Malta

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A cruz dos Cavaleiros Hospitalários num portão de Valeta.

1- Tempos Remotos

De acordo com uma conhecida teoria científica, Malta, Gozo e Comino (as ilhas habitadas de Malta) nem sempre foram ilhas. Há uns seis milhões de anos, após um movimento das placas tectónicas ter fechado o que chamamos Estreito de Gibraltar, a água do grande lago em que se transformou então o Mediterrâneo começou a evaporar-se, a um ritmo muito mais rápido que o da fornecida pelos rios, até restar apenas um enorme deserto de sal[1]. O tempo continuou correndo até que o movimento das placas, depois do choque entre os continentes africano e europeu[2], começou a retroceder, abrindo novamente o estreito. Foi quando a água do Atlântico invadiu o leito do Mediterrâneo – qualquer coisa como 17.000 quilómetros cúbicos de água por dia, uma catarata gigantesca[3]. Ao Mar Negro terá sucedido o mesmo: aumentou significativamente de tamanho quando o Estreito de Dardanelos se formou, mas isto ocorreu muito mais tarde, quando já havia gente a habitar as margens, as quais terão submergido a um ritmo de 10 centímetros por hora. Esta é a teoria da Grande Inundação[4] e, ao que parece, ela faz sentido, face, entre outras evidências que referiremos a seguir, à descoberta de uma gruta em Malta, que ficou conhecida como Ghar Dalam, onde foram encontrados ossos de hipopótamos e de elefantes-anões, que não poderiam ter ali vivido se o local estivesse inserido numa ilha, pois estes animais necessitam de grandes áreas para se reproduzirem.

O início da ocupação humana no arquipélago deve remontar, pois, à época pré-diluviana, como comprovam as ferramentas da Idade da Pedra encontradas em Ghar Dalam. Não restam dúvidas de que esta gruta existe há centenas de milhares de anos, o que se pode provar pelas abundantes estalagmites e estalactites ali presentes. As várias camadas do solo revelam que a gruta foi ocupada consecutivamente desde tempos ancestrais. Já o complexo de Hagar Qim, situado no Sudoeste da ilha de Malta, remonta ao período Neolítico, há cerca de 10.000 anos. Aqui se encontra o que resta de um templo, que, surpreendentemente, pode ser o mais antigo do mundo. Esta longevidade está comprovada pelos cientistas, sobretudo pela análise de dois tipos de pedras calcárias que serviram às construções, particularmente o desgaste que as mesmas sofreram pela erosão, o qual pode ser calculado em anos. Este complexo foi ocupado por séculos, ou mesmo milénios, e as colinas torcidas de algumas edificações, bem como as grandes pedras atiradas para fora do seu lugar, no sentido oeste-leste, parecem dar crédito à teoria da Grande Inundação, uma vez que as águas, vindas em marés gigantescas do Atlântico, devem ter atingido grande parte da superfície do arquipélago. Mais do que isso: arrancaram grandes pedaços de terra da costa ocidental de Malta[5]. Como sabemos isto? Sabemo-lo porque em vários locais do arquipélago são visíveis linhas de sulcos paralelos que terminam abruptamente à beira de penhascos. Estes sulcos foram feitos pelas rodas de pedra dos veículos que transportavam materiais para as construções.

Os primitivos habitantes de Malta construíram templos não apenas em Hagar Qim, mas também em Mnajdra, Ggantija, Borg in-Nadur e Hal Saflieni. Eram engenhosos, adoravam vários deuses e sacrificavam animais em altares, recolhendo o seu sangue em cálices de pedra para satisfazê-los, particularmente a Deity, deusa da fertilidade. Os seus conhecimentos de astronomia eram profundos. O templo de Hagar Qim está orientado no sentido da lua e a entrada principal virada para o nascer da lua cheia no seu ponto máximo, enquanto a porta traseira enfrenta o ocaso dessa mesma lua cheia. As técnicas de construção deste povo primitivo mantiveram-se durante milénios e foram usadas ainda pelos cavaleiros hospitalários na construção de Valeta: os buracos escavados no solo para se retirarem as pedras com as quais se construíram palácios e habitações, foram transformados em estábulos, armazéns, lojas e poços. O longo hiato entre o fim desta civilização primitiva e o aparecimento de um novo povo em Malta é difícil de preencher mas, face à localização geográfica de Malta, bem no centro do Mediterrâneo, seria expectável que os novos ocupantes do arquipélago fossem comerciantes e navegadores.

2- Fenícios, Cartagineses e Romanos

Ora, os primeiros no mundo a reunir estes requisitos foram os fenícios, povo oriundo da zona onde se situa hoje o Líbano. Há quem diga que o maltês, a língua nacional de Malta, ainda deriva da língua falada pelos fenícios[6], e como tal consideram-no uma língua semítica, enquanto outros dizem tratar-se de uma língua originalmente púnica, trazida pelos cartagineses. Mas isto é muito controverso. Certo é que, após os fenícios, foram os cartagineses, enquanto principal potência do Mediterrâneo, os que se lhes seguiram como ocupantes do arquipélago. Para além de vários objetos, como moedas, amuletos, etc, estes povos deixaram em Malta a sua marca genética, comprovável na aptidão para a navegação dos malteses, a par da sua tolerância e resiliência, enquanto povo habituado a conviver com a diferença, desde logo pelo longo período da sua história em que estiveram submetidos a potências estrangeiras.

A invejável localização estratégica de Malta (bem como os excelentes portos naturais) foi aproveitada pelos romanos para se tornarem os novos grandes senhores da bacia do Mediterrâneo, após desalojarem os cartagineses de Malta e os derrotarem definitivamente na Terceira Guerra Púnica. Consolidada a vitória e depois o império, o domínio romano em Melita[7] estender-se-ia por mais de sete séculos. Face à larga comunidade romana ali estabelecida, Malta tinha um estatuto relevante dentro do Império Romano (provavelmente, uma civitas sine foedere libera), com um governador que respondia diretamente a Roma. Como seria de esperar, o legado romano é relevante no arquipélago: Edificações diversas, como o domus, em Rabat, com um peristylium de mosaico no centro para reter a agua da chuva; estátuas de mármore, como a bem preservada cabeça de Tibério; as termas em Ghajn Tufficha, com banhos quentes e frios e o seu hypocaustum (um compartimento para o aquecimento da água); poços; túmulos; estátuas de deuses e deusas; ânforas; moedas. Enfim, pelos longos anos de permanência, os romanos implantaram em Malta as suas crenças, religião, língua e cultura.

Como se sabe, só a partir do século IV os romanos se converteram oficialmente ao cristianismo, após Constantino ter dado início ao Império Bizantino. Antes disso os cristãos foram perseguidos e muitas vezes mortos[8], pois movimentavam-se dentro do espaço controlado por Roma. O apóstolo Paulo, que antes fora o judeu Saúl de Tarso, foi um desses cristãos. Após se converter ao cristianismo, ele fez várias viagens de evangelização até regressar a Jerusalém e ser preso. Levado para Roma, o navio onde seguia naufragou junto a Malta, e todos os ocupantes se salvaram, sendo bem acolhidos pelos locais. São Paulo ficou em Malta três meses, antes de retomar viagem para a capital do império. Este episódio é narrado nos Atos dos Apóstolos (capítulos 27 e 28), e os malteses baseiam-se nele para afirmar que São Paulo é o fundador do cristianismo no arquipélago. Há quem conteste a presença do apóstolo em Malta e diga que o naufrágio terá ocorrido em Creta, mas, em geral, o relato é aceite. Paulo terá praticado o seu proselitismo junto de uns dois ou três milhares de malteses, sobretudo perto da capital, (que à época se situava numa colina de Rabat), corria o ano 60 da nossa era. Posteriormente morreu em Roma, sob as ordens de Nero. A passagem de Paulo de Tarso por Malta marcou indelevelmente os malteses. De tal ordem, que estes se mantiveram até hoje, ainda que por vezes subjugados e impedidos de praticar a sua religião, crentes da Igreja Católica Apostólica Romana. Durante ainda três séculos a Igreja de Malta, supostamente criada por Paulo, teve de conviver com os pagãos que veneravam os deuses romanos. Ao que parece isto decorreu pacificamente. E Malta escaparia também à fúria de vândalos e godos, quando estes puseram fim ao grande Império Romano do Ocidente, espalhando o terror por onde passavam, algo que parece não ter acontecido em Malta, uma vez que não foram encontrados registos nesse sentido.

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Valeta

3- Bizantinos e Árabes

O que se sabe ao certo é que os bizantinos acabariam por expulsar os bárbaros e tornar-se os grandes dominadores do Mediterrâneo e, como seria de esperar, de Malta também. A capital do novo império rumara a Oriente, de Roma para Constantinopla. A era bizantina em Malta durou cerca de 400 anos, sem grandes registos dado que as pequenas ilhas de Gozo e Malta estavam administrativamente integradas na sub-divisão regional que incluía Sicília, Calábria, Basilicata e Puglia, no Sul de Itália. A sua importância estratégica deveria resumir-se às excelentes condições naturais para receber navios em escala ou necessitados de abrigo. Sabe-se também que Malta serviu como local de desterro para prisioneiros durante essa época. Certamente que o grego era a língua oficial, e isso é constatável em algumas palavras, sobretudo de caráter religioso, que ainda hoje fazem parte da língua maltesa. A principal razão para a quase completa ausência de registos desta época bizantina prende-se com os ocupantes que vieram depois – os muçulmanos. Estes devem ter destruído imagens e símbolos religiosos, além de construírem as suas mesquitas sobre os restos das igrejas bizantinas derrubadas. Como sempre, os novos senhores do Mediterrâneo passaram a ser simultaneamente os donos do pequeno arquipélago situado bem no seu centro.

Os árabes chegaram a Malta no século VIII e aqui permaneceram até o século XI, durante cerca de 300 anos. Como seria de esperar impuseram a sua língua, religião e cultura. A capital de Malta foi construída no topo de uma colina, como era costume naquela época. A cidade de Medina[9] albergava dentro das muralhas toda a população, algo bastante inteligente do ponto de vista defensivo, pois assim seria menos difícil resistir a um invasor em caso de cerco. Os muçulmanos deixaram os seus traços um pouco por toda a ilha, não apenas em Medina. Mesquitas, túmulos, vocábulos. Os exemplos são vastos, e um bastante significativo é o da palavra que significa Deus em maltês – “Alia” – obviamente derivada de “Allah”, em árabe. Muitos apelidos árabes (Abdilla, Axiaq, Cassar, Fenech, etc.) foram adotados pelos malteses e o nome próprio Mohammed, como mostram os registos, foi atribuído a um grande número de crianças masculinas. De acordo com alguns historiadores, a aderência a este nome próprio árabe não foi tanto uma aceitação dos costumes muçulmanos – e muito menos uma conversão ao islamismo – mas sobretudo uma tática adotada por questões de sobrevivência.

O fervor católico, porém, continua a sentir-se em Malta, como aliás veremos mais à frente. Muitos historiadores, eles próprios católicos, interpretaram a história de acordo com as suas crenças, ao ponto de alguns confundirem factos com lendas. Só nos últimos tempos têm surgido historiadores verdadeiramente independentes. Isto pode ver-se pela importância que atribuíram à chegada a Malta, em 1091, do normando (os normandos seguiram-se aos muçulmanos no domínio do arquipélago) Count Roger[10], que governava a Sicília. Muitos lhe atribuem a reintrodução do catolicismo como religião intrinsecamente maltesa, mas de facto as coisas não se passaram dessa maneira. É muito mais provável que várias confissões religiosas tenham convivido em Malta durante o período normando, que durou efetivamente de 1127 até 1266. Só com Count Roger II se consolidou o domínio normando. E este domínio, uma vez que se exercia muito longe do coração do reino, tinha de seguir uma estratégia tolerante para evitar conflitos e sobreviver. Foram encontrados túmulos muçulmanos que provam a prática do islamismo durante essa época. E o ritual cristão grego era tolerado, pois o mesmo era conveniente para manter a distância entre as classes mais desfavorecidas, que o praticavam, e os senhores normandos e a aristocracia mais abastada, que praticavam o rito católico. Não existiu, pois, uma generalização do catolicismo.

4- Angevinos e Aragoneses

Este foi um período muito conturbado na Europa, sobretudo em Itália, onde próprios católicos lutavam entre si. Os apoiantes do imperador germânico (ghibellines) lutavam contra os apoiantes do papa (guelphs) – e este era muito mais um chefe militar empenhado na gestão dos respetivos estados papais do que um guia espiritual e religioso. Foi nesta época que surgiu também a ideia das cruzadas, com o intuito de libertar a Terra Santa das mãos dos infiéis. Eram tempos realmente conturbados, onde a administração da justiça não existia e prevalecia a lei do mais forte. Este cenário constituiu o início de um tipo de “justiça” que mais tarde se chamaria omertà, popularmente conhecida como máfia. Não constitui surpresa que nestes tempos se tivesse desenvolvido a pirataria, com tripulações bem equipadas e exclusivamente dedicadas a essa atividade, sobretudo no Mediterrâneo. Foi neste ambiente confuso e incerto que o papa Urbano IV, em 1266, ofereceu o reino das Duas Sicílias (Nápoles e Sicília) a Carlos de Anjou[11]. Malta, considerado um apêndice, na realidade um feudo, da Sicília ficou assim sob o domínio dos angevinos[12]. Estes dominaram a região com crueldade e eram odiados pelos locais. Até que na terça-feira de Páscoa de 1282, os sicilianos se revoltaram contra os franceses – intentona que ficou conhecida como Vespri Siciliani, por ter ocorrido à hora da missa do fim de tarde. No espaço de um mês todos os angevinos franceses tiveram de fugir da Sicília e o trono foi concedido a Pedro III de Aragão. Só um ano depois, em 1283, os aragoneses ocupariam o lugar dos angevinos em Malta. Essa ocupação, porém, também não deixaria saudades, com a desvantagem de que decorreu por muito mais tempo.

Apesar de derrotados na Sicília, os angevinos mantiveram-se em Nápoles. Venezianos e genoveses eram seus aliados. Os aragoneses impuseram-se na Sicília. Pedro III entregou o reino de Aragão ao seu filho Afonso e o reino da Sicília, que incluía Malta, a outro filho – Jaime. Este jurou solenemente que jamais abandonaria seus súbditos, mas cinco anos depois, quando seu irmão Afonso morreu, tornou-se rei de Aragão, com o título de Jaime II. Logo em 1295, encetou negociações com o papa da época – Bonifácio VIII – no sentido de trocar a Sicília, o arquipélago de Malta e Pantelleria[13] pelas Córsega e Sardenha. Ao saberem desta traição, os sicilianos proclamaram como seu rei Frederico, irmão de Jaime II e terceiro filho de Pedro. Deram-lhe o título de Frederico III, em Catânia, corria o mês de janeiro de 1296, e o novo rei haveria de manter-se à frente do seu reino por mais 41 anos, perante o desagrado de Jaime II e do Papa. Este vingou-se do apoio dos malteses a Frederico e não nomeou um novo bispo para Malta quando o que estava na ilha faleceu. Mas Frederico III também não foi um bom soberano. Para manter os nobres satisfeitos acabou por lhes oferecer terras (feudos), sendo o caso de Malta e Gozo, que passaram de mão em mão ao sabor das negociatas entre as famílias nobres e ricas, incluindo a real.

Os malteses continuaram sendo explorados de uma maneira ou de outra – e as sucessivas promessas que lhes fizeram jamais foram cumpridas. A vida de muitos deles estava ligada à pirataria. De facto, a par com os gregos, genoveses e sardenhos, os malteses foram os maiores piratas do Mediterrâneo até o século XVIII. Para piratear, porém, era necessária uma licença, passada pelo vice-almirante da Sicília, e esta atividade só podia ser exercida sobre os inimigos, isto é, islamistas – turcos ou árabes. A pirataria era importante também para afugentar intrusos, sobretudo num arquipélago, e os nobres tinham obrigação de financiar a construção naval. Por isso a carpintaria era uma profissão importante, tal como as profissões de ferreiro e pedreiro, a primeira necessária para o fabrico de armas e a segunda para a construção em geral. Na época dos aragoneses, a agricultura em Malta baseava-se sobretudo na produção de azeite e de algodão. Mas havia também vinhas e culturas de cominho. Assim decorreram os anos, as décadas e os séculos nestas sociedades estritamente hierarquizadas, autocráticas e déspotas,[14]  até se cumprirem mil e quinhentos anos depois do nascimento de Cristo. Foi então que apareceu na cena europeia um dos monarcas mais poderosos de sempre – Carlos V (Carlos I de Espanha), que se tornaria o líder máximo do Sacro Império Romano-Germânico, a partir de 1519[15]. Considerado o primeiro rei de Espanha – governando sobre Castela, Aragão e Leão simultaneamente – Carlos governaria ainda a Alemanha, a Sardenha, o Reino das Duas Sicílias (do qual Malta fazia parte), bem como as novas terras de além-mar conquistadas pela Espanha. De facto, o Sacro Império Romano, criado para substituir os velhos impérios constantiniano e carolíngio, compreendia a maior parte do mundo conhecido naquela época.

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O albergue hospitalário de Castela, Leão e Portugal.

5- Hospitalários

Investido de tamanho poder, Carlos decidiu – através de um decreto, em maio de 1530 – entregar Malta à ordem religiosa, constituída por monges militares, conhecida como Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém. Fora em Jerusalém, em 1099, que um tal Gerard criara uma irmandade para acolher e tratar os peregrinos cristãos, oriundos, sobretudo, do Ocidente europeu[16]. Esta irmandade foi reconhecida em 1104 pelo rei Balduíno I de Jerusalém, e em 1113 através de bula papal de Pascoal II, foram superiormente sancionados os seus estatutos. Assim nasceu a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém. Naquela época (sobretudo no glorioso período das Cruzadas, entre 1095 e 1272), foram criadas ainda outras duas importantes ordens religiosas e militares: os Cavaleiros do Santo Sepulcro (mais tarde também conhecidos como Cavaleiros Templários) e os Cavaleiros Teutónicos de Santa Maria de Jerusalém. A maior parte dos membros destas ordens era de origem nobre, e isso contribuía para o prestígio militar e a riqueza material das mesmas, para além da evidente característica religiosa que obrigava aos votos de obediência, pobreza e castidade.

Após cerca de um século em Jerusalém, os Cavaleiros Hospitalários foram expulsos da cidade pelos muçulmanos-turcos, refugiando-se em Acre[17], corria o ano de 1187. Os turcos, porém, não deixaram de os perseguir e os hospitalários foram obrigados a refugiar-se em Chipre, aonde chegaram em 1291. Mas este lugar não era ainda o adequado para as suas necessidades pelo que, em 1309-10, chegaram à ilha de Rodes – onde se fixaram até 1522. O poderio turco era então incontestável no Mediterrâneo, e os otomanos cercaram Rodes, obrigando os hospitalários a render-se, após uma longa e heróica resistência (de acordo com fontes provenientes da própria ordem) a um implacável cerco turco. Esse heroísmo terá sido reconhecido pelos próprios otomanos, que deixaram partir os cavaleiros-monges com seus bens, apesar de, de novo, sem lar e sem estado.

Foi então que, após vaguearem por alguns anos à procura de um novo refúgio, Carlos V lhes concedeu, como feudo, o arquipélago de Malta. Mas os turcos não desistiram e voltaram a cercar os hospitalários. Após meses de cerco a Borgo (cidade-vizinha a sudeste da atual Valeta), cortados todos os meios de abastecimento, já sem qualquer reserva de comida, os malteses estavam próximos da capitulação. Este episódio ficou conhecido na História de Malta como o Grande Cerco – e mais uma vez os historiadores hospitalários destacaram a extraordinária e heróica resistência da ordem, face os invasores otomanos. Há uma grande dose de romantismo sobre este período, bem patente na poesia épica maltesa, referindo a bravura dos habitantes que lutaram lado-a-lado com os hospitalários em ações de puro heroísmo. Subitamente, quando a resistência estava chegando ao seu limite e a derrota parecia iminente, miraculosamente, em 8 de setembro de 1565, os turcos levantaram o cerco e partiram. Foi um alívio não apenas para os cavaleiros e os malteses, mas para toda a Europa ocidental.

Em consequência deste grande cerco, foi considerado que Borgo não era o local ideal para sediar o quartel-general da ordem. Decidiu-se que o mesmo deveria deslocalizar-se para o Monte Sciberras, um lugar considerado muito mais seguro. Assim se erigiu a cidade de Valeta, a primeira da era moderna a ser planeada e construída em forma de rede. Grande parte das edificações da cidade datam, pois, deste período. Além do quartel-general, um deslumbrante palácio, erigiram-se os albergues das diversas langues (grupos linguísticos dentro da ordem), que eram em número de oito[18], bem como as respetivas capelas e igrejas, onde os serviços religiosos eram celebrados nas línguas nativas dos diversos monges, e a grande catedral, comum  a todos, dedicada ao santo padroeiro da ordem, João Batista. Mas, sobretudo, era preciso tornar a cidade inexpugnável. Foram chamados os melhores arquitetos europeus, os melhores pedreiros e mestres, e reunidas as melhores mentes. E assim se usaram as pedras locais para construção dos edifícios, enquanto o espaço que as mesmas anteriormente ocupavam eram utilizados como labirintos subterrâneos, que serviriam para fugir de potenciais inimigos e como passagem para mensageiros. Debaixo desses edifícios ficavam igualmente poços, estábulos e armazéns. Os Cavaleiros da Ordem Militar de São João de Jerusalém quiseram que a nova cidade fosse uma Civitas Humillima e, simultaneamente, a mais nobre da Europa, uma obra-prima do seu vigor estético e um exemplo para o mundo, não tendo poupado esforços para o conseguir. O resultado é a deslumbrante Valeta, que tivemos o privilégio de visitar e conhecer.

Os membros da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, Rodes e Malta[19] mantiveram-se durante mais de dois séculos no pequeno arquipélago, mas não foram os únicos com poder. Não podemos esquecer-nos que aquela foi uma época em que atuava a Inquisição[20]. Na verdade, em Malta existia uma sobreposição de legislação, originada por três fontes – hospitalária, inquisitorial e episcopal. No final do século XVI, Roma atribuía ao inquisidor plenos poderes, relativamente a questões morais, espirituais e materiais. Este era o representante do Santo Padre em Malta e como tal, reclamava absoluta jurisdição sobre o que se passava nas ilhas. Este poder paralelo criava grande tensão e fricção com os cavaleiros hospitalários, habituados ao poder absoluto. Estes tinham os seus tribunais próprios e, na sua perspetiva, deveria ser o seu Grão-Mestre, auxiliado pelo venerável Conselho Hospitalário, o governante máximo das ilhas, dono da palavra final sobre qualquer assunto dentro do seu território. Na prática, porém, os inquisidores não estavam sobre a tutela dos hospitalários, o que criava nestes uma grande irritação.

Com as disputas entre estas duas forças  – Inquisição e Hospitalários – tendemos a esquecer uma terceira: o Governo, sediado em Medina (a “velha capital”), conhecido como a Università dei grant, cujo Mayor e respetivos conselheiros se ocupavam sobretudo do aprovisionamento de comida. A Università, no fundo, o governo das pessoas comuns, era constituída por nobres, empenhados na cobrança de impostos – a maior parte em géneros, como, por exemplo, cereais – e no seu armazenamento; em cobrar taxas sobre os navios que demandavam os portos malteses; em defender as localidades e quintas costeiras dos ataques dos piratas; e em recrutar homens habilitados a combater nas forças armadas, na luta contra os invasores e na manutenção da lei e da ordem. Com a vinda dos monges militares hospitalários, muitas destas funções passaram a ser exercidas por eles. A presença da ordem em Malta não era bem vista pela população. Desde logo porque trouxe atrás dela a ameaça dos turcos, mas também porque a população era obrigada a realizar as mais duras tarefas sob a jurisdição hospitalária, como remadores nas galés, enfermeiros nas guerras, construtores de muralhas e palácios, entre muitas outras ocupações servis. Assim, foi com alegria que muitos viram chegar à ilha os franceses. Mas, uma vez mais, os acontecimentos mostraram que não havia qualquer motivo para regojizo.

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Placa evocativa do auxílio da esquadra portuguesa, comandada pelo Marquês de Nisa, à população de Malta, aquando da ocupação das ilhas pelos franceses, que aqui permaneceram em 1798 e 1799. Esta placa foi descerrada pelo Presidente da República de Malta, Eddie Fenesh Adami, em 2 de setembro de 2008, nos “Upper Barracks Gardens”, em Valeta.

6- Franceses

Nos últimos anos do século XVIII apareceu na cena europeia Napoleão Bonaparte, apostado em construir o maior império de sempre. Uma das primeiras incursões de Bonaparte foi ao Médio Oriente, mais propriamente ao Egito, uma tentativa (que se revelaria frustrada) de conquistar à Inglaterra o território que servia de entreposto no comércio daquele país com a Índia. Pelo caminho os franceses passaram por Malta, e conquistaram facilmente o arquipélago. Esta conquista aparentemente insignificante representou muito pois, apesar de pequeno, este território possuía uma importante localização estratégica, e Napoleão pôde destronar os nobres hospitalários do poder, e assim satisfazer um dos seus maiores desejos: perseguir e vergar os membros da aristocracia, que detestava. Em junho de 1798 o Grão-Mestre dos Hospitalários, o alemão Ferdinand von Hompesch, rendia-se aos franceses, evitando o derramamento de sangue. A Ordem de Malta – designação que deriva da presença dos hospitalários neste arquipélago – que tão heroicamente resistira aos turcos, era agora desfeiteada em apenas dois dias – e os seus membros regressavam às terras de origem, não mais voltando a ter, até hoje, um lar comum.

Não houve resistência à invasão francesa porque os malteses estavam cansados dos hospitalários. O Governo do povo, a Università, não aceitava não ser consultado em matérias como a coleta de impostos e outras que diziam respeito, afinal, ao seu país. Viam os cavaleiros como intrusos de quem queriam livrar-se quanto antes. Por outro lado, havia nas ilhas muitos elementos da maçonaria, que também detestavam os hospitalários. Não devemos esquecer-nos que originalmente os templários eram designados por Cavaleiros do Santo Sepúlcro, isto é, do templo, daí a sua designação de Templários. A sua razão de ser, mesmo se tivermos em conta os símbolos que apresentavam, devia-se à condição de construtores. Eles edificavam muralhas e fortalezas inexpugnáveis, fabulosos palácios e majestosos edifícios até a sua ordem ter sido extinta por decreto Papal. Tornaram-se então maçons (“pedreiros”) livres, sem que tivessem de obedecer a qualquer tipo de votos, e vivendo clandestinamente, com medo de serem julgados como heréticos pela Inquisição. Grande parte das riquezas dos hospitalários resultaram da dissolução dos templários[21]. Mas também agora aqueles conheceriam, e de forma definitiva, a sua diáspora.

Os franceses não deixariam um legado feliz em Malta. Determinados em demolir tudo o que fizesse recordar os hospitalários, dedicaram-se a pilhar e destruir palácios, conventos, igrejas, edifícios estatais e casas senhoriais. Deixando um subordinado como Governador-Geral do arquipélago, Napoleão continuou a viagem rumo ao Nilo, com grande parte do saque a bordo dos seus navios. Ali chegados, na boca do rio, os franceses sofreram uma tremenda derrota às mãos dos britânicos e muito do que roubaram em Malta deve estar ainda hoje, debaixo de camadas de sedimentos, no leito do Nilo. Há ainda material roubado que foi incorporar coleções públicas ou privadas, como é o caso da espada oferecida ao Grão-Mestre Jean Parisot de La Vallette pelo rei Filipe II de Espanha, exibida no Museu do Louvre como uma oferta dos malteses, quando na verdade foi roubada pelos franceses quando estiveram no arquipélago. Os franceses governaram com mão de ferro, de tal forma que os malteses se revoltaram, pois não tinham já nada a perder[22]. Muitos foram mortos em combate ou fuzilados sumariamente, mas por fim conseguiram remeter os franceses aos seus redutos fortificados. Isolados, sem possibilidades de abastecimento, estes cederam aos populares.

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A Cruz de George figura na bandeira de Malta.

7- Britânicos

Entretanto, Lord Nelson e a sua armada vieram em socorro dos malteses e ofereceram-lhes a sua proteção. Em 1800 Malta passou a fazer parte do maior império do mundo, aquele onde o sol jamais deixava de brilhar. A condição do arquipélago foi legalmente consolidada através do Tratado de Paris de 1814, quando passou a integrar o Império Britânico e a ser oficialmente um domínio subordinado, em última análise, à Coroa Inglesa. Assim, Malta passou a ter um representante local dos monarcas britânicos, ou seja, um governador. Naturalmente, este seria britânico, e os seus homens de confiança, integrantes do governo, também. Estes, por sua vez, necessitariam de auxiliares para levarem a cabo as tarefas inerentes à construção, ao abastecimento de água, ao saneamento, às reformas educacionais, ao sistema de justiça, entre outros assuntos importantes e, naturalmente, toda esta gente seria igualmente britânica. Até mesmo a moeda seria britânica, exatamente as mesmas moedas e notas que circulavam em Londres. Quem desejasse uma boa educação tinha de deslocar-se a Inglaterra e de ter dinheiro para tal. Desta forma, os malteses, uma vez mais, ver-se-iam relegados para tarefas menores. E embora fizessem agora parte de um enorme império e possuíssem um passaporte britânico, a sua situação imediata não melhorou substancialmente com a chegada dos ingleses.

Assim, em pouco mais de dois anos, os malteses estiveram sucessivamente submetidos à magnificente aristocracia dos hospitalários, ao arrogante republicanismo dos franceses e à adulação britânica da monarquia. Apesar de tudo, esta última forma parece ter sido a menos má, até chegar a melhor de todas, sem dúvida, a independência – alcançada apenas depois de 160 anos de domínio inglês. Até porque, uma vez integrados no Império Britânico, os malteses se viram envolvidos em guerras que pouco ou nada tinham a ver com eles, como foram os casos da Guerra da Crimeia, a Grande Guerra e a II Guerra Mundial. Dada a privilegiada posição estratégica do arquipélago, este foi severa e consecutivamente bombardeado no decorrer da II Guerra Mundial. Os habitantes viviam como ratos, escondidos em abrigos subterrâneos. Os navios de abastecimentos eram atacados e algumas vezes faltava tudo nas ilhas, incluindo água potável. Os mortos foram incontáveis. E as guerras vieram pôr a nu as deficiências do sistema de saúde, sobretudo a escassez de médicos e hospitais. Isto tinha o seu quê de irónico, uma vez que Malta fora  governada durante centenas de anos por uma Ordem cuja missão original era a assistência aos enfermos.

No decorrer da II Guerra Mundial os habitantes de Malta (afinal tão perto da Itália inimiga[23]) estiveram por diversas vezes à beira da capitulação. Mas, com a ajuda das forças britânicas, resistiram sempre. No dia 15 de agosto de 1942, um comboio de navios, carregados com víveres básicos e munições necessárias à defesa das ilhas, chegou miraculosamente ao Grande Porto de Malta. Alguns navios vinham semi-afundados e entraram no porto puxados e amparados por rebocadores. O facto deste acontecimento ter ocorrido no Dia da Assunção de Maria contribuiu para que a maioria dos malteses, fervorosos católicos, lhe atribuíssem um significado religioso. Culturalmente, os britânicos deixaram um legado importante em Malta – sobretudo a sua aposta no parlamentarismo – mas não mudaram o catolicismo maltês. A heróica resistência dos malteses foi reconhecida pelo rei Jorge VI de Inglaterra, que concedeu a Malta a George Cross (“Cruz de Jorge”), o símbolo que desde então figura na sua bandeira branca e vermelha.

Após a guerra e a destruição que causou, muitos malteses foram obrigados a emigrar. Não havia empregos e grassava a pobreza e mesmo a fome. A maioria dos emigrantes dirigiu-se-se à Austrália, mas outros rumaram ao Canadá e aos Estados Unidos. Foi um autêntico êxodo o que ocorreu nas ilhas nos anos quarenta do século XX. E, assim, as mais pequenas línguas de terra do Império Britânico, apenas maiores que Gibraltar, esvaziaram-se do bem mais precioso: as suas gentes. Apesar disso, os malteses conseguiram uma abertura política sem conflitos graves nem derramamento de sangue. Alguns dos habitantes com formação em Inglaterra – sobretudo médicos e advogados – começaram a fazer parte do serviço público. A transição deu-se paulatinamente, com as primeiras eleições controladas pelos britânicos, mas com passos firmes, rumo, primeiro, a uma certa autonomia e, finalmente à independência.

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As indústrias relacionadas com o mar têm um peso significativo na economia maltesa.

8- Independência

No fim dos anos quarenta já havia alguma autonomia ao nível autárquico, mas ainda com a supervisão e controlo do Governador sobre as medidas legislativas locais. Isto não era suficiente, é claro, para os malteses mais esclarecidos, sobretudo aqueles que tinham vivido em Inglaterra e reclamavam a implementação em Malta do parlamentarismo. Foram criados partidos políticos. Enfim, o movimento, com várias ramificações, rumo à independência, que se iniciara nos anos vinte, haveria de ver o seu objetivo realizado em 21 de setembro de 1964. Apesar da independência, Malta ainda dependia largamente de potências exteriores. Era ainda um espaço militar alugado à NATO e com uma presença militar em seu território – a Grã-Bretanha. Isto não era ainda a situação esperada por muitos. Mas só após quinze anos de independência, em 31 de março de 1979, foi assinado um acordo que pôs fim à presença militar britânica em Malta e Gozo. Os dois grandes partidos de Malta – Nacionalista e Trabalhista – não concordam sobre qual a verdadeira data da independência. Enquanto os nacionalistas aceitam o dia 21 de setembro de 1964, os trabalhistas afirmam que só quando o último soldado estrangeiro abandonou o país – em 31 de março de 1979 – é que este se tornou independente. Como consequência deste desacordo jamais sanado, celebram-se dois feriados nacionais distintos em Malta: 21 de setembro – o Dia da Independência – e 31 de março – o Dia da Liberdade. Finalmente, cansados de serem envolvidos em guerras, os malteses asseguraram a neutralidade na Constituição através da inclusão de um artigo que estabelecia o seu não-alinhamento.

O sistema político escolhido pelos malteses foi o da república presidencial parlamentar. O parlamento maltês é muito parecido, na sua forma, como o parlamento britânico, e é o parlamento quem elege o presidente, ou seja, tradicionalmente, este é escolhido pelo partido mais votado. Existe um debate na sociedade maltesa sobre a possibilidade de mudar a eleição do presidente da república para uma forma mais parecida com a americana (entre outras), isto é, através do voto popular. Com o destino nas próprias mãos, os malteses mobilizaram-se para a criação das condições necessárias ao desenvolvimento do país. O Partido Trabalhista e o Partido Nacionalista tiveram importantes papéis complementares. O primeiro foi responsável, nos anos imediatamente após da independência, pela laicização do país[24] e o Partido Nacionalista conduziu Malta, já no século XXI, à integração na União Europeia. Uma integração que suscitava muitas dúvidas, e mesmo a oposição, do Partido Trabalhista, mas que se revelou um sucesso, proporcionando mais investimento e desenvolvimento.

Antes disso, porém, foi preciso reconstruir as infraestruturas e criar as condições para o desenvolvimento da economia. O turismo era uma atividade natural em Malta e, ainda hoje, uma importante fonte de receitas, de criação de emprego e de diversificação de indústrias associadas a essa atividade. Depois, face à relativa mão-de-obra barata, floresceram no pós-guerra pequenas indústrias de capital estrangeiro (inglês, alemão, italiano), sobretudo nas áreas têxtil, do calçado e eletrónica. A subida do nível de vida da população fez com que a mão-de-obra deixasse de ser barata e muitas empresas deslocalizaram-se, havendo necessidade de uma readaptação do tecido empresarial. Outra indústria importante acabou por ser a da construção naval, substituindo, ou melhor, readaptando uma tradição em Malta, a da reparação, pois os cavaleiros hospitalários, mas sobretudo os britânicos, tinham uma significativa frota naval. Malta recolhe hoje os frutos de grandes investimentos: na construção de docas secas[25]; na melhoria dos cais para acostagem dos navios de cruzeiro; em instalações para limpeza dos tanques dos navios de combustíveis; na criação de uma companhia de navegação maltesa (Sea Malta); e em outras infraestruturas ligadas às indústrias do mar, como por exemplo uma importante plataforma logística e um dos maiores terminais de contentores do Mediterrâneo. Malta faz jus à sua vocação marítima, embora o mesmo conceito hub esteja a ser adotado no antigo aeroporto de passageiros – agora transformado em aeroporto de carga – depois de outro, ultramoderno e já em funcionamento, ter sido construído.

O mercado do imobiliário floresceu também, depois de uma abordagem mais liberal por parte do Governo. Os preços subiram bastante pois a escassez de terras é notória para tanta procura de terrenos onde se possam construir supermercados, edifícios de negócios e hotéis turísticos. O setor financeiro parece estar, igualmente, de boa saúde. Malta tem vindo a diversificar ainda mais a sua economia para setores dinâmicos como os serviços e as novas tecnologias. Para completar, é justo dizer que também nas artes se verifica um grande dinamismo, com uma produção jamais vista em áreas como o teatro, a música, a pintura, a escultura e a literatura. Em 1 de maio de 2004, Malta, juntamente com oito países da Europa Central e de Leste, e também Chipre, passou a fazer parte da União Europeia; em 2008 aderiu à Zona Euro; no primeiro semestre de 2017 presidirá à União Europeia. Foi pois um país amigo, membro do mesmo espaço económico, que visitámos. Um país pujante, vibrante, transbordando história; um país bonito, quer na vertente natural, quer na edificada pelo homem. Um país bem no coração do mar que desde a Antiguidade é o centro do mundo – o sempre novo Mediterrâneo.

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Pormenor do edifício do Parlamento, em Valeta.

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  • Artigo baseado no livro Malta, a Brief History, Joseph S. Abela, BDL Publishing, 2015.
  • A foto da bandeira de Malta foi retirada de yesmalta.wordpress.com.

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Notas:

[1] Foi encontrado um gigantesco depósito de sal debaixo da ilha da Sicília que parece comprovar a evaporação do Mediterrâneo. Isto é, de facto, bastante plausível – verificámos que está acontecendo algo semelhante no Mar Morto quando ali estivemos há dias e podemos sentir a sua salinidade (36% de sal) e flutuar nas suas águas a cada dia mais reduzidas.

[2] Choque que deu origem entre outras coisas às altas montanhas que se podem encontrar em ambos os continentes.

[3] Mesmo assim, foram precisos uns 250 dias até o Mediterrâneo se encher. Isto parece estar de acordo com o relato bíblico e pode ter ocorrido há uns 5.000 anos.

[4] Um dos seus mentores é o cientista espanhol Daniel Garcia-Castellanos.

[5] Um desses “pedaços” pode ser a pequeníssima e desabitada ilha de Filfla, a mais meridional do arquipélago de Malta, em tempos reivindicada pela Líbia.

[6] Há quem defenda que o próprio termo “Malta” deriva de maleth, que em fenício queria dizer “paraíso”.

[7] Este foi o nome que os romanos atribuíram ao arquipélago. Significava “terra do mel”.

[8] Sobretudo pelos imperadores Nero, Trajano, Marco Aurélio, Décio, Valeriano e Diocleciano.

[9] Ao contrário de Valleta, Medina não se situa na costa, está situada no interior da ilha a cerca de 12 quilómetros da capital.

[10] Os normandos eram um povo oriundo da Escandinávia (vikings e dinamarqueses) que se estabeleceu no Noroeste de França (onde hoje existe a Normandia), aí fundando o seu reino, e se converteu ao cristianismo. O papa Nicolau II concedeu-lhes em 1059, no Sínodo regional de Melfi o poder para combaterem os bizantinos e os muçulmanos – o que foi interpretado pelos normandos como uma espécie da carta-branca para construírem um império conquistando toda a Europa.

[11] Carlos de Anjou era irmão de Luís IX, rei de França.

[12] O Império Angevino ou Império Plantageneta é o conjunto de Estados que se estendiam dos confins anglo-escoceses aos Pirenéus e da Irlanda a Limousin, unidos a meio do século XII por Henrique II de Inglaterra. (in https://pt.wikipedia.org/wiki/Império_Angevino).

[13] Uma ilha localizada a sudoeste da Sicília, muito perto da costa africana, particularmente da Tunísia. 

[14] Estas sociedades estritamente hierarquizadas, praticamente um sistema de castas, eram típicas da época medieval, período que ficou conhecido, sob o ponto de vista político e social, como feudalismo. Em Malta existiriam umas 20 famílias cujos membros pertenciam à classe mais alta; depois vinha a classe dos artesãos e finalmente as classes mais baixas – classe média e povo.

[15] Carlos viveu entre 1500 e 1558, e foi casado com a Infanta Dona Isabel de Portugal, considerada uma das mulheres mais belas da época. Isabel, filha do rei D. Manuel e irmã de João III, era também muito culta. Morreu muito jovem, com 35 anos, na sequência de um parto. Seu filho primogénito, Filipe II de Espanha, foi educado por suas damas lusitanas na mais genuína tradição portuguesa.

[16] Estes peregrinos chegavam muitas vezes exaustos, doentes ou feridos, vítimas de ataques – não apenas dos inimigos muçulmanos, mas também dos “amigos” orientais: cristãos ortodoxos, gregos e bizantinos (não esquecer que o cisma religioso protagonizado pela Igreja Grega-Ortodoxa, sediada em Constantinopla, ocorreu em 1054). As disputas não ocorriam, porém, apenas entre ortodoxos, católicos e muçulmanos, mas igualmente entre as próprias ordens religiosas (e militares) católicas. Os Hospitalários e os Templários foram na prática e durante a maior parte do tempo inimigos.

[17] Cidade situada no Norte de Israel, perto de Haifa.

[18] Eram oito as langues, tal como as pontas da cruz de Malta: Auvergne, Provence, Itália, Castela e Portugal, França, Alemanha, Inglaterra e Aragão.

[19] Designação completa da ordem também conhecida como Ordem de Malta.

[20] Houve três grandes períodos inquisitoriais: A Inquisição Medieval; a Inquisição Ibérica e a Inquisição Romana. A primeira foi iniciada pelo Papa Lúcio III, em 1184, e reforçada no Conselho de Latrão de 1215; a segunda, a pedido dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, teve a chancela do Papa em 1478 (constituiu uma das páginas mais negras do antissemitismo europeu); e a terceira iniciou-se em 1542, através da Bula Papal de Paulo III – Licet ah Initio. Foi esta última que vigorou em Malta no período em que ali estiveram os Cavaleiros Hospitalários.

[21] A Ordem dos Templários, em Portugal, transformou-se na Ordem de Cristo e esteve na base dos Descobrimentos portugueses. Perseguidos (e muitos mortos) em França pelo rei Filipe IV e em Roma pelo papa Clemente V – que emitiu a bula Pastorali praeminentiae, dirigida a todos os monarcas da cristandade, determinando a prisão dos Templários nos diversos países e o confisco de todos os seus bens, o que,na prática ditou o fim da Ordem. No entanto, em Portugal, D. Dinis, simulando acatar a decisão papal, acabou por criar uma nova ordem – a de Cristo – que era, afinal, constituída por Templários. Os membros da ordem que tinham escapada às perseguições vieram juntar-se à Ordem de Cristo, em Portugal.

[22] A primeira revolta da população de Malta contra a ocupação francesa ocorreu a dois de Setembro de 1798. Pouco depois, em 19 de setembro, chegavam a Malta os navios portugueses da esquadra comandada pelo Marquês de Nisa, através dos quais se fez um primeiro bloqueio às ilhas. Os portugueses também desembarcaram para auxiliarem a população. Este auxílio teve grande importância psicológica, animando as forças maltesas que puseram cerco a Valeta. O Marquês recebeu representantes de Malta e de Gozo, a quem prometeu apoio, cedendo-lhes quinhentos mosquetes e vários barris de pólvora, mandando desembarcar o Capitão-tenente António Gonçalves Pereira e vinte artilheiros para ajudarem em terra os malteses. Um segundo bloqueio ocorreu em finais de agosto de 1799 e novamente os portugueses desembarcaram para auxiliarem a população. Apesar das ordens do governo português para regressar a Lisboa (recebidas em 9 de outubro), o Marquês de Nisa (Domingos Xavier de Lima) manteve-se mais dois meses em Malta, zarpando rumo a Portugal apenas após a chegada de reforços ingleses, em 13 de dezembro de 1799. Como se sabe, a esquadra portuguesa (que na época tinha uma dimensão importante) foi auxiliar os britânicos no Mediterrâneo tendo ficado sob comando do Almirante inglês Jervis e posteriormente do almirante Nelson.

[23] Na verdade, os italianos não eram vistos por todos como inimigos. Havia uma importante fação pró-Itália em Malta, antes, durante e depois da guerra. Embora em épocas diferentes, Garibaldi procurou asilo em Malta, e o mesmo fez o Papa Pio IX. Havia também o que poderíamos designar por “facção francesa”, apesar da desastrosa passagem dos gauleses pelo arquipélago.

[24] Há uma forte tradição católica em Malta baseada na narração que encontramos nos Atos dos Apóstolos sobre a chegada de São Paulo à ilha e a conversão dos nativos ao cristianismo. O Partido Trabalhista criou várias leis que ajudaram a separar o Estado da Igreja, abrindo o caminho para que surgissem outras confissões e práticas religiosas (na época da independência apenas era permitido o protestantismo anglicano, além do catolicismo, devido, claro, à presença britânica no arquipélago), e abrindo também uma guerra com a Igreja. Hoje, apesar da abertura religiosa se ter concretizado, a sociedade maltesa é ainda bastante conservadora, sob o ponto de vista religioso. Basta pensar que o divórcio apenas foi legalizado em maio de 2011, através de um referendo. Nessa altura, além de Malta, apenas as Filipinas não tinha uma lei do divórcio.

[25] Uma grande doca seca foi construída com a ajuda financeira e técnica da China comunista, durante o mandato de Dom Mintoff, oitavo primeiro-ministro de Malta, entre 1971 e 1984.

A Guerra Imperial

 

grande guerra courrier internacional
Foto 1 – Combatentes da Grande Guerra.

1- INTRODUÇÃO

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito verdadeiramente global, mas não foi por isso que ficou conhecida como a “Grande Guerra”. Este título é devido não apenas a essa característica global, mas também (e sobretudo) às repercussões catastróficas que a guerra teve sobre as populações de quase todo o mundo. Repercussões que resultaram não tanto da escala mundial da contenda, mas muito mais da “combinação entre tecnologia militar e cultura dos povos que a travaram”[1]. Para enquadrarmos a Grande Guerra temos de recuar à primeira metade do século XIX, quando a Inglaterra e a França eram os países europeus mais poderosos, detendo vastos domínios coloniais. Um cenário que se alterou na segunda metade do século, com a unificação da Itália (que só se completaria no século XX) e, sobretudo, da Alemanha, países que tinham chegado atrasados à corrida colonial, mas que estavam interessados em alargar os seus territórios. Tentando colocar alguma ordem na corrida, as principais potências europeias reuniram-se em Berlim, no ano de 1884, com a intenção de chegarem a acordo sobre a partilha do continente africano. Hoje em dia pode parecer estranho que um inteiro continente tenha sido repartido dessa forma e, como disse H.G.Wells, “é difícil acreditar que um número tão grande de pessoas tenha aceitado essa pintura abrupta do mapa de África, em cores europeias, como uma definição nova e permanente das questões mundiais”[2]. Mas naquele tempo os europeus acreditavam que, ao invés de estarem a subjugar outros povos, estavam, outrossim, a salvá-los das trevas e a conduzi-los à civilização. Era, pois, uma missão meritória, aquela das potências ocidentais, auto-consideradas superiores. Na verdade, “a mente europeia do século XIX dispunha de um conhecimento histórico muito superficial, e não tinha o hábito da crítica penetrante”[3].

Ainda antes do acordo sobre África, o líder da unificação alemã, Otto von Bismarck, tinha organizado o Congresso de Berlim (1878), logo após a Guerra Russo-Turca. O chanceler tinha em vista assegurar a paz nos Balcãs, conciliando as pretensões russas (de ajudar os irmãos eslavos e cristãos) com as dos austro-húngaros (de impedir uma grande Sérvia eslava sob os auspícios da Rússia) e atribuiu uma área de influência a cada um dos impérios. Bismarck, político competentíssimo, sabia que após a unificação alemã a reação natural dos seus vizinhos seria a de unirem-se contra a Alemanha. Por isso, ele já tinha firmado uma aliança com a Rússia (uma aliança com a França era considerada inviável) em 1881, a qual fora renovada, como um “Tratado de Resseguro”, seis anos mais tarde. Porém, os sucessores de Bismarck não tinham a sua visão – estavam empenhados em transformar a Alemanha numa potência mundial (Weltmacht) – e não conseguiram renovar o tratado, o que fez surgir o temor de que os russos se pudessem aliar à França, deixando a Alemanha posicionada entre duas potências inimigas – uma a leste e outra a oeste. De facto, a França detinha o capital de que a Rússia necessitava para dinamizar a sua economia e os dois estados formaram, em 1891, a Entente Dual, para confrontar a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) que se formara em 1882, sob os auspícios de Bismarck. A Grã-Bretanha, tradicionalmente, era inimiga quer da França quer da Rússia, e o mais natural é que se tivesse aliado à Alemanha ou, pelo menos, se tivesse mantido neutra. Mas as ambições alemãs, sobretudo a de construir uma armada que desafiasse o domínio britânico nos mares, tornou uma aliança anglo-germânica impossível. Os britânicos trataram então de fazer as pazes com França e Rússia, acordando com a primeira sobre África e com a segunda sobre as fronteiras da Pérsia e do Afeganistão. A Entente Dual transformou-se, assim, em 1907, em Tríplice Entente, com França, Rússia e Reino Unido. Entretanto, a corrida armamentista já tinha começado.

AFP.o imperador da alemanha guilherme II e seu primo Nicolau II imperador da rússia e rei da polónia fotografados poucas semanas antes da grande guerra
Foto 2 – O imperador da Rússia e da Polónia, Nicolau II, e seu primo Guilherme II, imperador alemão (que se apresentava sempre em traje militar), poucas semanas antes de seus exércitos se confrontarem na Grande Guerra. De acordo com Michael Howard, Guilherme II encarnava as três qualidades que caracterizavam a elite alemã daquela época: “militarismo arcaico, ambição desmedida e uma insegurança neurótica”.

A partir daí, a paz só se mantinha graças ao sistema de alianças e ao poderio bélico de cada lado. Esse instável equilíbrio romper-se-ia em 1914, após o assassinato de Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, no dia 28 de junho. O arquiduque foi assassinado, com sua mulher, em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, uma província anexada pela Áustria e pretendida pela Sérvia. O assassino foi um estudante bósnio – Gravilo Princip – adepto da unidade dos povos eslavos e militante da organização terrorista “Mão Negra”[4]. Em resposta ao atentado, as tropas austro-húngaras invadiram a Sérvia, iniciando o que poderia ser mais uma guerra localizada, como outras que ocorreram nos Balcãs. Mas na Alemanha havia o sentimento de que o envolvimento do país numa guerra seria inevitável, e que seria preferível que ele acontecesse antes da Rússia (que tinha sofrido pesada derrota dos japoneses em 1905) se reorganizar. O pretexto estava dado com a mobilização da Rússia para a guerra, em apoio à sua aliada, Sérvia. Deu-se o que se pode chamar de “reação em cadeia”. A Alemanha declarou guerra à Rússia, no dia 1 de agosto, e à França, no dia 3; a Inglaterra declarou guerra à Alemanha, no dia 4, após ter ficado sem resposta o ultimato que fez exigindo o respeito pela neutralidade belga; e o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Rússia, no dia 5. O conflito alastrou de uma forma nunca até então vista na história da humanidade, e tomou proporções mundiais. Grande parte dos países europeus, bem como colónias e territórios sob sua influência, além de países interessados em ampliar sua participação no cenário internacional, como o Japão, envolver-se-iam na Grande Guerra, em combates que não aconteceram apenas na Europa, mas também em África, na Ásia, no Médio Oriente e nos oceanos e mares. Os números não são consensuais, mas as estimativas mais credíveis apontam para 8 milhões de combatentes mortos e 21 milhões de feridos, sem contar com as baixas civis[5]. A Grande Guerra foi inovadora em muitos aspetos tecnológicos. Pela primeira vez foram utilizados meios aéreos, incluindo zeppelins e aviões, armas químicas, artilharia pesada móvel e tanques, com efeitos devastadores.

A guerra terminou com a rendição da Alemanha. O mapa mundial teve de ser redesenhado. Surgiram novos países, como a Polónia, a Checoslováquia e a Jugoslávia. Os impérios alemão, russo, austro-húngaro e otomano foram destruídos; e a guerra lançou as sementes da dissolução dos impérios vencedores, sobretudo da França e da Inglaterra. As duas nações que saíram verdadeiramente reforçadas da Grande Guerra, emergindo como duas das principais potências mundiais a partir de então, foram o Japão e os Estados Unidos. Porém, o nacionalismo e o imperialismo, que tinham dado origem à guerra, continuavam latentes. Muitos historiadores consideram que houve apenas uma guerra mundial com duas partes – ambas, consequência da corrida imperialista que marcou as três décadas anteriores a 1914. De acordo com Hannah Arendt, “certos aspetos fundamentais dessa época assemelham-se tanto aos fenómenos totalitários do século XX, que se poderia considerar esse período como um estágio preparatório para as catástrofes vindouras”[6]. Essas catástrofes tiverem, pois, origem num nacionalismo e num imperialismo exacerbados. E foram impérios, as entidades que se entrechocaram na Grande Guerra. É sobre eles que vamos debruçar-nos neste trabalho, com a intenção de mostrar, em poucas palavras, as razões, os desenvolvimentos e as consequências de um conflito que mudou o mundo – e durante o qual se lançaram as sementes de um outro ainda mais absurdo e devastador.

2- O IMPÉRIO ALEMÃO

alemanha e colóniasPara se ter uma ideia, a Alemanha da época imediatamente anterior à Grande Guerra era constituída por quatro reinos (Prússia, Bavária, Saxónia e Würtemberg), seis grãos-ducados, cinco ducados, sete principados e, ainda, as cidades do Hansa (Lübeck, Bremen, Hamburgo) e o território imperial da Alsácia-Lorena. O Reichstag (parlamento alemão) representava os conservadores agrários do leste, os industriais do norte e do oeste, os fazendeiros católico-romanos bávaros do sul e, acompanhando o crescimento da economia, as classes operárias industriais, com seus líderes socialistas, dos vales do Reno e do Ruhr. O grande obreiro da unificação alemã (1871) foi o chanceler Otto von Bismarck, primeiro-ministro prussiano que usou o seu prestígio político e militar, após vitórias importantes sobre o Império Austríaco (1866) e a França (1870), para os propósitos de criação da grande Alemanha. A principal preocupação de Bismarck foi, pois, a unificação. No entanto, sobretudo algumas correntes políticas, como eram o caso da Liga Pangermânica e dos partidos nacionalistas (Conservador e Nacional-Liberal), apoiados por larga franja da população, defendiam a expansão territorial[7].

Havia várias razões para que isto acontecesse. Em parte, porque a Alemanha era um estado tardio, tinha chegado muito depois de Inglaterra e França ao cenário imperial e queria competir com esses impérios. Depois, porque a Alemanha era uma grande potência económica, a maior da Europa, e isso permitir-lhe-ia construir uma grande força militar para vencer seus inimigos. Ainda, porque muitos alemães (quiçá, a maioria) estavam convencidos da superioridade racial alemã e queriam impô-la – influenciados por teorias muito em voga na época[8], por estudos “científicos” e, na prática, pelas experiências no terreno, na Europa, com judeus e polacos, em África (Oriental e do Sudoeste), onde os alemães eliminaram centenas de milhares de nativos, com os povos herero, madji-madji e nama[9]. Por fim, e talvez a razão principal, o medo. Os alemães estavam rodeados de alguns povos que consideravam hostis, sobretudo os russos, e achavam que a melhor forma de conjurar essas ameaças era um ataque preventivo, que ampliasse o território e criasse “zonas-tampão”, empurrando para longe os inimigos. Enfim, conjugavam-se perfeitamente na Alemanha de então as três condições fundamentais para a mobilização de um país para a guerra, definidas pelo general prussiano Karl von Clausewitz, na sua obra Vom Kriege: a política do governo, as atividades militares e a paixão do povo (ver nota 1).

www.sempreatualizados.net.soldado alemão usando telefone de campanha
Foto 3 – Soldado alemão usando telefone de campanha. O exército manteve-se socialmente dominante, mesmo após a unificação alemã.

A Alemanha tinha tudo preparado, com timings precisos e previra uma ação não apenas vitoriosa, mas também rápida. O plano era derrotar a França e atacar os russos ainda antes destes terem tempo de se organizar. Assim, no dia 1 de agosto de 1914, o Chefe do Estado-Maior Alemão, Helmut von Moltke, deu ordem de ataque à França. As primeiras semanas foram de regojizo para a Alemanha com a rápida progressão pela Bélgica e pelo Luxemburgo, em direção a França, e a vitória em Tannenberg (27 a 30 de agosto), a Leste, apesar de um primeiro contratempo em Gumbinnen[10]. O entusiasmo levou os alemães a planearem o “Programa de Setembro”, que se revelaria demasiado precoce e ambicioso, quando, ainda nesse mês, as forças da Entente se reagruparam no rio Marne, a Leste de Paris, contendo o avanço das tropas e o entusiasmo dos alemães. Depois desse confronto no Marne (após o qual Von Moltke sofreu um colapso nervoso e foi substituído no comando dos exércitos por Erich von Falkenhayn) e da primeira batalha de Ypres, a Frente Ocidental manter-se-ia uma imensa linha de trincheiras, com mais de 700 kms, desde a Bélgica até a Suíça, e um sorvedouro enorme de vidas humanas, sem que um ou outro lado conseguisse qualquer avanço significativo durante os quatro anos seguintes. A sangrenta Batalha de Verdun, iniciada em fevereiro de 1916, pelos alemães, resultou em nada, para além de meio milhão de baixas de ambos os lados e da substituição de Falkenhayn por Paul von Hindenburg e o seu inseparável Erich Ludendorff no comando alemão. O mesmo se pode dizer da igualmente sangrenta Batalha do Somme, iniciada em julho do mesmo ano, pelos Aliados (sobretudo britânicos), que resultou em nada de significativo para o desfecho da guerra, além da mortandade geral e das baixas estimadas em mais de um milhão.

Mas esta foi uma guerra caracterizada por muitos cenários. No Oriente, os territórios alemães, mal defendidos, foram rapidamente ocupados por japoneses (Shandong), australianos e neo-zelandeses (ilhas do Pacífico). Em África, os territórios alemães seriam ocupados, em 1915, pela Grã-Bretanha e aliados (União Sul-Africana) excetuando a África Oriental Alemã, onde o comandante Paul von Lettow-Vorbeck, à frente de 5.000 askaris[11], adotando uma tática de guerrilha, movimentando-se por uma vasta zona que incluía Moçambique, conseguiu manter o território em posse alemã até o fim da guerra. Entretanto, ainda em 1914, em novembro, a entrada do Império Otomano na conflito, ao lado das potências centrais (Alemanha e Áustria-Hungria), veio dar um novo fôlego às ambições alemãs. A entrada dos otomanos na guerra trouxe desde logo duas vantagens: homens para combaterem os britânicos no Médio Oriente e abertura de rotas para a Ásia Menor e África, através da Anatólia. A aliança com os turcos não tardaria a dar frutos e logo em abril de 1915 os otomanos, apoiados pelos alemães, repeliram os britânicos e seus aliados no estreito de Dardanelos, na célebre batalha de Galípoli. O ano de 1915 revelar-se-ia proveitoso, pois os exércitos conjuntos da Alemanha e da sua aliada Áustria-Hungria (conhecidas por Potências Centrais) conseguiram ocupar território russo, apoderando-se da Galícia, de Varsóvia e de Vilnius (capital da Lituânia), ainda no verão. E, no final do ano, as forças conjuntas da Áustria-Hungria, Alemanha e Bulgária[12] derrotaram a Sérvia, abrindo assim uma ligação direta entre Berlim e Constantinopla.

hospital alemão para cães
Foto 4 – Hospital alemão para cães. Recorreu-se bastante à ajuda animal durante a Grande Guerra. Não apenas cães, mas também cavalos, pombos e até elefantes, entre outros.

É claro que o esforço de guerra dependia bastante do apoio interno das forças políticas e dos movimentos sociais. Esse apoio nunca foi total nem se manteve contínuo. Partidos moderados como, o Partido Social-Democrata (SPD), o Partido do Centro ou o Partido Progressista, eram bastante relutantes em relação à guerra. Mas os partidos e movimentos nacionalistas e imperialistas radicais, como a Liga Pangermânica e o cartel dos Estados Produtores, com sua propaganda populista, conseguiam influenciar a maioria da população, o que levou muitos voluntários a alistarem-se fervorosamente, até porque estava previsto que a guerra seria curta e vitoriosa[13]. Por outro lado, o poder dos militares era enorme, tendo inclusive implementado a censura e sendo responsáveis pela manutenção da ordem pública, de acordo com a lei prussiana sobre o estado de sítio, de 1851, que havia sido incorporada na Constituição Imperial de 1871[14]. O esforço de guerra não dependia apenas dos soldados no terreno, mas também do mobilização interna da sociedade. Havia que garantir a produção industrial necessária à máquina de guerra, bem como a produção agrícola que garantisse a sobrevivência das populações. Assim, todos estavam envolvidos no esforço de guerra, e os militares ocupavam cada vez mais o espaço político, criando o Ministério Supremo da Guerra (Oberstekriegsamt) e uma burocracia paralela, que competia com a burocracia civil na administração do país. Isso gerou um conflito com as forças políticas, particularmente com o Partido Social-Democrata, que no início da guerra havia sido persuadido sobre o caráter defensivo da mesma, face à agressão russa, mas que, com a derrota russa e o agravamento das condições externas e internas, era cada vez mais favorável à paz. A estratégia dos militares para controlar os sociais-democratas, cujo apoio vinha sobretudo das classes trabalhadoras urbanas, foi tentar dividir os operários através da cooperação com os sindicatos e de grandes aumentos dos salários nas indústrias relacionadas com a guerra.

A partir de 1916, o desgaste provocado pelo conflito começou a ser mais notório. As batalhas de Verdun e do Somme foram devastadoras e resultaram praticamente em nada, como já vimos. Esse inverno foi muito duro, com um clima excecionalmente frio, dizimando a cultura da batata. Agravavam-se as condições internas: inflação, falta de alimentos, mortalidade infantil, feminina e de idosos, mortes em hospitais, por falta de assistência, etc, sendo que as doenças provocadas pela fome, como o raquitismo, o escorbuto e a tuberculose, eram endémicas. Os alemães também não conseguiam romper o bloqueio naval britânico, e optaram pela guerra submarina irrestrita (decisão que se revelaria fatal), provocando o protesto internacional e quase fazendo com que os Estados Unidos entrassem mais cedo na guerra, quando afundaram o navio Lusitania[15], em maio de 1915, com 2.102 pessoas a bordo. A guerra submarina irrestrita queria dizer que qualquer navio podia ser atacado, mesmo os de mercadorias, o que contrariava as convenções internacionais. A estratégia alemã passava pela destruição das frotas mercantes, cortando os abastecimentos e destruindo assim a economia dos Aliados. De início a estratégia deu certo, mas depois, em 1917, os americanos e ingleses conseguiram quase anulá-la, adotando o sistema de comboios marítimos, com rápidos destroyers acompanhando os navios, e construindo navios mais rápidos que os submarinos alemães. Para agravar ainda mais a situação, uma tentativa desajeitada de manietar os Estados Unidos, através de um incentivo ao México para que atacasse o seu vizinho do Norte (e reconquistasse os estados do Texas, Novo México e Arizona), acabaria por fazer com que os americanos finalmente entrassem na conflito, declarando guerra à Alemanha, em 6 de abril de 1917[16].

medalhasdeguerra.blogspot.com.br.artilheiro alemão morto.1918.library of congress.
Foto 5 – Artilheiro alemão morto (1918). Calcula-se que tenham morrido 1.800.000 alemães durante  a guerra.

Entretanto, nesse ano de 1917, a Rússia passara por grandes convulsões internas, que culminaram na vitória da Revolução Bolchevique, em outubro. O exército bolchevique, porém, não conseguiu suster o avanço alemão, que, em fevereiro de 1918, chegou às portas de São Petersburgo. Os bolcheviques foram obrigados a abdicar, assinando com os alemães o Tratado de Brest-Litovsk, em 3 de março de 1918, pelo qual os russos foram obrigados a ceder importantes territórios da Polónia e da Bielorrússia, além de três distritos arménios para a Turquia. O tratado restaurava as fronteiras turcas anteriores a 1879, deixando aos arménios um destino miserável nas mãos do seu pior inimigo. Os alemães conseguiram ainda uma vitória sobre os romenos[17], forçando-os a assinar o Tratado de Bucareste, em maio de 1918. Porém, a ambição otomana no Cáucaso (que deixaria as portas da Mesopotâmia abertas para a Entente), o colapso do exército austro-húngaro e a retirada da Bulgária da guerra, deixaram a Alemanha demasiado exposta no oriente. Na frente ocidental, ainda em 1917, Ludendorff ordenou o recuo de 40 quilómetros dos alemães para a linha Hindenburg (recuo acompanhado pela queima ou destruição das habitações, matança do gado e envenenamento dos poços de água) e resistiu às investidas de franceses (pelo Aisne) e britânicos (em Arras). No verão, tropas canadianas conseguiram tomar as colinas de Passchendaele, mas com um custo enorme, e uma nova investida dos Aliados, em Cambrai, terminou da forma habitual: baixas elevadíssimas e nenhum avanço significativo.

Em 1918, as condições internas agravaram-se. Logo no início do ano realizaram-se greves prolongadas e importantes em Kiel e Berlim, e a lei marcial foi declarada em Bradenburgo e Hamburgo. As ideias socialistas, potenciadas pelo que acontecia na Rússia, ameaçavam tomar conta do país. A paz começou a ser reclamada por várias forças políticas e, para fazer face aos pacifistas, o Alto-Comando patrocinara, ainda em 1917, o Partido da Pátria, generosamente financiado pelos industriais da Renânia, partido que contava, passado um ano, com 1,25 milhão de membros. Tratou-se do primeiro movimento de direita genuinamente populista do século XX. As reivindicações pela paz, que já haviam sido manifestadas pelo próprio Reichstag, e as convulsões internas levaram os militares a optar pela única saída que parecia possível em 1918 – uma ofensiva total e demolidora para derrotar os Aliados na frente ocidental, obrigando-os a aceitar uma paz que estivesse de acordo com os planos alemães. Ludendorff conseguiu transferir 44 divisões do leste – onde não eram necessárias depois da capitulação russa – e lançou um ataque maciço, em março, com 199 divisões. A intenção inicial de Ludendorff era abrir uma brecha no exército britânico e atingir os portos do Canal da Mancha. O primeiro ataque aconteceu em 21 de março, sobre a parte sul das linhas britânicas, a leste de Amiens, e, apesar do êxito inicial, os britânicos conseguiram resistir. No dia 5 de abril, Ludendorff suspendeu a operação e encaminhou as suas forças mais para norte, junto a Ypres, onde atacou de novo, em 9 de abril. O ataque foi fortíssimo mas mais uma vez as linhas britânicas resistiram. Isso deveu-se, pelo menos em parte, ao atraso que as forças portuguesas (apesar de reduzidas e desmoralizadas), conseguiram provocar ao avanço alemão, com grandes perdas, no vale da ribeira de La Lys, impedindo que os alemães cercassem as forças aliadas. A resistência das forças inimigas fez com que Ludendorff mandasse suspender o ataque, no dia 30 de abril. Desde o início desta ofensiva, os alemães já tinham perdido 350.000 homens.

Numa atitude que lhe granjearia várias críticas, Ludendorff mudou de novo de tática e virou-se para as linhas francesas, na zona do Aisne, em 27 de maio. Conseguiu penetrar 48 quilómetros e tomar Soissons. A artilharia de longo alcance começou a bombardear Paris, onde o governo, como já tinha feito em setembro de 1914, preparou a mudança para Bordéus. Porém, durante o ataque, os alemães perderam 130.000 homens, sendo que muitos foram abatidos por americanos, que nessa altura chegavam a França a um ritmo de 250.000 por mês[18]. Os americanos tinham começado a recrutar os seus soldados em maio de 1917 e, no início de 1918, já se encontrava um milhão de soldados americanos em França. Eles e os que os seguiram – muito mais frescos e otimistas que os desgastados combatentes europeus – seriam decisivos para o desfecho da Grande Guerra. Em 16 de julho, em Reims, os alemães voltaram a atacar. Dois dias depois, um exército composto por franceses e americanos, comandado pelo general Mangin, lançou um vigoroso contra-ataque. Em 5 de agosto, uma força combinada de franceses, britânicos e americanos lançou um ataque decisivo e fez prisioneiros 30.000 desmoralizados alemães. Ludendorff cancelou as ordens de ataque que tinha planeado no norte. A sua última cartada tinha sido jogada ali. Os alemães recuaram até a linha Hindenburg, combatendo sempre, infligindo 290.000 baixas a franceses e britânicos. Ali chegaram no início de setembro. Parecia que o impasse se instalara em definitivo, quando o marechal Foch, em 3 de setembro, ordenou uma ofensiva ao longo de toda a linha. Franceses, britânicos e americanos atacaram em massa. No dia 29, Ludendorff finalmente quebrou. Ele avisou o kaiser de que já não era possível vencer a guerra; um armistício tinha de ser firmado o mais depressa possível a fim de evitar uma derrota ainda mais humilhante.

Quando Ludendorff soube das condições que queriam impor à Alemanha, procurou interromper as negociações. Mas o governo estava preocupadíssimo também com a possibilidade da revolução irromper a qualquer momento. O novo chanceler Max de Baden conseguiu em três semanas fazer as reformas constitucionais a que o kaiser e o Exército tinham resistido no meio século anterior. O Reichstag teve os seus poderes reforçados, consagrou-se o sufrágio universal, e o kaiser passou a ter apenas um papel simbólico. Ludendorff foi substituído pelo general Wilhelm Groener. Entretanto, os motins espalhavam-se. Formaram-se os Conselhos dos Trabalhadores e dos Soldados, segundo o modelo dos sovietes russos. A Baviera declarou-se independente e a revolução parecia inevitável. Então Groener mandou Guilherme II para o exílio na Holanda, garantiu o apoio do exército ao parlamento e tratou de negociar a paz. Uma delegação organizada à pressa encontrou-se com os líderes de guerra aliados, num vagão de comboio, na floresta perto de Compiègne. No dia 11 de novembro foi assinado o armistício.

A participação da Alemanha na Grande Guerra foi caracterizada pela extrema violência. Na Bélgica, as tropas alemães prenderam e fuzilaram cerca de 5.000 civis, além de incendiarem indiscriminadamente edifícios, provocando um mar de refugiados. Os alemães foram também os primeiros a usar uma nova arma – o gás de cloro venenoso – em abril de 1915, em Ypres. Apesar destes e outros desmandos, a Alemanha perdeu a guerra e o império, e adotou o modelo de Estado-Nação, fundando a República de Weimar. Após o Tratado de Versalhes, a Alemanha foi obrigada a ceder partes de seu território à França (Alsácia e Lorena), à Bélgica, à Polônia e à Dinamarca; a divididir as suas colónias entre a Inglaterra, o Japão, a Austrália, a França, a Bélgica e a Nova Zelândia; a entregar material bélico e de transporte aos países vencedores (ficando proibida de rearmar-se); a ceder a região do Sarre, rica em minas de carvão, à França por quinze anos; por fim, a pagar aos vencedores uma pesada indemnização. Os alemães sentiram-se injustiçados. Eles acreditavam que a guerra lhes tinha sido imposta pelos seus inimigos e que a sua causa era nobre. E muitos defendiam que um governo patriótico deveria criar as condições para que se revogasse o tratado. Este sentimento justificaria, em grande parte, o enorme apoio de que viria a beneficiar Adolf Hitler. Apoio que não pode ser dado pelos dois milhões de alemães mortos na guerra[19].

3- O IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO

Francisco Ferdinando e sua mulher, Sofia, deixam a Prefeitura de Sarajevo
Foto 6 – Francisco Fernando e sua mulher, Sofia, deixam a Câmera de Sarajevo, pouco antes de serem alvejados.

A anexação da Bósnia-Herzegovina para a monarquia dos Habsburgos, em 1908, para além de irritar profundamente a Rússia e a Sérvia (ambas eslavas), só contribuiu para o aumento da tensão entre as potências europeias. Formaram-se subgrupos eslavos no Sul dos Balcãs com algo em comum: o ódio aos austro-húngaros. Posteriormente, as guerras dos Balcãs[20] vieram mostrar que a Rússia passara a ter uma grande influência na região, o que preocupava o Império dos Habsburgos. Como já vimos no caso alemão, o medo de que outro império queira ganhar terreno ao nosso, é sempre mau conselheiro. Isso, associado à perda da maioria dos territórios na Europa por parte do Império Otomano, fez com que a ministro austro-húngaro dos Negócios Estrangeiros, conde Leopold Berchtold, chegasse a ponderar um ataque à Sérvia[21]. Neste contexto, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, em 28 de junho de 1914,  foi quase um pretexto para o início da guerra, com a invasão da Sérvia pela Áustria-Hungria, precisamente um mês depois.

Além disso, o Império dos Habsburgos era um extenso mosaico, onde se falavam muitas línguas[22] e existiam muitos povos, os quais tinham crescentes aspirações independentistas, já manifestadas, aliás, nas guerras de independência de 1848-1849 e que se reacenderam na década de sessenta. Foi nessa época, em 1867, que a Hungria se tornou um reino soberano, através de um compromisso austro-húngaro, e seguiu interesses e uma agenda nacional próprios. Naturalmente, o exemplo húngaro despertou fantasias e ambições políticas por quase todo o lado, sobretudo entre as elites checa, croata e polaca, ambições que vinham surgindo desde o início do século XIX e que reclamavam uma voz na tomada de decisão política. Porém, face à constante oposição dos húngaros[23], o velho imperador e monarca Francisco José impediu a criação de novos territórios protonacionais. Apesar de tudo, o sistema político da monarquia dos Habsburgos – que oscilou entre a governação autocrática de pendor militarista e a democracia parlamentar com restrições – e a habilidade política de Francisco José impediriam que o império se desintegrasse.

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Foto 7 – O arquiduque e a mulher, mortos, em Sarajevo. Após estas duas mortes, seguir-se-iam milhões, no âmbito da Guerra Imperial.

Apesar disso, com o início da guerra, a instabilidade aumentou. Com medo que os movimentos nacionalistas levassem os diversos territórios a situações incontroláveis, o império optou pela tomada de medidas preventivas e repressivas. Os alvos foram, sobretudo, os grupos que tinham mantido uma lealdade crítica à monarquia dos Habsburgos e que ainda alimentavam esperanças numa reforma do império que conferisse alguma perspetiva, a prazo, aos seus anseios de identidade nacional. A maioria destas medidas repressivas foi aplicada aos eslavos do sul, ucranianos e judeus, mas também a eslovenos, checos e italianos[24]. Quanto à guerra propriamente dita, os austríacos confrontaram-se, ainda em 1914, com dois exércitos na frente oriental – russo e sérvio. Os sérvios repeliram um ataque prematuro e obrigaram os austríacos a cruzar de volta a fronteira, com menos 30.000 homens. Ao norte, quando tentavam entrar na Polónia, os austro-húngaros foram repelidos pelos russos e perderam 350.000 homens, além da fortaleza estratégica de Przemysl, que recuperariam em março de 2015. Em novembro desse ano (2015), austríacos e alemães, acompanhados pelos búlgaros (que se tinham juntado às Potências Centrais em outubro), vingaram-se da derrota do ano anterior frente aos sérvios, e estes foram forçados a fugir pelas montanhas do Montenegro, em pleno inverno, para escaparem pelos portos do Adriático. A Sérvia foi esmagada e ocupada. Mas a luta contra os russos haveria de acarretar uma amarga derrota às mãos do general Alexei Brusilov, na fronteira da Galícia, em junho de 1916, com meio milhão de austro-húngaros feitos prisioneiros. Nesta altura, as baixas eram enormes e os soldados eslavos (checos, romenos e ruténios) começaram a desertar em massa.

Quando a Itália entrou na guerra, em 23 de maio de 1915, os austríacos confrontaram-se com o seu pior inimigo. Começaram as escaramuças nos Alpes. Em maio de 1916, na região de Trentino, os austríacos obtiveram um sucesso inicial sobre as forças italianas, que perderam 286.000 homens, entre os quais 45.000 prisioneiros de guerra. Os italianos, sob as ordens do general Luigi Codorna, contra-atacaram perto do rio Isonzo e mais tarde no Carso, a norte de Trieste. Os combates prolongaram-se por vários meses, até o verão de 1917. Ambos os exércitos estavam no seu limite, com baixas enormes. Foi então que os alemães, livres dos russos, vieram em auxílio dos austríacos. As técnicas de artilharia e infantaria dos alemães destroçaram as defesas italianas em Caporetto, no dia 25 de outubro, fazendo 250.000 prisioneiros e obrigando o exército italiano a recuar centenas de quilómetros, exército de onde desertaria cerca de meio milhão de homens. Caporetto é ainda hoje uma palavra que significa “derrota”, “vexame”, “infortúnio”, em Itália.

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Foto 8 – Miklós Horthy e Adolf Hitler em 1938. Dez anos depois, outro ditador, Salazar, acolheria Horthy em Portugal.

Mas as complicações no Império Austro-Húngaro continuaram. Francisco José I, que durante quase 58 anos simbolizara a unidade das nações e a integridade territorial da monarquia, morrera em 21 de novembro de 1916, sendo substituído por Carlos I. Os checos e os eslovacos começaram abertamente a defender um Estado independente. O impacto da revolução bolchevique na Rússia, que aclamava a autodeterminação dos povos, foi enorme na Europa Oriental e Central, atingindo em cheio o Império Austro-Húngaro. Para complicar ainda mais a situação, realizou-se em Roma, entre 8 e 11 de abril de 1918, o Congresso das Nacionalidades Oprimidas. Os representantes checos, eslovacos, eslavos do sul, italianos, polacos e romenos exigiram a independência completa e o direito aos territórios ocupados pelas respetivas nacionalidades. E, para contrariar a esperança de alguns setores em relação a uma paz separada com a monarquia dos Habsburgos, aconteceu o “caso Sixto”[25], em abril de 1918. Em junho, o exército esfarrapado e faminto foi empurrado para uma ofensiva final na frente italiana, onde foi repelido e perdeu 143.000 homens, 25.000 deles prisioneiros. As tropas começaram a desertar em massa, ficando claro, a partir daí, o que passados meses viria a acontecer e era inevitável – a desintegração do império em estados nacionais. Carlos I ainda tentou uma reforma em que promovia a criação de estados nacionais unidos sob a monarquia dos Habsburgos, mas nessa altura os preparativos para as várias revoluções e a criação de Estados-nações independentes iam já bastante adiantados. Foi o fim da monarquia dos Habsburgos.

Com a dissolução da monarquia desfez-se o império. O Tratado de Saint Germain en Laye foi celebrado em 10 de setembro de 1919, entre os Aliados e a nova República da Áustria. A metade austríaca do antigo Império Austro-Húngaro perdeu, no norte,  os checos, que se juntaram aos seus primos eslovacos da Hungria para formar a Checoslováquia. No sul, perdeu  os eslovenos, que com os seus primos croatas da Hungria se juntaram aos sérvios, formando o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, renomeado mais tarde Jugoslávia (a Eslávia do sul). Perderam também as terras italianas ao sul dos Alpes, incluindo Trieste, o seu principal porto no Adriático. A parte remanescente e germânica, que era tudo o que restava da Áustria, procurou juntar-se à nova república alemã, a norte, mas essa pretensão foi negada pelos Aliados. A Áustria manteve-se independente até 1938, quando Adolf Hitler realizou um Anschluss, sob aclamação popular, e a anexou à Alemanha como uma província do Terceiro Reich. Por seu turno, a Hungria, através do Tratado de Trianon, de 4 de junho de 1920, perdeu não apenas os eslovacos, ao norte, e os croatas, no sul, mas também a província da Transilvânia, a leste, para a Roménia. Perdeu também o acesso ao mar e 2/3 do seu território. Após o tratado remanesceram expressivas minorias húngaras na Checoslováquia, na Jugoslávia e na Roménia. A Hungria viu-se envolvida numa guerra civil logo após a Grande Guerra. Os comunistas tomaram o poder e fundaram a República Soviética Húngara, mas os contra-revolucionários brancos acabariam por derrubá-los pouco tempo depois. Do conflito emergiu o almirante Miklós Horthy, um ditador de direita, que recusou o fim da monarquia dos Habsburgos, governando como regente, sendo apenas derrubado no fim da Segunda Guerra Mundial, após ter colaborado com os nazis. Em 1948, Horthy exilou-se em Portugal, onde morreu, passados nove anos, no Estoril.

4- O IMPÉRIO RUSSO

império russoO Império Russo teve a sua origem, ainda no século XV, no pequeno principado da Moscóvia, situado na Europa Oriental. No entanto, já na Idade Moderna, sobretudo através de três dos seus czares[26] mais ambiciosos, Ivan, o Terrível, Pedro, o Grande e Catarina, a Grande, ampliaram enormemente o território. Ivan abriu os caminhos para a Ásia, através do rio Volga. Pedro fundou uma capital junto ao Báltico, após vitória no Norte. Catarina expandiu o território até a costa norte do mar Negro e anexou metade da Polónia. Os seus sucessores continuaram e consolidaram a expansão: para a Tanscaucásia, norte da China, Ásia Central e orla da Península dos Balcãs[27]. A unidade do império baseava-se na autoridade do czar. Apesar disso, sobretudo durante a segunda metade do século XIX, cresceram os movimentos nacionalistas, particularmente na Polónia e na Ucrânia. Como resposta, o czar Alexandre III, em 1881, lançou um programa chamado “russificação”. Este programa, como tantas vezes acontece, teve um efeito contrário ao pretendido, e as tendências nacionalistas intensificaram-se no império com o surgimento de vários partidos nacionalistas ilegais.

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Foto 9 – Cossacos russos durante a Primeira Guerra Mundial (1915).

A repressão aumentou e a instabilidade também. O desastre na guerra russo-japonesa de 1904-1905 veio enfraquecer ainda mais o já debilitado império. O povo veio para a rua protestar, foram criados os sovietes (conselhos operários para coordenar as greves) e, apesar da repressão, estavam lançadas, na revolução inconclusiva de 1905, as sementes da revolução vitoriosa de 1917. Como em outras épocas históricas, quem pagou a fatura foram os judeus, que sofreram na pele, sobretudo na Ucrânia e na Polónia, as consequências das frustrações dos nacionalistas de direita. Judeus que, aliás, foram muito maltratados também durante a Grande Guerra, discriminados e oprimidos, quer no exército, quer na vida civil. Aliás, os conflitos étnicos no seio das forças armadas seria uma das razões do colapso imperial em 1916/17. Mas a causa fundamental foi a própria guerra. Extensas áreas eram administradas pelos militares, mas estes não tinham qualquer experiência na função e revelaram-se incapazes de levar a missão a bom termo. O Estado começou a falhar. Esse vazio foi preenchido pelas aspirações nacionalistas. Como aconteceu noutros império, o esforço de guerra fez subir os preços. Cresceu a inflação. As autoridades, fazendo uma avaliação equivocada das causas inflacionárias atribuíram-nas  à especulação e, claro, aos comerciantes judeus. O exército envolveu-se em quase todos os pogroms[28]. Os judeus foram ameaçados, perseguidos, torturados, assassinados e deportados em grande escala[29].

A participação russa na Grande Guerra foi desastrosa e acelerou o fim do Império. A Rússia repeliu a Alemanha ainda em 1914, mas os seus exércitos, apesar de numerosos, estavam mal equipados e tinham lideranças desatualizadas. Pese embora alguns êxitos breves, em 1915, tudo se desmoronou. A contra-ofensiva austro-alemã lançada na primavera, sob o comando do general Mackensen, foi uma estrondosa vitória que empurrou os russos dos territórios da Galícia e, posteriormente, dos territórios que correspondem às atuais Polónia e Ucrânia. O exército russo refugiou-se na Bielorússia e na Letónia. Um número impressionante de refugiados, incluindo arménios fugidos ao extermínio turco, chegou à Rússia Central e à Sibéria. Seis milhões de pessoas foram deslocadas entre abril e setembro de 1915. O apoio dado pela oposição ao regime czarista no início da guerra transformou-se em hostilidade. O tecido social rasgou-se. O regime tremeu mas não caiu. A crise abrandou a partir de outubro de 1915, em virtude das vitórias militares no sul contra os otomanos (conquista das cidades estratégicas de Erzerum e Trebizonda, na Anatólia) e também na Europa, na primavera de 1916, na Galícia, como vimos, sob o comando do general Alexei Brusilov[30]. Este sucesso fez com que a Roménia, o último país balcânico ainda neutro, se juntasse aos Aliados. Porém, a Roménia seria invadida no outono por um exército formado por forças austríacas, alemãs e búlgaras e espoliada do petróleo e dos cereais de que as Potências Centrais tanto necessitavam.

medalhasdeguerra.blogspot.com.br.cossaco russo, 1915, bibliotheque nationale de france
Foto 10 – Cossaco russo (1915).

Apesar de tudo, as vitórias de 1916 não conseguiram salvar o regime. Havia uma escassez enorme de mão-de-obra e muitos desertavam da guerra. De acordo com Joshua Sanborn, “em 1916 manifestaram-se todas as patologias do controlo imperial russo: falta de previsão, implementação deficiente, corrupção, brutalidade.” No verão, rebentaram revoltas nos Usbequistão e Cazaquistão. O Turquestão teve de ser colocado sob lei marcial. Colonos russos foram atacados, tendo morrido mais de 3.500. No entanto, a dinastia Romanov continuava no poder, depois de mais de 300 anos, e era, apesar de tudo, o único sustentáculo do Império. Em fevereiro de 1917, os protestos atingiram a capital. Primeiro, contra a carestia de vida e depois contra a incompetência do governo. Exigiu-se o fim da autocracia. O monarca, sozinho, abandonado até pela cúpula militar, abdicou. “A sua partida abriu um gigantesco buraco simbólico e institucional no sistema político”[31]. No dia 27 formaram-se dois comités provisórios dos quais sairiam, na prática dois governos paralelos – o Governo Provisório e o Soviete de Deputados dos Trabalhadores e Soldados. A confusão, como é óbvio, instalou-se. A Duma proclamou a República. Lenine, apoiado pelos alemães (que viam nele um potencial desestabilizador do Governo Provisório e a possibilidade de desistência da guerra por parte da Rússia) regressou ao seu país, desde Zurique, onde estava exilado.

james maxwell pringle, library of congress, covas feitas para os mortos durante a revolução russa, 1917,moscovo
Foto 11 – Valas para os mortos, em Moscovo, durante a Revolução Russa (1917). A Rússia foi o segundo império a perder mais vidas na Primeira Guerra Mundial, logo depois dos alemães. Aproximadamente, 1.700.000 mortos.

O que aconteceu depois é amplamente conhecido. Os sovietes caíram progressivamente na mão dos bolcheviques e tornaram-se dia para dia mais poderosos. Em outubro, a revolução bolchevique vingou. Além do pão, da terra e da paz, os bolcheviques prometeram autodeterminação aos povos do desmembrado império. Em março de 1918, entregaram grande parte do território aos alemães, através do Tratado de Brest-Litovsk. Nos meses seguintes o antigo império desmembrar-se-ia ainda mais. “Com as fronteiras ocidentais controladas pelos alemães, os territórios do Cáucaso pressionados pelos otomanos e vastas regiões do Sul e do Leste na posse de vários pequenos Estados e senhores da guerra, a Rússia bolchevique ficou reduzida às fronteiras da antiga Moscóvia. A história do Império Russo na Grande Guerra foi uma história de colapso total e absoluto”[32].

Uma consequência inevitável de uma revolução é a contra-revolução. Os exércitos brancos enfrentaram os bolcheviques. Porém, o desentendimento no seu seio, aliado aos radicalismo e imperialismo obsoletos, não lhes permitiriam uma estratégia concertada na guerra civil. A brutalidade recaiu ainda uma vez mais sobre os judeus, acusados de serem comunistas, sobretudo na Ucrânia. Levaram-se a cabo milhares de pogroms. Estima-se que tenham morrido entre 50.000 a 200.000 judeus. Entre 1918 e 1921, imperou a fome, as doenças e a guerra. No fim deste período, os bolcheviques tinham recuperado grande parte do império dos czares. Estabeleceram o modelo federal de um Estado altamente centralizado e hierarquizado. Os povos vencidos não tinham ilusões relativamente à sua autonomia. A partir dali quem mandava, local e centralmente, era o Partido Comunista da União Soviética.

5- O IMPÉRIO OTOMANO

tropas do império otomano no médio oriente
Foto 12 – Tropas do Império Otomano, no Médio Oriente.

O Império Otomano foi um dos maiores do mundo quer em extensão territorial, quer em duração temporal (1299-1922). O período de vida da dinastia otomana superou os dos Habsburgos, Hoenzollerns e Romanovs. Uma certa tribo turca otomana, vinda do Turquestão, começou por ocupar a Ásia Menor (Anatólia), atravessou o estreito de Dardanelos e conquistou a Macedónia, a Sérvia e a Bulgária. Constantinopla, que resistira sempre a todos os ataques anteriores, foi atacada pelo lado europeu e conquistada pelo sultão otomano Maomé II, em 1453. A partir daí os otomanos ampliaram ainda mais o seu território, conquistando, no século XVI, grande parte do Norte de África, o Egito, Bagdade e a Hungria, ficando às portas de Viena. Nesse período tornaram-se os senhores incontestados do Mediterrâneo, controlando todo o comércio até serem finalmente derrotados pelos cristãos, em 1571, na Batalha Naval de Lepanto. Quando começou a Grande Guerra o Império Otomano já não possuía um território tão vasto quanto o alcançado no século XVI[33], mas ainda assim dominava quase toda a Arábia, a Anatólia e parte dos Balcãs, tendo também, teoricamente, domínio sobre o Egito.

Como vimos, os sentimentos nacionalistas espalharam-se por todo o lado e, logicamente, também pelo Império Otomano. Esses sentimentos constituíam  um perigo para o império, mas a principal causa da desintegração foi a aposta em soluções militares, em detrimento de reformas políticas, de que resultou a entrada do Império na Grande Guerra. Este era composto por diversas nacionalidades: arménios, albaneses, árabes, curdos, gregos ortodoxos, judeus, búlgaros, entre muitos outros. Em julho de 1908, na sequência da tomada do poder pelos “Jovens Turcos”, um grupo de jovens oficiais determinados a modernizar o arcaico sistema político e económico, foi ainda levada a cabo uma reforma política, apelidada de “revolução constitucional otomana”, com eleições em todo o império, que daria origem ao primeiro parlamento desde 1878. No entanto, a “Primavera Otomana” duraria pouco tempo. O novo governo, liderado pelo Comité para a União e o Progresso demonstrou ser pouco democrático, e as perseguições étnicas e assassinatos políticos, nomeadamente em Adana, frustraram as esperanças de 1908, tendo o governo perdido o apoio popular e acabando por ser substituído pelo Partido da Liberdade e do Entendimento[34].

ossadas de arménios queimados vivos pelos otomanos em 1915. Acervo the armenian genocide museum-institute
Foto 13 – Ossadas de arménios queimados pelos otomanos. Estima-se que tenham morrido entre um milhão a um milhão e meio de arménios no massacre (sempre negado pelos turcos) de abril de 1915.

A situação agravou-se quando, em setembro de 1911, sem razão aparente a não ser a ambição imperial, a Itália invadiu Trípoli, na Líbia[35]. A comunidade internacional não atendeu aos justos protestos otomanos, e os italianos reprimiram violentamente a resistência, enforcando publicamente 14 líbios, como exemplo para os restantes. Um ano depois, em outubro de 1912, um exército composto por tropas búlgaras, gregas, montenegrinas e sérvias invadiu as províncias otomanas do Kosovo, de Monastir e de Salónica, provocando grandes atrocidades sobre a população civil. Apesar de terem recuperado algum território durante a Segunda Guerra dos Balcãs (Edirne), os otomanos perderam territórios que detinham desde o século XIV e perderam também grande parte da população cristã. Os cristãos, aliás, foram acusados de deslealdade ao império durante a Guerra dos Balcãs. Se o império perdia súbditos de outras nacionalidades que não a turca, ia ganhando, por outro lado, muitos muçulmanos que se refugiavam no seu território. O círculo apertou-se. E a entrada do Império Otomano na Grande Guerra apenas apertou ainda mais o nó. A coexistência imperial esfumou-se. Com a eclosão da guerra surgiram ainda acusações mais fortes de deslealdade aos não muçulmanos e não turcos: os arménios e curdos foram acusados de se aliarem aos russos; os judeus aos britânicos; os cristãos árabes aos franceses; e os cristãos ortodoxos aos gregos[36].

O tecido do Império já se encontrava em muito mau estado quando os otomanos entraram na I Guerra Mundial, mas ficaria bem pior durante o conflito, ao ponto de rasgar-se em pedaços. Para isso contribuiu, mais uma vez, a opção militar repressiva sobre as populações. Foi o caso dos arménios, mortos e deportados em grande escala, em abril de 1915, numa ação que ficou conhecida como “Massacre Arménio”[37], estimando-se que tenham morrido entre um milhão a um milhão e meio de seres humanos. Os relatos são impressionantes. Também o que aconteceu com populações árabes da Síria e do Monte Líbano, onde, face à escassez de alimentos e ao bloqueio naval franco-britânico, a fome grassou mais fortemente do que no restante império, dizimando um número significativo da população[38]. Os protestos foram reprimidos brutalmente, o que fez muita gente virar-se contra o regime. Além disso, as populações estavam também sobrecarregadas com impostos destinados ao financiamento da guerra e sentiam-se revoltadas e reprimidas. Tudo isto constituiu um processo irreversível na direção do desmembramento do Império Otomano.

Exercícios de cavalaria turca em frente ao Belenenses, na Turquia, em março de 1917, arquivo nacional
Foto 14 – Exercícios de cavalaria turca em frente ao Belenenses, na Turquia, em março de 1917

Quanto à guerra propriamente dita, é preciso perceber que a Turquia estava isolada internacionalmente. Muitos dos seus territórios eram cobiçados. Por outro lado, as potências europeias tinham acelerado o seu desenvolvimento tecnológico relativamente ao Império Otomano. Neste contexto foi vista como uma oportunidade única a aliança militar assinada entre otomanos e alemães, em 2 de agosto de 1914 – do ponto de vista turco, oportunidade para esvaziar a pressão de russos e britânicos sob os seus territórios. A primeira grande ação dos otomanos na guerra foi um ataque naval à esquadra russa no Mar Negro, em Odessa, com dois navios alemães, sob bandeira turca. Em novembro, o sultão otomano declarou a guerra santa, a famosa jihad, incitando todo o mundo islâmico ao levantamento armado. Pouco depois, na tradicional arena dos conflitos russo-turcos – o Cáucaso – os otomanos sairam frustrados, pois atacaram no início do inverno e acabariam por perder 80.000 homens durante os três meses seguintes, não conseguindo chegar à cidade de Sarikamis, território perdido para a Rússia em 1878. Noutra frente, tentaram cruzar o Suez e invadir o Egito ocupado pelos britânicos, também sem sucesso. No entanto, pouco mais de um ano depois, derrotaram os britânicos[39] em Kut, no Iraque, após estes terem conquistado Bassorá e, numa batalha mítica a que já fizemos referência, em Galípoli, no Estreito de Dardanelos, resistiram, sob o comando de Mustafa Kemal e com o apoio dos alemães, ao assalto a Constantinopla, iniciado em janeiro de 1915. Morreram na batalha 400.000 homens. Em junho de 1916, o xerife árabe de Meca, Husayn ibn Ali, revoltou-se contra o Império, apoiado pelos britânicos, que esperavam uma revolta árabe generalizada, sem sucesso. Em 1917, os otomanos conseguiram ocupar Erzurum e Trebizonda, aproveitando uma janela de oportunidade aberta pela revolução russa. No fim do ano, os ingleses conquistaram Jerusalém e, em outubro de 1918, ocuparam Alepo no Norte da Síria.

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Foto 15 – Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da moderna Turquia, considerado ainda hoje, justamente, um herói nacional.

Entretanto, a Grande Guerra terminara, mas isso não representou o fim dos confrontos para os turcos. Na primeira metade de 1919, britânicos e franceses ocuparam Istambul, enquanto os gregos desembarcavam no Oeste do Egeu e os italianos no Sul. Os turcos formaram um movimento de resistência, a princípio desgarrado, mas, ainda em 1919, organizado em torno do comandante Mustafa Kemal. Em agosto de 1920, a Turquia assinou com as potências aliadas o Tratado de Sèvres, sem a presença dos Estados Unidos e da Rússia. O Império Otomano decrescera significativamente e o seu território era agora menor que a Anatólia. Havia perdido todas as possessões na Península Arábica para novos Estados sob o controlo de franceses ou britânicos – Síria, Líbano, Iraque, Arábia Saudita, Palestina, Transjordânia – e foi invadido por forças italianas, que reclamavam seu direito a Adália (de acordo com o Tratado de londres, de 1915) e pelos gregos, que reivindicavam seus direitos na Trácia e regiões da Anatólia, sobretudo Izmir.

Estas imposições galvanizaram o movimento de resistência que as rejeitou e levou ao poder Mustafa Kemal Atatürk. Com a ajuda dos bolcheviques, foram derrotados os arménios no Leste. Seguiram-se confrontos sangrentos com os gregos (apoiados tacitamente pelos Aliados), que culminaram na conquista de Izmir, em setembro de 1922, e a expulsão dos gregos da Anatólia. As forças turcas ameaçavam ainda expulsar os britânicos dos estreitos. O sultanato turco foi abolido, mas manteve-se o califado ainda mais dois anos. Finalmente, após três anos confusos, foi assinado o Tratado de Lausanne, em julho de 1923, o qual revogou o humilhante Tratado de Sèvres e devolveu à Turquia a plena soberania sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, sobre Istambul e seu território europeu, bem como a Armênia Ocidental, o Curdistão Ocidental e a costa oriental do mar Egeu (cidades como Izmir e Éfeso). A fronteira com o Iraque foi traçada de maneira velada para ser confirmada três anos mais tarde pela Sociedade das Nações, que outorgou, a título definitivo, a região do Mossul ao Iraque.

Em 29 de outubro de 1923 foi proclamada a República da Turquia. Começaram os esforços para reformar e adequar o país ao seu novo papel. Mustafa Kemal Atatürk fora um competente comandante militar e revelar-se-ia, como primeiro presidente da República Turca, um hábil reformador, levando a cabo, com sucesso, a transformação de um império muçulmano num moderno, democrático e secular Estado-Nação, que aboliu o califado, em março, de 1924 e os tribunais da Sharia, em abril. No dia primeiro de março desse ano, em discurso perante a Assembleia, Mustafa Kemal afirmou: “A religião islâmica elevar-se-á se deixar de ser um instrumento político, como aconteceu no passado”[40]. Infelizmente, como podemos verificar nos dias de hoje, essas palavras não se revelariam proféticas.

6- IMPÉRIO FRANCÊS

Império FrancêsA França chegou atrasada em relação a Portugal e Espanha, à corrida colonial, embora tenha cobiçado territórios de ambos os países[41]. Assim, a França só iniciou o seu primeiro período colonial em 1605, com a fundação de Port Royal, no atual Canadá, que deu origem à colónia francesa de Acádia. Em 1608 é fundada a cidade de Quebec, por Samuel de Champlain, futura capital da Nova França, um extenso território, esparsamente povoado, que ia desde o Nordeste do Canadá até a atual Louisiana, nos Estados Unidos. Em 1624, os franceses estabelecem-se na Guiana e sensivelmente na mesma época já estão na Martinica, Guadalupe, Haiti e também no Senegal, construindo uma extensa e rentável rede de comércio intercontinental. Por volta de 1670 a França começa um projeto de colonização da Índia, fonte de produtos de larga aceitação comercial. Estes interesses entrarão em choque com os dos britânicos, sendo os franceses derrotados, no âmbito da chamada Guerra dos Sete Anos, entre 1756 e 1763. Este é o ponto de decadência de seu primeiro projeto colonial, resultando na perda dos postos na América do Norte, Haiti e Índia. É o fim da primeira fase do império.

navios franceses no estreito de dardanelos
Foto 16 – Navios franceses no Estreito de Dardanelos. As forças navais dos Aliados foram repelidas pelas minas inimigas na Batalha de Galípoli, em março de 1915.

Uma segunda fase surgiria já no século XIX, mais concretamente em 1830, quando a França parte para novas conquistas coloniais, concentrando-se então no inexplorado e quase desconhecido continente africano, primeiro na Argélia, e posteriormente em parte da África Ocidental e Equatorial, além de Madagascar e Djibouti. A presença francesa, ao longo do século XIX vai ainda estender-se à Indochina, com o domínio dos Cambodja, Laos e Vietnam, além das possessões no Pacífico – Nova Caledónia, Polinésia, Wallis e Futuna[42]. Tratava-se, portanto, de um grande império, com cerca de 12 milhões de quilómetros quadrados, aquele possuído pela França em vésperas da I Guerra Mundial. Desse império seriam recrutados cerca de 500.000 combatentes (e 200.000 trabalhadores), que integraram os mais de oito milhões de soldados franceses envolvidos, entre 1914-1918, no esforço de guerra, com elevados custos, diga-se, pois apenas cinco meses após o início do conflito tinham já morrido 300.000 homens[43]. Os franceses foram, aliás, os que mais sofreram nos momentos iniciais da guerra, sobretudo no Marne (setembro de 1914) e em Ypres (cerca de um mês depois), mas muitíssimo também em Verdun, já em 1916, de tal forma que a sua participação na Batalha do Somme, nesse mesmo ano, foi já inferior (com seis divisões de primeira linha) à dos britânicos (com dezanove divisões).

Os sacrifícios franceses foram considerados, em parte, responsabilidade do seu comandante Joffre, o qual foi substituído por um general politicamente mais consensual, Robert Nivelle. Mas este também não resistiu muito tempo à frente do exército, apesar do seu otimismo. Na primavera de 1917, a sua ofensiva pelo Aisne saldou-se em fracasso, com perdas de 130.000 homens. Nivelle foi então substituído por Pétain, o herói de Verdun. Nesta altura, o exército francês já não aguentava mais e entrou em colapso, com unidades inteiras a recusarem-se a alinhar na frente de combate. Pétain conseguiu restabelecer o moral, dando melhores condições aos soldados e evitando ofensivas de vulto. E assim permaneceu o exército francês até o fim desse ano, 1917 – esperando que no ano seguinte chegasse o auxílio americano. Em 26 de março de 1918, realizou-se uma conferência interaliada em Doulens, perto de Amiens, e daí resultou a importante decisão de entregar o comando dos exércitos aliados a uma única pessoa, no caso, o então chefe do Estado-Maior francês, marechal Ferdinand Foch. A partir daí tudo melhorou. Em 16 de julho, os franceses, sob o comando do general Mangin, repeliram a ofensiva alemã em Reims. E em 5 de agosto, uma força conjunta de americanos, franceses e britânicos contra-atacou, obrigando os alemães a recuar, fazendo 30.000 prisioneiros. A ofensiva aliada culminou com a ordem de Foch para um ataque geral, em 3 de setembro – “tout le monde à la bataille!” – que só parou com a rendição alemã.

Os custos da participação francesa na Grande Guerra, não foram apenas em vidas humanas. A França gastou anualmente cerca de 34 mil milhões de francos[44]. Para esse esforço contribui todo o Império, sobretudo as colónias que constituíam a enorme federação da África Ocidental Francesa (AOF) e a Indochina. O Estado interveio orientando a população indígena da AOF para a produção de determinados produtos, como os óleos de palma e de amendoim, como forma de aumentar a produção e exportação desses bens, o que veio a desestabilizar as economias locais. A França obrigou as suas colónias a venderem os produtos a preços fixos, pelo que estas, além de serem sobrecarregadas com impostos para financiamento da guerra, eram ainda obrigadas a enviar para a metrópole produtos a baixo custo.

www.sempreatualizados.net. estação telegráfica em Paris
Foto 17 – Estação telegráfica em Paris.

Para agravar a situação dos territórios coloniais, e face ao perigo que representava a presença de submarinos alemães nas águas atlânticas, as importações diminuíram bastante, o que acabou por provocar uma subida dos preços e o consequente aumento da inflação. Apesar disto, as receitas totais do Império Francês nunca excederam os custos[45], o que, na verdade, aconteceu com todos os impérios[46]. Assim, embora alguns pensassem o contrário, os impérios não eram rentáveis, mas, sobretudo, constituíam uma forma de prestígio internacional que nenhuma potência queria perder. Por outras palavras, “para muita gente, o império ainda era mais importante psicologicamente do que materialmente, apesar da visão psicológica ser alimentada por sonhos com a base material da riqueza e da força imperiais”[47].

As condições difíceis e, em alguns casos, dramáticas que ocorriam nas colónias levaram a algumas insurreições no período da guerra, que seriam resolvidas brutal e eficazmente pelas forças imperiais. Foram os casos, ambos em 1916, da sublevação da corte do imperador Duy Tan, em Annam, na Indochina, e da resistência dos membros da organização secreta anticolonialista VVS, em Madagascar. Os principais problemas com os territórios coloniais surgiriam, porém, depois da guerra, quando a França viu aumentado ainda mais o seu império, na sequência do entendimento com a Grã-Bretanha, sobre as possessões conquistadas aos otomanos no Médio Oriente, consubstanciado na Conferência de San Remo, em abril de 1920. A França assumiu o mandato da Liga das Nações sobre a Síria e o Líbano, tendo absorvido também os antigos territórios alemães em África.

As consequências da Grande Guerra não foram, porém, aquelas que os imperialistas franceses esperavam, apesar dos territórios ganhos na Europa, no Médio Oriente e em África. Na vertente doméstica, a França continuou mais fraca do que a Alemanha, que, como se verificou, continuaria uma potencial ameaça, face ao desfecho da guerra. Na vertente colonial, a Síria revelou-se sempre uma dor de cabeça para os franceses. O bombardeamento da capital, Damasco, em 1945, foi o culminar de uma série de conflitos, mas isso não impediu que a Síria abandonasse o Império Francês no ano seguinte. Foram também os casos da Indochina e do Vietnam, onde sobressaiu o anticolonialista Ho Chi Minh, e do Senegal, com a decidida ação de Léopold Senghor. É quase certo que o Império Francês se desmoronaria, mais cedo ou mais tarde, como todos os outros, mesmo se não tivesse acontecido a Primeira Guerra Mundial. Mas assim como o vasto império da França contribuiu para que o conflito fosse realmente global, também a Grande Guerra contribuiu para que a queda do Império fosse irremediavelmente mais rápida.

7- IMPÉRIO ITALIANO

Império italianoA Itália é um país relativamente recente, enquanto Estado unitário, e, ainda mais que a Alemanha, chegou tardiamente à disputa imperial. É de realçar que, em 1911, a Itália estava a celebrar os 50 anos do “Risorgimento”, uma palavra que evoca o ressurgir da Terceira Itália, depois do poderoso Império Romano e do Renascimento. E, apesar de Vitor Emanuel II ter assumido, em março de 1861, o título de rei (após várias batalhas pela independência contra os austríacos), mesmo assim, a Itália desse tempo não coincidia territorialmente com a de hoje. Só em 1868, na sequência da Paz de Viena, o Veneto foi anexado ao reino de Itália, e apenas em 20 de setembro de 1870, a capital do Estados Pontifícios, Roma, após o abandono da cidade do exército francês, mobilizado para a guerra com a Prússia (1870-1871), seguiu o mesmo caminho. O Papa nunca aceitou a situação, que só ficaria resolvida no século XX, em 1929, com a criação do Estado do Vaticano, através da Concordata de São João Latrão, firmada entre Mussolini e o cardeal Pietro Gasparri, secretário de estado da Santa Sé. No entanto, no início da Grande Guerra, a Itália pretendia territórios que pertenciam ao Império Austro-Húngaro, o que só conseguiria após a guerra, em 1919.

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Foto 18 – Munições usadas na Grande Guerra, descobertas recentemente, após derretimento do gelo nos Alpes italianos.

Dos pontos de vista económico, social e até militar, a Terceira Itália defrontava-se com graves problemas, sendo considerada “a menor das grandes potências”. A industrialização do país estava atrasada, a integração nacional era muito frágil e o exército italiano transportava ainda o trauma das humilhantes derrotas de Lissa, contra os austríacos, em 1866, e de Adwa, contra os etíopes, trinta anos depois. No dia 29 de setembro de 1911, os otomanos foram informados pelo ministro italiano em Constantinopla que estavam em guerra com a Itália, dado que navios italianos já cruzavam o Mediterrâneo para se apoderarem da Tripolitânia e da Cirenaica[48]. Os italianos contavam com uma vitória fácil e com a simpatia de árabes, judeus e berberes, que estariam cansados da tutela otomana.

Nada disto, porém, aconteceu. A resistência turca foi tenaz e recebeu o apoio da maioria dos habitantes locais. Houve um banho de sangue. Alguns italianos capturados foram crucificados em tamareiras, mutilados e castrados[49]. As forças italianas intensificaram os combates no Mediterrâneo Oriental, numa tentativa desesperada de fazer os otomanos capitular. Isso viria a acontecer, não tanto pelos feitos italianos, mas sobretudo porque os otomanos estavam isolados internacionalmente e decidiram concentrar seus esforços nas guerras balcânicas, na defesa dos territórios europeus. Assim, em outubro de 1912, foi assinado em Ouchy, subúrbios de Lausanne, um tratado de paz que confirmou a anexação italiana da Líbia.

No entanto, os otomanos não iriam desistir dos seus antigos territórios. A Líbia foi uma constante dor de cabeça para os italianos, que se agravaria após 1915, sobretudo depois da Itália ter finalmente entrado na Grande Guerra (em 23 de maio) e declarado guerra à Turquia, em 15 de agosto (só entrou oficialmente em combate contra a Alemanha um ano depois). Além disso, a Itália não tinha recursos suficientes para lutar em várias frentes e teve de optar entre o império e as suas ambições sobre Trento e Trieste. Luigi Cadorna, um piemontês incumbido de preparar o exército para a guerra na Europa, ficou horrorizado quando teve conhecimento do dinheiro gasto e dos recursos humanos e materiais enviados para a Líbia. Assim, em julho de 1915, mandou evacuar Fezã e a Tripolitânia, reduzindo o território italiano a Trípoli e ao porto de Homs. A Itália não gozava de grande popularidade, sobretudo pela sua inconsistência e oportunismo, primeiro fazendo parte da Tríplice Aliança (esperando o apoio alemão para retirar Nice e Saboia aos franceses) e depois juntando-se à Tríplice Entente (esperando o apoio aliado para retirar território aos austríacos). O próprio primeiro-minitro italiano confessou, com uma franqueza cativante, que a política italiana era guiada pelo “santo egoísmo”.  Os italianos haviam firmado um tratado secreto com os britânicos (mais um dos muitos tratados com o título “Tratado de Londres”) em 26 de abril de 1915. Através desse tratado, eram-lhes prometidas todas as regiões italófonas ao sul dos Alpes, bem como o Tirol Meridional germanófono e as Eslovénia e Dalmácia, e ainda uma parte substancial da Anatólia.

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Foto 19 – Prisioneiros austríacos em Itália. No final da Grande Guerra o exército austríaco estava completamente destroçado.

O exército italiano passou grande parte da guerra lutando nas montanhas para lá de Isonzo, onde perdeu quase um milhão de homens, sob o comando de Luigi Cadorna. Entre 24 de outubro e 9 de novembro de 1917 os italianos sofreram mais um desastre militar, desta vez na Batalha de Caporetto (já referida acima), que ocorreu perto da atual cidade de Kaborid, na Eslovénia (11.000 italianos mortos, 20.000 feridos e 275.000 prisioneiros). Os italianos recuaram até o rio Piave, onde, com a ajuda dos aliados, assentaram uma linha defensiva. Em junho de 1918, um grande exército austro-húngaro tentou romper esta linha mas foi repelido pelo exército italiano. Nova ofensiva austríaca, em outubro, haveria também de se saldar, como já vimos, por um insucesso e estabelecer o fim da Primeira Guerra Mundial, na frente italiana, determinando o fim do Império Austro-Húngaro.

Os restantes territórios ultramarinos italianos situavam-se na África Oriental, mais propriamente no designado “Corno de África”. A Eritreia foi adquirida pela Itália nos anos 80 do século XIX, como plataforma para uma futura conquista da Etiópia. Isso não veio a acontecer porque os italianos foram derrotados na Batalha de Adwa, em 1896, numa vitória estrondosa das tropas do imperador Menelik (7.000 mortos, 1.500 feridos e 3.000 capturados). Após a batalha foi assinado o tratado de Adis Abeba, que garantia as independência e soberania territorial da coroa etíope. Mais tarde, em 1935, a Itália procurou vingar-se, voltando a carregar sobre a Etiópia, com o apoio tácito de ingleses e franceses, que temiam a aliança entre Mussolini e Hitler. Um enorme exército de cerca de 177.000 homens desembarcou entre maio e setembro desse ano, na Eritreia e, a 3 de outubro, de madrugada, avançou para a Etiópia. Foi usada uma imensa violência, incluindo o uso do gás mostarda, numa evidente transgressão à Convenção de Genebra, assinada pela Itália em 1925. O imperador Haile Selassié foi obrigado a fugir para Londres. Os guerrilheiros etíopes deram imenso trabalho aos italianos, que seriam expulsos da Etiópia, cinco anos mais tarde, pelos britânicos, durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao contrário do que aconteceu com a Líbia, na Eritreia não houve qualquer tumulto significativo, antes ou durante a Grande Guerra, o mesmo acontecendo com a Somália, que ficou ainda mais periférica relativamente ao conflito global. A Itália nunca tirou grande benefício das suas colónias, não soube desenvolvê-las e não criou as condições necessárias para ocupá-las. Em 1921, excetuando os militares, havia na Somália, 656 italianos, 3635 na Eritreia e 27.495 na Líbia. As ilhas do Dodecaneso, no extremo oriental do Mediterrâneo, hoje pertencentes à Grécia, mantiveram-se também, sem grande utilidade, nas mãos dos italianos. A colonização praticamente não existiu, havendo apenas lugar à posse. “Tudo o que a Terceira Itália fez foi construir um império de ilusões”[50].

8- IMPÉRIO BRITÂNICO

Império BritânicoO Império Britânico, entre todos os envolvidos na Grande Guerra, era, provavelmente, o mais estável – algo notável, se tivermos em conta a sua dimensão, superior a 1/5 da superfície terrestre. A Inglaterra mantinha-se afastada de convulsões internas desde a Revolução Brilhante do século XVII. As suas instituições funcionaram adequadamente ao longo de centenas de anos e isso permitiu que os ingleses consolidassem uma cultura de confiança no Estado e criassem as condições necessárias (sobretudo, económicas) para a construção de um vastíssimo império ultramarino. Defender um império de tais dimensões não era tarefa fácil, e os britânicos, durante a Grande Guerra, foram obrigados a combater em várias frentes: na Frente Ocidental, no Médio Oriente, em África, na Ásia e no mar. De facto, o mar conferiu ao conflito a sua característica global: no Atlântico Norte, no Mediterrâneo, no Atlântico Sul, no Pacífico, nos mares da Oceania e do Sudeste asiático, no Índico. No primeiro ano de guerra, quando a maioria dos confrontos estrategicamente importantes se deu no mar, isso requereu, para além dos recursos navais, capacidades de abastecimento e comunicação. Nestes aspetos decisivos, a Marinha britânica mostrou-se sempre competente.

Já vimos como a questão era importante, de tal forma que levou a Grã-Bretanha à guerra, face à ameaça alemã. Era importante não só para controlo das rotas comerciais e zonas operacionais críticas, mas também, em caso de conflito, para apoio aos exércitos em terra, sobretudo através da realização de bloqueios e de apoio logístico. Foi com esses objetivos em mente que a Alemanha desafiou a Inglaterra na grande corrida de construção de couraçados dreadnought na primeira década do século XX, uma competição que equipou suas frotas com dezenas de vasos de guerra (em 1914, a Inglaterra tinha vinte e oito e a Alemanha dezoito) capazes de destruir-se mutuamente até uma distância de vinte e oito quilómetros[51]. As intenções alemãs falharam e, após um bombardeamento das cidades costeiras inglesas e de um confronto em Dogger Bank, no inverno de 1914-15, e ainda da inconclusiva batalha de Jutlândia (maio de 1916), a sua frota ficou confinada aos portos germânicos, controlada à distância pelos ingleses, que mantinham a sua Grande Frota, em Scapa Flow, no extremo norte da Escócia, pronta para qualquer eventualidade.

soldados britânicos em 1915 antes da batalha de galípoli
Foto 20 – Soldados britânicos antes da Batalha de Galípoli (1915). As baixas de ambos os lados foram significativas e os Aliados não conseguiram os seus intentos – tomar Constantinopla.

A Marinha Real, entretanto, fazia o seu trabalho, crucial na conquista dos territórios alemães do continente africano- Togolândia, Camarões, África Ocidental Alemã e África Oriental Alemã. O principal objetivo britânico era o afundamento de navios alemães, a conquista de portos e a destruição de estações de rádio para eliminar as comunicações do inimigo. A conquista da Togolândia (a primeira ação da Grã-Bretanha na Grande Guerra), em coordenação com as forças francesas[52] foi relativamente fácil, e ocorreu ainda em agosto de 1914, após a fuga de uma pequena força de Schutztruppen, da capital, Lomé. Os alemães nos Camarões revelar-se-iam mais coriáceos, dando luta cerrada e chegando a fazer incursões pela Nigéria, resistindo, até fevereiro de 1916, às forças britânicas, (combatentes nigerianos e um batalhão indiano). A marinha britânica abriu o caminho para a invasão da África Ocidental Alemã, desde logo ao eliminar qualquer interferência naval. A esquadra germânica da Ásia Oriental, do vice-almirante Maximiliam Graf von Spee, fora destruída; e os bombardeamentos sobre Swakopmund e Lüderitz, haviam destruído portos e estações de rádio. A invasão terrestre foi levada a cabo, no início de 1915, por 45.000 homens das forças da União Sul-Africana, apoiados por cerca de 33.000 militares africanos e mestiços desarmados[53]. Em julho de 1915, o governador Seitz sem forças para continuar a resistir, ofereceu a capitulação da colónia[54].

Na África Oriental Alemã tudo foi muito mais difícil e complicado. O intrépido comandante alemão Paul Emil von Lettow-Vorbeck repeliu a tradicional manobra britânica de atacar portos e estações de rádio, e contra-atacou sobre o caminho de ferro do Uganda, estrategicamente importante. As baixas de ambos os lados foram significativas. Alguns responsáveis militares britânicos consideravam insustentável um conflito prolongado naquela zona, com “pantanais fétidos, doenças parasitárias, como a malária e o tifo, arbustos acerados e mato denso, um calor arrasador e uma humidade sufocante”[55], mas o que aconteceu foi um conflito prolongado, que só terminaria após o armistício na Europa. As forças de germânicas, mantiveram-se sempre em movimento, evitando o cerco inimigo. Soldados da Nigéria, da Costa do Ouro[56], da Rodésia e da União Sul-Africana não conseguiram derrotar os askaris[57] comandados por Lettow-Vorbeck, que desciam para a África Central quando capitularam, após quatro anos e meio de confrontos. O esforço foi enorme e o custo em vidas humanas muito elevado. Sobretudo entre o estimado um milhão de carregadores indígenas, população de camponeses locais, que terá sido atingida por uma mortalidade, causada pela guerra e pelas doenças, superior a 10%[58].

Mas não foram apenas os camponeses africanos os únicos a pagarem com a vida a sua participação na Grande Guerra. A Grã-Bretanha contava com o apoio de todo o império – constituído por cerca de 70 unidades, entre colónias, principados, protetorados, reinos e domínios. Para além dos africanos, perderam a vida na Grande Guerra 60.000 australianos e um número idêntico de canadianos; 53.000 indianos; 35.000 irlandeses; 20.000 neo-zelandeses; e 1.000 combatentes das Índias Ocidentais.

Desde o início da guerra que a questão da lealdade ao Império preocupou os responsáveis britânicos, sobretudo nos casos irlandês e indiano, em que o sentimento pró-autonomia era mais forte. O caso dos africânderes era também de peso, porque se temia que os ressentimentos decorrentes da guerra dos Bóeres pudesse minar o entusiasmo do alistamento ou até fazer pender a balança para o lado dos alemães. As minorias católicas do Quebeque, no Canadá, e dos irlandeses, na Austrália, eram também motivo de preocupação. Afinal, os temores revelar-se-iam maioritariamente injustificados, embora tenham acontecido algumas situações muito graves, como a tragédia do domingo de Páscoa sangrento, em 1916. Poucos dias após o esmagamento da revolta, foram presos 3.500 cidadãos, tendo 90 deles sido condenados à morte. Catorze foram fuzilados três semanas depois do início da revolta, tornando-se mártires da causa republicana. Na Índia, vários movimentos nacionalistas procuraram desestabilizar o regime, mas não tiveram o efeito que desejavam pois não conseguiram cativar para a sua luta a principal corrente nacionalista. Por outro lado, uma rebelião pan-indiana programada para o Dia de Natal de 1915 seria intercetada pelos serviços de informação britânicos. Estes também tiveram de lutar pelos territórios do Médio Oriente que tinham pertencido ao Império Otomano, como foi o caso do Egito, onde em 1919 surgiu uma revolta dificilmente controlada pelos ingleses, com pelo menos 800 mortos entre os rebeldes.

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Foto 21 – Mascote do cruzador HMAS Encounter (marinha australiana), dentro do cano de uma arma de 6 polegadas.

No Médio Oriente, as tropas britânicas tinham invadido a Turquia, não só vindas do Egito mas também da base que tinham estabelecido em novembro de 1914 em Basra, na ponta do Golfo Pérsico, para assegurar o controlo sobre os poços de petróleo e simultaneamente encorajar a revolta local. Foi nesta época que os britânicos começaram a trocar o carvão pelo fuel como combustível para os seus navios. Em 1915, a partir de Basra as tropas britânicas (compostas sobretudo por indianos) subiram, pelos vales do Tigre e do Eufrates, com intenção de tomar Bagdade. Nesse percurso viriam a ser assolados por doenças e, já em 1916, em abril, após um cerco de 5 meses, tiveram de se render em Kut-el-Amara, a 130 quilómetros de Bagdade. Foram feitos 10.000 prisioneiros, dos quais 4.000 morreram no cativeiro. No entanto, em dezembro, foi montada uma expedição de maior envergadura que retomou Kit e ocupou Bagdade em março do ano seguinte. Após o desaire em Galípoli, os britânicos ficaram ainda mais preocupados com a defesa do Canal do Suez, e conseguiram defendê-lo com êxito quando os otomanos atacaram pelo deserto do Sinai, em 1916. Em 1917, foi enviado para o Médio Oriente um novo comandante, general Sir Edmund Allenby, que se viria a confrontar com o alemão Erich von Falkenhayn, ambos afastados das frentes europeias. Allenby demonstrou ser um mestre na arte da cavalaria, apoiada por aviões, mas também é um facto que as suas forças eram superiores em número e equipamento. Em outubro varreu os turcos de Gaza e continuou até Jerusalém, que conquistou ainda antes do Natal. No ano seguinte completou a conquista da Palestina, com uma vitória na batalha de Megiddo – a última da história militar ocidental em que a cavalaria teve o papel principal – e continuou para norte, ao longo da costa, conquistando a Síria no final de outubro. Entretanto as comunicações ferroviárias turcas eram sabotadas por forças árabes recrutadas e lideradas por um jovem arqueólogo, o coronel T. E. Lawrence, que ficou conhecido por Lawrence da Arábia.

As vitórias de Allenby haveriam de trazer consequências impossíveis de prever na altura. Elas possibilitaram o cumprimento da promessa de criar um lar para o povo judeu feita através da Declaração de Balfour. Só que essa promessa foi realizada sem que fossem consultados os árabes, a quem também tinha sido prometido o território em troca do apoio militar. E os árabes também não foram consultados quando ingleses e britânicos decidiram dividir a região em duas esferas de influência, através do Acordo Sykes-Picot. As tentativas de conciliar as posições inconciliáveis que se construíram durante o período da Grande Guerra haveriam de manter a região em tumulto até a Segunda Guerra Mundial e, pior do que isso, criaram problemas angustiantes que em pleno século XXI permanecem sem solução[59].

soldados britânicos entram em Lylle, França, em outubro de 1918
Foto 22 – Soldados britânicos entram em Lylle, França, em outubro de 1918.

Na frente ocidental, os britânicos sofreram pesadas baixas, como já vimos. A  sua participação foi crescendo em número de tropas, e quando chegou a 56 divisões, os decisores em Londres acharam que Sir John French já não estava à altura do desafio e substituíram-no no comando da Força Expedicionária Britânica por Sir Douglas Haig. Este militar, embora não fosse do inteiro agrado do novo primeiro-ministro, David Lloyd George, manteve-se até o fim da guerra. Lloyd George entendeu-se com o seu homólogo francês, Georges Clemenceau, no sentido de criar um Conselho Supremo de Guerra – e isso restituiu aos políticos o poder de definir a estratégia militar dos Aliados. Os desenvolvimentos na frente ocidental foram já abordados acima, quando analisámos, ainda que com pouco detalhe, as batalhas que ceivaram milhões de vidas, ao longo de quatro penosos anos, e que culminaram na ofensiva final dos Aliados. Resta apenas acrescentar que, quando nos referimos a tropas britânicas, nelas estavam incluídas forças canadianas e australianas, as quais sofreram pesadas baixas.

Apesar do Império Britânico ter passado pelos problemas tradicionais em tempo de guerra, pelos quais passaram todos os impérios, a sua extensão e profundidade não atingiu níveis alarmantes. Houve escassez de alimentos e consequente efeito inflacionário, houve aumentos de impostos para financiamento da guerra, houve muitas greves e mesmo motins, mas as sociedades não se desintegraram. Depois da guerra, o Império Britânico atingiu o apogeu da sua história, cobrindo mais território do globo terrestre do que alguma vez acontecera. Excetuando o caso da Irlanda, o império permaneceu intacto. No entanto, este triunfo era já o prenúncio do fim do império. Na maioria dos casos foi precisa uma segunda grande confrontação global para que o império finalmente se transformasse numa comunidade de parceiros iguais, mas, como aconteceu em todos os outros impérios, a Grande Guerra criou uma dinâmica política e cultural irreversível na direção da autodeterminação[60].

9- IMPÉRIO PORTUGUÊS

Império portuguêsO envolvimento de Portugal na Grande Guerra deu-se em dois cenários distintos – França e África. Para França foram enviados 63.062 soldados e para África 34.457. Apesar do número de efetivos em França ter sido quase o dobro do de África, morreram mais portugueses no continente negro (3.800) do que em França (1.787)[61]. Isto é compreensível, porque, por um lado, as condições em África eram bastante mais duras e, por outro, porque ali a guerra começou ainda em 1914, enquanto que os primeiros contingentes do Corpo Expedicionário Português só foram enviados para França em janeiro de 1917. Portugal não estava preparado para “assumir tão exigente compromisso”, como declarou recentemente o atual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, na Cerimónia Nacional de Homenagem aos Mortos da Grande Guerra. Isto foi notório em África (e também em França), onde os portugueses não souberam, e talvez não pudessem, colonizar efetivamente os extensos territórios, mais ou menos definidos após a Conferência de Berlim, que correspondiam a Angola e Moçambique. Os responsáveis que decidiram desenhar o célebre Mapa Cor-de-Rosa, porém, não devem ter pensado nisso – nos escassos recursos materiais e humanos existentes em Portugal.

O recuo nas pretensões portuguesas imposto pelo seu mais antigo aliado, a Inglaterra, em 1890, foi aproveitado pelo Partido Republicano, que desencadearia uma primeira insurreição, sem sucesso, no ano seguinte. Finalmente, em outubro de 1910 foi implementada a República. O Partido Republicano cindiu-se rapidamente em várias fações rivais, fruto das divergências ideológicas dentro da sua organização. Porém, todas estavam de acordo numa coisa: Portugal devia manter-se uma potência colonial. “Os republicanos eram nacionalistas com uma leitura peculiar mas errónea da história portuguesa, segundo a qual o génio nacional que se manifestara no passado, em especial, na época dos Descobrimentos, fora restringido e quase extinto por forças reacionárias como a Igreja Católica e a coroa”[62]. Havia que restaurar esse génio, e ninguém, de acordo com a sua própria leitura histórica, poderia conduzir melhor o povo nesse objetivo que os republicanos. Porém, pouca gente em Portugal, incluindo os republicanos, tinha noção, e, muito menos, experiência, de como gerir territórios tão vastos como, por exemplo, os de Angola e Moçambique.

www.publico.pt.arnaldo garcez, liga dos combatentes, soldado português
Foto 23 – Soldado português.

Por um lado, não existia dinheiro em Portugal – um problema crónico do país, que se mantém ainda hoje. Não havia gente com capacidade para investir nas colónias, que, aliás, eram fracamente povoadas pelos portugueses, muito dos quais eram condenados enviados para o Ultramar pelo Estado. Afonso Costa[63], líder do Partido Democrático, um dos que mais lutou pela manutenção das colónias, chegou a afirmar que aquilo de que Portugal precisava para manter o império não eram massas de gente pobre, mas de umas quantas pessoas com forte capacidade de investimento. Não havendo essas pessoas, era o Estado que tinha de investir. Costa, o único chefe do Governo, até hoje, (excetuando Salazar) a conseguir excedente orçamentário, destinou parte significativa desse excedente à Marinha, cujo desenvolvimento era indispensável para manter as ambições coloniais[64]. Por outro lado, Portugal era considerado, pelas potências europeias um país, além de pobre, atrasado e incapaz de gerir e desenvolver de forma civilizada as suas colónias. Haviam relatos diversos de maus tratos sobre a população indígena. Os ingleses, sobretudo, chamaram várias vezes a atenção de Portugal sobre as condições dos angolanos, obrigados a trabalhar nas plantações de cacau de São Tomé e Príncipe. Em Moçambique, a situação era idêntica, com trabalhadores enviados para as minas do Rand e da Rodésia.

As condições nas colónias eram, portanto, graves, com uma ocupação deficiente, integração das populações locais na sociedade praticamente inexistente, pobreza, exploração e brutalidade. O imposto de palhota era muitas vezes o único elo de ligação entre os indígenas o a administração local. Estima-se que existissem na época cerca de 1.000 colonos em Moçambique e outros tantos em Angola. A integridade dos territórios não era mantida por quaisquer laços sociais, mas sim pela ameaça da força militar. É claro que quando esta ameaça era menos efetiva, havia sempre quem se revoltasse. Assim, Portugal viu-se envolvido na Grande Guerra duma forma peculiar: enquanto os outros impérios recrutaram os indígenas africanos para combater ao seu lado, os portugueses tiverem de enviar tropas da metrópole para combater os africanos. “Só em parte é que estes foram destacados para fazer frente às pequenas forças alemãs reunidas contra eles. Grande parte do esforço de guerra português em África, durante a guerra, foi dedicado a combater os africanos”[65].

Trincheiras junto ao Rio Rovuma ARQUIVO HISTÓRICO MILITAR
Foto 24 – Trincheiras junto ao rio Rovuma, em Moçambique.

As principais revoltas africanas ocorreram no ano de 1917, e foram causadas pelos maus tratos, expropriação de terras, impostos excessivos e recrutamento para trabalho escravo. Os portugueses valeram-se das rivalidades tribais para suster as revoltas. Nesse ano horribilis, aconteceu, am abril, uma revolta nas plantações de café de Amboim e Novo Redondo, em Angola. Os revoltosos mataram colonos e suas famílias, tendo causado uma das maiores perdas de vidas europeias em Angola até 1961. Durante mais de um ano houve combates entre africanos até a revolta ter sido esmagada por auxiliares ovimbundos. Ainda na primavera desse ano, houve uma revolta dos macondes, no norte de Moçambique, reprimida com a ajuda de tropas auxiliares macuas. De novo em Angola, na província de Cuanza Sul, revoltou-se o grupo étnico dos ambundos, o qual só seria controlado no ano seguinte, com custos elevados para a população local. Mas a revolta mais grave deu-se em Moçambique, junto ao rio Zambeze, que divide o país em dois. Valeu a ação das tropas auxiliares angunes[66], cujos combatentes receberam dez xelins por mês e tiveram direito a saquear tudo o que pudessem transportar. Esta campanha militar foi baseada no terror e prolongou-se até ao fim da Primeira Guerra Mundial.

Estes problemas refletiram-se na péssima campanha portuguesa contra as forças alemãs da África Oriental[67]. Vários testemunhos, entre os quais as memórias de campanha de Carlos Selvagem, Tropa d’África (“Jornal de Campanha dum Voluntário do Niassa”), publicada no início da década de 1920, e a tese de doutoramento em Medicina, em 1919, de um médico, João Rodrigues da Costa, mostram a impreparação e a condição miserável das tropas coloniais, sem equipamentos nem formação adequados e sem qualquer experiência, chegando ao ponto de usar como comida das tropas bacalhau salgado, comida que requer água preciosa para cozinhar e que aumentava a sede dos soldados. Não admira, neste contexto, que os portugueses, embora em maior número, sofressem várias derrotas dos alemães, melhor preparados e orientados, e que contavam com a colaboração de algumas tribos locais.

Desfile numa localidade em França depois da vitória ARNALDO GARCEZ.LIGA DOS COMBATENTES.idn-nacao-e-defesa-call-for-papers-sobre-portugal-na-i-guerra-mundial
Foto 25 – Tropas portuguesas desfilam numa localidade francesa em 1918, após a guerra.

As escaramuças começaram logo em 1914, dado que os alemães supuseram, erradamente, que Portugal, velho aliado de Inglaterra, também estaria em guerra contra a Alemanha. Em dezembro, na fronteira sul de Angola, um pequeno conflito culminou na batalha de Naulila e na derrota dos portugueses. Após a conquista da África Ocidental Alemã e da sua integração na República Sul-Africana, uma expedição enviada por Lisboa conseguiu restabelecer o controlo da região sul de Angola, através de uma campanha brutal. Para o norte de Moçambique, junto à fronteira com a África Oriental Alemã, foi enviada, em meados de 1916, uma força com mais de 4.500 oficiais e soldados, comandada pelo general Ferreira Gil, com o objetivo de entrar em território alemão. Porém, tudo estava contra o general: a pressão de Lisboa, que reclamava uma rápida vitória; a impreparação das tropas; as condições adversas no terreno; a tenacidade dos alemães; as ambições da União Sul-Africana sobre a baía de Moçambique e os territórios adjacentes à África do Sul[68]; e, provavelmente, a sua própria negligência[69]. Os portugueses sofreram uma derrota humilhante que só a intervenção oportuna das forças navais britânicas evitou que fosse total. No ano seguinte, deu-se a primeira invasão alemã de Moçambique, com 400 soldados, na sua maioria askaris, comandados pelo capitão Von Stümer. Portugueses e britânicos conseguiram repeli-la.

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Foto 26 – Aníbal Augusto Milhais, o soldado Milhões.

No final do ano, as forças alemãs, comandadas pelo general Von Lettow-Vorbeck, que se movimentavam constantemente por forma a evitar o cerco inimigo, entraram em Moçambique e desfeitearem a posição portuguesa em Negomano, apoderando-se de armamento e munições, víveres e medicamentos, de que muito careciam. As forças portuguesas foram massacradas, tendo escapado poucos para contar o que se passou, como foi o caso do sargento Cardoso Mirão[70]. Os alemães, que estavam esgotados após dois anos de combates, tinham agora os recursos suficientes para continuarem a sua longa caminhada por Moçambique, até regressarem, em setembro de 1918, à África Oriental Alemã. O comando operacional português em Moçambique foi muito criticado, sobretudo por manter as forças dispersas e muito afastadas umas das outras. Os ingleses consideraram os portugueses um empecilho no seu combate contra os alemães e sugeriram que as forças portuguesas ficassem sob a alçada do general sul-africano Jacob van Deventer. O governo português, chefiado então pelo não-intervencionista Sidónio Pais, aceitou. A humilhação já era total mas faltava um derradeiro episódio no suplício luso em Moçambique. No dia 3 de julho de 1918, as forças germânicas atacaram Namacurra. A guarnição luso-britânica entrou em pânico e fugiu de forma tão desordenada que muitos se atiraram ao rio, acabando por morrer afogados.

Em França, os portugueses também passaram por grandes privações. As tropas, além de mal treinadas, estavam desmoralizadas, pois não eram substituídas como se impunha. A partir do final de 1917, os navios britânicos necessários ao transporte das tropas portuguesas estavam ocupados a transportar os americanos, considerados justamente bem mais importantes para a decisão da guerra que os portugueses. Além do Corpo Expedicionário Português, Portugal também enviou para França o Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI), o qual operou sob comando do exército francês. A derrota na Batalha de La Lys foi a mais pesada em toda a participação portuguesa, num confronto desigual, quando Ludendorff ordenou a ofensiva alemã em Ypres, no dia 9 de abril de 1918. Muitos portugueses foram feitos prisioneiros. Foi também nesta batalha que se distinguiu o soldado Aníbal Augusto Milhais, que ficou conhecido na história como soldado Milhões[71].

No rescaldo da guerra, a posição portuguesa estava, obviamente, fragilizada. Os portugueses eram considerados incapazes por franceses, belgas e sul-africanos, que cobiçavam os seus territórios coloniais. Em março de 1919, Afonso Costa, que era o presidente da delegação lusa à Conferência de Paz de Paris, reuniu-se com o secretário das Colónias britânico, Lord Milner. Afonso Costa foi um hábil negociador e defendeu exemplarmente Portugal. Prometeu investigações sobre os casos de maus tratos às populações, referindo que muitos deles eram empolados por inimigos dos portugueses, que o eram também da Inglaterra – e lembrou que Portugal tinha entrado na guerra por solidariedade para com o seu mais antigo aliado. Os responsáveis portugueses acabaram por pedir uma avultada indemnização, que foi rejeitada. Portugal foi o único país aliado envolvido nos combates em África que não recebeu um território alemão. Em compensação, foi-lhe atribuído o disputado triângulo de Quionga[72].

As colónias portuguesas foram mantidas até 1975, tendo entretanto passado por vários estatutos, desde “províncias ultramarinas” a “estados”. Só depois de rebentar a guerra em Angola, em 1961, é que a colonização realmente começou, com muita gente emigrando para os territórios ultramarinos. Com o atraso de sempre, quando as outras potências europeias já estavam há muito tempo a descolonizar.

10- IMPÉRIO JAPONÊS

aramada japonesa na costa da china
Foto 27 – Armada japonesa na costa da China.

Os japoneses propriamente ditos pertencem à raça mongol. As suas civilização, escrita, e tradições literárias e artísticas derivam dos chineses. O Japão contactou pela primeira vez com os europeus no século XVI, quando os portugueses ali chegaram numa barcaça chinesa, e um missionário jesuíta chamado Francisco Xavier começou a sua missão nipónica, em 1549. Um certo navegador inglês, chamado William Adams, tornou-se o conselheiro europeu mais confiável para os japoneses e ensinou-os a construir grandes navios. Foram realizadas viagens para a Índia e o Perú em navios construídos pelos japoneses.  Muitos deles converteram-se ao cristianismo, mas complicadas disputas entre jesuítas portugueses, dominicanos espanhóis e protestantes ingleses e holandeses fizeram com que os japoneses se cansassem dos cristãos, começando a persegui-los. Em 1638 o Japão fechou-se totalmente aos europeus, e assim permaneceu por mais duzentos anos. Um dia, em 1954, após várias tentativas, os americanos conseguiram penetrar no Japão, com propostas de comércio e relacionamento. Rússia, Holanda e Grã-Bretanha não quiseram perder a corrida e vieram na esteira dos americanos. Um esquadrão de tropas ocidentais aliadas, fundeado junto a Kyoto, acabaria por impor a assinatura de tratados que obrigaram o Japão a abrir-se ao mundo, em 1865.

A humilhação infligida aos japoneses teve o efeito de mobilizar a toda a sociedade. Com inteligência e energia espantosas, lançaram-se na tarefa de elevar a sua cultura a um nível equivalente ao das grandes potências europeias. Nunca, em toda a história da humanidade, um país avançou tão depressa quanto o Japão avançou então. Em trinta anos, os japoneses passaram de um povo medieval para um outro que podia equiparar-se aos mais modernos e vanguardistas países do mundo. Em 1894-95, o Japão derrotou a China, obrigando-a a ceder Taiwan e a reconhecer a independência da Coreia. Rússia, França e Alemanha cobiçavam territórios japoneses, mas os nipónicos não se intimidaram. Reuniram forças e derrotaram a Rússia, em terra e no mar, forçando-a a ceder-lhes a Coreia[73]. Foi, pois, um poderoso Japão que entrou na Primeira Guerra Mundial, corrrespondendo a um pedido da Grã-Bretanha[74]. Após ter dado, a 15 de agosto, um ultimato para que entregasse a base militar de Jiaozhou, em Qingdao, o Japão, perante a ausência de resposta, declarou guerra à Alemanha no dia 23 de agosto de 1914 e, no dia 2 de setembro, desembarcou as suas tropas na província chinesa de Shandong e rapidamente tomaram a base alemã. Evidenciando uma superioridade militar em toda a linha, o Japão apresentou à China as suas “vinte e uma exigências”, das quais se salientavam o controlo japonês da província de Shandong, da Manchúria, da Mongólia Interior, da costa sul da China e do estuário do Yangtze. Após várias recusas, correspondentes reformulações das “exigências” e um ultimato, a China viu-se forçada a assinar  dois tratados com o Japão, em 25 de maio de 1915.

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Foto 28 – General kamio, comandante do exército japonês, entra em Tsing-tau (dezembro, 1914).

Ainda antes da queda de Qingdao, a Marinha imperial japonesa juntou-se à disputa aliada pelos territórios alemães no Pacífico Sul, expulsando a marinha germânica e hasteando a bandeira japonesa nas ilhas de Jaluit, Yap e Palau, em setembro de 1914. No mês seguinte, Londres e Tóquio fizeram um acordo secreto que estabelecia o equador como linha divisória entre as forças navais britânicas e japonesas. Além de ter ampliado o seu território, o Japão foi um aliado poderoso e muito requisitado. Os navios japoneses colaboraram no transporte de tropas do Império Britânico, nomeadamente neo-zelandeses e australianos, e combateram os submarinos alemães no Mediterrâneo. Unidades da Cruz Vermelha japonesa operaram na Europa e o Japão, além do transporte marítimo, forneceu cobre e dinheiro de que os aliados muito precisavam, incluindo empréstimos no valor de 640 milhões de ienes. Não admira, por isso, que a participação do Japão na Grande Guerra tenha constituído uma das principais preocupações da Alemanha e seus aliados. O embaixador alemão em Tóquio, o conde Von Rex, ficou tão perturbado ante o anúncio da participação japonesa na guerra ao lado da Entente, feito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros japonês, Katõ Takaaki, que quebrou a cadeira onde estava sentado e quase se estatelou no chão[75].

Porém, a maior operação militar japonesa na Primeira Guerra Mundial foi a expedição à Sibéria, em 1918, aproveitando a oportunidade que a Revolução Bolchevique abriu. O Ministério da Guerra decidiu, em abril, apoiar os generais russos brancos Dimitry Leonidovich e Grigory Semyonov, que lutavam na Manchúria por uma Sibéria independente. Em agosto, os japoneses invadiram o Extremo Oriente russo com 72.000 homens. Um ano e meio depois, russos aliados do Exército Vermelho bolchevique cercaram uma guarnição de japoneses e russos brancos na cidade siberiana de Nikolayevsk, perto do rio Amur, e chacinaram-nas. O Japão imperial não teve grande dificuldade em reprimir a violência com violência, como já tinha feito com o Movimento Primeiro de Março na Coreia – e aproveitou o massacre de Nikolayevsk para prolongar até 1922 a sua presença na Sibéria, acabando por ocupar, também, o norte da ilha de Sacalina.

Assim, o fim da Grande Guerra não representou o fim dos conflitos na Ásia Oriental. Porém, após o Tratado Naval de Washington, em 6 de fevereiro de 1922, o Japão comprometeu-se a reduzir o armamento naval e, em 1925, a reduzir as forças terrestres em dez divisões. Ainda no ano de 1922, retirou as suas forças de Shandong e da Sibéria e, em 1925, do norte da ilha de Sacalina. Assim terminaria, finalmente, a Grande Guerra na Ásia, ao mesmo tempo que surgia um “Novo Japão”, empenhado na paz. Os nipónicos participaram ativamente nas principais convenções multilaterais após a guerra (Conferência de Paz de Paris, Sociedade das Nações, Conferência Naval de Washington, Conferência Naval de Genebra, Pacto Kellog-Briand e Conferência Naval de Londres), e introduziram o sufrágio universal masculino e a democracia pluripartidária. O Japão tornou-se um contribuinte muito ativo do projeto de paz global[76].

11- O IMPÉRIO DOS ESTADOS UNIDOS

soldados americanos em material de publicidade para recrutamento. Flickr. U.S. National Archives
Foto 29 – Soldados americanos em material de publicidade para recrutamento.

Os Estados Unidos obtiveram a sua independência quando o mundo passava por uma enorme transformação, resultante das revoluções industriais. A unificação dos primeiros estados americanos só foi possível pelo incremento dos transportes fluviais e terrestres – primeiro, o barco a vapor e, depois, o caminho de ferro. Essa revolução nas comunicações (às quais se juntou o telégrafo) veio facilitar a união entre as treze colónias costeiras britânicas, que, após uma curta guerra contra a Inglaterra, se tornariam independentes e formariam, em 1776, o núcleo inicial dos futuros Estados Unidos da América[77]. Os navios a vapor, que percorriam os grandes rios americanos, e os caminhos de ferro, foram ainda essenciais para a expansão rumo a Oeste, até a costa do Pacífico, antes e depois da Guerra da Secessão (1861-65), ganha pelos unionistas. Lincoln, o grande presidente da União, acabaria por ser assassinado, mas nessa altura a sua luta pela unidade norte-americana já era vencedora. Os Estados Unidos da América passariam ainda por muitas lutas e peripécias – sobretudo a guerra com a Inglaterra, em 1812, e com o México, em 1846[78] – até se constituírem, pouco antes da Grande Guerra, na enorme nação que se manteve até hoje.

Em fevereiro de 1898, uma explosão no couraçado Maine, que se encontrava na baía de Havana para proteger os interesses dos Estados Unidos em Cuba, foi usada como pretexto para um ultimato à Espanha, o qual culminaria numa guerra que os Estados Unidos venceram em dez semanas, obrigando os espanhóis a pedir a paz. No final, além do controlo sobre Cuba, os americanos passaram a exercer a sua autoridade colonial em Guam, Porto Rico e Filipinas[79]. Colocando em prática a doutrina Monroe, os norte-americanos continuaram intervindo na América Central e no Caribe, através de ações militares que, no seu conjunto, ficaram conhecidas como “Guerras das Bananas”. Foram os casos de Honduras, Nicarágua, Panamá, Costa Rica, República Dominicana e Haiti, entre outros, incluindo o próprio México. Em 1916, os americanos compraram as Ilhas Virgens à Dinamarca por 25 milhões de dólares (as atuais ilhas St. Croix, St. Thomas e St. John, do lado ocidental do arquipélago, pois do lado oriental ficam as Ilhas Virgens Britânicas) e, mais tarde, a Samoa Americana também haveria de ficar sob a alçada dos Estados Unidos. Evidentemente, as ações militares tinham como objetivo primordial defender os interesses comerciais e económicos dos americanos. Nessa linha se enquadrava o projeto de construção de um canal que ligasse o Atlântico ao Pacífico, algo que já tinha sido tentado sem sucesso pelos franceses, mas que haveria de ser concluído com êxito pelos norte-americanos, precisamente, quando se iniciou a Primeira Guerra Mundial.

www.sempreatualizados.net. durantes os últimos anos de guerra os eua exportaram mais de 20.000 motos harley-davidson
Foto 30 – Durantes os últimos anos de guerra os EUA exportaram mais de 20.000 motos Harley-Davidson.

O Canal do Panamá foi inaugurado no dia 16 de agosto de 1914 e a sua salvaguarda foi sempre a grande preocupação norte-americana durante o período da Grande Guerra. A Marinha dos EUA presumia que uma guerra com a Alemanha iria culminar numa grande batalha naval nas Caraíbas. Os americanos tinham mesmo um plano de guerra contra a Alemanha, denominado “Plano de Guerra Preto”; e os alemães tinham um plano idêntico contra os americanos. O teórico naval americano, Alfred Thayer Mahan, viu no Canal do Panamá um ponto de viragem na história da geopolítica e influenciou a política americana de defesa, que se empenhou em reforçar o poderio naval nas Caraíbas. Esta preocupação dos norte-americanos fê-los desconfiar das intenções expansionistas germânicas, algo que parecia confirmar-se pelas ações alemãs no México, sobretudo após o derrube do ditador Porfírio Diaz, e das revolução e guerra civil que se seguiram. Os Estados Unidos enviaram tropas para ocuparem brevemente a cidade portuária de Veracruz[80]. Nos dois anos seguintes, a Alemanha ajudou os revolucionários mexicanos e isso acabaria por se tornar um fator determinante para a entrada dos Estados Unidos na guerra.

Em 6 de abril de 1917 os EUA declararam guerra à Alemanha. Dos países dentro da esfera de influência americana, apenas o México e El Salvador se mantiveram neutros. Porém, foram mobilizados poucos soldados coloniais para entrar em combate. Em regra, o que aconteceu foi uma mobilização dos soldados americanos das colónias e a sua substituição por forças locais, treinadas pelo exército americano, para manterem a ordem e a segurança públicas. A grande batalha naval com a Alemanha nunca chegou a realizar-se e o canal do Panamá nunca esteve, de facto, em perigo. Mas a entrada dos Estados Unidos na guerra transformou as suas forças armadas, que deixaram de ser uma força de fronteira para passarem a ser uma força regular global, mobilizando os recursos necessários às inovação e superioridade tecnológicas, que lhe garantiriam, no futuro, a posição de primeira força militar do mundo. Porém, inicialmente não era previsível a participação dos norte-americanos na guerra, dado que a grande maioria da sua população americana não o desejava. O presidente democrata Woodrow Wilson tentou persistentemente convencer as principais potências beligerantes a firmarem um acordo de paz. Mas antes da sua reeleição, em 1916, tal não foi possível porque ambos os lados estavam firmemente convencidos da vitória, sobretudo os alemães. Depois da reeleição, a possibilidade de paz parecia mais plausível, sobretudo porque as pressões dentro dos próprios países europeus em guerra se sentiam de forma mais insistente. Wilson convidou as partes a formularem as suas condições para a paz. O governo alemão emitiu em 12 de dezembro uma “nota de paz” com intenção de acalmar o Reichstag. Os aliados rejeitaram-na de imediato face ao seu tom belicoso. Essa rejeição ofereceu aos alemães o pretexto que pretendiam. No último dia do janeiro seguinte o embaixador alemão em Washington fez saber às autoridades americanas que começava imediatamente a guerra submarina irrestrita sobre qualquer navio que se aproximasse das ilhas britânicas.

Como reação, Wilson cortou relações diplomáticas com a Alemanha e decidiu armar e proteger os navios mercantes americanos. Por sua vez, os alemães, tomando como certa a entrada dos Estados Unidos na guerra, ofereceram (como já vimos) o seu apoio aos mexicanos numa possível guerra com o seu vizinho do norte. Mais uns afundamentos de navios americanos foram a gota de água. Os americanos declararam finalmente guerra à Alemanha. Todos estavam conscientes do potencial americano, mas os alemães consideravam que conseguiriam vencer a guerra com os seus submarinos antes que os americanos tivessem tempo de colocar tropas na Europa, dado que mediaria vários meses entre o recrutamento, treino mínimo e envio de forças para o palco de guerra. Por seu lado, os Aliados procuravam a todo o custo resistir até que isso acontecesse, como, de facto, aconteceu. Os americanos demonstraram uma capacidade extraordinária na mobilização, fazendo-o em tempo recorde. No ano decisivo de 1918, os soldados dos Estados Unidos fizeram pender o fiel da balança de guerra para o lado dos Aliados. A partir do momento em que os americanos entraram na guerra, os alemães já estavam condenados ao fracasso.

Com o fim do conflito, e também com a substituição da administração democrata de Woodrow Wilson pela republicana de Warren G. Harding, pouco mudou na gestão do império, ao contrário das dramáticas mudanças que ocorreram em outras paragens. A estratégia americana manteve-se por mais algum tempo – uma ação militar, uma força de ocupação, e a sua rápida substituição por uma força treinada e norteada pelos EUA, que agia a favor dos interesses americanos, mas não sob a sua bandeira – pelo menos até estes começarem a retirar-se, primeiro da República Dominicana, em 1924, da Nicarágua, em 1933, e do Haiti, em 1935. A Segunda Guerra Mundial, essa sim, iria presenciar uma mobilização muito maior de soldados coloniais e transformações no poder militar americano, quer nas Caraíbas, quer no Pacífico[81].

12- A CHINA E A GRANDE GUERRA

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Foto 31 – Grande Muralha da China.

A história da China é muito antiga. É possível que a mais remota civilização da China tenha sido idêntica às remotas civilizações egípcias, sumérias e dravidianas. As civilizações chinesas primitivas tiveram de lidar com invasões de nómadas vindos do Norte, tribos aparentadas que ficaram conhecidas na história, sucessivamente, como hunos, mongóis, turcos e tártaros. Foram várias as dinastias chinesas. A dinastia “Shang” terminou em 1125 a.C. Sucedeu-lhe a dinastia “Chou”, que se prolongou por vários séculos, mantendo a China numa união pacífica, até se desintegrar, aos poucos, em milhares de estados independentes. Tal era a situação por volta do século VI a.C., época do grande filósofo Confúcio. Este filósofo correu vários estados procurando um príncipe que adotasse as suas ideias legislativas e educacionais, mas haveria de morrer, desiludido, sem o conseguir. Porém, após a sua morte, essas ideias teriam forte impacto no povo chinês, formando, com os de Buda e Lao Tsé, os “Três Ensinamentos” dos chineses. A China do norte tornou-se confuciana e a China do sul taoista (sob influência de Lao Tsé). Os poderes do norte, liderados por Qin, haveriam de subjugar a potência militar Chu, impondo um tratado de paz e o desarmamento, possibilitando que Shi Huangdi, filho de Qin, iniciasse um reinado que marcou o começo de uma nova era de unidade e prosperidade na China. Durante o seu reinado de 36 anos como imperador, Shi Huangdi combateu energicamente os invasores hunos dos desertos setentrionais e deu início à construção de uma grande obra para limitar essas invasões: a Grande Muralha da China.

A dinastia Qin, após a morte de Shi Huangdi, seria suplantada pela dinastia Han, a qual foi contemporânea do Império Romano, no século II a.C., sem que houvesse contacto entre os dois maiores impérios mundiais. Não havia meios de comunicação, marítimos ou terrestres que possibilitassem o confronto entre ambos. Nessa altura, a China era o maior, mais organizado e mais civilizado sistema político do mundo. No século II da nossa era uma peste de extrema virulência assolou o mundo e tornou mais vulneráveis os impérios. A dinastia Han caiu, e iniciou-se uma nova era de confusão e conflitos. No século VI a China já estava de novo unida sob a dinastia Sui e, no século seguinte, iniciar-se-ia um novo período de prosperidade, com a subida ao poder da dinastia Tang. Durante três séculos a China foi o país mais próspero, seguro e civilizado do mundo. As dinastias Sui e Tang avançaram pelo sul e a China ganhou contornos idênticos aos atuais. A vida era aprazível. Houve um grande florescimento das artes e o budismo revolucionou o pensamento religioso e político. Até que, no século X, a dinastia Tang entrou em decadência, dando azo ao surgimento de lutas entre estados, que culminaram no estabelecimento de três forças dominantes: o império Jin, a norte, o império Song, a sul, e o império Hsia no centro. O império Jin seria ocupado pelo líder dos confederados, Gêngis Khan, que capturou Pequim, em 1214, e posteriormente Nanquim, capital do império Song, tendo entregado o governo da China a seu irmão, Kublai Khan, fundador da dinastia Yuan, que perdurou até 1368, quando sobreveio a dinastia nativa Ming, pondo fim ao jugo Yuan[82].

leiturasdahistoria.uol.com.br. tropas estrangeiras na cidade proíbida durante a rebelião dos boxers
Foto 32 – Tropas estrangeiras na Cidade Proíbida durante a Rebelião dos Boxers.

A dinastia Ming floresceu de 1368 até 1644, um dos períodos mais prósperos da China, no qual foi realizada a ampliação final da Grande Muralha. A última dinastia chinesa seria a Qing, após a derrota dos mings pelos manchus, vindos do Norte. Estes, porém, adotaram rapidamente as tradicionais regras de governo confucianas e terminaram por governar na mesma linha das dinastias nativas anteriores. Até que surgiram os ocidentais, com seus interesses e ambições, sobretudo a partir do século XIX, obrigando a China a conceder-lhes privilégios comerciais e a assinar tratados desvantajosos. As duas guerras do ópio com os ingleses debilitaram enormemente o tecido social chinês. Em suma, os britânicos forçaram os chineses a importar o ópio indiano e a abril os portos ao comércio ocidental. Grande parte da população chinesa estava viciada no ópio. A dinastia Qing estava decadente. O golpe final veio com a guerra sino-japonesa de 1984-85. As reações às derrota e humilhação impostas pelos japoneses, fizeram com os chineses repensassem sobre o seu futuro e o valor da sua civilização. A ideia generalizada entre as elites era a de mudança. Assim, surgiu a revolução de 1911, da qual resultaria, no ano seguinte, a abdicação do imperador Pu Yi[83] e a implantação da República. Foi o fim de um sistema dinástico com mais de 2.000 anos; um processo traumático, pois os chineses consideraram durante séculos que a sua civilização era a melhor do mundo (sob a tianxia) e que a China era o Império do Meio[84]. Porém, a China queria integrar-se na comunidade internacional, ser um estado-nação moderno e o republicanismo haveria de vencer.

Além destes problemas internos, relacionados com uma crise profunda de identidade, a China teve de enfrentar uma nova investida japonesa, na sequência da ocupação de Qingdao, recuperada dos alemães – a primeira ação nipónica no âmbito da sua participação na Primeira Guerra Mundial. Era óbvia a intenção japonesa de dominar a China e torná-la um estado vassalo. Em 18 de janeiro de 1915, o Japão apresentou diretamente ao presidente chinês, Yuan Shikai, as suas “21 exigências”[85]. Após várias contra-propostas, os japoneses fizeram um ultimato, obrigando o governo de Yuan a aceitar todas as exigências, exceto as da secção 5, que eram as mais gravosas. Yuan Shikai temia a desintegração nacional e acreditava que a China só poderia ser forte tendo um tipo de governo centralizado, coeso e unitário. Isso levou-o a autoproclamar-se imperador, no início de 1916. Muitos, como o eminente constitucionalista americano e conselheiro de Yuan, Frank Goodnow, também achavam que os chineses estariam “em melhor posição para resistir à agressão japonesa com uma monarquia do que com uma forma de governo republicana”[86]. Mas a China já não era a nação de quinze anos antes, e Yuan foi derrotado e humilhado, tendo morrido pouco depois. A oposição ao esquema de Yuan tinha como figuras de proa Liang Qichao e o general Cai E. A China dividiu-se e os senhores da guerra voltaram a ser os protagonistas, com as províncias a serem governadas, na prática, por exércitos independentes.

Flanders Fields Museum. Membros da Corporação de Trabalhadores Chineses junto a uma casa em ruínas.
Foto 33 – Membros da Corporação de Trabalhadores Chineses junto a uma casa em ruínas.

A participação da China na Grande Guerra, amplamente apoiada pela sociedade e pelos sucessivos governantes, tardava em acontecer, apesar de ser considerada por todos, incluindo o próprio Yuan Shikai, importantíssima para angariar o apoio da comunidade internacional à causa chinesa. Isto deveu-se, primeiro, à oposição japonesa e, depois, às querelas internas chinesas. Em 1917, os desentendimentos entre o primeiro-ministro, Duan, e o presidente Li Yuanhong, levaram a sucessivos adiamentos sobre o envolvimento na guerra, demissões e readmissões, golpes e contra-golpes, culminando em nova tentativa de restabelecimento da dinastia Qing por um senhor da guerra – Zhang Xin – que duraria menos de uma semana. Finalmente, a 4 de agosto de 1917, a China (novamente dividida) entrou na Grande Guerra. O contributo iniciou-se com o envio para a Europa de 140.000 trabalhadores chineses. Com essa decisão, a China esperava obter o reconhecimento internacional e, mais do que isso, que o país e o seu povo fossem tratados como iguais, pois acreditava nas proclamações do presidente americano, Woodrow Wilson, particularmente no seu plano para uma Sociedade das Nações e para a autodeterminação nacional. Assim, não surpreendeu o entusiasmo com que foi recebida em Pequim a notícia do fim da guerra: 30.000 pessoas reuniram-se, em 17 de novembro, em frente ao palácio presidencial, gritando a uma só voz “Viva a justiça! Viva a independência nacional!”

Os objetivos da delegação chinesa à Conferência de Paz de Paris inseriam-se em três grandes categorias. Primeiro, integridade territorial ou restituição à China das concessões estrangeiras e dos territórios arrendados; segundo, restauração da soberania nacional[87]; terceiro, liberdade económica ou exercício de plena autonomia tarifária. De imediato, a China esperava que lhe fosse restituída a península de Shandong, mas tal não aconteceu. O Japão tinha uma acordo secreto com a Grã-Bretanha, a França e a Itália para permanecer no território, além de que os tratados que a China assinara com o Japão sobre Shandong, em 1915 e 1918, também lhe eram desfavoráveis. O próprio Woodrow Wilson aconselhou os chineses a respeitar os tratados. Estes sentiram-se profundamente injustiçadose recusaram-se a assinar o Tratado de Versalhes. Em vez disso, a China assinou um tratado com a Alemanha, que estabelecia uma nova relação entre dois dos países mais desiludidos com o epílogo da guerra. Outra consequência do rescaldo da Grande Guerra foi o aparecimento de um movimento estudantil na China denominado Movimento Quatro de Maio, que convocou grandes manifestações em todo o país.

O Movimento Quatro de Maio marcou o fim dos esforços chineses para se integrarem no sistema liberal ocidental, e desencadeou um outro através do qual os chineses procuraram uma terceira via entre as ideias ocidentais e a cultura tradicional chinesa. Encontraram-na na revolução bolchevique. Até então ninguém tinha prestado atenção ao marxismo. Só após 1919, depois de se sentirem traídos pelo Ocidente, é que os chineses começaram a prestar atenção à Revolução Bolchevique e a dedicarem-se ao estudo do marxismo[88]. Esta foi uma consequência direta, para a China e para o Mundo, da Primeira Guerra Mundial.

13- O BRASIL E A GRANDE GUERRA

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Foto 34 – Manifestação em São Paulo contra a Alemanha, após torpedeamento do navio Paraná.

Inicialmente, o Brasil adotou uma posição neutral relativamente à Grande Guerra[89]. Essa posição foi sistematicamente criticada pela Liga de Defesa Nacional, movimento liderado por Ruy Barbosa, que defendia a participação brasileira ao lado da Tríplice Entente. Em abril de 1917, o navio Paraná, um dos maiores da marinha mercante brasileira, foi atacado em águas neutras pelos alemães, tendo morrido três brasileiros. No mês seguinte, foi atacado o Tijuca. A população brasileira reagiu e manifestou-se com indignação, atacando e destruindo vários estabelecimentos alemães. A posição política adotada pelo país, apoiada por alguns congressistas simpatizantes da Alemanha e do Império Austro-Húngaro, teve que ser reavaliada: o Brasil resolveu romper as relações diplomáticas com a Alemanha e confiscou imediatamente quarenta e duas embarcações de origem germânica. No dia 23 de outubro, o cargueiro brasileiro Macau foi atacado por um submarino alemão e viu o seu comandante ser feito prisioneiro. Face à pressão popular, o Brasil declarou guerra à “Aliança Germânica” no dia 26 de outubro.

A participação brasileira na guerra, no entanto, foi bastante limitada, até porque ocorreu já na parte final do conflito. Resumiu-se, por um lado, ao envio para França de um corpo de sargentos e oficiais (no âmbito da Real Força Aérea), e de uma missão médica. Por outro lado, o país disponibilizou uma frota naval, que acabaria por atuar no Atlântico (ao largo da costa africana) e no Mediterrâneo, poucos dias antes do fim da guerra. Foi, aliás, entre os marinheiros dessa frota que se deram as únicas 180 mortes brasileiras na guerra, provocadas, não pelas munições inimigas, mas pela gripe espanhola. Embora limitada, a participação brasileira foi meritória. Isso é reconhecido internacionalmente, como podemos comprovar pelas palavras do historiador francês Olivier Compagnon: “o Brasil, depois dos países centro-americanos e caribenhos tragados pela entrada dos Estados Unidos na guerra em 1917, juntou-se, é certo, ao campo dos Aliados, mas ninguém pode achar que seu corpo expedicionário semeou a morte na Europa. Ao contrário, a contribuição do Rio de janeiro destaca-se mais por um espírito humanitário através do hospital militar da rua de Vaugirard, que tentou ajudar os feridos a reencontrarem uma vida normal após sua desmobilização[90]”.

Esta modesta e simultaneamente meritória colaboração, garantiu assento na Conferência de Paz de Paris, que deu origem ao Tratado de Versalhes, e o Brasil conseguiu que a Alemanha pagasse com juros o valor do café perdido com os navios naufragados, mais 70 navios dos Impérios Centrais (a maioria alemã) que haviam sido apreendidos em águas brasileiras quando da declaração de guerra e que foram incorporados na frota brasileira a preços simbólicos. O Brasil esteve presente na Conferência de Versalhes, com uma comitiva chefiada pelo futuro presidente Epitácio Pessoa. Esta comitiva conseguiu incluir no acordo de paz uma indemnização relativa às sacas de café apreendidas nos portos alemães, aquando da declaração de guerra e a venda dos navios alemães apresados. Por outro lado, o Brasil foi um dos fundadores da Liga das Nações. Sob o ponto de vista económico, a guerra acabou por beneficiar a indústria brasileira. Embora as exportações de café tivessem decaído bruscamente, num primeiro período, o Brasil passou a ter boas oportunidades comerciais logo após o conflito. As exportações brasileiras quase duplicaram desde o ano anterior à guerra (1913) para o primeiro ano do pós-guerra (1919)[91]. O aumento da procura internacional por géneros alimentares e produtos primários, incentivou o país a industrializar-se. Nessa época surgiu um surto industrial inédito , com mão-de-obra imigrante, composta sobretudo por europeus fugidos da fome e da guerra. O número de fábricas quadruplicou nos anos da guerra, duplicando o número de operários. A indústria brasileira conquistou o mercado interno. Isto provocou a diminuição das importações, modificando o perfil sócio-económico do Brasil.

14- CONCLUSÃO

Tropas italianas na estrada Udine-Codroipo durante a batalha de Caporetto.
Foto 35 – Tropas italianas na estrada Udine-Codroipo durante a batalha de Caporetto.

Durante a guerra, as potências aliadas haviam estabelecido o Supremo Conselho de Guerra, o qual incluía representantes da Grã-Bretanha, da França, dos Estados Unidos, da Itália e do Japão, como orgão coordenador das operações militares contra as Potências Centrais. Foi essa entidade que se transformou, depois da guerra, no Conselho Supremo da Conferência de Paz de Paris. Por outras palavras, esse Conselho autodeclarou-se soberano mundial provisório, com autoridade para decidir sobre os termos da paz. Pese embora o seu imenso poder, as grandes potências atuaram com base nos famosos “14 pontos” do presidente americano, Woodrow Wilson, que os havia enunciado ao Congresso americano, em 8 de janeiro de 1918. Wilson visava assegurar uma paz mundial duradoura após a Primeira Guerra Mundial. O 14º, e último, ponto propunha a criação da Sociedade das Nações[92], o que efetivamente veio a acontecer. Através da Sociedade das Nações instituiu-se o sistema de mandatos, divididos em três classes – A, B e C. Os mandatos de classe A (partes do antigo Império Otomano) foram atribuídos aos territórios que “atingiram tal grau de desenvolvimento, que a sua existência como nações independentes pode ser provisoriamente reconhecida”. Nos mandatos de classe B (antigas colónias alemãs que ficaram sob a responsabilidade da Sociedade das Nações depois da guerra), a independência iria acontecer num futuro indeterminado e a potência mandatária seria responsável por governar o território, garantindo a liberdade de consciência e de religião, bem como a proibição do tráfico de escravos, armas e álcool. Por fim, os mandatos de classe C (áreas do Sudoeste africano e algumas ilhas do Pacífico Sul) eram os mais parecidos com as antigas colónias e “não poderiam ser melhor administrados do que pelas próprias leis do mandatário, como parte integrante do seu território”. Os “Poderes Mandatários” foram a Inglaterra, a França, a Bélgica, a Nova Zelândia, a Austrália e o Japão.

O sistema de mandatos veio trazer imensos problemas, sobretudo porque algumas nações dos impérios vencedores se sentiram (com razão) injustiçadas face às dos impérios vencidos. Estas tinham a autodeterminação em perspetiva, enquanto aquelas, com mais ou menos autonomia, permaneciam colónias. Mas muitos mais problemas se colocaram depois da guerra. O Conselho Supremo da Conferência de Paz deparou-se com o problema dos “Estados Sucessores”. Havia que delimitar territórios, e os critérios para levar a cabo essa tarefa eram muito difíceis de elaborar e nunca seria possível desenhar um novo mapa que agradasse a todos. O critério essencial era o de “a cada nação o seu Estado”, sendo que “nação” (ou etnia) se definia pela combinação de língua, cultura e religião. Mas essas fronteiras “nacionais” esbarravam com as fronteiras “históricas” – as primeiras construídas por políticos, etnógrafos e ativistas e as segundas pelas casas reais e imperiais. Por outro lado, havia uma preocupação com as minorias étnicas, e a solução wilsoniana passava pela vigilância da Sociedade das Nações. Mas, apesar de todos os esforços, sobretudo na Europa Central e do Leste, as fronteiras permaneceram instáveis, as minorias étnicas não ficaram protegidas e a paz não ficou assegurada[93].

Serventes japoneses de metralhadora.
Foto 36 – Serventes japoneses de metralhadora.

Como vimos no capítulo sobre o Império Otomano, a guerra não terminou, pelo menos para os Turcos, em 1918, mas sim com a assinatura do Tratado de Lausanne, em 1923. Os Turcos conseguiram expulsar da Anatólia não apenas o seu Estado sucessor rival, a Grécia, mas também os impérios europeus que queriam transformar a Anatólia num protetorado interaliado. Além disso, o fim da guerra não trouxe qualquer pacificação ao Médio Oriente, como se pode ver ainda hoje, pelo conflito israelo-palestiniano, cuja origem remonta ao período da Grande Guerra, mais precisamente a 2 de novembro de 1917, com a Declaração de Belfour.

Em suma, ninguém obteve vantagens significativas, pelo menos, a médio/longo prazo. Quatro impérios multinacionais terrestres desintegraram-se: o dos Habsburgos, o dos Romanovs, o dos Hohenzollerns e o dos otomanos. Os impérios marítimos mais pequenos, como os de Portugal e da Bélgica, mantiveram-se apesar das críticas à sua administração. Os impérios francês e inglês até se expandiram, ao abrigo da Sociedade das Nações, mas foi um crescimento efémero. Dificilmente franceses e ingleses poderiam manter os territórios do Médio Oriente, pois a principal ameaça à sua segurança viria, como veio a confirmar-se, de uma Alemanha inevitavelmente ressurgente. A expansão japonesa no Pacífico e na Península de Shandong iria criar sonhos demasiado ambiciosos de domínio na Ásia Oriental e intensificar a desconfiança securitária de outra grande potência em ascensão, os Estados Unidos[94].

O conjunto das duas guerras mundiais, incluindo o intervalo entre ambas, marca um período da história europeia caracterizado pela violência extrema. A Grande Guerra foi apenas a primeira parte de uma época de brutalidade, consequência, por um lado, de teorias românticas e políticos fracos e, por outro, da ascensão de uma classe burguesa, com excedente de capital, que via no imperialismo a solução ideal de investimento – aquilo que Hannah Arendt chamou de “aliança entre capital e ralé”[95]. Por ter sido o início deste período, a Primeira Guerra Mundial tem uma importância acrescida, pois foi esse trágico evento que esteve na origem de tudo o que aconteceu a seguir. Provavelmente, sem a Grande Guerra não teria havido nazismo, nem estalinismo, nem maoísmo, nem II Guerra Mundial.

Entre os factores que conduziram à guerra há dois que são surpreendentes. Em primeiro lugar, a adesão das massas: o anúncio da guerra foi efusivamente celebrado em Berlim e noutras cidades. Por que razão a guerra é tão atrativa? Talvez porque, em parte, como diz Michael Howard, “durante um século, a autoconsciência nacional fora inculcada por programas educacionais estatais que visavam a formação de cidadãos leais e obedientes”; por outro lado, porque “a guerra era vista como um teste de “virilidade” que a vida urbana suave já não proporcionava aos pensadores impregnados da teoria darwiniana. Acreditava-se que essa “virilidade” era essencial, se as nações quisessem estar “aptas para sobreviver” num mundo onde o progresso era, ou assim acreditavam, o resultado antes da competição que da cooperação entre as nações assim como entre as espécies. O pacifismo liberal continuava influente nas democracias ocidentais, mas era também visto por muitos, especialmente na Alemanha, como um sintoma de decadência moral. Essa beligerância sofisticada tornava o advento da guerra bem-vindo para muitos intelectuais, bem como para os membros das antigas classes governantes, que aceitavam com entusiasmo a sua tradicional função de liderança na guerra. Artistas, músicos, académicos e escritores competiam entre si para oferecer seus serviços ao governo. Os futuristas na Itália, os cubistas na França, os vorticistas na Grã-Bretanha, os expressionistas na Alemanha, viam a guerra como um aspeto da libertação de um regime obsoleto que eles próprios já vinham desbravando há uma década”[96].

soldados alemães na frente ocidental
Foto 37 – Soldados alemães na Frente Ocidental.

Em segundo lugar, a incapacidade de políticos supostamente responsáveis. Eles deixaram que os seus falcões de guerra os influenciassem a ponto de tomarem (ou omitirem) decisões contrárias às suas próprias convicções. Isso aconteceu quando o chefe do Estado-Maior alemão, Helmuth von Moltke, convenceu o kaiser Guilherme II de que não havia alternativa à invasão da Bélgica, pois era imperativo fazer um movimento de foice para cercar Paris. Guilherme II, neto de um monarca britânico (a rainha Vitória) e sobrinho de outro (o rei Eduardo VII) não queria ocupar a Bélgica pois sabia que isso faria a Inglaterra entrar na guerra, mas Moltke caiu a seus pés, num ataque de histeria, gritando que alterações ao plano iriam deixar a Alemanha sem defesa. Hoje sabe-se que isso não era verdade, pois havia um plano de contingência para atacar a França sem invadir a Bélgica. Por outro lado, também a Inglaterra poderia e deveria ter evitado entrar na guerra. Churchill, então Ministro da Marinha, informou o primeiro-ministro Herbert Asquith de que a queda dos portos belgas constituiria um grave perigo para a Inglaterra, pelo que havia de responder preventivamente com uma contra-invasão. Ora, ao contrário do que acontecera no passado (no tempo dos navios à vela), os portos belgas já não constituiam um perigo para os britânicos. Sobretudo a partir do momento em que os novos vasos de guerra ingleses deixaram de ser alimentados a carvão e passaram a consumir fuel. A autonomia e a velocidade dos navios movidos a combustível líquido tornaram irrelevante o controlo dos portos belgas. Por outro lado, anos antes da guerra, Churchill tomara  a decisão de não usar os portos do canal da Mancha em caso de conflito com a Alemanha. Em vez disso, concentraria a frota numa base remota nas ilhas Órcades, no norte da Escócia. Isto colocava, também, a Inglaterra ao abrigo de um ataque surpresa da Alemanha e com capacidade de resposta a qualquer manobra alemã[97].

De acordo com Martin Sieff, em artigo escrito no dia 22 de abril de 2014, no sítio The Globalist, de Washington,[98] “os erros de Moltke e Churchill, em 1914, e o facto de nem o kaiser alemão Guilherme nem o primeiro-ministro britânico Asquith terem sido capazes de os questionar são lições esclarecedoras para os decisores políticos ocidentais do século XXI. Os erros facilmente evitáveis de Moltke e Churchill condenaram os mesmíssimos impérios que serviam e acabaram por custar muitos milhões de vidas inocentes. A Revolução Russa, o genocídio-fome ucraniano de Holodomor[99], o Grande Terror de Estaline e o Holocausto de Hitler poderiam nunca ter acontecido se o Reino Unido e a Alemanha não tivessem sido empurrados para um conflito reciprocamente ruinoso em 1914[100].” Certamente os erros que conduziram à Primeira Guerra Mundial não foram apenas de Moltke e Churchill. Erros, saliente-se, que resultaram em milhões de perdas de vidas humanas, sem que o mundo tivesse ficado melhor – um custo imenso para um resultado nulo. Mas muito mais importante que atribuir erros seja a quem for, é aprender com eles. Estarão os líderes mundiais, sobretudo na Europa, conscientes das terríveis consequências das ações belicistas? A avaliar por acontecimentos recentes no tão massacrado Leste europeu, a resposta, infelizmente, tem de ser “não”.

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Notas:

[1] Michael Howard, “Primeira Guerra Mundial”, Rio de Janeiro, L&PM Pocket, 2013, p. 21. (Diz ainda Howard na mesma página: “Karl von Clausewitz escreveu, na sequência das Guerras Napoleónicas, que a guerra era uma trilogia composta por política do governo, atividade dos militares e “paixões dos povos”. Cada um desses elementos deve ser levado em consideração, se quisermos compreender não só por que a guerra aconteceu, mas também por que ela tomou o curso que tomou”).

[2]  Herbert George Wells, “Uma Breve História do Mundo”, L&PM Pocket, Rio de Janeiro, 2013, p. 341.

[3] H. G. Wells, ob. cit., p. 341. De facto, não foi apenas no século XIX que muita gente estava convencida da superioridade europeia. Muito depois de ter terminado a Grande Guerra, em 1956, o famoso filósofo alemão Martin Heidegger, que fora um apoiante do nazismo, escrevia: “O Ocidente e a Europa, e somente eles, são, na marcha mais íntima de sua história, originariamente “filosóficos””. (Em “Qu’est-Ce Que la Philosophie?”).

[4] Em 1903, a dinastia Obrenovic, que tinha uma política de aproximação à Monarquia Dual (austro-húngara) havia sido deposta, em Belgrado, através de um golpe de estado. O novo regime era favorável à expansão da Sérvia e procurava a libertação dos sérvios, em particular os da Bósnia. Quando, cinco anos mais tarde, o Império Austro-Húngaro anexou a Bósnia-Herzgovina, o governo sérvio reagiu criando um “movimento de libertação”, o qual possuía uma fação terrorista secreta chamada “Mão Negra”, treinada e apoiada por elementos do exército sérvio. Paralelamente, encorajada pela Rússia, a Sérvia formou uma “Liga Balcânica”, com a Grécia, o Montenegro e a Bulgária, com intuito de expulsar definitivamente os turcos da península. Em resultado dessas movimentações, deram-se as duas guerras balcânicas, a primeira aproveitando a oportunidade que surgiu quando os turcos lutavam com os italianos na Líbia – e que resultou na expulsão dos otomanos da península, à exceção de uma cabeça de ponte junto a Adrianópolis – e a segunda entre os vencedores da primeira guerra, que não estavam contentes com os despojos, sobretudo a Bulgária. Na sequência dessas duas guerras, o território e a população sérvios duplicaram e as ambições da Sérvia foram imensamente encorajadas. Pelo contrário, como seria de esperar, os austro-húngaros ficaram bastante apreensivos. Foi neste contexto que Gravilo Princip, um jovem treinado pela Mão Negra, assassinou o arquiduque austríaco e a mulher (Michael Howard, ob. cit., p. 34).

[5] Muita gente morreu, sobretudo nos campos, por falta de comida ou assistência médica, e também por doenças. A mais mortífera foi a Gripe Espanhola (1918-1919), que dizimou milhões de pessoas em todo o mundo.

[6] Hannah Arendt, “Origens do Totalitarismo”, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, p. 189.

[7] Para lá da Liga Pangermânica, outros grupos de pressão influentes, como a Liga Colonial e a Liga da Marinha, obrigaram Bismarck a mudar de política e a adquirir colónias no ultramar, tendo em vista equiparar o Império Alemão de 1871 aos impérios francês e inglês. Em 1914 a Alemanha tinha um império marítimo consolidado, com os seguintes territórios. África do Sudoeste Alemã, África Oriental Alemã, Camarões e Togolândia (em África); Qingdao (Tsingtao), na província de Shandong, no norte da China, cedido, em 1898, por 99 anos; Samoa, Nova Guiné Alemã, Kaiser-Whilhelmsland, Arquipélago de Bismarck, Ilhas Marshall, Carolinas e Marianas, no Pacífico. Os alemães haveriam de perder todas as colónias ultramarinas, como consequência da guerra.

[8] Na verdade, as teorias racistas não eram novas. Elas apenas ressurgiram neste período da história alemã e vieram para ficar durante largo tempo. As primeiras teorias racistas surgiram em França. Seria sobretudo através do Conde de Gobineau, que publicou, em 1853, o seu “Essai sur l’inégalité des races humaines”, que essas teorias se tornariam mais populares. A teoria de Gobineau centrava-se na decadência das civilizações pela degenerescência racial. Ele acreditava ter descoberto, assim, uma lei natural da história. Por outro lado, em Inglaterra, as principais teorias racistas foram o poligenismo (os indivíduos de origem mista não são seres humanos, pois há uma luta dentro de cada célula dos seus corpos) e, posteriormente, o darwinismo, sobretudo com a sociologia de Spencer, baseada na evolução. De acordo com Hannah Arendt, “o aspeto mais perigoso dessas doutrinas evolucionistas estava no facto de aliarem o conceito de hereditariedade à insistência nas realizações pessoais e nos traços de carácter individuais, tão importantes para o amor-próprio da classe média do século XIX”… “A idolatria do herói, que lhe granjeou vastas plateias tanto na Inglaterra como na Alemanha, tinha as mesmas origens que a idolatria da personalidade do romantismo alemão”. (“Origens do Totalitarismo”, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, p. 261).

[9] Lothar von Trotta.

[10] Em 15 de agosto de 1914, o exército russo entrou na Prússia e inflingiu uma severa derrota aos alemães, fazendo com que o general Von Prittwitz entrasse em pânico e ordenasse uma retirada geral para trás do Vístula. Após essa derrota, os alemães substituíram Prittwitz por Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff, que levaram os alemães à vitória em Tannenberg, matando ou ferindo 50.000 russos e fazendo 90.000 prisioneiros. Hindenburg e Ludendorff que já gozavam de enorme prestígio foram guindados na Alemanha, após essa batalha, ao estatuto de semideuses.

[11] Combatentes africanos ao serviço dos alemães.

[12) A Bulgária entrara na guerra para se juntar às potências centrais, com o objetivo de reconquistar a Macedónia, perdida na Segunda Guerra dos Balcãs.

[13] Um dos que se alistaram foi um jovem pangermânico, vindo da Áustria, chamado Adolf Hitler.

[14] Shelley Baranowski, “Império Nazista”, São Paulo, Edipro, 2014, p. 98.

[15] Apesar do nome, o Lusitania não era português, nem fora construído em Portugal. Era um navio da companhia inglesa Cunard Line, lançado em 1906. Seu nome foi uma homenagem à província romana da Lusitânia, que hoje é parte do território de Portugal. Apesar de ser um navio inglês, quando foi afundado, em 6 de maio de 1915, e pese embora o aviso do cônsul alemão em Nova Yorque sobre o perigo que corriam os passageiros, embarcaram no Lusitania 128 americanos, a maioria dos quais pereceu no ataque.

[16] Os alemães procuraram desestabilizar os países inimigos, procurando alargar o “soft power”, a par da guerra convencional. Os chamados “programas revolucionários” foram desenvolvidos com organizações políticas revolucionárias da Irlanda, da Finlândia, da Ucrânia, da Geórgia, da Pérsia, da Índia, da Polónia, da Flandres e da Rússia. Quase todos falharam, mas houve uma importantíssima exceção – a revolução bolchevique. (“Impérios em Guerra, 1911-1923”, Dom Quixote, Lisboa, capítulo sobre o “Império Alemão”, de Heather Jones, p. 130.)

[17] Os romenos entraram na guerra em agosto de 1916, após a promessa da Entente de que poderiam anexar a Transilvânia da Hungria.

[18] Shelley Baranowski, ob. cit., p. 119; Michael Howard, ob. cit., pp. 121-29. Estes dois autores apresentam números diferentes. O primeiro refere 250.000 soldados americanos a cada mês, enquanto o segundo refere 300.000. O primeiro escreve que o ataque alemão foi realizado com 192 divisões enquanto o segundo refere 199.

[19] John Keegan, “Uma História da Guerra”, São Paulo, Companhia das Letras 2006, p. 465. Por seu turno, Michael Howard (ob. cit., p. 144), aponta para 1.800.000 alemães mortos na Grande Guerra.

[20] Na Primeira Guerra dos Balcãs (outubro de 1912 a maio de 1913), Sérvia, Montenegro, Grécia e Bulgária formaram a Liga Balcânica contra os Turcos. A Liga venceu e, no rescaldo (Tratado de Londres, em maio de 1913) quatro grandes potências europeias (Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia e Grã-Bretanha) apoiaram a criação de uma Albânia independente, o que convinha aos Austro-Húngaros interessados em cortar o acesso dos Sérvios ao mar. Por outro lado, foram reconhecidos os avanços dos estados balcânicos a leste da linha Enos-Medea. O Tratado de Londres não satisfez ninguém (contrariou o que estava previamente combinado entre os membros da Liga), e a Bulgária, que já tinha um regimento estacionado em Salónica, reclamou por território macedónico, o qual também era cobiçado por Sérvia e Grécia. A Segunda Guerra dos Balcãs  começou no fim de junho de 1913, com as forças da Bulgária a lutarem contra os exércitos de Sérvia, Grécia, Montenegro, Império Otomano e Roménia (que reclamava a fortaleza de Silistra da Bulgária como contrapartida à sua neutralidade na I Guerra dos Balcãs). As forças oponentes à Bulgária eram muito superiores. Enquanto os búlgaros combatiam sérvios e gregos, os romenos aproveitaram para invadir o Norte da Bulgária e os otomanos para ocupar algumas posições na Trácia (que haviam perdido na primeira guerra balcânica), ou seja, os búlgaros viram-se cercados por todos os lados e foram derrotados, depois de mês e meio de guerra. Novas fronteiras foram definidas pelos tratados de Bucareste e Constantinopla, mas foram rapidamente ultrapassadas pelos acontecimentos da I Guerra Mundial.

[21] Graydon A. Tunstall, “Austria-Hungary”, in Richard F. Hamilton e Holger H. Herwig (eds.), The Origins of World War I (Cambridge, Cambridge University Press, 2003), pp. 112-49, na p. 117.

[22] No Império Austro-Húngaro falava-se alemão, húngaro, checo, eslovaco, polaco, sérvio, croata, bósnio, ucraniano, romeno, esloveno, italiano e outras menos representadas.

[23] O influente primeiro-ministro húngaro István Tisza, antes e durante a guerra, opôs-se sempre às tentativas de junção de um terceiro membro à monarquia dual, algo que esteve na mente do arquiduque Francisco Fernando, juntando à Áustria e à Hungria um futuro Estado eslavo do Sul.

[24] Peter Haslinger, “Impérios em Guerra, 1911-1923”, Lisboa, Dom Quixote, 2014, capítulo sobre o “Império Austro-Húngaro”, p. 163.

[25] Carlos encetou conversações secretas com a França através dos irmãos de sua mulher, Zita. Um deles chamava-se Sixto de Bourbon-Parma. Daí o nome do caso. Nesse potencial acordo era oferecida a Alsácia-Lorena à França (o que, de facto, veio a acontecer depois da guerra). Clemenceau, primeiro-ministro francês, revelou esta ação secreta ao público, em 12 de abril de 1917, o que irritou a Alemanha.

[26] Czar quer dizer “César”.

[27] Joshua Sanborn, “Impérios em Guerra, 1911-1923”, Lisboa, Dom Quixote, 2014, capítulo sobre o “Império Russo”, p. 181.

[28] Os pogroms (palavra de origem russa) constituem ataques maciços a certas comunidades e ficaram conhecidos sobretudo pelos ataques a judeus, particularmente no Sul da Rússia, entre 1881-1884, mas também noutros períodos e lugares. Muitos milhares de judeus (incluindo crianças) foram mortos em territórios imperiais da Rússia, antes, durante e após a participação do Império Russo na Grande Guerra.

[29] Joshua Sanborn, ob. cit., p. 190.

[30] Michael Howard, ob. cit., p. 87; Joshua Sanborn, ob. cit., p. 194.

[31] Joshua Sanborn, ob. cit., p. 198.

[32] Joshua Sanborn, ob. cit., p. 203.

[33] No século XVI, aconteceram várias escaramuças entre os otomanos e os portugueses no mar Vermelho e no Índico, por causa do controlo do comércio com a Índia. De acordo com o historiador e investigador da Universidade Católica Portuguesa, Paulo Pinto, houve também acordos locais no sentido da cooperação, entre turcos e portugueses, os quais beneficiaram ambas as partes.

[34] Mustafa Aksakal, “Impérios em Guerra, 1911-1923”, Lisboa, Dom Quixote, 2014, capítulo sobre o “Império Otomano”, p. 59.

[35] A invasão da Líbia e da Tripolitânia pela Itália, que entrou assim em guerra contra o Império Otomano, foi inspirada na integração de Marrocos no Império Francês, sob a forma de protetorado, em 1912 (James Joll, “The Origins of the First World War”, 2ª ed., Londres, Longman, 1992, p. 59.

[36] Mustafa Aksakal, ob. cit., p.68.

[37] Não fora a primeira vez. Os Turcos são acusados de, já em 1895, terem massacrado cerca de 100.000 arménios, sob o temor de uma sublevação.

[38] Uma praga de gafanhotos assolou a Palestina em 1915, destruindo tudo à sua volta, o que agravou ainda mais a situação de fome. De acordo com Aksakal, “num único dia, um enxame do tamanho de Manhatan podia devorar o equivalente à quantidade de alimentos consumida no mesmo período por 42 milhões de seres humanos”.

[39] As forças britânicas eram compostas sobretudo por tropas indianas.

[40] http://en.wikipedia.org/wiki/Mustafa_Kemal.

[41] “França Antártica”, em 1555, no atual Rio de Janeiro, Brasil; São Luís, em 1612, no Brasil. Em ambos os casos os franceses foram derrotados pelos portugueses. E também, em território espanhol, o ataque a Forte Caroline, em 1562, na Florida espanhola.

[42] http://www.infoescola.com/historia/imperio-colonial-frances.

[43] Richard S. Fogarty, “Impérios em Guerra, 1911-1923”, Lisboa, Dom Quixote, 2014, capítulo sobre o “Império Francês”, p. 230.

[44] Leonard V. Smith, Stéphane Andoun-Rouzeau e Annette Becker, “France and the Great War”, Cambridge, Cambridge University Press, 2003, p. 65.

[45] Isto é possível constatar através da excelente investigação de Jacques Marseille em “Empire Colonial et Capitalism Français: Histoire d’un Divorce” (Paris, Albin Michel, 1984).

[46] Como se pode verificar pela obra de David S. Landes em “The Wealth and Poverty of Nations: Why Some are so Rich and Some so Poor” (Nova Iorque, WW. Norton, 1998).

[47] Richard S. Fogarty, ob. cit., p. 222.

[48] Tripolitânia e Cirenaica que seriam romanticamente rebatizadas por “Líbia”, o nome da região no tempo dos césares.

[49] Richard Bosworth e Giuseppe Finaldi, “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, capítulo sobre o “Império Italiano”, p. 87.

[50] Richard Bosworth e Giuseppe Finaldi, ob. cit., p.111.

[51] John Keegan, ob. cit., pp. 461-62. Ver também nota 96.

[52] A coordenação com a França em África nunca foi a melhor. Isto porque as ambições britânicas e francesas muitas vezes chocavam. Por outro lado, a ajuda de outros países aliados, como a Bélgica e Portugal, sempre foi considerada ineficiente pelos britânicos, que se valeram muito mais dos aliados locais, sobretudo a União Sul-Africana.

[53] Os combatentes armados no ataque à África Ocidental Alemã eram brancos, dado que Pretória proibia o armamento de africanos.

[54] Bill Nasson, “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, capítulo sobre “A África Imperial Britânica”, pp. 247-266.

[55] Bill Nason, ob. cit., p. 270.

[56] Atual Gana.

[57] Soldados africanos ao serviço da África Oriental Alemã.

[58] Para além dos carregadores e combatentes mortos, a campanha na África Oriental Alemã atingiu também as populações locais, que se viram obrigadas a ceder comida para as tropas de ambos os lados. Além disso, viram-se ainda confrontados com a estratégia de “terra queimada”, num clima de violência extrema.

[59] Michael Howard, ob. cit., pp. 114-16.

[60] Stephen Garton, “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, capítulo sobre “Os Domínios, a Irlanda e a Índia”, pp. 285-329.

[61] Em África, além dos 3.800 mortos ficaram feridos 40.000 homens, incluindo recrutas locais. Em França, além dos 1.787 mortos, ficaram feridos (ou incapacitados para trabalhar) 12.483 combatentes. Há que referir também que a guerra em África custou a vida de 273.547 civis africanos (in “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, capítulo sobre “Império Português”, p. 356).

[62] Filipe Ribeiro de Menezes, “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, capítulo sobre “Império Português”, p. 335.

[63] A Primeira República foi fértil em episódios que hoje nos pareceriam caricatos. Por exemplo, Afonso Costa, em 3 de julho de 1915, receando um ataque bombista, saltou da janela de um elétrico e sofreu fratura de crânio.

[64] Filipe Ribeiro de Menezes, ob. cit., pp. 336-37.

[65] Filipe Ribeiro de Menezes, ob. cit., p. 342.

[66] Angónia é um distrito da atual província de Tete.

[67] A África Oriental Alemã situava-se no território onde hoje está a Tanzânia.

[68] O general sul-africano Jan Smuts, queria trocar com os portugueses a parte de Moçambique a sul do rio Zambeze por território a ser conquistado à África Oriental Alemã. De acordo com Hew Strachan (in The First World War in Africa), “se os portugueses obtivessem pelo seu próprio esforço o que Smuts lhes queria dar, o argumento para lhes pedir que entregassem a baía de Moçambique e os territórios adjacentes à África do Sul sairia consideravelmente enfraquecido”. Cf. em Filipe Ribeiro de Menezes, ob. cit., p. 344.

[69] Durante as sessões secretas do Parlamento, que se realizaram em Lisboa, em julho de 1917, Ferreira Gil foi acusado de negligência, indignidade e cobardia pelo deputado da oposição Tamagnini Barbosa.

[70] http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/tudo-se-desmoronou-em-negomano-1665340.

[71] “Aníbal Augusto Milhais, viu-se sozinho na sua trincheira, apenas munido da sua menina, uma metralhadora Lewis, conhecida entre os lusos como a Luísa. Munido da coragem que só no campo de batalha é possível, enfrentou sozinho as colunas alemãs que se atravessaram no seu caminho, o que em último caso permitiu a retirada de vários soldados portugueses e ingleses para as posições defensivas da retaguarda. Vagueando pelas trincheiras e campos, ora de ninguém ora ocupados pelos alemães, o Soldado Milhões continuou ainda a fazer fogo esporádico, para o qual se valeu de cunhetes de balas que foi encontrando pelo caminho. Quatro dias depois do início da batalha, encontrou um médico escocês, salvando-o de morrer afogado num pântano. Foi este médico, para sempre agradecido, que deu conta ao exército aliado dos feitos do soldado transmontano. Regressado a um acampamento português, o comandante Ferreira do Amaral saudou-o, dizendo o que ficaria para a História de Portugal, “Tu és Milhais, mas vales Milhões!”” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Soldado_Milh%C3%B5es).

[72] Filipe Ribeiro de Menezes, ob. cit., pp. 343-60.

[73] H. G. Wells, ob. cit., pp. 341-45.

[74] A Grã-Bretanha invocou formalmente, a 7 de agosto de 1914 (apenas três dias após ter declarado guerra à Alemanha), a aliança anglo-japonesa, de 1902, para solicitar a participação japonesa na Grande Guerra.

[75] Frederick R. Dickinson, “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, capítulo sobre “Império Japonês”, p.375.

[76] Frederick R. Dickinson, ob. cit., pp. 364-87.

[77] Independência reconhecida formalmente pela Inglaterra no Tratado de Paris de 1783.

[78] Sem esquecer, evidentemente, o extermínio dos índios, que seriam uns 12 milhões e hoje representam menos de 1% da população americana (cerca de 3 milhões).

[79] Para a Espanha a perda destes territórios foi um desastre, que se concluiria no ano seguinte, com o Tratado Germano-Espanhol de 1899. Uma nova vaga, apelidada Geração de 98, surgiu como resposta a esse trauma, marcando um renascimento da cultura espanhola.

[80] Christopher Capozzola, “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, capítulo sobre “O Império dos Estados Unidos”, pp. 431-32.

[81]  Christopher Capozzola, ob. cit., pp. 440-55.

[82] H. G. Wells, ob. cit., pp. 129-33, 136-40, 201-02, 236-41.

[83] A vida de Pu Yi é o principal motivo do (excelente) filme de Bernardo Bertolucci, “O Último Imperador”.

[84] “Tianxia” quer dizer “tudo sob o céu”, e incorpora uma perspectiva pública mundial enraízada no pensamento moral e político de Confúcio. Recentemente, ressurgiram na China moderna novos discursos radicados na “tianxia”, em busca de formas morais e culturais de relacionar e articular a sociedade internacional. (Ver: https://web.stanford.edu/dept/asianlang/cgi-bin/about/what_is_tianxia.php). O “Império do Meio” era assim chamado porque  ficava entre o território dos deuses e o dos outros povos todos.

[85] As 21 exigências incluíam a necessidade de um controlo japonês da província de Shandong, Manchúria, Mongólia Interior, da costa sul da China e do estuário do Yangtze. Foi também exigido que a China comprasse metade do armamento militar do Japão.

[86] John Jordan, alto diplomata britânico na China, informando um superior do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Londres.

[87] Desde a Guerra dos Boxers que praticamente quem mandava na China eram as potências estrangeiras.  A Guerra dos Boxers começou como reação ao imperialismo estrangeiro, quando um grupo nacionalista chinês decidiu atacar os europeus que viviam na China. Os rebeldes dedicavam-se às artes marciais, cujos movimentos se assemelhavam à luta de boxe, e daí surgiu o nome “boxers”. No fim do século XIX, as principais potências europeias começaram a dominar bairros fechados nas maiores cidades chinesas, onde a autoridade do país não entrava. Face à incompetência do poder chinês, um grupo de pugilistas criou a sociedade secreta conhecida como “A Sociedade dos Punhos Unidos” ou “A Sociedade dos Boxers”, que começou a atuar no norte do país. Os lutadores praticavam todo tipo de terrorismo nas regiões dominadas pelos estrangeiros. As ações tiveram início na província de Shandong e foram motivadas pelos desemprego e pobreza rural – que os rebeldes acreditavam estarem relacionados com as importações do Ocidente. No dia 17 de junho de 1900, os rebeldes cercaram a parte da cidade de Pequim que era ocupada pelas delegações estrangeiras e cometeram vários atentados, chegando a assassinar o embaixador alemão e o secretário da delegação japonesa. A revolta tinha o apoio da imperatriz Cixi (Tseu-Hi) – mulher que governou o país por 47 anos durante a Dinastia Qing – e de funcionários do governo. Em agosto do mesmo ano, Inglaterra, Alemanha, França, Rússia, Japão, Itália e Estados Unidos levaram a cabo uma intervenção armada para desarticular as ações violentas do movimento, constituindo um exército de 100 mil homens, sob o comando do marechal alemão conde de Waldersee. Os aliados bombardearam os fortes de Taku, tomaram Tientsin e ocuparam Pequim – principal foco dos conflitos. A resposta dos boxers foi rápida, com ataques aos imperialistas e o isolando o bairro das embaixadas. Nesse período, Cixi e o imperador fugiram disfarçados. Finalmente, as tropas estrangeiras venceram os rebeldes e os membros do exército chinês que apoiavam o motim. No dia 7 de setembro de 1901, o Protocolo de Pequim oficializou os acordos que puseram fim à Guerra dos Boxers. A corte chinesa teve que transferir-se para o Sião (atual Tailândia) e as tropas estrangeiras determinaram a partida dos boxers da região. Além disso, a China, derrotada, viu-se obrigada a pagar uma grande indemnização em ouro, além de aceitar a política de “porta aberta”, pela qual se reconhecia a sua integridade territorial em troca de favores económicos ao Ocidente. Contudo, o tratado não impediu novas perdas de territórios, pois os japoneses ocuparam a Coreia, os franceses atacaram a Indochina, os russos avançaram sobre a Manchúria e os alemães dominaram a península de Chan-tung. Os estrangeiros impuseram a sua autoridade na capital chinesa, proibindo a população de importar armamentos, e eram eles quem, de facto, exercia o poder na China.

[88] Xu Guoqi, “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, capítulo sobre “A China e o Império”, pp. 389-424.

[89] Através do decreto 11.037, de 4 de agosto de 1914.

[90] Olivier Compagnon, “O Adeus à Europa – A América Latina e a Grande Guerra”, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2014, p. 220.

[91] Olivier Compagnon, ob. cit., p. 130.

[92] A criação da Liga das Nações ou Sociedade das Nações foi uma ideia do presidente americano Woodrow Wilson. Ganhou forma em Versalhes, no dia 28 de abril de 1919, e a sua última reunião ocorreu em abril de 1946. Face à recusa do congresso dos Estados Unidos em ratificar o Tratado de Versalhes, este país nunca foi membro da organização. Desta faziam parte cinco membros permanentes e seis rotativos, tendo estes o mandato vencido em três anos, com a possibilidade de reeleição. A Sociedade das Nações falhou no seu principal propósito – manter a paz – e foi substituída pela atual ONU – Organização das Nações-Unidas, em 1946.

[93] Em “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” (Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, Vol. II), Karl Popper critica abertamente o presidente americano Wilson, apesar de reconhecer as suas boas intenções. Diz-nos Popper: “Com o império de Alexandre, o nacionalismo tribal genuíno desaparece para sempre da prática política e, durante muito tempo, da teoria política. A partir de Alexandre, todos os Estados civilizados da Europa e da Ásia foram impérios, abrangendo populações de origens infinitamente diversificadas. A civilização europeia e todas as unidades políticas nela integradas permaneceram internacionais, ou, mais precisamente, intertribais desde então” (…) “Até há cerca de cem anos atrás, o nacionalismo platónico-aristotélico desaparecera praticamente das doutrinas políticas” (…) Por conseguinte, pouco tempo decorreu desde que o princípio do Estado nacional foi reintroduzido na teoria política. Apesar disso, ele é tão amplamente aceite nos nossos dias que é usualmente tomado como ponto assente, e muitas das vezes sem que se tenha consciência disso. Constitui agora, por assim dizer, um pressuposto implícito do pensamento político popular. É inclusivamente considerado por muitos como o postulado básico da ética política, especialmente desde o princípio, bem intencionado mas não tão bem ponderado de Wilson sobre a auto-determinação nacional. É difícil entender como é que alguém com um mínimo de conhecimentos da história europeia, das migrações e misturas de todas as espécies de tribos, das inúmeras vagas de povos vindos do seu habitat asiático original e que se disseminaram e entrecruzaram ao alcançar esse labirinto de penínsulas a que se chama continente europeu, como é que alguém com esses conhecimentos tenha podido alguma vez propor um princípio tão inaplicável. A explicação está em que Wilson, que era um democrata sincero (e também Masaryk, um dos maiores defensores da sociedade aberta), foi vítima de um movimento oriundo da filosofia política mais reacionária e servil jamais imposta à submissa e paciente humanidade. Foi vítima da sua formação nas teorias metafísico-políticas de Platão e Hegel e do movimento nacionalista baseado nelas” (pp. 53-4).

[94] Leonard V. Smith, “Impérios em Guerra, 1911-1923″, Lisboa, Dom Quixote, 2014”, pp. 457-95.

[95] Hannah Arendt, ob, cit., p. 218.

[96] Michael Howard, ob. cit., pp. 47-8.

[97] A Grã-Bretanha estava convencida de que a guerra se decidiria no mar, tal como acontecera no tempo de Nelson e de Napoleão, pois a luta em terra seria inconclusiva. O vencedor conseguiria matar o inimigo de fome e forçá-lo a render-se, ou pelo menos interromper o seu comércio forçando a economia a colapsar. Apesar disso (e do afundamento de três cruzadores britânicos por um submarino alemão, em setembro de 1914, no Canal da Mancha, com perda de 1.500 vidas) a Grande Frota britânica permaneceu em Scapa Flow, no extremo norte da Escócia, durante toda a guerra, enquanto a Frota Germânica de Alto-Mar também permaneceu nos portos alemães. A restante frota alemã foi abatida e sua marinha mercante foi varrida dos mares. Houve um bombardeamento de cruzadores alemães sobre as cidades costeiras inglesas no inverno de 1914-15, e um confronto em Dogger Bank, em janeiro. O confronto mais sério deu-se dois anos depois quando o novo comandante alemão Scheer conduziu a frota de Alto-Mar ao Mar do Norte, desafiando os britânicos. Perto da costa dinamarquesa deu-se a batalha naval de Jutlândia (Skaggerak, para os alemães). Foram afundados 14 navios britânicos e 11 alemães. Mas a situação estratégica não se alterou. Os navios ingleses continuaram a dominar os mares e a Frota Germânica de Alto-Mar permaneceu no porto alemão até o fim da guerra (Michael Howard, ob. cit., p. 61). 

[98] http://www.theglobalist.com

[99] Holodomor quer dizer “matar pela fome”. Foi mesmo isso que aconteceu na Ucrânia, no início da década de 1930, com a política soviética da “deskulakização” e coletivização agrícola. Matou-se toda uma população pela fome. Os números são difíceis de apurar (uma das políticas soviéticas era a destruição de documentos) mas as estimativas mais credíveis apontam para mais de 3 milhões de mortes. Muitos países já reconheceram o desastre de Holodomor como genocídio, entre eles o Brasil. Lamentavelmente, o mesmo não se pode dizer de Portugal. Informações mais detalhadas sobre o massacre em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Holodomor. 

[100] No mesmo artigo, Martin Sieff, faz também uma interessante referência histórica. Diz ele: “John F. Kennedy aprendeu depressa, em 1961, durante a crise dos mísseis cubanos, a não confiar nos instintos belicosos dos generais da sua própria força aérea. Teriam preferido envolver o mundo numa guerra nuclear a deixar uma provocação sem resposta – ou negociar – em nome da paz. Após o assassínio de Kennedy, porém, o seu sucessor, Lyndon Johnson, atolou-se ingenuamente no pântano do Vietname. O motivo foi simples: um homem que se centrara na política interna durante toda a sua carreira, até ao assassínio de Kennedy, não tinha confiança (nem competência) para questionar os falcões que havia entre os seus conselheiros quando estes lhe garantiam que era inevitável envolver-se militarmente no Vietname. Ironicamente, os líderes políticos pacíficos que não gostam de guerra e a quem falta o conhecimento profissional e histórico sobre a mesma são os que têm mais probabilidade de cair nela. Nos estados Unidos, por exemplo, os presidentes que foram generais bem sucedidos – homens como George Washington, Andrew Jackson, Zachary Taylor, Ulysses S. Grant e Dwight D. Eisenhower – foram, não raro, os mais competentes na manutenção da paz”.

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IMAGENS

Foto 1 – Revista Courrier Internacional, edição portuguesa, nº 223 (setembro de 2014).

Foto 2 – http://cmais.com.br/noticias-jornalismo/europa-surpreendida-pela-guerra-apesar-de-anos-de-tensao.

Foto 3 – www.sempreatualizados.net.

Foto 4 – http://www.rusmea.com.

Foto 5 – medalhasdeguerra.blogspot.com.br (Library of Congress).

Foto 6 – Revista Courrier Internacional, edição portuguesa, nº 223 (setembro de 2014).

Foto 7 – Historical Archives, Sarajevo.

Foto 8 – pt.wikipedia.org.

Foto 8 – commons.wikimedia.org.

Foto 10 – medalhasdeguerra.blogspot.com.br.cossaco russo (Bibliotheque Nationale de France).

Foto 11 – James Maxwell Pringle (Library of Congress).

Foto 12 – www.rusmea.com.

Foto 13 – The Armenian Genocide Museum-Institute.

Foto 14 – www.rusmea.com.

Foto 15 – www.fanpop.com.ataturk.

Foto 16 – www.rusmea.com.

Foto 17 – www.sempreatualizados.net.

Foto 18 – historiaversushistorias.blogspot.com (Maffei Glauco, EPA, EFE).

Foto 19 – www.icrc.org.

Foto 20 – www.rusmea.com.

Foto 21 – medalhasdeguerra.blogspot.com.br (Australian War Memorial).

Foto 22 – www.rusmea.com.

Foto 23 – www.publico.pt (Arnaldo Garcez, Liga dos Combatentes).

Foto 24 – Arquivo Histórico Militar.

Foto 25 –  idn-nacao-e-defesa-call-for-papers-sobre-portugal-na-i-guerra-mundial (Arnaldo Garcez, Liga dos Combatentes).

Foto 26 – http://pt.wikipedia.org/wiki/Soldado_Milh%C3%B5es.

Foto 27 – www.rusmea.com.

Foto 28 -www.rusmea.com (Paul Thompson, New York Times).

Foto 29 – U.S. National Archives.  Flickr.

Foto 30 – www.sempreatualizados.net.

Foto 31 – ultimosegundo.ig.com.br.

Foto 32 – leiturasdahistoria.uol.com.br.

Foto 33 – Flanders Fields Museum.

Foto 34 – www.ibamendes.com.

Foto 35 – Revista Courrier Internacional, edição portuguesa, nº 223 (setembro de 2014).

Foto 36 – Revista Courrier Internacional, edição portuguesa, nº 223 (setembro de 2014).

Foto 37 – www.rusmea.com.

(Todas as imagens de mapas foram retiradas da wikipedia).