes das nossas sociedades da qualidade de vida que eles, não apenas enquanto adolescentes mas também na idade adulta, merecem. E porque se adianta o ritmo circadiano dos adolescentes algumas horas? A ciência não tem uma resposta inequívoca, mas Walker avança como uma hipótese a ter em conta: ao diferenciar os sonos dos adolescentes e dos pais, a Natureza está a incentivar a emancipação destes iminentes adultos.19

4- Como dormir melhor

No final do livro, Matthew Walker deixa-nos 12 dicas para melhorarmos o nosso sono, dizendo-nos que, se tivéssemos de escolher apenas uma delas, seria a primeira: manter um horário de sono regular. Além disso, devemos: evitar o álcool, a cafeína e a nicotina; fazer exercício físico, mas não a horas tardias; evitar grandes refeições e demasiadas bebidas à noite; evitar medicamentos que de alguma forma perturbem o sono; não fazer sestas depois das três da tarde; descontrair antes de ir para a cama e, se possível, tomar um banho quente e relaxante antes de dormir; escurecer o quarto e mantê-lo não demasiado quente; não ver televisão nem usar o computador ou o telemóvel antes de adormecer (é preferível ler um livro); evitar as luzes LED; manter uma exposição solar adequada, o que quer dizer que devemos receber bastante luz durante a manhã e expor-nos à luz natural durante, pelo menos, meia-hora durante o dia; desligar as luzes antes de ir para a cama; não ficar acordados na cama se não conseguirmos dormir: se nos mantivermos acordados durante mais de 20 minutos devemos levantar-nos e fazer qualquer coisa relaxante até sentir sono. A ansiedade por não conseguirmos dormir pode dificultar ainda mais o adormecer.

Finalmente, recordemos que uma vida com o sono em dia é sinal de uma vida saudável. Catástrofes como o desastre no reator nuclear de Chernobyl e o encalhe do petroleiro Exxon Valdez, entre tantos outros, foram provocados pela falta de sono.20 E, já agora, se algum dia (ou noite) sentir sono enquanto conduz, por favor, pare. A probabilidade de ter um acidente grave é elevadíssima.

Bom dia, boa noite, bom sono e bons sonhos!

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A nossa edição:

Matthew Walker, Porque Dormimos, Editora Desassossego, Lisboa, 2019, 1ª ed.

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Notas:

1Depois de dez dias de apenas sete horas de sono por noite, o cérebro fica tão disfuncional quanto estaria depois de 24 horas sem dormir.

2 A importância do sono é hoje reconhecida pela OMS que catalogou a falta de sono abrangente como um epidemia global. E o próprio Guiness Book retirou o recorde da privação do sono do seu livro de recordes, por reconhecer o seu caráter nocivo.

3 Os elétrodos registam sinais emitidos por três regiões distintas: a atividade das ondas cerebrais, a atividade dos movimentos oculares e a atividade muscular.

4 De realçar que o cérebro consome 20% da energia do nosso corpo, embora represente apenas 2% do seu peso total.

5É considerado “sono normal” um sono contínuo com duração entre 7,5 e 9 horas. Uma sesta com duração máxima de hora e meia e que termine antes das 15:00 horas, também é considerada normal e mesmo benéfica.

6Ob. cit., p. 18.

7Logo que acordamos a adenosina começa a acumular-se no cérebro. Quando atinge o seu ponto máximo, sentimos uma vontade irresistível de dormir. Na maior parte das pessoas isto acontece depois de estarem entre 12 a 16 horas acordadas.

8 “Circa” (em torno de) e “diam” (dia). Daí deriva o termo circadiano.

9 Foi possível determinar o ritmo circadiano humano através de experiências em que indivíduos foram privados da luz solar. A mais famosa foi realizada em 1938, quando o professor da Universidade de Chicago Nathaniel Kleitman e o seu assistente Bruce Richardson estiveram 32 dias mergulhados na escuridão profunda da Caverna Mammoth, no Kentucky, uma das mais profundas do planeta. Sabe-se hoje que o relógio circadiano de um humano adulto é de cerca de 24 horas e 15 minutos. São a luz solar e o núcleo supraquiasmático que ajustam o nosso relógio interior para as 24 horas do dia. “Quiasma” significa ponto de cruzamento, e o núcleo supraquiasmático situa-se mesmo por cima do ponto, no centro do cérebro, onde os nervos óticos, com origem nos globos oculares, se cruzam, “decidindo” quando queremos estar acordados ou a dormir.

10 O sono insuficiente durante a infância tem relação direta com o consumo de álcool e drogas na adolescência. “O álcool é um dos repressores mais poderosos do sono REM de que temos conhecimento” (ob. cit., p. 97).

11 Apesar de em 2014 Shuji Nakamura, Isamu Akasaki e Hiroshi Amano terem ganhado o Prémio Nobel da Física pela invenção da luz LED, devido à poupança de energia e à maior longevidade das lâmpadas LED, estas emitem luzes azuis de ondas curtas muito mais próximas da luz do dia do que as velhinhas lâmpadas incandescentes de luzes quentes e amarelas, perturbando assim o sono.

12 REM (Rapid Eye Movement); NREM (Non-rapid Eye Movement).

13 A doença de Alzheimer é provocada pela acumulação de uma proteína chamada beta-amiloide. A Drª Maiken Nedergaard, da Universidade de Rochester, descobriu uma espécie de “rede de esgoto”, a que chamaram sistema glinfático (constituído por células gliais espalhadas pelo cérebro), o qual, à semelhança do que o sistema linfático faz no corpo, limpa as substâncias nocivas do cérebro, nomeadamente os contaminantes metabólicos perigosos gerados pelo trabalho dos neurónios, entre eles a perigosa proteína beta-amiloide, bem como outra proteína denominada “tau” e moléculas de pressão, que se pensa serem a causa da Alzheimer. A carência de sono NREM faz com que essa limpeza não seja eficientemente realizada, provocando a acumulação dos contaminantes metabólicos. Margareth Thatcher e Ronald Reagan, que afirmavam dormir apenas 4 ou 5 horas por noite, contraíram a doença de Alzheimer… Alguém deveria avisar o nosso Presidente!

14 O professor da Universidade de Harvard, Robert Stickgold, chegou a esta conclusão após conceber uma experiência com 29 jovens adultos saudáveis, a quem pediu que registassem o que faziam durante o dia, bem como as suas preocupações emocionais. Pediu-lhes também que registassem os sonhos de que se lembrassem, obtendo, assim, 299 relatórios de sonhos ao longo de 14 dias.

15 O Dr. Murray Raskind, um médico especialista em PSPT (Perturbação de Stresse Pós-Traumático) e doença de Alzheimer, constatou que um medicamento chamado prozonina, que receitava para controlo da pressão arterial de alguns dos seus pacientes, também lhes aliviavam os pesadelos e sonhos dolorosos recorrentes devidos aos traumas de guerra. Veio a revelar-se que a prozonina tinha também o efeito de suprimir a noradrenalina no cérebro, permitindo que os pacientes dormissem mais tranquilamente.

16 Isto é bastante problemático para pessoas que nas suas atividades profissionais, como polícias e pessoal médico, frequentemente têm que avaliar as emoções transmitidas por expressões faciais de inúmeros indivíduos, avaliações em que o erro pode causar uma tragédia.

17 Keith costumava deitar-se com uma guitarra e um gravador ligado ao lado da cama. Numa manhã, quando acordou, sem se lembrar de nada, puxou a fita do gravador atrás e ouviu os primeiros acordes de “I Can Get No Satisfaction”.

18 Uma descoberta relativamente recente (2013) confirmou que há “sonhadores lúcidos”, ou seja, pessoas que conseguem controlar os próprios sonhos. Estes indivíduos representam quase 20% da população.

19 Durante a adolescência, o processo de desenvolvimento da arquitetura cerebral, com a ajuda do sono REM, já está completo. O objetivo agora já não é aumentar a escala, antes reduzi-la, e aqui quem tem o protagonismo é o sono NREM, ajudando na poda das ligações, e no desbaste sináptico que tipicamente acontece na adolescência.

20 Ob. cit., pp. 350-51.

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Foto retirada de:

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2017/sep/24/why-lack-of-sleep-health-worst-enemy-matthew-walker-why-we-sleep.

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Açores, grupo central.

Vento Leste não dá nada que preste.

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas.

O Pico visto da Calheta, em São Jorge.

As nove ilhas açorianas dividem-se em três grupos: oriental, central e ocidental. Enquanto cada um dos dois grupos mais afastados têm apenas duas ilhas, o grupo central é constituído por cinco ilhas: Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial[1]. Estas três últimas localizam-se muito perto uma das outras, pelo que é possível viajar entre elas através de travessias regulares, asseguradas por embarcações locais. Terceira e Graciosa ficam um pouco mais longe, ainda assim não tanto que não possam ser visitadas da mesma forma. É perfeitamente possível, portanto, incluir as cinco ilhas dentro de uma mesma viagem ao grupo central dos Açores. No nosso caso, viajámos entre Pico, São Jorge e Faial de barco, e entre Pico e Terceira de avião, antes do regresso a Lisboa, a partir de Angra do Heroísmo.

No primeiro dia da nossa viagem voámos de Lisboa para o Pico[2], onde ficámos instalados num alojamento local perto de São Roque. A melhor forma de percorrer as ilhas açorianas, sobretudo para quem não tenha muito tempo, é de carro. Foi o que fizemos em todas elas. O aluguer de automóveis é fácil e barato, e não envolve muita burocracia.

O azul do mar e o verde da terra: as cores dos Açores.

Todas as ilhas dos Açores são diferentes, embora todas tenham também coisas em comum, destacando-se, claro, a ligação à Natureza: o mar e os prados verdejantes. Ambos constituem as tradicionais fontes de rendimento dos açorianos, a que se vem juntando, até agora de forma sustentável, o turismo. É muito importante que o turismo cresça (pois ainda há espaço para crescer) sustentavelmente.

A ilha do Pico, a mais jovem dos Açores, tem uma característica interessante: é lá que fica a montanha que dá nome à ilha, a mais alta de Portugal, precisamente, o Pico. Muitas vezes coberto de nuvens cerradas, uma subida ao Pico não é recomendável sem acompanhamento, sobretudo no Inverno, quando o tempo se torna ainda mais instável. Era nossa intenção fazê-lo, mas tal não foi possível, porque o tempo não o permitiu. “Tempo” que é peculiar nos Açores. De facto, é normalíssimo encontrarmos um céu carregado de nuvens num dos lados de uma ilha e um céu limpo no lado oposto, a poucos quilómetros de distância. Verificámos isso numa viagem anterior a São Miguel e também nesta viagem, no Pico, no Faial, na Terceira e em São Jorge. A montanha do Pico pode cobrir-se totalmente de nuvens, ou apresentar um anel de nuvens no meio, deixando a base e o topo a descoberto, ou ficar com apenas o cume ou a base cobertos, ou outra qualquer alternativa: são poucos os dias completos do ano em que a montanha se encontra totalmente visível, do topo à base.

Feminina, em forma de seio, assim é a montanha mais alta de Portugal.

Outra atração da ilha do Pico são os currais, vinhas protegidas por muros de pedras. Estas vinhas são plantadas no chão de lava negra, fruto de erupções vulcânicas ocorridas no século XVIII, e a que o povo dá o nome de “mistérios”. Esses muros perfazem muitos milhares de quilómetros, há quem diga que os suficientes para circundarem o globo terrestre, e são testemunho da persistência das gentes do Pico. Os cachos pendurados nas frágeis videiras teimam em persistir também. O vinho do Pico é raro, especial, único, apropriado para acompanhar os peixes e frutos do mar da região, sobretudo o que resulta das castas brancas. O verdelho do Pico atingiu por mais de dois séculos fama internacional, chegando à mesa dos czares da Rússia. No século XIX, assistiu-se ao fim do “ciclo do verdelho”, tendo as vinhas sido devastadas pelos oídio e filoxera. É nesta época que muita gente da ilha emigra para o Brasil e a América do Norte. No século XX as vinhas foram recuperadas e, desde 2 de julho de 2004, a Paisagem da Cultura da Vinha do Pico foi elevada ao estatuto de Património Mundial pela UNESCO[3].

A flora primitiva e endémica do Pico é muito rica e rara, e algumas das espécies têm estatuto de proteção. A diversidade faunística e florística tem vindo a ser ampliada, com a introdução de novas espécies, sobretudo florestais. A zona oeste da ilha, onde predominam os terrenos de lava, é considerada uma zona privilegiada e única para o cultivo não apenas da vinha, mas também de árvores de frutos.

As vinhas e pomares do Pico são testemunhos da persistência das suas gentes, os picoenses, também conhecidos como picarotos.

As três principais localidades do Pico são Madalena, São Roque e Lajes, as duas primeiras com cais onde atracam navios que fazem ligações às outras ilhas do grupo. Lajes do Pico, no lado sul da ilha, onde o mar é mais calmo, fica junto a uma larga baía, e é uma vila muito bonita onde se come regiamente[4]. Foi a primeira localidade do Pico a ser habitada. Para cruzar a ilha de norte para sul, ou vice-versa, é necessário subir e descer o planalto central, o que proporciona vistas espectaculares sobre as encostas da ilha e o mar[5]. São Jorge e o Faial são vistos de vários pontos do Pico e parecem ali mesmo à mão. No entanto, as viagens de barco não são fáceis pois o mar, sobretudo no Inverno, pode ser tumultuoso e perigoso. São inúmeros os casos de naufrágio ocorridos nas travessias entre ilhas.

A vida marítima, sobretudo a faina da pesca, é largamente retratada na literatura açoriana, cuja tradição é injustamente desconhecida da maioria dos portugueses. A obra mais famosa de um escritor açoriano sobre os Açores é provavelmente Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, mas muitos outros romances e contos, de escritores desconhecidos do grande público, como Ernesto Rebelo, Tomás da Rosa ou Vasco Pereira da Costa, mereceriam a nossa atenção.

Uma das célebres fajãs dos Açores. Ao fundo, a ilha Graciosa. São Jorge tem mais de sessenta fajãs.

Dois dias depois de nos termos instalado no Pico, fomos visitar a ilha de São Jorge. Do cais de São Roque embarcámos no Gilberto Mariano[6] rumo à simpática vila de Velas, de onde partimos à descoberta da “Ilha Castanha”. Antes de embarcarmos pudemos testemunhar uma minúscula parte das dificuldades que as águas açorianas colocam às gentes do mar. Os marinheiros não conseguiam estabilizar a embarcação, pois a ondulação não o permitia, e só conseguimos entrar no navio a correr, num pequeno intervalo entre duas vagas. Muitas vezes, as carreiras são suspensas ou fica interditado o transporte de viaturas, não sendo possível levar o carro para outra ilha. Isso aconteceu connosco, pelo que tivemos de alugar um novo carro em São Jorge, coisa que fizemos também no Faial e na Terceira[7].

São Jorge é a ilha mais central dos Açores. Do Pico da Esperança, o ponto mais alto da cordilheira que atravessa longitudinalmente a ilha, é possível avistar todas as ilhas-irmãs do grupo central. Uma das atrações de São Jorge são as fajãs. Uma vez que são terrenos planos que entram pelo mar, proporcionam imagens lindíssimas quando vistas de cima por quem desce da cordilheira central. Entre outras, visitámos as fajãs dos Cubres e da Caldeira do Santo Cristo, bem como as piscinas naturais da Fajã das Pontas, na costa norte da ilha. Quanto às localidades, tal como no Pico, são três as principais: Velas, Calheta e Topo. Esta última foi a primeira a ser habitada e possui um pitoresco porto de pesca. Em Velas encontram-se belas igrejas, sobretudo a igreja de Santa Bárbara, construída no século XVIII, uma das mais bonitas igrejas açorianas, classificada como Monumento Nacional, e na Calheta vale a pena visitar as piscinas naturais. São Jorge é um paraíso para os amantes dos desportos náuticos. Quem goste de um bom banho de mar pode desfrutar, além das piscinas naturais, de praias de calhau rolado em vários pontos da ilha.

Nos prados dos Açores pasta o melhor gado bovino do país. O queijo de vaca da ilha de São Jorge é de qualidade superior, sobretudo o de cura prolongada, de cerca de dois anos.

Na volta de São Jorge, devido ao estado do mar, o Gilberto Mariano não pode atracar em São Roque do Pico. Desembarcámos na Madalena e daí um táxi pago pela empresa de transporte marítimo levou-nos a São Roque, onde tínhamos o carro. No dia seguinte regressaríamos a Madalena para mais uma viagem de barco, desta feita até à cidade da Horta. O Faial é uma ilha pequena (quando comparada com as vizinhas Pico e São Jorge), quase redonda, que se circunda percorrendo poucos quilómetros de carro. Para a atingirmos, de barco, temos de atravessar o célebre canal do Faial. São incontáveis as histórias sobre incidentes que ocorreram ao longo do tempo nesta travessia. Pudemos sentir a força do mar, as correntes cruzadas, o vento agreste. Imagine-se quando isto era feito à vela!

Na Horta, elevada a cidade em 1833 como reconhecimento à sua adesão à causa liberal, tomámos um carro alugado e iniciámos a nossa visita ao Faial. A nossa primeira paragem foi na Caldeira, uma cratera com cerca de 2 km de diâmetro e 400 metros de profundidade, bem no centro da ilha. A área circundante, onde imperam as hortênsias azuis[8] e se destacam cedros, zimbros, faias, fetos e musgos, está classificada com Reserva Natural[9]. Um estreito caminho, protegido por uma cerca, contorna a cratera, proporcionando vistas incríveis sobre o mar, o Pico e as encostas verdejantes do Faial.

Encosta sudeste da Ilha Azul, o célebre Canal do Faial e a Ilha do Pico.

Descendo pelo mesmo caminho, chegámos à estrada que circunda a ilha, iniciando esse circuito no sentido contrário aos do ponteiro do relógio. Passámos por várias localidades, entre as quais, Praia de Almoxarife, Ribeirinha, Salão, Cedros e Praia do Norte, até atingirmos os Capelinhos, onde visitámos o farol e o Centro de Interpretação. A história do vulcão dos Capelinhos é famosa. As erupções começaram em setembro de 1957, a cerca de 1 km da costa, sob o mar, e duraram mais de um ano, até outubro de 1958. O material expelido formou uma pequena ilha que mais tarde, através de um istmo, se uniu ao Faial, que viu, assim, a sua área aumentada em 2,4 km 2. A população, aterrorizada, com muitas casas e culturas arrasadas, emigrou em larga escala para a América, deixando a ilha com menos de metade da população[10]. No Centro de Interpretação pudemos observar uma excelente exposição sobre a formação das nove ilhas açorianas, todas de origem vulcânica, todas “plantadas a meio do Atlântico, nos instáveis limites de diversas placas tectónicas e a curta distância da dorsal médio-atlântica”[11].

O material expelido por um vulcão sub-aquático formou os atuais Capelinhos.

O atual território dos Açores, a cerca de 760 milhas náuticas de Lisboa e de 2110 de Nova Iorque, faz parte de uma vasta plataforma oceânica situada entre as placas norte-americana (a oeste), euro-asiática (a nordeste) e africana ou núbia (a sul), a denominada Microplaca dos Açores, cujas zonas mais elevadas correspondem às nove ilhas e ilhéus a elas associados. Essa microplaca terá sido formada há uns “meros” 60 milhões de anos.

A nossa viagem em torno da ilha continuou sem mais paragens em direção à cidade da Horta, passando por Castelo Branco, Feteira e Flamengos. Nesta última localidade se instalaram, no século XV, um grupo de flamengos comandados por Josse Van Huerter[12]. Depois do almoço na Horta, dedicámos algum tempo a deambular por esta bonita cidade. Destacam-se as igrejas de Nossa Senhora do Carmo, de São Francisco, de São Salvador e o porto da Horta, escala para inúmeras embarcações que cruzam o Atlântico, e onde se encontra um simbólico paredão com inscrições de mensagens desenhadas por tripulações de todo o mundo.

Porto Pim e a cidade da Horta vistos do Monte Guia.

Vale a pena subir ao Monte da Guia (tal como os Capelinhos um antigo vulcão que se juntou à ilha do Faial após uma erupção no mar) e desfrutar da vista deslumbrante sobre a cidade da Horta e a enseada de Porto Pim, junto à qual se encontra a Fábrica da Baleia, uma infraestrutura industrial, antiga fábrica transformada em Centro do Mar, onde estão expostos os equipamentos necessários ao aproveitamento integral dos cachalotes. Aí funciona também o Centro Virtual de Interpretação Marinha.

Foi em Porto Pim que, depois de descermos do Monte da Guia, repousámos numa esplanada, tomando uma cerveja, deixando correr o pouco tempo que restava até a hora de partida da embarcação que nos transportaria de novo à nossa ilha-base, o Pico.

A cidade da Horta com seu casario branco e a própria “Ilha Azul” foram ficando para trás, à medida que o navio, sobre um mar enrolado, se aproximava dos dois ilhéus da Madalena (“Deitado” e “Em Pé”), a porta de entrada para o porto homónimo, aonde chegámos ao anoitecer.

A simpática praia de Porto Pim. Ao fundo, o edifício da Fábrica da Baleia.

A última ilha que visitámos foi a Terceira, que fica a cerca de meia-hora de voo do Pico. Após o desembarque nas Lajes, dirigimo-nos à empresa de aluguer de automóveis e, já ao volante de uma nova viatura, prosseguimos para Angra do Heroísmo para deixar as malas na pousada e logo seguirmos viagem à descoberta deste novo território. Como não tínhamos ainda almoçado, fomos primeiro à procura de um restaurante à beira-mar, com a ideia de comermos um peixe grelhado. Indicaram-nos, precisamente, o “Beira-Mar”, em São Mateus da Calheta, mas estava fechado. Porém, alguém nos disse que o “Quebra-Mar”, uns 200 metros mais à frente, estava aberto e era do mesmo dono, pelo que nos dirigimos para lá. Este estava aberto. Abrimos a refeição com umas cracas e depois provámos uma sopa de peixe servida dentro de um pão, a que se seguiu um boca-negra grelhado; para acompanhar, um verdelho dos Biscoitos[13]. Reconfortados, iniciámos a nossa viagem à volta da ilha, desta vez na direção dos ponteiros do relógio.

Depois de São Mateus passámos por várias localidades até pararmos em Biscoitos, no lado oposto (norte) da ilha. Aqui se encontram umas piscinas naturais muito bonitas, formadas entre as rochas pela entrada da maré alta. Segundo nos disseram, é um dos locais de veraneio preferidos dos terceirenses. A paragem seguinte foi em Praia da Vitória, uma cidade orgulhosa do seu passado por ter sido aí, em 11 de agosto de 1829, que os absolutistas afetos a D. Miguel sofreram a primeira derrota militar dos liberais. Ao comando destes esteve o duque da Terceira, não permitindo que os 4000 homens transportados em vinte e uma embarcações conseguissem desembarcar na então Vila da Praia[14], que ganhou, ainda nesse ano, a designação de Praia da Vitória.

Sopa de peixe servida dentro de um pão. Uma especialidade do “Quebra-Mar”, em São Roque, na Terceira.

Algo que não se pode perder na Praia da Vitória é uma visita à Casa-Museu Vitorino Nemésio. Muitas curiosidades sobre a sua biografia podem ser aqui desvendadas[15]. A ação do seu romance mais famoso, Mau Tempo no Canal, é passada precisamente nas quatro principais ilhas do grupo central que visitámos: Pico, Faial, São Jorge e Terceira. A entrada na casa onde Nemésio nasceu fez-nos recuar à nossa própria infância, e ao programa televisivo, ainda a preto-e-branco, Se Bem me Lembro

Nos dois dias que passámos na ilha Terceira deparámos em todas as freguesias com “Impérios”, edifícios em honra do Espírito Santo, a maioria pintada com cores garridas pelos habitantes locais. Em todo o arquipélago, não apenas na Terceira, sobressaem além dos “Impérios”, as festas em honra do Divino Espírito Santo. Na Terceira, a duração destas festas vai desde o dia de Pentecostes até ao final do verão[16]. Durante os festejos, sobretudo nas povoações mais rurais, os terceirenses divertem-se com as touradas à corda, uma tradição caricata e perigosa que tem particular incidência nesta ilha. Embora as festas do Divino Espírito Santo possuam uma estrutura tradicional comum, apresentam bastantes variantes entre as várias ilhas do arquipélago e, dentro da mesma ilha, entre os vários Impérios.

Vista panorâmica da Praia da Vitória. Aqui nasceu e brincou Vitorino Nemésio.

No segundo dia na Terceira fomos conhecer o Algar do Carvão, “Monumento Natural Regional”, sensivelmente no centro da ilha, formado por grutas com cerca de 90 metros de profundidade, onde se podem ver estalactites e estalagmites, e uma lagoa que sobe ou desce consoante a chuva. A água escorre pelas paredes e o ambiente é muito húmido. O Algar do Carvão é uma “chaminé vulcânica”, formada há cerca de 3200 anos. Numa das grutas tivemos o privilégio de assistir a um mini-recital de um guia turístico açoriano que, para mostrar a extraordinária acústica do local, cantou a Avé Maria de Schubert, perante uma plateia boquiaberta. Se algum empresário de bel canto for um dia ao Algar do Carvão, é bem possível que contrate este magnífico cantor.

O tempo restante desta nossa viagem aos Açores passámo-lo deambulando por Angra do Heroísmo, uma das mais belas cidades açorianas, com papel destacado, como vimos, na história de Portugal. O património edificado é rico. A Sé Catedral, a Igreja da Misericórdia, os Convento e Igreja de São Francisco, o Palácio dos Capitães Generais, o Alto da Memória, o Mercado Duque de Bragança, valem todos uma visita. O Monte Brasil, onde fica a Fortaleza de São João Baptista, e as vistas que de lá se proporcionam sobre a cidade de Angra, é algo que nenhum visitante pode perder.

Na noite do nosso segundo dia na “Ilha Lilás”, iniciámos, com o coração cheio, a última etapa da nossa viagem, desta feita, rumo ao Algarve.

Um dos Impérios da ilha Terceira.

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Notas:

[1] Pensa-se que as ilhas açorianas dos grupos oriental e central foram descobertas em 1427 e as duas ilhas do grupo ocidental (Flores e Corvo) em 1452.

[2] As ligações diretas entre Lisboa e o Pico iniciaram-se em 2005 e vieram dar um novo impulso ao turismo na ilha.

[3] Engloba os sítios do Lajido da Criação Velha e do Lajido de Santa Luzia.

[4] A gastronomia do Pico é rica, com destaque para o caldo de peixe, o arroz de lapas, o polvo guisado com vinho e a linguiça com inhames, entre outros, acompanhados por pão e bolo de milho caseiros.

[5] São inúmeros os miradouros do Pico nas estradas que sobem de Madalena, São Roque e Lajes para o centro de ilha. Destaque para o miradouro da Terra Alta, entre Santo Amaro e Piedade, com uma vista imponente sobre a ilha de São Jorge.

[6] Gilberto Mariano é uma figura quase mítica da Madalena do Pico. Analfabeto, fez durante muitos anos a entrega de cartas, encomendas, dinheiro, etc. na cidade da Horta, no Faial. Na volta, era portador de notícias de picarotos deslocados na ilha vizinha e de medicamentos em falta. Não há notícia de qualquer extravio de alguma mercadoria que lhe tivesse sido confiada, mesmo em tempos de invernia. Iniciou a sua atividade nos “Barcos do Pico” e depois na Empresa das Lanchas do Pico. Era particularmente dotado em amarrar embarcações nos dias de grande temporal. Conhecido como o “Gilberto das Lanchas”, tinha também, devido à sua envergadura e destreza, uma alcunha peculiar – o Arricana – aportuguesamento da palavra inglesa hurricane (furacão). Gilberto Mariano nasceu (1909) e morreu (1991) na Madalena do Pico.

[7] Numa viagem que inclua várias ilhas, como a nossa, é preferível alugar carro em cada ilha, porque o preço é praticamente o mesmo do que aquele que se pagaria pelo transporte de um único carro entre ilhas, e sobretudo porque isso evita os riscos associados à impossibilidade de transportar a viatura nas embarcações que fazem as travessias, devido ao estado do mar.

[8] Os grandes maciços de hortênsias justificam o título de “Ilha Azul”, que é atribuído ao Faial.

[9] Em todas as ilhas existem reservas naturais onde se podem observar algumas das quase 1000 espécies vegetais que povoam as ilhas, sendo que destas cerca de 300 são nativas e 60 endémicas.

[10] John F. Kennedy, então senador americano, esteve envolvido no Azorean Refugee Act, uma medida que facilitou a emissão de vistos às famílias faialenses. Esta medida abriria definitivamente as portas à emigração açoriana para os Estados Unidos. Estima-se que entre 1960 e 1990 tenham emigrado para os Estados Unidos da América cerca de 90 mil açorianos.

[11] https://nationalgeographic.sapo.pt/historia/grandes-reportagens/1554-capelinhos-setembro2007.

[12] Os moinhos de vento que encontramos nos Açores seguem a tradição flamenga.

[13] Uma boa informação sobre os peixes da gastronomia açoriana pode ser encontrada em: file:///C:/Users/User/Downloads/155267.pdf.

[14] Os Açores tiveram uma importância capital na luta entre liberais e absolutistas, e a Terceira, desde o início da Revolução de 1820, no Porto, aderiu à causa liberal. Em 1828, D. Miguel proclamou-se rei e o liberalismo caiu, mas enquanto o comandante militar da ilha de São Miguel apoiou os miguelistas, os terceirenses mantiveram-se fiéis ao liberalismo. Angra do Heroísmo foi transformada em sede da Junta Provisória (isto é, capital do Reino) em nome de Dona Maria, filha de D. Pedro. Em recompensa ao apoio dado à causa liberal, D. Maria II atribuiu, a Angra, o cognome de “mui nobre leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo” e à Praia da Vitória, o de “muito notável”. D. Pedro, após uma viagem pela Europa em que buscou apoios aos liberais, chegou à Terceira em 3 de março de 1832. Pouco depois, os liberais atacariam São Miguel e conquistariam a ilha. Todo o arquipélago acaba por aderir ao liberalismo. Os “Bravos do Mindelo”, um exército de 7500 homens comandados por D. Pedro, entrou no continente e, em 1834, recuperou a coroa portuguesa para Dona Maria II.

[15] O jovem que nos guiou pela casa era excelente, competente, com um gosto evidente e entusiástico pelo seu trabalho e, logo, pelas vida e obra de Vitorino Nemésio.

[16] As festas do Divino Espírito Santo têm natureza caritativa e o objetivo é a entrega do bodo aos mais necessitados da freguesia. Tudo começa no domingo da Trindade (o primeiro após o Pentecostes) com o sorteio para saber quem serão os mordomos do ano seguinte. O primeiro a ser eleito recolhe as insígnias do Espírito Santo – a coroa e a bandeira – e guarda-as em sua casa até a Pascoela, quando começam os festejos. É então que se realiza a coroação, sendo a coroa colocada, na igreja da freguesia, na cabeça do Imperador – criança ou adulto – que depois a leva em procissão até a casa de outro mordomo que a guarda por uma semana.

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Homo Interstaticus

Homo Biologicus, é o título do primeiro livro do médico francês Pier Vincenzo Piazza.

Todo o organismo tende para um estado de equilíbrio, o estado homeostático. Temos de respirar, comer e beber para manter esse equilíbrio, sendo que a auto-regulação do nosso organismo faz o resto. Há milhões de anos, quando os nossos ancestrais viviam num ambiente em que os recursos alimentares disponíveis eram escassos, a seleção natural, por uma questão de sobrevivência da espécie, “criou” o que hoje chamamos de homem “exostático”, aquele que, em oposição ao homem “endostático” que apenas se alimenta até ficar saciado, come mais do que necessita para repor o equilíbrio momentâneo, isto é, armazena comida no organismo prevenindo momentos futuros de escassez. Tal como beber sem ter sede ou respirar mais do que o necessário, também comer sem ter fome era, naquela período, penoso. Então, a seleção natural teve de “engendrar” uma estratégia para que o organismo dos nossos ancestrais armazenasse o bem mais escasso de que necessitava – comida – e assim nasceu o prazer.

A nossa espécie passou, a partir daí, a ter dois tipos de indivíduos, os “endostáticos” e os “exostáticos”. Estes últimos são os mais propícios a ter todo o tipo de prazeres, desde a vontade incontrolável de comer (daí a praga da obesidade), ao consumo de drogas, passando pelo vício do jogo e a apetência para desportos radicais. Para lá de um sistema endocabinoide mais operante próprio dos “exostáticos”, não existe nada de errado com estes indivíduos. O que acontece é que o processo de seleção natural tem uma escala de milhões de anos e o processo tecnológico humano de transformação dos recursos terrestres (nomeadamente a agricultura) tem uma escala muito menor. Ou seja, os nossos organismos preparados pela natureza para viverem em tempos de escassez, viram-se subitamente rodeados de abundância. Daí que haja tantos indivíduos obesos nas sociedades ocidentais: enquanto “exostáticos”, eles estão “programados” pela natureza para comerem mais do que necessitam e assim armazenarem energia, em prol da sobrevivência da espécie.

Esta dualidade endo/exos da nossa espécie reflete-se também nas visões que temos do mundo. O indivíduo “endostático” tende a ser conservador e o “exostático” progressista. As visões “endostática” e “exostática”, além de se oporem entre si, são limitativas e parciais, não nos permitindo enfrentar com eficácia os graves problemas que o mundo enfrenta, pois tal só é possível se compreendermos, afinal, por que existe essa oposição. Para isso, Piazza, o autor de Homo Biologicus, o livro onde tudo isto se esclarece, propõe um homem novo, com uma nova visão: o homo interstaticus. Com uma abordagem mais abrangente, este novo homem está pronto para sintetizar as visões “endostática” e “exostática”, e assim dar resposta aos problemas que a nossa espécie enfrenta. Por exemplo, não é mais possível, considerar os viciados em drogas (ou noutra coisa qualquer) como pessoas falhas de vontade, uma vez que a sua biologia os impele a ter esse comportamento. Ninguém se lembraria de considerar um esquizofrénico ou um autista como pessoas falhas vontade. Pois o mesmo deve acontecer com os viciados em drogas (das leves às duras, incluindo as mais disseminadas e legais como o álcool e, sobretudo, o tabaco) que, à luz dos conhecimentos científicos contemporâneos, tal como os que padecem de Alzheimer ou Parkinson, são pessoas doentes.

A abordagem aos problemas causados pelas drogas está pois condicionada pelo nosso dualismo. É por isso que a maioria de nós ainda pensa que as drogas consideradas “duras” são as mais perigosas, quando na realidade são as menos tóxicas e as que menos matam. Estas drogas são proibidas em quase todas as sociedades, ao contrário do álcool (proibido apenas em algumas sociedades) e do tabaco (cujo consumo não é proibido em nenhum país), que matam um número de indivíduos muitíssimo superior em todo o mundo, simplesmente por uma razão: porque um viciado em tabaco consegue perfeitamente trabalhar enquanto um viciado em heroína tem grande probabilidade de deixar de ser produtivo. Esta perspetiva utilitarista, que considera o viciado um fraco sem domínio de si mesmo, não nos permite abordar a raiz do problema.

Na verdade, essa visão do homem sem vontade, advém mais uma vez de uma perspetiva dualista ainda presente nas nossas sociedades: a de que somos compostos por duas partes, uma material (o corpo) e outra imaterial (a mente ou a alma). Piazza mostra-nos que tal coisa não existe: a nossa suposta “vontade” é fruto do que se passa no nosso cérebro que, apesar da sua incrível complexidade, é matéria. Somos, de facto, um animal exclusivamente biológico, um organismo com o cérebro proporcionalmente maior, mas ainda assim, um organismo como os outros na natureza. É com consciência das nossas limitações que devemos também abordar o futuro, repensar tudo, incluindo o percurso de guerras e destruição ambiental que vem caracterizando a atividade humana. É necessário um novo ponto de partida e a esperança reside numa abordagem mais abrangente e integral, à luz dos novos conhecimentos científicos sobre a biologia humana, a do homo interstaticus.

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A nossa edição:

Homo Biologicus, Pier Vincenzo Piazza, Bertrand Editora, Lisboa, 2020.

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Foto retirada de :

https://www.sudouest.fr/2019/09/29/piazza-la-biologie-et-la-vie

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Ainda e sempre: a Liberdade

Estátua da Liberdade, em Budapeste.

Os atropelos aos direitos humanos que ocorrem hoje na Bielorrússia, tal como vêm ocorrendo em Hong Kong, na China e em tantos outros lugares, mostram-nos a sorte que temos por vivermos em liberdade. Deveríamos lembrar-nos disto todos os dias. É verdade que não há sistema de poder no mundo que não tenha cometido, ao longo da história, abusos do poder. Mas nós – refiro-me às democracias liberais respeitadoras dos direitos humanos e da divisão de poderes – fomos os únicos que reduzimos esses abusos para níveis nunca antes alcançados. Costumo dizer: “se queres aquilatar o desenvolvimento social de um país, visita as prisões, os hospícios e os lares de idosos”. Comparar uma prisão na Noruega com outra na Chechénia é como comparar a noite com o dia. As grandes assimetrias nas sociedades humanas têm tudo que ver com a liberdade. Claro que também com outras coisas, como educação, corrupção, religião, etc, mas acima de tudo com a liberdade, pois só com liberdade se pode melhorar todo o resto. Deveríamos ter sempre em consideração o quão preciosa é a liberdade e jamais embarcar em aventuras que a possam pôr em causa. A liberdade é avessa a extremismos, a radicalismos, a dogmas. A liberdade é tolerante. Porém, em nome da sua própria sobrevivência, a liberdade não pode tolerar a intolerância (“paradoxo da liberdade”): a sociedade livre não pode permitir que aqueles que querem destruí-la levem a sua avante…

“Avante”, uma palavra que nos remete para o festa que o Partido Comunista pretende levar a cabo nestes tempos de pandemia, uma intenção polémica que certamente vai concretizar-se e em torno da qual temos a dizer o seguinte.

1- Não existe nenhum partido comunista (ou marxista), com o peso que o PCP tem em Portugal, no mundo socialmente desenvolvido. A representação que os partidos marxistas têm em países como a Noruega, a Suécia, a Finlândia, o Canadá, a Nova Zelândia, a Austrália, a Suíça, a Holanda, entre outros com os maiores índices de desenvolvimento humano, é meramente residual, entre 0% e 1%. Mesmo em Itália, onde tinha força considerável, o Partido Comunista (entretanto reformado, o que nunca aconteceu em Portugal) praticamente desapareceu. Nesses países, o marxismo é uma ideologia anacrónica, apoiada por alguns excêntricos. Em Portugal, o PC e o BE (partidos ideologicamente próximos e ambos de inspiração marxista) atingem em conjunto uns absurdos 15% de representatividade no parlamento português.

2- A causa principal desta representatividade remonta ao período fascista. A ideologia marxista é ainda, em larga medida, uma reação à ditadura salazarista. Os extremos auto-alimentam-se e tendem a anular o espaço entre eles. É por isso que ainda é comum os comunistas considerarem aqueles que são do centro-direita, do centro, ou mesmo do centro-esquerda, de “fascistas”. Toda a gente sabe que um dos principais inimigos do PC, talvez o principal, é o PS, que segue invariavelmente, segundo os comunistas, uma “política de direita contrária aos interesses dos trabalhadores”. Muitos jovens de hoje, cujos pais ou outros familiares lutaram contra o fascismo, têm uma ligação emocional aos partidos marxistas, uma atitude em parte compreensível mas mais próxima da religião do que da racionalidade. A componente religiosa do marxismo é, aliás, algo bastante estudado e largamente documentado. Tal como há fações no interior das religiões que reclamam para o si o purismo da doutrina, também há inúmeros marxismos, cada um pretendendo ser o melhor intérprete da doutrina verdadeira. Essa é a razão, de resto, do surgimento de tantos partidos de inspiração marxista.

3- O PCP não proferirá uma palavra para condenar os revoltantes atentados à liberdade perpretados pelo ditador Lukashenko. Para o PCP, todo o sofrimento causado pelos estados autoritários seus amigos é apenas um efeito secundário do medicamento – o marxismo – que promete a cura para a grande doença social: a desigualdade.

4- O valor social máximo de um marxista é, portanto, a igualdade. Para atingi-la, como a teoria antevê (“ditadura do proletariado”) e a história confirma, abdica da liberdade. Porém, acontece que as sociedades não-livres, incluindo as comunistas ou supostamente comunistas, são as mais desiguais da história, e as sociedades liberais são as menos desiguais (embora tenhamos muito a fazer para as tornar mais igualitárias). Isto é um facto. Perdida a liberdade, jamais alcançaremos a igualdade. Finalmente, privados de liberdade, sem sequer igualdade e muito menos prosperidade, perdemos tudo, tornamo-nos escravos do nosso amo: se nos revoltarmos, somos presos e, eventualmente, torturados ou mortos; se nos submetermos, transformamo-nos em autómatos, seres sem responsabilidade pelos seus atos.

5- As modernas sociedades comunistas são, pois, as mais desiguais da história. Os ditadores comunistas, chamem-se Estaline, Ceausescu, Castro, Dos Santos, Jong-un ou Jinping estão, ou estavam, durante os respetivos períodos de governação, entre os indivíduos mais ricos e com vidas mais sumptuosas do mundo. As suas riquezas, porém, ao contrário do que acontece com os empresários capitalistas, não resultam de uma atividade económica produtiva, antes do roubo que esses ditadores praticam sobre os seus próprios países e povos.

6- A festa do “Avante!” será, pois, segundo a perspectiva comunista, mais um momento de “afirmação da grande capacidade do Partido”, um grande e inadiável evento cultural e político, uma oportunidade para mostrar, mais uma vez, os benefícios desse maravilhoso medicamento de largo especto chamado marxismo. Um “covidezinho” aqui outro ali, a acontecerem, mais não serão que manifestações de um efeito secundário irrelevante face à eficácia do tratamento que, embora alguns ainda não o saibam, nos irá salvar a todos.

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Viena, Budapeste e Bratislava

A construção do parlamento húngaro durou de 1885 a 1904. Aqui foram usados 40 milhões de tijolos, 500 mil pedras decorativas e 40 quilos de ouro. 242 esculturas decoram o exterior e o interior deste edifício neogótico. É o maior edifício da Hungria e o terceiro maior parlamento do mundo.

BUDAPESTE

São três capitais muito próximas[1], ligadas pelo rio Danúbio, perfeitamente visitáveis num fim de semana prolongado. Os voos diretos low cost entre Faro e Budapeste, operados pela companhia húngara Wizz, tornaram esta escapadela ao coração da Europa ainda mais irresístivel. A nossa visita começou por uma cidade monumental. Em Budapeste, somos brindados com magníficas obras de arte por todo o lado, sejam edifícios, pontes ou esculturas. A parte mais interessante da cidade é a que fica junto ao rio, na margem oeste (Buda) ou leste (Peste), onde dois edifícios, respetivamente, se destacam: o Palácio Real e o Parlamento húngaro. O Palácio alberga o Museu de História de Budapeste, a Biblioteca Nacional Széchenyi e a Galeria Nacional Húngara. Foi nesta última que tivemos o ensejo de visitar uma exposição sobre Frida Kahlo e a sua obra, patente ao público aquando da nossa visita. Seguindo a história deste imponente palácio podemos acompanhar grande parte da atribulada história de Budapeste e da própria Hungria, um país no centro da Europa, ocupado por mongóis, turcos, austríacos, russos, alemães e soviéticos. O Castelo de Buda, como agora é mais conhecido o palácio, foi inicialmente mandado construir por Sigismundo de Luxemburgo (1368-1437), rei da Hungria e das Terras Checas, à época, um dos mais poderosos soberanos europeus. Mais tarde, sob o reinado de Matias I (1458-1490), foi ampliado dentro do estilo renascentista, mas a ocupação turca, de 150 anos, e a consequente reconquista de Buda (com a ajuda dos Habsburgos), em 1686, provocaram a sua destruição.

Pátio dos Leões, no Palácio Real.

Seguiu-se um período que ficou conhecido como a “Era das Reformas”, quando muitas edificações emblemáticas, como a Academia Húngara das Ciências, o Museu Nacional e a Ponte Széchenyi (“Ponte das Correntes”), foram erguidas. Porém, um conflito armado traria de novo a destruição; desta feita, a revolução contra os Habsburgos, de 1848. Só a partir de 1867, após um acordo com o Império dos Habsburgos, Buda e Peste conheceram um novo impulso, desta vez o maior de sempre. Na viragem para o século XX uniram-se para formar Budapeste, esta lindíssima cidade que conhecemos. Data desta época a construção do Parlamento, o maior edifício da Hungria, cujo projeto foi desenhado por Imre Steindl. Mas, uma e outra vez, o processo de desenvolvimento seria interrompido, primeiro pela Grande Guerra (1914-1918) e, um quarto de século mais tarde, pela II Guerra Mundial, quando os soviéticos bombardearam e destruíram mais uma vez o Palácio Real, onde os alemães se aquartelavam. Nessa altura, já Budapeste era conhecida pelos seus belos cafés e esplanadas, pelos banhos termais, pela vida noturna e oferta cultural e, claro, pelas extraordinárias obras de arquitetura e escultura espalhadas por toda a cidade, tal como hoje.

Exposição de e sobre Frida Khalo, na Galeria Nacional Húngara, em Budapeste.

Quem visitar Budapeste poderá encontrar, antes ou já no decurso da viagem, roteiros que invariavelmente incluirão, além dos referidos Palácio Real e Parlamento, as pontes sobre o Danúbio (Ponte das Correntes, Ponte Isabel, Ponte da Liberdade e Ponte Margarida), a Colina Gellért (onde fica a Estátua da Liberdade), o Palácio Sándor, a Catedral de São Matias, o Bastião dos Pescadores, os Banhos (Király, Rác, Gellért, Rudas, Veli Bej), o Museu Etnográfico, a Basílica de Santo Estevão, o Grande Mercado de Budapeste, o Bairro Judeu e a sua monumental sinagoga , a Baixa de Peste, o Jardim Botânico, o Palácio das Artes, a Praça dos Heróis, o Passeio do Danúbio (ao longo do qual podemos encontrar belíssimas esculturas), etc., etc., etc.

Em Budapeste há muito que admirar. E quando cai a noite, a cidade não perde beleza, antes ganha cambiantes de oiro que refletem dos edifícios sabiamente iluminados. É quando um passeio de barco ao longo do Danúbio nos parece mais apropriado. Para acabar a noite, nada melhor que um drink no Szimpla Kert, um edifício perto do bairro judeu[2] que alberga bares, restaurantes, galerias, discoteca, lojas, e onde atuam músicos diversos ou DJs, todos os dias.

No interior do Szimpla Kert.

A decoração, mais ou menos caótica, as paredes interiores cobertas por uma panóplia incrível de objetos, constituem uma atração suplementar. O próprio edifício apresenta uma fachada exterior ornamentada com mísulas entre os pisos, balaustradas sob as altas janelas e a varanda central, e pequenos frontões sobre as mesmas: além de robusto e clássico, é mesmo muito bonito. A rua onde fica o Szimpla Kert tem vários restaurantes e bares e toda esta zona tem grande animação noturna. Uma visita a este espaço é algo que o recém-chegado a Budapeste não pode perder.

VIENA

Por seu lado, Viena é igualmente uma cidade monumental. Partindo de Budapeste de comboio, atingimo-la em cerca de duas horas e meia. A primeira coisa que convém fazer ao chegar à cidade é comprar um título de transporte que permite circular durante 24 horas em qualquer transporte público de Viena, pela módica quantia de oito euros. Recomenda-se vivamente a utilização do metropolitano, que é rápido, abrangente e de alta frequência.

Belvedere superior, Viena.

A nossa primeira paragem foi no Palácio Belvedere[3], um conjunto formado por dois edifícios principais e um parque histórico, desenhado no começo do século XVIII pelo prestigiado arquiteto Johann Lucas von Hildebrandt e considerado um dos conjuntos barrocos mais belos do mundo. Era residência de Verão do general austríaco Príncipe Eugénio de Saboia e é hoje parte do Património da Humanidade da UNESCO. A nossa visita incidiu sobre o Belvedere Superior, originalmente espaço de representação (o príncipe vivia no Belvedere inferior), agora espaço que alberga algumas das mais importantes pinturas do mundo, integradas numa coleção que inclui vários milhares de peças.

Desde logo, os quadros de Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, mas igualmente obras de outros autores austríacos, desde a Idade Média até aos nossos dias. E obras de Rodin, Monet, Manet, Van Gogh, Renoir, entre muitas outras. Uma manhã (ou tarde) inteira não é muito tempo para apreciar as belezas deste espaço que, nem seria necessário dizê-lo, são imperdíveis.

O famoso “Beijo”, de Klimt, a maior atração do Belvedere superior.

Depois de Belvedere[4], ocupámos o nosso tempo à procura de locais relacionados com a vida de Karl Popper, nascido nesta cidade de Viena em 1902, uma tarefa que não se afigurou muito fácil. Constatámos, com alguma surpresa, que a maioria dos vienenses com quem falámos não conhecia Karl Popper[5]. Mesmo assim, conseguimos estar na rua onde ficava a casa em que viveu grande parte da infância, no liceu que tem o seu nome e na universidade de Viena, que frequentou. Por vezes, é muito interessante conhecer uma cidade através dos locais onde uma pessoa que admiramos viveu… A Universidade de Viena é particularmente interessante, com o seu enorme átrio sob cujas arcadas figuram bustos dos proeminentes alunos que ali estudaram (e são imensos!), Popper incluído.

Da Universidade rumámos ao coração de Viena, à praça onde se ergue a magnífica catedral de Santo Estevão. Nesta praça e nas suas imediações encontram-se muitos dos charmosos cafés de Viena, onde o viajante pode retomar o fôlego para nova caminhada.

Busto de Popper na Universidade de Viena.

Assim, da Stephans-Platz seguimos a pé até ao imponente palácio Hofburg, centro do poder dos Habsburgos, soberanos do Ducado da Áustria desde o século XII até o século XX[6]. Tudo aqui é grandioso. O palácio em si mesmo, com as suas mais de 2.600 salas, a Heldenplatz, para onde fica virado, os grandes jardins, a estatuária, o trabalho arquitetónico. O Palácio Hofburg, residência oficial do Presidente da Áustria, foi, como já dissemos, ocupado durante séculos pelos Habsburgos, era a sua residência de Inverno. Quisemos conhecer também a residência de Verão e, para isso, tomámos o metro e rumámos ao Palácio de Schönbrunn. Como seria de esperar, deparámo-nos com mais um conjunto (edifícios, estátuas, jardins) imponente. O Palácio de Schönbrunn, em estilo barroco, é realmente muito belo. Com esta visita a Schönbrunn terminou também a nossa visita a Viena. O comboio que nos transportaria a Budapeste já vinha a caminho. Quem disse que num único dia não se pode ver muito de uma cidade?

Palácio de Schönbrunn. Aqui se realizam, ao ar livre, magníficos concertos de Verão.

BRATISLAVA

Da nossa “sede”[7], em Budapeste, demos um salto de 200 quilómetros, desta feita de autocarro, a outra capital europeia, Bratislava. Esta cidade não tem a monumentalidade de Budapeste ou de Viena. Isso torna-se óbvio quase de imediato. Tal não surpreende, pois a Eslováquia, um pequeno país que na sua forma atual tem apenas 27 anos, foi sempre um território integrado num país ou império maiores. Fez parte do Reino da Hungria e depois, quando este integrou o Império Austro-Húngaro, passou a ser parte também desse império. Após a dissolução deste, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, checos e eslovacos criaram a Checoslováquia, que duraria até 1993, quando os dois países se tornaram independentes, após o processo da “Revolução de Veludo”. Pelo meio, entre 1939 e 1945 (Segunda Guerra Mundial), ainda existiu uma república eslovaca supostamente independente, mas na realidade um estado fantoche controlado pelos nazis. De ascendência eslava, os eslovacos são um povo resiliente que tem desenvolvido enormemente o país desde a independência e, sobretudo, desde a sua integração na União Europeia e, posteriormente, na Zona Euro. É um dos países mais igualitários do mundo em termos salariais, apenas superado pelas Ilhas Faroé[8].

Praça do Município Velho, no centro histórico de Bratislava.

Percorremos Bratislava a pé. Do terminal rodoviário ao centro, e volta. A cidade é muito mais pequena, muito mais tranquila e muito menos turística que Viena ou Budapeste. Sendo uma capital europeia há menos de trinta anos, não pode ter a grandeza de outras que o são há séculos. Mas, mesmo assim, Bratislava tem os seus encantos. Na zona histórica sobressai a Praça do Município Velho, com os seus cafés e esplanadas. Não muito longe (tudo em Bratislava é perto), no topo de uma colina sobranceira ao Danúbio, destaca-se o Castelo de Bratislava, residência do presidente da República, cuja construção se iniciou ainda no século X. Daqui, a 85 metros de altura, pudemos desfrutar de uma bela vista sobre o centro da cidade e o Danúbio, lá em baixo. Na volta, fomos observando as esculturas que ornamentam muitas das ruas do centro histórico e são uma atração da cidade. Finalmente, entrámos no Palácio Pálffy, onde se encontra a Passagem de Matej Kren, que suscita a ilusão de um espaço infinito de livros. Um espaço infinito de livros na Terra e um espaço infinito de estrelas no Céu. Assim terminou a nossa viagem.

Passagem Matej Kren, em Bratislava.

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Notas:

[1] Viena e Bratislava são as duas capitais mais próximas do mundo, separadas por apenas 65 quilómetros de estrada.

[2] A grande Sinagoga Dohani, a segunda maior do mundo, fica no bairro judeu de Budapeste.

[3] Uma entrada no Belvedere superior custa €22,00.

[4] O palácio foi vendido pelos herdeiros do príncipe Eugénio a Maria Teresa da Áustria, que o batizou de Belvedere (“bela vista”, em italiano).

[5] Outros vienenses ilustres, cujas ideias Popper combateu, são mais populares em Viena, na Áustria e, provavelmente, no mundo. Referimo-nos sobretudo a Freud e a Wittgenstein. O primeiro tem mesmo um museu com o seu nome em Viena.

[6] A Primeira Guerra Mundial, grande destruidora de impérios, não poupou o Império Austro-Húngaro.

[7] Ficámos quatro noites hospedados no Capital Guesthouse Budapest, por €137,00. A localização é boa, muito perto da estação ferroviária e relativamente perto do Danúbio e do centro histórico, e a relação qualidade-preço é aceitável.

[8] Conferir o coeficiente de Gini ou ver nosso artigo aqui: https://ilovealfama.com/2020/04/24/paises-modelo/

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A última entrevista

Popper, o filósofo que detestava modas.

No dia 29 de julho de 1994, um dia depois de completar 92 anos, Karl Popper concedeu a entrevista que se segue ao filósofo polaco Adam Chmielewski, na sua casa (de Popper), em Inglaterra[1]. Tanto quanto se sabe, esta foi a sua última entrevista. Karl Popper viria a falecer seis semanas depois, em 17 de setembro. Aqui fica o registo, traduzido por nós com base no documento, publicado em inglês, de Chmielewski.(file:///C:/Users/User/Downloads/The_Future_is_Open._A_Conversation_with.pdf).

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O Futuro é Aberto

Uma Conversa com Sir Karl Popper

Adam Chmielewski (AC): Sir Karl, por favor aceite os meus melhores votos na passagem do seu nonagésimo segundo aniversário.

Sir Karl Popper(KP): Muito obrigado.

AC: Sir Karl, apesar da sua impressiva idade, o senhor é um filósofo muito ativo. Poderia dizer-me em que é que trabalha atualmente? Está ainda a desenvolver o seu sistema?

KP: Oh, sim. Veja bem, eu sempre trabalho em várias coisas ao mesmo tempo. A minha última publicação foi mais uma contribuição para a nova edição alemã do meu livro “Lógica da Descoberta Científica”. O meu editor alemão sempre quer que eu acrescente qualquer coisa antes que uma nova edição seja publicada, e eu normalmente uso a oportunidade para acrescentar um apêndice. Por isso, recentemente, há uns quinze dias, publiquei o meu vigésimo apêndice à décima edição alemã do livro, que de outra forma apareceria sem nenhuma revisão. O apêndice contém uma nova definição de independência probabilística. Assim, eu trabalho nessas coisas o tempo todo. Estou a trabalhar sobre os pré-socráticos, Parménides, geometria de Aristóteles, e em muitas outras coisas.

AC: Então parece continuar com os interesses expressos no seu famoso artigo “Voltar aos Pré-Socráticos” e nos dois volumes de “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”. Está também a voltar ao seu trabalho sobre Platão, a quem devotou o primeiro e controverso volume da “Sociedade Aberta”?

KP: Oh, sim! Continuo interessado em Platão. Por acaso fiquei recentemente interessado na geometria pré-euclidiana, ou seja, em geometria sem a ideia de um sistema fechado axiomático, e na geometria de Aristóteles. Estou interessado, antes de tudo, no famoso diálogo de Platão, “Ménon”, que, obviamente, não é de todo geometria axiomática. E há algo em Aristóteles que, conceptualmente, é semelhante às ideias de Platão no “Ménon”. A ideia euclidiana tem sido, claro, imensamente importante, por exemplo para os “Principia Mathematica” de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead, e por aí fora. Tudo depois de Euclides é axiomático, mas penso que a prova de Platão no “Ménon” é, por assim dizer, uma prova absoluta, não relativa a suposições… Não há suposições ali. Penso que esses tipos de provas matemáticas absolutas, sem suposições, foram fatalmente negligenciadas. Foi uma área negligenciada que é muito importante para mim.

AC: Eu recordo que na sua “Sociedade Aberta”, em notas muito ricas do livro, se referia às ideias matemáticas de Platão, particularmente em “Timeu”…

KP: Em conjunto, a filosofia grega é maravilhosa. Não gosto da ética de Platão, a sua filosofia social é, em parte, extremamente inteligente, mas a sua atitude é autoritária e ditatorial, e não humanitária. Por isso, não gosto da sua atitude moral mas admiro a sua inteligência.

AC: Alguma vez voltou a estudar Hegel, outro “inimigo da sociedade aberta”?

KP: Não! Não! Eu ainda detesto Hegel! Prefiro ler Kant. Tenho algumas primeiras edições dos trabalhos de Kant que consulto frequentemente.

AC: Sobre que aspeto da filosofia de Parménides é que trabalha atualmente?

KP: Acredito que Parménides era um materialista que acreditava que as coisas inamovíveis são reais. Agora, qual era realmente a sua atitude? A minha teoria é que ele acreditava que a vida e a luz não eram reais; mas a morte era real, bem como os objetos imóveis; o corpo morto era, para ele, parte da realidade. Mas a vida é uma ilusão, a luz é uma ilusão, o amor é uma ilusão. Ele fala destas coisas na segunda parte do seu poema, que é dedicado à vida, ao amor e à luz; é, portanto, sobre ilusões, não sobre o que é real. Quando algo é inamovível é real, quando se move não é real. É isto que eu penso ser a sua teoria. Ele aprecia a beleza, a vida, mas todas essas coisas estão indo embora ou desaparecendo. São, por isso, ilusão. É isto que eu penso ser a sua verdadeira filosofia. E penso que ninguém tenha dito isto. Penso que ele era um pensador muito original e interessante, e que era, de facto, um cientista e um astrónomo, um importante investigador em astronomia.

AC: O interesse dele pela astronomia poderia ter sido estimulado pela influência pitagórica…?

KP: Sim, provavelmente. E estava-o guiando, como aconteceu com Einstein.

AC: Pode dizer algo mais sobre isso?

KP: Sim. Einstein acreditava que o universo era determinístico. Ou seja, já existia num espaço quadrimensional, com o futuro e tudo dentro dele. Eu tentei mostrar-lhe que ele estava errado. De qualquer forma, trata-se de um universo-bloco em quatro dimensões, como em Parménides. Foi por isso que apelidei essa visão de “Parménides-Einstein”. É muito fácil a um cientista adotar esse ponto de vista porque se trata realmente de uma forma de materialismo – um universo-bloco como uma unidade tridimensional ou quadrimensional.

AC: Mas você argumentou contra este ponto de vista. Você defendeu que o universo é aberto. Que tipo de argumentos usou para convencer Einstein a abandonar essa visão?

KP: Antes de tudo, nada no mundo inteiro sugere isso. Se você vivesse na Antártida, uma tal visão talvez fosse defensável. Mas a diferença entre o nosso mundo e a Antártida mostra que essa visão é errada. A vida é incrivelmente variada e incrivelmente produtiva, está sempre a produzir coisas novas. É como a música, as artes, que são incrivelmente produtivas e criativas. Mozart, Beethoven ou, se preferir, Chopin – embora, devo confessar, eu não seja particularmente apaixonado por Chopin, também ele era criativo e trouxe algo de novo ao mundo, um novo estilo, uma nova forma de tocar. E o mundo está, da mesma forma, cheio de coisas criativas; mas a atitude determinística do universo-bloco fecha a nossa mente e não nos deixa ver um dos aspetos mais encorajadores e interessantes do mundo.

AC: Há alguns anos, em junho de 1989, assisti à sua palestra, ministrada perante os ex-alunos da London School of Economics, sobre conhecimento objetivo e epistemologia evolucionária. Fiquei com a impressão de que os seus pontos de vista sobre essas questões não mudaram desde a publicação de “Conhecimento Objetivo”.

KP: Desenvolvi-os, mas não os mudei. Nos últimos catorze anos trabalhei muito de perto com um bioquímico, Günther Wächtershäuser, sobre os problemas do gene da vida. Ele é professor de bioquímica evolucionária em Regensburg, na Alemanha.

AC: Quais são os seus novos pensamentos sobre a epistemologia evolucionária?

KP: Antes de tudo, acredito que o princípio da epistemologia não deve ser as observações que fazemos, mas a nossa aprendizagem intelectual; o tópico da epistemologia é este: mudar as nossas teorias, melhorando-as.

AC: Este ponto de vista é um elemento da sua crítica à tradição empirista. A rejeição dessa tradição tem constituído um ponto de partida da sua epistemologia e filosofia da ciência.

KP: Sim, claro. Os nossos sentidos têm uma função biológica a desempenhar e essa função biológica não serve apenas para nos fornecer sensações, mas também para nos dar um conhecimento importante para a vida. Não podíamos fazer nada apenas com sensações. O ponto decisivo não é a observação, mas as expectativas. Estas são biologicamente importantes.

AC: Algo que está dentro de nós, não fora…

KP: Se assim preferir, mas não há uma grande diferença. A expectativa é acerca do que nós cremos encontrar do lado de fora. O nosso conhecimento é para nos ajudar nas nossas ações e no nosso futuro. O nosso conhecimento é feito de expectativas e a nossa vida é baseada nelas. Você não espera que eu tire uma arma do meu bolso e dispare sobre você. A expectativa de que eu o trate pacificamente é fundamental para a nossa conversa e não se baseia na observação, já que você não olhou nos meus bolsos. Temos de nos orientar constantemente em tudo que estamos a fazer ou a não fazer e tudo isso é baseado em expectativas. Temos sempre expectativas sobre o que vai acontecer.

AC: … Que são posteriormente confirmadas ou não…

KP: Estas expectativas são também a base das nossas hipóteses e teorias. Obviamente,o nosso conhecimento é todo acerca disso. Não acerca se isto é ou não é uma laranja, por exemplo. Eu refiro-me a todas estas experiências, se o ovo está aberto por trás ou não. É perfeitamente verdade que, se eu lhe mostrar um ovo, você não vai esperar que ele esteja aberto atrás, claro, mas é o que você espera, não o que você vê. Da mesma forma, você espera que a minha cabeça não esteja aberta atrás, e por aí fora. Então, nós temos de olhar para o nosso conhecimento tendo em mente a sua função, e esta é fundamentalmente a mesma dos animais. Até as plantas esperam que coisas aconteçam, e também elas se ajustam aos eventos futuros.

AC: Neste ponto é natural que eu pergunte: quais são as fontes dessas expectativas?

KP: A fonte das nossas expectativas é em parte o nosso conhecimento inato, por assim dizer, o conhecimento que remonta ao nosso ajustamento darwiniano ao mundo. Uma criança, por exemplo, ajusta-se ao ambiente circundante através do seu conhecimento inato. Aliás, esta é a razão porque a televisão é tão perigosa, porque a televisão faz parte do ambiente da criança e ajusta-se a ela.

AC: De facto, a criança espera que o mundo seja muito parecido com a imagem que a televisão passa – e geralmente fica fortemente dececionada…

KP: Exatamente! Isso é muito perigoso. Tudo o que fazemos está relacionado com a tarefa de um organismo para se ajustar ao meio ambiente. Animais e plantas. Antecipação e expectativa são particularmente importantes para animais que se podem mover. No seu movimento eles têm de antever o que vai acontecer, como um motorista num carro. Se você conduz um carro ou uma bicicleta, você antecipa o que irá acontecer a seguir. É isso que faz a nossa consciência.

AC: Então pode dizer-se que somos apenas um conjunto de expectativas, impulsos e desejos, e que no processo de cumprimento de nossas expectativas e impulsos, nós somos transformados juntamente com essas expectativas e desejos, que são os nossos principais impulsionadores…

KP: Sim, é isso mesmo.

AC: Sir Karl, o senhor é um dos defensores mais ativos do liberalismo, um crítico severo do marxismo e de todos os tipos de historicismo, um porta-voz inflexível da democracia. O senhor dedicou grande parte da sua atividade filosófica ao combate ao comunismo e ao totalitarismo, pregando a defesa da sociedade aberta. Qual foi a sua reação à revolução democrática na Polónia e em outros países da Europa Central, que marcaram a queda do sistema comunista e abriram esses países ao mundo ocidental?

KP: Claro que gostei dessas mudanças. Mas devo dizer que não penso que o marxismo tenha sido definitivamente derrotado. Estou certo de que ele regressará uma e outras vezes. Talvez nem tanto na Polónia, mas seguramente na Rússia. Mas até talvez na Polónia, e mesmo no Ocidente. Penso que as pessoas têm tendência para serem historicistas. Veja, se você olhar para um jornal qualquer, seja em que língua for, verificará que quando alguém escreve sobre política, implicitamente acredita que o político bom, justo e sábio é aquele que antecipadamente sabe o que acontecerá a seguir, aquele que tem o dom da profecia no campo da política. Mas em minha opinião isto representa um fantástico preconceito, um tipo de loucura. Você não pode prever o futuro. O futuro não está fixado, é aberto. Tudo o que pode fazer é tentar adivinhar muito vagamente como será. Você não pode prever quando morrerei: posso morrer hoje, ou posso viver mais cinco anos – você pura e simplesmente não pode prever isso. Nenhum médico que seja realmente consciencioso pode prever o que realmente acontecerá a um paciente, exceto, talvez, em casos extremos. Se você não pode prever quando morrerei, como é possível prever seja o que for acerca de toda a sociedade? Assim, a crença de que o futuro pode ser determinado é, simultaneamente, equivocada e errada. Mesmo se o futuro fosse determinado, poderíamos não ser capazes de o prever; mas não é determinado e não podemos prevê-lo! Acreditar no contrário é ser vítima de uma superstição, uma superstição idiota que é bastante poderosa, um pouco por todo o lado. É por isso que o marxismo não desaparecerá, pois o marxismo não é apenas uma superstição deste tipo – é uma superstição “científica”. Então aparecerá de novo, uma e outra vez.

AC: Em geral, estamos testemunhando agora, apesar dos seus esforços, um forte reaparecimento do historicismo na filosofia contemporânea. Um dos muitos proeminentes pensadores dessa nova onda é Alasdair MacIntyre…

KP: Oh, sim. Eu conheci-o quando ele era muito novo e era um marxista. Fui convidado para um encontro do qual ele também participou. Parece que ele agora é um tomista…

AC: Além disso, em muitas disciplinas filosóficas pode sentir-se uma forte influência das famosas “Investigações Filosóficas” de Ludwig Wittgenstein, sobre quem você sempre foi muito crítico.

KP: Lamentavelmente, é verdade. É terrível. Eu penso que realmente a filosofia contemporânea britânica é muito má… desinteressante… maçadora… O segundo livro de Wittgenstein é extremamente maçador. O seu primeiro livro, “Tratado Lógico-Filosófico” tinha características bem diferentes. Em geral, a filosofia é dominada por diversas modas: historicismo, estruturalismo, novo historicismo, pós-estruturalismo, pós-modernismo e outras – tudo modas filosóficas. Mas a moda em ciência ou filosofia é algo terrível. Está lá, não há nada a fazer. Mas é algo que deveria ser desprezado, não seguido.

AC: Algum dos filósofos britânicos seguiu a filosofia do racionalismo crítico que o senhor iniciou aqui?

KP: Sim, o meu ex-aluno e assistente, David Miller. Ele acabou de publicar um livro sobre o assunto. Chama-se “A Defesa do Racionalismo Crítico”. Ele trouxe-me o livro ontem, como presente de aniversário.

AC: Quando prevê que a tradução alemã do seu livro “Conjeturas e Refutações” seja publicada?

KP: As minhas “Conjecturas”, apenas a primeira metade do livro, estão agora a ser lançadas em alemão. As “Refutações” sê-lo-ão mais tarde. Muitas pessoas tentaram traduzir o livro, mas eu achei todas as traduções péssimas. A tradução tem de ser feita com muita consciência. E eles não o fizeram. Agora foi o próprio editor quem traduziu e remeteu para nós. A senhora Mew fez uma primeira correção, eu fiz uma segunda, e daí resultou um livro muito bom.

AC: É nas suas “Conjeturas e Refutações” que você introduz muitos conceitos filosóficos que foram posteriormente severamente criticados por muitos filósofos da ciência, por exemplo, “verosimilhança”, “corroboração”…

KP: Oh, sim! Tudo na minha teoria da ciência foi criticado, mas todas essas críticas não eram boas. David Miller respondeu a algumas críticas no seu livro, embora eu tenha apenas olhado de relance, porque ele mo deu apenas ontem; e eu também tentei responder-lhes no meu livro “Em Busca de um Mundo Melhor”.

AC: No prefácio que escreveu especialmente para a edição polaca de “Conhecimento Objetivo”, você fez uma menção calorosa a Alfred Tarski. Muitos leitores polacos estão interessados na sua relação pessoal com Tarski, a quem este seu livro é dedicado, bem como com muitos outros representantes da escola de lógica e filosofia de Lvov-Warsaw.

KP: Encontrei-me com Tarski pela primeira vez em Praga há sessenta anos, em agosto de 1934. Foi aí que conheci também Janina [Hossiason-Lindenbaum]. Participei então, pela primeira vez, no Congresso Internacional de Filosofia. O congresso não foi muito interessante, mas foi precedido por uma conferência preliminar, organizada por Otto Neurath, em nome do Círculo de Viena. Depois disso Tarski transferiu-se de Praga para Viena, onde ficou um ano e onde ficámos amigos. Do ponto de vista filosófico, a minha amizade com Tarski foi muito importante para mim. Graças a Tarski compreendi o poder da noção de verdade absoluta e objetiva, e como ela pode ser defendida. Não sei como é hoje, mas naquele tempo as pessoas da Polónia eram mais sérias que as outras. Não quero dizer que não tivessem sentido de humor, não é isso, mas que elas estavam mais seriamente empenhadas em pensar do que pessoas da Áustria, da Alemanha, da Inglaterra, ou de qualquer outro lado. Eram pessoas muito, muito boas e sérias.

AC: Conheceu outro eminente lógico da escola de Lvov-Warsaw, Jan Lukasiewicz?

KP: Sim, era um homem simpático. Gostei muito dele. Conhecemo-nos nos exames de doutoramento de outro lógico polaco, Czeslaw Lejewski. Eu era o supervisor da tese e Lukasiewicz foi convidado para examinador externo.

AC: Como você provavelmente sabe, ele foi ajudado por Heinrich Scholz a fugir da Polónia ocupada pelos nazis e foi-lhe dado, por recomendação do primeiro-ministro da Irlanda, De Valera, ele próprio um matemático, o cargo de professor em Dublin.

KP: Eu conheci Heinrich Scholz. Encontrei-me com ele no Congresso de Paris em 1935, que foi organizado por Otto Neurath. Estou feliz por ele ter ajudado Lukasiewicz, ele não me mencionou isso. Schödinger também esteve na Irlanda e também foi levado por De Valera. O meu professor de física teórica, Hans Türing, quando soube que eu ia a Inglaterra, disse-me para eu visitar Schödinger em Oxford. Isto foi em 1935. Recentemente, fiquei abalado com a morte do meu amigo Jerzy Giedymin, eminente filósofo da ciência polaco, que passou muitos anos em Inglaterra. Não há muito tempo que ele foi visitar a Polónia e aí morreu.

AC: Muitos estudiosos da Polónia e de outros países da Europa Oriental – eu incluído – devem muito a George Soros que fundou uma série de instituições que permitem a troca de ideias, e o contacto entre elas e pessoas no Ocidente. Uma das fundações de Soros tem o nome de “Open Society Foundation,” que é uma alusão ao seu livro “A Sociedade Aberta”. Como vocês se encontraram?

KP: Ele era um aluno meu, há muitos anos. Mas mantivemos sempre contacto. Encontrei-o recentemente durante a minha visita a Praga. Ele também me visitou duas ou três vezes aqui. É sempre um pouco difícil para nós; quer dizer, eu não quero continuar com a relação professor-aluno. Estou muito contente por você ter sido ajudado por ele. Soros ajuda muita gente. Por exemplo, ele forneceu água a Sarajevo quando a cidade estava sitiada…

AC: Um dos seus amigos mais chegados era o laureado com o Prémio Nobel, Friedrich Hayek, que escreveu bastante sobre a teoria do liberalismo e a metodologia das ciências sociais.

KP: Sim, conheci-o por muitos anos. Em 1944, quando eu ainda estava na Nova Zelândia, ele remeteu-me um telegrama oferecendo-me uma cadeira de leitor na London School of Economics. Aceitei o convite e vim para Londres. Deixei a Nova Zelândia mesmo antes de terminar a guerra com o Japão, mas depois da guerra na Europa. O convite chegou enquanto a guerra na Europa ainda decorria. Ocupei o cargo em 1945, e em 1949 fui nomeado Professor de Lógica e Método Científico, também na LSE. Friedrich Hayek era três ou quatro anos mais velho que eu. Fomos muito próximos.

AC: Ambos eram fortes críticos dos regimes totalitários. Friedrich von Hayek era conhecido nos antigos países comunistas como o autor de “O Caminho para a Servidão”. Você é mais conhecido pela “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”. Ambos defendiam o liberalismo que, a meu ver, apresentava traços conservadores evidentes. Por exemplo, você, no livro que já mencionei, “Conjeturas e Refutações”, disse que o mundo das democracias liberais do Ocidente, mesmo que não seja o melhor dos mundos possíveis, é certamente o melhor de todos os mundos que existem. Esteve alguma vez tentado a mudar essa visão?

KP: Sim. Sim, mas apenas tentado.

AC: Não mudou então de ponto de vista sobre este assunto?

KP: Não. Quando alguém pretende ser crítico tenta mudar de ideias, pensa nas matérias vezes sem conta. Mas não mudei de opinião.

AC: Mas como você bem sabe, as nações dos países da Europa Central, que passam por um processo de transformação muito doloroso, expressaram repetidamente o seu desapontamento com a política de liberalização económica ali imposta, e nas eleições realizadas recentemente nos países da Europa Central, questionaram inequivocamente essa política. Temos de enfatizar que eles tinham todas as razões para o seu ceticismo; os liberais recém-nascidos na Europa Central deram o seu melhor para merecerem esta resposta. O princípio do mercado livre tornou-se uma receita universal e acrítica para todos os problemas em todas as esferas da vida social, uma panaceia. Atualmente, muitos resultados indesejáveis das tentativas iniciais de reforma são agravados pela surpreendente incompetência dos políticos liberais. A sua corrupção já se tornou lendária. Embora graves limitações do princípio do livre mercado se tenham tornado evidentes, os seus defensores liberais recusam-se a enfrentar os factos – tal como, não há muito tempo, os comunistas fizeram.

KP: Bem, eu ainda acredito que de certa forma é preciso termos um mercado livre, mas também acredito que endeusar o que está fora do princípio do livre mercado é um disparate. Se nós não tivermos um mercado livre, então é bastante óbvio que as coisas que são produzidas não são realmente produzidas para o consumidor. O consumidor pode pegar ou largar. As suas necessidades não são tidas em conta no processo de produção. Mas tudo isso não tem uma importância fundamental. Humanitarismo, sim, tem importância fundamental. Tradicionalmente, uma das principais tarefas da economia era pensar o problema do pleno emprego. Desde aproximadamente 1965, os economistas desistiram disso; acho isso muito errado. Tal não pode ser um problema insolúvel! A nossa primeira tarefa é a paz, a segunda é conseguir que ninguém tenha fome, e a terceira é tentar o pleno emprego. A quarta tarefa é, claro, a educação.

AC: Eu pensei que você diria isso. Acontece porém que no mundo contemporâneo – mesmo na melhor parte dele – nenhuma dessas tarefas é fácil de realizar. Que tipos de problemas vê como obstáculos à concretização da tarefa da educação?

KP: Presentemente, o que mais faz perigar os esforços na educação é a televisão. A educação simplesmente não consegue prosseguir se deixarmos a televisão fazer o que quiser. É impossível que a educação funcione em confronto com a televisão, a menos que esta reconheça que tem também uma tarefa educacional que ultrapassa o mero entretenimento. Caso contrário, não podemos ter educação. Do ponto de vista democrático, a televisão deve ser controlada, pela simples razão de que o seu potencial poder político é quase ilimitado. Se você for dono da televisão, pode fazer aquilo que quiser. E um tal poder tem de ser controlado. A minha proposta é olhar para o problema do controlo televisivo à semelhança do controlo exercido sobre o pessoal médico. Os médicos também precisam de ser controlados, e eles fazem isso, em grande parte, por si mesmos. Por exemplo, têm de ter uma certa educação. O mesmo se aplica ao sistema de controlo dos advogados, que têm a sua própria organização que os controla. Graças a este sistema de controlo, os advogados não roubam o dinheiro dos seus clientes e os médicos não matam os seus pacientes. É preciso integrar toda a gente que trabalha para a televisão num qualquer tipo de organização semelhante. Essas pessoas teriam de se tornar membros de tal organização com base em alguma educação, depois de submetidos a exames apropriados para avaliar a sua consciência das tarefas educacionais e do seu grau de responsabilidade. Teriam de aprender que a sua influência é muito grande e a sua responsabilidade é igualmente grande. É responsabilidade pela nossa civilização. O seu primeiro objetivo seria a luta contra a violência. E, de acordo com estes princípios, se alguém fosse considerado irresponsável, a sua licença poderia ser-lhe retirada. Sem este sistema de regulação estamos a entrar no caos, violência e crime. A crescente onda de crimes é largamente induzida pela televisão.

AC: Como entende o papel das igrejas nas sociedades contemporâneas?

KP: Essa é uma pergunta muito importante. As igrejas fizeram demasiada política e muito pouco no apoio a pessoas que necessitam de ajuda espiritual. A Polónia, claro, é quase completamente católica. Eu penso que a Igreja Católica cometeu muitos erros… muitos erros sérios… O primeiro grande erro foi cometido em 1890 quando o papa se tornou infalível. Foi um desenvolvimento muito tardio – desnecessário, contra a tradição, a história e o senso comum. Então, claro, temos a sua atitude em relação ao controlo familiar, ao planeamento familiar, e por aí fora. A posição da Igreja Católica sobre estes assuntos é muito perigosa e irresponsável. Tomemos como exemplo a Igreja de Inglaterra. Está quase completamente envolvida na política, uma política muito imatura. Tradicionalmente, a igreja, incluindo a Igreja de Inglaterra, tem sido um veículo de educação, de literatura, de história, de boas tradições; mas agora, é incrível como as pessoas da Igreja não têm educação; essas pessoas são terríveis, não sabem nada acerca da sua própria história, da sua própria tradição. As melhores tradições religiosas estão na América, embora até na América algumas igrejas e instituições religiosas possam ser assustadoras…

AC: Recordemos aqui acontecimentos muito recentes em Waco, Texas, onde muitas pessoas, seguidoras de David Koresh, morreram numa terrível explosão…

KP: Sim. E na Alemanha a Igreja, durante as primeira e segunda grandes guerras, foi absolutamente terrível. O líder da igreja protestante alemã disse coisas como ” a guerra é a guerra de Deus”, e todos afirmaram que tinham conhecimento íntimo dos planos políticos de Deus. Foi terrível… E tudo isto teve as suas consequências. As igrejas realmente falharam. É muito triste…

AC: Como primeira prioridade, você mencionou a paz. Mas agora, justamente quando uma parte do mundo se libertou pacificamente da opressão totalitária, testemunhamos terríveis conflitos no Sul da Europa…

KP: … e em África, e em breve teremos noutros lugares. Os nossos políticos não levam suficientemente a sério a sua tarefa. Parecem não ver quão importante ela é. Os políticos falharam. Eu penso que politicamente perdemos uma grande oportunidade. Os países ocidentais deveriam ter feito uma oferta aos russos. Deveríamos ter-lhes dito: “Olhem para a nossa parte do mundo. Vivemos todos em paz, estamos em paz com o Japão, com a China, com todos. Vocês não querem juntar-se-nos?” Realmente deveríamos ter feito tal oferta no tempo certo, por volta de 1988. Mas isso não foi feito. E desde o colapso da União Soviética que somos nós quem está preocupado… Mas os filósofos também falharam, também mostraram a sua irresponsabilidade. Em geral, as coisas não parecem muito boas nos nossos dias.

AC: Você não parece realmente muito otimista. Isto quer dizer que abandonou a sua atitude ativista e otimista? É ainda um otimista, como afirmou tantas vezes nos seus livros?

KP: Sim, apesar de tudo isto mantenho-me um otimista em relação ao mundo. É nosso dever sermos otimistas. Apenas deste ponto de vista podemos ser ativos e fazer o que pudermos. Se formos pessimistas, já desistimos. Precisamos manter-nos otimistas, temos de ver como é maravilhoso o mundo, e tentarmos fazer o que pudermos para melhorá-lo.

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Notas:

[1] Ao que parece, Karl Popper gostava de receber os amigos na sua casa em Kenley, no sul de Londres, a sua última morada em Inglaterra. João Carlos Espada foi um dos que o visitaram por diversas vezes, entre muitos outros. Os relatos sobre esses encontros, para quem admira Popper, são documentos preciosos. Um registo de um desses encontros, desta feita por ocasião do nonagésimo aniversário de Popper, foi publicado em 1992 no magazine “Intellectus”, do Instituto de Ciência Económica de Hong Kong. Esse artigo é escrito por Eugene Yue-Ching Ho, tal como nós, um confesso admirador de Karl Popper. Esse registo pode ser lido em: http://www.tkpw.net/hk-ies/n23a/?fbclid=IwAR2Lc6lnOK-nNDzR5Gk2SOfyR3BCAoJRnvk_9-974LngVeEqHCbU9DrlH2M

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Foto retirada de: http://www.justificando.com/2017/08/18/paradoxos-da-democracia-popper-e-critica-liberal-ao-liberalismo-ingenuo/.

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Popper

Há 118 anos, nascia, em Viena, Karl Raimund Popper. Filósofo, dedicou a sua vida à pesquisa sobre várias matérias, sobretudo ciência, por acreditar que o método científico é o que mais nos pode aproximar da verdade. Saber o que é a ciência foi, portanto, um dos objetivos mais importantes da sua epistemologia. Tão importante que ele próprio desenvolveu critérios de demarcação para afastar a pseudociência da ciência verdadeira, dando como exemplos de não-ciência o marxismo, a psicanálise e o adlerianismo, correntes muito em voga na sua época. Um dos critérios de demarcação científica é a testabilidade. Ao não serem testáveis, marxismo, psicanálise e adlerianismo não podem ser científicos. Claro que, ainda hoje, os defensores dessas doutrinas usam todos os subterfúgios possíveis para as justificarem, mas essa é precisamente a atitude anti-científica, pois o que o cientista deve fazer é testar por todos os meios as suas teorias e tentar falsificá-las, por forma a aquilatar da sua validade. Foi o que sempre fez Einstein, e é por isso que Popper tanto o admirava, apesar de nem sempre concordar com ele. No fundo, o que Popper mais gostava em Einstein era a sua honestidade intelectual.

No campo da sociologia, a filosofia de Popper é a uma tentativa de evitar a guerra entre as nações e a violência entre os homens. Popper abominava a violência e achava que esta, embora impossível de erradicar, podia ser largamente evitada. Isso só é possível nas sociedades livres e democráticas, aquelas em que os governantes são depostos sem derramamento de sangue. Além disso, as sociedades democráticas são as únicas em que o poder está disperso (quanto mais melhor) e não apenas nas mãos de um único homem, ou de um pequeno grupo ou da direção de um qualquer partido. Nas sociedades liberais o poder deve ser exercido e controlado, tanto quanto possível, por instituições e não por pessoas. Por fim, as sociedades livres e democráticas são igualmente as únicas passíveis de serem melhoradas e aquelas em que cada um de nós, não apenas quem detém o poder, pode efetivamente contribuir para o seu melhoramento. É, aliás, isso que vem acontecendo: são os países livres e democráticos aqueles que mais melhoram e reformam, aqueles que atingiram os mais elevados níveis de desenvolvimento social na história da humanidade. Se formos honestos, reconheceremos que, apesar dos erros cometidos, vivemos no melhor mundo de sempre. Claro que o desenvolvimento criou problemas imprevistos, alguns bastante graves, como sabemos. Mas depende inteiramente de nós, não de um qualquer iluminado, resolvê-los. É por isso que liberdade requer responsabilidade, e todos carregamos, de ambas, a nossa quota-parte. A construção de um mundo melhor continua, na parte que nos toca, nas nossas mãos.

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Foto retirada de: https://wsimag.com/es/cultura/61187-karl-popper-y-la-sociedad-abierta

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Amália

Se fosse viva, Amália teria completado 100 anos no dia 1 de julho último, pois, dizem, ela nasceu nesse dia, no ano de 1920. Amália, porém, só foi registada uns dias mais tarde, há precisamente cem anos (23/7/1920), e o 23 de julho era o dia em que gostava de comemorar o seu aniversário (há quem diga que Amália queria ser”Leão” e não “Caranguejo”), pelo que permaneceu como data oficial. Escrevemos já dois artigos neste blogue sobre Amália – https://ilovealfama.com/2012/12/06/gaivota/ e https://ilovealfama.com/2013/03/31/alfama-uma-cancao/ – e não vamos dizer muito mais. As palavras são sempre escassas, ficam sempre aquém, e o melhor é mesmo ouvi-la. Amália Rodrigues, tristemente, ou talvez não, mais (re)conhecida no estrangeiro do que em Portugal, cantou dentro de muitos géneros musicais, não apenas fado, mas foi sem dúvida no fado – e dentro deste nos fados não tradicionais compostos por Alain Oulman – que encontrou a sua expressão mais alta. A cumplicidade artística entre ambos (para nosso deleite) está bem patente no vídeo que aqui deixamos, a nossa singela homenagem a Amália, no dia da comemoração oficial dos cem anos do seu nascimento.

Ensaio de “Soledad”, uma música de Alain Oulman com letra de Cecília Meireles.

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As minhas dez praias mais belas do mundo

Cada vez mais publicações de viagens se juntam às já muitas que listam, classificam e ordenam todo o tipo de coisas. Praias é uma das mais comuns. Claro que as classificações são sempre muito, mas mesmo muito, subjetivas. Para prová-lo, decidimos também elaborar a nossa lista. Sem ranking, porque todas a praias aqui apresentadas são bonitas, cada uma à sua maneira, não sendo possível, pelo menos para nós, estabelecer uma hierarquia, pelo que a ordenação é arbitrária. Tratam-se apenas de praias que nos marcaram, praias inesquecíveis. Quem ama viajar sabe que as viagens se prolongam no tempo através das recordações que guardamos. O nosso cérebro tem ainda a capacidade de juntar pedacinhos dessas recordações e de várias viagens fazer uma só. “As minhas dez praias mais belas do mundo”, num ano em que não podemos realizar fisicamente nem sequer uma grande viagem, são, portanto, um pretexto para fazer, através da memória, o que mais gostamos: viajar.

1- Sancho

Praia do Sancho, Fernando de Noronha, Brasil.

Situada na costa norte da ilha principal do arquipélago Fernando de Noronha, é uma praia de águas claras, límpidas, com uma temperatura do mar extremamente agradável, diferente da “sopa” da maioria das praias do Nordeste brasileiro, mas, ainda assim, muito longe de ser fria. Cercada por altas escarpas, o acesso só é possível por mar ou por uma passagem escavada na rocha, onde cravaram uma escada de ferro que desce, na vertical, até à praia. Este acesso difícil torna-a ainda mais exclusiva. Nós tivemos oportunidade de visitar a praia do Sancho por terra e por mar, descendo e subindo a escada de ferro (só passa uma pessoa de cada vez) e alugando um barco, que fundeou na pequena baía, enquanto fazíamos snorkeling e nos deslumbrávamos com uma multidão de peixes coloridos sob os nossos olhos encantados. Convém dizer que o arquipélago Fernando de Noronha é um paraíso, mesmo para os mais exigentes amantes do mergulho.

2- Ponta Ruiva

Praia da Ponta Ruiva, Costa Vicentina, Portugal.

Portugal tem praias fantásticas, mormente na região onde vivemos o Algarve. Todas a praias das ilhas-barreira da Ria Formosa, no Sotavento, são belíssimas (Cacela, Ilha de Tavira, Terra Estreita, Barril, Homem Nu, Fuzeta, Ilha Deserta, etc.), bem como tantas outras no Barlavento (Garrão, Olhos d’Água, Marinha, Benagil, Carvalho, Ferragudo, Ponta da Piedade, etc.) ou, mais para norte, as muitas que podemos destacar entre Algarve e Minho, e que poderíamos considerar como “a mais bonita”. De facto, a costa ocidental também abrange o Algarve, e é aí que encontramos as praias algarvias menos frequentadas, diferentes, mas igualmente belas. Uma dessas praias, no concelho de Vila do Bispo, não tem qualquer infraestrutura ou apoio, a não ser uma estrada de terra batida, nem nenhuma indicação em qualquer ponto que nos permita localizá-la. A única forma de lá chegar, sem ser por acaso, é perguntando ou conhecendo o caminho. No entanto, mesmo sabendo que o carro vai levar um banho de pó, vale a pena. A Ponta Ruiva está rodeada por falésias de xisto negro e estende-se por uns 500 metros de areal. Pouco frequentada, mesmo no pico de Verão (a maioria das poucas pessoas são estrangeiros e surfistas), permite uma ligação mais forte ao ambiente circundante. A água é cristalina e fresca, por vezes deliciosa, e a praia é simplesmente linda.

3- Anse Soleil

Anse Soleil, Mahé, Seychelles.

Nas Seychelles, como não podia deixar de ser, encontram-se algumas das praias mais belas do Oceano Índico e do mundo. Esta fica na ilha principal, Mahé, onde a praia mais badalada é, sem dúvida, Beau Vallon. Mas Anse Soleil é incomparavelmente mais charmosa. A areia finíssima e clara parece pó-de-talco. A água tem aquela coloração típica dos trópicos, imaculada por não ter nenhum rio que a corrompa por perto, com uma temperatura perfeita, entre os 23-24 graus. Uma casinha e um pequeno bar de madeira entre a profusa vegetação tornam-a ainda mais acolhedora, apesar de não a tornarem menos natural. Chegámos a esta praia de manhã bem cedo, quando ainda não havia ninguém. Durante duas horas, antes que o sol mordesse, desfrutámos dos encantos de uma das mais belas praias do mundo, a bela Anse Soleil.

4- Cala Goloritzè

Cala Goloritzè, Sardenha, Itália.

Quando chegámos à Sardenha ficámos surpreendidos com a beleza da ilha. Enorme, a Sardenha é diversificada, com montanhas, praias e uma rica gastronomia. A praia Cala Goloritzè fica na costa leste, integrada no Parque Nacional Gennargentu, e é banhada pelo Mar Tirreno. Trata-se de uma praia pequenina, de difícil acesso, com águas de um azul-turquesa, quase surreal. Dado que as embarcações de recreio não podem chegar junto da praia, a única maneira de atingi-la é fazendo um percurso de hora e meia, a pé, mais umas duas horas para voltar. Para a praia é quase sempre a descer, mas a volta, quase sempre a subir, demora mais tempo e custa mais. Mas, mais uma vez, vale a pena. Em Cala Goloritzè sentimo-nos longe de todos os problemas do mundo.

5- Le Morne

Praia Le Morne, Maurícias.

É a melhor praia da Maurícia, situada no extremo sudoeste da ilha, sob o Monte Le Morne Brabant. Trata-se de uma praia pública, bastante frequentada pelos locais, mas também por turistas. As suas águas cálidas e calmas, e o ambiente morno convidam ao langor e ao esquecimento. Podemos perder a noção do tempo e ficar até o sol se pôr e mais além. Foi isso mesmo que fizemos, não apenas nós mas também alguns outros que fruíam daquele fim de dia, sem quebra abrupta de temperatura, mesmo quando o último raio de sol caiu no horizonte, observando os cambiantes do fogo refletido pela abóbada celeste. Le Morne é uma praia inesquecível.

6- Salines les Bains

Saline les Bains, Ilha de Reunião, França.

Não longe das Maurícias, a uns 200 quilómetros, e ainda no arquipélago de Mascarenhas, descoberto pelos portugueses, fica a ilha de Reunião, uma região de França. E na ilha de Reunião, bem maior e mais diversificada do que as Maurícias, encontra-se uma praia de sonho chamada Salines les Bains. Situada na costa oeste e protegida por uma barreira de recifes, a praia é calma, com mar tranquilo e muitas árvores que nos protegem nas horas de maior calor. A temperatura do mar é menos quente que nas Maurícias e está dentro daquele padrão excelente, entre os 23-24 graus. A areia é branca, salpicada de folhas e raminhos que caem das árvores. Visualmente a praia é muito bonita, destacando-se os azuis do mar e do céu, os verdes da vegetação e os brancos do areal.

7- Seven Miles

Seven Miles Beach, Ilhas Caimão.

Bem perto da capital das Ilhas Caimão, George Town, fica uma praia que faz lembrar Miami Beach, mas que é muito mais bonita e acolhedora. De facto, tal como Miami Beach, também esta praia sofre a influência do clima das Caraíbas e também ela tem uma orla de hotéis prontos a receber os turistas, sobretudo americanos, só que numa escala muito menor. Isso torna esta extensa praia de areia macia e branca extremamente agradável. Mais uma vez, a água do mar tem uma temperatura ótima, além de possuir, como não podia deixar de ser, aquela cor tão característica do Caribe. Pelicanos, iguanas, tartarugas, entre outros, convivem na praia com os humanos, habituados à sua presença.

8- Galápagos

Praia Galápagos, Ilha de Santa Cruz, Equador.

A praia Galápagos (não confundir com praia dos Galapos, que fica em Setúbal e também é linda) fica no sudoeste da Ilha de Santa Cruz, perto da capital, Porto Ayora, praticamente em cima da linha do Equador, no arquipélago das Galápagos, cujo nome oficial é arquipélago de Colón. As praias neste arquipélago são bastante diferentes das praias que vimos até agora, porque existe uma limitação quanto ao número de pessoas que vivem nas Galápagos e quanto aos visitantes. Por isso, é normal ver-se uma panóplia de animais, desde lobos marinhos e tartarugas, até iguanas marinhas e uma miríade de aves diversas, com grande destaque para o atobá de patas azuis, um símbolo destas ilhas do Pacífico. A praia Galápagos está dentro da Baía Tortuga e possui águas calmas e frescas (devido à corrente fria de Humboldt), mas não demasiado frias. Dentro do Parque Nacional das Galápagos, é uma praia preservada, sem grandes estruturas ou aglomerados, mas muito, muito bonita.

9- Patacho

Praia do Patacho, Alagoas, Brasil.

Entalada entre uma densa mata de coqueiros e o mar, esta praia é das visualmente mais bonitas do Brasil. Ainda por cima é uma praia pouco conhecida e pouco frequentada, pois está um pouco longe da capital de Alagoas, Maceió. As praias deste estado são das melhores do Brasil, sobretudo pela coloração das águas, mais turquesas no Verão, devido às correntes e ventos favoráveis. A melhor altura para visitar o Patacho é ao nascer-do-sol, quando o calor não aperta tanto e o banho de mar é realmente refrescante. Depois, quando o sol sobe, o melhor é procurar uma sombra. Não devemos esquecer-nos de que a água aqui é quente e o sol escaldante. Assim, o melhor é sempre visitar esta praia, situada entre Porto de Pedras e Tatuamunha, quando o sol está baixo, para se poder desfrutar na plenitude de todos os atributos que este local deslumbrante tem para nos oferecer.

10- Porto Pim

Praia de Porto Pim, Ilha do Faial, Portugal.

Porto Pim é uma praia abrigada junto à capital da Ilha do Faial, a cidade da Horta, nos Açores. Mais parece um lago ou uma piscina, mas é mesmo uma belíssima praia oceânica. Imortalizada pelo romance de Vitorino Nemésio, “Mau Tempo no Canal”, esta pequena, pacata e mimosa praia é um dos recantos mais belos e pitorescos não apenas dos Açores, mas também de Portugal e do mundo. Situada numa pequena enseada em ferradura, bastante diferente de todas as outras aqui apresentadas, Porto Pim é uma praia que prima pela originalidade, por ser um apêndice magnífico colocado por Deus no Faial para o apreciarmos com todos e em todos os sentidos.

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