O Santo do Povo

Igreja de Santo António, em Lisboa. Tardo-barroca, data dos finais do século XVIII, e é fruto da reconstrução a que foi sujeito o anterior templo, em consequência do terramoto de 1755. Como reza a tradição, ergue-se sobre a antiga casa de morada do santo.

Hoje é dia de Santo António, talvez o santo mais popular do mundo inteiro. De facto, a imagem de António com o menino ao colo multiplica-se em inesgotáveis versões por todos os continentes, e essa singularidade, o facto de ser sempre representado com o menino, permite (sejam quais forem estilos, formas ou materiais usados) uma imediata identificação. Mas, apesar da universalidade de Santo António, apenas duas cidades podem reclamar-se como as cidades deste santo tão popular: Lisboa e Pádua. É por isso que se pode apelidá-lo, com igual propriedade, Santo António de Lisboa ou Santo António de Pádua, pois Lisboa é a cidade onde nasceu e Pádua a cidade onde morreu (e estão depositados seus restos mortais). Mas, talvez mais apropriado, ainda, seja citarmos o Papa Leão XIII: “António é o santo de todo o mundo”. Haverá, pois, inúmeras formas justas de apelidar Santo António e nós também temos uma, não sabemos se original: o Santo do Povo. O pequeno texto que se segue é uma tentativa de mostrar porquê.

A vida de Santo António

António teve uma vida cheia, embora curta, pois viveu apenas 36 anos. Nasceu em Lisboa no ano de 1195, filho primogénito de uma família rica, nobre e poderosa, e foi-lhe dado o nome de Fernando. Frustrando as expectativas da família, Fernando abandona o palácio onde vivia e, com 15 anos, ingressa numa ordem religiosa que ainda hoje existe – os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho – enclausurando-se no mosteiro de São Vicente de Fora. É aqui que se inicia a formação que o tornará um dos eclesiásticos mais cultos da Europa no início do século XIII. Pouco tempo depois, para se isolar de parentes e amigos que tentam dissuadi-lo, vai para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, igualmente da Ordem de Santo Agostinho, onde se dedica aos estudo de Teologia até completar os 25 anos, quando é ordenado sacerdote.

Capela de Santo António, no local onde se situava a cela do então Fernando de Bulhões, no mosteiro de São Vicente de Fora. Projetada por Carlos Mardel, foi construída em 1740.

Após ter tido conhecimento da morte de cinco franciscanos em Marrocos, Fernando considera a sua vida no mosteiro demasiado confortável e medíocre, e decide ir para o terreno como missionário, com a intenção de se tornar um mártir. Apesar das dificuldades, consegue deixar os Cónegos Regrantes e tornar-se um franciscano. Para cortar todas as pontes com o passado muda o nome para António (há quem diga que em homenagem ao eremita Santo Antão) e, após um breve tirocínio, embarca para África. No entanto, os seus intentos não se realizam, pois, mal desembarca no continente negro, fica gravemente doente com febre malária e vê-se obrigado a regressar a Portugal. Os ventos contrários, porém, empurram o navio em que viaja para a Sicília. Desanimado e doente, António desloca-se a Assis, onde se encontra com São Francisco, no Pentecostes de 1221.

O encontro com o Poverello faz renascer o ânimo de António, que é conduzido ao ermitério de Monte Paulo, no distrito de Forlí. Num desses dias vai à cidade para uma ordenação sacerdotal; o pregador oficial falta, e António é encarregado de dizer algumas palavras. É então que se revela o seu superior talento de pregador. A partir desse dia é enviado a percorrer todos os caminhos de Itália e França. Em 1224, na cidade de Arles, São Francisco aparece durante um seu sermão. E tal como na vida de São Francisco acontece uma pregação às aves, também na vida de Santo António acontece uma pregação, igualmente fantasiosa e poética, aos peixes. Esta teria ocorrido em Rimini, que se encontrava, à data, nas mãos dos hereges. Quando o missionário chega à cidade é recebido com um muro de silêncio. António não encontra ninguém a quem dirigir palavra. As igrejas, as praças, as ruas estão desertas. Então, quando chega ao lugar em que o rio Marecchia desagua no Adriático começa a chamar, dizendo: “Vinde vós, ó peixes, ouvir a palavra de Deus, dado que os homens soberbos não a querem ouvir!”. E os peixes emergem às centenas, aos milhares, para ouvirem Santo António. Entretanto, a curiosidade dos hereges acaba por ser mais forte do que a ordem de silêncio recebida dos seus chefes e uma multidão aproxima-se, já rendida aos dons oratórios do franciscano; muitos, maravilhados, arrependem-se e retornam à religião católica.

A grandiosa Basílica de Santo António, em Pádua. Inspirada na Basílica de São Marcos, em Veneza, mede 115 metros de comprimento, 55 de largura, e 38,5 de altura máxima no seu interior. Combina o românico da sólida estrutura com o gótico das capelas, arcos e abóbadas. É rodeada por oito cúpulas, duas torres sineiras, duas pequenas torres – minarete e dois campanário gémeos que atingem 68 metros de altura. É iluminada por três grandes rosáceas: duas ao lado do altar-mor e a outra na fachada, entre duas janelas geminadas.

Vários milagres são atribuídos a António, e a fama de santo milagreiro espalha-se. Entretanto, promove os estudos de Teologia no seio da Ordem Franciscana, e é nomeado superior dos frades da Itália do Norte; ensina em Bolonha, Montpellier, Toulouse e Pádua; trabalha incansavelmente. Eis o que nos diz um seu contemporâneo: “Pregando, ensinando, escutando as confissões, acontecia-lhe chegar ao fim do dia sem ter tido tempo para comer”. A saúde, debilitada desde os tempos de Marrocos, deteriora-se e António, cansado pelas fadigas e pela hidropisia, pressentindo o fim, pede para se recolher em contemplação no convento de Camposampiero, no ermitério que o dono do lugar, o conde de Tiso, tinha doado aos Franciscanos, junto ao próprio castelo. Uma noite o conde, que, cansado da vida política, se havia tornado discípulo de Santo António, aproximou-se da cela do amigo e viu que da mesma se libertava uma intensa luminosidade. Pensando que fosse um incêndio abriu a porta e deparou com uma cena prodigiosa: António segurava nos braços o Menino Jesus. O Santo pediu-lhe humildemente que não contasse nada a ninguém e o conde assim fez; só depois da morte de Santo António contou o que tinha visto.

No dia 13 de Junho de 1231, uma sexta-feira, Santo António faleceu. De acordo com o seu desejo, o corpo foi transportado para a pequena igreja de Santa Maria, em Pádua. Toda a cidade acompanhou o funeral e, nessa mesma tarde, sobre o seu túmulo, começaram os milagres. A fama do Santo espalhou-se ainda mais, e peregrinos, alguns de zonas longínquas, dirigem-se a Pádua. O processo de canonização inicia-se de imediato e conclui-se rapidamente, com o reconhecimento unânime da sua santidade. Os confrades de António, ajudados pelos paduanos e pelos peregrinos iniciam então a construção de uma grande basílica onde tencionam repor dignamente os restos mortais do Santo dos milagres. Em 1263, os restos mortais de Santo António são transportados para a nova basílica. Aberto o caixão, verificam que a língua se conserva prodigiosamente incorrupta.

O túmulo de António na “Capela do Santo”. Basílica de Santo António, Pádua.

Como era Santo António

Após o reconhecimento de 1263, ocorreu um novo reconhecimento, com autorização de João Paulo II, em 1981, por ocasião dos 750 anos da morte do Santo. Os restos mortais revelaram-se perfeitamente conservados. Médicos e historiadores tiveram a oportunidade de reconstruir as características físicas de Santo António: cerca de 1,70 m de altura; estrutura frágil, pouco robusta; perfil nobre; rosto alongado e estreito; olhos encovados; mãos compridas e finas. O mais extraordinário foi este reconhecimento ter confirmado o de 1263 também no que toca ao aparelho vocal: este manteve-se intacto, com a língua incorrupta, tal como 718 anos antes. Os diferentes elementos do aparelho vocal foram então guardados em relicários. Estes, por sua vez, encontram-se na “Capela das Relíquias” ou do “Tesouro”, construída nos finais do século XVII, em estilo barroco, sob projeto do arquiteto e escultor Filippo Parodi, uma das sete belíssimas capelas da não menos belíssima Basílica de Santo António. O esqueleto de António, recomposto dentro de uma urna de cristal protegida por uma caixa de madeira de carvalho, foi colocado novamente no seu túmulo, em 1 de Março de 1981. Só no mês de Fevereiro de 2010 os fiéis puderam ver os restos mortais do Santo. Esta foi a sua última exposição.

Santo Popular

Santo António desde cedo se tornou popular. Foram e são-lhe atribuídos inúmeros milagres. E todos sabemos como os milagres mais pedidos são os da saúde e do amor… Assim, não surpreende que tenham sido atribuídos ao pobre António incontáveis milagres amorosos e que ele tenha ganhado, sem vontade própria, a fama de casamenteiro. Ora, quem pode ser mais popular que um casamenteiro? Como pudemos testemunhar, quer em Portugal, quer no Brasil, mas também em Pádua e noutras partes do mundo, as festas em honra de Santo António, no dia 13 de Junho (que começam na véspera), estão fortemente implantadas na cultura popular de vários povos. Curiosamente, algumas tradições do tempo da nossa infância no bairro de Alfama, em Lisboa, que aí caíram em desuso, por exemplo “saltar à fogueira”, continuam bem vivas no Brasil, como constatámos na Paraíba, numa viagem noturna entre Campina Grande e João Pessoa: em todas as povoações por que passámos, vimos fogueiras.

Este Santo António fez um longo percurso desde Ouro Preto, no Brasil, até o Algarve, em Portugal.

Tivemos a sorte de conhecer Campina Grande e Caruaru, as duas cidades, a primeira na Paraíba e a segunda no Pernambuco, que rivalizam para organizar as melhores festas juninas do Brasil, embora estas estejam fortemente implantadas em todo a Federação, sobretudo no Nordeste. As quadrilhas juninas organizadas por associações locais dos municípios nordestinos, proliferam por todo o lado e, claro, o ponto alto das suas atuações acontece durante as festas em honra dos santos populares. As exibições das quadrilhas arrastam muitos aficionados, à semelhança do que acontece com as marchas populares, em Lisboa, e as coreografias, que obedecem a certos cânones, são, apesar disso, muito criativas.

A nossa ligação a Santo António existe desde que nascemos, em Alfama, num dia 12 de Junho. Todos os anos, nesse dia, os lisboetas preparam-se para a noite mais longa do ano, a maior festa popular da cidade. Desde o tempo da minha infância até agora, a Noite de Santo António foi-se modificando: já não se salta à fogueira; já não se queimam alcachofras; já não se fazem os bailaricos nos pátios e as festas particulares, mas abertas a todos, dos vizinhos de cada beco; já não se houvem cantigas populares que provavelmente se perderam no tempo (talvez ninguém se tenha lembrado de fazer uma recolha de pelo menos algumas dessas cantigas, o que é pena); já não se oferecem sardinhas a quem passa. Hoje, infelizmente, os moradores do bairro que intervêm na festa pensam sobretudo no negócio: em fazer um “retiro”. Apesar das mudanças, a animação é garantida, com o bairro repleto de visitantes.

A procissão de Santo António passa pelas ruas apertadas de Alfama. Na foto, o andor do arcanjo São Miguel. Pela primeira vez, depois de muitos anos, hoje, devido à Covid-19, não haverá procissão de Santo António.

O mesmo se passa na Mouraria, na Graça, no Castelo, na Bica, no Alto do Pina e em muitos outros bairros de Lisboa. A meio da noite, mais ou menos, a Marcha, vinda da atuação na Avenida da Liberdade, percorre as ruas de Alfama até ao Centro Cultural Magalhães Lima. Tal como na saída, ao fim da tarde, trata-se de um momento alto para os bairristas mais fervorosos. Nessa noite é normal as pessoas deitarem-se quando já é dia – Dia de Santo António. No 13 de Junho, de manhã, sabe-se qual é a marcha vencedora; e, à tarde, vinda da Igreja que tem o seu nome, passa pelo bairro a procissão de Santo António, à qual se vão juntando andores de outras paróquias – Sé, São Miguel, Santo Estevão, São Vicente, Santa Cruz do Castelo e São Tiago – até regressar ao local de origem. Em alguns anos assistimos a tudo isto sem interrupção, fazendo uma “direta”, voltando a casa apenas na noite desse dia 13. O padroeiro oficial de Lisboa é São Vicente (o primeiro fora São Crispim), mas pouca gente sabe ou quer saber disso. O padroeiro popular, o verdadeiro, é Santo António. O Santo do Povo.

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Fontes:

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Os 11 aspetos distintivos de Portugal

1- A LUZ

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A luz de Lisboa.

A luz de Portugal é famosa. Lisboa, a “Cidade Branca”[1], é elogiada por artistas plásticos, fotógrafos e cineastas – para quem a luz é parte importante do seu trabalho – por sua luminosidade particular. Além da luz “diretamente” recebida, há também a luz filtrada e a luz refletida. É na combinação destes tipos de luz que se manifesta a particularidade de Portugal. Neste contexto, têm uma importância acrescida o vento (normalmente, de Norte), o céu limpo (Portugal é um dos países do mundo com mais dias de sol) e as edificações de matizes claros (nomeadamente as construídas em pedra, que é quase sempre o calcário branco) ou pintadas de branco, que ampliam a transparência da luz. Este tipo de construções encontram-se sobretudo nas regiões do Sul de Portugal continental, nomeadamente no Alentejo e no Algarve.

2- A PAISAGEM

Costa da Caparica
Pôr do sol na Caparica, arredores de Lisboa.

Portugal é um país pequeno mas extremamente diversificado. Isto reflete-se em tudo (como veremos, muito, na gastronomia), mas também, claro, na paisagem. Temos vários tipos de clima, alguns dos quais separados por poucos quilómetros de distância – o Norte de Portugal, por exemplo, vai desde o verde viçoso do Minho (onde podemos encontrar o exuberante Gerês) ao árido (mas belo) Trás-os-Montes. As praias são magníficas: as do Norte com água bem fria, e as do Sul (nomeadamente no Algarve) com águas mornas (no Verão) e calmas, excelentes para banhos. As principais cidades portuguesas situam-se junto a belos rios – O Mondego, o Douro e o Tejo. Seguir o seu percurso equivale a conhecer por dentro algumas das mais belas paisagens naturais do mundo. Os arquipélagos dos Açores e da Madeira – onze ilhas de encantos muito diversos – são igualmente famosos pelas suas belezas paisagísticas.

3- O MAR

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Praia do Barril, Tavira, Algarve.

Não existe outro país continental onde as pessoas tenham uma relação tão estreita com o mar. Esta relação está já inscrita no código genético dos portugueses. Isso é visível na distribuição da população pelo território. Esta apetência para o mar – manifestada pelas mais diversas atividades profissionais, culturais e de lazer – deriva da presença em Portugal dos Fenícios, povo que, tal como nós, embora muito antes, se dedicou, durante largo período, ao comércio marítimo. Os portugueses quase sempre aceitaram os desafios do mar. Nele, muitos ganharam a vida e muitos outros a perderam. Dificilmente um português conseguirá viver longe da água salgada. Esta relação completa-se com o fiel cão de água português, o canino mais adaptável, em todo o mundo, ao ambiente marítimo[2]. Como se sabe, esta vocação marítima conduziu os portugueses aos quatro cantos do mundo. Portugal foi o primeiro império marítimo mundial[3]. Data desses tempos o início do processo conhecido por “globalização”.

4- A CORTIÇA

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Colares e brincos em cortiça.

Trata-se de uma especificidade portuguesa. Portugal é o maior produtor mundial de cortiça. Este produto tem características muito próprias – sobretudo a sua combinação de impermeabilidade e leveza – que o tornam excelente em várias utilizações, sobretudo, claro, como rolha, em garrafas de vinho[4]. Porém, nem toda a cortiça dá para fazer rolhas. A primeira extração de cortiça só se realiza quando o sobreiro tem 25 anos. E a cortiça adequada para produzir rolhas só é extraída quando o sobreiro tem 43 anos (terceira extração). O sobreiro (Quercus Suber L.), única árvore em que a casca se regenera, dura em média 200 anos, isto é, suporta cerca de 17 extrações. A cortiça tem mais aplicações para além de rolha. Os produtos derivados são utilizados em áreas tão diversas quanto a moda, a construção, o design, a saúde, a produção de energia ou a indústria aeroespacial.

5- A GASTRONOMIA

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O peixe grelhado, sobretudo a sardinha, é uma iguaria muito apreciada pelos portugueses.

A gastronomia em Portugal é excelente. As duas vertentes de uma gastronomia de elevada qualidade são as boas matérias-primas e os bons cozinheiros (que fazem – ou reproduzem – as boas receitas). O peixe é a melhor matéria-prima de Portugal, em termos gastronómicos. Aqui existe, reconhecidamente, os melhores peixes do mundo. A sardinha é rainha e o bacalhau é rei. Ninguém sabe tratá-los melhor que os portugueses. Depois, fabricamos o melhor pão, aliás, os melhores pães (e broas), pois a variedade é enorme. Excelentes vinhos (brancos, tintos, espumantes, rosés e generosos) são produzidos em Portugal. O vinho do Porto é famoso no mundo inteiro. Os nossos queijos são variados e de qualidade insuperável. O queijo “Serra da Estrela” já foi várias vezes considerado o melhor do mundo. O nosso azeite é de altíssima qualidade e ganha regularmente, tal como o vinho e o queijo, prémios internacionais. Finalmente, a doçaria. É de chorar. Os nossos melhores doces vêm de uma tradição “conventual”. Enfim, perante coisas ancestrais, é quase pecado falar em “nouvelle cuisine” (que também aqui há). A nossa cozinha não é uma moda, não é uma nova forma de arte. A nossa cozinha é cultura (viva), é sabedoria – e é amor[5].

6- O MANUELINO

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A Torre de Belém, desenhada por Francisco de Arruda, é um magnífico exemplar do estilo manuelino.

Mais fácil e melhor que descrevê-lo é observá-lo nas mais variadas obras de arte, quer em edificações, quer em ourivesaria. Tradicionalmente, considera-se o manuelino como uma evolução do estágio ulterior do estilo gótico, e por isso é também denominado como gótico português tardio ou flamejante. O estilo manuelino desenvolveu-se sobretudo no reinado de D. Manuel, embora já existisse no do seu antecessor, D. João II, e desenvolveu-se também a partir da arte mudéjar, tendo ainda, mais tarde, incorporado elementos do Renascimento italiano. Os motivos principais do manuelino (designação cunhada em 1842 por Francisco Adolfo Varnhagen) são a esfera armilar, a cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas ou fantásticos. As três obras mais emblemáticas do manuelino são, provavelmente, o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e a janela do Capítulo, no Convento de Tomar, todas construções do século XVI.

7- A CALÇADA PORTUGUESA

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Calçada portuguesa no Largo do Chiado, em Lisboa.

Foi considerada recentemente por um colunista do Financial Times uma das principais atrações entre aquelas que figuram nas mais belas cidades do mundo. Os efeitos visuais são sempre interessantes e, em imagens vistas de cima, muitas vezes, de rara beleza. Exportámos esta arte para outros países, da China (Macau) ao Brasil, como se pode verificar, por exemplo, no Rio de Janeiro. Mas é em Portugal Continental e nas Ilhas que se encontram os exemplos mais cativantes. No Continente, a pedra usada é sempre o calcário, sobretudo preto e branco (mas também castanho, vermelho, azul, cinzento e amarelo) mais fácil de trabalhar que o (mais duro) basalto negro, usado nas Ilhas, sendo ali os desenhos formados em calcário branco. Os trabalhadores especializados na colocação deste tipo de calçada são denominados mestres calceteiros. Esta arte iniciou-se (nos moldes em que hoje a conhecemos) em meados do século XIX e, desde 1986, existe a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal, situada na Quinta do Conde dos Arcos, em Lisboa.

8- A AZULEJARIA

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Casa do Alentejo, em Lisboa.

O que dizer do azulejo português? Essa expressão artística manifesta-se em todo o país e cobre todas as camadas da população, desde os artesãos dos lugares mais recônditos, aos mais consagrados artistas. Com cerca de 500 anos de produção, a sua origem é árabe. No início, os azulejos predominavam em igrejas e palácios, mas com o tempo popularizaram-se, sobretudo a partir do século XIX, e chegaram às fachadas e aos interiores dos edifícios residenciais. Embora a azulejaria se tenha desenvolvido noutros países (como a Espanha, a Itália e os Países Baixos), em Portugal a sua originalidade deriva sobretudo da relação estabelecida com outras artes, nomeadamente a pintura, a gravura e a arquitetura, e do diálogo que mantém com o espaço envolvente, iluminando-o e transformando-o globalmente. No Museu Nacional do Azulejo, situado no Convento da Madre de Deus, em Lisboa, é possível observar magníficos exemplares. Quem goste desta expressão artística deve também fazer uma visita à Quinta da Bacalhôa, em Azeitão, na Península de Setúbal.

9- O FADO

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Fado na Mesa de Frades.

Apesar do recente reconhecimento como Património Mundial pela UNESCO, o fado ainda é visto por muitos como uma expressão artística menor. Mas há fados e fados. E há o Fado. Este foi imortalizado por Amália Rodrigues e desde aí não foi mais possível ignorá-lo. Amália, sobretudo no período em que cantou poemas de grandes poetas portugueses dentro das composições de Alain Oulman, guindou o fado a uma das expressões artísticas mais genuínas, belas e nobres. As suas atuações eram absolutamente arrebatadoras e Amália guiava-as apenas com a sua espantosa intuição. Uma das características únicas do fado é a utilização da guitarra portuguesa (há a de Lisboa e a de Coimbra, com afinações diferentes), com sua sonoridade única e inequívoca. Neste instrumento se destacaria um interprete e criador extraordinário chamado Carlos Paredes. E é ainda uma voz feminina que se destaca nos dias de hoje no fado: Mariza é a digna sucessora de Amália.

10- A POESIA

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Estátua de Fernando Pessoa, junto à “Brasileira”, em Lisboa.

No campo da escrita, Portugal não é apenas um país de poetas. Desde Fernão Mendes Pinto que existem ilustres contadores de histórias, narradores exímios, domadores lestos, que cavalgam as palavras. Eça de Queirós é um deles. Mas foram dois poetas que marcaram para sempre as letras portuguesas: Luís de Camões e Fernando Pessoa. Radicalmente diferentes, na vida e na obra, igualam-se e complementam-se no génio. Ambas as obras, separadas por um quarto de milénio, estão no topo do que alguma vez foi produzido, no género, por homens e mulheres. Ambos viveram durante algum tempo em Lisboa (e passaram por Alfama), e ambos são símbolos importantíssimos da cidade, e de toda a nação. Mas outros nomes de poetas poderíamos acrescentar, como Camilo Pessanha, Cesário Verde, Florbela Espanca, Sophia de Melo Breyner, Ruy Belo, Herberto Helder, entre muitos, muitos outros.

11- OS PORTUGUESES

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Veraneantes em Cabanas, Algarve.

As generalizações são sempre abusivas, ainda mais quando se trata de povos e, neste campo, não há melhores ou piores. Existem vários tipos de portugueses, como existem vários tipos de subsolos: o transmontano é duro e rude como o granito; o alentejano maleável como a argila e macio como o xisto. A diversidade reina. Mas talvez seja possível encontrar alguma tipicidade num país com 850 anos. O português tem, como já vimos, uma costela fenícia, à qual devemos acrescentar as árabe, judaica e berbere. Ou seja, o arcaboiço é semita[6]. Por outro lado, uma característica básica do português é a miscigenação. Basta ver os negros no Brasil e os negros dos Estados Unidos para perceber como as colonizações portuguesa e inglesa foram diferentes. A expressão “Deus criou o branco e o preto, e o português criou o mulato” tem pleno cabimento. Talvez por isso o português se adapte rapidamente à vida longe de casa. E, nesta, ninguém sabe receber tão bem quanto ele, o típico hospitaleiro. Pena é que, a nível social, dependa tanto do Estado. O português raramente tem iniciativa e precisa de ser liderado. Este é um problema cultural, que está na base do atraso do país.

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Notas:

[1] A capital portuguesa ficou conhecida como “Cidade Branca”, sobretudo, após o filme, com título homónimo, do realizador suiço Alain Tanner, rodado em Lisboa e estreado em 1983.

[2] Existe também um cão de água espanhol, mais pequeno que o português e, ao que parece, menos sociável com as crianças. Sobre o cão de água português ver artigo deste blogue: https://ilovealfama.com/tag/cao-dagua-portugues/.

[3] Ver artigo deste blogue: https://ilovealfama.com/2014/08/22/o-primeiro-imperio-maritimo-mundial/.

[4] 60% das rolhas de cortiça de todo o mundo são produzidas em Portugal. Seguem-se Espanha e Itália. Há ainda pequenas parcelas que são produzidas em Marrocos, Argélia e Tunísia. Por outro lado, nem todas as rolhas de cortiça têm suficiente qualidade. Isto é muito importante, dado que a oferta de rolhas de qualidade não é suficiente para a procura. Os preços, naturalmente, sobem (uma boa rolha de cortiça pode custar mais de um euro), até porque todo o processo de extração só pode ser feito por processos manuais.

Para se ter ideia da importância das rolhas de vinho em cortiça, recordemos um curiosíssimo episódio ocorrido em 2010. Nesse ano foram descobertas no Mar Báltico, em área finlandesa, mais de 160 garrafas de champanhe provenientes de um naufrágio. O vinho tinha cerca de 200 anos e estava em perfeito estado de conservação, pois a enorme pressão no fundo do mar fez com que as rolhas se mantivessem estanques. Foi decidido provar o vinho que se verificou estar em perfeitas condições (a quase total escuridão e a temperatura média de 4 graus também contribuíram para isso). E, sem surpresa, foi solicitado o apoio técnico à melhor corticeira do mundo – a portuguesa Amorim – que estudou o assunto e substituiu algumas das rolhas originais por rolhas naturais de alta qualidade.

[5] Para lá da excelência da nossa gastronomia, e a condizer com ela, há que referir também o gosto dos portugueses pela comida. Somos dos poucos povos que fazem questão de almoçar e jantar com refeições completas. E somos dos que mais gostam de ir ao restaurante. De acordo com Barry Hatton, um jornalista britânico radicado em Portugal (in “Os Portugueses”, Editora Clube do Autor, 9ª edição, nov. de 2013, p. 261), “um estudo de 2008 revelou que as famílias portuguesas gastam 9,5% do seu orçamento familiar a comer e a beber fora – mais do dobro da média da UE. Essa estatística ajuda a explicar a razão pela qual Portugal tem três vezes mais restaurantes per capita do que o resto da UE (um por 131 pessoas; a média da UE é de um por 374)”. Podemos – e devemos – ainda acrescentar à lista de produtos fabulosos “made in Portugal”, algo tão básico e importante como o sal. O sal português é de altíssima qualidade, sobretudo o da região do Algarve, nomeadamente de Tavira. A flor de sal é um produto que resulta das pequenas placas que flutuam na água do mar apresada nos talhos das salinas. Logo após a recolha é depositada em caixas perfuradas para escorrer e secar ao sol, até ser armazenada. É muito apreciada pelos melhores cozinheiros mundiais. Tanto o sal tradicional quanto a flor de sal de Tavira são recolhidos entre julho e setembro, e a Comissão Europeia atribuiu-lhes, em novembro de 2013, a Denominação de Origem Protegida – DOC. 

[6] Aqui discordamos abertamente de Teixeira de Pascoaes. Escreve ele no seu ensaio “Arte de “Ser Português” (Assírio & Alvim, 1ª edição, 1991, p. 58): “Portugal resiste, há oito séculos, ao poder absorvente de Castela. Demonstra este facto que, de todas as velhas Nacionalidades peninsulares, foi Portugal a dotada com mais força de carácter ou de raça. E este seu carácter, trabalhado depois pela Paisagem, resultou ou nasceu da mais perfeita e harmoniosa fusão que, neste canto da Ibéria, se fez do sangue ariano e semita. Estes dois sangues, equivalendo-se em energia transmissora de heranças, deram à Raça lusitana as suas próprias qualidades superiores, que, em vez de se contradizerem – pelo contrário – se combinaram amorosamente, unificando-se na bela criação da alma pátria”.

Ora bem, este é um retrato bastante romântico do português. Basta olhar à nossa volta para perceber isso – basta olhar para nós próprios. Embora haja, evidentemente, algum sangue ariano entre nós, somos, sem dúvida, semitas e, mais, (estudos genéticos comprovam-no), goste-se ou não, somos em larga medida africanos, com sangue ancestralmente negro. Claro que nos referimos a cruzamentos antigos. Somos dos povos mais miscigenados do mundo e estamos também presentes noutros povos, como, por exemplo, no Brasil. Atualmente, em Portugal, de acordo com um artigo publicado no Journal of Human Genetics, por Mark A. Jobling, Susan Adams, João Lavinha e outros (The Genetic Legacy of Religious Diversity and Intolerance: Paternal Lineages of Christians, Jews, and Muslims in the Iberia Peninsula), vol. 83, nº 6, 2008, pp 725-736, existem, no Norte do país, 64,7% de população de ascendência ibérica, 23,6% de ascendência judaica sefardita e 11,8% de ascendência berbere. Já no Sul de Portugal as proporções são 47,6% (ibéricos), 36,3% (sefarditas) e 16,1% (berberes).

Alfama está mais bonita

DSC01282Alfama passa neste momento por um período de renovação. Muitas obras estão concluídas e outras a decorrer. O turismo é maior que nunca. E, sim, ela está, agora, ainda mais bela!

Alfama vence Marchas Populares 2014

marcha d'alfama 2014Pelo segundo ano consecutivo, Alfama vence o concurso das Marchas Populares de Lisboa, com o tema Gira o Sol sobre Alfama. Predominaram as cores amarela e verde – o que fez lembrar inevitavelmente o Brasil…

Eis a classificação da edição deste ano, a 82ª.

1.º Alfama – 246 pontos

2.º Alcântara – 238 pontos

3.º Bairro Alto – 226 pontos

4.º Alto do Pina – 218 pontos

5.º Bica – 212 pontos

6.º Madragoa – 206 pontos

7.º Carnide – 201 pontos

8.º Ajuda, Graça, Lumiar e Mouraria – 200 pontos

12.º Marvila – 199 pontos

13.º Campolide – 198 pontos

14.º Beato – 194 pontos

15.º Castelo – 192 pontos

16.º S. Vicente – 188 pontos

17.º Santa Engrácia – 185 pontos

18.º Benfica – 182 pontos

19.º Bela Flor – 166 pontos

20.º Belém – 162 pontos

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Nota: a foto deste artigo foi retirada de www,jn.pt (Jornal de Notícias).

 

Dudamel em Alfama

Gustavo Dudamel

Hoje no Largo do Chafariz de Dentro topei com um amigo que não via há anos. Apareceu do outro lado da rua caminhando ao meu encontro. Estava diferente, o cabelo em carapinha, bem pretinho, uns bons dois palmos estendidos para o céu, mas com uma faixa prateada, a toda a volta, na base. Seu sorriso era aberto, alvo, feliz, lembrou-me o de Gustavo Dudamel; e a pele do seu rosto era rosada, brilhante, bonita – podia ver cada poro, tão perto estávamos um do outro.

Lembro-me perfeitamente de me ter sentido incomodado com o seu inesperado rejuvenescimento.

Depois, subindo por uma ruela cheia de obstáculos, que eu não sabia se tinha saída, deparei com um animal enorme, assemelhado a cão, na forma,  e a lagarto, na pele, mas do tamanho de um cavalo, embora mais magro. Quando o avistei, ele estava no topo da rua distraído com qualquer coisa, mas depois virou-se e correu na minha direção. Enorme como era, não demorou um segundo a alcançar-me. Tinha a pele cor de laranja, com manchas pretas, e uma cabeça semi-humana – uma cabeçorra que ficou a milímetros de mim! – com as ventas achatadas e as orelhas curtas e espetadas, em forma de V. Só tive tempo de pegar num enorme pau (na verdade era mais uma tábua de soalho) e colocá-lo em riste. Meu coração batia forte. Ao ver isto, a besta bufou, deu meia volta e desapareceu numa viela.

Uff!!! Acordei atordoado, ainda com estas imagens claríssimas no meu cérebro. Se eu soubesse desenhar construiria figuras perfeitas e detalhadas quer do meu amigo, quer deste magnífico animal. Mas fiquei apenas sentado na cama, esfregando os olhos, pensando com os meus botões em como é vasto e rico o mundo dos sonhos. Todos os dias lá vamos pegar peças tão nítidas, reais e fantásticas, que fazem corar de inveja a mais pura imaginação. O curioso é que tanto o Inconsciente quanto a Imaginação recorrem à realidade para montarem as suas narrativas. Só que enquanto a Imaginação o faz construindo e reconstruindo essa realidade, o Inconsciente apresenta-nos um filme instantâneo, a cada momento. Mais ou menos como dividirmos 3557 por 43 utilizando um lápis ou uma máquina de calcular.

E agora fiquei com algo na cabeça – que será feito do meu amigo?

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Foto de Dudamel copiada de http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,1655434,00.html

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Lisboa, a cidade mais “cool” da Europa

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A jornalista Fiona Dunlop, em artigo para a CNN, considera Lisboa a cidade mais cool da Europa, elogiando a nossa capital em sete vertentes principais: vida noturna, gastronomia, ironia, praias e castelos, arquitetura, arte e arruamentos. Neste último capítulo, há uma referência a Alfama e às coloridas fachadas dos seus prédios[1].

O rescendor de Lisboa espalha-se pelo mundo.

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[1] http://edition.cnn.com/2014/01/25/travel/lisbon-coolest-city/index.html

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Marcha de Alfama vai desfilar em Macau

marcha“A Marcha de Alfama vai participar na parada de celebração do Novo Ano chinês, em Macau, agendada para os dias 2 e 8 de fevereiro, anunciaram os serviços de turismo da Região Administrativa Especial chinesa.

O grupo português será o único ocidental a participar no evento, que contará ainda com a presença de sete grupos de animação asiáticos, provenientes, nomeadamente, da Coreia do Sul, Hong Kong, Indonésia, Japão, Malásia, Taiwan e Tibete, além de mais de 20 locais.

A população de Macau vai poder escolher, através de uma mensagem de telemóvel, o seu grupo favorito, que irá participar nas Marchas Populares de Lisboa.

A diretora dos Serviços de Turismo, Maria Helena de Senna Fernandes, disse, em conferência de imprensa, que o “evento deste ano, ‘Celebrar a Alegria e Abundância do Ano do Cavalo’ [um dos 12 signos do zodíaco chinês], será mais atraente do que o do ano passado”, dada a participação de grupos artísticos do exterior” [1].

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[1] Fonte: Jornal de Notícias. A foto é de Julio Pimentel (Global Imagens).

La Boca, Alfama e o Lunfardo

la bocaLa Boca é um bairro portenho [1], situado na antiga zona portuária, na margem direita do rio da Prata, onde nasceram dois grandes clubes argentinos, River Plate e Boca Juniors . Não vou alongar-me sobre a história deste típico bairro, até porque isso está disponível para consulta em muitos sítios da internet. Vou apenas mostrar as semelhanças, algumas delas muito curiosas, que o mesmo tem com Alfama.

1- Situam-se na margem (direita) de um rio.

2 – Estão na origem das cidades de que fazem parte, Buenos Aires e Lisboa.

3 – Têm em frente um mar que não é mar – mar da Prata [2] e mar da Palha.

4 – Desenvolveram-se a partir das atividades portuárias.

5 – São o coração de dois tipos de música, ambos Património Cultural Imaterial da Humanidade, assim classificados pela UNESCO – o tango e o fado.

6 – São bairros extremamente populares e a sua população é, em geral, pobre [3].

7 – Em La Boca usa-se uma interlíngua que se chama “lunfardo”, a qual se deve à passagem de marinheiros estrangeiros pelo bairro, sobretudo italianos, mas também portugueses. Muitos vocábulos dessa gíria são usados também em Alfama. Aqui ficam alguns exemplos que a maioria dos alfamenses certamente reconhecerá. “Guita” (dinheiro); “cana” (prisão); “canoas” (sapatos); “engrupir” (enganar); “fachada” (cara); “fanar” (roubar); “farra” (festa); “gagá” (debilitado mentalmente); “garfos” (dedos do carteirista); “lábia” (facilidade para dialogar); “mancar” (entender, compreender); “morfar” (comer); “palpitar” (imaginar); “tanga” (fraude, engano); “untar” (subornar); “zarpar” (ir-se rápido) [4] [5].

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[1] Relativo a Buenos Aires.

[2] O rio da Prata, dada a extensão do seu enorme estuário foi confundido com um mar. Daí terem-lhe chamado Mar da Prata. Ainda hoje há quem o chame assim.

[3] Como se pode ver pelo exemplo que mostramos na foto de La Boca (registada em 2009), muitas casas foram pintadas com cores vivas e variadas. Isto teve origem no aproveitamento dos restos das tintas usadas para pintar os navios, que os locais recolhiam para pintarem suas próprias casas.

[4] Existem até dicionários de Lunfardo, como pode ver-se pelo exemplo aqui:

http://www.elportaldeltango.com.ar/lunfardo/

[5] Já agora, fica também a referência a outro tipo de interlíngua que se fala na região – o “portunhol” (ou portanhol). Uma mistura, como a termo indica, de português com espanhol, falado sobretudo na zona da tríplice fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai (ver foto no artigo deste blog sobre as Cataratas do Iguaçu) e também na zona da fronteira sul do Brasil, entre o estado do Rio Grande do Sul e o Uruguai.

Lisboa a Santos, a bordo do “Preziosa” (13/26 de novembro de 2013)

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Alfama vista do Preziosa, à saída de Lisboa.

DIA 1 – LISBOA

O primeiro dia no Preziosa foi muito curto. Após as formalidades de embarque, entrei pela primeira vez a bordo por volta das 19:30. Fiquei feliz por, após ter ultrapassado o átrio de entrada, um elevador panorâmico e um corredor interminável, ter chegado finalmente à cabina 13214, sem me ter enganado no caminho. De imediato tive a agradável sensação de que a cabina era ampla, limpa, bonita, bem iluminada, com uma cama king size só para mim. Abri as cortinas e a portada para aceder à varanda, e espreitei a água escura do rio lá em baixo. Voltei para dentro, depositei a mochila em cima da cama e saí do navio para jantar com o meu amigo António, num restaurante do cais, em frente à minha casa dos próximos 14 dias. Saboreei a comida, o vinho, o momento, e regressei a bordo às 21:20, com o coração alvoroçado. Precisamente às 22:00, o navio fez meia-volta e zarpou, rumo a Sul. Despedi-me de Alfama, de Lisboa e do Tejo, pela primeira vez, do 13º deck de um gigante dos mares…

Por volta da 1:00 deixei de discernir as luzinhas em terra, lá atrás. Desliguei a tv e a luz – e adormeci.

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Gaivota sobrevoando o navio.

DIA 2 – NAVEGANDO

Acordei por volta das 8:00. O sol nascera já do lado oposto ao da minha cabina, o que queria dizer que, mais tarde, veria deste lado o pôr do sol. Mar calmo, céu limpo. Tomei a primeira refeição a bordo. Muita gente. Segundo me disseram, estão mais de 3.000 passageiros no navio. Fiz a minha primeira exploração, depois do pequeno-almoço, no 14º andar. É aqui que estão as principais áreas de lazer, sobretudo as piscinas – uma coberta e duas ao ar livre. Muita gente tomando sol. Depois de escrever estas linhas, ou talvez só à tarde (agora são 11:00), vou experimentar as piscinas e uma das inúmeras espreguiçadeiras que circundam o amplo deck. Mais tarde, talvez, o ginásio. Há muita coisa para explorar…

Afinal, acabei por ficar na varanda da cabina, após o almoço e algumas fotos no tal deck 14. Estava um sol delicioso, e acabei por me despir completamente e saborear a temperatura agradável no corpo todo, em todos os poros. À minha frente o mar a perder de vista; atrás, a cabina; e, dos lados, duas paredes que isolam esta das outras contíguas. Navegamos ao largo da costa africana e estamos precisamente, neste momento, a 32º 21.90’ N e 012º00.82’ W. Se a terra não fosse redonda e a minha vista fosse de longo alcance, observaria, à direita do navio (estibordo), as ilhas da Madeira e do Porto Santo. O espaço interior da embarcação é grande e não sinto, muitas vezes, que estou no alto mar. Precisava de um amigo, de um amor, alguém que me mostrasse que tudo isto é real.

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A cidade de Arrecife, em Lanzarote, a ilha onde viveu Saramago.

DIA 3 – LANZAROTE, ARRECIFE

Acordei ainda antes do sol nascer (07:14) para observar a aproximação a Lanzarote. Outros passageiros tiveram a mesma ideia e foi bonito ver o astro-rei subir no mar, do lado oposto à ilha… Tomei o pequeno-almoço e fui visitar a cidade de Arrecife, que é, numa primeira observação (necessariamente superficial) pequena, vulcânica, morna e limpa. O mar está sempre presente, como seria impossível não estar, numa ilha, e apresenta-se calmo, transparente e tépido, ainda que eu não o tenha provado. Visitei um local de pescadores, uma pequena feira sobre o desenvolvimento sustentável, e falei com pessoas que protestavam contra o Banco Popular. Vi gente pobre nas ruas. Notei que a cidade não é rica, com pouco comércio e turismo (tem pouquíssimos hotéis, comparativamente a locais semelhantes), mas digna e agradável, precisamente por ser simples, natural e genuína. Bem no centro, encontra-se uma bonita praia, onde encontrei bastantes banhistas, de sol e, alguns, de mar, em pleno novembro. Adoro cidades com praias à mão. Claro que perguntei por Saramago. Segundo me disseram, morava fora da cidade. Seja como for, foi mesmo só curiosidade, pois eu não fui, não sou e não me vejo ser fã do José, que me desculpem os indefectíveis…

Regressei ao navio e, como tinha dormido pouco, passei pelas brasas. Por volta das 17:00 subi ao ginásio e pratiquei 20 minutos de bicicleta e 20 minutos de corrida. Em frente, uma enorme superfície de vidro que deixa ver a imensidão do mar: o ginásio fica bem na proa do navio, lá no alto, com uma vista soberba. A sensação é a de que estamos galgando sobre as ondas, e a verdade é que estamos mesmo. Agora são quase 23:00 e ainda não decidi se vou hoje visitar a discoteca. Uma coisa é certa: subirei ao andar imediatamente superior ao meu (nem preciso de elevador) para comer qualquer coisa no Buffet Inca & Maya, antes de me recolher, definitivamente, por hoje. Agrada-me bastante este serviço pois não preciso de esperar, como nos restaurantes, e posso comer o que (e a que horas) quiser, durante 20 horas por dia, das 6:30 às 2:30 do dia seguinte. A variedade é grande e acho que estou a comer de mais.

O navio desloca-se lentamente, a uma velocidade de 12 nós. Tenerife fica apenas a 150 milhas náuticas de Lanzarote, e nós só temos de lá chegar às 8:00 horas.

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La Laguna, na ilha de Tenerife.

DIA 4 – TENERIFE, SANTA CRUZ

Ainda a alguns quilómetros da costa já dá para perceber que a ilha de Tenerife é muito maior que a de Lanzarote. Proporcionalmente, também a cidade de Santa Cruz é muito maior que a de Arrecife. Maior e, logicamente, com mais habitantes, turistas e atividades. Aportámos às 8:00, como previsto, e eu já estava no deck 14 para poder observar quer a estibordo, quer a bombordo[1]. A cidade de Santa Cruz está bem organizada e, pareceu-me, tem um bom sistema de transportes. Prova disso foi o elétrico rápido que apanhei até a cidade de La Laguna. Uns 25, 30 minutos, sempre a subir, com várias paragens pelo caminho. O preço – 1, 30 euro por percurso – é um convite à utilização do transporte público, e um exemplo para cidades portuguesas, como Lisboa.

La Laguna foi uma surpresa muito agradável. Originalmente chamada de Villa de San Cristóbal de La Laguna, foi fundada em 1497, após a conquista da ilha de Tenerife por Don Alonso Fernández de Lugo[2]. La Laguna foi capital e centro administrativo de Tenerife até o século XVIII, quando esse estatuto passou a pertencer a Santa Cruz. Mantém até hoje, no entanto, o seu caráter cultural, intelectual e artístico. É, apropriadamente, considerada Património Mundial pela UNESCO. Vagueei com prazer pelas suas ruas e encantei-me com seu património edificado. Falei com algumas pessoas, todas bastante simpáticas.

Era já tarde quando regressei para o almoço no navio. Depois disto, fiz mais uma sesta: parece que está a tornar-se um hábito, mas, se o for, é um hábito que me dá prazer. Fiquei pela cabina até a hora prevista da partida de Santa Cruz, às 18:00, mas, devido a uma avaria numa das portas do Preziosa, só saímos do cais por volta das 21:45, estava eu, de novo, no ginásio.

Agora são 23:40 (hora local e de Lisboa) e continuo a ver, à minha direita, as luzes de Tenerife. A ilha é grande, sim. O navio navega agora a mais de 21 nós, talvez para recuperar o tempo perdido, e eu reparo que quanto mais depressa se move, menos se nota a ondulação. Outra coisa que realizo também é que, à semelhança do que se passa nas orquestras ou nas equipas de futebol, também a equipa de um navio é formada por elementos de muitas nacionalidades…

Não sei o que farei, ainda, esta noite. Ontem fui ver como é a discoteca, mas acabei por me vir embora. Não quis fazer companhia ao único mirone, sentado ao balcão; nem ao pequeno grupo, de cinco ou seis pessoas, que dançava sob um som bastante duvidoso. Hoje não vou. Daqui a nada subo ao Buffet Inca & Maya para trincar qualquer coisa suave e depois regresso aos meus aposentos… Acho eu. Boa noite!

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A cabina 13214 do Preziosa.

DIA 5 – NAVEGANDO

Não me considero particularmente inteligente, mas devo dizer que eu não escolhi este cruzeiro por acaso. Havia um conjunto de coisas que eu procurava. Em primeiro lugar, queria um cruzeiro grande, onde pudesse passar despercebido no meio da multidão. Não estou interessado em conhecer pessoas nesta viagem, a não ser aqueles conhecimentos de circunstância. Vim para me encontrar a mim mesmo, para pôr as leituras em dia, para descansar, para refletir, para me reposicionar nesta nova fase da minha vida, depois da morte da minha mãe. Sempre fiz minhas introspeções junto ao mar. É muito bom, verifico agora, encontrar-me no meio do mar. Em segundo lugar, sempre quis fazer, pelo menos, uma viagem marítima transatlântica, no oceano que tanto tem a ver com os portugueses – aquele que contém no seu sal, certamente, a maior parte das “lágrimas de Portugal”. É verdade que o meu sonho é fazer uma viagem à vela, mas enquanto não se tem um sonho inteiro, é melhor que nada realizar meio sonho. Agora eu sei que o conceito é substantivo. Em terceiro lugar, eu queria um espaço de liberdade. Pode dizer-se que não existe liberdade alguma quando se está confinado num espaço de onde não se pode sair, como se se estivesse numa prisão. Mas a minha cabina é uma barca, dentro de um navio gigante, onde vivo como quero. Aqui ando completamente nu, sempre. Sinto o mar, o sol, as estrelas, quando me apetece. Leio, escrevo, observo. Como quando tenho fome. Durmo quando tenho sono. Saio, e volto, quando quero. Não dependo de ninguém a não ser de mim. Em quarto lugar, o tempo de viagem, a duração do cruzeiro, pareceram–me bem: duas semanas é um período ideal. O necessário para cumprir aquilo a que me tinha proposto. Pelo menos, é isto que me parece.

É claro que tenho as piscinas, os bares, os shows, o ginásio, o casino, etc. Tenciono usufruir um pouco de tudo isso ou, pelo menos, da maior parte de tudo isso. Mas não quero ficar escravo de qualquer obrigação. Irei quando me apetecer, se me apetecer. E a vantagem é que posso ir quando quiser. Sem correr.

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Na piscina da proa do navio.

DIA 6 – NAVEGANDO

Hoje atrasámos o relógio uma hora e, também por isso, acordei cedo. Mal acordei, abri de imediato as portadas da varanda – como faço sempre – e fui ver o mar. Hoje notava-se uma grande diferença de temperatura, estava mais quente, tudo se conjugava para uma ida à piscina, ainda de manhã. E foi o que fiz. O tempo estava excelente, quente, quase sem vento e com muito sol. Estive na piscina toda a manhã, mergulhando, tomando banhos de sol e cavaqueando com duas senhoras muito simpáticas de Ribeirão Preto, Leila e Maria Helena. Por volta do meio-dia avistámos a bombordo, a cerca de 11 milhas náuticas[3], a Ilha do Sal. Ainda estamos ao largo do arquipélago de Cabo Verde e, segundo o comandante, avistaremos pelas 16:00 a ilha de Santiago, a umas 16 milhas de distância, e, por volta das 17:00, passaremos bem perto da ilha do Fogo, apenas a duas milhas náuticas. Claro que já tenho a câmara fotográfica preparada…

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Ilha do Fogo, Cabo Verde (um ano depois aquele vulcão entraria em erupção).

Afinal, não avistámos a ilha de Santiago, mas passámos bem perto da ilha do Fogo. Entretanto, eu que várias vezes no mesmo dia perscruto o mar, avistei da balaustrada da minha cabina uns pássaros brancos, voando bem rente ao mar. Não só voavam como mergulhavam e que grande fôlego tinham, pois não os via regressar! Eram bandos que vinham voando, uns atrás dos outros e, zás, mergulhavam no mar… Comecei, em vez de seguir o seu movimento para a frente, a olhar para trás e então descobri: eles saíam do mar, voavam largos metros e regressavam ao mar. Eu via claramente as suas asas, mas não eram pássaros, eram peixes voadores! Mais tarde, entre o navio e a ilha do Fogo, avistámos um grupo de golfinhos saltando, como se estivessem nos dando as boas-vindas. Pareciam bem alegres. A ilha do Fogo é pequena mas imponente, com a sua boca vulcânica, lá no alto, apontada ao céu. Parece impossível como alguém pode viver num local aparentemente tão inóspito, mas vimos várias casas na encosta leste da ilha, aquela que estava virada para nós. Toda a gente veio para a amurada, feliz por ver aquele pedaço de terra, e eu pensei que se era assim connosco, que não víamos terra há apenas 43 horas e tendo todo o conforto a bordo, o que sentiriam, ao avistar terra firme, os marinheiros de outrora, passados 43 dias a navegar e tantas, tantas vezes muito mais tempo… Nem dá para imaginar.

Agora é precisamente meia-noite e estamos em pleno Atlântico. Não há internet, não há rede de telemóvel e, dos cerca de 30 canais de TV a que podíamos assistir no início da viagem, apenas um funciona, não me perguntem por quê[4]. É o canal alemão, ZDF. O navio ruma a Sul a uma velocidade de 20 nós[5]. Não sei se cruzaremos amanhã a linha do Equador, mas suspeito que ainda não. Pelas minhas contas, será depois de amanhã.

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Uma piscina no meio do oceano.

DIA 7 – NAVEGANDO

Desde ontem que a temperatura subiu acentuadamente. São agora 17:20 e estão 30 graus. Com um tempo destes não há como resistir – hoje fui de manhã e de tarde para a piscina. Escolhi a da popa do navio porque, além de ficar muito perto da minha cabina, tem uma vista fabulosa sobre o mar.

(Domino já na perfeição alguns trajetos que se transformaram em rotina: da cabina para a piscina, para o ginásio ou, claro, para o Buffet, e vice-versa.)

Entretanto, os mergulhos na água salgada e os banhos de sol levaram-me a recordar que, há dias, em Lanzarote, referi não ser “fã de José” (Saramago)…

Sei que esta afirmação é bastante polémica, se bem que se enquadre no perfil do visado, ele próprio reconhecidamente polémico. Sei também, por outro lado, que muitos – incluindo alguns meus bons amigos – ficarão escandalizados por alguém com estatuto irrelevante criticar uma personalidade influente e que tanto prezam. Devo dizer que os compreendo, apesar de, desde há muitos anos, eu não simpatizar com José Saramago. Já agora vou tentar, em poucas palavras, dizer por quê.

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A piscina da proa.

Sei que a maioria das pessoas – entre as que o conhecem, claro – gosta de Saramago. Imagino que não apenas pelos livros que escreveu, mas também – e sobretudo – pela sua personalidade: a relação amorosa com Pilar del Rio; as ideias políticas; a defesa dos mais desfavorecidos; a denúncia das prepotências das grandes potências, sobretudo da grande potência EUA; a indignação perante as injustiças – isto para não falar da guerra particular com a Igreja ou da militância comunista, as quais, certamente, também agradarão a muitos.

Para além disto, que penso ser o mais conhecido, em larga medida devido à grande divulgação das ideias de Saramago pela comunicação social (incluindo, ultimamente, as redes sociais), existem também os livros que escreveu.

Sobre estes, a minha opinião não é certamente a mais avalizada, embora não reconheça em José Saramago o estatuto que, para mim, alcançaram escritores como Jorge de Sena, Aquilino Ribeiro ou o seu arquirrival (dele, Saramago) António Lobo Antunes, só para falar de portugueses que foram ainda, em períodos diferentes, seus contemporâneos.

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Os meus companheiros de cabina.

Saramago teve, porém, o mérito de criar um estilo e soube desenvolvê-lo, trabalhou incansavelmente para isso. O seu virtuosismo resulta da disciplina e do trabalho árduo, não do talento inato. A isto junta-se uma boa dose de imaginação, desenvolvida a partir de temas que o autor engendraria através de um processo de busca apurada, minuciosa, inventariada, obsessiva. Saramago viveu para construir um mito. A prova disto é a sua obra tardia, fruto de toda uma maturação. Não sou eu quem vai contestar o seu mérito, o seu valor artístico. Embora a sua prosa não me seduza tanto como a de muitos outros autores, não tenho dúvida sobre a excelência da mesma, e sou o primeiro a reconhecer um certo preconceito, porventura fruto do que vou expor a seguir.

A par da obra, Saramago soube também construir uma imagem pessoal – a imagem do homem político. E tenho para mim que não foi tanto o político que serviu a obra, mas muito mais a obra que serviu o político. Notoriamente, este usou o prestígio angariado com aquela em prol da construção da imagem e do mito de lutador incansável contra a injustiça no mundo.

Do ponto de vista teórico, a luta de Saramago não foi contra uma qualquer visão da sociedade, contra uma ideologia específica. A luta de Saramago foi contra toda uma civilização, afinal, aquela na qual ele próprio nasceu, viveu e morreu. De facto, atacar a religião cristã[6], a Liberdade e a Democracia é atacar os alicerces das nossas identidades individual e coletiva, é querer romper a nossa ligação a um passado do qual fazemos parte, como somos parte – e fruto – de nossos pais e estes de nossos avós.

E do ponto de vista prático, em que baseava Saramago essa sua luta? Supostamente numa moralidade superior – a sua. José foi um moralista, sem dúvida, um dos maiores do início deste século e, como qualquer moralista, a sua moral era bastante duvidosa. Numa entrevista, justificou o despedimento de um grupo de jornalistas, quando era Diretor do “Diário de Notícias”, como uma decisão coletiva, colegial, e não apenas dele próprio. Uma atitude destas está muito mais próxima de Cavaco Silva[7][8] do que de Nelson Mandela, este sim, um exemplo moral para o mundo, não tanto por aquilo que diz, mas sobretudo por aquilo que faz[9]. E não seria preciso procurarmos Nelson Mandela para encontrarmos alguém que assumisse toda a responsabilidade, naquele caso, onde José Saramago a enjeitou. Muitos cidadãos comuns, não moralistas, seriam capazes de o fazer. A moralidade não se apregoa, pratica-se, e quanto mais se apregoa menos se pratica, e vice-versa.

Receio bem que a admiração por Saramago resida, para muito boa gente, em coisas demasiado vagas e ambíguas como, por exemplo, o amor pela humanidade[10] ou a sua luta por um mundo melhor – algo, felizmente, imensurável, subjetivo e até imprevisível na maioria dos casos.

Se pudéssemos medir, a priori, o tamanho dos corações humanos, suspeito que teríamos muitas surpresas. É que também não adianta muito apregoar o nosso amor pela humanidade – é preciso praticá-lo.

Et voilá. São 19:20, o céu encheu-se de nuvens escuras, mas ainda não chove. Estamos, neste momento, a 06º52.05’ N e 027º12.43’ W, bem entre a África e a América do Sul, e eu estou com fome.

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Já em águas brasileiras.

DIA 8 – NAVEGANDO

Choveu durante toda a última noite e hoje está um vento de sudeste bastante forte[11]. O céu mantém-se encoberto, embora não chova. Nestas condições não me apeteceu ir à piscina. São 17:30 (acabo de ver uma baleia agora mesmo – o comandante avisou e eu vi-a saltando no mar!), e estou na varanda da minha cabina. Está-se bem aqui, abrigado do vento. Olhando o mar, continuo vendo, de quando em vez, peixes voadores. Lá em baixo eles parecem muito pequenos, mas na realidade são muito maiores. É curioso como, navegando no alto-mar, não temos bem a noção da altura em que nos encontramos. Penso que isto acontece por estarmos rodeados de mar por todos os lados e por não termos os pontos de referência habituais. Assim, pensamos que os peixes voadores são mais pequenos do que na realidade são. Pelo contrário, se o navio estiver acostado e olharmos para baixo, temos uma noção mais clara da altura a que nos encontramos, pois as pessoas, os carros, etc – tudo é minúsculo em relação ao tamanho habitual[12]. Aqui, no mar alto, acontece de facto esse fenómeno estranho: parece que o mar está muito mais perto do que na realidade está.

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O amigo Jefferson Farias.

Hoje de manhã, após o pequeno-almoço, fui dar uma volta pelo navio. Descobri que no deck 7 se pode fazer caminhada ou jogging, junto da amurada, em ambos os lados do navio. Observei também muita gente trabalhando, aqui e ali. Ouvi várias versões sobre o número de tripulantes, mas é certo que são mais de 1.500. Manter um navio destes funcionando exige uma grande organização. Não deve ser fácil gerir o dia-a-dia de um monstro flutuante de 137.000 toneladas. O serviço de quartos, por exemplo, é melhor do que o da esmagadora maioria dos hotéis. A minha cabina é limpa duas vezes por dia e são mudadas todas as toalhas utilizadas. A alcatifa é aspirada diariamente. Como já sei as horas a que o simpático camareiro vem fazer a limpeza, nunca estou na cabina nesse horário. No final de cada dia ele sempre trás o Daily Program, onde podemos ler sobre tudo o que se passará a bordo no dia seguinte.

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Ilhota de São Paulo, Brasil.

Por falar em jornais, hoje conheci o rapaz que tem a seu cargo a distribuição de toda a imprensa a bordo, Jefferson Farias. Há vários jornais que são impressos a bordo e que podem ser adquiridos pelos passageiros[13]. Eu queria comprar um para saber qual fora o resultado do jogo entre a Suécia e Portugal, mas logo Jefferson me tranquilizou, dizendo que Portugal vencera a Suécia, com três golos de Cristiano Ronaldo. Perguntei-lhe se tinha a certeza e ele respondeu que sim, que estava muito feliz porque também era português e que vivera dez em Portugal, em Sintra. Para mo provar mudou rapidamente o sotaque para português de Portugal, de uma forma tão perfeita que me surpreendeu de verdade[14]. A partir dali sempre falou com aquele sotaque, excetuando quando tinha de se dirigir a brasileiros. Não pude deixar de rir. Foi uma agradável surpresa conhecer este jovem. Ele é a prova de como, de facto, somos povos irmãos e (mais) um exemplo vivo do espírito deste blogue. Fiquei realmente feliz por conhecê-lo e trocámos, com um aperto de mãos, um caloroso “até sempre”.

Agora, há cerca de meia-hora atrás, o comandante anunciou que chegáramos às ilhas de São Pedro e São Paulo[15], uns rochedos a cerca de 510 milhas de Natal, já em território brasileiro. Para nossa surpresa, veio ao encontro do navio uma pequena embarcação (é difícil não ser “pequena”, comparada com o Preziosa) e desta fizeram descer uma ainda mais pequena (um pequeno bote de borracha), onde dois homens transportaram peixe para o nosso navio – cavala e atum. O comandante do Preziosa e o capitão do rochedo são amigos, o que podemos verificar pela comunicação entre ambos, perfeitamente audível pelos altifalantes a bordo. Despediram-se, até Abril.

Este momento foi muito interessante, com toda a gente assistindo da amurada, acenando para os homens do Transmar-III, e vice-versa. Quando o Preziosa retomou a marcha, o comandante fê-lo apitar fortemente três vezes, como sempre faz nas despedidas.

(Agora é mesmo um pássaro que avisto lá em baixo, rente ao mar. Parece uma espécie de gaivota ou um corvo marinho, não sei… consegui fotografá-lo, mas a distância era grande. Isto deve querer dizer que há terra não muito longe).

Posto isto, estamos bem perto do Equador e, afinal de contas, já estamos no Brasil. Logo, pelas 22:00, passaremos o Equador. E antes de dormir temos de atrasar os relógios uma hora. O horário será a partir de hoje o do Brasil.

DIA 9 – NAVEGANDO

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A célebre e belíssima ilha Fernando de Noronha.

Acordei cedo e fui inspecionar o céu e o mar, como sempre faço. O dia prometia ser agradável, com sol e calor. Depois da rotina de todos os dias, banho, pequeno-almoço, etc, dirigi-me à piscina da proa,[16] como já referi, a minha favorita. Mal cheguei, comecei a ver umas aves muito elegantes sobrevoando o navio. São brancas, mas algumas têm as asas negras na parte interior, enquanto outras têm apenas um rebordo negro. Talvez umas sejam machos e outras fêmeas, não sei. Sei que, como disse, são muito elegantes, esguias, com o bico comprido, cónico e reto, e cada uma das asas em forma de boomerang. Algumas pairavam sobre o navio, acompanhando-o sem um movimento, só planando, enquanto outras voavam mais baixo, a uma velocidade, por vezes, estonteante. Nunca tinha visto um pássaro voar tão depressa. A cauda é bifurcada, mas, quando voa a alta velocidade, fica unida, formando um elemento só com o tronco e a cabeça, que termina naquele bico comprido e cónico – e, em cada lado, as asas em formato boomerang, de enorme envergadura. O cúmulo da aerodinâmica. Não admira que tenhamos visto estas aves tão longe de terra, pois, à velocidade a que se deslocam, percorrem rapidamente grandes distâncias. Estes simpáticos seres, que vim a descobrir serem atobás, acompanharam-nos durante todo dia, inclusive, quando passámos, cerca das 12:30, por Fernando de Noronha.

Navegámos bem perto do arquipélago, e foi possível observar um mar tranquilo e límpido, praias de areia branca, com dimensões, formas e exposições ao mar variáveis, alguma vegetação nas escarpas, um porto de abrigo para embarcações de recreio e, sobretudo, deu para perceber que ali é, para quem goste do mar, o verdadeiro paraíso. O comandante Giuliano Bossi fez o navio deslocar-se lentamente para que pudéssemos apreciar toda a costa norte da ilha, após o que, como habitualmente, obrigou o Preziosa a soltar, por três vezes, aquele ronco imenso que parece vir das suas entranhas. De uma embarcação pequenina, lá em baixo, acenavam-nos vigorosamente, dizendo adeus, e eu imagino o espetáculo que deve ser alguém observar dali a lenta passagem desta imensa montanha flutuante. O Preziosa tem mesmo que ir muito devagar, pois a ondulação que a sua passagem rápida provoca poderia virar um barquinho daqueles. Ao que parece, moram em Fernando de Noronha cerca de 3.400 pessoas. Com os turistas que estarão visitando a ilha neste momento, imagino que ali estarão, mais ou menos, tantas pessoas quanto as que seguem a bordo do nosso navio.

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O waterslide do Preziosa tem uma parte transparente que sai fora no navio.

Depois do almoço, decidi experimentar a piscina de proa, aquela que fica coberta quando está mau tempo, o que não foi o caso de hoje, claro. Esta piscina é mais comprida e, num dos lados, mais profunda, com 1,90 m. Sempre dá para umas braçadas. Hoje apetecia-me variar e, vai daí, fui experimentar um equipamento que faz a delícia do pessoal mais novo a bordo – O Vertigo Waterslide. Trata-se de um tubo com uns 80 metros de comprimento e água sempre correndo, que vem, entre curvas e contra curvas, desde o topo do Preziosa até o 15º deck[17]. O tubo é negro quando visto de fora, mas, quando fazemos o slide, vemos uma sucessão de desenhos geométricos muito coloridos, numa sequência tão rápida quanto a velocidade a que descermos. Para tornar a descida ainda mais emocionante, há uma curva do tubo que é transparente e sai fora do navio. Se der tempo para nos apercebermos, ficamos literalmente no espaço, só com o oceano por baixo de nós. A descida deve demorar uns 25 segundos, mas é pura adrenalina. Repeti três vezes, e amanhã quero mais.

Navegamos sobre um mar profundo. Como eu desejo que seja o sono em que vou mergulhar agora.

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Safari Lounge. Um dos bares e sala de espetáculos do navio.

DIA 10 – NAVEGANDO

Hoje acordei quando já nos encontrávamos bem perto da costa brasileira, ao largo de Recife/Maceió. Fiquei impressionado por navegarmos numa zona onde a profundidade do mar é muito reduzida, por volta dos 50, 60 metros, inferior à altura do Preziosa[18]. O tempo estava quente, bem quente e, claro, pensei logo num mergulho na minha piscina favorita, a Garden Pool, mas, entretanto, fui dar uma volta pelos decks inferiores para tirar umas fotos. Os espaços públicos do navio estão muito bem iluminados e decorados, sendo os tons ocre e o dourado, opções bastante utilizadas. É o que se pode observar, por exemplo, nas cabinas e no Safari Lounge[19]. Os italianos, quando se trata de design, não brincam em serviço. O Preziosa é, além de tudo o mais, uma obra de arte.

Depois do almoço regressei à piscina, mas passado pouco tempo, não sei porquê, pus-me a olhar os velhinhos dentro de água, ali há que tempos, e pensei com os meus botões que era impossível eles não mijarem dentro de água[20]. Entretanto outros entravam, estavam um pouquinho, e saíam – notoriamente tinham ido mijar. Decidi ir-me embora e fazer umas descidas no waterslide. Pelo menos ali, a água sempre corre continuamente e eu estou a tomar o gosto pelo slide, apurando a técnica, descendo mais rapidamente.

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Fim do dia em alto mar.

Por volta das 16:00 estava na minha cabina terminando de ler um livro muito especial e que, desde já, recomendo vivamente. O título é “A Mulher que Amou o Faraó”[21], um romance histórico, emotivo, belo e interessante, que prende o leitor[22]. A autora é Helena Trindade Lopes, uma historiadora que, entre muitos outros cargos e funções, é presidente da Associação Portuguesa de Egiptologia. Acontece que conheço a Helena desde os sete, oito anos de idade. Passávamos juntos as férias grandes, no povoado de Passos, perto de Viseu, no interior norte de Portugal, de onde os meus pais (e não sei se apenas um ou ambos os pais dela) eram oriundos, isto nos anos sessenta do século passado. A casa da minha avó era contígua à casa da avó dela, e a Lena conheceu muito bem a minha mãe, que nos obrigava a dormir a sesta – um hábito que, pelos vistos, estou a recuperar – num quarto da casa da minha avó. Lena gostava de mim e eu gostava dela.(Agora me lembro de que, naquela época eu tinha um padrinho americano que me mandava roupa e dólares, pelo Natal, que eu ia receber a casa dos pais dele, ali ao bairro América, a Sapadores. Os pais morreram. E o meu padrinho – será vivo ainda?)

Todos os verões eu e a Lena nos encontrávamos, brincávamos, e eu recordo com nostalgia esses tempos de infância. Nossos percursos não mais se cruzaram com aquela regularidade, mas permanecemos amigos até hoje.

E enquanto viajo no tempo para trás, o Preziosa continua em frente. Amanhã aportaremos em Salvador.

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Pelourinho, em Salvador.

DIA 11 – SALVADOR

Já tinha visitado Salvador, em março de 2006, por isso, desta vez, foquei-me em duas ou três coisas muito específicas, que quis analisar mais profundamente. Como não podia deixar de ser, fui para o Pelourinho[23], certamente a zona melhor preservada e mais interessante, o centro histórico de Salvador. Visitei a antiga igreja dos jesuítas, hoje catedral, localizada no Terreiro de Jesus, antes de cumprir o primeiro objetivo a que me havia proposto que era visitar a igreja de São Francisco. Exemplar notável do início do período barroco, o interior da igreja é todo revestido com talha dourada, e ali estão aplicados mais de 800 quilos de ouro. O resultado é uma das igrejas mais bonitas do Brasil, quiçá, do mundo. Ao lado, no convento da Ordem Terceira, podemos observar, no átrio, um conjunto notável de azulejos com cenas de Lisboa, ainda antes do terramoto de 1755.

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Início da noite em Salvador.

Após a visita, que se fez demorada, pois há muita coisa para ver, veio a hora do almoço e do segundo objetivo: comer uma boa moqueca. Quem procura sempre alcança, e eu, posso dizê-lo, procurei e alcancei, provavelmente, a melhor moqueca do Pelourinho. Ainda por cima, o restaurante é um buffet e, assim sendo, há a possibilidade de provar várias moquecas, que se revelaram todas excelentes, diga-se, mas a melhor, sem dúvida, uma que nunca tinha provado até hoje – moqueca de bacalhau. Divinal. Quem quiser experimentar só tem de dirigir-se ao Museu de Gastronomia Baiana – Senac, onde se formam cozinheiros para os melhores restaurantes de comida típica da Bahía. O almoço não é barato, rondará os 50 reais por cabeça, mas garanto que vale a pena.

Depois do almoço fui dar uma volta a pé pelo Pelourinho, gostei, está bem preservado, melhor do que há sete anos. Uma característica do “Pelô” é que sempre se houve algum tipo de música. Na volta para o navio tive que regressar pelo Lacerda e, claro, passar mais uns minutos numa fila.

Passado pouco tempo depois de ter entrado no navio, estava o sol a pôr-se, o Preziosa começou a afastar-se muito devagarinho do cais, rodou e rumou a Sul.

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Sobrevoo de inspeção.

DIA 12 – NAVEGANDO

O Brasil é um país imenso, toda a gente sabe disso, não admira que o dia de hoje fosse passado a navegar, sem paragens, pois entre Salvador e Búzios, aonde chegaremos amanhã cedo, distam 660 milhas náuticas. Durante quase todo o dia navegámos na zona costeira da Bahía, zona tradicionalmente com bom tempo, por isso não admira que as piscinas hoje estivessem cheias de gente. Eu fui para a Garden Pool bem cedo, por volta das 8:15, a fim de conseguir uma espreguiçadeira não muito longe da água, e alternei, toda a manhã, banhos na piscina com descidas no water slide. Por volta das 10:00 avistámos o arquipélago de Abrolhos, já no sul da Bahía, e também, várias baleias.

O sol estava bem forte, e às 15:00, já depois de ter almoçado, vim até a cabina tomar um banho de água doce, manter-me à sombra e reler “O que diz Molero”, de Dinis Machado, uma obra-prima da Literatura mundial. E tudo ali, numa novela que se lê em dois dias. Sem parar.

Agora, já depois do sol se pôr, temos passado por muitas plataformas petrolíferas, que o navio vai ultrapassando a uma velocidade entre 17 e 18 nós. O tempo começou progressivamente a ficar cinzento e, agora, chove.

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O Preziosa em Salvador.

Os preços a bordo, como seria de esperar, são puxadinhos. Normalmente tomo um copo de vinho tinto às refeições, um copo bem pequeno, cujo preço varia entre os 4,5 e os 6 euros, consoante a marca[24]. Mas devo dizer que o vinho é bom, aliás, o vinho italiano, em geral, é excelente.

A bordo não se movimenta dinheiro, a não ser na entrada do navio e na saída. Quando se entra no navio tem de se depositar no mínimo 150 euros, em dinheiro ou através de cartão de crédito, sendo então entregue o MSC Card, que serve para tudo a bordo, desde abrir a porta da cabina até comprar bebidas, lembranças, ir ao cabeleireiro ou, simplesmente, pedir uma toalha emprestada para estender numa espreguiçadeira da piscina. O cartão serve para tudo e, através dele, tudo está controlado. No fim do cruzeiro dirigimo-nos ao Serviço de Contabilidade para acertar as contas. Se gastarmos mais que os 150 euros, pagamos o excesso; se gastarmos menos (o que em 99% dos casos não acontece) a MSC devolve-nos o valor não utilizado. Convém dizer que são cobrados 6 euros diários por “service charge”.

Porém, se só se beber água[25], café e chá (disponíveis 24 horas por dia) e não se utilizar qualquer serviço pago, como o SPA ou o cabeleireiro, por exemplo, não se comprar qualquer artigo a bordo (roupa, perfumes, relógios, lembranças do navio, fotos que os fotógrafos de bordo tirem, etc), não se utilizar a Internet, nem se fizer qualquer excursão em terra, em princípio só será cobrada a tal taxa diária.

E agora que, como disse, o tempo está cinzento e chuvoso, vou deitar-me e ver, pelo serviço de DVD a bordo, para puxar o sono, pela enésima vez e em italiano, um dos filmes da saga “O Padrinho”.

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Búzios, no estado do Rio de Janeiro.

DIA 13 – BÚZIOS

Chegámos a Búzios por volta das 8:00, com o dia cinzento e uma chuva miudinha, persistente. Não existem infra-estruturas em terra para receber navios grandes, por isso, O Preziosa ancorou ao largo. A propósito disso, houve um momento em que o navio, depois de parar, abanou todo, num estremecimento ruidoso, que parecia um tremor de terra. Achei aquilo estranho, mas logo percebi o que estava acontecendo – estavam a lançar ferro para prender o navio ao fundo do mar… Faço uma pequena ideia do tamanho e do peso das âncoras do Preziosa!

Passado pouco tempo, já quatro ou cinco lanchas do navio desciam para o mar, e os passageiros começaram o embarque com destino a terra. Cada lancha leva 120 passageiros e, em pouco tempo, todos os que queriam pisar terra firme estavam em Búzios, município celebrizado por Brigitte Bardot, que ali viveu numa determinada época, que ali tem uma estátua, numa rua que tem o seu nome.

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Praia da Azedinha, em Búzios.

Há praias bonitas em Búzios e eu, apesar de não ter visto todas, gostei muito da praia da Azedinha, mesmo ao lado da Azeda, mas, como o nome indica, mais pequena e, também, mais graciosa. Nota-se que Búzios, no verão, fica sobrelotado. Falei com pescadores, gente afável e simpática, que, enquanto amanhavam o peixe e lançavam, para a areia da praia, os restos a gaivotas e urubus, me foram elucidando sobre as denominações das diversas espécies, desde o bonito, “sobrinho do atum”, até a anchova, o cação, a maria-mole, a corvina e a curuvinota.

Ainda fui a tempo de almoçar a bordo. Não tardou muito que levantássemos ferro e rumássemos ao destino final deste cruzeiro – Santos. O que é bom acaba depressa e, não sei se por não querer pensar nisso ou se por causa dos mar e terra e céu cinzentos, deu-me um sono tão grande que, mesmo com a porta da sacada aberta, adormeci.

DIA 14 – SANTOS

A chuva e o céu cinzento não mais nos deixaram até o fim. Hoje tivemos de nos levantar cedo, muito cedo mesmo, pois o navio chegou a Santos às 6:00 e nós tivemos de deixar as cabinas às 7:15. Pouco mais há a relatar, a não ser um desembarque caótico, com as malas espalhadas num armazém imenso, o navio longe desse armazém e o transporte realizado entre um e outro, por dezenas de autocarros, entre trabalhadores, máquinas, silos, obras, ferramentas, viaturas, poças de água, óleo e o persistente céu cinzento cobrindo tudo.

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O meu camareiro indonésio, I Gede Yudana Putra.

É tempo de recordar algumas pessoas, sobretudo da tripulação, aquelas com quem mantive mais contacto. O meu simpático e eficiente camareiro, indonésio, I Gede Yudana Putra; o já referido Jefferson Farias; e também Janio B Costa, um jovem cearense a quem auguro um grande futuro; as paulistas de Ribeirão Preto, Leila e Maria Helena; a santista que conheci na última hora, quase no último minuto, mas ainda a bordo, Sónia Parolari.

No Preziosa, a qualquer hora do dia ou da noite, há gente a trabalhar e o essencial é cada um saber o que tem de fazer. Para isso, é importante o papel dos chefes de equipas, numa função que, reconheço, nem sempre será fácil, uma vez que, como já referi atrás, trabalham a bordo pessoas de múltiplas nacionalidades. Entre aqueles que contactei, havia na tripulação do navio [26] representantes dos seguintes países: Itália (sobretudo oficiais), Brasil, Indonésia, Montenegro, Finlândia, Filipinas, Honduras, Ilhas Maurícias, Índia, Rússia, Roménia, Guatemala, Ilhas Samoa, Peru e Israel.

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[1] “Bombordo”, como a palavra indica, quer dizer “bordo bom”, ou seja, o bordo do navio de onde se avista terra. Isto deve-se às primeiras viagens dos portugueses, pois, a costa africana ficava do lado esquerdo do navio, o lado bom.

[2] Alguns historiadores compartilham a ideia de que as Canárias foram descobertas pelos portugueses ainda na primeira metade do século XIV (1336).

[3] Uma milha náutica corresponde a 1.852 metros.

[4] A MSC disponibiliza dois canais de DVD, mas os filmes são sempre os mesmos, passando em sessões contínuas.

[5] 20 nós correspondem a 23,0156 milhas/hora. E como surgiu a denominação “nó”? É devida aos portugueses. Estes jogavam ao mar um pedaço de madeira amarrado a uma corda cheia de nós. Depois contavam o número de nós que passavam por entre os dedos durante meia-hora. O tempo era medido com uma ampulheta. Até hoje, a velocidade dos navios é medida em “nós”.

[6] Repare-se que não é, restritamente, a Igreja Católica, nem, irrestritamente, qualquer religião que Saramago ataca. O seu alvo específico é o Cristianismo, base da civilização ocidental.

[7] Aquele que nunca tem dúvidas e raramente se engana. O mesmo que afirmou, recentemente, não haver alguém mais honesto do que ele.

[8] Muitos ficarão ainda mais chocados depois desta comparação entre Saramago e Cavaco, tão distantes ideologicamente. Mas a mim cada vez me interessam menos as ideologias e cada vez me interessam mais as pessoas. Deviam ser estas a criar todos os dias novas “ideologias” e não aquelas a formatarem as pessoas.

[9] Infelizmente, hoje, Mandela já pouco diz e faz. Como se sabe este homem tolerante (e extraordinário) – que sempre se considerou falível e que nunca se achou exemplo para os outros – está, desde há bastantes meses, muito doente.

[10] Ficou também célebre o amor, idealizado, entre Saramago e Pilar del Rio. O filme (documentário) “Pilar e José” mostra, porém, uma realidade diferente.

[11] Dado que o navio segue na direção Sul, é normal que o vento pareça ainda mais forte. A isto chama-se “vento aparente”. Como é evidente, se o vento vier da popa do navio (neste caso, de Norte) o vento aparente será mais fraco que o vento real.

[12] Para se ter uma ideia, a altura do Preziosa é de 67,69 metros.

[13] A minha dúvida permanece sobre como chegam os jornais ao navio, dado que não consigo aceder à Internet. Mas o facto é que hoje comprei o “Folha de São Paulo”, e na última página estava inscrito em grande destaque o nome do sítio da Internet onde supostamente se pode aceder para imprimir mais de 2.000 jornais de 95 países, em 52 línguas: www.newspaperdirect.com.

[14] Na realidade, Jefferson nasceu em Fortaleza e é filho de mãe brasileira e pai português. Nada que me não seja familiar, pois tenho uma filha em idênticas circunstâncias.

[15] Charles Darwin visitou estas ilhas em 16 de Fevereiro de 1832.

[16] The Garden Pool.

[17] O deck mais alto do navio é o 18º, mas o topo do tubo – onde começa a vertiginosa descida, e a que se acede por uma escadaria, em armação, com vários lanços, do género daquelas estruturas por onde se sobe para chegar às pranchas de salto de algumas piscinas – fica ainda um pouco mais alto.

[18] Porém, por volta da hora do almoço, já navegávamos numa zona mais profunda, em torno dos 1.700 metros.

[19] Espaço situado no 7º deck onde se realizam espetáculos e reuniões, com palco, pista de dança, bar e cabina de apoio, multimédia.

[20] Todas as piscinas são esvaziadas e lavadas, à noite, sendo, manhã cedo, de novo enchidas com água bombeada do mar. Este processo repete-se todos os dias.

[21] Helena Trindade Lopes, “A Mulher que Amou o Faraó”, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011.

[22] Uma análise mais detalhada será, provavelmente, publicada na categoria “Livros”.

[23] Ainda não percebi por que não construíram um outro acesso (têm espaço para isso), desde cá de baixo, em alternativa ao elevador Lacerda. Bem sei que o preço da subida (e descida) é praticamente insignificante (15 centavos), mas o custo das filas justifica a construção de uma escadaria – o que além de ficar bonito, incentivava as pessoas a praticarem exercício físico.

[24] A bordo tenho bebido: Regale Rosso Toscana IGT, “Tinimenti Andrenci”; Chianti Leonardo DOCG “Dalle Vigne”; Báron de Pardo Crianza DOCA “Nava-Rioja”.

[25] No Buffet Inca & Maya existem várias máquinas das quais se pode retirar água e gelo, a qualquer hora. Vi muita gente levar garrafas de plástico, enchê-las com água e levá-las para a cabina ou mesmo para fora do navio. Porém, de acordo com o meu amigo Jefferson, aquela água contém demasiado cloro e não deve ser bebida em excesso.

[26] A legislação brasileira obriga que, nos cruzeiros no Brasil, pelo menos 30% da tripulação seja nacional, razão pela qual estavam muitos tripulantes brasileiros a bordo.

 

 

 

Casa da Liberdade Mário Cesariny inaugurada em Alfama

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Foi inaugurada, hoje, em Alfama, a Casa da Liberdade Mário Cesariny (1923-2006). E que melhor local poderia ser encontrado para o efeito! Alfama enriquece-se com um espaço que recebe o nome de um vulto maior da cultura portuguesa – Cesariny, poeta, artista plástico, líder de movimentos surrealistas, em Portugal.

«A Estrada Começa» é o título da exposição inaugural, que reune obras inéditas de quatro figuras do movimento surrealista português: Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, Carlos Calvet e Mário Cesariny.

Na inauguração foi também lançada uma antologia poética organizada por Isabel Meyrelles, intitulada «Pós-Pessoa – Antologia do Surrealismo em Portugal e suas derivações».

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A Casa da Liberdade é um projeto da responsabilidade do Coletivo Multimédia Perve, associação cultural sem fins lucrativos fundada em 1997, em parceria com a Perve Global, empresa proprietária das duas Galerias Perve, em Lisboa.

Instalada num imóvel recuperado[1], contíguo à Galeria Perve, a Casa da Liberdade foi criada com o objetivo de ser um espaço cultural para colher os espólios dos artistas surrealistas portugueses, apresentar exposições, vídeos, etc.

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[1]  Neste espaço funcionou durante muitos anos um restaurante, do qual, curiosamente, fui, nos anos 80 do século passado, proprietário –  Na altura chamava-se “O Barracão”.