Israel

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Mar Morto ou “Vale do Sidim” (Génesis, 14), o ponto mais baixo da superfície terrestre.

1- O RELATO BÍBLICO

Israel e um país muito diferente de todos os outros. As diferenças são tantas que é praticamente impossível enumerá-las. Israel existe desde os tempos bíblicos de Abraão, Moisés e Josué; das tribos israelitas, dos reis David e Salomão. O cristianismo, a maior religião dos nossos dias[1], apareceria milhares de anos depois, com Jesus, como alternativa ao judaísmo. Só uns séculos mais tarde surgiria, em continuidade[2] mas também em rutura, a terceira grande religião monoteísta – o islamismo. Estas três confissões convivem lado a lado em Israel, sobretudo nessa cidade verdadeiramente mítica chamada Jerusalém, e as relações entre elas, como se sabe, são historicamente conflituosas. Não é possível, por muito que se queira, compreender o que se passa em Israel sem abordar as questões relativas à religião.

Talvez não seja má ideia iniciarmos essa abordagem pelo princípio, pelas origens do povo de Israel. A única fonte que temos para isso é a Bíblia[3], particularmente, os seus primeiros cinco livros, o Pentateuco[4], que para os judeus constituem a Tora, ou seja, a “Lei”. De acordo com o relato bíblico, o patriarca deste povo foi Abraão, um pastor nómada da Caldeia, no Sul da Mesopotâmia, que, rejeitando as crenças pagãs, recebeu a revelação da existência de um único Deus criador do Universo. Outras culturas, antes de Abraão, haviam concebido a existência de um só Deus, atribuindo-lhe uma essência física, mas Abraão foi o primeiro a receber a revelação de um Criador Uno e Universal, cuja essência é invisível e inconcebível para os seres humanos. Em hebraico, Abraão é designado como Ivri, que provavelmente significa “vindo do outro lado”. É de Ivri que deriva a palavra “hebreus”, primeira designação do povo judaico.

Abraão sentiu necessidade de se afastar da terra de seus pais e seguiu para a terra de Canaã, situada entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, estabelecendo-se num local que mais tarde viria a chamar-se Deserto do Neguev, região que ocupa a metade sul do Israel atual. Foi aí que Abraão teve os seus dois filhos, Ismael e Isaac. O primeiro era filho de Agar, uma escrava que Sarah, a mulher de Abraão, ofereceu ao marido para procriar, já que, segundo pensava, era infecunda. Tal, porém, não era verdade e Sarah acabou por dar à luz o segundo filho de Abraão, Isaac. Ismael é considerado o primeiro antepassado do povo árabe (por isso, também conhecido como ismaelita) e Isaac o segundo patriarca dos israelitas[5]. Isaac, por sua vez, teve dois filhos, Esaú e Jacob, a quem atribuíram posteriormente o nome de Israel. Jacob, além de algumas filhas, teve 12 filhos. Estes ficariam conhecidos até hoje como os “filhos de Israel” ou israelitas.

Os israelitas tiveram de enfrentar um período largo de seca extrema e a única hipótese de sobrevivência que tinham era abandonarem a terra de Canaã. Foi assim que deixaram a sua terra e se dirigiram ao Egito. Aqui não havia fome porque um ministro previdente tinha armazenado comida suficiente para alimentar todos. De acordo com o relato biblico, esse ministro, de nome José, era afinal um dos israelitas e naturalmente recebeu-os de braços abertos, tendo permitido que estes se fixassem e multiplicassem no fértil vale do Nilo. Passaram-se muitos anos, as primeiras gerações morreram, e novos faraós tomaram o poder no Egito. Para estes, os israelitas não passavam de um povo estrangeiro e, como era natural naquela época, foram feitos escravos. Este período de escravidão durou 430 anos, até que surgiu Moisés, um líder carismático, que convenceu o seu povo a fugir da escravidão e regressar à terra de Canaã.

No entanto, algo inesperado aconteceu durante a viagem. Em condições normais o percurso duraria cerca de uma semana, que é o tempo necessário para percorrer a pé a distância entre o delta do Nilo e Gaza, a cidade costeira que se situava no Sul de Canaã. Mas não foi por aí que Moisés conduziu o seu povo. Alegando que existiriam perigos se seguissem por aquele itinerário, Moisés convenceu os israelitas a fazer um desvio através do deserto, o qual levaria uns impressionantes quarenta anos a percorrer, o tempo suficiente para que a geração que tinha vivido a escravidão perecesse, e uma nova viesse substituí-la. Foi durante esse desvio que Moisés recebeu de Deus, no Monte Sinai[6], as duas tábuas de pedra com os “Dez Mandamentos”, pelos quais se regem também os cristãos, mas que, para os judeus, são apenas uma súmula da muito mais alargada “Lei de Moisés”, a Tora, pela qual têm de se reger.

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O Deserto da Judeia.

É muito importante realçar que, de acordo com as Escrituras, os israelitas foram o povo escolhido por Deus para cumprirem essa Lei e não, como muitas vezes se ouve, o povo “eleito”. Eles foram escolhidos para se submeterem a uma série de obrigações. (O rigor da Tora apenas obriga este povo e nenhum outro, e é por isso que não existe proselitismo na religião judaica). A tribo de Moisés tinha ainda mais obrigações que as outras. Quando a terra de Canaã foi distribuída pelas tribos, Moisés não atribuiu nenhum quinhão à sua, a tribo de Levi. Esta teria apenas uma função sacerdotal, estando os seus membros, os levitas, sujeitos a maiores obrigações que os membros das restantes tribos. Quando Moisés chegou, com 120 anos de idade, à vista da Terra Prometida, esta, naturalmente, estava ocupada e não foi ele quem ali reinstalou o povo de Israel. Isso incumbiria ao seu sucessor, Josué[7], a quem Moisés atribuiu o comando, pouco antes de morrer, no cimo do monte Nebo, avistando em baixo a Terra de Canaã.

Alguns habitantes daquela terra abandonaram-na à chegada dos israelitas, mas aqueles que escolheram ficar foram bem tratados, pois assim o exige a Tora. As tribos israelitas instalaram-se finalmente em Canaã. Os primeiros governantes do território foram juízes, mas os israelitas queriam ter um rei como os outros povos, e conseguiram-no. O primeiro rei foi eleito em 1079 a.C, e o seu nome era Saul. Seguiram-se-lhe David e, depois, Salomão, o construtor do primeiro Templo em Jerusalém. Após a morte de Salomão, devido a questiúnculas relacionadas com a sucessão, deu-se a cisão entre as doze tribos. Dez delas separaram-se e formaram um novo reino de Israel, sob o cetro de Joroboão, com capital em Samaria. Ficaram as tribos de Judá, Benjamim e a sacerdotal de Levi, sob o reinado de Roboão, que no seu conjunto constituíam o reino de Judá. Naturalmente, os cidadãos deste reino eram os judeus. A sua capital era Jerusalém, onde estava o Templo de Salomão.

Da divisão e disputas entre as tribos israelitas resultou uma maior vulnerabilidade a ataques do exterior. O rei da Assíria, Senaqueribe (705-681 a.C) subjugou os dois reinos, tendo destruído Samaria e obrigando o rei de Judá a ficar seu tributário. Levou os israelitas para o exílio, à exceção de uns quantos que se refugiaram no reino de Judá. Os restantes israelitas foram absorvidos por outras nações e constituem o que ainda hoje se chama “as dez tribos perdidas[8)”. Em 587 a.C., chegou também ao fim o reino de Judá. O rei da Babilónia, Nabucodonosor II, derrotou os judeus e destruiu Jerusalém e o Templo, levando os seus habitantes para o exílio na Babilónia. Esse exílio, porém, durou pouco mais de cinquenta anos, uma vez que a Babilónia foi conquistada em 539 pelos persas, comandados por Ciro. Este governante era generoso para os seus súbditos e incentivou os judeus a regressarem à sua terra e a  reconstruírem o Templo. Foi assim que, sob o reinado de Zerobabel, e orientação do escriba Esdras, os judeus voltaram a erguer um templo, exatamente no local onde se situava o primeiro. No entanto, se o primeiro Templo fora construído por um reino soberano, o segundo não. Desde então o povo israelita não teria um território independente até 1948, quando se formou o moderno estado de Israel.

Em 63 a.C. o general romano Pompeu conquistou a Judeia. Houve muitas revoltas até que, no ano 70 da nossa era, Tito Vespasiano subjugou os resistentes, acabando por destruir o Templo, do qual escapou apenas o seu Muro Ocidental, onde ainda hoje os judeus rezam, em memória do Templo perdido. A original Terra de Israel era agora uma pequena província do vasto Império Romano. Os judeus pagariam caro o desrespeito à Tora. Deus tinha-os avisado, através de Moisés, sobre as consequências do desrespeito da Lei. A divisão das tribos fora um grave erro que o Povo haveria de pagar com um novo exílio, após os do Egito e da Babilónia. Este novo exílio haveria de durar cerca de 2.000 anos. É preciso notar que os judeus o aceitaram, pois fora previsto por Moisés. Aceitaram o Galut como uma forma de expiar as suas culpas, até que Deus lhes outorgasse, através do Messias prometido, o direito de regressarem de novo à sua terra.

Tito Vespasiano mudou o nome a Jerusalém, que temporariamente passou a chamar-se Aélia Capitolina, e mudou o nome da Terra de Israel para Syria Palestina. “A palavra “Palestina” deriva do grego Philistia, nome dado a uma parte do território da Terra de Israel, onde se haviam fixado, no século XII a.C., os filisteus, povo não-semita, proveniente da ilha de Creta[9]”. É daí que resulta o nome de Palestina – ao qual hoje corresponde um estado reconhecido por cerca de 2/3 dos países mundiais, mas que os restantes (ainda) não reconhecem – um Estado que mantém um conflito permanente com Israel. Mas isto é matéria que abordaremos um pouco mais à frente.

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A Cruz de Jerusalém numa das portas da igreja de Santa Maria Madalena, em Jerusalém

2- A DIÁSPORA

Uma das questões com que os judeus se preocuparam desde o início da Diáspora foi com as diferentes interpretações e adaptações das normas da Tora, uma vez que a sua dispersão geográfica poderia fazer com que essas interpretações evoluíssem em diferentes sentidos, perdendo a unidade que se considerava fundamental. Houve algumas reuniões que os judeus realizaram para discutirem esta matéria e delas resultaram textos que constituíram a base para a compilação do Talmude (que quer dizer “ensino”). “Os sábios do Talmude principiaram logo por formular uma estrutura legal e religiosa que não se afastasse dos princípios da Tora”[10]. Um importante centro de estudo foi a cidade de Sura, na Babilónia, onde, no século III, o rabino Rav Abba Arika fundou uma importante academia. Outras foram abertas nas cidades vizinhas de  Nehardea e Pumbedita. Os trabalhos desenvolvidos nestas academias estão na origem do importante Talmude Babilónico[11].

Assim, os israelitas manteriam as suas referências, costumes e religião, estivessem onde estivessem, por quase dois mil anos. São conhecidas tradicionalmente as duas grandes comunidades judaicas na Europa, uma no Centro e Leste, os ashkenazi, e outra a Oeste, na Península Ibérica, os sefarditas, para onde os judeus emigraram, embora uma grande parte deles tenha ficado mesmo pelo Norte de África. A partir destas regiões os judeus expandiram-se por todo o mundo. Como é sabido, os judeus da Península Ibérica tiveram de fugir da Inquisição, no século XV[12], e a maior parte deles foi para a Holanda, os Balcãs e até para territórios otomanos do Médio Oriente. Mais tarde, levados pela colonização europeia, os judeus chegaram ao continente americano. Há também os judeus etíopes, que são conhecidos por Beta Israel e os judeus do Yémen, entre outras comunidades.

Como se sabe, a perseguição aos judeus não se limitou ao período da Inquisição. O antissemitismo é um movimento que existe em todo o mundo ainda hoje, e que recrudesceu enormemente nos séculos XIX e XX, no Centro e Leste da Europa, sobretudo em países como a Rússia e a Alemanha. Hannah Arendt reconhece dois ramos distintos do antissemitismo – um inspirado no “antagonismo de duas crenças em conflito” e outro, por assim, dizer, “leigo”[13]. O primeiro é muito mais notório no período inquisitório e o segundo (não completamente imune à influência do primeiro) nos séculos XIX e XX[14]. Curiosamente, o antissemitismo religioso volta a recrudescer no século XXI. O ódio aos judeus é, pois, quase ancestral. Considerados por muitos como usurários, os judeus viram o seu sucesso nos negócios, no comércio e na banca ser alvo da inveja e da incompreensão, inclusive, de alguns famosos intelectuais. É o caso, por exemplo do expatriado poeta americano, Ezra Pound, um apoiante de Hitler e Mussolini, que apelidou os judeus de parasitas que tomavam o dinheiro da sociedade. Além disso apelidou-os ainda de oleosos, selvagens, indolentes, imundos, vermes, piolhos, tumores, pestes, pragas, serpentes, verrugas e sífilis[15].

Este ódio insensato e absolutamente irracional está bem patente nesta frase assassina de Heinrich Himmler: O antissemitismo é exatamente a mesma coisa que catar piolhos, não é uma questão de ideologia, é uma questão de limpeza[16]. Porquê? Qual a razão de tamanho ódio? Hannah Arendt tenta compreender as causas da aversão aos judeus na sua obra Origens do Totalitarismo, particularmente no primeiro capítulo, precisamente sobre o antissemistismo, talvez o trabalho mais exaustivo ou, pelo menos, um dos mais conhecidos sobre o tema, mas nós, não esquecendo essa contribuição, resumiríamos as causas do antissemitismo a duas razões quiçá redutoras e, com certeza, primárias: a inveja, por um lado, e a necessidade, sempre latente, por outro, de se ter à mão um “bode expiatório”, quando se necessita justificar um fracasso ou uma guerra. Estas duas razões combinadas deram lugar a teorias conspiratórias, que visavam mostrar como os judeus tinham um plano secreto para dominar o mundo. Talvez o exemplo maior destas conspirações sejam os textos forjados que alegadamente comprovam o envolvimento judaico e maçon numa conspiração para destruir o mundo ocidental e governar o planeta, que ficaram conhecidos como os Protocolos dos Sábios do Sião[17]. Inventados ainda na Rússia czarista, viriam a ser usados por Hitler na sua louca campanha antijudaica[18].

Todo esse longo período que vai do fim do século XVIII até o fim da Segunda Guerra Mundial foi, assim, mais um período extremamente difícil para a comunidade hebraica, sobretudo a partir do que aconteceu, no ano de 1894, com o oficial judeu do Estado-Maior francês, Alfred Dreyfus, acusado injustamente de espionagem a favor da Alemanha, e condenado a deportação perpétua para a Ilha do Diabo. Seguiu-se uma guerra jurídica, com vários julgamentos, os quais, apesar das provas sobre a sua inocência de Dreyfus, nunca o ilibariam completamente. O caso contou com o envolvimento de Émile Zola – que escreveu uma célebre carta aberta ao Presidente francês, em defesa de Dreyfus, intitulada J’accuse! – e durante muitos anos dividiu a opinião pública em França.

Mas, como é conhecido, os principais massacres de judeus nos séculos XIX e XX foram, primeiro os pogroms[19], no Império Russo, e, posteriormente, o Holocausto. Morreram tantos judeus que os números não passam de estimativas, são impossíveis de contabilizar. Os pogroms começaram ainda na primeira metade do século XIX mas intensificaram-se muitíssimo entre 1881-84, sobretudo em Varsóvia, Kiev e Odessa, após o assassinato do Czar Alexandre II, acontecimento que, mais uma vez, foi considerado parte de uma conspiração judaica. Um outro período crítico decorreu entre 1903-06, com tumultos em mais de 60 cidades. Finalmente, surgiu o terror do Holocausto e o consequente número impressionante de judeus mortos – cerca de seis milhões – sendo que mais de um milhão foram crianças. Cerca de 2/3 dos judeus europeus desapareceram e muitos dos que não morreram passaram a ser considerados apátridas – eram como párias, sem identidade ou cidadania. Isto parece ter despertado algumas consciências para a urgência de ser-lhes atribuído um lar, embora tal já tivesse sido decidido pelos britânicos durante a Grande Guerra e a ideia fosse parte integrante e principal motivo da criação do movimento sionista, em finais do século XIX.

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Mar da Galileia, o maior reservatório de água doce de Israel.

3- REGRESSO A CASA (O SIONISMO)

O movimento sionista surgiu como resposta aos primeiros pogroms, na Rússia, que, como vimos, se intensificaram a partir de 1881, ano do assassinato do czar Alexandre II, em São Petersburgo. O seu sucessor, Alexandre III, considerava os judeus “um cancro social”, tendo promulgado leis anti-semitas e fomentado a repressão aos judeus. Fervoroso adepto da Igreja Ortodoxa, nomeou o seu irmão, o grão-duque Sergei Alexandrovich, presidente da Sociedade Imperial Ortodoxa da Palestina, com o objetivo de reforçar a presença ortodoxa na Terra Santa. Sergei dirigiu-se a Jerusalém e mandou construir no sopé do Monte das Oliveiras a Igreja de Santa Maria Madalena, que fica mesmo em frente da Porta Dourada. Naquela época era habitual saírem do porto de Odessa, no Mar Negro, muitos navios carregados com peregrinos russos, rumo à Palestina. Em 1891, Sergei foi nomeado Governador-Geral de Moscovo e imediatamente expulsou 20.000 judeus da cidade. Estes pogroms fizeram com que muitos judeus se tornassem socialistas e muitos mais abandonassem a Rússia, na primeira grande Aliyah (palavra que significa “fuga para local mais elevado”), em direção a Sião, a Montanha Sagrada de Jerusalém. Embora a maioria dos judeus fugisse para a América (mais de milhão e meio), centenas de milhar fugiram para a Palestina. Em 1890, dos  cerca de 40.000 habitantes de Jerusalém, 25.000 eram judeus.

Estes acontecimentos abalaram profundamente um crítico literário de Viena, chamado Theodor Herzl, que até então não se tinha preocupado com o sionismo. Ele não seguia a religião judaica – montava árvores de Natal em casa e não tinha mandado circuncidar o filho – estava completamente integrado na sociedade vienense. Mas quando, em 1895, foi eleito para presidente da câmara de Viena um tresloucado antissemita, Karl Lueger,     Herzl concluiu que os judeus só alcançariam a paz se um dia tivessem um lar. A partir daí não parou. Foi a França cobrir o caso Dreyfus; presidiu ao primeiro Congresso Sionista, em 1987, na cidade suíça de Basileia; intercedeu, sem sucesso, junto de Guilherme II, o soberano alemão que detestava judeus[20], para que este, por sua vez, intercedesse junto do sultão turco. Porém, após se ter convencido de que não podia contar com o kaiser nem com o sultão para o seu intuito de criar um lar para os judeus na Palestina, Herzl conjeturou sobre outros locais que lhes servissem de pátria, nomeadamente, Chipre e El Arish, no Sinai, ambos sob domínio britânico. Não conseguiu. No VI Congresso Sionista, Theodor Herzl procurou que fosse aceite a hipótese-Uganda mas isso apenas dividiu os congressistas e tudo ficou na mesma[21]. Herzl morreu com 44 anos, mas o seu esforço não foi em vão. Nessa altura, o sionismo era já um movimento imparável e um jovem judeu russo, chamado David Grün, chorava a morte do seu herói. Anos depois também ele seria um herói para muitos – como, aliás, o é ainda hoje – já depois de mudar o nome para David Ben-Gurion.

A luta sionista prosseguiu depois de Herzl, sobretudo através de outro jovem russo que, face às ligações que tinha com membros do governo britânico, acabaria por conquistá-los para a sua causa. O seu nome era Chaim Weizmann e tinha fugido da Rússia para estudar na Alemanha e na Suíça, radicando-se depois em Manchester, aonde chegou com 30 anos para dar aulas de química na universidade. Weizmann foi chamado por Churchill para ajudar os ingleses na Primeira Guerra Mundial (1914-18),[22] colocando ao serviço da Grã-Bretanha os seus conhecimentos de química. Foi nesse período (1915) que conheceu outro importante político inglês – Lloyd George, Ministro da Guerra, e a partir de dezembro de 1916, Primeiro-Ministro. Weizmann era também amigo de Arthur Balfour, autor da célebre carta que em 1917, enquanto secretário britânico dos Negócios Estrangeiros, dirigiu ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica no Reino Unido, afirmando: o governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina de um Lar Nacional para o Povo Judaico, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo[23]. A França e a Itália ratificaram de imediato a Declaração de Balfour e os Estados Unidos fizeram-no em agosto de 1918. Mais tarde, o documento seria também incluído no Tratado de Sèvres, que selou a paz com o Império Otomano. Entretanto, já França e Inglaterra tinham feito, em 1916, um acordo secreto (Sykes-Picot), o qual foi remodelado com um novo acordo (St. Jean de Maurienne), no ano seguinte, que envolveu também os italianos, para dividirem entre si os ainda territórios otomanos a Sul da Anatólia.

Mas para isso era preciso ganhar a guerra e os britânicos tiveram um primeiro desaire contra os otomanos em Gallipoli. Tentaram então o apoio dos árabes e negociaram com o xerife e emir de Meca, Hussein, as condições de uma revolta árabe contra os turcos. Evidentemente, foram prometidas compensações territoriais aos árabes, embora os ingleses procurassem ser o mais ambíguos que podiam, pois não queriam comprometer-se. T. E. Lawrence, um intrépido oficial inglês, acabaria por conduzir os árabes na revolta, acompanhado por um dos quatro filhos de Hussein, o príncipe Faisal. Praticaram vários atentados, fazendo explodir pontes e caminhos de ferro. Lawrence, após conhecer o Acordo Sykes-Picot, sentiu-se envergonhado e chegou a afirmar: estamos a pedir-lhes que combatam por nós com base numa mentira, e eu não suporto isto[24]. Ele, que admirava a pureza dos árabes do deserto, acabou por contar a verdade sobre aquele acordo a Faisal – e sugeriu um plano para o corrigir. Se fosse o exército árabe a conquistar a Síria, os franceses (que esperavam ficar com esse território) não conseguiriam depois expulsá-los… Assim, Lawrence da Arábia[25] conduziu as forças de Faisal pelo deserto da Jordânia, forçando-as a uma viagem de 450 quilómetros, até conquistarem o porto de Aqaba. A 28 de junho de 1917, sir Edmund Allenby chegou ao Cairo para assumir o comando do exército britânico e uma semana depois chegava Lawrence, que, vestido de beduíno, e após uma viagem de quatro dias – de camelo, de comboio e de barco – o vinha informar da tomada de Aqaba. Allenby nomeou-o e ao seu Corpo de Xerifianos a Camelo como ala direita do exército britânico. Estes dois ingleses, talvez os principais responsáveis, cada um em sua frente e com sua estratégia militar, pela derrota dos otomanos no Médio Oriente, chegariam juntos à cidade de Jerusalém, quando esta foi reconquistada, em dezembro de 1917.

Em 8 de março de 1820, Faisal foi proclamado rei da Síria, mas rapidamente os franceses derrotaram o seu reduzido exército, impondo-se como donos da região. A vontade de Lawrence, porém – de que os britânicos mostrassem algum respeito pelo xerife Hussein e seus filhos, depois das promessas que lhes tinham feito – também haveria de ser minimamente satisfeita. Na primavera de 1921, Lawrence da Arábia e o ministro britânico das Colónias, Winston Churchill, deslocaram-se a Jerusalém. Lawrence foi encarregado de convencer o velho Hussein a aceitar a hegemonia inglesa e francesa na região, pois de outra maneira o financiamento britânico esgotar-se-ia. Hussein protestou, mas a posição da sua dinastia ficou ainda mais fragilizada quando foi derrotado pelo saudita Ibn Saud, o mesmo acontecendo, posteriormente, aos seus filhos Ali (que lhe sucedeu) e Abdullah, tendo este escapado milagrosamente de um ataque pelas traseiras da sua tenda. Ibn Saud autoproclamou-se rei do Hejaz e da Arábia Saudita (reino que a sua família ainda governa). Como resultado destes acontecimentos, Faisal conseguiria apenas o reino do Iraque e Abdullah ficava sem nada. Só que mais uma vez Lawrence entrou em ação e compareceu com Addullah a uma reunião com Churchill. O ministro das Colónias, que admirava Lawrence da Arábia, ofereceu a Transjordânia a Abdullah, que, embora relutante (pois sonhara com um grande império hachemita onde vivessem pacificamente árabes e judeus), aceitou[26]. Lawrence tinha cumprido a missão de conduzir Faisal e Adullah, cada um a seu trono, não defraudando a confiança que ambos haviam depositado nele. E assim se dividiu a Palestina (que ficara sob mandato britânico[27] em duas partes: uma a oriente do rio Jordão, denominada Transjordânia, que se tornaria independente em 1928 (após um tratado anglo-jordano), e outra parte, do rio Jordão até o Mediterrâneo, que os britânicos administraram diretamente até 1948, cuja área correspondia aos atuais territórios de Israel, da Faixa de Gaza e a da Cisjordânia[28].

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O processo de amadurecimento – das plantas, das pessoas, de tudo em Israel – é acelerado.

A vida não foi fácil para os britânicos durante o mandato. Os árabes palestinianos estavam descontentes com a Declaração de Balfour e os conflitos eram frequentes, sobretudo em Jerusalém. Os judeus continuavam a chegar à Palestina e começaram a organizar-se política e militarmente. O chefe político máximo era Ben-Gurion, o líder flexível mas determinado da Agência Judaica, um socialista laico, que desde o início sonhara com uma Palestina unida, que integrasse os povos judeu e árabe no seu seio, até reconhecer bastante mais tarde, com pragmatismo, que tal não era possível. Tendo em conta os ataques dos árabes palestinianos, os judeus organizaram-se também militarmente. Em 1920 criaram a Haganah (palavra que quer dizer “defesa”), uma milícia que tinha por missão principal proteger os colonos rurais. Mais tarde, uma facção da Haganah separou-se desta e os seus nacionalistas militantes fundaram a Organização Militar Nacional. Entre 1936 e 1945 deu-se a chamada Revolta Árabe, comandada pelo mufti (líder espiritual dos muçulmanos) Amin al-Husseini, em Jerusalém, que os britânicos tiveram muita dificuldade em controlar. Perante os ataques aos judeus, estes responderam com vários atentados contra os árabes. Com a deflagração iminente da Segunda Guerra Mundial, os britânicos tiveram de recrutar militares destacados na Palestina, pelo que recorreram aos judeus para conterem as ofensivas dos árabes palestinianos. Um capitão inglês colocado em Jerusalém no ano de 1936 convenceu o Alto-Comissário, Arthur Wauchope, a deixá-lo treinar os judeus e a responder aos árabes com a mesma moeda. O seu nome era Charles Orde Wingate, criador dos Esquadrões da Noite, compostos por judeus, que lançaram o terror junto das hostes árabes. Os britânicos continuaram a treinar os judeus durante mais algum tempo, incluindo o período da Segunda Guerra Mundial. Os 25.000 judeus treinados foram muito importantes como base do futuro exército de Israel.

No entanto, subitamente, a política britânica para a Palestina mudou. No início de 1939, o Primeiro-Ministro inglês, Neville Chamberlain, promoveu vários encontros entre judeus e palestinianos, tendo em vista a obtenção de um acordo, que parecia impossível. Assim, no dia 17 de março desse ano, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Malcolm MacDonald, apresentou uma proposta por escrito que invertia completamente a Declaração de Balfour, proibindo a criação de um estado judeu. Incrivelmente, por manifesta incompetência política mas também por arrogância megalómana, o mufti rejeitou-a. Por seu turno, Ben-Gurion preparou a milícia Haganah para o combate contra os britânicos. Em setembro rebentou a Segunda Guerra Mundial. No decorrer da mesma, mais concretamente no segundo semestre de 1941, o mufti deslocou-se à Europa e encontrou-se com Mussolini, em setembro, e com Hitler, em Novembro. Foi a oportunidade dos três demonstrarem como os unia o ódio aos judeus. Num discurso proferido em 1943, em Berlim, Husseini afirmou que os judeus vivem como parasitas entre os povos, sugando-lhes o sangue, pervertendo-lhes a moral (…) A Alemanha decidiu muito claramente encontrar uma solução definitiva para o perigo judaico, uma solução que eliminará a calamidade que os judeus representam para o mundo. No entanto, já com Winston Churchill como primeiro-ministro, britânicos e judeus voltaram a cooperar, face à necessidade que tinham de se libertar da tenaz inimiga que ameaçava a Palestina: as forças do eixo no Norte de África e a França de Vichy na Síria. Os ingleses criaram a Palmach, uma pequena força de comandos judeus, dispostos a lutar contra os nazis. Foi numa missão da Palmach no Sul do Líbano que Moshe Dayan (que viria a ser o grande comandante da ofensiva israelita de 1967), enquanto observava a movimentação do inimigo com uns binóculos, levou um tiro e perdeu a vista esquerda.

Apesar dessa colaboração, alguns dissidentes da Irgun, desiludidos com a política britânica, nomeadamente com as restrições impostas em 1939, começaram a levar a cabo atentados contra os ingleses. Eram comandados por Menachem Begin, que se viu obrigado a passar à clandestinidade, e por quem os britânicos ofereciam uma recompensa de 10.000 libras, morto ou vivo. A Agência Judaica, pela voz do sempre moderado Ben-Gurion, condenou os ataques terroristas e colaborou com as autoridades inglesas na perseguição às milícias dissidentes, conseguindo prender cerca de 300 dos seus elementos. Os britânicos, no entanto, estavam decididos a impedir a imigração de judeus na Palestina, mesmo quando estes fugiam dos campos de extermínio nazis. Tal atitude indignou o próprio David Ben-Gurion, que se juntou aos radicais, tendo todas as organizações combatentes acordado na constituição do Comando Unido da Resistência, que visava conseguir a entrada clandestina de judeus na Palestina e o combate aos ingleses. Estes passaram um mau bocado, sendo atacados impiedosamente em todo o território. O novo primeiro-ministro inglês, Clement Attlee, procurou então o apoio político do presidente americano, mas Truman, pelo contrário, apoiou publicamente a recomendação da Comissão Anglo-Americana para que os britânicos autorizassem imediatamente a entrada na Palestina de 100.000 refugiados judeus. Os americanos eram então, como são ainda hoje, os maiores aliados da causa judaica. Os ataques aos britânicos continuaram, ainda com mais violência, acabando por levar a uma nova cisão, pois Ben-Gurion, líder da Agência Judaica, condenava atentados terroristas, como aquele em que a Irgun fez explodir a embaixada britânica em Roma, no outono de 1946.

Churchill, agora na oposição, acusava Attlee de manter uma guerra esquálida e sem sentido contra os judeus, para entregar a Palestina aos árabes, ou sabe Deus a quem. De facto, a maioria dos governantes britânicos desta época odiava os judeus – fazendo jus à História dos últimos milénios. A 14 de fevereiro de 1947, durante uma reunião do governo, um Attlee completamente desgastado pela guerra acedeu em deixar a Palestina. Em 2 de abril, pediu às Nações Unidas que criassem uma Comissão Especial para a Palestina (a UNSCOP). Quatro meses depois, a UNSCOP propunha a divisão do território em dois estados[29], ficando Jerusalém sob administração internacional, com um governador nomeado pelas Nações Unidas (ver figura abaixo).

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O crescimento de Israel desde 1947.

4- O CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO

Embora as escaramuças entre muçulmanos e judeus tivessem começado muito antes, a guerra aberta, com a participação de exércitos nacionais, ocorreria após 1948. O Plano de Partilha da ONU para a Palestina foi aprovado em 29 de novembro de 1947, com 33 votos a favor, 13 contra e 10 votos nulos. A Alta Comissão Árabe, bem como os países da Liga Árabe (Egito, líbano, Síria e Jordânia) rejeitaram o plano, alegando que os judeus ficariam com uma área maior sendo uma população menor, bem como ficariam também com a melhor parte da mesma, nomeadamente o Mar da Galileia, o maior reservatório de água doce do território. Por seu lado, apesar de algum descontentamento por não ficar com Jerusalém, a Agência Judaica acabaria por aceitar o plano. Em 14 de maio de 1948, poucas horas antes de terminar o mandato britânico, já em ambiente de guerra civil, foi declarada a independência do Estado de Israel, por David Ben-Gurion. A reação dos estados árabes foi imediata e os combates iniciaram-se[30]. A Guerra de 1948 ficaria conhecida, em Israel, como Guerra da Independência. No fim da guerra, em 1949, os israelitas tinham ampliado significativamente o seu território, ocupando agora 75% do total. O restante era a Cisjordânia, ocupada pela Jordânia e a pequena Faixa de Gaza, ocupada pelos egípcios. A guerra provocou o deslocamento de 900.000 palestinianos para campos de refugiados, os quais constituem a chamada Questão Palestiniana, sem solução até hoje.

Em 1964 foi criada a Organização de Libertação da Palestina (OLP) e, no dia 5 de junho de 1967, em resposta ao bloqueio aos navios israelitas no Canal do Suez, imposto pelo Egito, e face a movimentações junto das fronteiras com Israel dos exércitos sírio e jordano, o exército israelita, comandado pelo general Moshe Dayan, lançou uma grande ofensiva “preventiva”. Atacou as bases aéreas egípcias no Sinai, enquanto forças terrestres avançavam  na mesma zona e também pela Faixa de Gaza. Os exércitos jordano (este apesar da relutância de Hussein em aceitar o comando egípcio) e sírio intervieram, mas o resultado foi a tomada por Israel da Cisjordânia e dos Montes Golã. Ao terceiro dia do conflito todo o Sinai estava controlado. A guerra foi rápida e veio confirmar a superioridade militar incontestável dos israelitas. O setor oriental de Jerusalém, até aí ocupado pelos jordanos, foi igualmente conquistado. Como resultado da guerra, o número de refugiados palestinianos aumentou significativamente na Jordânia e no Egito.

Em outubro de 1973 ocorreu uma nova guerra, que ficou para a História como Guerra de Outubro ou Guerra do Yom Kippur (um feriado judaico), entre outras designações. Desta vez, uma coligação sírio-egípcia tentou inverter o efeito de surpresa que Israel tinha provocado na Guerra dos Seis Dias. Nas primeiras horas isso aconteceu, os israelitas pareciam surpreendidos, mas logo recuperaram. Paulatinamente, foram conquistando terreno até penetrarem nos territórios egípcio e sírio, ficando a 100 quilómetros do Cairo e a 40 de Damasco, que foi intensamente bombardeada. A guerra terminou ao fim de 20 dias com a intervenção das Nações Unidas que propôs um cessar-fogo, o qual entrou em vigor no dia 25 de outubro de 1973.

(Façamos aqui uma pequena pausa, que nos parece importante. Desde a formação de Israel, em 1948, este estado teve um governo moderado, liderado pelo Partido Trabalhista, até 1977. Foram 30 anos muito importantes, com políticos prestigiados e conciliadores, como Teddy Kollek, respeitado por todos, incluindo os árabes, eleito cinco vezes pelo Partido Trabalhista para a Câmara de Jerusalém[31]. Em 1977, o governo israelita endureceu a sua política em relação aos palestinianos com a chegada ao poder do Likud (que significa “união”), partido que ainda hoje congrega as mentes israelitas mais conservadoras, naquela época liderado por Menachem Begin. Este era um político que sabia muito pouco acerca do mundo árabe, e nunca deixara de ser o filho de um shtetl polaco, o vigoroso nacionalista que tinha uma visão maniqueísta do combate judaico, uma ligação emocional ao judaísmo e uma visão bíblica de Israel[32]. A visão que provavelmente perdura na mente do atual líder do Likud, Benjamin Netanyahu. Há pois uma diferença muito significativa na política israelita consoante estão no poder moderados ou radicais.)

Em 1978 e 1982 Israel fez incursões no Líbano de onde só se retiraria completamente no ano 2000. Em 1987 começou a Primeira Intifada que durou cerca de seis anos e provocou mais de mil mortos. Em 1993, no seguimento dos Acordos de Paz de Oslo, – que constituíram, talvez, a última grande esperança mas que, infelizmente, nunca chegaram a ser integralmente cumpridos – foi criada a Autoridade Palestiniana. Após a tentativa de mais um acordo, rejeitado por Yasser Arafat em Camp David, em 2000, começou a Segunda Intifada[33]. Esta Intifada foi mais violenta que a primeira e alastrou a Jerusalém e outras cidades israelitas e da Cisjordânia. Morreram cerca de 3.500 palestinianos e 1.000 israelitas. A partir de 2001, Ariel Sharon começou a construir muros na Cisjordânia, como resposta aos ataques terroristas. Em 2004 morreu Yasser Arafat e a Autoridade Palestiniana elegeu para o substituir Mahmud Abbas. Em 2005 os palestinianos dividem-se em dois partidos, um moderado (Fatah) e outro radical. Este último, o Hamas, que não reconhece Israel, passa a dominar a Faixa de Gaza, de onde lança mísseis para o território israelita. Em 2009 tropas israelitas entram em Gaza. Em 2012 e 2014, Israel lançou novas ofensivas sobre este território. Não é expectável que se fique por aqui.

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O muro construído por Israel em Belém, na Cisjordânia.

5- ISRAEL, HOJE

O que escrevemos acima, já era de uma forma geral do nosso conhecimento. Restava-nos ver com nossos olhos. Queríamos falar com as pessoas, saber como viviam e o que pensavam, por isso chegámos a Israel com uma enorme expectativa. E os israelitas são de facto diferentes. Algo que nos impressionou logo à chegada foi a presença de jovens em todo o tipo de tarefas de controlo. Os nossos passaportes ficaram retidos durante dois dias no navio, ainda no mar, após um controlo presencial a que todos os passageiros tiveram de se submeter. Fomos controlados por jovens funcionários à saída do navio, as nossas bolsas e mochilas passadas pelo raio-x e novamente, à saída do porto, todos os veículos foram controlados. Os jovens (rapazes e raparigas) levam a cabo estas tarefas com uma enorme naturalidade. Aos 18 anos – a idade em que os nossos miúdos praticamente deixam de usar fraldas – eles demonstram uma maturidade invulgar, como se fizessem isto há séculos. Sam, um taxista com quem viajámos e conversámos, explicou-nos que os jovens em Israel crescem mais depressa. Quando completam 18 anos eles têm pela frente três anos de serviço militar e elas dois. Muitos, ao fim dos primeiros seis meses de recruta, estão aptos para cumprirem estas tarefas de controlo. Depois de cumprirem o serviço militar obrigatório, os homens passam à reserva até aos 50 anos, podendo ser chamados a qualquer momento em caso de necessidade.

Há quem considere esta preocupação com a segurança uma verdadeira obsessão, mesmo dentro de Israel. A unanimidade não existe, apesar da segurança dos cidadãos ser uma preocupação generalizada, por razões óbvias. A pluralidade de opiniões e posicionamentos políticos existe de facto em Israel – uma verdadeira democracia – e as visões sobre a forma de lidar com os vizinhos são diversificadas. Porém, a maioria reconhece, por experiência própria, que o país tem de estar preparado para se defender. Este sentimento de sobrevivência é um forte fator de união entre os israelitas. Todas as famílias viveram já momentos de sobressalto e muitas contam mortos e feridos no seu seio, vítimas da guerra ou do terrorismo. Os israelitas penaram muito para aqui chegar. É compreensível que queiram viver em paz e é impressionante que, em condições extremamente adversas, o tenham quase conseguido. É certamente mais seguro viver aqui do que em muitos países que não têm inimigos junto às suas fronteiras, como tem Israel.

Apesar de se saber que a paz, no que se refere ao Médio Oriente, é sempre instável, Israel mantém atualmente boas relações com o seu vizinho mais a Norte, o Líbano; as relações com a Jordânia são estáveis, após um acordo de paz que vigora desde 1994, e existe também um acordo com o Egito. A Síria parece ser o país fronteiriço com o qual Israel mantém, hoje, relações mais instáveis, embora a Síria esteja envolvida num grave conflito interno[34]. Face a esta situação, não admira que a indústria militar seja a segunda maior em Israel, depois da agricultura[35]. A terceira maior indústria é a dos diamantes. Os israelitas são os maiores talhadores mundiais e os diamantes em Israel são melhores e cerca de 25% mais baratos do que os que se podem encontrar em qualquer outra parte do mundo. Israel é também muito forte nas indústrias de ponta: satélites, chips para computadores e telemóveis, instrumentos médicos de alta tecnologia[36]. Isto é perfeitamente natural, se considerarmos que mais de quarenta israelitas já conquistaram o Prémio Nobel nas áreas cientificas.

O nível de vida em Israel é alto. Face ao esforço de defesa[37], os cidadãos pagam entre 50 a 60% de impostos. Mas têm direito a educação de qualidade, gratuita, e o serviço público de saúde é igualmente gratuito e de qualidade superior. Muitos dos cirurgiões israelitas são os melhores do mundo nas respetivas áreas. Por todo o território nos deparamos com o crescimento de cidades, erguidas com meleke[38], um tipo de pedra calcária, branca, que se encontra, sobretudo, nas colinas da Judeia e na Cisjordânia. Estas novas cidades, bem como as antigas, são ligadas por uma excelente rede de transportes, apesar dos engarrafamentos frequentes nas entradas e saídas das principais cidades, face ao número elevadíssimo de veículos. Telavive é uma dessas cidades. O seu dinamismo é visível mesmo numa abordagem superficial. Trata-se certamente de uma das mais desenvolvidas metrópoles mundiais e a sua movida noturna é algo que nunca tínhamos visto em qualquer outro lado. Bares e esplanadas cheios, milhares e milhares de jovens confraternizando ao longo dos largos passeios, a perder de vista. De realçar que a temperatura do ar das noites de Telavive, mesmo no fim de outubro, é igualmente elevada. Esta é a cidade mais ocidentalizada de todo o território israelita – aberta, cosmopolita, laica – conhecida como a Bolha, muito diferente da conservadora Jerusalém.

A questão religiosa é, na verdade, o problema mais complicado de resolver. A paz é mais difícil cada vez que os ultraortodoxos conseguem representar-se no Executivo israelita. Há várias tendências dentro daquele grupo, algumas que os crentes seguem cegamente, com práticas bastante estranhas para nós. Por exemplo, é absolutamente interdito o sexo antes ou fora do casamento e não é permitido fazer seja o que for durante o sabbath[39]; as mulheres são consideradas impuras pelo simples facto de menstruarem, e os homens cobrem-nas com um pano, deixando apenas um orifício na zona do sexo, quando fazem amor com elas. Felizmente, nem todos são ultraortodoxos, havendo também crentes não-praticantes e ateus, embora cerca de 55% dos israelitas se considerem judeus. Deste equilíbrio de forças no seio de Israel dependerá, em muito, a convivência, mais ou menos pacífica, com os palestinianos. O avanço israelita na Cisjordânia[40] é muito difícil de justificar (e igualmente muito difícil de parar). A paz, nestas condições, afigura-se extremamente difícil. O problema de Jerusalém constitui também uma tarefa árdua de resolver. Os crentes judaicos mais radicais não aceitam que uma mesquita tenha sido erguida sobre as ruínas dos Templos de Salomão e de Esdras. A cidade é um autêntico barril de pólvora[41], sobretudo pelas tensões que provoca entre judeus e muçulmanos. Talvez o tempo seja o melhor amigo de uma convivência pacífica. Entretanto, a única possível parece ser a paz imposta e não uma paz acordada, mas, ainda assim, talvez esta situação seja preferível à guerra permanente. É justo, porém, dizer que essa paz imposta tem sido demasiado dura para os palestinianos, sobretudo nos últimos vinte anos – o período do pior Israel de sempre, fechado ao diálogo, apostado numa opressão quase irracional aos árabes palestinianos, vistos como eternos inimigos.

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A gente desta terra demonstra um amor inequívoco à Eretz Yisrael.

Cientes de que muitos dos que aqui vivem, judeus, cristãos ou árabes (sobretudo estes últimos), passam grande parte do seu tempo de vida entre a esperança e o desespero, deixámos Israel. Depois desta viagem podemos afirmar que a nossa perspetiva sobre os israelitas mudou, e que é preciso ir a Israel para (pelo menos tentar) compreendê-los. Uma grande parte da aversão aos judeus deriva de um preconceito cultural, mesmo que essa aversão não seja consciente e se baseie em mitos, propaganda e ignorância histórica. Quase em todo o lado nos apresentam os israelitas como opressores e os palestinianos como um povo subjugado. Mas esta história não tem 30 anos, tem mais de 3.000. Quando falamos em judeus e palestinianos há algo que, desde logo, induz a maioria de nós em erro.  A palavra –  “palestinianos” – leva-nos a concluir que aqueles a que chamamos hoje “palestinianos” são os habitantes desde sempre da Palestina, e os judeus os intrusos que lhes roubaram a terra. Mas isto não é verdade. Sempre houve israelitas na Palestina, e até antes de existir a Palestina já existiam judeus naquela terra. Os israelitas da primeira metade do século XX eram chamados de “palestinianos” ou judeus palestinianos, assim como os (únicos) que agora são apelidados de “palestinianos” eram chamados de árabes palestinianos. Havia um jornal sionista cujo título era Palestina e um jornal árabe chamado Filistina.

A situação mais difícil de resolver em Israel é a de Jerusalém, sobretudo na Cidade Velha, onde os conflitos não ocorrem apenas entre crentes das três religiões principais, mas também entre radicais e moderados, entre seitas, ramos e igrejas dentro de cada religião. Por exemplo, a Igreja do Santo Sepúlcro tem de ser dividida entre ortodoxos, católicos, coptas, etíopes e arménios, o que obriga a uma convivência que nem sempre é pacífica. Por outro lado, as três grandes religiões do Livro têm lugares sagrados na Cidade Velha – e é preciso lá ir para ver como o espaço é comprimido, sobreposto, rendilhado. Como dizia Shimon Peres, mais do que uma cidade, Jerusalém é uma chama, e uma chama não pode ser dividida[42]. Amos Oz, o grande escritor hierosolimita, perante este intrincado problema propôs uma solução divertida: devíamos pegar em cada uma das pedras dos Lugares Santos e transferi-las para a Escandinávia durante cem anos; e só as traríamos outra vez para cá quando tivéssemos aprendido a viver juntos em Jerusalém[43]. Enquanto isso não acontece, necessitar-se-ia de bom-senso; era preciso que a fé andasse lado-a-lado com a racionalidade e não se sobrepusesse a ela; era preciso que a moderação e a abertura vencessem o radicalismo. Era preciso, só para começar, um novo Teddy Kollek. Até porque as exigências de autonomia dos árabes de Jerusalém terão de ser tomadas em conta mais tarde ou mais cedo[44].

Sabemos que os israelitas cometeram e cometem atrocidades, da mesma forma que os palestinianos as cometeram e cometem. Não há inocentes neste conflito. Ainda assim, a verdade é que a palavra extermínio continua a ser atirada aos judeus; continua a haver quem ache que eles deveriam desaparecer. Estes estão conscientes disto, algo que se sente e quase se torna palpável em Israel. Talvez a ameaça externa constitua, afinal, o maior fator de união deste povo. Daqui levámos e aqui deixámos saudades. No regresso a casa, lendo Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal, um livro escrito, em 1976, por Saul Bellow, verificamos que, por um ponto de vista, talvez por muitos mais, também nós somos judeus: Os israelitas são grandes viajantes. Precisam do mundo[45].

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Notas:

[1] Como se sabe, o cristianismo divide-se em inúmeros ramos, sendo os mais importantes os ortodoxo, católico e protestante, entre muitos outros.

[2] Os muçulmanos aceitam a Bíblia (tanto o Antigo como o Novo Testamento) e consideram judeus e cristãos como seus parceiros, como “Povos do Livro”, Ahl al- Litâb.

[3] A palavra Bíblia quer dizer, simplesmente, “O Livro”. Vem do grego Byblos, que era o nome pela qual era conhecida pelos antigos a cidade fenícia de Gebal, de onde os gregos importavam o papiro do Egito para escreverem os seus livros.

[4] Os cinco livros (é isso que quer dizer, precisamente, a palavra de origem grega Pentateuco: “cinco livros”) são o Génesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronómio.

[5] Isto é muito interessante na medida em que nos mostra a origem comum de árabes e judeus.

[6] Existe uma significativa controvérsia sobre a localização do Monte Sinai, não existindo consenso entre os historiadores, embora a maioria aceite a Península do Sinai, no Egito, como a localização mais provável. 

[7] Josué (Joshua) viveu no século XIII a.C.

[8] De vez em quando surge algum tipo de informação, algures no mundo, sobre o hipotético aparecimento de um ou mais membros dessas dez tribos perdidas.

[9] Inácio Steinhardt, Raízes dos Judeus em Portugal, entre Godos e Sarracenos, Nova Vega, Lisboa, 2012, p. 29. Toda a primeira parte do presente artigo é também baseado neste obra.

[10] Ob. cit., p. 34.

[11] O Talmude é composto por duas partes. Mishná (texto base) e Guemará (comentários dos rabinos).

[12] Apesar da fuga maciça dos judeus da Península Ibérica durante a Inquisição, ali deixaram raízes profundas. Por exemplo, em Portugal, cerca de um terço da população tem origem sefardita. Sobre este assunto ver artigo deste blogue aqui.

[13] Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo, Editora Schwarcz, São Paulo, 2013, p. 17.

[14] Neste segundo período o antissemitismo católico foi sobretudo protagonizado pelos jesuítas. Não devemos esquecer-nos  de que os estatutos dos jesuítas exigiam a cada noviço a prova de que não tinham qualquer rasto de sangue judeu até a quarta geração.

[15] Diogo Mainardi, A Queda, Editora Record, São Paulo, 2012, p. 125.

[16] Himmler, num discurso aos seus líderes da S.S., em 1943, em Kharkov.

[17] Mais detalhes sobre o assunto aqui.

[18] Da mesma forma, houve quem visse no primeiro Congresso Sionista, realizado em 1897, mais uma conspiração sionista para governar o mundo, que ficou conhecida como “Judá Secreta”.

[19] O termo “pogrom” deriva da palavra russa “gromit”, que significa “destruir”.

[20] Guilherme II considerava os judeus “os parasitas do império”, e chegou a afirmar que os judeus deveriam ser exterminados nas câmaras de gás.

[21] Chegaram a ser sugeridos mais de trinta locais para a criação de um estado judaico. Localizações tão diversas como o Alasca, a Argentina, Angola, Líbia, etc. Hitler equacionou a hipótese de um campo de extermínio em Madagáscar e Estaline acreditou ser possível a criação de um estado judaico na Crimeia.

[22] Artigo deste blogue sobre a Grande Guerra pode ser visto aqui.

[23] Carta completa:O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.´Desde já, declaro-me extremamente grato a V. Sa. pela gentileza de encaminhar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista.” No entanto, parece que a verdadeira razão da adesão da Grã-Bretanha ao sionismo não se prendeu com os bons ofícios de Weizmann. Os ingleses estavam convencidos de que seriam capazes de influenciar favoravelmente a opinião pública americana se fizessem saber que um dos objetivos da sua política era o regresso dos judeus à Palestina.

[24] Jerusalém – a Biografia, Simon Sebag Montefiore, Aletheia Editores, Lisboa, 2015, p. 449.

[25] Recomenda-se o excelente filme de David Lean, Lawrence of Arabia, de 1962, que, além de ser uma obra sublime do ponto de vista artístico, é igualmente um documento fiel, do ponto de vista histórico.

[26] Abdullah, o Apressado, filho do xerife de Meca, Hussein bin Ali, da dinastia dos hashemitas (ao que parece, descendentes diretos do profeta Maomé), haveria de ser rei da Transjordânia e de parte de Jerusalém, pois a cidade ficou dividida por decisão das Nações Unidas, em 1947. O sucessor de Abdullah seria Talal, mas este desiludia o velho rei, que treinou o neto, Hussein, desde pequeno, para reinar. No dia 20 de julho de 1951, uma sexta-feira, Abdullah ordenou ao neto que envergasse o uniforme militar, com as respetivas medalhas. Ao entrarem ambos na mesquita al-Aqsa de Jerusalém, um jovem sacou de uma pistola e, encostando-a ao ouvido de Abdullah, disparou matando o rei instantaneamente. Todos se atiraram ao chão menos Hussein, que se atirou ao assassino enquanto este disparava uma segunda vez, agora sobre ele, antes de ser abatido pelos guarda-costas do rei. Milagrosamente a bala bateu numa das medalhas e Hussein nada sofreu. O avô tinha-lhe salvado a vida sem saber. Logo em 1952, depois do pai ser forçado a abdicar do trono por causa de problemas de esquizofrenia, Hussein tornou-se rei da Jordânia até morrer, em 1999. O seu maior desaire político foi ter perdido Jerusalém e a Cisjordânia para Israel na Guerra dos Seis Dias. Moderado, era amigo do Ocidente e inclusive de Yitzhak Rabin, com quem assinou em 1994 um tratado de paz entre a Jordânia e Israel, que ainda hoje vigora. Sucedeu-lhe o seu filho mais velho, Abdullah II, atual rei da Jordânia.

[27] O chamado Mandato Britânico da Palestina, que durou de 1920 até 1948.

[28]  O documento que regulava o Mandato Britânico da Palestina dizia expressamente no seu preâmbulo: “Considerando que as principais potências Aliadas também concordaram que o Mandatário deve ser responsável por colocar em prática a declaração, feita originalmente em 2 de novembro de 1917 pelo Governo de Sua Majestade Britânica e adotada pelas ditas potências, em favor do estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, sendo claramente entendido que nada deve ser feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das atuais comunidades não-judaicas na Palestina, ou os direitos e status político gozados pelos judeus em qualquer outro país”…

[29] 53% do território seriam atribuídos aos 700 mil judeus, e 47% aos 1 milhão e 400 mil árabes que ali se haviam fixado. Esta repartição foi considerada adequada uma vez que alguns milhares de judeus viviam historicamente naquele território e haviam comprado 65% daquelas terras, ainda antes da Grande Guerra, no tempo dos otomanos. 

[30] Na verdade já tinham ocorrido vários e graves conflitos entre árabes e judeus na Palestina, durante as décadas de 1920, 30 e 40.

[31] Kollek foi eleito cinco vezes como Presidente da Câmara de Jerusalém – 1969, 1973, 1978, 1983 e 1989. Nascido na Hungria, morreu em Jerusalém, em 2007, com 95 anos.

[32] Simon Sebag Montefiore, ob. cit., p. 553.

[33] Os palestinianos, em particular, e os árabes, em geral, não costumam resolver os seus problemas através de acordos. Por isso, muitas vezes recorrem à força. Isso ficou bem patente durante estes últimos anos, com os israelitas a aceitarem (veja-se a flexibilidade negocial de Ben-Kurion e da Agência Judaica) e a proporem acordos e os palestinianos a rejeitarem-nos. No ano 2000, em Camp David, quando Yasser Arafat reuniu com Ehud Barak (mais um primeiro-ministro israelita do Partido Trabalhista que, como sempre, estava disposto a negociar) sob os auspícios de Bill Clinton, foram-lhe oferecidas condições únicas, que provavelmente nunca mais se repetirão. Noventa e um por cento da Cisjordânia e uma capital palestiniana em Abu Dis; os subúrbios árabes de Jerusalém Oriental; 3/4 da Cidade Velha, em Jerusalém; finalmente, perante a intransigência de Arafat, a soberania sobre o Monte do Templo, apenas sendo permitido aos israelitas uma ligação simbólica aos Lugares Santos. Arafat chocou americanos e israelitas quando afirmou que não existira nunca um templo judaico em Jerusalém, que isso era uma invenção moderna dos israelitas. Yasser Arafat recusou a proposta. A consequência disso foi a segunda intifada e a ascensão de Sharon, que reprimiu duramente os palestinianos e os isolou mais ainda através da construção de muros de segurança. 

[34] Um facto de que poucos têm conhecimento é que muitas centenas de estropiados, que conseguiram fugir do atual conflito interno na Síria, foram tratados em hospitais de Israel.

[35] As técnicas de irrigação em Israel são as mais avançadas do planeta.

[36] A mais antiga indústria desta terra é a do azeite.

[37] Cerca de um milhão de indivíduos estão a todo o momento disponíveis para combaterem. Seiscentos mil no ativo e quatrocentos mil na reserva.

[38] O termo meleke é de origem árabe e quer dizer “pedra real” ou “pedras dos reis”, talvez porque os túmulos mais importantes de Jerusalém foram construídos com ela. A palavra entrou no jargão técnico, adotada do léxico usado pelos pedreiros, ancestralmente, no terreno.

[39] Dia semanal de descanso, rigorosamente respeitado pelos judeus, entre o anoitecer das sextas-feiras e o anoitecer dos sábados.

[40] Há três tipos de zonas na Cisjordânia – “A”, “B” e “C”, criadas após o Acordo de Oslo de 1993. A zona “A” é completamente controlada pelos palestinianos; a zona “B” é controlada por patrulhas mistas, de israelitas e palestinianos, sendo que quem detém o comando são os israelitas; e a zona “C”, a maior, com mais de 60% do território, é controlada pelos israelitas. Estes continuam a construir colonatos nesta zona (a que tens mais recursos naturais, incluindo a preciosa água) e a empurrar os palestinianos para as zonas “A” e “B”. Isto torna a vida dos palestinianos muito difícil. A água é controlada e fornecida pelos israelitas. Os palestinianos não podem construir as suas casas na zona “C” sem autorização dos israelitas e estes pura e simplesmente recusam-se a emitir as respetivas licenças. Os controlos militares atrasam, encarecem e tornam muitas vezes inviável o comércio com o exterior. O desemprego é alto e muita gente vive na pobreza. A situação em Gaza é ainda pior. Não fora a ajuda internacional – nomeadamente da União Europeia – e os palestinianos não resistiriam.

[41] A expressão foi usada, entre muitos outros, pelo rei Abdullah II da Jordânia (bisneto de Abdullah, o Apressado), em 2010: “Jerusalém é um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. Todos os caminhos desta zona do mundo, todos os conflitos,vão dar a Jerusalém”.

[42]  Jerusalém – a Biografia, Simon Sebag Montefiore, Aletheia Editores, Lisboa, 2015, p. 565.

[43] Ob. cit., p. 566.

[44] Saul Bellow, Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal, Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2016, p. 151.

[45] Saul Bellow, ob. cit., p. 147.

Chipre

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Limassol vista do mar.

Chipre é a maior ilha do Mediterrâneo Oriental e o terceiro país mais pequeno da União Europeia, depois de Malta e do Luxemburgo. A superfície total da ilha corresponde a uma área de 9.251 km2, sobre a qual vivem 847.008 habitantes[1]. A capital é Nicósia e a língua oficial o grego. Chipre aderiu à UE em 1 de maio de 2004, quando já estava dividido, embora toda a ilha seja considerada território da União. Os cipriotas turcos são cidadãos da UE, já que são cidadãos de um país que é parte integrante da mesma – a República de Chipre – ainda que vivam numa parte da ilha que o governo cipriota não controla. Este é um dado bastante curioso sobre Chipre, um dos 19 países da chamada zona euro, que aderiu à moeda europeia em 1 de janeiro de 2008{2], mas a sua história é muito mais antiga, como veremos de seguida.

Sendo uma ilha, Chipre foi tradicionalmente um território ocupado. Normalmente, as potências mediterrânicas dominantes em cada época, foram igualmente as dominantes de Chipre. A ilha foi ocupada em primeiro lugar pelos egípcios e, depois, pelos assírios, para voltar, mais tarde a fazer parte do Egito. Em 525 a.C., Chipre passou a fazer parte do imenso império persa, comandado por Dario I, e viu-se, durante vários anos, envolvido nas guerras entre gregos e persas até aparecer Alexandre, o Grande, que acabou de vez com as antigas civilizações do Egito e da Mesopotâmia e impôs a todo o mundo civilizado, incluindo Chipre, a cultura helénica.

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O mosteiro de Stavrovouni.

Após a morte de Alexandre, foram ainda seus generais e descendentes destes que governaram durante vários anos o Chipre, até aparecerem os romanos como grandes dominadores do Mediterrâneo, e mais além. A mãe do imperador Constantino, Helena, após visita à Terra Santa, mandou construir, no século IV, um mosteiro em Stavrovouni (que quer dizer Montanha da Cruz), na atual região de Larnaka, no leste da ilha, para guardar as relíquias sagradas que trouxera, incluindo partes da cruz onde Cristo fora crucificado. A autenticidade destas peças, porém, nunca pôde ser comprovada. Helena incentivou o cristianismo em Chipre, dando vantagens aos cristãos, incluindo isenções de impostos e distribuição de terras.

Em 364, o Império Romano dividiu-se em dois e Chipre passou a fazer parte do Império Bizantino, cujo centro era Constantinopla. Em 632 a ilha foi invadida pelos árabes. Durante mais de 200 anos Chipre caiu numa grande instabilidade e muitos dos tesouros cristãos foram roubados, até o imperador Nicephoros Phocas recuperar a ilha, em 964. Viveu-se uma paz relativa por mais umas centenas de anos. Em 1184, Isaac Komnenos, um membro da família do imperador, tomou inesperadamente a ilha, apresentando documentos falsos que o apontavam como novo governador. Mal tomou posse do cargo, declarou a independência da ilha, libertando-a da alçada de Constantinopla, e intitulou-se Imperador de Chipre.

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Uma prensa de azeite do período bizantino, usada entre os séculos VII e IX, na cidade de Limassol.

Um episódio ocorrido apenas sete anos depois acabaria por determinar que Isaac tivesse um reinado demasiado curto. No inverno de 1190-91, Ricardo Coração de Leão estava na Sicília em escala para Jerusalém, que queria resgatar das mãos de Saladino, o supremo comandante do Islão, que a havia recapturado em 1187. Depois de levantarem ferro da Sicília, os navios de Ricardo enfrentaram uma enorme tempestade tendo três deles naufragado perto de Chipre e outro, onde seguiam a irmã de Ricardo, rainha Dowager, e a sua noiva, a princesa Berengaria de Navarra, chegado em segurança ao porto de Limassol. Os tripulantes dos três navios naufragados foram feitos prisioneiros e tanto a rainha como a princesa tratadas desrespeitosamente. Quando Ricardo desembarcou à frente dos seus homens tinha em mente, sobretudo, resgatar a irmã e a noiva mas, face aos acontecimentos, acabou por tomar a ilha e aprisionar Isaac, que viria a falecer no exílio.

Ricardo casou com Berengaria no dia 11 de maio de 1191, em Limassol, e foi nesta cidade que a princesa foi coroada rainha de Inglaterra. Os cipriotas, porém, não viram com bons olhos a chagada dos católicos à ilha, uma vez que eram ortodoxos. Revoltaram-se, e obrigaram Ricardo a repensar sobre a utilização de Chipre como base de incursão até Jerusalém. Ricardo Coração de Leão decidiu então vender a ilha aos Templários[3], os quais, face às constantes revoltas, pediram a Ricardo para a comprar de novo. Este acedeu e não se sabe ao certo se a doou ou revendeu a Guido de Lusignan[4]. Assim começaria o chamado “período latino” de Chipre, que durou cerca de 300 anos. Os ocupantes foram sobretudo francos, com as ordens religiosas dos Templários e Hospitalários a deterem vastos territórios na região de Limassol.

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São muitos os registos das ordens religiosas deixados em Chipre.

Embora nesta época o poder papal fosse incontestável, o conflito entre católicos e ortodoxos esteve sempre latente, com uma patente fricção entre as duas igrejas. A população mantinha-se maioritariamente ortodoxa, mas em 1260 surgiu a Bulla Cypria, a qual subjugou toda a população cristã da ilha aos ditames de Roma. Durante o período em que a dinastia Lusignan subsistiu em Chipre, o de maior prosperidade sob o reinado de Hugo IV (1324-59), as potências que dominavam o Mediterrâneo eram Génova e Veneza, as quais contrabandeavam com o Egito e contrariavam, assim, as restrições ao comércio com os islamistas impostas pelo Papa.

Aconteceram algumas invasões dos genoveses, que foram combatidas primeiro pelo rei João I e depois por seu filho Janus, embora este, no início do século XV, tenha cooperado com os genoveses e atacado a costa do Egito. Isto irritou os mamelucos, que responderam atacando Limassol e Larnaka. No ano seguinte voltaram com um exército maior, tomaram Limassol, saqueram e incendiaram Nicosia e, levando Janus com eles como prisioneiro, retornaram ao Egito com um vasto tesouro, além de mulheres e escravos. Quando Janus regressou a Chipre, depois do pagamento de um elevado resgate, foi sob a condição de reconhecer o sultão com seu soberano. Com a morte de Janus, em 1432, terminava a grandeza dos Lusignans em Chipre. Seguiu-se um período em que a ilha foi governada pelos venezianos.

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Uma das várias mesquitas de Limassol.

Entretanto, em 1453 os turcos conquistaram Constantinopla, pondo fim ao Império Romano do Oriente, que sobrevivera aos seu congénere ocidental cerca de mil anos. A partir de Constantinopla, os otomanos expandiram-se em várias direções. A ilha de Rodes foi subjugada em 1522 e, pouco tempo depois, chegou a hora do Egito e da Síria. Veneza entrava em declínio, face à descoberta da rota marítima do Cabo, pelos portugueses. Além disso, tinha de pagar um tributo a Constantinopla pela posse de Chipre, reconhecendo tacitamente a soberania do Islão. Os venezianos tentaram, enfim, revoltar-se contra os otomanos e construíram apressadamente muralhas defensivas, mas Chipre acabaria por ser invadido no Verão de 1570 pelo comandante turco Mustafá, à frente do seu poderoso exército. A população, cansada dos venezianos, não só não se defendeu dos turcos como até os apoiou com o fornecimento de provisões.

Em 1702, o sultão ofereceu Chipre ao seu Grande Vizir e em 1769 começou a primeira de muitas batalhas que ocorreriam por mais de cem anos entre a Rússia e a Turquia. Uma esquadra russa ultrapassou o Dardanelos e os russos chegaram a estar algum tempo em Chipre. Em 1821, a população grega de Korca[5] revoltou-se e massacrou os habitantes turcos. Foi a oportunidade que os otomanos esperavam. Os bispos cristãos foram chamados ao palácio, dizimados e os seus corpos espalhados pelas ruas. Os habitantes cristãos foram perseguidos durante seis meses de terror. Os gregos revoltaram-se então abertamente contra os ocupantes turcos. O sultão teve de pedir ajuda ao governador do Egito, Mohammed Ali, para suster a revolta em Atenas, mas os gregos pediram também ajuda. Ingleses, franceses e russos responderam afirmativamente. Lord Byron, o conhecido poeta inglês[6], foi um dos que morreu na Grécia durante a campanha de libertação.

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Na cidade de Limassol, as praias estendem-se por mais de dez quilómetros.

Em 1829 a Turquia foi derrotada e em 1832 a Grécia era um reino independente. Muitos cipriotas viajaram para Atenas e obtiveram a nacionalidade grega. Entretanto, aproveitando a fraqueza dos turcos, Mohammed Ali revoltou-se e obteve a vitória sobre os otomanos, fundando uma dinastia independente no Egito e pretendendo que Creta e Chipre se integrassem no território egípcio. As potências europeias intervieram de novo e impediram que Chipre fosse integrado no Egito, ao contrário de Creta. Chipre mantinha-se parte do Império Otomano. A partir daqui, sob a liderança do sultão Mahmoud II e, depois, de seu filho, Mejid I, a Turquia encetou um vasto programa de reformas no sentido da sua modernização. Todo o império, fosse qual fossem nacionalidade ou religião, passou a ser tratado de igual modo, sob leis iguais para todos. Os cipriotas beneficiariam destas reformas.

Entretanto, Inglaterra e França, não querendo que a Rússia aumentasse o seu poder no Mediterrâneo, aliaram-se aos turcos, tradicionais inimigos dos russos. Quando a guerra estalou, as frotas britânica e francesa navegaram até o Mar Negro e atacaram a base naval russa de Sevastopol, situada na Crimeia[7]. Depois da guerra, a Rússia, vencida, viu-se obrigada a aceitar as condições do Tratado de Paris de 1856. Uma parte do tratado previa grandes melhorias nas condições de vida dos residentes dos territórios sob domínio otomano. Cristãos e muçulmanos, falantes gregos e falantes turcos, todos passaram a viver em considerável harmonia em Chipre.

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O Mediterrâneo junto à costa cipriota.

Em 1866, encorajada pela Rússia, a Bulgária revoltou-se contra o Império Otomano. A revolução não vingou de imediato mas em 1875 recrudesceu em força, tendo sido reprimida com uma ferocidade tal pelo exército turco que o incidente ficou conhecido como as “Atrocidades Búlgaras”. A Rússia, aproveitando o isolamento turco, declarou guerra à Turquia em nome da independência das Bulgária, Roménia e Sérvia. Venceu de forma tão conclusiva que uma grande parte da Anatólia foi cedida aos russos. Os britânicos não gostaram desta conquista dos russos, pois ela punha em perigo o Canal do Suez, a ligação que permitia à Inglaterra uma comunicação rápida com a Índia. A abertura do canal devolvera a Chipre a importância estratégica perdida nos finais do século XV, quando os portugueses descobriram a Rota do Cabo.

Assim, os britânicos acabaram por fazer uma aliança com os turcos para defesa da zona do canal. Parte dos termos do acordo atribuía o território de Chipre aos britânicos, ficando estes responsáveis pela garantia dos direitos dos muçulmanos da ilha. Por outro lado, os russos deveriam devolver aos turcos o território que haviam conquistado dentro da Anatólia. Chipre viu-se assim livre dos turcos e foi ocupado pelos britânicos, que aí estabeleceram a base das suas forças no Leste do Mediterrâneo. Em 1882 houve uma revolução no Egito, e os ingleses, temendo que a ligação, via Canal do Suez, à Índia, à Austrália e à Nova Zelândia, estivesse em perigo de novo, em vez de continuarem a controlar a zona desde a sua base em Chipre, decidiram ocupar toda a zona do canal. Depois da batalha de Tel-el-Kebir, em Ismailia, os ingleses assumiram o controlo militar do Egito.

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Georgios Grivas, um dos grandes heróis de Chipre.

Quando rebentou a Grande Guerra, os britânicos anexaram formal e completamente a ilha de Chipre. Não tinham agora que fazer concessões aos turcos, uma vez que estes, aliados da Alemanha e da Áustria, eram inimigos. Os ingleses propuseram então a entrega de Chipre aos gregos (a população da ilha era, como ainda é, tradicional e maioritariamente helénica) em troca do envolvimento destes na guerra contra os seus tradicionais inimigos na zona – os turcos. Surpreendentemente para os cipriotas, os gregos recusaram a proposta e a ideia de Enosis (união entre Grécia e Chipre) morreu ali. Os britânicos não renovariam esta oferta. Chipre ganhou o estatuto de colónia britânica em 1925 e um governador substituiu o Alto Comissário britânico.

Durante a II Guerra Mundial os cipriotas gregos lutaram bravamente ao lado dos aliados, tendo alguns sido condecorados como heróis de guerra. Isto renovou a esperança na Enosis e na independência de Chipre. Porém, todas as tentativas de autodeterminação falharam, bem como os apelos de 1954 e 1955 dirigidos às Nações Unidas. Por essa altura, um cipriota grego, Georgios Grivas[8], oficial do exército grego, desembarcou clandestinamente na ilha. Ele organizou o EOKA (Organização Nacional dos Lutadores pela Liberdade) e ficou conhecido como Digenis, o Líder, tendo sido o responsável pelos primeiros atentados contra as forças britânicas. Os ingleses reagiram em força e enviaram para o exílio nas Seychelles o arcebispo Makarios III, aliado de Grivas na luta pela Enosis. Makarios foi libertado no ano seguinte e, após uma breve passagem por Atenas, recebido como um herói em Chipre.

Em 16 de agosto de 1960, Chipre tornou-se uma república independente. A grande aspiração dos cipriotas à independência obrigara os britânicos a conceder-lha. Porém, após três anos de relativa tranquilidade, a tensão entre cipriotas gregos e turcos acentuou-se. Makarios tentou fazer alterações à Constituição que, embora benéficas, a própria Constituição não permitia, e estas foram rejeitadas pelos cipriotas turcos. Começaram os confrontos. Grivas retornou à ilha em 1971 para organizar um novo grupo combatente, o EOKA-B, enquanto na Grécia uma junta militar conhecida como “Os Coronéis” tomava conta do poder.

Em 1974, um grupo de oficiais do exército grego planeou um golpe para eliminar Makarios e substituí-lo por Nicos Samson, um ex-membro do EOKA, e anexar uma parte de Chipre à Grécia. Esta Enosis limitada  fazia parte de um plano conhecido por Ankara, que toleraria as consequências em troca de parte do território cipriota, que seria cedida aos turcos. No dia 15 de julho o palácio presidencial foi atacado, mas o presidente Makarios escapou ileso e o golpe falhou. Os turcos, porém, não desperdiçaram a oportunidade há tanto esperada. Em 20 de julho invadiram Chipre e rapidamente ocuparam a parte Norte da ilha, cerca de 37% do seu território. Foram muitos, os mortos e deslocados. Os britânicos, que ainda permaneciam na ilha nas suas bases, as forças de manutenção de paz da ONU, os Estados Unidos – ninguém interveio para impedir a invasão turca. Em 1983 surgia um “estado” no Norte de Chipre, até hoje apenas reconhecido pela Turquia e rejeitado pelo resto do mundo. Chipre continua dividido e não se sabe se alguma vez vai deixar de estar. É difícil prever se um dia as religiões deixarão de dividir os homens, de dividir o mundo[9].

Notas:

[1] Dados de 2015.

[2] Retirados de https://europa.eu/european-union/about-eu/countries/member-countries/cyprus_pt.

[3] Sociedade dos Cavaleiros do Templo.

[4] Os Lusignans governaram o Reino de Chipre até 1474. O corpo de Guido foi sepultado numa igreja dos Templários, em Nicósia.

[5] Atual Albânia.

[6] Conhecido sedutor e autor do célebre poema “Don Juan”.

[7] A Rússia haveria de perder a Guerra da Crimeia, que decorreu entre 1954-55.

[8] Georgios Grivas era cipriota e morreu no dia 27 de janeiro de 1974, com 75 anos de idade. Os britânicos ofereciam 10.000 libras a qualquer pessoa que, em qualquer parte do mundo, fornecesse alguma pista que conduzisse à sua prisão. No entanto, Grivas estava escondido numa casa em Limassol, quando foi acometido por um ataque cardíaco.

[9] Baseado na obra Brief History of Cyprus in Ten Chapters, Dr. Dick Richards, KyriakouBooks, Limassol, 1992.


Foto do convento de Stavrovouni retirada de http://www.4viptour.com

Foto de Georgios Grivas retirada de beretandboina.blogspot.pt

Rodes, Grécia

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Aspeto da cidadela medieval de Rodes.

A ilha de Rodes, a maior do chamado Dodecaneso, é um território paradisíaco, com praias lindas, de águas cristalinas – as mais apetecíveis situadas na costa oriental, entre a cidade de Rodes e Lindos, pois este lado da ilha é mais abrigado do vento – e um clima invejável, tipicamente mediterrânico, com muito sol. O espaço mais interessante da cidade que dá nome à ilha – Rodes – é o seu burgo medieval, designado Património Mundial pela UNESCO, em 1988.

Dentro das muralhas podemos observar edificações cristãs (neste caso, católicas – o que não é muito comum na Grécia ortodoxa) e islâmicas, sendo as mais emblemáticas as erigidas pelos membros da Ordem de S. João de Jerusalém (Hospitalários), vulgarmente conhecida como Ordem de Malta, por se ter estabelecido na ilha de Malta, doada à Ordem, em 1530, pelo imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico, após a sua saída de Rodes. A designação oficial da ordem é, aliás, Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, curiosamente, três locais que visitámos no decorrer desta viagem.

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Fachada de edifício do período muçulmano, em Rodes.

A cidadela medieval de Rodes está extraordinariamente bem preservada e aqui encontramos castelos, mesquitas, fontes, praças e arruamentos que nos transportam a um mundo que já não existe, tudo isto enclausurado em muralhas portentosas. Face ao turismo massivo, é também na cidadela medieval que se encontra a principal área comercial e de serviços da ilha, como restaurantes, lojas, mercados, bancos, etc. Há também vários museus importantes que se podem visitar e muita animação de rua, sobretudo no Verão, quando muitos milhares de turistas vêm juntar-se aos cerca de 10.000 habitantes da cidade.

De Rodes é possível fazer vários circuitos marítimos em torno da ilha e também apanhar um ferry para ilhas vizinhas, sendo recomendável uma visita à belíssima ilha de Symi, a pouco mais de uma hora de viagem. Não é possível falar de Rodes sem se fazer referência ao seu tão badalado Colosso, uma das sete maravilhas do Mundo Antigo, catalogadas, segundo se diz, pelo grego Antíprato de Sídon. Ao que parece, essa estátua em bronze, com 30 metros de altura, foi erguida na entrada do porto, e os navios passavam por baixo dela. O seu autor foi Carés de Lindos, que demorou mais de dez anos para concluir o monumento, no século III a.C. Cinquenta e cinco anos após a construção, o Colosso foi destruído por um violento terramoto. Há um projeto recente, da autoria do artista alemão Gert Hof, para construir um novo Colosso em Rodes, este ainda mais colossal.

Kusadasi e Éfeso, Turquia

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A cidade de Kusadasi preparada para os festejos do Dia Nacional da Turquia.

Os Turcos são um povo diversificado. Oriundos da Ásia Central, misturaram-se com os nativos árabes e mediterrânicos, acabando por se tornarem mais um dos povos do Médio Oriente, com características físicas semelhantes aos demais. O Império Otomano existiu por mais de 600 anos, antes da República Turca, fundada em 1923 por Ataturk, após a Grande Guerra, na qual o Império Otomano participou ao lado dos impérios alemão e austro-húngaro (podem ver artigo sobre este conflito aqui), e o Tratado de Versalhes, cujos termos definiram o que vencedores e vencidos ganharam e perderam.

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Kusadasi ao anoitecer.

Guiados por Ataturk, os turcos tiveram de lutar contra gregos, franceses e britânicos para manterem o atual território. Já tinham perdido toda a Península Arábica,o Egito, a Palestina, a Síria, a Tripolândia, as inúmeras ilhas ao longo da costa mediterrânica da Anatólia, etc., por imposição das potências vencedoras da Grande Guerra. Ataturk conseguiu a união das forças militares turcas, salvou o essencial do território e fundou a República. Mas, mais importante do que tudo isso, separou e Estado da religião e, desta forma, transformou a Turquia num estado moderno.

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O Constellation, navio onde viajámos, acostado em Kusadasi, cidade turca do mar Egeu.

Infelizmente, hoje, a Turquia está dividida, face à atuação de governos de cariz islâmico, que rejeitam o legado de Ataturk e não agradam à metade ocidental da população. Este desvio tem tido graves consequências, e as tentativas violentas de tomada do poder são já uma tradição na Turquia. Uma fação, igualmente religiosa, que apoiava o atual governo, tentou há poucos meses um golpe de estado mas saiu derrotada. A consequência foi uma purga enorme, que levou à prisão mais de treze mil pessoas – militares, advogados, professores, médicos, jornalistas, entre muitos outros.

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O gorila do Constellation observa o magnífico céu turco.

A Turquia tem problemas graves nas suas fronteiras e para além delas, (talvez o mais grave com os curdos), e as políticas prosseguidas têm provocado tensões com vários inimigos tradicionais do país: gregos, russos, arménios, sírios e israelitas, entre outros. Esta pouca habilidade diplomática é em larga medida a principal causa das reações violentas no interior do território, e a Turquia vive um período de grande instabilidade que prejudica fortemente a sua economia, sobretudo aquela que era a sua segunda maior indústria, depois dos têxteis – o turismo. O número anual de turistas estrangeiros decresceu de 40 para 14 milhões, mais ou menos o mesmo que recebe Portugal, um país minúsculo quando comparado com a imensa República da Turquia.

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O Templo de Adriano, em Éfeso.

Este decréscimo verifica-se sobretudo na parte ocidental do país, em Istambul e nas cidades costeiras mais viradas para o turismo, como Izmir, sobretudo, mas também Kusadasi e Éfeso, que visitámos. Evidentemente, muitos povos passaram por aqui antes dos turcos se instalarem. Alexandre, o Grande, anexou este território e os romanos vieram depois. Éfeso foi fundada pelos gregos, mais concretamente por Lisímaco, cerca de 1000 anos antes de Cristo, mas foi durante o período romano que atingiu seu maior esplendor, tendo sido declarada, em 133 a.C., capital da província romana da Ásia e albergando cerca de 400.000 habitantes.

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A biblioteca de Celso.

A cidade foi também muito importante, durante o período cristão e a principal comunidade das Sete Igrejas da Ásia Menor. Dois dos primeiros grandes concílios da Igreja Católica (431 e 449 d.C.) tiveram lugar em Éfeso, sendo que no primeiro deles foi confirmado o dogma da maternidade da Virgem Maria e a dupla natureza de Jesus Cristo, como Deus e como homem. A população era constituída na sua maioria por pessoas ricas e cultas. Esta região, que inclui Éfeso e Mileto, foi a terra natal de muitos filósofos, entre eles os pré-socráticos e ilustres Tales e Heráclito. Nesta época, Éfeso foi talvez “a cidade mais ilustre de toda Ásia” e por aqui passaram Alexandre, o Grande, Cleópatra e a Virgem Maria, bem como os apóstolos São João e São Paulo.

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A coluna que resta do Templo de Artemisa.

A cidade, que nesta época estava localizada junto a um porto fluvial, a cerca de uma dezena de quilómetros do mar, começou a perder a sua importância quando o rio Cayster assoreou. A cidade era bem maior que o espaço que visitámos, apenas um dos quatro pólos que a constituíam, embora este seja, sem dúvida, o melhor preservado. Entre muitas ruínas, encontramos também edificações num excelente estado de preservação, entre eles, o Portão de Adriano, a Biblioteca de Celso e o Grande Teatro, além de ágoras, fontes, banhos e vias revestidas por pedras de mármore ali colocadas há mais de 2.000 anos. O local onde foi erigido o Templo de Artemisa fica por perto, mas apenas existe uma coluna visível do antigo templo, considerado, vá lá saber-se por quê, uma das sete maravilhas do mundo.

 

Atenas, Grécia

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Atenas, uma cidade à procura do reencontro consigo mesma.

Para quem visita Atenas, a atração da cidade é a Acrópole, tudo o resto é relativamente secundário. A riqueza da Grécia, se excluirmos os monumentos que nos remetem à Antiguidade Clássica, não reside em Atenas, mas sim nas ilhas, espalhadas pelo Mar Jónio e pelo Mar Mediterrâneo, inclusive ao longo da costa turca, estas atribuídas aos gregos após a Grande Guerra, através do controverso Tratado de Versalhes.

As ruas de Atenas estão enegrecidas pelos prédios descoloridos, as pedras escuras e os buracos das obras inacabadas, e esse negrume reflete-se nos rostos ensimesmados dos transeuntes. Veem-se velhos, mendigos e carteiristas pela cidade. Apenas os jovens dão alguma cor a este burgo entristecido, muitos com penteados hirtos, angulosos, coloridos, calças justas, sapatos de tacões altos.

Mesmo o turístico bairro de Plaka, no sopé da Acrópole, é demasiado artificial, feito para turista ver. A ideia que fica é a de que Atenas vive virada para o passado, à procura da glória perdida, e nisto ela própria se perde. A crise económica sente-se no ar que se respira. A emblemática praça Syntagma reflete, à sua maneira, a situação crítica de Atenas: vendedores de bugigangas; velhos de olhar perdido; gente caminhando em todas as direções.