Portugal afunda-se

Portugal aproxima-se mais da cauda da Europa do que da média europeia.

Vamos sendo consecutivamente ultrapassados por países que há poucos anos estavam muito atrás de nós no que toca ao PIB per capita em paridade de poder de compra. Em 2017 fomos ultrapassados pela Lituânia e pela Estónia e prevê-se que em 2021 sejamos ultrapassados pelas Hungria e Polónia, que se aproximam vertiginosamente da média europeia enquanto Portugal se afasta. Todos os países que se encontram atrás de nós (excetuando a Grécia) tiveram um crescimento médio positivo na última década (2011-2020), ao passo que Portugal teve um crescimento negativo (-0,3%). Acresce que estes países (Polónia, Hungria, Eslováquia, Roménia, Letónia, Croácia, Bulgária) têm melhores condições para crescer do que nós: estão menos endividados e, por isso, podem concretizar mais investimento público; são mais qualificados; e (excetuando a Croácia) dependem menos do turismo.

Resumindo: em poucos anos estaremos na cauda da Europa a 27, talvez à frente, apenas, da Bulgária e da Grécia.

Fatalidade ou políticas avessas aos mais elementares ditames da Economia?

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Fonte:

Jornal “Expresso”, com base em dados da Comissão Europeia, do Eurostat e WTTC.

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Foto retirada de:

portugal.gov.pt

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Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço foi um brilhante pensador. Mas nem todos os pensadores, ainda que brilhantes, são filósofos.

A Filosofia pode ser encarada de duas formas. Por um lado, desde que reflitamos sobre o mundo, o comportamento e a existência, todos nós somos filósofos. Por outro lado, existem pessoas que dedicam a vida a estudar essas e outras questões filosóficas e os problemas que levantam (mesmo que, como Wittgenstein, não acreditem em genuínos problemas filosóficos), procurando resolvê-los e ligá-los numa linha de pensamento coerente, isto é, numa doutrina, numa filosofia. Voluntária ou involuntariamente, profissionais ou amadores, estes são os verdadeiros filósofos.

Kant resumiu o objeto da Filosofia em quatro perguntas.

  • O que posso saber? (Epistemologia ou Filosofia do Conhecimento);
  • O que devo fazer? (Ética);
  • O que me é permitido esperar? (Metafísica);
  • O que é o Homem? (Antropologia Filosófica).

Respondeu ou procurou responder Eduardo Lourenço, através da sua obra, a uma ou mais que uma destas perguntas? Não, Eduardo Lourenço, na linha de muitos outros pensadores portugueses – como Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva ou Teotónio Almeida, só para citar alguns – pensou sobre Portugal, os portugueses e o nosso papel na Europa e no Mundo. Para isso, Lourenço inspirou-se na literatura e nos poetas e não em qualquer filósofo português que, de resto, nunca existiu; de acordo com o próprio, por cá sempre imperou um “irrealismo prodigioso”.

Estamos de acordo com Eduardo Lourenço: a nossa tradição é literária, poética e mística; não existe em Portugal tradição filosófica.

Eduardo Lourenço foi, pois, um ilustre professor e ensaísta. Mas, ao contrário do que muitos dizem e escrevem nestes dias após a sua morte, não foi um filósofo. Isto não diminui em nada o brilhantismo deste intelectual português, antes é uma manifestação de apreço e respeito pela sua figura histórica.

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Foto retirada de: http://www.eduardolourenco.com/

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Islândia

Na Islândia imperam as paisagens naturais.

A Islândia é uma terra moldada por água, gelo e fogo. Caracterizada por uma intensa atividade vulcânica, há no seu território centenas de vulcões, alguns ativos, outros adormecidos há milhares de anos. O magma fratura as rochas da crosta e forma uma cadeia de vulcões, que se estende ao longo da ilha, de norte a sul. De formas e tamanhos variáveis, os vulcões conferem à ilha uma paisagem lunar; uma paisagem muito diferente de outrora, quando esteve coberta por um extenso glaciar, e só os picos das suas atuais montanhas eram visíveis. Foi nos grandes campos de lava do norte deste país que os astronautas americanos da missão Apolo 11 tiveram uma breve preparação antes da sua viagem à Lua.

A natureza instável e porosa do solo vulcânico da Islândia não permite reter a água nem proporciona condições adequadas à fixação das plantas. A água do degelo forma grandes cascatas, esculpe montanhas, percorre muitos quilómetros no solo poroso, forma cavernas e acaba por emergir em forma de lagos. No fundo desses lagos há fontes termais vulcânicas que aquecem a água e proporcionam a profusão de vida. Algumas espécies refugiam-se aqui, no fundo dos lagos, durante o inverno. Há mais vida na Islândia do que à primeira vista parece.

Perto do início do Verão, que foi quando visitámos a Islândia, o sol demora uma eternidade a pôr-se e, quando por fim se põe, não fica escuro, o céu mantém-se relativamente claro e é possível enxergar a uma distância considerável. E não demora muito até o sol nascer de novo. Quando tirámos esta foto, em Reykjavik, seriam uma 23:30, sensivelmente. No solstício de Verão o sol mantém-se visível por mais de 21 horas.

Um milhão de aves marinhas nidificam em Grimsey, uma pequena ilha a norte da ilha-mãe, em cima do Círculo Polar Ártico. Entre essas aves destacam-se as grandes colónias de papagaios do mar e de tordas mergulheiras, que aqui vêm nidificar. Ambos nadam debaixo de água em busca de alimento, conseguindo ficar cerca de dois minutos submersos. Além destes, há que considerar as andorinhas do mar, as gaivotas com garras, os moleiros parasíticos e as escrevedeiras das neves, entre tantos outros. Também os mares da Islândia são ricos em vida e propícios para a pesca. As águas contêm plâncton devido à provisão contínua de cinzas vulcânicas. Das muitas espécies, destacam-se o bacalhau (que aqui prospera, ao contrário do que acontece noutros lugares), a solha e a raia, mas também camarões, focas, morsas, baleias e golfinhos. Em terra, onde a biodiversidade é mais pobre, sobressaem o cavalo islandês, uma raça típica (é proibida a importação de qualquer outra); a raposa-do-ártico, as renas e os visons. Na Islândia, apenas 1/4 do território está coberto por vegetação. Não existem répteis nem anfíbios.

Harpa. Centro de Congressos e Auditório, em Reykjavik.

A nossa visita à Islândia iniciou-se pela capital, Reykjavik, uma cidade pequena, muito tranquila, onde nada parece ser capaz de perturbar os seus cerca de 200 mil habitantes. Os islandeses, no total, não ultrapassam os 365 mil, cerca de metade dos habitantes de uma cidade pacata, como Lisboa. Não há muito que ver em Reykjavik para lá da igreja Hallgrímur (Hallgrímskirkja), o restaurante panorâmico com cúpula de vidro e vistas soberbas sobre a cidade e as montanhas circundantes (Perlan), o centro de conferências e auditório (Harpa), e alguns museus, como o Museu Nacional da Islândia, o Museu de Fotografia de Reykjavik e o Museu da Cidade, entre vários outros. O melhor da Islândia não são as cidades, apesar da sua tranquilidade e beleza, até porque este país tem uma densidade populacional extremamente baixa, logo, sem os equipamentos de toda a espécie que estamos habituados a ver nas grandes metrópoles. O melhor deste país tão especial, onde todos parecem felizes e de onde ninguém quer sair, são mesmo as paisagens naturais.

Assim, no dia seguinte à nossa chegada à ilha, a bordo de um carro alugado, saímos da capital para percorrermos os cerca de 300 quilómetros do denominado “Círculo Dourado”, constituído pelo Parque Nacional de Thingvellir, as cataratas de Gullfoss e o vale de Haukadalur.

Hallgrímskirkja, uma igreja luterana com 74,5 metros de altura, e a estátua de Leif Erikson, o primeiro europeu a chegar à América.

O Parque Nacional de Thingvellir (que quer dizer “Campos da Assembleia”), Património Mundial da Unesco desde 2004, fica situado num vale e é no seu seio que se encontra o local onde os islandeses se reuniam em assembleia e onde funcionou o primeiro parlamento islandês. Foi aqui que começou, enquanto nação, a Islândia. Este é portanto, um lugar com grande importância histórica. E este talvez seja o ponto do nosso artigo em que devamos fazer uma breve introdução à história da Islândia.

Dizem os historiadores que o período viking começou no início do século IX e durou até meados do século XI. Durante esse tempo, os povos nórdicos estabeleceram-se por toda a parte, das margens do Volga às costas orientais da América do Norte, do Oceano Ártico ao Mediterrâneo. E chegaram também à Islândia, que até então era desabitada. A falta de terras e as disputas internas na Noruega levaram muitos a navegar até aqui. O padre católico e historiador islandês do século XII, Ari Porgilsson (o catolicismo foi violentamente banido da Islândia no século XVI), escreveu, na sua obra Íslendingabók (“História da Islândia”), que Ingólfur Arnarson desembarcou em Reykjavik por volta do ano 870. Muitos se lhe seguiram, entre os quais Erik Thorvaldsson (Erik, o “Vermelho”), pai do grande Leif Erikson, descobridor da América, que terá nascido na Islândia por volta do ano 970.

A população aumentou de forma constante e daí surgiu a necessidade de se encontrar um local para as pessoas se reunirem, resolverem disputas e acordarem sobre regras a respeitar. Após se realizarem algumas assembleias distritais, a primeira assembleia de toda a nação islandesa teve lugar num promontório bem localizado, com boas pastagens, lenha, água e, além disso, perto dos principais centros populacionais e das principais vias terrestres; esse promontório localiza-se aqui, em Thingvellir. Estávamos no ano de 930, e o parlamento islandês é, por isso, o mais antigo do mundo.

À entrada do Parque Nacional de Thingvellir. Aqui nasceu a Islândia.

As assembleias em Thingvellir resistiram ao período de cerca de 43 anos de lutas internas (início do século XIII), depois, a partir de 1262, ao período em que a Islândia fez parte do reino norueguês, e mais tarde, a partir de 1397, quando fez parte do reino da Dinamarca e Noruega; duraram até 1798, ano em que foram suspensas. O vale passou então por décadas de esquecimento. Mas quando o movimento independentista europeu chegou à Islândia, no início do século XIX, Thingvellir desempenhou novamente um papel relevante na sociedade, como símbolo de independência. Nesta altura a Islândia fazia parte do reino da Dinamarca, que entretanto se separara da Noruega; e foi o rei dinamarquês Kristian VIII quem, em 1843, autorizou que os islandeses se voltassem a reunir em assembleia, ainda que sem poderes legislativos. Esta veio a realizar-se em Reykjavik, no ano de 1845. Mas, três anos depois, em 1848, realizar-se-ia de novo uma assembleia no velhinho promontório de Thingvellir, com 19 delegados, os quais redigiram uma petição ao rei, solicitando que este proporcionasse aos islandeses uma assembleia com os mesmos direitos dos súbditos dinamarqueses.

O nosso carro islandês. Económico e fácil de identificar.

Em 1874 foi realizado em Thingvellir um festival para comemorar os mil anos de assentamento na Islândia. Nesta ocasião, o rei Kristian IX concedeu aos islandeses a sua primeira constituição, garantindo ao parlamento poderes legislativos e financeiros, ainda que limitados. Finalmente, a sucessão de grandes acontecimentos em Thingvellir culminou, em 17 de junho de 1944, com a fundação da república islandesa, precisamente no dia de um dos seus heróis nacionais, Jón Sigurosson. Apesar da chuva e do vento, ninguém entre o grande número de islandeses presentes abandonou o local, pois este foi o dia mais importante da história da Islândia.

Thingvellir, porém, não é interessante apenas pela sua rica história. Este vale é também extraordinário do ponto de vista natural. A paisagem submersa do parque é cheia de vales, falhas e fontes de lava, formados pelo afastamento gradual de duas placas, que se distanciam em média dois centímetros uma da outra a cada ano que passa. E que placas são essas? Simplesmente, as placas tectónicas da América e da Eurásia, que aqui quase se tocam, pois a Islândia fica localizada na dorsal média atlântica do Atlântico norte, cujo rift cruza toda a Islândia e é particularmente visível em Thingvellir.

Fla tenta afastar mais depressa a América do Norte da Eurásia.

O afastamento das placas provoca uma tensão que é aliviada por fortes terramotos periódicos, com um intervalo de cerca de dez anos. Estes terramotos provocam grandes fendas, sendo uma das mais famosas a chamada Silfra, uma fenda subaquática, que muitos curiosos e aventureiros visitam, praticando snorkelling ou mergulho. Por tudo isto, é quase impensável visitar a Islândia sem passar por Thingvellir, até porque o parque dista do centro de Reykjavik uns meros 47 quilómetros.

E se retomarmos a viagem no mesmo sentido, chegaremos, 70 quilómetros depois, a Gullfoss, a dupla cascata mais famosa da ilha. Em 1875, Sigrídur Tómasdóttir e suas irmãs, filhas do proprietário daquelas terras, abriu o primeiro caminho de acesso à cascata, e foi assim que esta foi ficando cada vez mais conhecida. Na década de 1920, um grupo de investidores estrangeiros queria ali construir uma barragem, tendo obtido a respetiva autorização do governo islandês. No entanto, o pai de Sigrídur opôs-se e esta decidiu caminhar descalça até Reykjavik (mais de 100 quilómetros) para protestar junto do Governo, e ameaçando cometer suicídio na própria cascata, caso o projeto fosse em frente. Acabou por ver os seus intentos satisfeitos, e Gullfoss permaneceu intacta até hoje, ganhando o estatuto de Reserva Natural em 1979. Desde essa data encontra-se em Gullfoss uma escultura de Sigrídur Tómasdóttir.

As cataratas de Gullfoss. A água corre profusamente em muitos pontos da Islândia.

Muito perto de Gullfoss fica o último ponto do Círculo Dourado – Haukadalur – uma vale geotérmico onde podemos ver vários geysers, um deles chamado propriamente Geysir, do qual resultou a palavra “geyser” que atribuímos a este tipo de fenómeno geotérmico. Além dos geysers encontramos em Haukadalur fontes termais, lagos de lama fervente e fumarolas. A área envolvente é muito bonita devido à coloração das montanhas, a qual resulta dos elementos que, das profundezas da terra, são trazidos à superfície pela atividade geotérmica. É recomendável visitar Haukadalur no Inverno, quando a escassa luz do dia confere extraordinários tons de laranja e rosa ao vapor lançado no ar pelos geysers, que não se conseguem ver no Verão.

Da mesma forma, se se quiser observar plenamente as espetaculares auroras boreais, não se deve visitar a Islândia (ou outro país qualquer com território próximo do polo) durante o Verão. A melhor altura para vê-las é entre Setembro e Março. Aliás, todo o esplendor da natureza na Islândia fica mais patente durante o Inverno, quando a noite cobre mais de vinte horas do dia e a corrente quente do golfo ameniza os invernos islandeses. A única vantagem de visitar a Islândia durante o Verão, como foi o nosso caso, é a maior mobilidade que o tempo nesta estação permite, pois há muito mais estradas transitáveis, sem neve e sem gelo.

“Geysir” deriva do verbo islandês “geysa”, (que quer dizer “jorrar”) e deu origem à palavra inglesa “geyser”, a qual adotamos quando nos queremos referir a uma fonte de água termal que jorra periodicamente, como é o caso do verdadeiro geyser e também, por extensão, a jatos de água artificiais que por vezes vemos em certos locais das nossas vilas ou cidades.

Tivemos oportunidade de visitar ainda, agora na parte sudoeste da ilha, abaixo de Reykjavik, a reserva natural de Reykjanesfolkvangur, o lago de Kleifarvatn, alimentado por água que vem diretamente do subsolo, e o campo geotérmico de Krysuvik. Não muito longe fica a Lagoa Azul, uma zona termal muito famosa, assim chamada por causa da forma como a sílica (dióxido de silício), o elemento mais presente na lagoa, reflete a luz visível. Este composto mineral (silício e oxigénio) fica suspenso na água e reflete apenas os comprimentos de onda azuis da luz; as restantes cores são absorvidas, e é por isso que a lagoa é azul. É bastante curioso que esta lagoa se formou a partir das águas de escoamento de uma das cinco fábricas geotérmicas do país. Os engenheiros pensavam que a água vazaria pela lava e voltaria aos aquíferos vulcânicos da terra; porém, devido à alta concentração de sílica, a drenagem esperada não ocorreu e antes um belo volume de água tomou forma.

Lagoa Azul.

A partir dos anos oitenta do século passado, os habitantes locais começaram a banhar-se nas águas da lagoa, cuja temperatura era mais que agradável (37º-39º). Pouco depois foram descobertas propriedades terapêuticas na lagoa e esta transformou-se num foco de intensa pesquisa científica, dando origem, em 1992, à Blue Lagoon Limited, uma empresa dedicada à pesquisa dos elementos primários da sua água: sílica, algas e minerais. Em 1995 comprovaram-se os benefícios para a saúde das águas da lagoa, o que impulsionou a inauguração, em 1999, de um moderno spa e, em 2005, de um hotel-clínica para o tratamento da psoríase. Finalmente, em 2018, a BLL inaugurou um luxuoso resort geotérmico, que integra um hotel de luxo, um spa subterrâneo e um restaurante temático, onde se reinventa a tradição culinária da Islândia.

A energia geotérmica começou a ser utilizada em larga escala a partir dos anos setenta do século XX e é muito importante para os islandeses, pois 95% das suas casas são alimentadas por este tipo de energia. O vapor e a água dos vulcões são canalizados para as fábricas e estas produzem a eletricidade e a água quente que a comunidade necessita.

Tivemos ainda tempo, durante a nossa estadia nesta bela ilha, de visitar duas pequenas e simpáticas cidades do norte – Isafjordur e Akureyri. Esta, com menos de 20 mil habitantes, é a sede do quarto município mais populoso da Islândia e é considerada a “capital do norte”. São cidades setentrionais, ambas rodeadas de montanhas nevadas, onde a vida é muito diversa daquela que observamos nas típicas cidades europeias.

Junto ao Museu Marítimo de Isafjordur.

Isafjordur percorre-se a pé de uma ponta à outra em menos de meia-hora. Aqui as principais atrações são a Casa de Cultura, o pequeno porto de pesca, as simpáticas casas de madeira (no parapeito de janela de uma delas vimos um pequeno galo de Barcelos!) e o Museu Marítimo, assim designado nos livros de viagens, mas cujo nome verdadeiro (em inglês) é Westjjords Heritage Museum. Este museu oferece uma visão única da rica história marítima e da cultura desta região.

Já em Akureyri, há mais para ver, uma vez que esta cidade, apesar de pequena, é muito maior que Isafjordur; é mesmo a maior cidade fora do sudoeste finlandês. Aqui podemos visitar, entre outros, o Museu de História Natural, o belo e singular jardim botânico, a igreja luterana que, situada no topo de uma colina, domina todo o burgo, o bairro antigo, a casa do escritor de literatura infantil Jón Sveinsson e o centro da cidade, com o seu comércio, onde sempre se pode comprar algum souvenir. Nós comprámos um livro (traduzido para inglês) do grande escritor islandês Halldór Laxness – World Light.

No jardim botânico de Akureyri.

“Luz do Mundo”, um título que poderia ser o da nossa viagem. Enquanto aqui estivemos não vimos noite verdadeira. E, ao contrário do que geralmente se pensa, no Inverno não ocorre o oposto. Em dezembro ou janeiro, há realmente poucas horas de luz natural e o sol, tal como no Verão, demora imenso tempo a desaparecer no horizonte. Mas o grau de escuridão durante o Inverno depende muito da neve que cobre as superfícies. A neve reflete a luz e amplifica-a. E neve é algo que não falta por aqui.

Regressámos da Islândia com a cabeça cheia de recordações futuras. Sim, estas ilhas são mesmo inesquecíveis.

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Contactos importantes para quem viaja na Islândia:

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Fontes:

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A Riqueza das Nações

Adam Smith não foi apenas um economista. Entre outras matérias, escreveu e ensinou sobre Física, Astronomia, Metafísica, Ética, Lógica e Literatura. O saber de Smith era, pois, enciclopédico. Isso ressalta da Riqueza das Nações, uma obra monumental e de referência, hoje clássica, no seio do conhecimento económico. Dada a sua dimensão, é dividida, desde a edição original de 1776, em dois volumes, com um título descritivo e amplo, bem ao gosto da época: Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. O conteúdo faz jus ao título. Smith descreve amplamente os sistemas de organização de diferentes sociedades em diferentes épocas, desde os egípcios, gregos e romanos até aos reinos e repúblicas da sua época, incluindo quase meia centena de referências a Portugal, a maioria destas não muito elogiosa1.

Claro que muitas das ideias de Smith estão ultrapassadas pelos quase 250 anos que entretanto passaram. Muita coisa mudou. As questões comerciais, cambiais, financeiras, demográficas, económicas, sociais e políticas são substancialmente diferentes. E há problemas novos que naquela época nem sequer se imaginavam, como as questões ambientais. Apesar disso, há princípios económicos que se podem deduzir da Riqueza das Nações que não são anacrónicos, pelo contrário, mantêm-se atualíssimos. O principal resulta, sem dúvida, da excessiva intervenção do Estado nas atividades económicas, que deveriam decorrer tão livremente quanto possível entre os cidadãos. Excessiva intervenção que se revela em impostos elevados (que servem para cobrir a ineficiência dos governos), fixação de salários e preços, monopólios2, protecionismo e, sobretudo, numa administração tendenciosa da justiça, protegendo os mais fortes (os que estão próximos do poder), não permitindo que os empreendedores mais humildes criem riqueza e, assim, elevem o nível social de toda a população.

Mas o trabalho de Mr. Smith também é importante porque, além de estabelecer o princípio da liberdade económica, ele foi o primeiro a sistematizar a economia, sendo por isso ainda hoje considerado por muitos o fundador desta disciplina. A Riqueza das Nações acolhe, nos seus dois volumes, cinco “livros”, que correspondem às grandes áreas da economia. O primeiro trata do trabalho, da produção e da distribuição da riqueza; o segundo do capital, sua natureza, acumulação e utilização; o terceiro compara os desenvolvimentos económicos das diferentes nações, numa perspetiva histórica3; o quarto versa sobre os diferentes sistemas de economia política; e o quinto, e último, livro trata das formas como o Estado se financia para prestar os serviços necessários ao bom funcionamento da sociedade. Tudo isto exposto de forma elegante, clara, simples, sem adornos desnecessários. Esta é uma obra pragmática, centrada nos resultados e não nas intenções, fortemente radicada numa moral4, mas sem moralismos ou ideologia.

O liberalismo de Smith está bem expresso na citação seguinte, que, provavelmente, melhor do que qualquer outra, poderá sintetizar o seu paradigma económico: O esforço natural de cada indivíduo para melhorar a sua própria condição, quando lhe é permitido exercê-lo com liberdade e segurança, é um princípio tão poderoso que, só por si e sem qualquer outro contributo, é não só capaz de criar a riqueza e prosperidade de uma sociedade, como ainda de vencer um grande número de obstáculos com que a insensatez das leis humanas tanta vez cumula as suas ações.5 Por outro lado, a sua preocupação com os gastos do Estado é igualmente bastante clara, uma vez que resolver os problemas do momento é sempre a ideia principal daqueles que estão ligados à administração dos negócios públicos, deixando sempre para as gerações vindouras o cuidado de saldar a dívida pública. 6

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A nossa edição: Riqueza das Nações, Adam Smith, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1981.

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Notas:

1 Adam Smith faz um retrato negro de Portugal: vida terrível das classes mais desfavorecidas, com pagamento de dízimo aos frades mendicantes, sob pena de quem não o fizer ser considerado pecador; clero como grande proprietário de terras; monopólios no comércio com as colónias, o que faz elevar os preços e os lucros dos mercadores protegidos, enquanto a maioria da população perde poder de compra; protecionismo, com demasiados impostos sobre os produtos importados, fazendo que os produtos nacionais se desvalorizem; e, sobretudo, “administração irregular e parcial da justiça, que muitas vezes protege o devedor rico e poderoso da perseguição do seu prejudicado credor e que faz com que a parte industriosa da nação tema preparar bens para o consumo desses grandes e arrogantes homens a quem não ousam recusar a venda a crédito e de quem não têm qualquer segurança em relação a pagamento” (Ob. cit., vol. II, p. 171).

2 “Um monopólio contribui necessariamente para manter a taxa de lucro em todos os ramos do comércio acima do que naturalmente seria se todas as nações possuíssem um comércio livre” (ob. cit., vol. II, p. 154).

3 Como já foi dito, Adam Smith era muito mais que um economista. Além de todas as disciplinas, mencionadas neste artigo, em que era versado, ele era ainda um grande conhecedor da história universal.

4 Sem dúvida que por toda a obra perpassam os princípios da equidade, da humanidade e da justiça.

5 Ob. cit., vol. II, p. 68.

6 Ob. cit., vol. II, p. 633.

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Foto retirada de: https://www.institutoliberal.org.br

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Dublin e Belfast

O bonito parque de Santo Estevão, em Dublin.

Ficam ambas na mesma ilha e são as capitais de dois países diferentes. A primeira é a capital da República da Irlanda e a segunda é a capital da Irlanda do Norte, um país integrante do Reino Unido, liderado pela Inglaterra. A emancipação da Irlanda foi um processo longo que se iniciou com a luta armada, passou pelo tratado anglo-irlandês de 1922, o Estatuto de Westminster de 1931, a nova Constituição de 1937, e culminou com a criação da República da Irlanda, em 1949. Porém, parte da província do Ulster foi separada da República da Irlanda, mantendo-se no Reino Unido: assim nasceu a Irlanda do Norte.

Passando sobre o rio Lagan, em Belfast.

Talvez não faça muito sentido, à primeira vista, a separação da Irlanda. Mas todos sabemos como as vicissitudes políticas se sobrepõem tantas vezes ao que seria expectável. Muitos territórios têm uma história comum durante séculos e, depois, por razões variadas, separam-se. Foi o que aconteceu à Irlanda, um território ocupado pelos celtas, ainda em 1600 antes de Cristo, não admirando por isso que a cultura celta esteja tão arraigada no povo irlandês. Muito mais tarde, já no século IX da nossa era, os vikings, que foram o primeiro povo europeu a navegar para outros continentes, invadiram grande parte da Grã-Bretanha, incluindo a Irlanda, tendo aqui permanecido durante mais de dois séculos.

O mural a Bobby Sands, na zona ocidental de Belfast.

Em finais do século X e inícios do século XI, Brian Boru, um rei irlandês do sul da ilha, unificou o país e derrotou os vikings na batalha de Clontarf, em 23 de abril de 1014, apesar de ele próprio ter sucumbido na batalha. Nesta altura já muitos vikings se teriam integrado na sociedade irlandesa, alguns deles fazendo parte do exército de Brian, o grande herói irlandês. Seguiu-se o domínio inglês e britânico sobre a Irlanda iniciado no século XII, com as primeiras incursões de mercenários normandos, que se estenderia por mais de sete séculos, nunca conseguindo diluir, apesar da longa ocupação, a identidade irlandesa. Uma das facetas mais conhecidas dessa identidade, que contrasta fortemente com os britânicos, é o catolicismo irlandês, introduzido ainda no século V, ironicamente, por um cristão britânico, São Patrício. As tentativas de introduzir o protestantismo na Irlanda, a partir do século XVI, gorar-se-iam e iriam desembocar numa série de conflitos, alguns dos quais violentos, que se prolongariam até hoje, sobretudo na Irlanda do Norte. Pudemos observar inúmeros sinais desses conflitos em Belfast, durante o nosso passeio pelos bairros católicos, na zona oeste da cidade.

A ponte Samuel Beckett. em Dublin, foi desenhada por Santiago Calatrava, que se inspirou na harpa celta, símbolo irlandês.

Desde logo, os chamados “muros da paz”, cujos portões estão abertos durante o dia e fechados à noite. Depois, os inúmeros murais, sobretudo católicos, com retratos das figuras emblemáticas da luta levada a cabo contra o domínio inglês. Tal como em Jerusalém, aqui sente-se uma tensão no ar. Isso faz de Belfast uma cidade muito diferente de Dublin. Dublin é festiva, cosmopolita, populosa; Belfast é sorumbática, segregadora, triste. Caminhamos por Belfast e, excetuando o núcleo central da cidade, raramente nos cruzamos com alguém. A zona católica é hoje um local aonde os turistas são levados, em táxis ou carrinhas, para fotografarem os murais e para que os guias turísticos lhes expliquem como as batalhas entre católicos e protestantes se desenrolaram. Percorremos toda esta zona a pé, e sentimos o peso do lugar. Sem dúvida que depois de uma visita a Belfast, embora se possa circular por muitos lugares, esta zona da cidade é aquela que ficará gravada na nossa memória.

James Joyce no interior do Temple Bar.

Em Dublin é diferente. Podemos deliciar-nos a deambular pela cidade e ver sempre coisas interessantes e novas. O rio Liffey divide a cidade. Subir por uma margem e descer por outra acaba por ser um belo passeio que podemos realizar numa parte do dia. As pontes sobre o Liffey são diversificadas e interessantes e à noite, iluminadas, têm outro charme. Os parques da cidade são também muito bonitos, sendo que o mais famoso é, sem dúvida, o de Santo Estevão, onde já se rodaram cenas de vários filmes. Muito perto, encontra-se o Merrion Square, um pequeno parque que num dos cantos tem uma estátua de um dos mais conhecidos escritores irlandeses, Oscar Wilde. Nessa zona, mesmo ao lado, pudemos visitar dois museus: o Museu Nacional de História Natural da Irlanda e o Museu Nacional de Arqueologia da Irlanda. Algo que também é recomendável visitar nesta zona é, sem dúvida, o Trinity College. A visita é conduzida por um estudante, muitas vezes estrangeiro, que nos dá a conhecer os edifícios e história desta universidade, fundada em 1592, sendo que um dos pontos mais interessantes é a gigantesca biblioteca, uma atração para visitantes de todo o mundo.

A fantástica biblioteca do Trinity College.

Depois, claro, temos os bares, sempre animados, sempre com muita música. Entre eles, o Temple Bar é provavelmente o mais concorrido, repleto de gente, quer no interior, quer mesmo na rua. Esta zona, na margem do sul do Liffey, chama-se precisamente Temple Bar e é muito, mas mesmo muito animada, sobretudo à noite. Abundam os bares, restaurantes, pubs, galerias e centros culturais. É um local que os turistas inevitavelmente visitam e, claro, nós não pudemos fugir à regra. Do outro lado do rio há também muita animação. A larga avenida O’ Connell, perpendicular ao rio, é a mais comercial e diversificada de Dublin, sempre com pessoas a circular para lá e para cá. É aí que ficam alguns interessantes monumentos, entre eles a estátua de James Joyce (na esquina com a Earl Street North). Monumentos são realmente o que não falta em Dublin. Destacamos, ainda na margem norte, a Central de Correios, de 1818, o edifício da Alfândega, de 1791, e o monumento a O’ Connell, de 1882. Estes são os locais que destacamos dos três dias que passámos em Dublin e do dia em que, de comboio, nos deslocámos a Belfast.

O bar mais pequeno de Dublin.

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Porque dormimos?

Matthew Walker fotografado no seu laboratório do sono. Foto de Saroyan Hamphrey.

Podemos pensar que uma ou duas noites mal dormidas não causam grandes problemas, até porque no fim de semana podemos dormir mais tempo e colocar o sono em dia. Puro engano. Os danos no cérebro e no corpo que a privação do sono provoca não são reparáveis com noites em que durmamos mais para compensar o sono perdido. Pelo contrário, o déficit de sono nunca é recuperável, apenas acumulável. Assim, se dormirmos regularmente menos de sete horas por noite, os danos físicos e mentais, mais cedo ou mais tarde, acabarão por surgir1.

Que tipo de danos? Bom, praticamente todos. As doenças mentais causadas pela falta de sono vão desde a esquizofrenia à doença de Alzheimer, passando pela depressão, o distúrbio bipolar, a ansiedade e o suicídio; e as doenças fisiológicas provocadas pela carência de sono passam, entre outras patologias, pelo cancro, a diabetes, os ataques cardíacos, a infertilidade, a obesidade e a imunodeficiência. Pode parecer exagerado, mas não é: estas conclusões são sustentadas por décadas da melhor investigação científica e têm por base um incontável número de experiências, levadas a cabo um pouco por todo o mundo2. De resto, o livro que aqui analisamos, Porque Dormimos?, é fruto de uma longa investigação (de mais de vinte anos) do seu autor, Matthew Walker.

1- Sono, o enigma desvendado

Até há muito pouco tempo, ninguém sabia exatamente porque dormimos. O assunto era demasiado controverso. Um dos problemas é que se procurava uma função única, um “cálice sagrado” que todos queriam encontrar. As teorias eram diversificadas: o sono é um período em que o corpo conserva energia; dormir é uma oportunidade para oxigenar os globos oculares; dormir é um estado não consciente em que realizamos os desejos reprimidos quando estamos acordados… e havia também quem dissesse o que parecia mais óbvio: dormimos para descansar. Mas, afinal, essa resposta não era assim tão óbvia, pois isso implicaria que um lenhador precisasse de muito mais tempo de sono que um empregado de escritório ou um reformado, o que não é o caso.

Nas últimas duas décadas, porém, as neurociências tiveram um desenvolvimento incrível e contribuíram de forma decisiva para tornar essas e outras respostas obsoletas. O sono é infinitamente mais complexo, relevante e interessante do que se pensava. Sobretudo, é vital: o que quer dizer que a sua carência acarreta graves prejuízos para a saúde. Estas descobertas foram possíveis graças a equipamentos que vieram permitir a realização de ressonâncias magnéticas e tomografias, as quais juntamente com o uso de elétrodos3, tornaram possível detetar as regiões do cérebro que estão (ou não) mais activas4 em determinado momento. Por outro lado, a montagem de laboratórios do sono em universidades e centros de investigação proporcionaram o desenvolvimento de estudos sobre os efeitos, no corpo e na mente, provocados pela privação do sono, a maior parte das vezes comparando os resultados obtidos por um grupo de pessoas que dorme normalmente com os de outro grupo de pessoas privadas de um sono completo5.

E não restam dúvidas: dormimos porque dormir é tão vital como comer, beber ou respirar. De acordo com a mais recente investigação, o sono é “a atividade mais eficaz que podemos levar a cabo para repor diariamente a saúde do nosso cérebro e do nosso corpo – até ao momento é o melhor esforço da Mãe Natureza para contrariar a morte”6. Ou seja, para a ciência atual, a questão já não é a de se saber para que é que o sono é benéfico. Em vez disso, a pergunta que se faz é se existirá alguma função biológica que não beneficie de uma boa noite de sono. E a resposta que milhares de estudos já realizados nos dão é: não, não existe. Por outro lado, todas as patologias são agravadas e muitas causadas pela falta de sono.

2 – O que nos leva a dormir ou ter dificuldade em fazê-lo

Há dois fatores paralelos que, combinados, determinam os períodos do dia em que nos sentimos mais despertos ou sonolentos: o ritmo circadiano (Processo-C) e a pressão do sono (Processo-S), esta determinada pela acumulação de um químico no cérebro chamado adenosina7. Quando o ritmo circadiano está alto e o nível de adenosina baixo (por exemplo, de manhã), sentimos um agradável estado de vigília plena, e estamos prontos para enfrentar as vicissitudes do dia; pelo contrário, quando chega a noite, depois de estarmos 15 horas acordados, o nosso cérebro está inundado com altas concentrações de adenosina, enquanto o ritmo circadiano está a diminuir, baixando os níveis de atividade e alerta. São, portanto, estes os fatores naturais que nos induzem à vigília ou ao sono. Qualquer perturbação num destes (ou em ambos os) processos é prejudicial para o nosso sono e para a nossa saúde.

Além destes processos, há ainda outra substância, uma hormona, que dá o “tiro de partida” para o sono – a melatonina. Esta hormona, libertada por uma glândula situada algures nas profundezas da parte de trás do cérebro chamada pineal, sob ordens do núcleo supraquiasmático (ver nota 9), é libertada na corrente sanguínea enviando uma mensagem clara ao cérebro e ao corpo, “está escuro! está escuro!”, assinalando assim a hora de dormirmos. Após começarmos a dormir, a concentração de melatonina vai diminuindo até se desligar completamente quando a luz do dia emerge da noite. A ausência de melatonina informa o nosso corpo de que o sono foi cumprido e é tempo de vigília. Depois, com o anoitecer, os níveis de melatonina começam a subir até atingirem o pico, iniciando-se assim um novo ciclo.

De salientar que o ritmo circadiano8 não regula apenas os horários do sono, mas também os de comer, beber, as emoções, a quantidade de urina que o corpo produz, a temperatura interior do corpo, o metabolismo e, entre outros, a libertação de inúmeras hormonas. Os ritmos circadianos são variáveis entre espécies mas também entre indivíduos9. No que diz respeito ao sono, há três tipos de pessoas, cada uma com o seu cronotipo, de acordo com os diferentes ritmos circadianos: o “tipo matutino” (constituído pelos indivíduos que despertam mais cedo de manhã e se sentem sonolentas não muito depois do início da noite) que engloba cerca de 40% da população; o “tipo vespertino” (constituído por pessoas que adormecem mais tarde e, logo, acordam mais tarde também) que inclui cerca de 30% da população; e um tipo intermédio, algures entre os dois primeiros, com ligeira inclinação para a vivência noturna, que engloba os restantes 30%.

Há sobretudo duas substâncias que, por serem mais comuns, prejudicam o sono. A cafeína e o álcool. A cafeína bloqueia e desativa os recetores da adenosina, bloqueando, assim, o sinais de sonolência que esta envia para o cérebro. Os efeitos da cafeína começam a sentir-se cerca de meia-hora depois de bebermos um café, por exemplo, mas a sua característica mais problemática é o prolongamento desses efeitos no tempo, em qualquer caso, de várias horas. De facto, a eliminação da cafeína do organismo depende de uma enzima produzida pelo fígado, muito diferenciada entre indivíduos, por fatores genéticos. Assim, há pessoas cuja enzima é mais eficaz a eliminar a cafeína, mas a maioria demora mais de sete horas a eliminá-la da corrente sanguínea. Isso quer dizer que a grande maioria das pessoas que bebem café depois do jantar vai certamente ter dificuldades em adormecer. Já o álcool produz um efeito igualmente nocivo, mas muito mais enganador10. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o álcool não ajuda a adormecer mais depressa e nem sequer proporciona um sono mais profundo. O álcool fragmenta o sono e provoca breves momentos de despertar, embora a pessoa não se aperceba disso. O fígado e os rins demoram horas a degradar e excretar o álcool, de modo que o consumo de bebidas alcoólicas à noite irá inevitavelmente prejudicar o sono.

Para além da cafeína e do álcool (e também outras drogas e o tabaco), outros fatores externos que conflituam com o sono são a iluminação excessiva, sobretudo as luzes LED11, as temperaturas elevadas e os horários prematuros de iniciar as aulas e de pegar ao trabalho. Entrar no trabalho ou na escola às oito da manhã (e às vezes mais cedo) priva milhões de pessoas de dormirem o suficiente, sobretudo os “vespertinos” que, naturalmente, são impelidos a ir para a cama mais tarde. Os prejuízos na saúde das pessoas, e os custos para a sociedade e as empresas, são incalculáveis. É por isso que a fixação de horários diversificados seria uma medida que, além de simples, traria um impacto extremamente positivo, tanto maior quanto mais alargado. Mas existem fatores internos que também prejudicam o sono. Distúrbios psicológicos como a ansiedade e a depressão, entre outros, podem condicionar o sono. Mais grave é quando a falta de sono e esses distúrbios se auto-alimentam, criando um círculo vicioso difícil de quebrar. A solução, de acordo com Walker, não passa pela tomada de comprimidos para dormir, uma vez que estes não nos induzem a dormir naturalmente (impedindo-nos por isso de receber os benefícios do sono), antes funcionam como sedativos e podem mesmo provocar a morte. Mais à frente aludiremos ao que Walker propõe para dormirmos melhor.

3- A ciência do sono

Pode dizer-se que a moderna ciência do sono começou em 1952, quando o professor da Universidade de Chicago Nathamiel Kleitman e o seu aluno Eugene Aserinsky descobriram que temos dois tipos de sono diferentes: NREM e REM12. O primeiro, predominante num primeiro ciclo de sono e o segundo nos últimos ciclos (são considerados cinco ciclos de sono sensivelmente de hora e meia cada, num sono normal de entre sete a oito horas). O sono NREM, quando não existem movimentos rápidos dos olhos, produz ondas cerebrais mais lentas e longas, enquanto o sono REM, quando o movimento ocular é rápido e acompanhado de sonhos, produz ondas cerebrais curtas e rápidas, muito semelhantes às emitidas quando estamos acordados. Ambos os tipos de sono são indispensáveis para a nossa saúde física e mental.

Quando começaram a medir as ondas lentas do sono NREM, nas décadas de 1950 e 1960, os cientistas consideraram que o cérebro estaria ocioso ou até adormecido nesses momentos. Mas isto estava profundamente errado. As ondas cerebrais do sono NREM espalham-se harmoniosamente desde o meio do cérebro, no tálamo, bloqueando a transferência da perceção de sinais exteriores, até ao cimo do cérebro, o córtex. A perda da sensação de consciência explica porque não sonhamos durante o sono NREM e faz com que o córtex descanse, entrando no modo de funcionamento por defeito. É então que as memórias de curto prazo são transportadas do seu local de armazenamento provisório, o hipocampo, para outro mais seguro, o neocórtex. Isto não acontece apenas nos humanos, mas também nos chimpanzés, orangotangos, bonobos, gatos, ratinhos e até nos insetos. Está provado também que o sono NREM, sobretudo na fase 2, melhora as capacidades motoras, daí ser muito importante nas crianças e nos desportistas, entre outros.

É também muito importante perceber o que acontece quando o sono NREM é prejudicado nos indivíduos mais velhos, o que, infelizmente, acontece com grande frequência. Isto tem implicações graves na memória destas pessoas, e está diretamente relacionado com a doença de Alzheimer.13 Finalmente, outro aspeto a ter em conta quanto ao sono NREM é que este atua como calmante, permitindo que o ramo de luta ou fuga do sistema simpático se acalme, diminuindo o risco de pressão alta e a ocorrência de apoplexias. Um bom sono NREM é, portanto, vital.

Sono REMSono NREM
Ondas cerebrais com frequência rápida e caótica.Ondas cerebrais com frequência lenta e sincronizada.
Ondas produzidas em quatro aglomerações distintas do cérebro. Ondas produzidas no centro dos lobos frontais.
Ondas tipo rádio FM.Ondas tipo rádio AM .
Entrada sensorial do tálamo aberta.Entrada sensorial do tálamo fechada.
Corpo totalmente paralisado (atonia).Corpo não-totalmente paralisado.
Com sonhos.Sem sonhos.
Indivíduos com potencial criativo elevado se acordados neste período.Indivíduos pouco ou nada criativos se acordados neste período.
Sem episódios de sonambulismo.Possibilidade de episódios de sonambulismo.
Pouco sensível à temperatura, ao exercício físico e à alimentação.Sensível à temperatura, ao exercício físico e à alimentação.
Diferenças entre os sonos REM e NREM.

Como se pode verificar pelo quadro acima, o sono REM tem características bastante diferentes do sono NREM. Desde logo as ondas produzidas pelo cérebro durante o sono REM, de frequência curta e rápida, são mais semelhantes ao estádio de vigília do que ao período de sono NREM. É por isso que o sono REM é muitas vezes chamado de “sono paradoxal”: um cérebro que parece estar acordado (com partes 30% mais ativas do que no estado de vigília) e um corpo claramente adormecido. Durante o sono REM o corpo perde completamente a tonacidade e os músculos pura e simplesmente paralisam, transformando-nos em prisioneiros dentro do próprio corpo. Isto acontece para que possamos sonhar à vontade. Seria muito perigoso se durante alguns sonhos extremamente movimentados nós próprios nos pudéssemos mover. Assim, a Natureza, através do processo evolutivo, resolveu o assunto obrigando-nos à imobilidade durante os períodos de sono REM.

O sono REM é um estado caracterizado por uma forte ativação nas regiões visuais, motoras, emotivas e autobiográficas do cérebro, e por uma desativação relativa nas regiões que controlam o pensamento racional. Uma questão particularmente importante do sono REM está relacionada com os sonhos, uma vez que só neste modo de sono podemos sonhar. Calcula-se que entre 35% a 55% das preocupações e emoções que experimentamos durante o dia reapareçam à noite quando sonhamos.14 A princípio pensou-se que os sonhos fossem um sub-produto do sono REM, mas posteriormente descobriu-se que os sonhos têm uma função própria. Ou melhor, duas.

A primeira tem que ver com a nossa saúde mental e emocional. De facto, os sonhos fazem um trabalho de terapia noturna: quando sonhamos com experiências traumáticas ou dolorosas sentir-nos-emos mais aliviados e calmos quando voltarmos a recordá-las. Isto acontece porque a única altura das 24 horas do dia em que a concentração de um químico relacionado com o stress, a noradrenalina, é completamente desligado no interior do cérebro, é durante o sono REM.15 A segunda tem a ver com a nossa apetência para a interpretação de expressões faciais, a resolução de problemas e a criatividade.

As áreas do nosso cérebro dedicadas à descodificação dos sinais que nos chegam das expressões faciais são as áreas que o sono REM equilibra durante a noite para que possam estar operacionais na manhã seguinte. Experiências com pessoas privadas de sono REM mostraram que estas tiveram dificuldades em ler expressões faciais, vivenciando um mundo adverso e ameaçador que não correspondia à realidade.16 Finalmente, a função mais extraordinária dos sonhos é a de ampliar a criatividade. Quando sonhamos, o nosso cérebro reúne vastos segmentos dos conhecimentos adquiridos, misturando-os de forma inspirada e, enveredando por atalhos, descobre soluções para problemas anteriormente impenetráveis. É por isso que quando acordamos após um sonho temos uma maior probabilidade de criar peças artísticas valorosas, como poemas ou canções, e maior apetência para resolver problemas, como anagramas. Os exemplos são vastos e variáveis, muitos deles famosos: Mendeleev viu a tabela periódica num sonho; Keith Richards compôs os acordes de “Satisfaction” durante o sono REM;17 Paul McCartney acordou com a melodia de “Yesterday” na cabeça. St. Paul Boux, um poeta surrealista francês, colocava na porta do quarto, antes de dormir, uma placa que dizia: “Não perturbar: poeta trabalhando.”

Esta ligação e mistura criativa de informações é o que distingue o nosso cérebro dos computadores. Os nossos “algoritmos” são diferentes e bem podemos falar de um “algoritmo do sonho”. As pessoas que sonham com um problema têm uma probabilidade muito maior de o resolver do que aquelas que não sonham. O cérebro durante o sonho conjuga a memória recente sobre um determinado assunto com outras antigas relacionadas com o mesmo assunto e ainda outras hipotéticas relações, proporcionando respostas altamente criativas, inacessíveis a quem não sonha.18

Tudo isto nos conduz a um grave problema: tendo em conta 1) que os nossos adolescentes acordam cada vez mais cedo para irem para a escola, 2) que o ritmo circadiano na adolescência se adianta algumas horas e que 3) é no final do nosso sono que prevalece o sono REM com sonhos, estamos a privar os adolescentes das nossas sociedades da qualidade de vida que eles, não apenas enquanto adolescentes mas também na idade adulta, merecem. E porque se adianta o ritmo circadiano dos adolescentes algumas horas? A ciência não tem uma resposta inequívoca, mas Walker avança como uma hipótese a ter em conta: ao diferenciar os sonos dos adolescentes e dos pais, a Natureza está a incentivar a emancipação destes iminentes adultos.19

4- Como dormir melhor

No final do livro, Matthew Walker deixa-nos 12 dicas para melhorarmos o nosso sono, dizendo-nos que, se tivéssemos de escolher apenas uma delas, seria a primeira: manter um horário de sono regular. Além disso, devemos: evitar o álcool, a cafeína e a nicotina; fazer exercício físico, mas não a horas tardias; evitar grandes refeições e demasiadas bebidas à noite; evitar medicamentos que de alguma forma perturbem o sono; não fazer sestas depois das três da tarde; descontrair antes de ir para a cama e, se possível, tomar um banho quente e relaxante antes de dormir; escurecer o quarto e mantê-lo não demasiado quente; não ver televisão nem usar o computador ou o telemóvel antes de adormecer (é preferível ler um livro); evitar as luzes LED; manter uma exposição solar adequada, o que quer dizer que devemos receber bastante luz durante a manhã e expor-nos à luz natural durante, pelo menos, meia-hora durante o dia; desligar as luzes antes de ir para a cama; não ficar acordados na cama se não conseguirmos dormir: se nos mantivermos acordados durante mais de 20 minutos devemos levantar-nos e fazer qualquer coisa relaxante até sentir sono. A ansiedade por não conseguirmos dormir pode dificultar ainda mais o adormecer.

Finalmente, recordemos que uma vida com o sono em dia é sinal de uma vida saudável. Catástrofes como o desastre no reator nuclear de Chernobyl e o encalhe do petroleiro Exxon Valdez, entre tantos outros, foram provocados pela falta de sono.20 E, já agora, se algum dia (ou noite) sentir sono enquanto conduz, por favor, pare. A probabilidade de ter um acidente grave é elevadíssima.

Bom dia, boa noite, bom sono e bons sonhos!

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A nossa edição:

Matthew Walker, Porque Dormimos, Editora Desassossego, Lisboa, 2019, 1ª ed.

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Notas:

1Depois de dez dias de apenas sete horas de sono por noite, o cérebro fica tão disfuncional quanto estaria depois de 24 horas sem dormir.

2 A importância do sono é hoje reconhecida pela OMS que catalogou a falta de sono abrangente como um epidemia global. E o próprio Guiness Book retirou o recorde da privação do sono do seu livro de recordes, por reconhecer o seu caráter nocivo.

3 Os elétrodos registam sinais emitidos por três regiões distintas: a atividade das ondas cerebrais, a atividade dos movimentos oculares e a atividade muscular.

4 De realçar que o cérebro consome 20% da energia do nosso corpo, embora represente apenas 2% do seu peso total.

5É considerado “sono normal” um sono contínuo com duração entre 7,5 e 9 horas. Uma sesta com duração máxima de hora e meia e que termine antes das 15:00 horas, também é considerada normal e mesmo benéfica.

6Ob. cit., p. 18.

7Logo que acordamos a adenosina começa a acumular-se no cérebro. Quando atinge o seu ponto máximo, sentimos uma vontade irresistível de dormir. Na maior parte das pessoas isto acontece depois de estarem entre 12 a 16 horas acordadas.

8 “Circa” (em torno de) e “diam” (dia). Daí deriva o termo circadiano.

9 Foi possível determinar o ritmo circadiano humano através de experiências em que indivíduos foram privados da luz solar. A mais famosa foi realizada em 1938, quando o professor da Universidade de Chicago Nathaniel Kleitman e o seu assistente Bruce Richardson estiveram 32 dias mergulhados na escuridão profunda da Caverna Mammoth, no Kentucky, uma das mais profundas do planeta. Sabe-se hoje que o relógio circadiano de um humano adulto é de cerca de 24 horas e 15 minutos. São a luz solar e o núcleo supraquiasmático que ajustam o nosso relógio interior para as 24 horas do dia. “Quiasma” significa ponto de cruzamento, e o núcleo supraquiasmático situa-se mesmo por cima do ponto, no centro do cérebro, onde os nervos óticos, com origem nos globos oculares, se cruzam, “decidindo” quando queremos estar acordados ou a dormir.

10 O sono insuficiente durante a infância tem relação direta com o consumo de álcool e drogas na adolescência. “O álcool é um dos repressores mais poderosos do sono REM de que temos conhecimento” (ob. cit., p. 97).

11 Apesar de em 2014 Shuji Nakamura, Isamu Akasaki e Hiroshi Amano terem ganhado o Prémio Nobel da Física pela invenção da luz LED, devido à poupança de energia e à maior longevidade das lâmpadas LED, estas emitem luzes azuis de ondas curtas muito mais próximas da luz do dia do que as velhinhas lâmpadas incandescentes de luzes quentes e amarelas, perturbando assim o sono.

12 REM (Rapid Eye Movement); NREM (Non-rapid Eye Movement).

13 A doença de Alzheimer é provocada pela acumulação de uma proteína chamada beta-amiloide. A Drª Maiken Nedergaard, da Universidade de Rochester, descobriu uma espécie de “rede de esgoto”, a que chamaram sistema glinfático (constituído por células gliais espalhadas pelo cérebro), o qual, à semelhança do que o sistema linfático faz no corpo, limpa as substâncias nocivas do cérebro, nomeadamente os contaminantes metabólicos perigosos gerados pelo trabalho dos neurónios, entre eles a perigosa proteína beta-amiloide, bem como outra proteína denominada “tau” e moléculas de pressão, que se pensa serem a causa da Alzheimer. A carência de sono NREM faz com que essa limpeza não seja eficientemente realizada, provocando a acumulação dos contaminantes metabólicos. Margareth Thatcher e Ronald Reagan, que afirmavam dormir apenas 4 ou 5 horas por noite, contraíram a doença de Alzheimer… Alguém deveria avisar o nosso Presidente!

14 O professor da Universidade de Harvard, Robert Stickgold, chegou a esta conclusão após conceber uma experiência com 29 jovens adultos saudáveis, a quem pediu que registassem o que faziam durante o dia, bem como as suas preocupações emocionais. Pediu-lhes também que registassem os sonhos de que se lembrassem, obtendo, assim, 299 relatórios de sonhos ao longo de 14 dias.

15 O Dr. Murray Raskind, um médico especialista em PSPT (Perturbação de Stresse Pós-Traumático) e doença de Alzheimer, constatou que um medicamento chamado prozonina, que receitava para controlo da pressão arterial de alguns dos seus pacientes, também lhes aliviavam os pesadelos e sonhos dolorosos recorrentes devidos aos traumas de guerra. Veio a revelar-se que a prozonina tinha também o efeito de suprimir a noradrenalina no cérebro, permitindo que os pacientes dormissem mais tranquilamente.

16 Isto é bastante problemático para pessoas que nas suas atividades profissionais, como polícias e pessoal médico, frequentemente têm que avaliar as emoções transmitidas por expressões faciais de inúmeros indivíduos, avaliações em que o erro pode causar uma tragédia.

17 Keith costumava deitar-se com uma guitarra e um gravador ligado ao lado da cama. Numa manhã, quando acordou, sem se lembrar de nada, puxou a fita do gravador atrás e ouviu os primeiros acordes de “I Can Get No Satisfaction”.

18 Uma descoberta relativamente recente (2013) confirmou que há “sonhadores lúcidos”, ou seja, pessoas que conseguem controlar os próprios sonhos. Estes indivíduos representam quase 20% da população.

19 Durante a adolescência, o processo de desenvolvimento da arquitetura cerebral, com a ajuda do sono REM, já está completo. O objetivo agora já não é aumentar a escala, antes reduzi-la, e aqui quem tem o protagonismo é o sono NREM, ajudando na poda das ligações, e no desbaste sináptico que tipicamente acontece na adolescência.

20 Ob. cit., pp. 350-51.

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Foto retirada de:

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2017/sep/24/why-lack-of-sleep-health-worst-enemy-matthew-walker-why-we-sleep.

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Açores, grupo central.

Vento Leste não dá nada que preste.

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas.

O Pico visto da Calheta, em São Jorge.

As nove ilhas açorianas dividem-se em três grupos: oriental, central e ocidental. Enquanto cada um dos dois grupos mais afastados têm apenas duas ilhas, o grupo central é constituído por cinco ilhas: Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial[1]. Estas três últimas localizam-se muito perto uma das outras, pelo que é possível viajar entre elas através de travessias regulares, asseguradas por embarcações locais. Terceira e Graciosa ficam um pouco mais longe, ainda assim não tanto que não possam ser visitadas da mesma forma. É perfeitamente possível, portanto, incluir as cinco ilhas dentro de uma mesma viagem ao grupo central dos Açores. No nosso caso, viajámos entre Pico, São Jorge e Faial de barco, e entre Pico e Terceira de avião, antes do regresso a Lisboa, a partir de Angra do Heroísmo.

No primeiro dia da nossa viagem voámos de Lisboa para o Pico[2], onde ficámos instalados num alojamento local perto de São Roque. A melhor forma de percorrer as ilhas açorianas, sobretudo para quem não tenha muito tempo, é de carro. Foi o que fizemos em todas elas. O aluguer de automóveis é fácil e barato, e não envolve muita burocracia.

O azul do mar e o verde da terra: as cores dos Açores.

Todas as ilhas dos Açores são diferentes, embora todas tenham também coisas em comum, destacando-se, claro, a ligação à Natureza: o mar e os prados verdejantes. Ambos constituem as tradicionais fontes de rendimento dos açorianos, a que se vem juntando, até agora de forma sustentável, o turismo. É muito importante que o turismo cresça (pois ainda há espaço para crescer) sustentavelmente.

A ilha do Pico, a mais jovem dos Açores, tem uma característica interessante: é lá que fica a montanha que dá nome à ilha, a mais alta de Portugal, precisamente, o Pico. Muitas vezes coberto de nuvens cerradas, uma subida ao Pico não é recomendável sem acompanhamento, sobretudo no Inverno, quando o tempo se torna ainda mais instável. Era nossa intenção fazê-lo, mas tal não foi possível, porque o tempo não o permitiu. “Tempo” que é peculiar nos Açores. De facto, é normalíssimo encontrarmos um céu carregado de nuvens num dos lados de uma ilha e um céu limpo no lado oposto, a poucos quilómetros de distância. Verificámos isso numa viagem anterior a São Miguel e também nesta viagem, no Pico, no Faial, na Terceira e em São Jorge. A montanha do Pico pode cobrir-se totalmente de nuvens, ou apresentar um anel de nuvens no meio, deixando a base e o topo a descoberto, ou ficar com apenas o cume ou a base cobertos, ou outra qualquer alternativa: são poucos os dias completos do ano em que a montanha se encontra totalmente visível, do topo à base.

Feminina, em forma de seio, assim é a montanha mais alta de Portugal.

Outra atração da ilha do Pico são os currais, vinhas protegidas por muros de pedras. Estas vinhas são plantadas no chão de lava negra, fruto de erupções vulcânicas ocorridas no século XVIII, e a que o povo dá o nome de “mistérios”. Esses muros perfazem muitos milhares de quilómetros, há quem diga que os suficientes para circundarem o globo terrestre, e são testemunho da persistência das gentes do Pico. Os cachos pendurados nas frágeis videiras teimam em persistir também. O vinho do Pico é raro, especial, único, apropriado para acompanhar os peixes e frutos do mar da região, sobretudo o que resulta das castas brancas. O verdelho do Pico atingiu por mais de dois séculos fama internacional, chegando à mesa dos czares da Rússia. No século XIX, assistiu-se ao fim do “ciclo do verdelho”, tendo as vinhas sido devastadas pelos oídio e filoxera. É nesta época que muita gente da ilha emigra para o Brasil e a América do Norte. No século XX as vinhas foram recuperadas e, desde 2 de julho de 2004, a Paisagem da Cultura da Vinha do Pico foi elevada ao estatuto de Património Mundial pela UNESCO[3].

A flora primitiva e endémica do Pico é muito rica e rara, e algumas das espécies têm estatuto de proteção. A diversidade faunística e florística tem vindo a ser ampliada, com a introdução de novas espécies, sobretudo florestais. A zona oeste da ilha, onde predominam os terrenos de lava, é considerada uma zona privilegiada e única para o cultivo não apenas da vinha, mas também de árvores de frutos.

As vinhas e pomares do Pico são testemunhos da persistência das suas gentes, os picoenses, também conhecidos como picarotos.

As três principais localidades do Pico são Madalena, São Roque e Lajes, as duas primeiras com cais onde atracam navios que fazem ligações às outras ilhas do grupo. Lajes do Pico, no lado sul da ilha, onde o mar é mais calmo, fica junto a uma larga baía, e é uma vila muito bonita onde se come regiamente[4]. Foi a primeira localidade do Pico a ser habitada. Para cruzar a ilha de norte para sul, ou vice-versa, é necessário subir e descer o planalto central, o que proporciona vistas espectaculares sobre as encostas da ilha e o mar[5]. São Jorge e o Faial são vistos de vários pontos do Pico e parecem ali mesmo à mão. No entanto, as viagens de barco não são fáceis pois o mar, sobretudo no Inverno, pode ser tumultuoso e perigoso. São inúmeros os casos de naufrágio ocorridos nas travessias entre ilhas.

A vida marítima, sobretudo a faina da pesca, é largamente retratada na literatura açoriana, cuja tradição é injustamente desconhecida da maioria dos portugueses. A obra mais famosa de um escritor açoriano sobre os Açores é provavelmente Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, mas muitos outros romances e contos, de escritores desconhecidos do grande público, como Ernesto Rebelo, Tomás da Rosa ou Vasco Pereira da Costa, mereceriam a nossa atenção.

Uma das célebres fajãs dos Açores. Ao fundo, a ilha Graciosa. São Jorge tem mais de sessenta fajãs.

Dois dias depois de nos termos instalado no Pico, fomos visitar a ilha de São Jorge. Do cais de São Roque embarcámos no Gilberto Mariano[6] rumo à simpática vila de Velas, de onde partimos à descoberta da “Ilha Castanha”. Antes de embarcarmos pudemos testemunhar uma minúscula parte das dificuldades que as águas açorianas colocam às gentes do mar. Os marinheiros não conseguiam estabilizar a embarcação, pois a ondulação não o permitia, e só conseguimos entrar no navio a correr, num pequeno intervalo entre duas vagas. Muitas vezes, as carreiras são suspensas ou fica interditado o transporte de viaturas, não sendo possível levar o carro para outra ilha. Isso aconteceu connosco, pelo que tivemos de alugar um novo carro em São Jorge, coisa que fizemos também no Faial e na Terceira[7].

São Jorge é a ilha mais central dos Açores. Do Pico da Esperança, o ponto mais alto da cordilheira que atravessa longitudinalmente a ilha, é possível avistar todas as ilhas-irmãs do grupo central. Uma das atrações de São Jorge são as fajãs. Uma vez que são terrenos planos que entram pelo mar, proporcionam imagens lindíssimas quando vistas de cima por quem desce da cordilheira central. Entre outras, visitámos as fajãs dos Cubres e da Caldeira do Santo Cristo, bem como as piscinas naturais da Fajã das Pontas, na costa norte da ilha. Quanto às localidades, tal como no Pico, são três as principais: Velas, Calheta e Topo. Esta última foi a primeira a ser habitada e possui um pitoresco porto de pesca. Em Velas encontram-se belas igrejas, sobretudo a igreja de Santa Bárbara, construída no século XVIII, uma das mais bonitas igrejas açorianas, classificada como Monumento Nacional, e na Calheta vale a pena visitar as piscinas naturais. São Jorge é um paraíso para os amantes dos desportos náuticos. Quem goste de um bom banho de mar pode desfrutar, além das piscinas naturais, de praias de calhau rolado em vários pontos da ilha.

Nos prados dos Açores pasta o melhor gado bovino do país. O queijo de vaca da ilha de São Jorge é de qualidade superior, sobretudo o de cura prolongada, de cerca de dois anos.

Na volta de São Jorge, devido ao estado do mar, o Gilberto Mariano não pode atracar em São Roque do Pico. Desembarcámos na Madalena e daí um táxi pago pela empresa de transporte marítimo levou-nos a São Roque, onde tínhamos o carro. No dia seguinte regressaríamos a Madalena para mais uma viagem de barco, desta feita até à cidade da Horta. O Faial é uma ilha pequena (quando comparada com as vizinhas Pico e São Jorge), quase redonda, que se circunda percorrendo poucos quilómetros de carro. Para a atingirmos, de barco, temos de atravessar o célebre canal do Faial. São incontáveis as histórias sobre incidentes que ocorreram ao longo do tempo nesta travessia. Pudemos sentir a força do mar, as correntes cruzadas, o vento agreste. Imagine-se quando isto era feito à vela!

Na Horta, elevada a cidade em 1833 como reconhecimento à sua adesão à causa liberal, tomámos um carro alugado e iniciámos a nossa visita ao Faial. A nossa primeira paragem foi na Caldeira, uma cratera com cerca de 2 km de diâmetro e 400 metros de profundidade, bem no centro da ilha. A área circundante, onde imperam as hortênsias azuis[8] e se destacam cedros, zimbros, faias, fetos e musgos, está classificada com Reserva Natural[9]. Um estreito caminho, protegido por uma cerca, contorna a cratera, proporcionando vistas incríveis sobre o mar, o Pico e as encostas verdejantes do Faial.

Encosta sudeste da Ilha Azul, o célebre Canal do Faial e a Ilha do Pico.

Descendo pelo mesmo caminho, chegámos à estrada que circunda a ilha, iniciando esse circuito no sentido contrário aos do ponteiro do relógio. Passámos por várias localidades, entre as quais, Praia de Almoxarife, Ribeirinha, Salão, Cedros e Praia do Norte, até atingirmos os Capelinhos, onde visitámos o farol e o Centro de Interpretação. A história do vulcão dos Capelinhos é famosa. As erupções começaram em setembro de 1957, a cerca de 1 km da costa, sob o mar, e duraram mais de um ano, até outubro de 1958. O material expelido formou uma pequena ilha que mais tarde, através de um istmo, se uniu ao Faial, que viu, assim, a sua área aumentada em 2,4 km 2. A população, aterrorizada, com muitas casas e culturas arrasadas, emigrou em larga escala para a América, deixando a ilha com menos de metade da população[10]. No Centro de Interpretação pudemos observar uma excelente exposição sobre a formação das nove ilhas açorianas, todas de origem vulcânica, todas “plantadas a meio do Atlântico, nos instáveis limites de diversas placas tectónicas e a curta distância da dorsal médio-atlântica”[11].

O material expelido por um vulcão sub-aquático formou os atuais Capelinhos.

O atual território dos Açores, a cerca de 760 milhas náuticas de Lisboa e de 2110 de Nova Iorque, faz parte de uma vasta plataforma oceânica situada entre as placas norte-americana (a oeste), euro-asiática (a nordeste) e africana ou núbia (a sul), a denominada Microplaca dos Açores, cujas zonas mais elevadas correspondem às nove ilhas e ilhéus a elas associados. Essa microplaca terá sido formada há uns “meros” 60 milhões de anos.

A nossa viagem em torno da ilha continuou sem mais paragens em direção à cidade da Horta, passando por Castelo Branco, Feteira e Flamengos. Nesta última localidade se instalaram, no século XV, um grupo de flamengos comandados por Josse Van Huerter[12]. Depois do almoço na Horta, dedicámos algum tempo a deambular por esta bonita cidade. Destacam-se as igrejas de Nossa Senhora do Carmo, de São Francisco, de São Salvador e o porto da Horta, escala para inúmeras embarcações que cruzam o Atlântico, e onde se encontra um simbólico paredão com inscrições de mensagens desenhadas por tripulações de todo o mundo.

Porto Pim e a cidade da Horta vistos do Monte Guia.

Vale a pena subir ao Monte da Guia (tal como os Capelinhos um antigo vulcão que se juntou à ilha do Faial após uma erupção no mar) e desfrutar da vista deslumbrante sobre a cidade da Horta e a enseada de Porto Pim, junto à qual se encontra a Fábrica da Baleia, uma infraestrutura industrial, antiga fábrica transformada em Centro do Mar, onde estão expostos os equipamentos necessários ao aproveitamento integral dos cachalotes. Aí funciona também o Centro Virtual de Interpretação Marinha.

Foi em Porto Pim que, depois de descermos do Monte da Guia, repousámos numa esplanada, tomando uma cerveja, deixando correr o pouco tempo que restava até a hora de partida da embarcação que nos transportaria de novo à nossa ilha-base, o Pico.

A cidade da Horta com seu casario branco e a própria “Ilha Azul” foram ficando para trás, à medida que o navio, sobre um mar enrolado, se aproximava dos dois ilhéus da Madalena (“Deitado” e “Em Pé”), a porta de entrada para o porto homónimo, aonde chegámos ao anoitecer.

A simpática praia de Porto Pim. Ao fundo, o edifício da Fábrica da Baleia.

A última ilha que visitámos foi a Terceira, que fica a cerca de meia-hora de voo do Pico. Após o desembarque nas Lajes, dirigimo-nos à empresa de aluguer de automóveis e, já ao volante de uma nova viatura, prosseguimos para Angra do Heroísmo para deixar as malas na pousada e logo seguirmos viagem à descoberta deste novo território. Como não tínhamos ainda almoçado, fomos primeiro à procura de um restaurante à beira-mar, com a ideia de comermos um peixe grelhado. Indicaram-nos, precisamente, o “Beira-Mar”, em São Mateus da Calheta, mas estava fechado. Porém, alguém nos disse que o “Quebra-Mar”, uns 200 metros mais à frente, estava aberto e era do mesmo dono, pelo que nos dirigimos para lá. Este estava aberto. Abrimos a refeição com umas cracas e depois provámos uma sopa de peixe servida dentro de um pão, a que se seguiu um boca-negra grelhado; para acompanhar, um verdelho dos Biscoitos[13]. Reconfortados, iniciámos a nossa viagem à volta da ilha, desta vez na direção dos ponteiros do relógio.

Depois de São Mateus passámos por várias localidades até pararmos em Biscoitos, no lado oposto (norte) da ilha. Aqui se encontram umas piscinas naturais muito bonitas, formadas entre as rochas pela entrada da maré alta. Segundo nos disseram, é um dos locais de veraneio preferidos dos terceirenses. A paragem seguinte foi em Praia da Vitória, uma cidade orgulhosa do seu passado por ter sido aí, em 11 de agosto de 1829, que os absolutistas afetos a D. Miguel sofreram a primeira derrota militar dos liberais. Ao comando destes esteve o duque da Terceira, não permitindo que os 4000 homens transportados em vinte e uma embarcações conseguissem desembarcar na então Vila da Praia[14], que ganhou, ainda nesse ano, a designação de Praia da Vitória.

Sopa de peixe servida dentro de um pão. Uma especialidade do “Quebra-Mar”, em São Roque, na Terceira.

Algo que não se pode perder na Praia da Vitória é uma visita à Casa-Museu Vitorino Nemésio. Muitas curiosidades sobre a sua biografia podem ser aqui desvendadas[15]. A ação do seu romance mais famoso, Mau Tempo no Canal, é passada precisamente nas quatro principais ilhas do grupo central que visitámos: Pico, Faial, São Jorge e Terceira. A entrada na casa onde Nemésio nasceu fez-nos recuar à nossa própria infância, e ao programa televisivo, ainda a preto-e-branco, Se Bem me Lembro

Nos dois dias que passámos na ilha Terceira deparámos em todas as freguesias com “Impérios”, edifícios em honra do Espírito Santo, a maioria pintada com cores garridas pelos habitantes locais. Em todo o arquipélago, não apenas na Terceira, sobressaem além dos “Impérios”, as festas em honra do Divino Espírito Santo. Na Terceira, a duração destas festas vai desde o dia de Pentecostes até ao final do verão[16]. Durante os festejos, sobretudo nas povoações mais rurais, os terceirenses divertem-se com as touradas à corda, uma tradição caricata e perigosa que tem particular incidência nesta ilha. Embora as festas do Divino Espírito Santo possuam uma estrutura tradicional comum, apresentam bastantes variantes entre as várias ilhas do arquipélago e, dentro da mesma ilha, entre os vários Impérios.

Vista panorâmica da Praia da Vitória. Aqui nasceu e brincou Vitorino Nemésio.

No segundo dia na Terceira fomos conhecer o Algar do Carvão, “Monumento Natural Regional”, sensivelmente no centro da ilha, formado por grutas com cerca de 90 metros de profundidade, onde se podem ver estalactites e estalagmites, e uma lagoa que sobe ou desce consoante a chuva. A água escorre pelas paredes e o ambiente é muito húmido. O Algar do Carvão é uma “chaminé vulcânica”, formada há cerca de 3200 anos. Numa das grutas tivemos o privilégio de assistir a um mini-recital de um guia turístico açoriano que, para mostrar a extraordinária acústica do local, cantou a Avé Maria de Schubert, perante uma plateia boquiaberta. Se algum empresário de bel canto for um dia ao Algar do Carvão, é bem possível que contrate este magnífico cantor.

O tempo restante desta nossa viagem aos Açores passámo-lo deambulando por Angra do Heroísmo, uma das mais belas cidades açorianas, com papel destacado, como vimos, na história de Portugal. O património edificado é rico. A Sé Catedral, a Igreja da Misericórdia, os Convento e Igreja de São Francisco, o Palácio dos Capitães Generais, o Alto da Memória, o Mercado Duque de Bragança, valem todos uma visita. O Monte Brasil, onde fica a Fortaleza de São João Baptista, e as vistas que de lá se proporcionam sobre a cidade de Angra, é algo que nenhum visitante pode perder.

Na noite do nosso segundo dia na “Ilha Lilás”, iniciámos, com o coração cheio, a última etapa da nossa viagem, desta feita, rumo ao Algarve.

Um dos Impérios da ilha Terceira.

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Notas:

[1] Pensa-se que as ilhas açorianas dos grupos oriental e central foram descobertas em 1427 e as duas ilhas do grupo ocidental (Flores e Corvo) em 1452.

[2] As ligações diretas entre Lisboa e o Pico iniciaram-se em 2005 e vieram dar um novo impulso ao turismo na ilha.

[3] Engloba os sítios do Lajido da Criação Velha e do Lajido de Santa Luzia.

[4] A gastronomia do Pico é rica, com destaque para o caldo de peixe, o arroz de lapas, o polvo guisado com vinho e a linguiça com inhames, entre outros, acompanhados por pão e bolo de milho caseiros.

[5] São inúmeros os miradouros do Pico nas estradas que sobem de Madalena, São Roque e Lajes para o centro de ilha. Destaque para o miradouro da Terra Alta, entre Santo Amaro e Piedade, com uma vista imponente sobre a ilha de São Jorge.

[6] Gilberto Mariano é uma figura quase mítica da Madalena do Pico. Analfabeto, fez durante muitos anos a entrega de cartas, encomendas, dinheiro, etc. na cidade da Horta, no Faial. Na volta, era portador de notícias de picarotos deslocados na ilha vizinha e de medicamentos em falta. Não há notícia de qualquer extravio de alguma mercadoria que lhe tivesse sido confiada, mesmo em tempos de invernia. Iniciou a sua atividade nos “Barcos do Pico” e depois na Empresa das Lanchas do Pico. Era particularmente dotado em amarrar embarcações nos dias de grande temporal. Conhecido como o “Gilberto das Lanchas”, tinha também, devido à sua envergadura e destreza, uma alcunha peculiar – o Arricana – aportuguesamento da palavra inglesa hurricane (furacão). Gilberto Mariano nasceu (1909) e morreu (1991) na Madalena do Pico.

[7] Numa viagem que inclua várias ilhas, como a nossa, é preferível alugar carro em cada ilha, porque o preço é praticamente o mesmo do que aquele que se pagaria pelo transporte de um único carro entre ilhas, e sobretudo porque isso evita os riscos associados à impossibilidade de transportar a viatura nas embarcações que fazem as travessias, devido ao estado do mar.

[8] Os grandes maciços de hortênsias justificam o título de “Ilha Azul”, que é atribuído ao Faial.

[9] Em todas as ilhas existem reservas naturais onde se podem observar algumas das quase 1000 espécies vegetais que povoam as ilhas, sendo que destas cerca de 300 são nativas e 60 endémicas.

[10] John F. Kennedy, então senador americano, esteve envolvido no Azorean Refugee Act, uma medida que facilitou a emissão de vistos às famílias faialenses. Esta medida abriria definitivamente as portas à emigração açoriana para os Estados Unidos. Estima-se que entre 1960 e 1990 tenham emigrado para os Estados Unidos da América cerca de 90 mil açorianos.

[11] https://nationalgeographic.sapo.pt/historia/grandes-reportagens/1554-capelinhos-setembro2007.

[12] Os moinhos de vento que encontramos nos Açores seguem a tradição flamenga.

[13] Uma boa informação sobre os peixes da gastronomia açoriana pode ser encontrada em: file:///C:/Users/User/Downloads/155267.pdf.

[14] Os Açores tiveram uma importância capital na luta entre liberais e absolutistas, e a Terceira, desde o início da Revolução de 1820, no Porto, aderiu à causa liberal. Em 1828, D. Miguel proclamou-se rei e o liberalismo caiu, mas enquanto o comandante militar da ilha de São Miguel apoiou os miguelistas, os terceirenses mantiveram-se fiéis ao liberalismo. Angra do Heroísmo foi transformada em sede da Junta Provisória (isto é, capital do Reino) em nome de Dona Maria, filha de D. Pedro. Em recompensa ao apoio dado à causa liberal, D. Maria II atribuiu, a Angra, o cognome de “mui nobre leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo” e à Praia da Vitória, o de “muito notável”. D. Pedro, após uma viagem pela Europa em que buscou apoios aos liberais, chegou à Terceira em 3 de março de 1832. Pouco depois, os liberais atacariam São Miguel e conquistariam a ilha. Todo o arquipélago acaba por aderir ao liberalismo. Os “Bravos do Mindelo”, um exército de 7500 homens comandados por D. Pedro, entrou no continente e, em 1834, recuperou a coroa portuguesa para Dona Maria II.

[15] O jovem que nos guiou pela casa era excelente, competente, com um gosto evidente e entusiástico pelo seu trabalho e, logo, pelas vida e obra de Vitorino Nemésio.

[16] As festas do Divino Espírito Santo têm natureza caritativa e o objetivo é a entrega do bodo aos mais necessitados da freguesia. Tudo começa no domingo da Trindade (o primeiro após o Pentecostes) com o sorteio para saber quem serão os mordomos do ano seguinte. O primeiro a ser eleito recolhe as insígnias do Espírito Santo – a coroa e a bandeira – e guarda-as em sua casa até a Pascoela, quando começam os festejos. É então que se realiza a coroação, sendo a coroa colocada, na igreja da freguesia, na cabeça do Imperador – criança ou adulto – que depois a leva em procissão até a casa de outro mordomo que a guarda por uma semana.

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Homo Interstaticus

Homo Biologicus, é o título do primeiro livro do médico francês Pier Vincenzo Piazza.

Todo o organismo tende para um estado de equilíbrio, o estado homeostático. Temos de respirar, comer e beber para manter esse equilíbrio, sendo que a auto-regulação do nosso organismo faz o resto. Há milhões de anos, quando os nossos ancestrais viviam num ambiente em que os recursos alimentares disponíveis eram escassos, a seleção natural, por uma questão de sobrevivência da espécie, “criou” o que hoje chamamos de homem “exostático”, aquele que, em oposição ao homem “endostático” que apenas se alimenta até ficar saciado, come mais do que necessita para repor o equilíbrio momentâneo, isto é, armazena comida no organismo prevenindo momentos futuros de escassez. Tal como beber sem ter sede ou respirar mais do que o necessário, também comer sem ter fome era, naquela período, penoso. Então, a seleção natural teve de “engendrar” uma estratégia para que o organismo dos nossos ancestrais armazenasse o bem mais escasso de que necessitava – comida – e assim nasceu o prazer.

A nossa espécie passou, a partir daí, a ter dois tipos de indivíduos, os “endostáticos” e os “exostáticos”. Estes últimos são os mais propícios a ter todo o tipo de prazeres, desde a vontade incontrolável de comer (daí a praga da obesidade), ao consumo de drogas, passando pelo vício do jogo e a apetência para desportos radicais. Para lá de um sistema endocabinoide mais operante próprio dos “exostáticos”, não existe nada de errado com estes indivíduos. O que acontece é que o processo de seleção natural tem uma escala de milhões de anos e o processo tecnológico humano de transformação dos recursos terrestres (nomeadamente a agricultura) tem uma escala muito menor. Ou seja, os nossos organismos preparados pela natureza para viverem em tempos de escassez, viram-se subitamente rodeados de abundância. Daí que haja tantos indivíduos obesos nas sociedades ocidentais: enquanto “exostáticos”, eles estão “programados” pela natureza para comerem mais do que necessitam e assim armazenarem energia, em prol da sobrevivência da espécie.

Esta dualidade endo/exos da nossa espécie reflete-se também nas visões que temos do mundo. O indivíduo “endostático” tende a ser conservador e o “exostático” progressista. As visões “endostática” e “exostática”, além de se oporem entre si, são limitativas e parciais, não nos permitindo enfrentar com eficácia os graves problemas que o mundo enfrenta, pois tal só é possível se compreendermos, afinal, por que existe essa oposição. Para isso, Piazza, o autor de Homo Biologicus, o livro onde tudo isto se esclarece, propõe um homem novo, com uma nova visão: o homo interstaticus. Com uma abordagem mais abrangente, este novo homem está pronto para sintetizar as visões “endostática” e “exostática”, e assim dar resposta aos problemas que a nossa espécie enfrenta. Por exemplo, não é mais possível, considerar os viciados em drogas (ou noutra coisa qualquer) como pessoas falhas de vontade, uma vez que a sua biologia os impele a ter esse comportamento. Ninguém se lembraria de considerar um esquizofrénico ou um autista como pessoas falhas vontade. Pois o mesmo deve acontecer com os viciados em drogas (das leves às duras, incluindo as mais disseminadas e legais como o álcool e, sobretudo, o tabaco) que, à luz dos conhecimentos científicos contemporâneos, tal como os que padecem de Alzheimer ou Parkinson, são pessoas doentes.

A abordagem aos problemas causados pelas drogas está pois condicionada pelo nosso dualismo. É por isso que a maioria de nós ainda pensa que as drogas consideradas “duras” são as mais perigosas, quando na realidade são as menos tóxicas e as que menos matam. Estas drogas são proibidas em quase todas as sociedades, ao contrário do álcool (proibido apenas em algumas sociedades) e do tabaco (cujo consumo não é proibido em nenhum país), que matam um número de indivíduos muitíssimo superior em todo o mundo, simplesmente por uma razão: porque um viciado em tabaco consegue perfeitamente trabalhar enquanto um viciado em heroína tem grande probabilidade de deixar de ser produtivo. Esta perspetiva utilitarista, que considera o viciado um fraco sem domínio de si mesmo, não nos permite abordar a raiz do problema.

Na verdade, essa visão do homem sem vontade, advém mais uma vez de uma perspetiva dualista ainda presente nas nossas sociedades: a de que somos compostos por duas partes, uma material (o corpo) e outra imaterial (a mente ou a alma). Piazza mostra-nos que tal coisa não existe: a nossa suposta “vontade” é fruto do que se passa no nosso cérebro que, apesar da sua incrível complexidade, é matéria. Somos, de facto, um animal exclusivamente biológico, um organismo com o cérebro proporcionalmente maior, mas ainda assim, um organismo como os outros na natureza. É com consciência das nossas limitações que devemos também abordar o futuro, repensar tudo, incluindo o percurso de guerras e destruição ambiental que vem caracterizando a atividade humana. É necessário um novo ponto de partida e a esperança reside numa abordagem mais abrangente e integral, à luz dos novos conhecimentos científicos sobre a biologia humana, a do homo interstaticus.

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A nossa edição:

Homo Biologicus, Pier Vincenzo Piazza, Bertrand Editora, Lisboa, 2020.

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Foto retirada de :

https://www.sudouest.fr/2019/09/29/piazza-la-biologie-et-la-vie

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A Festa do “Avante”

O marxismo é uma religião.

Apesar de algumas críticas, o Partido Comunista pretende levar a cabo, nestes tempos de pandemia, a sua festa do “Avante”. A festa irá realizar-se e, face à reconhecida boa organização do partido, provavelmente irá correr bem. Para nós, a verdadeira questão não é essa. O que queremos salientar é o caráter religioso desta manifestação; o fervor comunista que faz com que as pessoas se dirijam ao Seixal como os católicos se dirigem a Fátima; a fé, a esperança numa vida no paraíso, seja, no caso dos comunistas, na Terra ou, no caso dos católicos, no Céu. Mas porque é, ainda assim, tão significativo este fervor marxista (o PCP é assumidamente um partido marxista-leninista) em Portugal? É o que tentaremos deslindar sucintamente, através dos pontos que se seguem.

1- Não existe nenhum partido comunista (ou marxista), com o peso que o PCP tem em Portugal, no mundo socialmente desenvolvido. A representação que os partidos marxistas têm em países como a Noruega, a Suécia, a Finlândia, o Canadá, a Nova Zelândia, a Austrália, a Suíça, a Holanda, entre outros com os maiores índices de desenvolvimento humano, é meramente residual, entre 0% e 1%. Mesmo em Itália, onde tinha força considerável, o Partido Comunista (entretanto reformado, o que nunca aconteceu em Portugal) praticamente desapareceu. Nesses países, o marxismo é uma ideologia anacrónica, estudada por alguns académicos e apoiada por alguns excêntricos. Em Portugal, o PC e o BE (partidos ideologicamente próximos e ambos de inspiração marxista) atingem em conjunto uns absurdos 15% de representatividade no parlamento português.

2- A causa principal desta representatividade remonta ao período fascista. A militância comunista é ainda, em larga medida, uma reação à ditadura salazarista. Os extremos auto-alimentam-se e tendem a anular o espaço entre eles. É por isso que ainda é comum os comunistas considerarem aqueles que são do centro-direita, do centro, ou mesmo do centro-esquerda, de “fascistas”. Toda a gente sabe que um dos principais inimigos do PC, talvez o principal, é o PS, que segue invariavelmente, segundo os comunistas, uma “política de direita contrária aos interesses dos trabalhadores”. Muitos jovens de hoje, cujos pais ou outros familiares lutaram contra o fascismo, têm uma ligação emocional aos partidos marxistas, uma atitude em parte compreensível mas mais próxima da religião do que da racionalidade. A componente religiosa do marxismo é, aliás, algo bastante estudado e largamente documentado. Tal como há fações no interior das religiões que reclamam para o si o purismo da doutrina, também há inúmeros marxismos, cada um pretendendo ser o melhor intérprete da doutrina verdadeira. Essa é a razão, de resto, do surgimento de tantos partidos de inspiração marxista.

3- O PCP não proferirá uma palavra para condenar os revoltantes atentados à liberdade perpretados pelo ditador Lukashenko, que oprime o povo bielorusso, enquanto decorre a festa do “Avante”. Para o PCP, todo o sofrimento causado pelos estados autoritários seus amigos é apenas um efeito secundário do medicamento – o marxismo – que promete a cura para a grande doença social: a desigualdade.

4- O valor social máximo de um marxista é, portanto, a igualdade. Para atingi-la, como a teoria antevê (“ditadura do proletariado”) e a história confirma, abdica da liberdade. Porém, acontece que as sociedades não-livres, incluindo as comunistas ou supostamente comunistas, são as mais desiguais da história, e as sociedades liberais são as menos desiguais (embora tenhamos muito a fazer para as tornar mais igualitárias). Isto é um facto. Perdida a liberdade, jamais alcançaremos a igualdade. Finalmente, privados de liberdade, sem sequer igualdade e muito menos prosperidade, perdemos tudo, tornamo-nos escravos do nosso amo: se nos revoltarmos, somos presos e, eventualmente, torturados ou mortos; se nos submetermos, transformamo-nos em autómatos, seres sem responsabilidade pelos seus atos.

5- As modernas sociedades comunistas são, pois, as mais desiguais da história. Os ditadores comunistas, chamem-se Estaline, Ceausescu, Castro, Santos, Jong-un ou Jinping estão, ou estavam, durante os respetivos períodos de governação, entre os indivíduos mais ricos e com vidas mais sumptuosas do planeta. As suas riquezas, porém, ao contrário do que acontece com os empresários capitalistas, não resultam de uma atividade económica produtiva, antes do roubo que esses ditadores praticam sobre os seus próprios países e povos, onde impera a miséria.

6- A festa do “Avante!” será, pois, segundo a perspectiva comunista, mais um momento de “afirmação da grande capacidade do Partido”, um grande e inadiável evento cultural e político, uma oportunidade para mostrar, mais uma vez, os benefícios desse maravilhoso medicamento de largo espectro chamado marxismo. Um “covidezinho” aqui outro ali, a acontecerem, mais não serão que manifestações de mais um efeito secundário irrelevante face à eficácia do tratamento que, embora alguns ainda não o saibam, nos irá salvar a todos.

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Foto retirada de: rtp.pt

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