AO90

conforme_NOVO_ACORDO_corAlgumas considerações sobre o tão badalado e tão atacado Acordo Ortográfico de 1990 (adiante “AO90”), que entrou em vigor, no Brasil e em Portugal, em 2009, no momento em que uma nova investida está patente em alguns artigos na blogosfera e nos jornais, desta vez à boleia da recente decisão da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, de adiar para 2016 a aplicação plena do AO90.

1 – Jamais se produzirá um Acordo Ortográfico que seja do agrado de todos e jamais se produzirá um acordo perfeito ou completamente coerente, sem qualquer ponto polémico.  Daqui se deduz que, fosse qual fosse o AO90, haveria sempre quem o contestasse. Porém, a maioria dos erros apontados, inclusive muitos que pretendem caricaturar o AO90 – como é o caso, entre outros, de “o cagado anda de fato na praia” – são falsos. Não sendo eu especialista, remeto os interessados para um sítio onde poderão, provavelmente, esclarecer algumas dúvidas: http://emportuguezgrande.blogspot.com.br/%5B1%5D. Dado que os argumentos técnicos estão suportados até a exaustão nos conteúdos dos “links” que aqui apresento, remeter-me-ei a outros aspetos e dimensões do problema.

2 – A discussão sobre o AO90 não deve restringir-se às questões técnico-científicas, apesar da inquestionável importância destas, mas estender-se a outras mais abrangentes e relevantes: políticas, sobretudo, mas também sociais e culturais, entre outras. Embora no caso do AO90, como se sabe, não tenha havido um escrutínio popular sobre o assunto[2], o princípio geral deve ser o de que os especialistas servem para nos ajudar a decidir, não para decidirem por nós. Como afirmou Péricles, ” se só alguns estão aptos a gizar uma política, todos são capazes de a julgar”. Todos temos o direito – e o dever – de formar uma opinião, porque, afinal, a Língua é de nós todos.

3 – Os especialistas[3] não são, portanto, os donos da Língua, mesmo que através de algumas opiniões – como as evidenciadas por sumidades como Vasco da Graça Moura – tentem fazer-nos crer o contrário. E se é verdade que a Língua Portuguesa não é património dos especialistas, é igualmente verdade que não é também património exclusivo de Portugal ou de qualquer outro país. A Língua Portuguesa é património de todos os que a usam, seja qual for a sua nacionalidade.

4 – O conteúdo do ponto anterior será, sem dúvida, melhor entendido por aqueles que falam, ouvem, escrevem e leem não apenas em português de Portugal (ou de outro qualquer país lusófono), mas também no de outros países, mormente aqueles que, por razões diversas, viajam pelo mundo da lusofonia e, sobretudo, aqueles que aprenderam a amar as culturas desses mesmos países e não consideram a cultura do seu país superior às dos outros.

5 – O AO90 é mais vantajoso para Portugal do que para o Brasil. É óbvio que a relevância relativa da nossa Língua é maior se tiver 250 milhões de falantes (inclui-se neste número aproximado todos os lusófonos do mundo) do que 10 ou 11 milhões. É uma estupidez pensar que os brasileiros nos querem impor as suas regras. A polémica sobre o AO90 é muitíssimo menor no Brasil do que em Portugal. E, ao contrário do que o oportunismo de Vasco Graça Moura sugere, o adiamento da aplicação plena do AO90, no Brasil, para 1 de janeiro de 2016 (afinal, em consonância com Portugal) não representa uma “reviravolta” na posição dos brasileiros. No Brasil, toda a comunicação social, todos os orgãos do poder político, todos os concursos públicos, todas as editoras e todos os estabelecimentos de ensino já adotaram o AO90.

6 – É um erro transformar a discussão sobre o AO90 numa guerra entre Portugal e Brasil. Mas é isso que Vasco Graça Moura faz quando escreve, por exemplo, “haverá sempre umas baratas tontas disponíveis para se sujeitarem ao que quer que o Brasil venha a resolver” ou “o Acordo Ortográfico é tão mal feito que nem o Brasil o aceita” ou, ainda, “se Portugal nada fizer, o comando das operações ficará nas mãos do Brasil”[4]. Brasil que, claro, também tem os seus (poucos) guerreiros, como é o caso de um tal Felipe Lindoso[5]. Estes, ao contrário de VGM, acham que são os portugueses que querem impor as suas leis. E, como numa guerra vale tudo, o recurso às mentira, demagogia e ameaça é frequente de ambos os lados. Ora, um acordo, como toda a gente sabe, implica tolerância, compromisso e responsabilidade. E não se trata de uma originalidade dos países lusófonos, outras línguas passaram recentemente por reformas ortográficas: o alemão em 1996; o neerlandês em 1996 e 2006; o espanhol em 2010; o francês em 1990, aplicando-a, como nós, só agora.

7 – Os detratores portugueses do AO90 deveriam observar também que forma tão indesejada de escrever é já, em larga medida, paticada por escritores como Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Nelida Piñon, Dalton Trevisan, só para citar alguns grandes brasileiros, vivos. E, já agora, que Fernão Lopes, Camões, Fernando Pessoa e Mário Cesariny escreveram de formas diferentes na mesma língua – o português – só para citar alguns grandes escritores portugueses desaparecidos[6]. Isto para dizer o óbvio: a Língua não é uma coisa estática, evolui ou, para quem não queira ver as mudanças como evolução, simplesmente muda, se transforma, pelas mais variadas razões.

8 – Posto isto, talvez cheguemos à razão principal da oposição ao AO90: a resistência à mudança. Uma resistência já constatada por Wittgenstein quando escreveu: “Pensa no mal-estar que se sente quando a ortografia de uma palavra é alterada. (E nos sentimentos ainda mais profundos que foram suscitados por questões de caligrafia)”[7]. É esta resistência à mudança que está na base da atitude conservadora de alguns, atitude que, a generalizar-se, poderia conduzir à desintegração da Língua Portuguesa no mundo. As posições empedernidas mostram que quem é contra o AO90 será até morrer. Eu sou a favor. A mim, interessa-me manter e aprofundar a internacionalidade do português. Dentro de dez anos, todo o ruído agora provocado pelos opositores ao AO90 desaparecerá na poeira do tempo[8],[9].

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[1] Sobre as comparações entre os casos da língua inglesa e da portuguesa, ver:

http://ciberduvidas.pt/textos/controversias/11324

[2] Aos que reclamam não terem sido ouvidos sobre o AO90 convém recordar-lhes que este faz parte de uma política prosseguida por governos democraticamente eleitos e que desde a sua assinatura em 1990, todos os responsáveis políticos eleitos em Portugal o apoiaram e incluíram várias vezes nos programas eleitorais que levaram a sufrágio.

[3]  Os especialistas veem-se frequentemente como autoridades únicas e máximas, e esta perspetiva pode ser caracterizada como “especialismo” – uma doença, cada vez mais comum, que não se restringe à linguística, mas que alastra a todos os ramos do conhecimento. A tendência do especialismo é a de fechar-se sobre si próprio, rejeitando todo e qualquer argumento vindo do exterior. Felizmente, alguns especialistas não sofrem desta doença.

[4] Ver artigos no Diário de Notícias de 02/01/2013, e no mesmo jornal do dia 09/01/2013, ambos p. 54.

[5] http://www.publishnews.com.br/telas/colunas/detalhes.aspx?id=71969.

[6] Realço, também, já que se fala de Literatura, ou seja, de uma forma de expressão artística, que muitos artistas – incluindo muitos escritores – não são especialistas, no sentido académico do termo, e isso não impede que alguns deles sejam geniais. A história é até fértil em criadores que subverteram as regras do seu tempo, cometendo, do ponto de vista dos especialistas seus contemporâneos, autênticas heresias. Algumas delas, porém, estão hoje entre as maiores obras da humanidade.

[7] Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico/Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 295.

[8] Gostava de deixar, por último, um texto excelente de Henrique Monteiro, sobre o AO90, publicado no Expresso de 22 de fevereiro de 2012 e dedicado, precisamente, a Vasco Graça Moura. Não poderia estar mais de acordo: http://expresso.sapo.pt/o-acordo-20-anos-depois=f706306.

[9] Dada a sua relevância, remeto ainda, a posteriori, para um texto, também publicado no Expresso, em 2 de março de 2013, por Margarita Correia: http://www.ciberduvidas.com/textos/acordo/13941.

São Luís e Lençóis Maranhenses, Brasil

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Vista aérea da região de São Luís.

Apesar do Maranhão ser, tradicionalmente, uma das regiões mais pobres do Brasil, as edificações do centro histórico de São Luís mostram que a cidade já foi importante. No último quartel do século XVIII, Pombal ajudou os colonos maranhenses a se verem livres dos jesuítas. Criou uma companhia de comércio altamente capitalizada, aproveitando as alterações no mercado mundial do algodão, cuja procura crescia intensamente; essas alterações deveram-se sobretudo à Guerra da Independência dos EUA e à Revolução Industrial Inglesa. Foi uma empresa muito bem sucedida. Porém, ultrapassadas as condições de anormalidade que prevaleciam no mercado mundial de produtos tropicais, não só o Maranhão mas o próprio Brasil regressariam a um sistema económico precário que, sobretudo o primeiro, mantêm até hoje.

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Centro histórico de S. Luís.

Essa precariedade é notória em São Luís, “a ilha do amor”, mas que bem poderia chamar-se “da pobreza”, “do desmazelo” ou “da corrupção”.Com efeito, a experiência ensina-nos a reconhecer o cheiro corrupto quando este paira no ar. Em São Luís ele brota dos buracos das ruas, dos edifícios degradados, dos semblantes resignados das pessoas comuns. Aqui, a população é sobretudo negra ou mestiça, prova de que a escravatura no Maranhão, embora tardia, foi bastante intensa.

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Rio Preguiças, em Barreirinhas.

Escapam da degradação geral do centro histórico de São Luís alguns oásis, quase sempre geridos pelo governo do Estado e não pela Prefeitura, como são os casos dos Teatro Artur Azevedo, Museu Histórico e, sobretudo, o conjunto edificado do bairro Praia Grande. Neste último é agradável passear à noite, ouvir música ao vivo, tomar um copo e associar-se aos transeuntes, turistas e locais. Atravessando o rio Anil, pela ponte José Sarney (a família Sarney é omnipresente no Maranhão), chega-se à parte mais moderna da cidade, onde encontramos praias consideradas impróprias para banhos e edifícios recentes, porém sem a vitalidade das outras capitais nordestinas.

Se a convivência com São Luís ficou aquém das expectativas, a chegada a Barreirinhas, para compensar, foi uma agradável surpresa. Aqui, o turismo e a pesca são as principais atividades económicas, e parecem chegar para que se respire um ar mais puro. O autocarro demora umas cinco horas para percorrer os cerca de 300 kms que medeiam entre as duas cidades. O bilhete custa 30 reais, mas é preferível pagar 40 e viajar numa “van” que transporta os passageiros até a porta dos hotéis ou das pousadas das duas cidades. Dado que o autocarro estaciona nas estações rodoviárias, além do trajeto mais rápido, poupa-se também no custo do táxi entre estas e o hotel. Existem várias empresas que fazem o transporte por “van”, o qual pode ser comprado em qualquer um dos hotéis ou pousadas de Barreirinhas e São Luís.

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Pequenos Lençóis.

Barreirinhas é banhada pelo rio Preguiças, que é lindo de verdade. O nome advém do serpentear calmo e lânguido do rio. Dado que o seu curso é praticamente plano, as correntes são fracas, facto que pude testemunhar ao atravessá-lo a nado, nos dois sentidos, em Barreirinhas. A água é morna, deliciosa, e a praia é sobretudo frequentada pela população local; os turistas ficam espalhados pelas pousadas da periferia, cada qual com seu espaço privativo. Face à qualidade da água e às tranquilidade e beleza desses lugares ao longo do Preguiças, é altamente recomendável pagar um pouco mais e ficar numa dessas pousadas à beira-rio, em vez de ficar alojado no centro da cidade.

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Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Em Barreirinhas existem agências especializadas nos diversos passeios possíveis, entre os quais se destacam o dos Grandes lençóis Maranhenses, feito de jipe e depois a pé, e o da descida do Preguiças até Caburé (margem direita) ou Atins (margem esquerda), povoados que se situam na foz do rio, junto ao mar. A melhor época para visitar os Lençóis é em julho (mês da “Vaquejada”) e agosto, quando já não chove e as lagoas estão cheias pelas chuvas de inverno (janeiro a junho). Uma vez que 2012 foi um ano pouco chuvoso, agora apenas uma lagoa tem água (Lagoa do Peixe), todas as outras estão secas por força da evaporação. Mesmo assim, vale a pena caminhar naquele meio desértico, sentir a imensidão do espaço de areia branca e fina, ver o pôr do sol por trás das dunas, viajar aos solavancos nos potentes veículos “todo terreno”, cruzar o Preguiças de balsa e comer uma deliciosa tapioca, feita por uma das vendedoras do outro lado do rio.

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Rio Preguiças.

Já os passeios no Preguiças não dependem da chuva e são, em qualquer época, muito interessantes. Desde logo, pela beleza do próprio rio, mas também pela interessante fauna e flora, pela vida das populações semi-isoladas, pelas já referidas tranquilidade e beleza dos lugares, e pelo seu exotismo. De Barreirinhas a Atins demoramos cerca de quatro horas de lancha rápida. Isto porque paramos em vários povoados pelo caminho: Vassouras, uma localidade minúscula, que dá acesso aos Pequenos Lençóis, na margem direita do Preguiças, e onde alguns macacos vêm ter com os visitantes, em busca de comida; em Mandacarú, na margem esquerda, onde se situa o Farol Preguiças, com os seus 160 degraus e 35 metros de altura, e uma vista magnífica sobre a região; e, finalmente, em Caburé, situado numa língua de areia entre o rio e o mar, na margem direita, onde podemos desfrutar de um delicioso banho e almoçar um belo robalo no restaurante Península de Caburé.

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Vista que se observa do Farol das Preguiças.

A paisagem onde quer que estejamos e para onde quer que olhemos é deslumbrante. Palmeiras de buriti, açaí e carnaúba; manguezais, como os mangue-vermelho, mangue-branco e mangue-siriúba; o capim-de-areia, o alecrim-da-praia, a pimenteira e o carrapicho-da-praia, que crescem perto do mar, onde, nas praias quase desertas, podemos observar tartarugas marinhas e várias espécies de caranguejos; e, na restinga (terreno arenoso e salino), a erva-de-cascavel, a orquídea da restinga e o cipó-de-leite, entre outros. Nos manguezais podemos encontrar o jacaré-tingá, a paca e o veado-mateiro; e também aves migratórias, como o maçarico-rasteirinho, as marrecas-de-asa-azul e o trinta-réis-boreal.

Um dado muito curioso sobre o Parque Nacional do Lençóis Maranhenses (fundado em 1981) é que, para além dos 155.000 hectares de dunas e mais dunas de areia branca e fina, e dos oásis de lagoas coloridas, ali existe um povo nómada, cuja vida é regida pelo regime das chuvas e das areias. Dentro do parque vivem diversas famílias, em alguns pequenos povoados de pescadores, como são os casos de Canto de Atins, Baixa Grande ou Queimada dos Britos. A mobilidade das dunas, provocada pelo vento, provoca muitas vezes o soterramento de casas e utensílios, obrigando ao deslocamento dos pescadores.

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Mandacaru.

Na costa do Maranhão o vento predominante é de leste, como pude comprová-lo, literalmente, na pele. Este vento está na origem da criação de uma colónia, independente do Brasil, em 1621, dado que o vento de leste dificultava a navegação entre a costa norte do território e as demais capitanias. Assim, foi decidido criar uma colónia diretamente ligada a Lisboa, compreendida entre o Ceará e o Amazonas, precisamente, o Estado do Maranhão. Isto (e também as informações sobre o mercado de algodão a que aludi no início do texto) eu pude saber através do clássico “Formação Econômica do Brasil”, de Celso Furtado, que afortunadamente transportei na mochila. Apesar disto, não se pense que o clima aqui é agreste, bem pelo contrário: é generoso, suave, doce, e isso reflete-se nas pessoas.

Os Lençóis Maranhenses, mais que São Luís, são um destino que vale a pena. Lá cada um pode optar, todos os dias, por fazer algo diferente. Ou, simplesmente, não  fazer.

É bom (es)preguiçar no Preguiças.