Einstein Haus

A Kramgasse, em Berna, na Suíça.

Einstein nasceu em Ulm, na Alemanha, em 1879, mas ainda adolescente transferiu-se para a Suíça, fixando-se em Zurique. Em 1896 renunciou à cidadania alemã, ao que dizem, para fugir à tropa e em 1901 conseguiu a nacionalidade suíça. Einstein ambicionava ser professor do Politécnico de Zurique, mas a relação com os professores, o mau desempenho nas aulas laboratoriais e, sobretudo, as faltas às aulas fizeram-no desistir do curso. Para sobreviver, passou a dar aulas em casas particulares e também, pontualmente, em algumas escolas de Winterthur e Schaffhausen.

A situação de Einstein era difícil, mas um amigo, Grossmann, pediu ao pai que recomendasse Einstein ao diretor da Agência Federal de Patentes, em Berna, Friedrich Haller. Einstein mudou-se para Berna em janeiro de 1902 e conseguiu o emprego em junho do mesmo ano. O salário anual que auferia era de 3.500 francos, o que, juntamente com os ganhos das aulas privadas, lhe permitiu finalmente viver sem sobressaltos.

Logo da Einstein Haus à porta do nº 49 da Kramgasse.

Desde a sua chegada a Berna, Einstein mudou seis vezes de casa, acabando por se fixar (por dois anos) com a mulher, Mileva, e posteriormente também com o segundo filho de ambos, Hans Albert1, no 2º andar da Kramgasse, 49. Einstein viveu neste apartamento de 1903 a 1905 – o ano em que surpreendeu a comunidade científica ao publicar, nos Annalen der Physic, quatro importantes artigos.

Os temas dos quatro artigos eram o efeito fotoelétrico2, o movimento browniano, a teoria da relatividade restrita, e a equivalência entre massa e energia. Estes trabalhos pioneiros que se mantêm ainda hoje marcos incontornáveis no que diz respeito à compreensão física da natureza, proporcionaram de imediato a Einstein o reconhecimento dos mais proeminentes físicos do seu tempo.

O segundo andar. À entrada do apartamento.

Ainda hoje se considera espantoso que Einstein tenha produzido tanto em tão pouco tempo, na verdade em cerca de quatro meses, pois os artigos de 1905 foram todos publicados entre março e junho desse Annus Mirabilis.

(Há quem diga que o afastamento da vida académica foi benéfico para Einstein, pois assim ele pôde pensar livremente e dar asas à sua incrível intuição).

Em 14 de setembro de 2015, as Sociedade de Física Europeia e Sociedade de Física Americana, representados pelos respetivos presidentes, reconheceram o local onde Einstein morou na Kramgasse, 49, a Einstein Haus, como o primeiro Sítio Histórico de ambas as sociedades.3 Na cerimónia, que contou também, entre outros dignitários, com a presença do Dr. Hans-Rudolf Ott, presidente da Albert Einstein Society, proprietária do museu, foi afixada, no 3º andar, uma placa comemorativa.

A sala de estar do pequeno apartamento onde Einstein viveu entre 1903 e 1905.

Nós tivemos o privilégio de visitar, em setembro de 2021, esta casa onde Einstein viveu. A Einstein Haus4, renovada em 2005, cem anos depois do Annus Mirabilis, e decorada ao estilo da época, é constituída pelo apartamento do 2º andar, onde Einstein morou, e pelo 3º andar, onde encontramos uma exposição dedicada às vida e obra deste célebre cientista. A entrada custa 5 CHF e a Einstein Haus está aberta ao público todos os dias da semana, entre as 11 e as 16 horas.

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Adenda:

Depois de mais alguns anos em Berna, Einstein regressaria a Zurique e posteriormente à Alemanha, onde ocupou o cargo de Presidente da Sociedade Alemã de Física. Foi neste período que publicou (em 1916), no mesmo periódico de Berlim (Annalen der Physic), a sua teoria da relatividade geral. As descobertas de Einstein, juntamente com a mecânica quântica, constituem hoje a base de toda a Física.

Einstein subverteu para sempre os conceitos, estabelecidos até então, de espaço, tempo, massa e energia, e, graças a ele, a humanidade deu um salto enorme na compreensão do Universo, de que é parte integrante.

Em confronto com o nazismo, Einstein fugiu para os Estados Unidos, onde viveu os seus últimos vinte anos, falecendo na cidade de Princeton em 1955.

Placa conjunta da APS e da EPS no 3º andar da Einstein Haus.

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Notas:

1 Sabe-se que Albert e Mileva tiveram uma filha antes, mas o destino desta permanece obscuro. Ao que parece, Einstein, que não queria que se soubesse que tinha uma filha antes de casar-se, mandou Mileva grávida para a Sérvia. De acordo com Malcolm Otero e Santi Giménez, “apesar de mãe e filha terem estado prestes a morrer, Einstein nunca foi vê-las. O que se passou com a menina é um mistério. Alguns biógrafos dizem que morreu muito pequena, outros que foi dada em adoção e outros que viveu até há pouco, em Novi Sad, sob o nome de Zorka Kaufler.” (Malcolm Otero e Santi Giménez, El Club de Los Execrables, Penguin Random House, Barcelona, 2018, p. 146).

2 Por este artigo, em especial, Einstein ganhou o Prémio Nobel da Física de 1921.

3 https://www.aps.org/publications/apsnews/201511/einstein.cfm.

4 Decidimos manter o nome original, em alemão.

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Chaplin’s World

No “Estúdio”, o espaço dedicado à vida profissional e artística de Charlie Chaplin.

Depois de fugir dos Estados Unidos e do macarthismo, escondido durante horas numa suite do Queen Elisabeth, Charles Chaplin abandonou definitivamente a América, rumo à Europa, no dia 19 de setembro de 1952.

Aconselhado pelo seu meio-irmão Sidney, acabaria por se radicar na Suíça, em Corsier-sur-Vevey, numa mansão que o anterior proprietário denominou Manoir du Ban. Foi aí que viveu os seus últimos 25 anos, falecendo, ao que parece tranquilamente, durante o sono, no dia 25 de dezembro de 1977.

O jardim e a mansão onde Chaplin viveu durante a maior parte dos seus últimos vinte e cinco anos. Aqui cresceram 8 dos seus 11 filhos.

Depois da morte da mulher de Chaplin, Oona, em 1991, os filhos cederam a propriedade à Charlie Chaplin Museum Foundation que, em 2000, iniciou o projeto de construção, no local, do Chaplin’s World, um museu que nasceria apenas em abril de 2016.

Constituído por vários edifícios temáticos, além da mansão, este imenso espaço museológico comporta também um jardim, onde Charlie gostava de passar grande parte do tempo, quando estava em Corsier, um parque de estacionamento para centenas de carros, uma área de restauração e uma loja de souvenirs.

Todo o espaço museológico é interativo e extremamente interessante.

O ingresso custa 27CHF, mas pode ser comprado com antecedência, pela internet, por 19CHF. Quem for de carro terá de desembolsar ainda 5 CHF para o estacionamento. Apesar de não ser barato, vale cada minuto e cada cêntimo.

Quem quiser pode também visitar as campas de Chaplin e Oona, que se encontram, lado-a-lado, no cemitério de Corsier-sur-Vevey.

Desde o dia 12 deste mês (set. de 2021), as pessoas acima dos 12 anos precisam de um certificado de vacinação contra a Covid-19 para acederem ao Chaplin’s World.

Charlie dá-nos as boas-vindas à entrada da mansão, o espaço dedicado à sua vida pessoal e familiar.

Sobre a sua estadia em Corsier-sur-Vevey, escreveu o próprio Chaplin:

For the last twenty years I have known what happiness means. I have the good fortune to be married to a wonderful wife. I wish I could write more about this, but it involves love, and perfect love is the most beautiful of all frustrations becausse it is more than one can express. As I live with Oona, the depht and beauty of her character are a continual revelation to me. Even as she walks ahead of me along the narrow sidewalks of Vevey with simple dignity, her neat little figure straight, her dark hair smoothed back showing a few silver threads, a sudden wave of love and admiration come over me for all that she is – and a lump comes into my throat.

With such happiness, I sometimes sit out on our terrace at sunset and look over a vast green lawn to the lake in the distance, and beyond the lake to the reassuring mountains, and in this mood think of nothing but enjoy their magnificent serenity.1

Os jornais da época deram grande destaque à vinda da família Chaplin para a Suíça.

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Notas:

1 Obra abaixo citada, p. 477.

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A nossa edição:

Charles Chaplin, My Autobiography, Penguin Books, London, 1964.

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O Grande Capital

O Liechtenstein em primeiro plano e, ao fundo, separada pelo Reno, a Suíça. O homem ordena, em seu benefício, a natureza.

Depois de uma viagem de 5,935 quilómetros pela Europa, regressámos a Portugal. Do Liechtenstein e da Suíça para baixo, a paisagem vai mudando, mas também a organização, o ordenamento e a própria condição das estradas por onde circulamos. França, Espanha e, finalmente, Portugal, sempre a descer no mapa e na qualidade. Entrámos por Vila Real de Santo António e seguimos pela Nacional 125. Nas bermas da rodovia acumulam-se o mato, o lixo e terras abandonadas à sua sorte. Que diferença!

Algo que constatámos na Suíça e que contrasta flagrantemente com o que se passa em Portugal, é a descentralização. O que se tem passado em Portugal com a chamada bazuca seria impensável na Suíça, um país que é, ele próprio, uma bazuca. António Costa, o estratega, amigo de António Costa, o primeiro-ministro, foi encarregado de elaborar um plano para identificar as principais áreas onde aplicar os muitos milhões que a União Europeia vai entregar a Portugal. Isto é realmente o cúmulo do provincianismo e o contrário do que recomenda a racionalidade económica, algo que jamais aconteceria na Suíça, talvez o país mais descentralizado do planeta. Em Portugal, pelo contrário, tudo passa pelos indivíduos providenciais, adstritos aos gabinetes ministeriais em Lisboa. O resto é paisagem, praticamente abandonada.

É a este abandono que se devem os grandes incêndios que deflagram regularmente em Portugal, muito mais do que às alterações climáticas tão propaladas pela ideologia de uma esquerda anacrónica, que tem no nosso país uma representatividade exacerbada, quando comparada com o que se passa na Europa mais desenvolvida.

Um dos arqui-inimigos desta esquerda é uma entidade abstrata chamada Grande Capital, um papão repetidamente agitado, por exemplo nos discursos de Jerónimo de Sousa, um beato bem-intencionado dessa igreja laica que é o Partido Comunista Português. Já os suíços, pelo contrário, não têm medo nenhum do Grande Capital, acordam e adormecem com ele todos os dias. Falar-se do Grande Capital num país cronicamente depauperado é ridículo, risível e uma anedota que se contaria com agrado, não fora a vergonha por haver tantos portugueses que nela acreditam.

Algo que seria igualmente impensável na Suíça é o protagonismo que se dá em Portugal a tantos e tantos comentadores. Somos um país de palradores, não de concretizadores. Um caso paradigmático é o de Raquel Varela, uma ideóloga lunática, supostamente historiadora, com amplo espaço mediático na rádio e televisão públicas, ou seja, paga por todos nós. Estas ideologias radicais estão confinadas, na Suíça e nos outros países desenvolvidos, à Academia, onde alguns excêntricos, de resto, com uma credibilidade muito superior à de Varela, se dedicam ao seu estudo, não à sua divulgação. Acontece assim porque seria inútil divulgar algo que uma população culta e educada reconhece como anacrónico e irrealista.

Portugal, pelo contrário, mantém-se um país de teóricos e críticos, e não surpreende, portanto, que se mantenha, também, um país crítico.

O endividamento crónico da terceira república portuguesa, fruto de opções marcadamente ideológicas, contrárias à racionalidade económica, hipoteca, de forma trágica, o futuro das novas gerações.

Como diria o outro, é a economia, estúpido!

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Maurícia

A magnífica praia de Le Morne, no sudoeste da Maurícia, provavelmente a mais famosa do país.

Embora fossem já conhecidas pelos marinheiros árabes e malaios no século X, as ilhas desabitadas das Maurícias só seriam mapeadas centenas de anos depois, no século XVI, pelos portugueses. No século XVII foram colonizadas pelos holandeses, que lhes deram o nome que persistiu até hoje, em homenagem a Maurício de Nassau. Por sua vez, os franceses assumiram o controlo das Maurícias em 1715, transformando a ilha principal numa importante base naval, de onde controlavam o comércio no Índico. Foram os franceses que desenvolveram na Maurícia a cultura da cana-de açúcar. Em 1810, durante as guerras napoleónicas, os ingleses apoderaram-se da ilha, que permaneceu uma base naval relevante, servindo, durante a Segunda Guerra Mundial, como base aérea de onde os britânicos controlavam as movimentações marítimas dos alemães naquela zona do globo.

A independência das Maurícias foi alcançada em 1968. O país é, desde aí, uma democracia livre e aberta. Nos últimos anos conseguiu atrair forte investimento estrangeiro e tornou-se um dos países africanos com maior rendimento per capita.

A República das Maurícias é constituída por quatro ilhas – Maurícia, Agalega, São Brandão e Rodrigues – e reivindica a soberania sobre a pequena ilha de Tromelin, considerada pela França parte do departamento francês da Ilha de Reunião, e sobre o arquipélago de Chagos, que integra, ilegalmente, o Território Britânico do Oceano Índico1. Todas estas ilhas fazem parte das chamadas Ilhas Mascarenhas2, que se estendem até 1.200 quilómetros para leste de Madagáscar.

A Maurícia possui um planalto central de onde se avistam as montanhas junto à costa. O ponto mais alto da ilha fica no Monte Piton, 828 metros acima do nível do mar.

A ilha Maurícia, a única que visitámos, é de origem vulcânica e está quase na sua totalidade rodeada por recifes de coral. No século XVII ainda aqui vivia o dodó, uma ave endémica da família dos pombos (mas muito maior), extinta pela caça indiscriminada. O dodó é símbolo nacional, a par da trochetia boutoniana, uma flor igualmente endémica. Hoje, a Maurícia é um dos locais mais densamente povoados da Terra, com quase um milhão e meio de habitantes, dois terços dos quais de origem indiana.

Durante muitos anos a cana-de-açúcar constituiu a principal produção e indústria da ilha, suportada por mão-de-obra escrava, proveniente de Madagáscar, Moçambique e outros pontos da costa leste africana. A escravatura foi abolida pelos britânicos em 1835 e a mão-de-obra escrava foi substituída por imigrantes indianos, contratados para trabalharem nas plantações. Estes foram os principais povoadores da ilha e assim se justifica que, hoje, a população da Maurícia seja constituída, sobretudo, pelos seus descendentes.

Flic en Flac, a meia-hora de carro da capital, Port Louis, é a praia mais frequentada pelos mauricianos.

Atualmente a economia das Maurícias continua a depender, numa fatia importante, da cana-de-açúcar, que ocupa 90% da área cultivada3. Mas as atividades económicas estão agora muito mais diversificadas. O turismo, claro, está à cabeça. Mas também têxteis, vestuário, serviços financeiros, indústrias ligadas à pesca e tecnologias da informação e comunicação. O governo mauriciano aposta claramente na economia de mercado, tendo definido cinco tipos de prioridades: usar as Maurícias como porta de entrada dos investimentos estrangeiros em África; aumentar o uso de energias renováveis; desenvolver cidades inteligentes; apostar na economia oceânica; e melhorar as infraestruturas, sobretudo os transportes públicos, o porto e o aeroporto4.

A primeira coisa que fizemos quando chegámos a Port Louis, a capital das Maurícias, depois de uma volta pelo centro da cidade, foi levantarmos o carro que previamente havíamos reservado. Só depois rumámos a sul, em direção a Flic en Flac, uma zona balnear muito frequentada pelos mauricianos, a apenas 25 quilómetros da capital. A praia é tipicamente tropical, com água morna, muitas árvores ao longo do areal, entre as quais as famílias “picnicam” e convivem aos fins de semana, vendedores ambulantes, comércio e muita gente. Quando ali estivemos iniciava-se a época das chuvas, que vai de novembro a maio, ou seja, o período do verão. O resto do ano – o inverno – é menos quente e chuvoso, pelo que é talvez a época do ano que mais agrada aos turistas externos, aqueles que vêm às Maurícias para fazer praia.

As cores destas dunas resultam da transformação da lava basáltica em minerais de argila, num processo que decorreu ao longo de milhões de anos.

Depois de um mergulho na praia de Flic en Flac, continuámos para sul, infletindo um pouco para o interior, em direção ao Chamarel Seven Colored Earth Geopark, um parque natural com plantas exóticas e endémicas, uma cascata com cerca de 100 metros de altura, e uma zona em que se pode observar o fenómeno natural que dá nome ao parque – areias resultantes da erosão das rochas vulcânicas que, através de um processo complexo, ainda parcialmente desconhecido, formam faixas ondulantes de cores diversas.

Já ao fim da tarde, continuámos a nossa viagem para sul, até avistarmos a paisagem cultural Le Morne – uma zona constituída por uma montanha rugosa (onde, em tempos, os escravos africanos se refugiaram) e uma belíssima praia – Património Mundial da UNESCO desde 2008. Tomar um banho ao pôr-do-sol em Le Morne é uma experiência que faz parte dos roteiros mais afamados das Maurícias. E vale muito a pena. A água do mar tem uma temperatura muito idêntica à temperatura do ar, pelo que os banhos na praia de Le Morne podem ser bastante demorados; é fácil esquecermo-nos do tempo e ficarmos no mar para lá dos últimos raios de luz, envolvidos pelos tons quentes do céu.

Era noite quando entrámos no carro para fazermos o percurso de volta até Port Louis. Embora aqui, tal como nas Seychelles, se circule pela esquerda, as estradas são um pouco mais largas, o que facilita a vida a muitos condutores estrangeiros.

Depois de um banho de mar ao pôr-do-sol, selámos a nossa passagem por Le Morne com um beijo.

No dia seguinte, manhã cedo, fomos visitar o Grand Bassin (também conhecido como Ganga Talao5), um lago natural numa cratera de um vulcão extinto, de beleza cativante. Conta a lenda que esta água provém do rio Ganges, o mítico rio indiano. Muitos peregrinos mergulham no lago, durante o festival anual de Shivratri 6, quando metade dos hindus da ilha se deslocam, a pé, até este local sagrado. Aqui existem vários templos e estátuas, que expõem a exuberância de símbolos e cores, típica da religião hindu. O templo mais importante em Ganga Talao é o de Lingam, dedicado ao Senhor Shiva, que atrai, anualmente, um grande número de peregrinos.

Depois da visita ao Grand Bassin retomámos a estrada B102, rumo à costa sul da ilha. Do lado esquerdo da estrada fica o Parque Natural do Vale das Cores,7 e, do lado direito, a maior reserva natural das Maurícias, o Parque Nacional Black River Gorges.

Este parque, habitado por uma densa floresta tropical estende-se por cerca de seis mil hectares, albergando mais de 300 espécies de plantas com flores nativas e várias espécies de aves endémicas, algumas ameaçadas de extinção. Um dos animais mais curiosos deste parque é a “raposa voadora das Maurícias”, um morcego frugívero8 de grande envergadura.

Grand Bassin é o maior centro de peregrinação hindu fora da Índia.

Finalmente, chegámos à Rochester Falls, a apenas 2,5 quilómetros da cidade costeira de Souillac. Trata-se de uma cascata não muito alta, mas bonita, com várias rochas retangulares, esculpidas pelas águas, ao longo de milhares de anos. Para alcançá-la, temos de percorrer de carro, uma estrada estreita de terra batida, subindo, e, depois de uma pequena clareira onde se pode deixar o carro (se não houver muita gente), descendo, a pé, até a cascata. Há quem tome aqui banho, mas nós não o fizemos. O ambiente é fresco e relaxante, com as gotículas de água trazidas pelo vento afagando-nos o rosto.

Na volta, viemos diretamente para Port Louis, para a última tarde na cidade, depois da entrega do carro na agência de aluguer.

Percorrer as ruas da capital das Maurícias a pé, debaixo do sol inclemente, requer um esforço físico, do qual, para sermos sinceros, não se é totalmente recompensado. De facto, do ponto de vista arquitetónico e paisagístico, a cidade é relativamente pobre.

A Rochester Falls serviu de cenário para vários filmes de Bollywood.

Para lá dos poucos edifícios interessantes – alguns da era colonial e outros de caráter religioso (como mesquitas, pagodes, igrejas e templos) – o principal atrativo em Port Louis é o contacto com as pessoas, nas ruas e, sobretudo, nos mercados. Um ou outro grafite chama também a atenção, entre as muitas dezenas que se podem observar9.

O Mercado Central é um mundo de cheiros, sons, texturas, cores e sabores, onde encontramos produtos alimentares frescos (carne, peixe, marisco, vegetais, frutas e especiarias) petiscos locais para consumir na hora e produtos artesanais variados, sempre passíveis de serem regateados. Mesmo durante a semana este exuberante mercado está quase sempre cheio, porque os habitantes locais que trabalham nas redondezas aproveitam para aqui tomarem um lanche barato.

Os lanches mais típicos são a alouda de amêndoa, uma bebida à base de leite com tapioca, o dholl puri, uma panqueca de farinha de ervilha, e a farata, outra panqueca, mas, deste feita, de farinha de trigo. Provar um petisco no mercado central – nada melhor para concluir uma viagem à bela, tolerante e surpreendente Maurícia.

ATisane Mootoosamy é uma das lojas mais antigas, famosas e populares do Mercado Central de Port Louis e mesmo de toda a Maurícia. Jay Mootoosamy, o atual proprietário, dá continuidade ao negócio iniciado, em 1900, pelo seu tetravô.

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Notas:

1 Consultar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arquip%C3%A.

2 Assim chamadas em homenagem ao navegador e vice-rei da Índia Pedro Mascarenhas que as avistou quando comandava uma armada portuguesa em trânsito entre Portugal e a Índia. Por seu turno, a ilha de Rodrigues é assim chamada por ter sido descoberta em 1528 pelo piloto português Diogo Rodrigues.

3 Embora represente apenas entre 3% a 4% do PIB nacional.

4 https://www.cia.gov/the-world-factbook/countries/mauritius/.

5 Ganga Talao significa, literalmente, “Lago do Ganges”.

6 O festival Maha Shivratri estende-se por três dias inteiros.

7 La Vallee des Couleurs Nature Park.

8 Cuja dieta é à base de frutas.

9 Um bom guia para conhecer a arte de rua em Port Louis é: https://www.letsventureout.com/port-louis-mauritius-street-art/.

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Mahé, Seychelles

Port Victoria, capital das Seychelles, na ilha de Mahé, onde se concentra mais de 3/4 da população.

Se alguém quiser procurar na Terra os lugares mais próximos do Paraíso vai ter que visitar as Seychelles. Constituído por 115 ilhas, este país está dividido em seis grupos (de ilhas) principais: Aldabra, Farquhar, Alphonse, Amirantes, Coral do Sul e Grupo Central. Neste encontram-se as ilhas maiores: Bird, Denis, Praslin, La Digue, North, Silhouette e também a maior de todas, Mahé, onde fica a capital, Victoria, em homenagem a uma rainha inglesa que, tal como a atual, Isabel II, se manteve no trono do Reino Unido por mais de 60 anos.

As Seychelles têm três línguas oficiais – inglês, francês e crioulo – e a maioria da população é católica (76,2%), convivendo pacificamente com anglicanos e membros de outras igrejas protestantes, mas também com muçulmanos, hindus e bahá’is. Ao contrário das Maldivas, que têm o islamismo como religião oficial, as Seychelles são um país muito mais livre, aberto, com uma cultura rica e diversificada. E enquanto as Maldivas são ilhas pequenas e planas, as Seychelles têm um pouco de tudo, incluindo ilhas de dimensão assinalável, com montanhas que atingem os 905 metros de altura. Além disso têm ricas flora e fauna autóctones.

Depois do sol se pôr, na praia de Yarrabee, junto a uma pequena aldeia de pescadores no norte de Mahé.

As Seychelles não têm população indígena. Os portugueses, aquando da segunda viagem de Vasco da Gama à Índia, foram os primeiros europeus a chegar às Seychelles, em 15 de março de 1503, não tendo, porém, permanecido em nenhuma das ilhas. Assim, os primeiros colonos foram fazendeiros franceses, que levaram consigo escravos africanos, e também alguns indianos do sul, que para aqui viajaram por volta de 1770. Após uma longa disputa entre a França e a Grã-Bretanha, as Seychelles ficaram sob o domínio deste país em 1814. A partir daqui desenvolveu-se uma economia baseada na agricultura, cuja mão-de-obra era importada principalmente das colónias europeias na África. A independência chegaria apenas em 1976. Após um golpe de estado em 1977, o país tornou-se num estado socialista de partido único, mas posteriormente adotou uma nova constituição e, em 1993, realizaram-se eleições livres, mantendo-se as Seychelles, até hoje, uma república aberta e democrática, dentro dos padrões ocidentais. É o país com o mais elevado PIB per capita do continente africano e o segundo com maior índice de desenvolvimento humano, depois das Maurícias.

A população moderna das Seychelles é composta por descendentes de colonos franceses e britânicos, por africanos e por comerciantes oriundos da China, da Índia e do Médio Oriente, que se estabeleceram nas três ilhas principais, sobretudo em Mahé, mas também em Praslin e La Digue. É a população mais reduzida entre todos os países africanos (cerca de 96.500 indivíduos), sendo também o país mais pequeno em área terrestre. Muito dependente do turismo, que representa 55% do PIB, o país desenvolve também atividades económicas nas áreas das pescas (sobretudo de atum), das energias renováveis e em pequenas indústrias relacionadas com produtos agrícolas específicos, como o coco, as frutas tropicais e a mandioca. De salientar que 85% do território é constituído por florestas.

Em Beau Vallon, a praia mais badalada das Seychelles.

Uma dessas grandes áreas florestais integra o Parque Nacional de Morne, bem no centro da ilha, onde se ergue uma montanha luxuriante que nós subimos e descemos da costa leste, onde o mar é mais agitado e impróprio para banhos, para a costa oeste, onde o mar é calmo e as praias paradisíacas. Além disso, percorremos de carro todo o perímetro da ilha. No nosso primeiro dia em Mahé visitámos a capital, Victoria, e depois começámos a circundar a costa no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, chegando ao fim da tarde à praia mais conhecida das Seychelles, Beau Vallon, onde pudemos banhar-nos e contemplar o seu famoso pôr do sol. Esta praia é muito badalada e, espalhados pelo extenso areal, encontrámos turistas de inúmeras nacionalidades. Às quartas-feiras, a partir da tarde, ocorre em Beau Vallon uma feira de artesanato e gastronomia, com barraquinhas de produtos locais, “comes e bebes”, música e muita animação. Por sorte, no dia em que estivemos ali era precisamente uma quarta-feira, pelo que pudemos assistir a esta enorme mescla de sons, sabores, cheiros e cores próprios das festas tropicais. Não ficámos na feira até muito tarde porque nas Seychelles conduz-se à inglesa, as estradas são deveras estreitas, os condutores circulam incrivelmente depressa e era a primeira vez que conduzíamos um carro com o volante à direita, pelo que, à noite, teríamos que redobrar os cuidados.

Lá viemos pela mesma estrada, a North Coast Road, agora em sentido contrário, até Victoria. O mais difícil quando não se está habituado a conduzir pela esquerda, sobretudo em estradas muito estreitas, é calcular as distâncias, especialmente as do lado contrário ao do condutor. Para agravar a nossa condição, as estradas das Seychelles não têm bermas pelo que a Fla me alertava constantemente de que o carro circulava demasiado perto do abismo…

Anse Etoile.

No dia seguinte, bem cedo, ainda o sol não tinha nascido, decidimos então cruzar a ilha em direção à costa oeste, tomando a estrada entre Victoria e Saint Sauci-Port Cloud (conhecida por estrada Saint Sauci), subindo e descendo o Morne, parando aqui e ali para contemplar as lindas vistas que se alcançam lá de cima. À medida que se sobe pela montanha, a humidade e a neblina aumentam, e a água escorre pela estrada; a floresta é densa, exuberante, praticamente virgem.

A primeira paragem que fizemos foi no local (Património Mundial pela UNESCO) onde foi construída a Missão de Venn, hoje em ruínas. Este foi o lugar escolhido pela Sociedade Missionária da Igreja para fundar uma escola (1876-1889) destinada a acolher os filhos dos escravos libertados. O último grupo destes escravos desembarcou nas Seychelles em 1875. O assentamento (do qual hoje só restam ruínas) era constituído por dois edifícios principais (os dormitórios de meninos e meninas), várias casas, banheiros, cabanas para trabalhadores, oficina, depósito e uma casa para o mestre-escola e a sua família.

O Parque Nacional Morne Seychellois, fundado em 1979, alberga uma diversidade de animais e plantas que não se encontram em nenhum outro lugar do mundo. Além da variedade de plantas exóticas nativas (incluindo várias espécies de palmeiras) existe também uma importante diversidade de espécies animais únicas. Entre elas a menor rã do mundo (sooglosus), que se relaciona com uma espécie ancestral descoberta recentemente nas montanhas da Índia; e também algumas aves, como a coruja-do-mato das Seychelles (otus insultis), que só se encontram aqui.

No Parque Nacional Morne Seychellois.

Em 1972, a Rainha Isabel II e seu marido, o Duque de Edimburgo, visitaram Venn’s Town e inauguraram um edifício de observação, com vista espetacular sobre uma das encostas do Morne e o mar. Para chegarmos a essas instalações temos de passar, a pé, por um caminho ladeado por árvores da espécie pterocarpus indicus, plantadas por volta de 1880.

Retomando a estrada principal, e já quase no fim da descida para Port Glaud, encontrámos uma fábrica de chá que é simultaneamente um museu – a Tea Factory – fundada em 1962. As vistas sobre a costa oeste da ilha são deslumbrantes. Neste miradouro, fruindo do ar fresco da montanha, podemos degustar um chá e descobrir como o mesmo é produzido, enquanto antevemos um mergulho numa das praias magníficas que daqui se avistam.

No nosso caso, essa inevitabilidade teria de ocorrer num lugar muito especial e esse lugar especial teríamos de o descobrir nós mesmos – foi o que decidimos ali. Mas por enquanto não passava das 7 da manhã. Nesta viagem madrugadora os animais que tínhamos visto pelo caminho eram de várias espécies, mas humanos não víramos nenhum.

Grande Anse.

Enfim chegámos à costa oeste da ilha. O nosso plano era subirmos um pouco pela costa para depois voltarmos para trás e circundarmos toda a ilha, pelo sul, até Victoria, mais uma vez no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, para não perdermos praticamente nenhum ponto da costa, excetuando a zona costeira do Parque Nacional, sem acesso por estrada, tal como acontece na pequena zona costeira do extremo sul da ilha. E assim fizemos. Depois de atingirmos Port Launey, situado numa baía que serve de abrigo a embarcações de recreio, voltámos para trás pela West Coast Road. As praias vão-se sucedendo e nós parámos em muitas: Grande Anse, Anse Boileau, Anse Louis e, finalmente, após uns 3 kms e uma descida final, íngreme e de terra batida, a Anse Soleil. O acesso mais difícil chamou-nos a atenção e, mal a vimos, soubemos que seria ali que nos iríamos banhar. Trata-se de uma praia linda, calma, rodeada de vegetação, com uma água azul-turquesa simplesmente irresistível.

Quando chegámos a praia ainda estava vazia e o pequeno bar de madeira, com um delicioso terraço sobre o mar, ainda estava fechado. Só depois chegaram algumas pessoas. Paz, harmonia e beleza, eis o que se sentimos aqui.

Anse Soleil.

Cerca de duas horas depois, ainda o sol não tinha atingido o seu ponto mais alto, saímos da Anse Soleil. Este é um daqueles locais especiais, difíceis de esquecer. Muito mais que a badalada Beau Vallon, Anse Soleil é a nossa praia preferida de Mahé.

Prosseguimos o nosso trajeto em torno da ilha, passámos por outras praias. Baie Lazare, ainda na costa oeste, Anse Baleine, Anse Royale e Pointe au Sel, já na costa leste, em direção a Victoria. Pouco depois, seguindo a East Coast Road, circulámos paralelamente ao aeroporto, e eis que entrámos finalmente numa estrada larga (que aqui parece uma autoestrada) que segue até à capital. Depois de entregarmos o carro demos uma volta pelo mercado local, comprámos alguns souvenirs, passeámos pelo centro da cidade, preparámo-nos para a despedida. Mahé permanecerá nos nossos corações.

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Sobre a Liberdade. Um texto de Karl Popper.

Escola Karl Popper em Viena.

Sobre a Liberdade*

I

Pouco se sabe sobre o povoamento humano dos Alpes austríacos, suíços e franceses, que remonta a tempos pré-históricos. Mas devíamos realmente considerar como é que pessoas que cultivavam a terra e criavam gado, se mudaram para a zona intransitável e bravia dos Altos Alpes onde, de início na melhor das hipóteses podiam levar uma existência difícil, pobre, cheia de perigos. A explicação mais provável é que estes povos preferiam uma vida incerta em regiões ermas à subjugação a povos vizinhos mais poderosos. Apesar da incerteza e do perigo, escolheram a liberdade. Muitas vezes gosto de alimentar a ideia de que a tradição de liberdade suíça e tirolesa, em particular, remonta aos tempos do povoamento pré-histórico da Suíça.

Seja como for, é um facto interessante e notório que a Grã-Bretanha e a Suíça, as duas democracias mais antigas da Europa contemporânea, são hoje muito semelhantes no seu amor pela liberdade e na sua prontidão em defendê-la. Porque, em muitos outros aspectos, especialmente nas suas origens políticas, estas duas democracias são fundamentalmente diferentes. A democracia britânica deve o seu surgimento ao sentido de orgulho e independência entre a alta nobreza e o seu desenvolvimento posterior à mentalidade protestante, consciência pessoal e tolerância religiosa – consequências dos grandes conflitos religiosos e políticos associados à Revolução Puritana. A democracia suíça não resultou do orgulho, independência e individualismo de uma alta nobreza, mas do orgulho, independência e individualismo dos agricultores das montanhas.

Estes início e tradições totalmente diferentes levaram a instituições tradicionais bastante diferentes e a sistemas de valores tradicionais bastante diferentes. O que um suíço ou um tirolês espera da vida é, penso eu, geralmente diferente daquilo que um britânico espera da vida. Provavelmente, as diferenças dos sistemas de valores baseia-se em parte na diferença dos sistemas educativos; mas é extremamente interessante a diferença nos sistemas educativos encontrar-se ela própria profundamente enraizada nos contrastes históricos e sociais a que me referi. Na Inglaterra, ainda neste século, a instrução era um privilégio da nobreza e dos proprietários de terras – a fidalguia rural; não dos habitantes das cidades e dos burgueses, mas das famílias donas de grandes extensões de terra, que viviam no campo. Estas famílias eram as detentoras da cultura. É delas também que provêm os académicos e os cientistas (muitas vezes amadores influentes e originais) e os membros das profissões mais qualificadas – políticos, homens do clero, juízes, oficiais militares. Pelo contrário, os grandes titulares da cultura no continente eram os habitantes das cidades; provinham na sua maior parte da burguesia urbana. A educação e a cultura não eram coisas que se herdassem; eram coisas que se adquiriam. A educação e a cultura não eram um símbolo de uma posição social herdada, mas um meio e um símbolo de evolução social, de auto-emancipação através do conhecimento. Isto explica também porque é que a luta vitoriosa contra a miséria na Inglaterra foi uma espécie de continuação das lutas religiosas a um nível diferente – uma luta em que o apelo dos aristocratas e das gentes das cidades à consciência religiosa desempenhava um papel decisivo – ao passo que a luta contra a miséria na Suíça e na Áustria era inspirada pela ideia de auto-emancipação através do conhecimento, pela fantástica visão de Pestalozzi quanto à educação. Apesar de todas estas profundas diferenças, tanto a Inglaterra como a Suíça sabem que existem valores que têm de ser defendidos a qualquer preço e os primeiros entres estes valores são a independência pessoal, a liberdade pessoal. E ambos os países aprenderam que tem de se lutar pela liberdade, e que tem de se defendê-la, mesmo que a possibilidade de sucesso pareça diminuta. Em 1940, quando a Grã-Bretanha lutava isolada pela liberdade, Churchill não prometeu a vitória aos britânicos. “Não posso prometer-vos nada melhor do que sangue e lágrimas”, disse. Essas palavras deram à Grã-Bretanha coragem para continuara a lutar.

Também na Suíça foi apenas uma tradicional determinação para lutar – mesmo contra um inimigo claramente superior, como os Habsburgos e, mais tarde, o Terceiro Reich – que permitiu aos suíços manterem a sua liberdade durante a Segunda Guerra Mundial.

II

Receio bem que os magníficos arredores da nossa querida Alpbach, esta maravilhosa interacção da natureza e da mão do homem, tenham feito que as minhas palavras de abertura fossem um pouco sentimentais e românticas. Sinto-me pois na obrigação de contrabalançar de imediato estas palavras sentimentais e românticas com uma segunda introdução dirigida contra o romantismo – em especial o romantismo na filosofia. E gostaria de começar esta segunda introdução com uma confissão.

É especialmente importante para mim que aquilo que vou dizer não seja considerado verdadeiro na base da confiança. Na realidade, preferiria que isto fosse considerado com o maior ceticismo. Ao contrário de muitos dos meus colegas filósofos não sou um líder percorrendo novos caminhos, anunciando a chegada de novas direções na filosofia. Sou um filósofo perfeitamente antiquado que acredita numa filosofia completamente antiquada: ou seja, a filosofia de tempos antigos, os tempos do racionalismo e do Iluminismo. Como um dos últimos defensores solitários do racionalismo e do Iluminismo, creio na auto-emancipação do homem através do conhecimento – tal como outrora Kant, o maior filósofo do Iluminismo, acreditou, ou como Pestalozzi usou o conhecimento para lutar contra a miséria. Por isso, gostaria de dizer claramente que represento pontos de vista que foram já considerados ultrapassados e totalmente errados há uns 150 anos. Porque foi um pouco antes de 1800 que o Romantismo expôs o Iluminismo [die Aufklärung] como mera “busca sem direção precisa” [die Aufklärerei] ou como Aufkläricht – uma alusão a Kebricht ou “lixo”. Mas infelizmente eu estou tão atrasado que ainda me agarro a esta filosofia obsoleta, ultrapassada. Sendo tão retrógrado, não consigo ver a filosofia do romantismo – principalmente a dos três expoentes do Idealismo Alemão, Fischte, Schelling e Hegel – como algo mais do que uma catástrofe intelectual e moral, a maior catástrofe intelectual e moral que alguma vez atingiu os intelectuais alemães e europeus. Em minha opinião, esta catástrofe intelectual e moral teve um efeito devastador e de descrédito que continua a espalhar-se como uma nuvem atómica. Provocou aquilo a que Konrad Heiden, no seu livro sobre Hitler, chamou há alguns anos, “a época da desonestidade moral e intelectual”.

É Zeitgeist [espírito da sua época] e movimento inspirado num Zeitgeist que ninguém vai conseguir facilmente deter – muito menos um defensor solitário tardio do Iluminismo como eu, bem ciente do poder da moda ou do Zeitgeist, mas que não está disposto a fazer-lhe quaisquer concessões. Ao contrário dos grandes românticos e autoridades contemporâneas, não creio ser tarefa do filósofo exprimir o espírito da sua época. Creio (tal como Nietzsche) que um filósofo tem de estar continuamente a verificar se não terá começado a fazer concessões ao Zeitgeist que possam colocar em risco a sua independência intelectual. Concordo inteiramente com Hugo von Hofmannsthal quando afirma: “A Filosofia deve ser um juiz do seu tempo; as coisas não vão bem quando ela se torna a expressão do espírito do seu tempo.”

III

As minhas acusações contra mim próprio e a minha confissão de que sou um racionalista e um homem do Iluminismo de pouco serviriam se não explicasse em breves palavras o que entendo por racionalismo e por Iluminismo.

Quando falo de racionalismo, não estou a pensar numa teoria filosófica (como a de Descartes) e de forma alguma na crença muito pouco razoável de que o homem é uma criatura puramente racional. Quando falo de razão ou racionalismo apenas me refiro à convicção de que podemos aprender com a crítica dos nosso enganos e dos nosso erros, especialmente com a crítica feita por outros, e por fim também com a autocrítica. Um racionalista é simplesmente alguém para quem é mais importante aprender do que vir a provar-se que está certo; alguém que está disposto a aprender com os outros – não simplesmente apossando-se das opiniões dos outros, mas permitindo de bom grado que os outros critiquem as suas ideias e criticando de bom grado as ideias dos outros. O ênfase aqui reside na ideia de crítica, ou, mais exatamente, discussão crítica. O racionalista genuíno não pensa que ele, ou outra pessoa qualquer, está de posse da verdade; nem pensa que a simples crítica como tal ajuda a chegar a novas ideias. Pensa sim que na esfera das ideias só a discussão crítica pode ajudar-nos a separar o trigo do joio. Tem consciência que a aceitação ou rejeição de uma ideia nunca é uma questão puramente racional; mas acredita que só a discussão crítica pode conferir-nos a maturidade necessária para considerar uma ideia sob cada vez mais aspetos e para fazer um juízo correto dessa ideia.

Esta avaliação da discussão crítica tem também o seu lado humano. Porque o racionalista sabe muito bem que a discussão crítica não é a única relação entre pessoas: que, pelo contrário, a discussão crítica racional é um fenómeno raro nas nossas vidas. Todavia, ele acha que a atitude de “dar e receber”, fundamental para a discussão crítica, é da maior relevância puramente humana. Porque o racionalista sabe que deve a sua razão a outras pessoas. Sabe que a atitude crítica racional só pode ser o resultado da crítica de outros, e que só através da crítica de outros se pode chegar à autocrítica.

A abordagem do racionalista pode ser descrita da forma que se segue. Talvez eu esteja errado e tu certo; de qualquer forma, ambos podemos esperar que, depois da nossa discussão, ambos vejamos as coisas mais claramente do que antes, desde que nos lembremos que o facto de nos irmos aproximando da verdade é mais importante do que quem está certo. Só com este objetivo em mente é que nos defendemos o melhor possível na discussão.

É isto, em suma, o que quero dizer quando falo de racionalismo. Mas quando falo de Iluminismo quero também dizer uma outra coisa. Penso acima de tudo na ideia da auto-emancipação através do conhecimento, na ideia que Kant e Pestalozzi inspiraram. E penso no dever que todos os intelectuais têm de ajudar outros a libertarem as suas mentes e a perceberem a abordagem crítica – um dever que a maior parte dos intelectuais esqueceu desde o tempo de Fichte, Schelling e Hegel. Porque infelizmente é extremamente comum entre os intelectuais querer impressionar os outros e, como disse Schopenhauer, não ensinar mas cativar. Surgem como dirigentes ou profetas – em parte porque se espera deles que surjam como profetas, como proclamadores dos segredos obscuros da vida e do mundo, do homem, da história e da existência. Aqui, como tantas vezes acontece, uma incessante procura produz uma oferta. Procuram-se dirigentes e profetas, por isso não admira que se encontrem dirigentes e profetas. Mas “os homens adultos não precisam de dirigentes”, como uma vez disse H.G. Wells. E os homens adultos deviam saber que não precisam de dirigentes. Quanto aos profetas, acredito no dever de todos os intelectuais de os manter à distância.

IV

O que é que distingue exteriormente a abordagem do Iluminismo da dos autoproclamados profetas? É a linguagem. O pensador iluminista fala de forma tão simples quanto possível. Pretende ser compreendido. Neste aspeto Bertrand Russell é o nosso mestre sem igual entre os filósofos. Mesmo quando não concordamos com ele temos de admirá-lo. Fala sempre de uma forma extremamente clara, simples e direta.

Por que é a simplicidade da linguagem tão importante para os pensadores iluministas? Porque o verdadeiro pensador iluminista, o verdadeiro racionalista, nunca pretende convencer ninguém a fazer nada. Não, nem sequer deseja convencer ninguém: tem permanentemente consciência de que pode estar errado. Acima de tudo, valoriza demasiado a independência intelectual dos outros para querer convencê-los em questões importantes. Prefere provocar a contradição, preferivelmente sob a forma de crítica racional e disciplinada. Não procura convencer mas despertar – desafiar os outros a formarem opiniões livres. A formação de opiniões livres é para ele preciosa: não apenas porque isso nos aproxima a todos da verdade, mas também porque respeita a formação de opiniões livres como tal. Respeita-as mesmo que considere uma opinião assim formada fundamentalmente errada. Uma das razões por que o pensador iluminista não quer convencer ninguém de nada é a seguinte. Ele sabe que, fora do estreito campo da lógica, e talvez da matemática, nada pode ser provado. Podem obviamente apresentar-se argumentos e podem examinar-se criticamente pontos de vista. Mas fora da matemática elementar os nossos argumentos nunca são conclusivos e destituídos de lacunas. Temos sempre de pesar as razões, sempre de decidir que razões pesam mais: as razões a favor de um determinado ponto de vista, ou as razões contra ele. Afinal, então, a formação de opinião contém um elemento de livre arbítrio. E é esse livre arbítrio que torna uma opinião preciosa do ponto de vista humano.

Foi com John Locke que o Iluminismo adquiriu e desenvolveu esta elevada estima pela opinião pessoal livre. Esta foi sem dúvida o resultado das lutas religiosas inglesas e continentais, que acabaram por fazer surgir a ideia de tolerância religiosa. E esta ideia da tolerância religiosa não é de modo algum uma ideia meramente negativa como tantos (por exemplo, Arnold Toynbee) defenderam. Não é apenas uma expressão do desgaste da guerra e uma compreensão de que o terror não oferece a perspetiva da imposição de uma conformidade de credo religioso. Antes, a tolerância religiosa provém precisamente do contrário: de uma compreensão positiva de que uma unanimidade religiosa forçada não tem qualquer valor; que só um credo religioso livremente assumido pode ter algum valor. E esta compreensão leva-nos mais longe. Leva ao respeito por qualquer credo honesto e consequentemente ao respeito pelo indivíduo e pela sua opinião. Nas palavras de Immanuel Kant, o último grande filósofo do Iluminismo, leva ao reconhecimento do valor da pessoa humana.

Ao falar do valor da pessoa humana, Kant queria dizer que todo o ser humano e as suas convicções devem ser respeitados. Kant combinou este preceito com o princípio hilleliano a que se chama corretamente a regra de ouro, mas que em alemão soa bastante banal: “Não faças aos outros aquilo que não gostarias que os outros te fizessem!”. Kant associou intimamente este princípio à ideia de liberdade – a liberdade de pensamento exigida pelo Marquês de Posa, de Schiller, a Filipe II; a liberdade de pensamento que Spinoza procurou justificar, declarando ser esta uma liberdade inalienável que os tiranos, por mais que tentem, nunca podem tirar-nos.

Creio que já não podemos concordar com Spinoza a este respeito. Talvez seja verdade que a liberdade de pensamento não pode nunca ser inteiramente suprimida, mas pode ser suprimida até um ponto bastante considerável. Porque sem uma livre troca de ideias não pode haver verdadeira liberdade de pensamento. Para descobrir se as nossas ideias são sólidas, precisamos que outras pessoas as testem. A discussão crítica é a base do livre pensamento para cada indivíduo. Contudo, isto significa que a liberdade de pensamento é impossível sem liberdade política. E significa também que a liberdade política é condição prévia do livre uso da razão por cada indivíduo.

Tentei explicar em breves palavras o que entendo por racionalismo e Iluminismo. Ao mesmo tempo tentei resumidamente indicar porque é que o racionalismo, tal como eu o entendo, bem como Iluminismo, requer liberdade de pensamento, liberdade religiosa, respeito pelas opiniões honestas das outras pessoas e, finalmente, liberdade política. Mas estou muito longe de afirmar que só o racionalismo ama a liberdade ou é capaz de dar razões para a exigir. Pelo contrário, estou convencido de que existem atitudes inteiramente diferentes, especialmente atitudes religiosas, que exigem liberdade de consciência e que, levando mais longe essa exigência, chegam também ao respeito pelas opiniões alheias e a uma justificação da exigência de liberdade política. E se há pouco, talvez com um pouco de ironia, vos avisei do meu racionalismo ultrapassado, gostaria agora de repetir este aviso com toda a seriedade. Pelo facto de eu ser um racionalista não pretendo converter ninguém. Nem desejo abusar da palavra “liberdade” para tornar outros racionalistas. Mas gostaria de desafiar outros a contradizerem-me; gostaria, se possível, de incitar outras pessoas a verem as coisas a uma nova luz, para que cada um possa tomar a sua própria decisão, da maneira mais livre possível de formar opinião. Todo o racionalista deverá subscrever as palavras de Kant: não se pode ensinar filosofias – no máximo apenas filosofar, o que significa uma atitude crítica.

V

Claro que não sabemos ao certo de onde vem este filosofar, esta atitude crítica. Mas tudo indica que é muito rara e portanto pode reivindicar o valor da raridade (além de outros valores). Tanto quanto se sabe, teve origem na Grécia e foi inventado por Tales de Mileto, o fundador da escola jónica de filosofia natural.

Existem escolas até entre povos bastante primitivos. A tarefa de uma escola é sempre preservar e transmitir os ensinamentos do seu fundador. Se um membro da escola tentar mudar a doutrina, é expulso como herege e dá-se uma cisão. Deste modo, o número de escolas por norma aumenta através de cisões. Mas por vezes, evidentemente, a doutrina tradicional da escola tem de se adaptar a novas condições externas – por exemplo, a um conhecimento recentemente adquirido que se tenha tornado propriedade comum. Nesses casos, a alteração da doutrina oficial da escola é quase sempre introduzida subrepticiamente através da reinterpretação da velha doutrina, para que mais tarde afirmar-se que nada mudou realmente na doutrina. A doutrina recentemente alterada (que não se diz que foi alterada) é atribuída ao mestre que fundou inicialmente a escola. “Disse o próprio mestre”, é o que constantemente se ouve na escola pitagórica.

É pois normalmente impossível, ou invulgarmente difícil, reconstruir a história das ideias de uma escola deste tipo. Porque é parte essencial do seu método que todas as ideias sejam atribuídas ao fundador. Que eu tenha conhecimento, a única escola tradicional que se afasta deste esquema rígido é a tradição da escola jónica de Tales, que ao longo dos tempos se tornou a tradição da filosofia grega e por fim, após o reaparecimento desta filosofia no Renascimento, a tradição da ciência europeia.

Tentemos imaginar por um momento o que significa quebrar com a tradição dogmática de uma doutrina pura da escola e substituí-la por uma tradição de debate crítico, uma tradição de pluralismo, em que muitas doutrinas concorrentes tentam aproximar-se de uma verdade única.

Que foi Tales a dar este passo verdadeiramente histórico, pode ver-se no facto de na escola jónica, e só na escola jónica, os membros tentarem de uma forma bastante aberta aperfeiçoar a doutrina do mestre. Só podemos perceber isto imaginando Tales a dizer aos seus seguidores: “Estes são os meus ensinamentos. É esta a minha conceção das coisas. Tentem aperfeiçoá-la”.

Foi assim que Tales criou uma nova tradição – uma tradição a dois níveis. Primeiro a sua própria doutrina era transmitida pela tradição da escola, tal como o eram as diferentes doutrinas de cada nova geração de seguidores. Segundo, preserva-se uma tradição de criticar o próprio professor e tentar fazer melhor. Nesta escola, portanto, modificar ou ultrapassar uma doutrina era considerado algo de positivo. E essa mudança era registada com o nome da pessoa que a introduziria. Isto tornou pela primeira vez possível uma verdadeira história das ideias.

A tradição de dois níveis que descrevi é a tradição da nossa ciência moderna. É um dos elementos mais importantes do nosso mundo ocidental. Que eu saiba, foi inventada apenas uma vez. Perdeu-se passados dois ou três séculos, mas foi redescoberta pelo Renascimento – essencialmente por Galileu Galilei – passados mais mil e quinhentos anos. É portanto bastante possível que seja destruída e esquecida. E apenas poderá desenvolver-se totalmente onde houver liberdade política.

Embora o racionalismo, tal como o descrevi, continue a ser uma coisa rara, mesmo na Europa, e não possa ser considerado uma das religiões características da Europa e embora as ideias do racionalismo sejam hoje tratadas com soberano desprezo pela maior parte dos intelectuais, o racionalismo de Tales é apesar de tudo uma ideia e uma tradição sem a qual a nossa civilização europeia não existiria. Porque não há nada mais característico da nossa civilização europeia do que o seu zelo pela ciência. É a única civilização que produziu ciências naturais, e a única onde esse facto desempenha um papel bastante decisivo. Mas as ciências naturais não são produto direto do racionalismo; são produto do racionalismo da antiga filosofia grega.

VI

O que até agora fiz foi apresentar-me como racionalista e seguidor do Iluminismo, e tentar explicar o que quero dizer com racionalismo e Iluminismo. Referi também sucintamente que o racionalismo e o Iluminismo postulam liberdade política. Mas seria ridículo identificar o amor pela liberdade com o racionalismo ou com o Iluminismo, ou mesmo afirmar a existência de uma relação muito próxima entre eles.

O desejo de liberdade é claramente algo primitivo, que encontramos já em variadíssimos graus entre os animais – mesmo nos animais domésticos – e em crianças muito pequenas. Mas a liberdade torna-se um problema no campo da política. Porque a coexistência humana significa naturalmente que a liberdade ilimitada para cada indivíduo é uma impossibilidade. Se eu for livre de fazer tudo o que quiser, então também sou livre de privar os outros de liberdade.

A solução de Kant era exigir que o Estado limitasse a liberdade individual apenas na medida necessária para a coexistência humana, e que esta limitação necessária se aplicasse a todos os cidadãos da forma mais igual possível. Este princípio genuinamente kantiano demonstra que o problema da liberdade política é pelo menos conceptualmente solúvel. Mas não nos oferece um critério de liberdade política. Porque muitas vezes, em casos individuais, não conseguimos determinar se uma certa limitação da liberdade é realmente necessária, nem se é um fardo imposto a todos os cidadãos por igual. Necessitamos pois de outro critério que possa ser mais facilmente aplicado. A minha proposta de critério é a seguinte. Um estado é politicamente livre se na prática as suas instituições políticas derem aos cidadãos a possibilidade de mudar de governo sem derramamento de sangue caso haja uma maioria que o deseje. Ou, mais sucintamente: somos livres se pudermos ver-nos livres dos nossos governantes sem derramamento de sangue.

Aqui temos um critério que nos permite distinguir a liberdade política da falta dela ou, se preferirem, uma democracia de uma tirania.

Claro que nada depende das palavras “democracia” e “tirania”. Se, por exemplo, alguém chamasse a alguns estados não livres “democracias” e à Constituição do Reino Unido ou da Suíça uma “tirania” eu não me envolveria numa disputa sobre se esses termos estão certos ou errados. Apenas diria: “Se eu tivesse de usar a vossa terminologia teria de me descrever como inimigo da democracia e amigo da tirania”. Isto evita que uma pessoa se perca em disputas terminológicas; o que é importante não são as palavras mas os verdadeiros valores.

O critério de liberdade política que acabei de propor é um instrumento simples, mas evidentemente algo rudimentar. Particularmente, não nos diz nada acerca da importantíssima questão da proteção das minorias – por exemplo, minorias religiosas, linguísticas ou étnicas.

VII

Estive, com tudo o que disse até ao momento, a tentar criar uma espécie de contexto em que tenham cabimento mais algumas questões relativas à presente situação de liberdade e ao mundo ocidental livre. Formularia então a questão central do seguinte modo:

O que é que a liberdade nos trouxe? O bem ou o mal? Qual deles existe em maior quantidade? O que é que revelam as escalas de medida do bem e do mal?

Considero esta pergunta altamente estimulante e vou tentar responder-lhe tão clara e concisamente quanto possível num conjunto de teses.

A minha primeira tese é que o nosso mundo, o mundo das democracias ocidentais, pode não ser o melhor de todos os mundos políticos concebíveis ou logicamente possíveis, mas é sem dúvida o melhor de todos os mundos políticos de cuja existência temos algum conhecimento histórico. Logo, sou um otimista declarado a este respeito.

Para explicar e justificar esta minha primeira tese otimista permitam-me primeiro que diga que quando elogio os nossos tempos não estou a pensar principalmente no milagre da explosão económica, embora não seja despiciendo que na nossa sociedade cada vez menos pessoas passem fome. O que tenho em mente é uma coisa totalmente diferente. Talvez consiga explicar-me melhor apresentando um contraste. E, 1942, o antigo bispo de Bradford condenou o nosso mundo ocidental como um mundo de Satanás e apelou a todos os ministros da religião cristã para que tomassem parte na destruição desta obra do diabo e para que ajudassem o comunismo de Estaline a vencer. Desde essa altura o caráter satânico de Estaline foi reconhecido pelos próprios comunistas, e durante um breve mas altamente refrescante período o seu caráter satânico foi uma importante componente da linha geral do partido, se não mesmo do programa do partido. Todavia ainda há crentes – e na Inglaterra, mesmo cristãos genuinamente devotos – que continuam a pensar como pensava o antigo bispo de Bradford.

Para expressar claramente a minha otimista primeira tese, gostaria de dizer que, partindo precisamente do mesmo ponto de vista a partir do qual o bispo condenou o nosso mundo ocidental como obra do diabo, eu descrevo-o como o melhor de todos os mundos do qual temos conhecimento histórico.

Para o bispo tratava-se principalmente de uma questão de valores puramente humanos – aquilo a que Kant chamava dignidade humana e disponibilidade humana para prestar auxílio. Considerava que estes valores estavam em risco no Ocidente e assegurados na Rússia. Mas parece-me que, no seu idealismo, não analisou corretamente os factos. Nunca antes houve uma sociedade com tão pouca repressão, em que tão pouca gente seja humilhada e insultada, como a nossa sociedade. Nunca antes tanta gente esteve preparada para fazer sacrifícios para aliviar a fome e miséria dos outros.

Penso portanto que nós, no Ocidente, não temos razão para nos envergonharmos em relação ao Leste. Mas não afirmo que nós no Ocidente não devamos criticar as nossas instituições – pelo contrário. Embora o nosso mundo seja o melhor que houve até ao momento muitas coisas neles estão bastante erradas. E aquilo que conseguimos pode perder-se em qualquer altura. Esse é, e sempre será, um grande perigo. Passo agora à minha segunda tese.

Embora considere o nosso mundo político o melhor dos quais temos conhecimento histórico, devemos ser cautelosos em atribuir esse facto à democracia ou à liberdade. A liberdade não é um fornecedor que entrega as mercadorias da vida à nossa porta. A democracia não garante que se consiga realizar coisa alguma – e não por certo um milagre económico. É errado e extremamente perigoso enaltecer a liberdade dizendo às pessoas que vão certamente ficar todas bem quando forem livres. A forma como alguém singra na vida é em grande medida uma questão de sorte e num grau comparativamente pequeno talvez também de competência, diligência e outras virtudes. O mais que se pode dizer da democracia ou da liberdade é que conferem às nossas aptidões pessoais um pouco mais de influência no nosso bem-estar. Isto conduz-me à minha terceira tese.

Devíamos escolher a liberdade política não por esperarmos uma vida mais fácil, mas porque a liberdade é ela própria um valor fundamental que não pode ser reduzido a valores materiais. Devemos escolhê-la à maneira de Demócrito que disse um dia: “Prefiro uma vida de pobreza numa democracia à riqueza sob uma tirania”, e “A miséria de uma democracia é melhor do que qualquer riqueza sob uma aristocracia ou autocracia, porque a liberdade é melhor do que a escravatura”.

Na minha quarta tese gostaria de ir um pouco mais longe. A liberdade, a democracia, e a nossa crença nelas podem tornar-se desastrosas para nós. É errado pensar que acreditar na liberdade conduz sempre à vitória; devemos estar sempre preparados para poder conduzir-nos à derrota. Se escolhermos a liberdade, então devemos estar preparados para perecer com ela. A Polónia lutou pela liberdade como nenhum outro país. A nação checa estava preparada para lutar pela sua liberdade em 1938: não foi falta de coragem que ditou o seu destino. A Revolução Húngara de 1956 – empreendida por gente jovem que não tinha nada a perder a não ser as suas correntes – triunfou e depois acabou em fracasso.

A luta pela liberdade pode também falhar de outras formas. Pode degenerar em terrorismo, como nas Revoluções Francesa e Russa. Pode levar a uma sujeição extrema. A democracia e a liberdade não garantem uma futura idade de ouro. Não, não escolhemos a liberdade política porque ela nos promete isto ou aquilo. Escolhemo-la porque ela torna possível a única forma digna de coexistência humana, a única forma em que podemos ser totalmente responsáveis por nós próprios. Se concretizamos ou não as possibilidades que ela encerra depende de todo o tipo de fatores – e acima de tudo de nós próprios.

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*Texto de um seminário dado em Alpach, a 25 de agosto de 1958, e extraído do livro A Vida é Aprendizagem, pp. 113-126.

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Sardenha

Baunei, a nossa base na Sardenha.

A Sardenha é uma ilha espetacular, multifacetada, com praias magníficas, montanhas, rica gastronomia, bom vinho e uma cultura ancestral. Apesar de fazer parte da Itália, a Sardenha tem uma identidade própria, com uma história e uma língua singulares. Uma língua – o sardo – que se divide em dois dialetos principais: o logudorês, no centro-norte, e o campidanês, a sul, sendo que o primeiro tem ainda três variantes. Mas quanto a dialetos, pelo menos, existem mais três: na cidade de Alghero, no noroeste, fala-se catalão; em Carloforte e Calasseta, no extremo sudoeste, um dialeto originário da Ligúria; no norte, em La Madallena, Gallura, Sassari e na zona costeira de Anglona, fala-se gallura e sassarese, por influências italiana e toscana. Finalmente, claro, fala-se italiano, a língua oficial.

Esta diversidade linguística pressupõe, como seria de esperar, uma grande diversidade cultural. De facto, desde os tempos do Paleolítico que a Sardenha é visitada por humanos e desde o Neolítico antigo, há cerca de 6000 anos, que é permanentemente ocupada. Os primeiros homens que se fixaram em Gallura e na parte mais setentrional da ilha provinham provavelmente da península italiana, particularmente, da Etrúria; os que povoaram a parte central da Sardenha, em torno das lagoas de Cabras e Santa Justa, procediam da Península Ibérica, através das ilhas Baleares; e os que se instalaram na zona do Golfo de Cagliari eram oriundos de África. Mais tarde chegariam outros grupos, vindos da Anatólia e do Mar Egeu.

Assim, é justo dizer que a Sardenha nunca foi composta por um único povo, mas sim por muitos.

Recanto em Santa Maria Navarrese.

Estes povos mantiveram-se politicamente divididos, umas vezes confederados, outras vezes em guerra uns contra os outros. Ao princípio as tribos viviam em aldeias constituídas por casas circulares, de pedra com tetos de palha, e a partir de 1500 a. C. começaram a construir as aldeias junto a fortalezas posicionadas estrategicamente em zonas elevadas para melhor avistarem os inimigos. Estas fortalezas, de forma cónica, reforçadas e ampliadas com torres de vigia, chamavam-se nuraghes. Ainda se encontram hoje, na Sardenha, cerca de 7000.

Por volta do ano 1000 a. C., os fenícios começaram a visitar cada vez mais frequentemente as costas da Sardenha para se abrigarem durante a noite ou em ocasiões de mau tempo. Em 509 a. C., a expansão dos fenícios para o interior da ilha era já demasiado ameaçadora e profunda, provocando uma reação violenta dos sardos, que atacaram as cidades costeiras onde os fenícios se haviam instalado, obrigando-os a pedir ajuda a Cartago.

Punta Predalonga.

Foi então que os cartagineses ou púnicos, em distintas campanhas militares, venceram os sardos e conquistaram toda a Sardenha, exceto a parte montanhosa, mais tarde chamada de Barbaria ou Barbagia. Durante 271 anos, a esplêndida civilização cartaginesa confrontou-se com a fascinante civilização nurágica indígena. Porém, em 238 a. C., os cartagineses, derrotados pelos romanos na Primeira Guerra Púnica, foram obrigados a ceder a Sardenha, que se tornou uma província de Roma. A ocupação romana durou 694 anos e, apesar das lutas que frequentemente os sardos travavam, atingiu a própria Barbagia, acabando com a civilização nurágica. Os romanos impuseram assim, apesar da resistência, a língua e civilização latinas.

Em 456, quando o império romano se encontrava já em plena decadência, os vândalos de África ocuparam Caralis (Cagliari) e as demais cidades costeiras da Sardenha, mas em 534 os vândalos foram foram derrotados, perto de Cartago, pelas tropas do imperador Justiniano, e a Sardenha passou a ser bizantina. A ilha foi dividida em distritos e o cristianismo difundiu-se, exceto na Barbagia onde, em finais do ano 500, se formara um novo e efémero estado independente, com tradições religiosas e laicas sardo-pagãs, do qual Ospitone foi um dos soberanos. Os quatro distritos, chamados merèie, eram governados por um judex residente em Caralis.

Francisco passeando por Tortolì.

Desde 640 até 732 os árabes ocuparam o Norte de África, Espanha, Portugal e parte de França, e em 827 empreenderam a conquista da Sicília. A Sardenha permaneceu isolada e teve de defender-se por si mesma. Os ataques dos árabes começaram em 703 e tornaram-se mais ferozes com o decorrer do tempo. O judex provinciae, para melhor defender a ilha, delegou os seus próprios poderes civis e militares aos seus quatro lugar-tenentes das merèie de Cálari, Torres, Gallura e Arborea que, em 900, conseguiram a sua independência, tornando-se eles próprios judices (em sardo judikes, ou seja, reis) desses territórios.

Cada reino tinha fronteiras, parlamento, leis (Cartas de Logu), línguas nacionais, emblemas e símbolos estatais próprios; e cada um destes quatro estados – comummente chamados giudicati – era um reino não apenas soberano mas igualmente democrático, porque todas as importantes decisões nacionais não cabiam ao rei, mas aos representantes do povo reunidos num parlamento chamado Corona de Logu.

Cala Goloritzè.

Em 1297, o papa Bonifácio VIII, para resolver diplomaticamente a Guerra das Vésperas, que havia estalado em 1282 entre angevinos (reino de Nápoles) e aragoneses pela posse da Sicília, instituiu por motu proprio um “regnum Sardiniae et Corsicae” outorgando-o, como feudo, ao catalão Jaime II, “o Justo”, rei da coroa de Aragão (uma união real formada pelos reinos de Aragão e Valência, mais o Principado da Catalunha), prometendo-lhe o seu apoio, se este quisesse conquistar a Sardenha, em troca da Sicília.

Em 1323, Jaime II de Aragão aliou-se aos reis de Arborea e, ao cabo de uma campanha militar que durou cerca de um ano, conquistou os territórios da Cagliari e de Gallura bem como a cidade de Sassari formando um estado com o título e nome de reino de “Sardenha e Córsega”, incorporado posteriormente à coroa de Aragão, sob o governo de um lugar-tenente do rei, primeiro, governador-geral e depois vice-rei. As cidades de Cagliari, Iglesias e Sassari pagavam os seus tributos diretamente ao rei e, por essa razão, tinham o título de reais; por seu lado, as aldeias estavam sob o regime de feudo e portanto pagavam tributo aos barões locais.

Descansando um pouco em pleno Parque Nacional do Golfo de Orosei e do Gennargentu.

Em 1353 estalou a guerra entre o reino de Arborea, que pretendia reunir a ilha sob o seu domínio, e o reino de “Sardenha e Córsega”. Em 1354 os aragoneses apoderaram-se de Alghero, que se converteu numa cidade plenamente catalã e que mantém, ainda hoje as suas tradições ibéricas. Em 1355, Pedro IV de Aragão permitiu a criação no reino de “Sardenha e Córsega” de um parlamento com poder legislativo e de um Real Conselho de Justiça com poder judicial

Em 1409, Martinho I, o Jovem, rei da Sicília e herdeiro de Aragão, derrotou os sardos giudicali en Sanluri e conquistou definitivamente toda a Sardenha, morrendo pouco depois de malária, em Cagliari, sem deixar descendentes, tendo a sucessão da coroa de Aragão sido determinada pelo Compromisso de Caspe de 1412, passando assim para as mãos dos castelhanos. Em 1479 nasceu a coroa de Espanha, através da união pessoal entre Fernando II de Aragão e Isabel de Castela (chamados de “Reis Católicos”), que se haviam casado dez anos antes. E o reino da Sardenha (agora separado da Córsega, pois esta ilha nunca fora conquistada) tornou-se espanhol, com o símbolo statuale dos Quatro Mouros.

Conquistando a Barbagia, o coração da Sardenha.

Depois de fracassadas as expedições militares contra os muçulmanos em Tunes (1535) e Argel (1541), Carlos V fortaleceu as costas da Sardenha com uma série de torres-vigia para defender os seus territórios mediterrânicos das incursões corsárias dos berberes africanos. O reino da Sardenha permaneceu ibérico durante quase 400 anos, desde 1324 até 1720, absorvendo muitas tradições, costumes, expressões linguísticas e modos de viver espanhóis que se podem observar ainda hoje nos desfiles folclóricos de Santo Efísio, em Cagliari (1º de maio), da Cavalcata, em Sassari (penúltimo domingo de maio) e do Redentore, em Nuoro (29 de agosto).

Em 1708, devido à Guerra de Sucessão espanhola que opunha Filipe de Bourbon a Carlos da Áustria, o governo do reino da Sardenha passou para as mãos dos austríacos, que haviam desembarcado na ilha. Em 1717, o cardeal Alberoni, ministro de Filipe V de Espanha, voltou a ocupar a Sardenha. Em 1718, através do Tratado de Londres, o reino da Sardenha foi entregue aos duques de Saboia, príncipes do Piamonte que o juntaram, sob a forma federativa, aos seus estados continentais. O reino italianizou-se.

Um jantar memorável.

Em 1799, devido às guerras de Napoleão em Itália, os Saboia abandonaram Torino refugiando-se, durante uns 15 anos, em Cagliari, capital do reino. Em 1847, os sardos renunciaram espontaneamente à sua própria personalidade de Estado e fundiram-se com o Piamonte para terem, assim, um único parlamento, uma única magistratura e um único governo em Torino.

Em 1848 começaram as guerras independentistas para alcançar a unidade política da península italiana dirigidas pelos reis da Sardenha durante 13 anos. Em 17 de março de 1861 o Reino de Sardenha mudou o seu nome para Reino de Itália. Finalmente, em 1946, através de um referendo popular, o Estado italiano constituiu-se como República e, em 1948, a Sardenha garantiu uma autonomia especial, com as suas quatro províncias de Sassari (norte), Oristano (oeste), Nuoro (leste) e Cagliari (sul), as quais remarcam com alguma aproximação os quatro antigos e gloriosos estados giudicali.

Esta introdução histórica, talvez demasiado longa, tem como fonte o livro de Francesco Cesare Casula indicado no fim deste artigo.

Cale dei Gabbiani.

Tal como a história da Sardenha, também a nossa visita à ilha foi bastante atribulada. O nosso voo tinha uma escala em Barcelona, mas uma tempestade nesta cidade, nesse preciso dia, provocou atrasos em inúmeros voos, incluindo o nosso, fazendo com que milhares de pessoas perdessem os voos de ligação programados. Para complicar ainda mais as coisas, três das malas que transportávamos desapareceram, ficando três, dos cinco que viajávamos, sem muda de roupa. Finalmente, face ao elevado número de pessoas em situação idêntica à nossa, os hotéis em Barcelona estavam esgotados, pelo que nos levaram num autocarro para um hotel a uns 100 quilómetros de distância, já muito perto da fronteira com a França, aonde chegámos de madrugada, cansados e desiludidos. Passadas três horas tivemos de acordar (os que conseguiram dormir alguma coisa) para regressarmos ao aeroporto, desta vez num táxi que, dada a confusão gerada (as pessoas que foram no mesmo autocarro para o hotel tinham voos diversificados) tivemos de lutar para apanhar, pois havia outro grupo pretendente (os taxistas só sabiam o número de pessoas que vinham buscar, e a que hora, não tinham nenhuma indicação sobre a identidade dos passageiros). A nossa sorte foi que, em desespero – um de nós era uma criança de ano e meio que um dia antes de viajar tinha ficado doente – nos atirámos para dentro do táxi e nos recusámos a sair… E lá fomos para o aeroporto, sem dormir, sem roupa e sem a certeza de que apanharíamos o avião para Cagliari, pois a distância era longa e teríamos de atravessar a região de Barcelona para chegarmos ao aeroporto, e estava um trânsito monumental. Mas lá conseguimos. As três malas é que teimavam em não aparecer…

Francisco com os seus novos amigos – o cão de salvamento “Arturo” e Gianni Scanu – na Cale dei Gabbiani.

Chegámos assim à Sardenha um dia depois do previsto. O carro que tínhamos previamente alugado já não estava disponível. Tivemos que alugar outro carro, pagando o dobro e perdendo o valor total do aluguer do anterior veículo, que já tínhamos pago. Enfim, lá fomos no nosso carro novo em direção a Baunei, onde alugáramos alojamento, mas antes parámos em Cagliari para comprar alguma roupa, pois três de nós só tínhamos a que trazíamos vestida há muitas horas. Apesar de tudo, quando nos fizemos à estrada íamos animados, com a sensação de que o pior já teria passado. E tínhamos razão. Instalados na nossa casa de Baunei fizemos um spaguetti com carne para o jantar, acompanhado por um vinho branco da Sardenha, que nos souberam divinalmente.

No dia seguinte acordámos revigorados e fomos dar uma volta pelas redondezas. Descemos a Santa Maria Navarrese, uma pequena e agradável vila com porto de recreio, posto de turismo, praias, restaurantes e outros serviços, e visitámos a Punta Pedralonga, um local onde, como o nome indica, se formou uma enorme rocha, em forma de ponta de lança, apontada ao céu. À tarde deslocámo-nos a Tortolì, uma cidade maior, com muito comércio, onde aproveitámos para, com tempo, comprarmos mais alguma roupa que nos fazia falta. Dois dias após a nossa chega à Sardenha, as três malas continuavam sem aparecer.

São inúmeras as pequenas praias escavadas nas rochas do Golfo de Orosei.

Baunei, a pequena vila onde nos instalámos, fica no topo de uma montanha, mesmo ao lado do Parque Nacional do Golfo de Orosei e do Gennargentu, instituído em 30 de março de 1998. Gennargentu é um maciço que inclui vários picos, entre eles o mais alto da ilha – Punta la Marmora, 1834 metros acima do nível do mar. Aos pés desse alto maciço encontram-se algumas das praias mais bonitas da Europa. Estas praias são de difícil acesso, escavadas na rocha, mas isso, apesar de representar algum perigo, só as torna mais exclusivas e tentadoras. Cala Goloritzé é uma delas. Quem quer visitá-la por terra só pode fazê-lo a pé, caminhando por mais de 3 horas (ida e volta). Nós quisemos. E valeu a pena. Trata-se de uma praia pequena mas incrivelmente bonita, rodeada pela montanha escarpada, e por uma água azul-turquesa de agradável temperatura. Depois de descermos e subirmos por caminhos de pedra solta, carregando o Francisco, sentimos que o nosso terceiro dia na Sardenha estava mais que preenchido. Só restava regressar a Baunei, comer e… dormir.

No quarto dia da nossa estadia decidimos ir para Norte. Seguimos a SS 125, atravessámos o maciço, passámos por Urzulei (a zona da antiga Barbagia) e iniciámos a descida para Orosei. Aqui chegados fomos até à praia para darmos um mergulho e nos refrescarmos um pouco. Pouco tempo volvido reparámos num rapaz que, caminhando pela praia, envergava uma camisola do Sporting e, claro, fomos falar com ele. Para nossa surpresa era um irlandês, casado com uma sarda (dito assim tem a sua a sua piada…), e a camisola do Sporting tinha-lhe sido oferecida por um amigo conterrâneo que vivera em Lisboa. É comum acontecerem coincidências agradáveis a quem viaja, somos testemunhas disso, e este irlandês, por solidariedade clubística, que sempre ajuda, aconselhou-nos um restaurante, situado na montanha, para jantarmos.

Regressando da nossa visita por mar ao Golfo de Orosei.

Bom, na verdade não se trata apenas de um restaurante, mas mais de uma quinta de agroturismo que também serve refeições. Para obterem autorização de exercício de atividade, pelo menos 80% do que é servido no restaurante tem que ser produzido na quinta. Escusado será dizer que comemos e bebemos com plena satisfação. Regressámos a Baunei quando a noite já ia adiantada, debatendo sobre o que fazer no dia seguinte. Soubemos que em Santa Maria Navarrese faziam passeios marítimos e decidimos ir lá ver.

No dia seguinte, já no porto de recreio de Santa Maria Navarrese disseram-nos que poderíamos alugar uma embarcação a motor e passearmos pela costa por nossa conta, sem necessidade de guia. Pareceu-nos uma ótima ideia e, depois de comprarmos alguns mantimentos para a viagem, embarcámos em mais esta aventura. Com o embalar da ondulação, o Francisco adormeceu durante uma boa hora, ou mais. Fomos navegando junto à costa, observando as escarpas, as grutas, as pequenas praias, os diferentes tons do mar… Parámos em frente à praia da Cala Goloritzè, arriamos ferro e, um por um, fomos mergulhando no mar magnífico. O Francisco, por seu turno, continuava mergulhado no sono. Quando nos apeteceu, levantámos ferro e seguimos. Até que encontrámos uma praia com acesso pelo mar (o que é proibido na Cale Goloritzè), e decidimos ir até lá. O Diogo manobrou para que pudéssemos sair do barco, com o Francisco, em segurança, foi depois estacioná-lo onde é permitido, e veio a nado ter connosco.

Outro amigo sardo que aceitou posar connosco por troca com o colega que estava a tirar a fotografia.

A praia chama-se Cale dei Gabbiani (em tradução livre: praia das Gaivotas) e é, sem dúvida muito bonita, embora não tenha areia, antes calhaus provenientes das rochas. Depois de comermos travámos conhecimento com um senhor da Proteção Civil da Sardenha – Gianni Scanu – que se fazia acompanhar por um belo cão de salvamento, equipado a rigor, o Arturo. Estes cães, muito bem treinados, são extremamente dóceis, e o Francisco rapidamente fez amizade com o Arturo.

(Soubemos recentemente que uma das raças a que a Guarda Costeira italiana mais recorre é o cão d’água português, dada a extraordinária apetência destes cães para tarefas no mar. O próprio Gianni tem agora um cão d’água chamado Pancho. Estes cães são muito admirados pelos treinadores e instrutores da Escola Italiana de Cães de Salvamento. Um artigo sobre o cão d’água português pode ser lido no nosso blogue em https://ilovealfama.com/2013/10/08/cao-de-agua-portugues/).

Ao fim da tarde regressámos a Santa Maria Navarrese, inteiros, incluindo o barco. Apesar de o tempo não ter ajudado muito, fora um passeio memorável. Aquela zona da costa, junto ao maciço de Gennargentu, é de uma beleza singular. Tivemos o privilégio de visitar as suas praias, por terra e por mar. E por conta própria.

Ir a Itália e não comer pizza é como ir a Roma e não ver o papa. Na praia de Orrì.

A nossa estadia na Sardenha estava a chegar ao fim. No dia seguinte teríamos de rumar a Cagliari para os voos de regresso, desta vez via Madrid. Mas antes de terminarmos, queremos deixar uma palavra ao acolhedor povo de Baunei: o senhor do talho que já nos cumprimentava quando passávamos à sua porta; as moças do minimercado sempre atenciosas e disponíveis; as jovens da gelataria onde comprávamos os sorvetes com leite de cabra; e mesmo as velhinhas vestidas de preto que víamos nas ruas de Baunei. Sempre nos rodearam de simpatia.

Assim, no nosso último dia de viagem, às 11 da manhã, saímos da casa que durante seis dias (deveriam ter sido sete) habitáramos em Baunei. Não percorremos diretamente os 150 quilómetros até Cagliari, fizemos uma paragem em Tortolì para almoçarmos. Quando estávamos a chegar a Tortolì, recebemos uma chamada da dona da casa que alugáramos, dizendo que tinha à porta um funcionário de uma transportadora que nos queria entregar umas malas… As malas! No último dia na Sardenha, quando já nem sequer estávamos na morada indicada, chegaram as três malas perdidas! In extremis. Pedimos então ao senhor da transportadora que nos entregasse as malas em Tortolì. E assim se fez. Metidas todas as malas no carro, lá rumámos à capital da Sardenha para apanharmos o avião de regresso, desta vez sem peripécias de maior.

Cagliari vista do avião na hora da despedida.

A Sardenha é uma ilha fantástica e só conhecemos uma parte muito pequena dela, ainda que uma belíssima parte. Ficou a vontade de voltarmos. Veremos se se concretizará um dia. Até lá ficam as recordações de uma viagem cujo registo aqui realizado tem mais de ano e meio de atraso. A nossa estadia na Sardenha deu-se entre 12 e 17 de junho de 2019, iniciando-se um dia depois do previsto.

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A nossa edição: Historia de Cerdeña, Francesco Cesare Casula, Carlo Delfino Editore, Sassari, 2000.

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Maldivas, Malé

Crepúsculo no Oceano Índico.

A República das Maldivas é um arquipélago composto por 1.190 pequenas ilhas agrupadas em 26 grupos ou atóis. Estes atóis formam uma longa e estreita cadeia com cerca de 750 quilómetros (de norte para sul, ou vice versa) no Oceano Índico, cobrindo uma área total de cerca de 90.000 quilómetros quadrados. As massas terrestres mais próxima são o cabo Comorim, no extremo sul da Índia, 480 quilómetros a nordeste; e o Sri Lanka, um pouquinho mais para leste, a 650 quilómetros. A capital é Malé, uma ilha muito pequena, com menos de 2 quilómetros de comprimento e de largura, totalmente plana – como, aliás, todas as outras ilhas, cuja altura máxima não ultrapassa os 2,5 metros – onde se concentram, além de edifícios, veículos, embarcações, a maior parte dos 500.000 habitantes das Maldivas. Uma ponte construída pelos chineses liga Malé à ilha vizinha de Hulmumale, a única com espaço para albergar um aeroporto – o internacional de Velana.

Malé, uma cidade incrível, plana, demasiado exposta ao mar. Uma onda gigante pode literalmente varrê-la do mapa.

Os turistas que visitam as Maldivas raramente ficam em Malé; alguma embarcação rápida (para os hotéis mais perto) ou hidroavião (para os atóis mais longínquos) levá-los-á a um dos resorts, mais ou menos exclusivos, onde podem desfrutar de alguns dias paradisíacos com o mar sempre aos pés. Nós, pelo contrário, não saímos de Malé. Caminhámos por toda a cidade, falámos com as pessoas, visitámos os mercados, as docas, os restaurantes (onde não se pode beber álcool), as lojas, algumas pequenas livrarias (sempre buscamos um livro local) e os edifícios públicos. Tudo fica perto de tudo, alcançável depois de alguns minutos a pé.

Os maldívios autogovernaram-se durante a maior parte do tempo histórico, excetuando um breve período no século XVI em que foram governados pelos portugueses a partir de Goa. Em 1752, houve também um período de apenas 3 meses de regência “malabari”. Em 1887, as Maldivas tornaram-se um protetorado britânico, mas não houve nunca presença física dos britânicos em Malé, que continuou a ser dirigida pelos seus próprios sultões até ao fim de 1952. No dia 1 de janeiro de de 1953 formou-se a primeira república, que teve vida curta, regressando as Maldivas ao sultanato em 1954. Por sua vez, o sultanato foi abolido em 1968 com a formação da segunda república. A independência foi alcançada em 1965. Apesar de não dever lealdade à rainha, em 1984 as Maldivas tornaram-se membro da Comunidade Britânica (British Commonwealth).

Zona central de Malé.

A sociedade maldívia é profundamente muçulmana. Avisos afixados em diversos locais apelam aos turistas para respeitarem as tradições locais. Por exemplo, as mulheres não podem usar bikini e ninguém pode estar de tronco nu nas pequenas praias da capital. Por outro lado, as atrações arquitetónicas são escassas ou nulas. Assim, se quiser ir às Maldivas, escolha um resort de acordo com a sua bolsa, desfrute das águas magníficas do Índico, da paz de uma pequena ilha que por alguns dias é de apenas de uns quantos sortudos, entre os quais você – e relaxe. É do turismo que as Maldivas vivem. Aqui só o peixe não é importado.

Há, porém, um lado preocupante neste paraíso. Um aumento da temperatura global e a consequente subida das águas pode submergir estas magníficas ilhas praticamente planas, que os maldívios terão de abandonar. Um segundo perigo ainda mais preocupante é a possibilidade de algum tsunami as varrer, não dando tempo aos habitantes de abandoná-las. O tsunami de 26 de dezembro de 2004 provocou ondas de até 1,5 metros de altura, mas é possível que ocorra um tsunami maior e, claro, muito mais devastador. O nosso conceito de paraíso não contempla tamanha fragilidade.

A nossa visita às Maldivas foi curta. Ficámos apenas na sala de visitas – Malé.

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A nossa edição:

Mysticism in the Maldives, Ali Hussain, Novelty Publication, Malé, 1991.

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A ressurreição, por Gustav Mahler

Mahler trabalhou na sua Segunda Sinfonia entre 1888 e 1894, e reviu-a em 1903.

Em dia de Páscoa deixamos um apontamento dessa magnífica obra mahleriana, a sinfonia nº 2, “Ressurreição” (em que, tal como nas sinfonias 3 e 4 – as chamadas Sinfonias Wunderhorn – intervem a voz humana), registado em Leipzig, Alemanha, no ano de 2011. O maestro é o carismático italiano Riccardo Chailly, que tivemos a felicidade de ver ao vivo noutras ocasiões. Páscoa Feliz!

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Veneza

Chegámos a Veneza ao anoitecer, mas a cidade é bonita a qualquer hora.

Veneza é uma daquelas cidades que todos querem conhecer: famosa, monumental, romântica, uma potência marítima mundial na Idade Média e no Renascimento, cuja riqueza se pode observar hoje através dos belos palácios, catedrais, pontes e outros emblemáticos edifícios da cidade. Quando lá chegamos – refiro-me à ilha principal, cortada pelo Grande Canal – só podemos circular de barco ou a pé. Veneza parece uma cidade flutuante, e de certa maneira é-o: foi construída em cima de plataformas de pedra colocadas sobre estacas de madeira cravadas no fundo da lagoa. Um trabalho engenhoso que requer muita manutenção. É difícil evitar a erosão que assola estas ilhas, provocada sobretudo pela invernia, mas também pelo intenso tráfego marítimo. As embarcações são variadas, desde as carreiras de transporte de passageiros, os cruzeiros turísticos e os táxis, passando pelas ambulâncias, a recolha de lixo e os funerais, até todo o tipo de abastecimentos; tudo é realizado com o recurso a embarcações. Veneza é, pois, seja onde for que o visitante já tenha estado, uma cidade única, inigualável, de uma beleza vibrante e quase surreal.

Praça de São Marcos e a basílica homónima.

Trata-se também de uma cidade frágil. Há sempre o receio que a chuva e as marés se associem para a inundarem, e essa condição delicada sente-se quando a visitamos. Veneza é feminina.

Chegámos já de noite ao nosso hotel e só no dia seguinte iniciámos as deambulações pela cidade que visitáramos há quarenta anos, no longínquo ano de 1979. Começámos por uma caminhada até à Praça de São Marcos. Aqui se impõe a basílica homónima e, ao lado, o Palácio Ducal, que podem e devem ser visitados. A longa varanda da basílica é um local privilegiado para observar a praça, as suas esplanadas e o formigueiro de transeuntes caminhando em todas as direções. A Basílica de São Marcos é provavelmente o edifício mais simbólico de Veneza e também um dos mais antigos. Embora a sua configuração atual seja relativamente recente, a construção realizou-se por fases ao longo de muitos séculos. Visitámos primeiro a igreja e depois, subindo uma escadaria exterior, à direita do portão principal, o museu.

A bela quadrilha do evangelista, no Museu da Basílica de São Marcos, situado no piso superior.

O resto do dia passámo-lo a fazer o que de melhor se pode em Veneza: percorrer as ruas sinuosas e estreitas, cruzar os canais por pontes de variadíssimos tamanhos e estilos, observar as gôndolas, governadas por hábeis barqueiros de camisolas listadas, azuis (ou vermelhas) e brancas, onde casais abraçados se reclinam para trás, para melhor observarem as belas fachadas dos edifícios da cidade. Como seria de esperar, parámos algumas vezes para provar as comidas rápidas e típicas de Itália – pasta e pizza – e apreciar o trânsito do Grande Canal, numa das tantas esplanadas espalhadas pelos cais, que aqui também são ruas.

No dia seguinte apanhámos um vaporetto para Burano, uma pequena ilha a cerca de uma hora de distância.

Ao que dizem, as casas típicas de Burano são repintadas a cada dois anos.

A principal atração deste burgo são as típicas casas coloridas e as suas rendas merletto. Durante a nossa visita o tempo esteve quase sempre escuro, com chuva frequente, o que não nos permitiu presenciar todo o esplendor do colorido das fachadas que se duplicam nos espelhos de água, que são os canais. As principais atividades económicas entre os cerca de 3 mil habitantes da ilha são, pois, o turismo, o artesanato (sobretudo renda) e a pesca. O que se deve fazer por aqui é, como seria expectável, calcorrear o que se puder. Foi o que fizemos. No final da visita a Burano, antes de nos dirigirmos ao cais de embarque para regressarmos a Veneza, retemperámos forças num dos cafés/restaurantes da praça central – Piazza Baldassare Galuppi – cujo nome celebra um ilustre compositor italiano, filho da terra.

O Grande Canal.

Chegados a Veneza caminhámos um bom par de quilómetros até ao hotel, desfrutando das vistas magníficas e do ambiente romântico do anoitecer. Esta seria a nossa última noite em Veneza e, embora o tempo não fosse o mais convidativo, despedimo-nos com um jantar na rua, junto ao rio Cannaregio, de frente para a formosa Ponte delle Guglie.

No dia seguinte regressámos a Portugal.

Ponte de Rialto. Ao lado (edifício ocre) situa-se o magnífico Hotel Rialto.

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