25 de Abril (eu estive lá)

Naquele dia saí cedo de casa e corri para a Baixa. Pelo caminho, vi soldados estendidos no asfalto em posição de combate. Vi tanques de guerra. Vi gente chegando. Vi, em pouco tempo, uma multidão encher o Rossio, o Chiado, o Bairro Alto e todo o centro de Lisboa. Vi senhoras que traziam flores vermelhas, em cestos de verga, e as ofereciam aos soldados – os nossos heróis. Vi o Largo do Carmo apinhado, com jovens, como eu, empoleirados das árvores e em cima dos tanques do exército. Vi as pessoas saudarem-se, sorrirem-se, abraçarem-se – vi a felicidade estampada em seus rostos.

E também eu – que estive lá! – participei de pequenas manifestações espontâneas, que se juntavam a outras manifestações espontâneas. Vagas de júbilo que cirandavam no coração de Lisboa, na maior e mais bonita festa que já vivi. Hoje, 39 anos passados, o 25 de abril não é mais a bela festa que foi em 1974.
Muitos reclamam que não se cumpriu o “espírito de abril”. Arrogam-se seus legítimos defensores ou representantes. Acham que o país não segue o rumo que abril preconizou.
25 abril
Pois, nada disto é verdade. Abril não se fez para nos dar (ou apontar) um rumo. Abril fez-se, coisa muito diferente, para nos dar a possibilidade de nós próprios escolhermos um rumo. O 25 de abril, através dos militares e desse herói que foi o Capitão Salgueiro Maia, restituiu-nos “apenas” o valor mais elevado da vida social, o único pelo qual, alguém disse um dia, vale a pena morrer e aquele que uniu o povo no 25 de abril de 1974. Eu estive lá e posso testemunhá-lo. A palavra gritada pelo povo era: “LIBERDADE”!

O Brasil e o protecionismo

BrasilA atual política económica brasileira é claramente protecionista. Esta política defende as empresas e indústrias brasileiras – sobrecarregando com impostos os produtos importados – e visa manter baixa a taxa de desemprego. Porém, há que considerar algumas consequências perniciosas do protecionismo, dado que as empresas:

– acomodam-se e não investem na formação e qualificação dos seus quadros, tornando-se obsoletas;

– contratam funcionários em número excessivo, de baixa produtividade e auferindo baixos salários;

– praticam preços arbitrários para cobrirem o custo da ineficiência e obterem, ainda assim, lucros chorudos, face à ausência de verdadeira concorrência;

– prestam, em geral, serviços de baixa qualidade [1].

Quem paga esta ineficiência é o consumidor. Porém, quem tem muito dinheiro não tem problema, mesmo que o preço a pagar seja exorbitante, e pode até dar-se ao luxo de comprar mais barato no exterior, quando viaja pela Europa ou pelos EUA. Do outro lado da moeda ficam os menos abastados, que compram a prestações (parcelado) e que, para pagarem carro, celular, etc, têm de muitas vezes cortar em bens de consumo básicos[2]. A estes, chamam aqui no Brasil, “classe média”, mas a verdade é que – em comparação com os países mais desenvolvidos – se tratam de pobres encapotados[3]. O Brasil ainda é, em larga medida, um país de (poucos) ricos e (muitos) pobres.

No protecionismo não existe uma justa concorrência de preços e o ambiente económico torna-se pernicioso para os mais pobres dado que, com o aumento dos preços, é inevitável a subida da inflação. Assim, mesmo com programas destinados a acabar com a pobreza extrema, o fosso entre ricos e pobres não diminui[4]; ou diminui apenas aparentemente, pois, como se sabe, a inflação afeta sobretudo os mais desfavorecidos. Um outro efeito desta política protecionista (e assistencialista) é que ela se torna viciosa, difícil de eliminar a curto prazo, a não ser com elevado custo social (sobretudo, desemprego).

Com a deterioração do tecido empresarial, cai enormemente a taxa de exportação de produtos de maior valor acrescentado, permanecendo o Brasil um exportador de matérias-primas, como sempre foi no passado, vulnerável às grandes flutuações dos preços nos mercados internacionais, vivendo quase em exclusivo, nos outros setores, do consumo interno.

Talvez o protecionismo alguma vez tenha feito sentido. Mas o Brasil – este extenso, rico e belo país – precisa criar as condições para abandoná-lo, caso queira finalmente dar o salto para a modernidade.

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Notas:

[1] É o caso, por exemplo, das empresas de comunicação (telefonia), particularmente daquelas que prestam serviços de internet: caros e muito longe dos padrões dos países desenvolvidos. Porém, quando as empresas brasileiras têm de se abrir à concorrência as coisas melhoram, como é o caso do mercado da aeronáutica, só para citar outro exemplo.

[2] A classe média no Brasil tem renda per capita entre R$ 291 e R$ 1.019 e representa 54% da população do país: http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/05/classe-media-tem-renda-entre-r-291-e-r-1019-diz-governo.html

[3] Para se ter uma ideia, compare-se os salários desta “classe média” brasileira e os das suas congéneres norte-americanas ou europeias. Verificar-se-á que no Brasil os salários são muitíssimo menores e que o custo de vida – que há meia-dúzia de anos era, generalizadamente, bem menor aqui – é hoje, em vários bens, mais caro no Brasil do que naqueles países.

[4] A desigualdade entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, no Brasil, é de 50 para 1. Maior do que a mais elevada entre os países da OCDE: http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/infomoney/2011/12/05/desigualdade-entre-ricos-e-pobres-no-brasil-e-maior-do-que-a-mais-alta-da-ocde.jhtm

 

Alfama, the oldest district of Lisbon

There are seven hills in Lisbon, like in Rome. At the top of one of them – perhaps the most beautiful of all – lies São Jorge castle (11th century), which has a spectacular view of Lisbon, the Tagus and the small satellite towns across the river. It is precisely along the slopes of the hill facing the Tagus river that we find the historic district of Alfama. The relationship between Alfama and the river is, therefore, ancestral.

alfama

The first to arrive by ship in Alfama came from the Mediterranean, then from the North Seas and later from other parts of the world. In the first half of the 16th century, when Portugal was at the heights of the epic Discoveries, Lisbon was the center of the world and the main port of the most important trade routes. The movement of ships along the Tagus was intense and the people of Alfama were the first to have contact with individuals from faraway lands, namely from Africa, Asia, America, or those who they met in distant lands when they set off on – and survived – their voyage of the Discoveries[1].

Alfama's quay

Phoenicians, Carthaginians, Romans and Arabs were in Alfama long before the Portuguese Discoveries even began. And it was the Arabs who gave Alfama its unique character, with its narrow streets and alleys, quaint courtyards, picturesque stairways, and its name, which comes from the Arabic, alhamma, meaning “bath” or “hot springs”.

View from my apartment in Alfama (I rent it for short periods)

In addition to the Arab presence, buildings and inscriptions reveal the passage of Jews, Christians and Romans, thus making Alfama a veritable outdoor museum. The historic buildings and layout of the district has remained unchanged for centuries, as if time stood still.

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[1] The great popular Portuguese singer, Fausto Bordalo Dias, in his album “Por Este Rio Acima” (“Up On The River”), from 1982, exemplarily depicts those voyages. Below, the record of one of the songs from that album, “O Barco vai de Saída” (“The Ship Goes Out”), which is for many, including myself, the popular hymn of Alfama.

 

Frevo

O frevo nasceu há mais de cem anos, no Pernambuco, ao que parece por influência das marchas militares. O  frevo-de-rua não é vocalizado, ao contrário do frevo-canção, de ritmo mais lento, e também do frevo-de-bloco. Estes são os três tipos de frevo, assim classificados desde os anos 30 do século XX.

Quem já tenha passado o Carnaval no Recife certamente conhece o frevo, o principal ritmo que ali se ouve nessa quadra festiva, tal como o maracatu, a ciranda, o caboclinho, entre tantos outros.

Até 2010, mais propriamente até fevereiro de 2010, eu nunca tinha ouvido falar de frevo. Foi quando segui durante horas o bloco Escuta Levino pelas ruas do Recife, ao som de “Último Dia”, de Levino Ferreira, balançando o esqueleto sem parar, que fiquei adepto incondicional. Gostei tanto que repeti a dose, com outros blocos, tanto no Recife como em Olinda.

Qualquer pessoa pode criar um bloco. Basta juntar um grupo de músicos, inventar um nome, inscrevê-lo num estandarte e já está – quem quiser vá atrás. Há blocos para todos os gostos, como seria de esperar. O tipo de frevo que se ouve nos blocos de Carnaval é chamado frevo-de-rua e subdivide-se em frevo-coqueiro, frevo-ventania e frevo-abafo.

recife carnaval

Outra característica do frevo-de-rua é a dança. Os bailarinos, normalmente com uma sombrinha na mão, executam passes complicados, com os pés sempre em movimento,  executando coreografias que, em geral, contêm uma boa dose de improviso. Quando os executantes são de qualidade, é muito, muito bonito (ver vídeo abaixo).  Outros, como eu, limitam-se a agitar o corpo da forma que podem, pois uma coisa é certa: ninguém consegue ficar parado.

É por isso que a origem do nome frevo vem do verbo ferver, uma vez que a dança parece implicar a existência de uma superfície quente debaixo dos pés dos dançarinos, impedindo-os de parar.

Fiquei fã incondicional. Frevo para toda a vida.

 

Alfamenses ilustres

Alfama 1930Nenhuma História da Alfama dos últimos 50 anos ficará completa sem uma referência aos personagens mais conhecidos do bairro, cidadãos ilustres, míticos, mais ainda porque nenhum deles teve consciência do seu estatuto de alfamense imortal.

Entre todos, o maior era o Mata-Gatos. Bom rapaz, mas que não se metessem com ele! A malta cumprimentava bom dia Zé, boa tarde Zé – e o Zé sempre sorria e cumprimentava também. E se havia alguém que, escondido num beco ou dissimulado num grupo, gritava ó Mata-Gatos!, aí era certinho, voavam os pombos sem asas que o Zé levava nos bolsos do casaco. Às vezes acontecia quebrar uma cabeça ou o vidro de um carro, mas o mal do Zé era batatas.

Grande Mata-Gatos! Era uma figura – daquelas que não se fazem mais!

Outro personagem – o único que pode ainda estar vivo – é o Vítor Beatas, que continuava a apanhar restos de cigarros (“beatas” ou “grilas”) do chão, há cerca de um ano, a última vez que o vi, em Alfama. Nunca comprou tabaco. E durou, pelo menos, até os 85 anos. Espero que esteja ainda vivo, e revê-lo a apanhar beatas, como sempre, desde há cinquenta anos, quando voltar em breve a Alfama.

Os demais ilustres – sobretudo na Alfama de Cima, onde mais convivi – eram o Teófilo Borda d’Água, o Augusto Galinha (também conhecido por Augusto É Bom), o Magala, o Esticó Braço, o Rei do Sebo e o Doutor Maluco.

Curvo-me perante a memória de cada um deles.

Adeus ao trema

Prova de como no Brasil o AO90 é considerado com outras elegância e leveza e muito mais humor, é esta crónica de Luís Fernando Veríssimo, publicada no “Zero Hora”[1], de 31 de março de 2013, sob o título “Adeus ao trema”.

“A reforma ortográfica acabou com o trema, e só então me dei conta de que eu nunca o tinha usado. Sempre o ignorei. Os revisores, se quisessem, que acrescentassem os tremas onde cabiam. Por vontade própria, nunca botei olhos de cobra em cima de nenhum “u”. E agora que o trema desapareceu oficialmente, fiquei com remorso. Como me penitenciar? Peço só mais uma oportunidade para compensar meu descaso com o trema usando-o num texto. Li que, com a reforma, o trema só continua a ser usado legitimamente em nomes estrangeiros como Müller e Anaïs. Uma história para Müller e Anaïs, portanto. Atenção revisor: mantenha todos os tremas.

Uma história com seqüência e conseqüência. Talvez uma história policial: a dupla Müller e Anaïs atrás de delinqüentes. Ou uma história de excessos eqüestres levando ao uso freqüente de ünguentos. Ou simples cena doméstica. Müller e Anaïs na cozinha do seu apartamento, eqüidistantes de um pingüim em cima da geladeira. Müller acaba de chegar da rua com um pacote.

– Anaïs, esse pingüim…

– Quequitem?

– Eu não agüento esse pingüim, Anaïs.

– Ele está aí há cinqüenta anos e só agora você nota?

– Cinqüenta anos, Anaïs?

– Está bem, cinco. Um qüinqüênio.

– Não se usa mais pingüim em geladeira, Anaïs. É uma coisa do passado. Como o trema.

– Pois eu gosto e está acabado. O que você trouxe nesse pacote?

– O que mais poderia ser? Lingüiças. As ultimas com trema que tinham no super.

Pronto. Acho que estou redimido. Adeus, trema. E desculpe qualquer coisa.”

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[1] Jornal diário de maior tiragem no Rio Grande do Sul.