A mente ideológica

A democracia não precisa de heróis. Apenas homens normais desapegados do poder.

Investe-se uma grande quantidade de

inteligência na ignorância quando se sente

uma profunda necessidade de ilusão.1

Saul Bellow

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1. Introdução

Temos nos debruçado, e já lá vão alguns anos, sobre uma questão, intrigante e complexa, que é a seguinte: porque há pessoas que admiram ou toleram líderes e regimes autoritários? Um indivíduo racional não deveria admirar um ditador — mas isso é apenas o que alguns pensam. Porque o que acontece, com uma frequência que desafia a lógica, é que a admiração por líderes autoritários está mais difundida do que, à primeira vista, poderíamos pensar. O que aconteceu recentemente, um pouco por todo o mundo democrático, por exemplo, nos Estados Unidos, no Brasil e na Hungria, com as eleições de Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán, todos eles líderes autoritários, é algo que inquieta e deixa apreensivas as pessoas de boa vontade. O caso de Trump — um líder boçal, mentiroso, instável, inculto, vaidoso, corrupto, chantagista, autoritário e intolerante (e talvez algo mais: veja-se o caso Epstein) à frente da maior potência militar mundial é particularmente preocupante.

Torna-se, assim, premente perceber porque a admiração por governantes autoritários está tão disseminada, e para isso precisamos de recorrer a algumas áreas de conhecimento. Desde logo, aquelas que se debruçam sobre a evolução da nossa espécie. Mas também precisamos de estudar algo mais específico: perscrutar o interior do próprio cérebro humano. Necessitamos, ainda, de avaliar a forma como avança o conhecimento científico, o único factual e, logo, verdadeiro. Será necessário ainda conhecer as principais teorias da ciência política e compará-las entre si. Tentaremos perceber a influência que o ambiente tem na formação da mente ideológica — desde a educação em casa aos livros que se leem (ou não), passando pelo meio social e académico, pelas crises económicas e sociais que ciclicamente ocorrem, sem esquecer a influência das redes sociais. E, finalmente, iremos analisar como se formou na opinião publica mainstream, ao longo de um século, essa excrescência do marxismo cultural chamado wokismo (quando se abre muito os olhos só se vê aquilo que se quer), e como esse movimento cultural de esquerda proporcionou o crescimento da extrema direita. É isto que tentaremos fazer mais abaixo, mas antes, para que não restem dúvidas, vejamos, através da análise histórica, porque todos os ditadores são maléficos, ao revelarem quatro características que tentaremos expor de seguida.

2. A personalidade do autocrata

Em primeiro lugar, todos os ditadores adoram o poder. Logo que o alcançam não querem perdê-lo, ou seja, só podem ser afastados à força, o que implica que eles próprios a usem para reprimir ou eliminar quem quer afastá-los. Daqui resulta que qualquer sociedade onde exista um ditador seja uma sociedade violenta, com todo o sofrimento associado. Em segundo lugar, quase todos os grandes ditadores amam a sumptuosidade. Salvo raras exceções (como a de Salazar, em Portugal, e, ao que parece, do atual líder chinês Jinping), os ditadores, sobretudo os que mais clamam serem representantes do povo, deixam esse mesmo povo na miséria enquanto levam uma vida de luxo, e amiúde de luxúria e perversidade. Em terceiro lugar, a vida humana não tem qualquer valor para a maioria dos ditadores; eles não sentem empatia com o próximo e muitos evidenciam sintomas claros de psicopatia, enquanto alimentam o mito do herói, amiúde explorado na imprensa que controlam e nos manuais escolares que definem. Em quarto lugar, todos os ditadores odeiam a liberdade. Os espíritos liberais, críticos, tolerantes e autónomos são os seus principais inimigos e, consequentemente, são perseguidos, detidos e eliminados. De facto, a realidade histórica mostra-nos que fascistas, nazis e comunistas tinham e têm, como inimigo fundamental, os liberais. Isto acontece hoje, com ideólogos russos, como os ultranacionalistas Dugin, Limonov e Kholmogorov (aqui), ou com marxistas, como os anticapitalistas Zlavoj Zizek (aqui), Perry Anderson e David Harvey, tal como acontecia há cem anos, quando nacionalistas e socialistas alemães, se uniram contra o mercantilismo e liberalismo ocidental (a Inglaterra era, na altura, a nação mais odiada), através da criação do partido nacional-socialista alemão, mais conhecido por partido nazi (Hayek, 1944).

2.1. Adoração do poder

Consideremos, brevemente, alguns casos de líderes autoritários, para mostrarmos como apresentam as características comportamentais apresentadas no parágrafo anterior. Relativamente ao fascínio pelo poder, os números não enganam. Kim Il-sung, apropriadamente designado como o “Presidente Eterno da República”, inaugurou uma dinastia, continuada por seu filho, Kim Jong-Il, e seu neto, Kim Jong-un, que dura há 78 anos. Fidel Castro governou Cuba durante 49 anos e a ditadura prolongou-se com seu irmão, Raúl, e continua até hoje. Tito governou a Jugoslávia por 35 anos. Estaline esteve à frente da União Soviética durante 30 anos. Salazar e Franco estiveram no poder 36 anos, Mao, 27 anos, e Putin já vai em 25. Xi Jinping alterou as reformas iniciadas por Deng Xiaoping no interior do Partido Comunista Chinês para se manter mais tempo no poder (Dillon, 2024). Muitos outros ditadores não se perpetuaram no poder porque foram depostos pela força (Hitler, Mussolini, Pal Pot).

Claro que, para quem adora o poder, o principal medo é perdê-lo. É por isso que os ditadores contam com a proteção de guarda-costas, exércitos pessoais, carros blindados, bunkers, residências secretas, disfarces e até sósias, ao contrário do que se passa na maioria dos países livres, sobretudo na Europa, onde os governantes andam à vontade no meio do povo (Marcelo Rebelo de Sousa) e se deslocam em transportes públicos ou de bicicleta (Olaf Palme). Fidel Castro, por exemplo, tinha à sua disposição um centro de investigação bactereológico para analisar todos os alimentos que consumia, além de um provador permanente. A sua paranóia era tal que até os quartos de hotel onde as personalidades estrangeiras pernoitavam quando visitavam Cuba estavam equipados com câmeras de filmar. E não era apenas por uma questão de controlo, era também um meio de chantagem: muitos recebiam prostitutas de luxo fornecidas pelo regime, e isso poderia ser usado para obter vantagens em caso de necessidade (Sánchez, 2014).

2.2. Viver em grande

Quanto ao gosto dos ditadores pela sumptuosidade, vejamos brevemente alguns exemplos. Lenine, o líder revolucionário dos trabalhadores, era transportado num Rolls-Royce Silver Ghost, equipado com esquis e correntes para superar as estradas com neve, e vivia numa sumptuosa mansão em Gorki, nos arredores de Moscovo (Kershaw, 2022). Fidel Castro, por seu turno, era proprietário de um património fabuloso, incluindo a ilha paradisíaca Cayo Piedra e o iate Aquarama II — para além de um número incontável de imóveis e do controlo de toda a economia cubana — enquanto o povo vivia (e vive ainda) na miséria, sendo que era também psicopata, pois descartava, quando já não lhe interessavam, mesmo os seus mais fiéis servidores, não sentindo qualquer remorso pelo sofrimento infligido (Molina, 2010). Reinaldo Arenas, um poeta cubano, várias vezes preso em Cuba, que conseguiu fugir da ilha, escreveu na sua autobiografia, já no exílio:

Descobria agora uma fauna que em Cuba me era desconhecida; a dos comunistas de luxo. Lembro-me de que, no meio de um banquete na Universidade de Harvard, um professor alemão me disse: “Eu de certo modo compreendo que possas ter sofrido em Cuba, mas eu sou um grande admirador de Fidel Castro e estou muito satisfeito com o que ele fez em Cuba.” O homem tinha naquele momento um grande prato de comida à sua frente e eu disse-lhe: “Acho muito bem que você admire Fidel Castro, mas nesse caso não pode continuar com esse prato de comida, porque nenhuma das pessoas que vivem em Cuba, salvo a oficialidade cubana, pode comer comida dessa.” Peguei no prato e atireio-o contra a parede.2

Achamos que esta declaração merece uma pausa, antes de continuarmos para outro psicopata, um dos homens mais ricos do planeta (quiçá, o mais rico)… Falamos, claro, de Vladimir Putin, possuidor de vários palácios soberbos, um deles na região de Krasnodar, na costa do Mar Negro, o maior edifício residencial privado da Rússia. Mas a jóia da coroa parece ser “a pequena Versalhes” em Valdai, nas margens do Lago Valdaiskoye. Isolada no meio de uma reserva natural, entre Moscovo e S. Petersburgo, a propriedade estende-se por 250 hectares. É difícil e seria até fastidioso descrever todo o luxo instalado nesta propriedade que conta com uma mansão para Putin e outra mansão para a sua namorada — a multimedalhada ginasta russa, Alina Kabaeva — e uma linha férrea exclusiva.3 Enquanto isso, muitos russos morrem de frio em regiões remotas do país.

Por seu turno, Nicolae Ceausescu, o “Génio dos Cárpatos” e líder comunista que governou a Roménia durante 24 anos, detinha um Palácio de Primavera com 80 salas, piscina interior, salão de cinema e casas de banho com torneiras de ouro, enquanto o povo romeno vivia na mais extrema miséria. Daniel Ortega e a mulher, Rosario Murillo, “socialistas” que governam em conjunto a Nicarágua desde 2006, possuem uma fortuna estimada em mais de 2.500 milhões de dólares, controlando o mercado de combustíveis, a comunicação social e um grande número de empresas, algumas das quais através de testas de ferro. Como habitualmente acontece com estes defensores do povo, o povo, propriamente dito, vive miseravelmente. É o que acontece também com Kim Jong-un, líder incontestado da Coreia do Norte, possuidor de uma fortuna fabulosa, detentor de 17 palácios e amante de luxos requintados como carros opulentos (mais de uma centena), aviões a jato, carro blindado com casa de banho, cavalos puro-sangue, uma coleção de relógios avaliada em 8 milhões de dólares e um iate de luxo. A morte por fome na Coreia do Norte é cíclica, mas Kim adora caviar preto iraniano, porcos dinamarqueses, conhaque francês e uisque americano.4

Temos depois os aspirantes a ditadores, como Trump ou Orbán. A fortuna de Trump, que, apenas desde que iniciou o segundo e atual mandato como presidente dos Estados Unidos, há pouco mais de um ano, aumentou mais de mil milhões de dólares (um bilião para para os padrões brasileiros e americanos)5 está avaliada em quase 6 mil milhões (6 biliões) de dólares. Orbán é o político mais bem pago do mundo e as empreses que giram em torno do governo húngaro, que lidera, viram os seus lucros aumentados exponencialmente. Este aumento súbito da riqueza dos empresários amigos, bem como de familiares, adensam a suspeita de recurso a testas de ferro por parte de Orbán.

Claro que a lista de ditadores afortunados é muito mais longa e poderíamos continuar com vários outros, como Lukashenko, Mbasogo (o ditador atualmente há mais tempo no poder: 47 anos) e muitos outros líderes africanos, ou o novo líder religioso iraniano, Mojtaba Khamenei, detentor de um património que inclui mansões em Londres, hotéis de luxo e campos de golfe em várias cidades europeias, e contas chorudas na Suíça.6 Mas talvez possamos ficar por aqui.

2.3. Psicopatia

Hitler (15 a 20 milhões), Estaline (mais de 40 milhões) e Mao (estima-se que mais de 50 milhões) são responsáveis, em conjunto, por mais de 100 milhões de mortes, constituindo-se como três dos maiores assassinos da história da humanidade. Hitler inspirou-se em Benito Mussolini para cultivar a aura de herói de que necessitava para galvanizar as massas alemãs (Rees, 2012). Pol Pot, um líder cambojano comunista, considerado, em alguns meios de comunicação social, “a maior máquina de matar do século XX”,7 conseguiu a “proeza” de liquidar 1/4 da população do seu próprio país em cerca de três anos — milhões de pessoas.

Putin, que age como chefe de uma máfia, controlando toda a economia russa (Kasparov, 2015), não hesita em enviar para a morte certa centenas de milhares dos seus jovens concidadãos. Tendo em conta que nas guerras modernas é muito difícil ocupar com tropas outro país ou região, dada a grande concentração populacional em cidades, a estratégia de Putin é a de arrasar indiscriminadamente esses centros urbanos reduzindo-os a escombros. É uma estratégia recorrente utilizada na Chechénia, na Síria e na Ucrânia. Se tiver tempo, Putin chegará facilmente ao patamar dos milhões de mortes.

Apesar de estes ditadores terem sido, ou serem, responsáveis por um número inacreditável de vítimas mortais, o sofrimento que outros líderes autocráticos infligiram, através da repressão generalizada, não pode ser negligenciado. Salazar, em Portugal, Franco, em Espanha, os ditadores militares da América Latina (Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, etc.), geralmente de “direita”, ou os ditadores africanos, geralmente de “esquerda” foram, ou são, responsáveis por incontáveis mortes e por episódios de tortura e encarceramento de seres humanos inocentes. Como se pode ver, o número de vítimas da chamada esquerda é bastante superior ao da chamada direita. Mas este não é um problema quantitativo e muito menos um problema entre esquerda e direita, como veremos mais à frente, antes pelo contrário.

2.4. Ódio à liberdade

Todos os ditadores odeiam a liberdade e gostam de ser obedecidos. É precisamente por isso que são ditadores. E se é verdade que nem todos eles possuem as características apresentadas no ponto 2 — há alguns, poucos, ditadores que têm uma vida relativamente modesta — e em relação ao ponto 3 há gradação relativamente à psicopatia, todos, absolutamente todos, preenchem as condições dos pontos 1 e 2 — todos adoram e poder e odeiam a liberdade.

É por isso que se munem de todos os meios repressivos possíveis para se manterem no poder. Isto deveria alertar-nos para a extrema importância das instituições democráticas e para a necessidade de manutenção da independência institucional em relação ao poder executivo. Tribunais e imprensa são geralmente os primeiros alvos dos pré-ditadores — como Trump, hoje, ou Putin, na fase anterior à do poder absoluto — e a sua autonomia deve ser assegurada, pois são dois dos mais importantes pilares da liberdade. (Enquanto escrevemos este artigo, o governo golpista da Guiné-Bissau — um país de língua oficial portuguesa — mandou espancar até à morte o ativista Vigário Luís Balanta, de 35 anos, e prepara-se para fechar vários órgãos de comunicação social).

Os liberais, com a sua tolerância, o seu desapego, e mais do que desapego a sua desconfiança do poder (daí a ênfase que colocam na limitação dos governos), bem como o seu amor à liberdade (individual e de associação), ao livre mercado, à propriedade privada e à autonomia contratual são os maiores inimigos de todos os ditadores, sejam de esquerda ou de direita. É por isso que a verdadeira dicotomia da ciência política atual não é entre esquerda e direita, mas entre democracia e ditadura, liberdade e opressão, tolerância e autoritarismo. (Ramón, 2024; Applebaum, 2020).

É fácil ver, pelo último parágrafo, que quando nos referimos a liberalismo, não estamos a pensar em nenhum tipo de programa político-partidário, nenhum tipo de liberalismo específico, económico ou outro, como é o caso do conhecido termo inventado pejorativamente — neoliberalismo — para desacreditar o liberalismo. O liberalismo não dispensa a ação do Estado nem é alheio aos direitos sociais conquistados pelos indivíduos. Muito pelo contrário. Quando nos referimos a liberalismo, estamos a falar de uma doutrina geral que visa garantir as liberdades acima referidas, defendendo, para isso, instituições que controlem o poder. O liberal é um indivíduo atento aos abusos de poder, que considera a liberdade um fim em si mesmo — uma vez que sem liberdade o ser humano deixa de ter responsabilidade pelos seus atos (passa a ser um escravo do poder estabelecido) e todos os avanços sociais (incluindo a diminuição da desigualdade) conquistados pelas democracias liberais são perdidos.

3. A dicotomia esquerda/direita é anacrónica

Apesar da capacidade destrutiva das ditaduras, é de certa forma natural que a maioria dos súbditos dos ditadores, intoxicados com propaganda, admirem os seus líderes. Mas como entender, sem nos indignarmos, que nos países democráticos, com imprensa livre, algumas pessoas sintam admiração, quando não verdadeira veneração, por líderes autocratas? E assim regressamos à nossa questão fundamental. Trata-se de uma questão intrigante, sobretudo porque as respostas simplistas — que as pessoas são estúpidas ou ignorantes — são redutoras. Há muita gente inteligente e erudita que defende ideologias antidemocráticas.

Esta é, portanto, a grande questão que se coloca, num mundo onde os regimes autoritários ganham terreno aos democráticos, onde a polarização, o extremismo e a aversão a tudo o que é liberal crescem, tal como aconteceu há um século quando líderes totalitários aspiraram a controlar o mundo. Vivemos de novo umas dessas crises provocadas pelo desespero. As crises económica, social, habitacional, conduzem inevitavelmente a uma crise de valores.

Neste contexto, a velhinha dicotomia esquerda/direita que dominou o debate político da segunda metade do século XX, perde sentido. Não há grandes diferenças entre um social-democrata, um democrata-cristão ou um liberal-social. Todos eles defendem as instituições democráticas e sabem que elas são mais importantes do que qualquer indivíduo, por mais popular que seja. Da mesma forma, não há grandes diferenças entre um simpatizante fascista, ou nazi, ou marxista. Todos eles tenderão a apoiar qualquer político disposto a pôr em prática as correspondentes ideologias, pouco lhes importando se há separação de poderes ou se os poderes estão concentrados num único indivíduo providencial.

A verdadeira dicotomia é, portanto, a que separa defensores da democracia dos apoiantes de autocracias, porque é entre eles que existe uma verdadeira clivagem, não entre os democratas de esquerda e de direita. Além disso, sabe-se que uma vez iniciada a radicalização de qualquer um dos lados dos extremos políticos, ela tende a agravar-se do outro lado, e vice-versa. Alimentado pelo ódio ao outro extremo, o nosso ódio aumenta também. E, assim, insaciáveis, estamos dispostos a aceitar tudo: fantasias, distorções, mentiras e calúnias. Não é preciso esperar muito tempo até que a maioria se movimente apenas no espaço das redes sociais, circunscrita a uma tribo radical.

Habituados aos soundbites das redes, deixamos de ter paciência para ler um livro e tolerância para ouvir uma crítica. Qualquer dissonância é tida como hostil e considerada uma ameaça. A tendência é considerar quem não alinha connosco como inimigo e empurrá-lo para o extremo oposto. Não há mais lugar para a crítica, para a tolerância, para o razoável. E com isto não nos apercebemos que somos iguaizinhos aos do outro lado, pois utilizamos precisamente os mesmos métodos. Desprezamos o autocrata inimigo mas apoiamos outro — o nosso. Perante tudo isto, é lícito concluir que a rigidez ideológica remete para a teoria da ferradura na política, onde o fascismo e o comunismo acabam por se encontrar nos extremos. A ideologia incentiva o dogmatismo do crente, num efeito de autorreforço: os avanços para o extremismo são tanto mais fáceis quanto mais profundamente envolvido se estiver (Zmigrod, 2025).

4. A mente ideológica

A ideologia nasceu com boas intenções. Como a palavra indica, estava destinada a ser a ciência das ideias, mas transformou-se numa guerra de ideologias, tal como aconteceu com as religiões. É bastante curioso que tenha sido um pensador iluminista, condenado à morte por “aristocracia” e encarcerado numa prisão de Paris nos tempos tenebrosos pós Revolução Francesa, Antoine Destutt de Tracy, o homem que cunhou o termo “ideologia”. Tracy queria tornar científico o estudo da formação das ideias — como nascem e se desenvolvem em nós através da “sensação” e da “dedução” —, orientá-lo para a verdade e afastá-lo da superstição.

O Reinado de Terror terminou antes da prevista execução de Tracy (mas com a execução do sanguinário Robespierre), que acabou por ser libertado. Poucos anos depois, Destutt de Tracy publicou a sua obra de referência, Elementos de Ideologia, que viria a ser traduzida para inglês por Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano.

A louvável intenção de livrar as ideias de superstições, crenças, influências metafísicas e tradições bafientas não vingou. Pelo contrário, a “ciência das ideias” não tinha as ferramentas necessárias para ser realmente uma ciência e foi tomada de assalto por pensadores dogmáticos que reclamaram o estatuto de ciência para as suas doutrinas pseudo-científicas. A ideologia foi perdendo o estatuto de ciência, sendo atacada primeiro por Napoleão e, mais tarde, por Marx, até se transformar numa espécie de idolatria —a veneração de pensadores ou líderes dogmáticos e autoritários — atingindo o máximo grau negativo que tem hoje.

Tracy não dispunha das ferramentas realmente científicas que possuímos agora, pois não estavam disponíveis no seu tempo. Referimo-nos a áreas do conhecimento que vão das ciências naturais à psicologia, passando pela filosofia do conhecimento e pela filosofia política. É através delas que vamos analisar mais detalhadamente a mente ideológica, tendo em conta o que se consideram ser as ideologias mais extremistas (embora, claro, nenhuma delas o reconheça), casos do fascismo, nazismo, nacionalismo, comunismo e islamismo radical. Os crentes destas ideologias odeiam a nossa civilização: a liberdade, a democracia, a tolerância, a justiça, o bem-estar social.8

4.1. Biologia evolucionista — da Idade da Pedra às redes sociais

Do ponto de vista evolutivo, foi muito importante para os humanos, ainda em tempos remotos, juntarem-se em grupos. Só através de coligações foi possível sobreviverem e defenderem-se, quer de outros grupos rivais — algo que também acontece com outros primatas — quer de membros violentos dentro do próprio grupo. Mas apenas na nossa espécie se desenvolveu até níveis de destruição inimagináveis este enorme esforço coletivo para atacar outros grupos e defender-se dos ataques contrários. A população humana tem sido consistentemente perturbada por rivalidades e conflitos étnicos e religiosos, que muitas vezes escalam para guerras civis e genocídios. O antagonismo racial na América, a história dos pogroms na Europa, a carnificina que se seguiu à dissolução da Jugoslávia, os inumeráveis conflitos étnicos em África, como, por exemplo, o massacre racial no Rwanda, mostram-nos a relevância que a pertença ao grupo tem na evolução da humanidade (Boyer, 2018).

Com a passagem do tempo e o desenvolvimento tecnológico e científico, acabaram por aparecer as coligações de agressão proativa (Wrangham, 2019), que culminaram em forças armadas com grande poderio bélico, as quais, quando comandadas por líderes autoritários, têm uma maior probabilidade de usar o seu potencial de destruição. Daí a apetência muito enraízada para nos alistarmos em agremiações, sejam religiosas, ideológicas, clubísticas ou outras. Somos animais sociais e isso implica que a nossa individualidade não pode permanecer isolada, necessita identificar-se com outras individualidades — as nossas mentes têm de interagir com outras mentes — e isso impele-nos à integração no grupo, satisfazendo o sentimento de pertença que nos é tão característico. Devido à predominância da vida coletiva na evolução humana, o sentimento de pertença ao grupo e os aspetos normativos dessa pertença tendem a ter precedência na nossa mente em relação às questões factuais (Gat, 2022). A individualidade e o pensamento livre surgiram muito mais tarde na evolução humana e não estão, por isso, tão enraízados nos nossos genes. É por isso que toda a luta humana é uma luta contra a natureza, sobretudo contra a nossa própria natureza. E é também por isso, que um extremista consegue entender outro extremista, mas dificilmente entenderá um liberal.

Isto é confirmado pela história e pelo que se passa no mundo, hoje. Hitler pactuou secretamente com Estaline para dividirem a Europa entre eles (Molotov-Ribbentrop); Putin, Lukashenko, Jinping, Jong-un e Khamenei dão-se todos bem, apesar de dois deles serem fascistas (ou nacional-populistas), dois serem comunistas e outro ser um teólogo autocrata. Basta ver as votações nas Nações Unidas para se perceber a convergência dos ditadores (incluindo alguns aspirantes a ditadores, como Trump ou Orbán). Em geral, estes ditadores têm como principal inimigo o que genericamente é designado por Ocidente, ou, em termos ideológicos, as democracias liberais.

O que acontece, muitas vezes, é que os Estados Unidos são confundidos como o expoente máximo deste tal Ocidente, mas os Estados Unidos, de acordo com o Índice da Democracia publicado por The Economist, entre outros estudos, são uma democracia imperfeita. Os países ocidentais socialmente mais desenvolvidos são as democracias liberais nórdicas (Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia) às quais poderíamos juntar outras democracias europeias, como a Suíça, os Países Baixos e a Irlanda, e, fora da Europa, países como o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia — os socialmente mais avançados, mais pacíficos e mais felizes do planeta. A prova final dessa superioridade social é a forma como as pessoas sem voz — doentes mentais, presos e idosos em fim de vida — são tratados nestes países: com a dignidade que merecem. (Um artigo nosso sobre esses países-modelo pode ser lido aqui).

No entanto, o ódio que muitas pessoas têm aos Estados Unidos leva-as a juntarem-se às ditaduras e a virarem-se não apenas contra os Estados Unidos mas contra a democracia liberal, que representa, em termos ideológicos, o grande inimigo desses regimes autoritários. Claro que os ditadores conhecem isto muito bem e exploram as fragilidades internas das democracias para as atacarem. É o que se passa com os exércitos de trolls, financiados por partidos políticos e até por países, como a Rússia (talvez a maior fábrica mundial de trolls) e a China, que alimentam o radicalismo nas redes sociais. Uma vez mentalmente radicalizado, o crente não procura a verdade, apenas busca a confirmação das suas convicções — e essas ele encontra por toda a parte. Em vez de modificarmos as nossas crenças à luz de novas informações, utilizamos as nossas crenças para julgar essas novas informações.9 O espírito crítico fica definitivamente obliterado. O homo da Idade da Pedra e o sapiens sapiens da internet patilham a mesma mentalidade tribal.

A votação por uma paz duradoura na Ucrânia mostra alguns dados curiosos. As principais ditaduras unem-se, como sempre. A China mantém a sua posição hipócrita de não querer comprometer-se, enquanto, na prática, apoia a Rússia. E Lula vota ao lado dos aspirantes a ditadores, Orbán e Trump.

4.2. Psicologia social

Alguns autores distinguem entre razão epistemológica — a necessidade de seguirmos a verdade — e a razão social — a necessidade de nos identificarmos com um grupo — sendo que, em conflito, a segunda geralmente prevalece sobre a primeira, ou seja, frequentemente, adaptamos a realidade à nossa ideologia e não o contrário (Fitoussi, 2025). É por isso que as ideologias mais radicais, sejam de esquerda ou de direita, são tão parecidas no ódio que sentem umas pelas outras.

E uma vez adotada uma ideologia, o custo social e psicológico de voltar atrás é muito elevado. A posição adotada condiciona a posição futura, e é por isso que a inteligência passa a ser usada para justificar a ideologia e não para procurar a verdade. Entra-se num círculo vicioso. A razão social prevalece e a lucidez é trocada pelo bem estar psicológico. Não é possivel ajustar a ideologia à realidade (por isso esta é tão diabolizada), então ajusta-se a realidade à ideologia. Karl Popper descreveu assim o processo pelo qual nos envolvemos mais e mais:

Uma vez que tenha sacrificado a sua consciência intelectual em relação a um ponto pouco importante, um indivíduo não quer ceder com demasiada facilidade; o indivíduo deseja justificar o auto-sacrifício convencendo-se da bondade fundamental da causa, que é vista como pesando mais do que qualquer pequeno compromisso moral ou intelectual que possa ser requerido. Com cada um desses sacrifícios morais ou intelectuais, o indivíduo fica cada vez mais profundamente envolvido, fica pronto a apoiar os seus investimentos morais ou intelectuais na causa com mais investimentos.10

Além dos mecanismos psicológicos sobre a cegueira ideológica, vários estudos sugerem que certas pessoas têm uma tendência natural para o autoritarismo. Uma psicóloga judia, fugida do nazismo, Else Frenkel-Brunswik, intrigada (como nós) com o que levaria as pessoas a se tornarem extremistas (ela estudava, sobretudo, os nazismo e fascismo), publicou, em conjunto com outros autores, no já longínquo ano de 1950, um livro que é uma referência incontornável na área da psicologia social — A Personalidade Autoritária. Nos seus estudos, Else descobriu várias clivagens interessantes entre crianças com personalidades autoritárias e crianças com personalidades liberais; descobriu que as crianças “liberais” eram mais flexíveis e adaptáveis à realidade do que as “autoritárias”. A personalidade autoritária é convencional, rígida e intolerante à ambiguidade.

Os estudos de Frenkel-Brunswik confirmaram o que o psicólogo nazi, Erich Ludolf Jaensch, já havia descoberto na década de 1930: algumas pessoas tinham as qualidades do alemão ideal e outras possuíam as características de uma pessoa que poderia constituir um perigo para o regime nazi. O tipo “J” era o de indivíduos cuja perceção era inequívoca, bem definida, firme, maquinal e integrada — eram indivíduos rígidos, masculinos, agressivos e membros fiáveis do Partido Nazi. Em contraste, Jaensch postulou um tipo “S” — indivíduos propensos à sinestesia, com tendências sensoriais mais soltas e fragmentadas, mais contaminados pelas emoções, liberais de todas as formas que os nazis detestavam.

No seguimento destes estudos, Leor Zmigrod, uma cientista da área da neurociência política, constatou, num estudo em Inglaterra com centenas de participantes, e, em 2016, noutro estudo que envolveu mais de 700 americanos, que os indivíduos mais extremistas, fossem de esquerda ou de direita, tinham uma flexibilidade mental diminuída quando lhes eram apresentadas tarefas que avaliam a adaptabilidade na perceção visual e em quebra-cabeças linguísticos. Ela descobriu ainda que os indivíduos mais radicais são extremamente confiantes quanto à certeza das suas opiniões. Isto reforça o que David Dunning e Justin Kruger descobriram em 1999: os indivíduos com classificações mais baixas em testes de conhecimento têm mais confiança nas provas realizadas do que os indivíduos que revelam maiores conhecimentos através desses mesmos testes11. Ou seja, os mais ignorantes são igualmente os mais convencidos. O neurocientista Dean Burnett sintetiza o fenómeno desta maneira:

Reconhecer as suas próprias limitações e as capacidades superiores dos outros é algo que requer inteligência. Daí haver pessoas que discutem acaloradamente com outras sobre assuntos dos quais não têm qualquer experiência direta, mesmo que a outra pessoa tenha estudado a matéria durante a vida inteira. O nosso cérebro só tem as nossas próprias experiências em que se basear, e os nosso pressupostos de referência são que toda a gente é igual a nós. Portanto, se formos idiotas…12

Além disso, investigações recentes com recurso a aparelhos de neuroimagiologia mostraram que as pessoas mais conservadoras tendem a ter a amígdala direita (fundamental na geração de emoções) maior do que as politicamente liberais. Outros estudos revelam que experiências traumáticas também podem causar radicalismo ideológico. E estudos sobre criminosos condenados por crimes com convicção ideológica — cometidos por extremistas de esquerda ou de direita e islamitas — mostram que muitos deles sofreram experiências de rejeição ou de fracasso — no trabalho, nas amizades ou em relacionamentos românticos (Zmigrod, 2025).

4.3. Filosofia do conhecimento (epistemologia)

De acordo com os filósofos e cientistas liberais, o conhecimento científico avança pondo em questão as teorias científicas estabelecidas, refutando-as. Pelo contrário, o “conhecimento” ideológico visa confirmar as próprias convicções, procurando a verificação e não a refutação das mesmas, não podendo, portanto, ser considerado científico. Pode parecer complicado, mas é bastante simples: é sempre possível melhorar uma teoria científica — isto é óbvio porque é assim que a ciência avança; pelo contrário, as ideologias radicais são dogmas, não são refutáveis — tal como uma religião não é refutável, é uma questão de fé — e, por isso, não são científicas.

Um critério de demarcação entre ciência e pseudociência começou a ser traçado, em finais de 1919, por um jovem austríaco de 17 anos, desiludido com o marxismo, chamado Karl Popper. Popper começou a estudar a teoria marxista e percebeu que a pretensão científica do marxismo não passava disso mesmo: uma pretensão. Ele observou um antagonismo profundo entre, por exemplo, as atitudes de Marx e Einstein. Nas suas próprias palavras:

O que mais me impressionou foi a afirmação clara do próprio Einstein de que consideraria a sua teoria como indefensável se ela falhasse em certos testes. Assim, escreveu, por exemplo: “Se a deslocação para o vermelho das linhas espectrais devido ao potencial gravitacional não existir, então a teoria da relatividade geral será indefensável”. Aqui estava uma atitude completamente diferente da atitude dogmática de Marx, Freud, Adler, e ainda mais da dos seus seguidores. Einstein estava à procura de experiências cruciais, cuja concordância com as suas previsões de modo algum estabeleceria a sua teoria; ao passo que o desacordo, como foi o primeiro a sublinhar, mostraria que a sua teoria era indefensável. Esta, achei eu, era a verdadeira atitude científica. Era absolutamente diferente da atitude dogmática que constantemente proclamava ter encontrado “verificações” para as suas teorias favoritas. Assim, para o fim de 1919, cheguei à conclusão de que a atitude científica era a atitude crítica, que não procurava verificações mas testes cruciais; testes que pudessem refutar a teoria testada, embora nunca pudessem estabelecê-la.13

Alguns anos mais tarde Popper tinha desenvolvido completamente o seu critério de demarcação entre ciência e pseudociência, o qual publicou na obra de referência A Lógica da Descoberta Científica, em 1934. De acordo com esse critério, uma teoria científica tem de ser testável ou refutável ou falsificável. É isso que acontece nas ciências empíricas, mas não ocorre nas pseudociências, seja a interpretação marxista da História (vulgo, marxismo) a interpretação racista da História (vulgo, nazismo) ou a interpretação nacionalista (vulgo, fascismo). O critério de demarcação de Popper é reconhecido por um conjunto de cientistas que conhecem a sua obra (incluindo vários prémios Nobel), entre eles, Richard Feynman, John Eccles, David Deutch e Hermann Bondi. Este afirmou: “Nada mais há para a ciência do que o seu método, e nada mais há para o seu método do que o que foi dito por Popper”.14

O desconhecimento do critério de demarcação leva muita gente a aceitar teorias falsas, sejam de esquerda ou de direita. Estas teorias são, em geral, populistas, com respostas simples e dogmáticas para problemas complexos, e são demasiadas vezes aceitadas como uma revelação entre os fracos de espírito. Daí o fechamento em tribos, a que se assiste nos partidos mais extremistas, no seio das quais se procuram constantemente verificações em vez de refutações, mas também no comentário político e no fenómeno mais recente das redes sociais — sem dúvida, o principal centro de radicalização e polarização nas nossas sociedades de hoje.

Do ponto de vista epistemológico, as ideologias radicais situam-se no campo religioso e não no campo científico, como (pelo menos, algumas) pretendem.15 O islamismo radical, com as suas componentes religiosa e ideológica é, quanto a isto, paradigmático. A fidelização ao grupo é mais uma característica (entre muitas outras) que as ideologias partilham com a religião. É preciso fazer sacríficios para demonstrar a fidelidade. E tal como nas religiões se pratica o jejum, se ora regularmente, se cumprem promessas ou se fazem peregrinações, o crente ideológico participa em manifestações, faz campanha, distribui propaganda ou ataca violentamente os adversários em debates. “Tal como a utilização de tatuagens distintivas no mundo do crime serve para impossibilitar que um indivíduo seja recrutado por outra rede mafiosa, certas declarações públicas são, acima de tudo, promessas de lealdade eterna a um clã”.16 O carácter religioso das ideologias radicais é algo há muito estudado, não restando dúvidas de que a mente ideológica é, no seu mecanismo, similar à mente religiosa. Estaline, por exemplo, encontrou no marxismo uma nova fé, logo após ter abandonado os estudos no seminário teológico de Tiblíssi (Kershaw, 2022). A ostracização dos não-crentes é outra característica comum às religião e ideologia.

4.4. Ciência política

O que caracteriza a dicotomia verdadeira em ciência política, aflorada acima, a saber, a divergência entre visões democráticas e visões autoritárias, é que, para as primeiras, o mais importante são as instituições, enquanto que, para as segundas, o mais importante são os indíviduos capazes de levar a cabo o que propõe determinada ideologia.

Para percebermos isto temos de recuar aos primórdios da ciência política e à questão primordial com que os teóricos se confrontavam e que era a seguinte: Quem deve governar? Claro que as respostas a esta pergunta dependem das ideologias. Platão disse que devem governar são os sábios (o filósofo-rei); Marx disse que a dinâmica da História catapultará a classe operária ao poder; e a resposta mais comum é que deve governar o povo.

O governo do povo denominou-se, na Grécia Antiga, democracia, mas é reconhecido que o povo nunca governou em lado nenhum porque, simplesmente, isso é uma impossibilidade. O povo só pode “governar” através de representantes que, tendo em conta a História, bem como estudos e inquéritos realizados ao longo do tempo, um pouco por todo o mundo — raramente se elevam acima da mediania, quer moral, quer intelectualmente. Assim sendo, a pergunta que se deve colocar é a seguinte: de que forma podemos livrar-nos, por meios pacíficos, de políticos indesejáveis? Esta questão evita confusões entre as definições (sempre improdutivas) de “democracia” (pois todos se consideram verdadeiros democratas) e consagra como resposta a democracia liberal, aquela onde ocorrem eleições, onde existe separação de poderes, imprensa livre e respeito pelos direitos humanos, incluindo os das minorias, e aquela onde podemos afastar os políticos indesejáveis através do voto.

É por isso que as instituições são tão importantes para os democratas liberais, enquanto os pseudo-democratas populistas e autoritários tendem a admirar personalidades. A importância das instituições democráticas fica bem patente quando olhamos para alguns líderes autoritários — como Donald Trump, Viktor Orbán, Benjamin Netanyahu ou Jair Bolsonaro — todos eles aspirantes a ditadores, mas que podem ser (ou já foram) afastados do poder graças, precisamente, às instituições democráticas. Nada garante que escolhamos bons governantes em democracia; mas a democracia é o único regime que garante a possibilidade de corrigirmos o erro. O desconhecimento sobre o papel crucial das instituições democráticas é uma das razões que podem facilitar o surgimento de personalidades ideológicas.

4.5. Psicologia ambiental

A vida familiar, escolar e, em geral, social, a (des)informação recolhida, o percurso académico, os livros que se leem (ou não), tudo isso pode influenciar a tendência para o autoritarismo ou para o espírito liberal. E não basta ler os autores que rejeitam as ideologias totalitárias para se amar a democracia e a liberdade. Vários estudos indicam que uma educação familiar muito rígida pode gerar mentes igualmente rígidas e dogmáticas. E uma vez formada, uma mente ideológica dificilmente se deforma. As crises sociais, e a ocorrência de períodos significativos de pobreza, desemprego e desigualdade, ou de imigração em massa, quando a crise é no exterior, também radicalizam as pessoas, as quais se revoltam contra o sistema e contra os políticos democráticos (nas ditaduras as revoltas são reprimidas), sendo que esse descontentamento é naturalmente aproveitado pelos políticos populistas. As crises económicas são cíclicas e embora as suas consequências venham sendo minimizadas, com um crescente apoio dos governos, quem as sofre mais profundamente é mais suscetível de ignorar esse esforço.

Poder-se-ia pensar que tudo se resolveria com uma boa formação escolar e académica, pois, afinal, é tudo uma questão de Educação. Sim, mas qual? Muitas das nossas universidades, sobretudo nas áreas sociológicas, são escolas ideológicas. Essa tradição é bastante antiga e remonta à primeira academia, fundada por Platão, como forma de difundir as suas ideias. A esmagadora maioria dos alunos destas universidades ficará, eventualmente para sempre, condicionada pela linha ideológica da sua escola. Isto acontece porque a necessidade de aceitação social é particularmente forte na adolescência e no início da fase adulta, bem como a necessidade de aceitação em grupos de amizade. Além disso, estes cursos nas áreas das ciências sociais nem sempre conduzem a empregos bem remunerados — o que gera, muitas vezes, ressentimento contra o sistema e radicalização — e por isso muitos alunos optam por um percurso académico mais longo, no decurso do qual têm de produzir trabalhos que são avaliados por professores da linha ideológica da escola, e produzem artigos “científicos” que são avaliados pelos seus pares, igualmente formados na mesma linha ideológica. Entra-se num círculo vicioso que se autoalimenta, onde, entre a ideologia e a realidade, a primeira sai sempre vencedora. É por isso que, por estranho que pareça, muitas universidades são verdadeiros “templos de irracionalidade”.17

Pode realmente parecer estranho para os mais incautos, mas se pensarmos que a revolta de muitos intelectuais — nomeadamente os que vamos analisar de seguida como precursores do wokismo — se dirigiu, precisamente, contra a razão, chegaremos à conclusão de que não há qualquer exagero em considerar um número significativo de universidades dedicadas aos estudos sociais como verdadeiros templos de irracionalidade. É a pura verdade.

4.6. Wokismo e reacionarismo — os extremos autoalimentam-se

Um dos fenómenos ideológicos mais debatidos, muito influenciado pela academia, é o chamado wokismo. Para entender este fenómeno temos de recuar um século, até 1923 e ao Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, na Alemanha, onde ocorreu um encontro entre vários intelectuais marxistas, desiludidos com a pouca adesão dos operários ocidentais à ideologia que defendiam. Estes intelectuais chegaram à conclusão de que a fraca adesão dos operários à teoria de Marx se devia ao domínio cultural exercido pelas instituições ocidentais onde viviam.18 Se o problema era cultural, a resposta tinha de ser cultural. Unindo marxismo e psicanálise, duas pseudociências então em voga (ver citação de Popper acima), os intelectuais daquela que anos mais tarde (anos 60) ficou conhecida como Escola de Frankfurt chegaram à conclusão de que as instituições culturais do Ocidente — família tradicional, moral sexual, educação, arte — funcionavam como um mecanismo de dominação psicológica, forçando os trabalhadores a aceitar essa dominação como natural. O que era necessário, então, não era uma revolução económica violenta, mas uma revolução cultural gradual. Esta abordagem “filosófica” e sociológica ficou conhecida como Teoria Crítica, em homenagem a Max Horkheimer, que a apresentou pela primeira vez em 1937.

Assim começou o ataque às instituições culturais do Ocidente que culminou no wokismo — um ataque deveras eficaz, pois condicionou não só a academia, mas também a linguagem usada nos meios de comunicação tradicionais, a política cultural dos governos, e a forma politicamente correta como nós próprios devemos comunicar. Os intelectuais da Escola de Frankfurt tiveram que fugir da Alemanha após a ascensão de Hitler e refugiaram-se nos Estados Unidos. Em 1934, o Instituto de Pesquisa Social reabriu em Nova Iorque, afiliado à Universidade de Columbia. Dez anos depois, Max Horkheimer e Theodor Adorno publicaram Dialética do Esclarecimento. A sua tese fundamental era a de que a ilustração, o progresso, a razão e a ciência não libertaram a humanidade, antes a escravizaram. Herbert Marcuse, em 1955, publicou Eros e Civilização, afirmando que a repressão sexual é a base do capitalismo, e advogando a libertação sexual total; criou a Nova Esquerda e ensinou política de identidade nas universidades americanas. Em 1964, Marcuse publicou O Homem Unidimensional: a sociedade capitalista controla-nos com consumo, entretenimento e comodidade — pensamos ser livres, mas somos apenas escravos.

A única solução é a destruição completa do sistema cultural vigente. Marcuse tornou-se o herói intelectual das revoltas estudantis de 1968: o Ocidente é opressivo; a família é a célula do fascismo capitalista; a moral tadicional é dominação. Entretanto, outro elemento da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin, justificou a morte da arte tradicional — a fealdade (“honesta”) passou a ser uma virtude, enquanto a beleza (“suspeita”) era malvista, e o único critério estético passou a ser o da provocação. Nos anos 80 e 90 do século XX as ideias da Teoria Crítica foram assimiladadas pelos pós-modernistas franceses (Foucault, Derrida, Lyotard), que as radicalizaram. Michel Foucault afirmou: “todo o conhecimento é poder”. Nos anos 90 surgiu a Teoria Crítica da Raça, advogando que a sociedade americana está estruturada para oprimir minorias raciais. Judith Butler afirmou que o género de um indivíduo é uma criação social performativa e que o sexo biológico é uma construção social; não há mulher nem homem naturais, apenas papéis impostos pelo poder. Para Edward Said, professor de literatura da Universidade de Columbia, toda a cultura ocidental é imperialismo disfarçado. O Ocidente deveria envergonhar-se permanentemente da sua história.

Eis a origem histórica do wokismo, o seu percurso e o seu padrão claro — o ódio ao Ocidente. Não deixa de ser irónico que intelectuais fugidos de uma atroz ditadura totalitária, refugiados num país livre, tenham atacado de forma tão violenta e injustificada a própria liberdade. As suas ideias são um excelente exemplo do papel nocivo das ideologias radicais. As suas teorias não passam de dogmas, de pseudociência, de formas insidiosas e engenhosas de construção de carreiras académicas. E têm como consequência o aumento exponencial, que se verifica um pouco por todo o lado, das contrapartidas de extrema direita. De facto, nas universidades de ciências sociais não há liberdade, antes há temas proibidos, perguntas censuradas e autores malditos. O pensamento pseudocientífico, mas politicamente correto, é mais uma das formas pelas quais se condiciona a mente ideológica.

5. Conclusão

O futuro é aberto. Ninguém sabe se a radicalidade ideológica irá crescer ou diminuir, ou se passará por fases de crescimento e de decréscimo (o mais provável). A consequência mais importante da subsistência da radicalidade ideológica e da prevalência em largas zonas do globo do autoritarismo é a ausência de paz no mundo. Os estados democráticos têm medo dos estados autoritários e vice-versa, e por isso rearmam-se. A experiência da Guerra Fria mostra-nos como o medo impulsionou a corrida aos armamentos e como a corrida aos armamentos exponencia a capacidade de destruição dos países (incluindo a capacidade nuclear).

Poderíamos esperar que, com o reforço de uma educação para a liberdade, e com o passar do tempo, esse amor pela liberdade prevalece-se nos nossos genes. Mas o mais provável é que essa visão seja demasiado ingénua, pelo menos nos curto e médio prazos. Assim sendo, só nos resta defender a liberdade nos nossos países de tradição judaico-cristã, genericamente conhecidos, no seu conjunto, por Ocidente e tentar influenciar os outros (a forma como essa se infuência se deve fazer — ou não — é toda uma outra discussão). Defender a liberdade significa lutar por ela todos os dias.19 O que está a acontecer nos Estados Unidos e na guerra da Rússia contra a Ucrânia (só para citar dois exemplos) lembra-nos de que as tentativas de destruir a democracia tanto podem partir de dentro, com a eleição de um líder autoritário, como de fora, com a invasão de um país por outro.

Provavelmente, a maioria dos cidadãos comuns das nossas sociedades, cujas tendências para o radicalismo analisámos acima, sentiriam a falta da liberdade a partir do momento em que a perdessem. As redes sociais onde alimentam a sua raiva deixariam de existir. No entanto, muitos não têm sequer noção desse perigo, outros terão mas não se importam — pois consideram a democracia liberal um sistema injusto e corrupto ou, simplesmente hipócrita — e outros, ainda, têm uma vida tão desoladora que nem sequer pensam nisso.

Independentemente destas considerações, os factos dizem-nos que vivemos, nas nossas sociedades ocidentais e capitalistas (para usar um termo do marxismo)20, no melhor mundo de sempre. Já nos referimos aos países socialmente mais desenvolvidos — os mais justos, igualitários e felizes; aqueles onde os que não têm voz são tratados com dignidade. Isso deveria bastar como prova definitiva, mas não é isso que acontece, graças às distorções ideológicas da realidade. Steven Pinker apelidou estas distorções de contrailuminismos, uma vez que foi o grande movimento iluminista — esse verdadeiro renascimento político, depois do primeiro ensaio democrático realizado na Grécia Antiga — que nos conduziu, como já realçámos, às sociedades mais prósperas, progressistas e livres de sempre (Pinker, 2018).

Abramos os nossos olhos para o mundo belo que criámos — esse verdadeiro milagre da multiplicação — dos pães,21 dos cuidados de saúde, da água potável, dos transportes, das férias pagas, das aposentadorias, dos direitos humanos universais e da paz. (Sim, os países socialmente mais desenvolvidos são também os mais pacíficos). Isso não prova que as nossas sociedades sejam perfeitas, mas deveria alertar-nos para que só através delas podemos aspirar a sermos ainda melhores.

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Notas:

1 Saul Bellow, Jerusalém — Ida e Volta, Tinta da China, Lisboa, 2011 (ed. orig., 1976), p. 205.

2 Reinaldo Arenas, Antes que Anoiteça, Asa, Lisboa, Porto, 1993 (ed. orig. 1992), p. 273.

3 https://expresso.pt/guerra-ucrania/2026-01-01-valdai-a-pequena-versalhes-de-putin-como-e-o-palacio-isolado-que-moscovo-acusa-a-ucrania-de-ter-atacado-com-drones-a817bbaa

4https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/controversa-fortuna-de-kim-jong-un-o-36-homem-mais-poderoso-mundo.phtml

5https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/trump-aumentou-fortuna-pessoal-em-mais-de-mil-milhoes-de-euros-desde-que-comecou-o-segundo-mandato

6 https://www.sabado.pt/dinheiro/detalhe/mansoes-em-londres-hoteis-de-luxo-e-contas-na-suica-o-imperio-do-novo-lider-supremo-do-irao#:~:text=Mans%C3%B5es%20em%20Londres%2C%20hot%C3%A9is%20de,supremo%20do%20Ir%C3%A3o%20%2D%20Dinheiro%20%2D%20S%C3%81BADO

7 https://observador.pt/programas/e-o-resto-e-historia/pol-pot-a-maior-maquina-de-matar-do-seculo-xx/

8 Não apenas odeiam, como, em muitos casos, sentem inveja do nosso sucesso. O caso islamista é paradigmático. A civilização islâmica foi na Idade Média a mais avançada e, curiosamente, uma das mais tolerantes. Quando perdeu esse protagonismo e o Ocidente conquistou a supremacia económica, científica, tecnológica e cultural, a reação islamista foi de negação. Ao contrário de países como a Coreia do Sul, o Japão e Singapura, com culturas diferentes da nossa, mas que adotaram rapidamente os nossos métodos económicos e prosperaram em poucos anos, os países islâmicos mais fundamentalistas fecharam-se em si próprios e refugiaram-se na suposta superioridade da sua cultura. Vivem no mundo de outrora, reforçam as tradições religiosas anacrónicas e diabolizam a cultura ocidental. Em vez de corrigirem os próprios erros, apontam os erros dos ocidentais, fomentando guerras religiosas que deveriam ter terminado há bastante tempo (Lewis, 2002). Esta atitude de culpar o Ocidente por tudo o que corre mal é típica dos inimigos das sociedades abertas.

9 Samuel Fitoussi, Porque se Enganam os Intelectuais, Bertrand, Lisboa, 2025, p. 131.

10 Karl Popper, Busca Inacabada – Uma autobiografia intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008 (ed. orig. 1974), p. 54.

11 O resultado deste estudo deu origem ao célebre Efeito Dunning-Kruger.

12 Dean Burnett, O Cérebro Idiota, Presença, Lisboa, 2017, p. 123.

13Karl Popper, ob. cit., p. 60.

14 Brian Magee, Popper, Fontana Press, London, 1985, p. 9.

15 Sobre o carácter religioso do marxismo, ver nosso artigo aqui

16 Samuel Fitoussi, ob. cit., p. 151.

17 Samuel Fitoussi, ob. cit., p. 89.

18 Antonio Gramsci, um intelectual italiano preso pela ditadura de Mussolini, já havia adiantado o conceito de “hegemonia cultural” nos seus Cadernos do Cárcere (iniciados em 1929).

19 Popper alertou-nos para este problema através da sua formulação do paradoxo da tolerância. Não podemos ser tolerantes com os intolerantes, sob pena de estes abolirem a própria tolerância. É por isso que muitos partidos e organizações extremistas, que defendem ideologias autoritárias, deveriam ser constitucionalmente ilegalizados.

20 Roger Scruton, em Against the Tide, pp. 19-20, interroga-nos sobre a propriedade de descrever as nossas sociedades como “capitalistas” e se, em vez disso, não seria mais esclarecedor descrevê-las como elas realmente são — democracias liberais.

21 Isto é literalmente verdade. O pai da Revolução Verde, Norman Borlaug, desenvolveu, na segunda metade do século XX, estirpes de trigo, milho e arroz com uma produtividade muito superior à dos seus antepassados. Isto, combinado com novas técnicas de fertilização, irrigação e gestão de colheitas, multiplicou a produtividade alimentar de forma exponencial, contrariando as anteriores previsões pessimistas de Malthus.

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Referências:

  • Applebaum, Anne, O Crepúsculo da Democracia — O Fracasso da Política e o Apelo Sedutor do Autoritarismo, Bertrand, Lisboa, 2022 (ed. orig., 2020).
  • Arenas, Reinaldo, Antes que Anoiteça, Edições Asa, Porto, 1993 (ed. ori., 1992).
  • Bellow, Saul, Jerusalém — Ida e Volta, Tinta da China, Lisboa, 2011 (ed. orig., 1976).
  • Boyer, Pascal, Minds Make Societies — How cognition explains the world humans create, Yale University Press, New Haven and London, 2018.
  • Burnett, Dean, O Cérebro Idiota, Presença, Lisboa, 2017.
  • Dillon, Michael, Xi — O que precisamos saber sobre o líder mais poderoso do mundo, Ideias de Ler, Lisboa, 2026 (ed. orig., 2024).
  • Fitoussi, Samuel, Porque se Enganam os Intelectuais, Bertrand, Lisboa, 2025.
  • Gat, Azar, Ideological Fixationfrom the stone age to today’s culture wars, Oxford University Press, New York, 2022.
  • Hayek, Friedrich, O Caminho da Servidão, Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1990 (ed. ori., 1944).
  • Kasparov, Garry, O Inimigo que Vem do Frioa liderança de Putin e a grande ameaça à paz mundial, Clube do Autor, Lisboa, 2016 (ed. ori., 2015).
  • Kershaw, Ian, Personalidade e Poderconstrutores e demolidores da Europa Moderna, D. Quixote, Lisboa, 2022.
  • Lewis, Bernard, O Médio Oriente e o Ocidente — o que correu mal?, Gradiva, Lisboa, 2003 (ed. orig., 2002).
  • Magee, Bryan, Popper, Fontana Press, London, 1985 (ed. orig. 1973).
  • Molina, Hilda, Mi verdadde la revolución cubana al desencanto; la historia de una luchadora, Planeta, Buenos Aires, 2010.
  • Pinker, Steven, O Iluminismo Agora — em defesa da razão, ciência, humanismo e progresso, Presença, Lisboa, 2018.
  • Popper, Karl, Conjecturas e Refutações, Almedina, Lisboa, 2003 (ed. orig. 1963).
  • Popper, Karl, Unended Quest — An Intellectual Autobiography, Open Court, Illinois, 1985 (ed. orig. 1974).
  • Rallo, Juan Ramón, Liberalismo — Os 10 Princípios Fundamentais da Ordem Política Liberal, Presença, Lisboa, 2024.
  • Rees, Laurence, The Dark Charisma of Adolf Hitler — leading millions into the abyss, Ebury Press, London, 2012.
  • Sánchez, Juan Reinaldo, A Face Oculta de Fidel Castro, Planeta, Lisboa, 2014.
  • Scruton, Roger, Against the Tide, Bloomsbury, London, 2022.
  • Snyder, Timothy, Sobre a Tirania — Vinte Lições do Século XX, Relógio D’Água, Lisboa, 2017.
  • Wrangham, Richard, Goodness Paradoxhow evolution made us both more and less violent, Profile Books, London, 2019.
  • Zmigrod, Leor, O Cérebro Ideológicouma ciência radical das mentes suscetíveis, D. Quixote, Lisboa, 2025.

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Christopher Sellars, o investigador de Vila Velha

Chris e a Pedra de Itamaracá (foto gentilmente cedida por Christopher Sellars).

Sempre que vamos a Vila Velha (esta é a quarta ou quinta vez) voltamos um pouco mais instruídos. Quase não acreditamos que já se passaram 14 anos desde que escrevemos um pequeno artigo sobre a igreja mais antiga do Brasil e cerca de 17 anos desde que conhecemos Christopher Sellars, em Vila Velha, em 2009! Ele é o único estrangeiro que vive dentro do perímetro que limitava no início do século XVI o povoado de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, na Ilha de Itamaracá, estado do Pernambuco, Brasil. Naquela época, o povoado era todo ocupado por estrangeiros, hoje mora ali um único estrangeiro, mas não um qualquer: alguém que veio demonstrar que a história desta vila está mal contada e, com ela, toda a historiografia oficial sobre a colonização do Brasil, e não só.

Comecemos pelo início. Christopher Sellars, nascido no sul de Inglaterra, há 73 anos, chegou a este pequeno povoado, em 2006, a bordo de um buggy comprado no estado brasileiro do Paraná, depois de ter vivido três décadas no interior da América do Sul, sobretudo na Bolívia, e ter decidido, após esse período, explorar o litoral atlântico do continente. Conduziu o buggy pela costa, desde São Paulo, serpenteando durante meses por estradas litorâneas, até que chegou a Vila Velha. O seu destino era São Luís, no Maranhão, mas ao deparar-se com a soberba vista sobre o braço de mar, cuja designação em tupi foi escolhida para dar nome ao estado do Pernambuco, Chris deslumbrou-se.

Não foi o primeiro nem certamente será o último — a vista deste miradouro é realmente fantástica. A impressão produzida foi de tal ordem que ele decidiu, nas suas próprias palavras, “pendurar os chinelos”. Ali mesmo. Procurou uma casa para morar, comprou-a e, enquanto a reformavam, viveu uns tempos num espaço alugado. A casa que comprou situa-se num estreito parapeito natural, no topo de uma colina que desce, abruptamente, da vila até ao canal de Santa Cruz, que circunda a formosa ilha de Itamaracá. Em 2008, Christopher Sellars teve conhecimento, com espanto, de que a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE) queria demolir as casas daquele pequeno terraço, com o argumento de que estavam construídas sobre um local histórico onde, supostamente, teriam sido colocados uns canhões…

Foi a partir daí que começou a investigar e não mais parou.

“O que eles foram fazer, mexeram com o inglês, agora vão sofrer as consequências!”, disse-me o meu amigo brasileiro, Ismael Northfleet, descendente de ingleses, enquanto voltávamos da visita que há dias fizemos a Chris, em Vila Velha, e da qual resultou este artigo. Na verdade, Mr. Sellars nunca se convenceu de que essas peças de artilharia estivessem posicionadas naquele local e descobriu que, de facto, os canhões nunca foram carregados até ao topo, antes ficaram estacionados no sopé da colina; e acabou por descobrir algo bem mais importante: a atual Vila Velha foi permanentemente povoada por europeus desde 1503 até hoje — e desse povoamento resultaram variadíssimos acontecimentos ignorados pela historiografia oficial.

O inglês de Vila Velha — deve ser assim que muitos o tratam por aqui — já foi mencionado e entrevistado várias vezes em reportagens televisivas, tem um canal próprio no youtube e já publicou dezenas de artigos relevantes na academia.edu. A pesquisa que vem realizando é por sua conta e risco, pois não é historiador profissional nem tem formação académica. E talvez por isso seja tão ignorado pelas entidades oficiais brasileiras, com algumas honrosas exceções, como seja a do IHAGGO (Instituto Histórico Arqueológico e Geográfico de Goiana). Isso não impede que Christopher Sellars tenha já desbravado o caminho para uma nova e mais fidedigna História da Colonização do Brasil. De acordo com as suas pesquisas, a primeira fortaleza, a primeira igreja e a primeira sinagoga do Brasil foram construídas, progressivamente, na Vila de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, e isto, por si só, choca fortemente com o que é ensinado nas escolas e divulgado na imprensa, nas televisões e até nas redes sociais, no Brasil.

Chris é apaixonado pela descoberta. Em setembro último viajou até a Volta Grande do Rio Xingu para procurar a Pedra de Itamaracá, uma rocha ígnea perdida na selva desde há 140 anos. Encontrou-a (aliás encontrou não apenas essa pedra mas também outra, porque, como veremos, são mais do que uma) e nós fomos encontrá-lo, por nosso turno, ainda muito entusiasmado com essa descoberta. Eis o que resultou da conversa que tivemos há dias em Vila Velha, sendo que este registo e, no fundo, este artigo, constitui também a nossa homenagem a um homem que vem contribuindo, com o seu empenho, para dignificar a História, não apenas do Brasil ou de Portugal, mas, na verdade, de vários outros países envolvidos na colonização do Novo Mundo.

Em torno de um desenho de Vila Velha do século XVII.

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ilovealfama (ILA) – Chris, porquê esse tão grande interesse pela Pedra de Itamaracá?

Christopher Sellers (CS) – É um interesse lógico porque Itamaracá é o nome desta ilha. Desde que aqui cheguei, eu me interrogava sobre o significado do lema que li no Palácio da Prefeitura — “A pedra que canta”. Mas que pedra e que canto? Procurei respostas para esta pergunta e obtive algumas. Mas só na sequência da leitura de um artigo na Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro do ano 1887, que tratava de uma expedição ocorrida no ano 1879 ao Baixo Xingu/PA, mais propriamente à zona da Cachoeira e Rio Itamaracá, se fez luz na minha mente. Pode-se imaginar a minha surpresa quando vi que a meta da expedição fora a Pedra de Itamaracá!    

ILA – E o que descobriste, desde então?

CS – Bom, é preciso dizer, em primeiro lugar, que a pedra de Itamaracá é na realidade um fonolito que, quando percutido com um martelo, ou outra pedra, emite um som forte parecido ao de um sino. E poderíamos dizer que o vocábulo “itamaracá” é, na realidade, sinónimo de “sino”, no sentido em que é um objeto duro que emite um som em tudo idêntico ao de um sino. Itamaracá é uma palavra composta, e geralmente o elemento “ita” é traduzido por “pedra” e “maracá” por “som”. Mas “ita”, que é efetivamente um substantivo, passou a ser também um adjetivo, que significa “duro”, depois da chegada dos europeus. Os índios ainda não tinham conhecimento dos metais usados pelos invasores, como o ferro e o bronze, e usaram o elemento “ita” no sentido de “dureza”. Isso levou-me a deduzir que, face à inexistência de qualquer outro objeto nesta ilha que soasse a quilómetros de distância, além do sino da igreja, fosse este sino a razão pela qual lhe foi dado o nome de Itamaracá.

ILA – Para provares isso quiseste sentir com teus próprios olhos e ouvidos a verdadeira pedra de Itamaracá…

CS –Sim. Há 140 anos que a Pedra de Itamaracá estava esquecida na Volta Grande do Rio Xingu. Em 1676, o padre jesuíta Pedro Poderoso fez uma breve menção à Pedra; e só duzentos anos mais tarde, houve uma verdadeira expedição, comandada por Ferreira Penna (fundador do museu Emílio Goeldi, em Belém) à qual se seguiu, 12 anos depois, uma outra, chefiada pelo francês Henri Coudreau, que fez alguns desenhos. No relato destas expedições são mencionados um rio, uma cascata e uma pedra de Itamaracá, que os indígenas consideravam sagrada. Finalmente, eu próprio redescobri esse complexo de pedras, mal desenhado por Coudreau, pois, na verdade, é de um conjunto de três pedras que se trata — a pedra cajituba, a pedra itamaracá e a pedra itapaúna — e fiz um filme onde apareço a bater com um martelo na pedra, reproduzindo o som de um sino. Há mais de dez anos que eu queria conhecer a Pedra, mas por vicissitudes várias ainda não tinha podido ir. Eu tinha muito receio de que a construção da nova barragem de Belo Monte viesse a inundar a região e eu não tivesse tempo, tinha de pôr-me a caminho. Consegui e, para mim, é fantástico isso!

ILA – E o dia em que chegaste à Pedra foi exatamente qual?

CS – Dia 3 de outubro de 2025.

ILA – Foi fácil lá chegar?

CS – Daqui à Volta Grande do Xingu são três dias de ônibus, e depois de chegar lá ainda demorei mais alguns dias até atingir o local onde estão as pedras. As populações mais próximas desconheciam completamente a existência da Pedra. Quando cheguei procurei os dois homens mais velhos de uma comunidade próxima, um desses anciãos era caçador e conhecia a mata, mas nunca tinha ouvido falar, sequer, da Pedra, ninguém sabia do que eu estava falando, devem ter pensado que era apenas mais um maluco que chegara ali. Pensei em contratar alguém para vir comigo, mas ninguém aceitou, pelo que fui sozinho, com a minha tenda e o meu pequeno fogão a gás… Num primeiro momento, apenas encontrei algumas pedras com gravuras, das quais não há qualquer registo, e não era isso que eu procurava. Continuei, mas foi difícil, pois encontrei mata densa e tive que abrir uma picada, trabalhando durante 4 ou 5 horas para avançar uns 300 metros. Além disso foi preciso transpor rochas enormes do tamanho de casas. Mas consegui. E verifiquei que os desenhos deixados por Coudreau deixam algo a desejar, são pouco rigorosos. Enfim, apesar de tudo tive muita sorte, pois cheguei àquela zona em finais de setembro e não demorei muito tempo até chegar às pedras, e consegui encontrar uma que os meus antecessores não descobriram — a Pedra Itapaúna. Ferreira Penna, Coudreau e, inclusivamente, o jesuíta Pedro Poderoso, há 400 anos, nenhum deles chegou à última pedra — a Itapaúna. Penna e Coudreau referiram que os índios lhes falaram dessa pedra, mas acontece que é extremamente difícil chegar lá, tanto é que eles não foram. Mas os índios não estavam mentindo — isto eu posso afirmar porque eu a encontrei.

ILA – Bom, mas a pedra principal é a de Itamaracá.

CS – Assim é. Mas como já disse há três pedras, sendo que, na verdade há duas mais importantes. Eu deixei escapar uma destas. Os desenhos de Coudreau revelam que à esquerda da Pedra de Itamaracá há uma pedra mais pequena que tem inscrições que parece serem duas letras, mas que na verdade não são letras. Essa pedra eu não encontrei. Mas quando cheguei aqui e comecei a rever as fotos e os vídeos que fiz no local, não é que num dos vídeos eu reconheci essa pedra? Constatei que passei por ela sem a reconhecer! É difícil encontrá-la porque está coberta com líquen, o que dificulta a identificação. Por isso conto viajar até lá de novo dentro de 2 ou 3 semanas. No entanto, a Pedra de Itamaracá está mais preservada porque está numa posição que a protege do sol e da chuva.

ILA – Para percorreres tantos quilómetros e ultrapassares tantos obstáculos, e estares disposto a fazê-lo de novo, só pode ser porque consideras mesmo muito importantes essas pedras…

CS – Sobretudo pelos petróglifos inscritos nelas. Não há dúvida que se trata de instruções ou informações. Pedras com desenhos similares existem por toda a América do Sul e em muitos outros lugares pelo mundo e eu calculo que as inscrições nesta pedra tenham no mínimo quatro mil anos. Além disso, podemos associar esses petróglifos a algo atual — o facto de que essa pedra soa — e isso pode ser o primeiro passo para decifrá-los e, em consequência, conhecermos muito mais sobre a vida dos indígenas sul-americanos de há milhares de anos. Pode ser uma nova Pedra de Roseta e corresponder ao início de uma pesquisa fascinante. E agora vou contar-vos algo que pode soar um pouco estranho, fantástico mesmo, mas essa pedra, a única e verdadeira Pedra de Itamaracá, antes da chegada dos europeus, era conhecida em toda a América do Sul, até às Caraíbas, e é o objeto mais reverenciado entre todas as tribos — é tupã.

ILA – É realmente fantástico, Chris, custa acreditar que realizaste esse sonho, e não há dúvida de que a tua exploração e a tua pesquisa podem (sem dúvida, deveriam) abrir caminho a uma melhor compreensão da vida dos antigos povos indígenas deste continente. Mas voltando um pouco atrás no tempo, meio-século antes desta tua viagem, qual foi o motivo da tua chegada à América do Sul?

CS – Bom, eu sempre fui um pouco aventureiro e sempre gostei de viajar. Habituei-me desde pequeno. Por exemplo, ia com meus pais nas férias anuais para países como as Grécia, Jugoslávia ou Turquia. E quando tinha 17 anos eu já viajava sozinho pelo Norte de África. Então, vir parar aqui foi uma coisa natural para mim, não posso dizer que houve uma motivo específico.

ILA – E ainda tens família em Inglaterra?

CS – Bom, da família próxima, que permaneceu por lá, apenas tenho uma irmã, mais nova que eu. E tenho dois filhos a viver em Inglaterra: a filha mais velha, que nasceu em 1978, precisamente lá, porque viajei com sua mãe desde a Bolívia para que isso acontecesse; e o meu único filho, que nasceu na Bolívia, em 1983. Esta minha filha fez a sua formação académica na Inglaterra e tem um mestrado na área do Ambiente; trabalhou vários anos no Chile numa empresa de controlo da mineração.

ILA – E tiveste mais filhos?

CS – Sim, tenho mais duas filhas brasileiras, de outra relação, que vivem com a mãe, aqui no Brasil.

ILA – E tiveste alguma vez um interesse particular em estudar História? Coloco-te estas questões mais pessoais, apenas para, de outra forma, tentar perceber se a tua decisão de vir para a América do Sul e se o teu percurso até chegares a Vila Velha tem alguma ligação com a investigação histórica que iniciaste.

CS – Não, nada específico. Obviamente, sempre tive uma curiosidade e um interesse gerais sobre o que me rodeia, mas quando cheguei aqui decidi ficar pela vista. A verdade é que eu fiquei mesmo emocionado com esta vista, a tal ponto que comprei uma casinha e decidi terminar aqui meus dias. Mas hoje estou um pouco desiludido. Enfim, eu cheguei aqui de buggy, tinha decidido explorar o litoral brasileiro. Quando cheguei, em 2006, comprei uma choça, que reconstruí, e depois de mais ou menos um ano e meio, a casa já estava habitável e eu fiquei então definitivamente aqui. Qual o meu espanto quando, após uns meses, apareceram uns funcionários da FUNDARPE que queriam demolir a minha casa, aduzindo que a mesma estava construída sobre uma plataforma de artilharia. Ora, eu sabia que nenhum português, nem nenhum holandês, iria colocar canhões num local que não precisava. A 50 metros de altura, os canhões não iam atirar para baixo, eles disparam na horizontal ou ligeiramente para cima; e o ponto branco dos canhões naquela época era de mais ou menos 400 metros. Eles disseram que havia ali uma bateria, mas tal é impossível, é ridículo. Eu mesmo disse isso aqui numa audiência com o Ministério Público. Então, para proteger o investimento que tinha realizado (risos), comecei a investigar e a descobrir mais e mais e mais… e era assombroso!

ILA – De acordo com a tua investigação, foi aqui que começou a colonização portuguesa, certo?

CS – Sim, esta vila era rodeada por um muro de taipa, com 2 metros de espessura por 4 metros de altura, que fechava uma área de mais de 20 hectares, era um assentamento perfeitamente organizado, uma verdadeira cidadela. Para se ter uma ideia, quando os holandeses conseguiram por fim tomar Vila Velha, em 1633, eles não conseguiram guarnecer completamente esse muro, por falta de soldados, e deixaram-no arruinar-se.

ILA – Mas muito antes da chegada dos holandeses, de acordo com a tua investigação, foi aqui que se construíram pela primeira vez várias edificações importantes.

CS –Sim, a primeira igreja, cuja construção em alvenaria eu calculo que se tenha iniciado em 1518, muito antes de Igarassu, S. Vicente ou qualquer outro lugar; a primeira fortaleza; e o primeiro engenho açucareiro. E mais tarde — e isto eu tenho absolutamente comprovado, basta ler um artigo que escrevi no academia.edu, em 2014 — a primeira sinagoga. Este lugar tem a primazia em relação a tudo o que se refere à colonização quinhentista do Brasil. E sabem o que é igualmente interessante (embora isso não pareça interessar aos historiadores)? Em 1636, Nassau foi contratado pela WIC, e os diretores e donos da companhia queriam que fosse aqui, precisamente aqui, instalado o centro administrativo de toda a atividade holandesa no Norte do Brasil. Eu tenho esse documento. O contrato foi celebrado em setembro de 1636 e publicado numa gazeta francesa, em Paris.

ILA – Quer dizer que o primeiro engenho açucareiro não foi montado em S. Vicente (Engenho do Bom Governador), como está amplamente divulgado, mas, antes, aqui?

CS – Essa história de S. Vicente não passa de papo furado. Vou contar-vos como se iniciou a exploração açucareira no Brasil. Em 1515, D. Manuel emitiu dois alvarás. O primeiro convidava seus vassalos a virem cultivar cana para o Brasil, sendo que a coroa pagaria a passagem, as ferramentas necessárias e ainda providenciaria ajuda técnica. O segundo alvará instruía a Casa da Índia a encontrar uma pessoa que tivesse conhecimento sobre plantação de cana de açúcar, e a Casa da Índia indicou o madeirense Pero Capico. Já se produzia açúcar na ilha da Madeira há 50 anos, e antes disso na Sicília — esse conhecimento foi transmitido aos europeus pelos Árabes. E foi Pero Capico quem construiu o primeiro engenho de açúcar no Brasil, aqui mesmo, em Itamaracá. Ele chegou em 1516, trazido por Cristóvão Jacques, um tipo assaz sanguinário e cruel, que alguns acreditam ter sido o fundador da primeira feitoria. Mas ele não fundou nada, antes afundou várias embarcações e se dedicou a enterrar inimigos até ao pescoço e depois matá-los com golpes na cabeça. Era um tipo extremamente belicoso, como era a maioria na época. Por exemplo, o castigo preferido de Sebastião Caboto (que ficou aqui por 3 meses, em 1526) era o corte de orelhas dos marinheiros insubordinados. Seja como for, há evidência de que houve exportação de açúcar daqui para a Europa a partir de 1516. Portanto, o primeiro engenho açucareiro foi construído aqui.

ILA – Por falar em tipos belicosos, lembrei-me do episódio de Pero Lopes com os franceses, sobre o qual já te ouvi falar noutras ocasiões.

CS – Ah, sim, isso envolve o famoso navio La Pèlerine. Havia um nobre francês, de Lyon, o barão de Saint Blanchard, almirante de embarcações que operavam no Mediterrâneo e tinham a sua base em Marselha no sul de França. Esse nobre decidiu meter-se no negócio do pau-Brasil. Então, ele armou uma pequena frota que chegou aqui nas vésperas do Natal de 1530. Os franceses acabaram brigando com os portugueses que aqui estavam, roubaram jóias e outros objetos da igreja, como castiçais de prata maciça, fizeram seis reféns e partiram sem sequer ficarem para o réveillon. Depois dessas escaramuças, viajaram para Sul e refugiaram-se na ilha de Santo Aleixo, onde ergueram uma bateria. Entretanto, em finais de fevereiro, inícios de março, chegaram aqui os irmãos Martim Afonso e Pero Lopes, que haviam saído de Portugal no dia 3 de dezembro de 1530. (Tudo isto está no diário de Pero Lopes, mas muitos historiadores, simplesmente, ignoram!). A propósito, Pero Lopes, em carta enviada ao Rei, atestou que a Vila de Conceição era fortificada, nela havia muitos portugueses, uma igreja, açúcar e pólvora, entre outras coisas, há dezenas de anos. Mas voltando à história que estava contando, algum tempo depois de terem chegado aqui, também os dois irmãos, Afonso e Lopes, se dirigiram para sul, rumo a S. Vicente. Já em 1531, Martim Afonso, que era o irmão mais velho, ofereceu a Pero Lopes uma nau francesa, que eles tinham capturado, e fê-lo comandante do navio. Pero Lopes decidiu regressar a Portugal. Quando chegou perto da ilha de Santo Aleixo e verificou que lá estava uma bateria francesa, bombardeou-a durante 18 dias consecutivos. Os franceses, que eram comandados pelo capitão de La Motte, tendo esgotado as munições, não tiveram alternativa e renderam-se. Lopes havia-lhes prometido clemência, mas a primeira coisa que fez foi enforcar La Motte junto com 20 soldados franceses, prendendo os restantes. Mas o pior pecado que cometeu — Pero Lopes era um cristão assumido — foi ter oferecido dois soldados franceses aos índios, para estes fazerem um churrasco. É por isso que no seu diário, há seis páginas que, apesar de numeradas, estão completamente em branco.

ILA – Quem as branqueou?

CS –Damião de Góis, que era guarda-mor da Torre do Tombo, em Lisboa, recebeu o diário de Pero Lopes, e antes de transcrevê-lo, enviou-o a Martim Afonso para revisão. Foi quando desapareceu o conteúdo das seis páginas. Pero Lopes já tinha morrido e era preciso defender a sua reputação. Foi por isso que o diário foi redatado e foram apagadas as seis páginas comprometedoras. É interessante observar que este episódio recambolesco, entre outros, começou precisamente aqui, em Vila Velha.

ILA – Esta centralidade da Vila de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, nos primórdios do colonialismo português no Brasil, que, podemos dizer, tu desbravaste, indica que o povoamento europeu deste país (que é hoje um dos maiores do mundo) começou neste lugar onde nos encontramos. Que acontecimentos mais importantes revelam essa centralidade, podes enumerá-los cronologicamente?

CS – Bem, Vila Velha é continuamente povoada, pelo menos, desde 1503. Fernão de Loronha (Fernando de Noronha), que era um cristão-novo amigo pessoal de D. Manuel, obteve um contrato com a coroa para explorar os recursos brasileiros, sobretudo pau-Brasil, do qual se extraía um corante vermelho, muito procurado naquela época. (Esta madeira também é valorizada até hoje pelos fabricantes de arcos para instrumentos de cordas). Com esse contrato, Noronha financiou as expedições de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, de 1501 e 1503, sendo que, em 1504, D. Manuel outorgou a Fernando de Noronha o arquipélago homónimo, tornando-o capitão hereditário. Estes contratos estavam baseados em Vila Velha, tinham três anos de duração e foram renovados algumas vezes. Em 1512, a coroa estabeleceu este tipo de contrato com Jorge Lopes (Bixorda), o qual, no ano seguinte (1513) levou 3 indígenas Caetés ao rei D. Manuel. Já referi os dois alvarás emitidos em 1515 por D. Manuel e o início da exploração de cana, aqui, por Pero Capico. E talvez possa contar dois outros episódios da década de 1520 que revelam, sem margem para dúvidas, a centralidade desta vila. O primeiro relaciona-se com Sebastião Caboto, que estava encarregado de ir as Molucas com o patrocínio da coroa de Espanha, mas, por peripécias da navegação, veio parar a Vila Velha. Com ele vinha o padre português, Francisco Garcia, que afirmou estar a igreja de Nossa Senhora da Conceição equipada com tudo o que era necessário para a celebração da missa. Isto foi em 1526. Esta expedição, que fora financiada pelo empresário inglês Robert Thorne, residente em Sevilha, e levava na comitiva outros dois ingleses, Roger Barlow e Hugh Latimer, acabou por rumar à Argentina, depois dos habitantes de Vila Velha mencionarem a Caboto as riquezas existentes no rio de Soliz (rio da Prata). Foi ali que levantaram um forte — Sancti Spiritu— o primeiro assentamento europeu em terras argentinas, hoje com o nome de Puerto Gaboto.

ILA – E o segundo episódio?

CS – É uma carta de 1527 dirigida a Carlos V, e escrita em Vila Velha por D. Rodrigo da Cunha. Este espanhol embarcou numa expedição às Molucas, comandada por Loaísa, mas não conseguiu passar para o Pacífico, teve problemas com franceses que o lançaram ao mar numa chalupa (há uns baixios na região sul de Alagoas que ainda têm o seu nome), acabando por chegar a Vila Velha, com 12 membros da tripulação, onde pensava encontrar compatriotas, mas acabou por encontrar portugueses. Esse foi o motivo de uma segunda carta ao bispo de Osma (Garcia de Loaysa), que era quem tratava dos assuntos ultramarinos do imperador, Carlos V, queixando-se de estar aqui retido, em Vila Velha, sob controlo de Cristóvão Jacques, sem possibilidade de regressar à Europa.

ILA – A evidência sobre o papel central de Vila Velha nesse período histórico parece, de facto, esmagadora.

CS – E há mais documentos que o comprovam. Eu apresentei, num artigo publicado no academia.edu, cópias de cinco documentos manuscritos da década de 1530, relacionados com Diogo Vaz, que foi artilheiro-chefe da fortaleza de Vila Velha. Este reclamava, em carta datada de 15 de junho de 1535, ao chefe e aos funcionários das Lojas do Reino, por falta de salário. E a sua reclamação foi atendida. Mas o que estes documentos revelam é a existência de uma comunidade colonial em pleno funcionamento já no ano de 1531, quando os irmãos Martim Afonso e Pero Lopes aqui chegaram. A administração da vila tinha um capitão-mor e um escriba oficial; havia infraestruturas e uma fortaleza com pessoal suficiente para garantir o emprego de um chefe de artilharia — emprego que era bem remunerado, pois Diogo Vaz pôde comprar três escravos africanos. Por isso, quando Duarte Coelho chegou à então Vila da Conceição, no dia 9 de março de 1535, já aqui havia toda uma organização pronta para o receber. E, ao contrário do que é dito pela historiografia oficial, Duarte Coelho não estabeleceu a sua base no continente, no local que hoje é conhecido por Sítio dos Marcos, mas aqui mesmo, no local onde nos encontramos.

ILA – Chris, não gostas de falar disto, mas nós sabemos que sentes uma certa desilusão devido a, por um lado, seres ignorado por várias entidades oficiais, enquanto, por outro lado, és frequentemente plagiado. Tens dezenas de artigos publicados, que salvaguardam a titularidade de muitas das tuas investigações, mas a pergunta que se impõe é — para quando a publicação de um livro?

CS – Tenho sido demasiado preguiçoso para escrever, mas agora estou finalmente a pensar nisso. Aliás, tenho algum material inédito que não posso revelar-lhes neste momento, pois estou a pensar usá-lo nesse tal livro.

ILA – Excelentes notícias, Chris. Muito mais teríamos a perguntar-te, sobretudo sobre o período holandês, que, sabemos, tambémdominas muito bem, mas a nossa conversa já vai longa e deixaremos essas questões para uma outra oportunidade. Obrigado por nos receberes em Vila Velha e por nos concederes esta entrevista.

CS – Por nada, foi um prazer. Voltem sempre.

Chris e o nosso grupo de “inquiridores”, em Vila Velha. Voltaremos.

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O Nobel da Paz

Medalha criada pelo escultor norueguês Gustav Vigeland. Patente no Centro Nobel da Paz, em Oslo.

O homem é um animal violento, tal como a maioria dos seus primos primatas, sendo que a agressividade humana ultrapassa largamente tudo o que qualquer outro animal é capaz de fazer. Graças às suas linguagem e inteligência, o homem é o único ser vivo que mata membros da sua própria espécie por puro sadismo e até por mera diversão.

A velha questão sobre a origem da violência humana — se é inata ou adquirida — está há bastante tempo resolvida. Somos, sim, naturalmente violentos — e os genes da agressividade estão inscritos no nosso ADN. Vários estudos convergem para este diagnóstico: a observação de outros primatas, a descoberta de ossadas e utensílios com milhares de anos, o acompanhamento de povos que vivem em regiões isoladas do globo, e a investigação levada a cabo por várias disciplinas científicas, com o uso de tecnologias de ponta, incluindo a que permite a observação da atividade cerebral, como sejam as imagens obtidas por ressonância magnética funcional (RMf).

Aceitar a realidade da nossa natureza não nos deve impedir de lutar contra ela, antes pelo contrário. A luta pelo controlo da Natureza faz parte da nossa história — é sobretudo para isso que serve a Ciência — e a luta contra a nossa própria natureza é talvez a mais difícil e a mais desafiadora.

No entanto, na esperança de que escapemos ao que os rousseauianos consideram um “determinismo biológico”, há quem negue o caráter evolutivo da nossa agressividade. Esta perspetiva tem-nos conduzido a tentativas radicais de mudança da sociedade, mesmo que para isso seja preciso uma revolução (e muita violência), uma vez que destruindo as instituições que tornam o homem mau, emergirá o homem naturalmente bom.

Uma perspetiva completamente diferente é a dos que reconhecem a violência humana, e por isso destacam o papel das intituições liberais e democráticas no seu controlo, em particular no que toca à violência mais letal — a guerra que vem ceifando a vida de milhões e milhões de seres humanos inocentes. Um homem que mate outro é justamente condenado, mas um ditador que mate milhões passa frequentemente impune. Isto é possível porque só o homem é capaz de se associar em coligações de agressão proativa, nas palavras de Richard Wrangham.

Só reconhecendo que estamos sempre sujeitos ao surgimento de líderes violentos e criminosos capazes de arregimentar e comandar essas coligações, poderemos prevenir-nos, zelando todos os dias pelas instituições capazes de controlá-los e afastá-los do poder.

Os rousseauianos, mas também os marxistas, que em geral são as mesmas pessoas, tendem a desvalorizar o papel das instituições democráticas no que diz respeito à prevenção da violência e da guerra, referindo, com razão, que muitas democracias liberais também são belicistas.

Esquecem-se, porém, de que o caminho para a paz é longo, árduo e tortuoso (faz parte da luta referida acima). Nesse processo há países mais avançados, com os estados do Norte da Europa à cabeça, mas também há, além disso, uma correlação direta e positiva entre democracia e paz: os países mais democráticos são igualmente os mais pacíficos.

Esta correlação está sempre presente no espírito dos membros do Comité Nobel Norueguês e corresponde a uma posição pragmática e tanto quanto possível objetiva que, obviamente, não agrada à maioria dos crentes das ideologias radicais.

Aqueles que admitiam ser possível a atribuição do Nobel da Paz a um pseudodemocrata como Donald Trump não conhecem os critérios de decisão, nem o espírito que norteia a ação, do Comité Nobel Norueguês.

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Democracia e Poder

A democracia caracteriza-se, em termos práticos, pela dispersão e, através desta, pelo controlo do poder. Quanto mais efetiva for essa dispersão, mais efetivo será também o controlo, e melhor será a qualidade da democracia. O poder disperso por muitas mãos é, portanto, a mais importante característica da democracia e todos os itens que medem a qualidade democrática se relacionam, de uma maneira ou outra, com essa característica.

Por exemplo, um sistema onde os membros do Supremo Tribunal sejam nomeados pelo poder político e tenham um mandato vitalício (Estados Unidos) é menos democrático que outro onde os membros do Supremo Tribunal sejam nomeados por uma comissão independente do poder político e cujo mandato tenha prazo de validade (Dinamarca). Esta não é uma questão menor: a independência judicial está em causa nos Estados Unidos (Trump), mas é muito mais estável nos países escandinavos, os mais democráticos do mundo.

A qualidade das instituições democráticas, proporcionada pela dispersão do poder, corporiza, nos países escandinavos, três vantagens evidentes: dignidade de tratamento concedido aos mais desvaforecidos (presos, doentes mentais, idosos em fim de vida), corrupção limitada, e uma atitude pacífica nas relações internacionais. Além disso, há maior igualdade e coesão social: é normal os políticos escandinavos se deslocarem, nas cidades, em transportes públicos ou de bicicleta e não se considerarem acima dos cidadãos comuns. Por isso não se apegam ao poder.

Se isto acontecesse noutras paragens, indivíduos aparentemente afáveis e simpáticos — Hitler era vegetariano, adorava animais e tinha um feitio afável e paternal; Pol Pot era um simpático e cordial professor de História Francesa; Estaline era um indivíduo extremamente calmo e raramente gritava ou se irava — não se teriam transformado em ditadores sanguinários.

Todos eles teriam continuado a ser fofinhos, e milhões de seres humanos teriam sido poupados, se não tivessem tido a possibilidade de concentrar em si todo o poder.

O poder é um mal necessário. Só a sua dispersão pelo maior número de mãos possível pode impedir que cause demasiado dano. É para isso que se criou a democracia; é por isso que temos de zelar por ela.

Celebra-se amanhã o Dia Internacional da Democracia. Porém, num mundo onde 72% da população mundial vive sob regimes autocráticos1, o tempo é menos de celebração e mais de combate. Lutar pela democracia liberal é não só um dever cívico, mas também um ato de solidariedade e resistência.

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1 https://www.eiu.com/n/global-themes/democracy-index/

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O antiamericanismo

O antiamericanismo em esquema.

Os Estados Unidos vêm intervindo militarmente um pouco por todo o mundo pelo menos desde a Primeira Guerra Mundial, sem contar com o período expansionista anterior. Além disso, os Estados Unidos intervieram também em variadíssimos países através da espionagem, do apoio político e financeiro a governos ou oposições com eles alinhados, incluindo a eliminação de políticos considerados inconvenientes. O rol é extenso e a América é considerada por muitos o pior país do mundo, o maior financiador de guerras e o mais letal, sendo o único que até hoje utilizou sobre populações indefesas duas bombas atómicas.

A ação dos americanos na Guerra Fria, de facto, uma guerra escaldante e terrível, motivada pelo medo, foi também muito negativa. O medo do comunismo fez com que os Estados Unidos fomentassem golpes militares, financiassem grupos armados e permitissem que se instalasse internamente um período negro que ficou conhecido por macarthismo. Uma verdadeira paranóia. A ação americana na Guerra Fria constitui, por isso, uma das principais razões do antiamericanismo. E embora a luta dos Estados Unidos fosse compreensível e, para aqueles que acreditam na liberdade, inteiramente justa, os meios usados, como acontece na maioria das guerras, foram um verdadeiro desastre.

Esse desastre provocou uma justificada hostilidade à América e, tendo em conta que os Estados Unidos são uma democracia liberal, houve quem desenvolvesse uma injustificada hostilidade ao sistema democrático, à ordem liberal e, amiúde, a todo o Ocidente. Esta hostilidade mais radical levou alguns a considerarem que todas as guerras em que os Estados Unidos se involvem são injustas, logo, é sempre justo estar do lado de quem se opõe aos americanos. Para quem adota, por princípio, este tipo de postura pouco importa o monstro que tenha de engolir: Estaline, Mao, Fidel, Putin ou Khamenei. Quando confrontados com tais personagens, os antiamericanos usam invaravelmente os termos do relativismo: alguns desses ditadores até podem ser maus, mas os americanos são ainda piores.

Isto equivale a dizer que a América é o mal absoluto, a fonte de todos os problemas do mundo, enquanto todo o restante mal, que também o há, claro, é relativo. É assim que se caracteriza o antiamericanismo primário. Mas serão os Estados Unidos, de facto, o pior país do mundo?

Ao longo da História sempre houve povos mais poderosos que outros. Por diversas razões, esses povos sempre exerceram o poder da força: ou porque eram atacados, ou porque queriam conquistar território, ou porque queriam impor a sua cultura aos demais, ou porque eram ambiciosos ou, simplesmente, porque podiam. Também houve alguns líderes poderosos pacíficos, mas isso só aconteceu em períodos em que o mundo estava ainda segmentado, não havia outros povos igualmente poderosos por perto, e o governante podia dedicar-se em exclusivo ao seu próprio povo. Mas nunca houve, que se saiba, um período de paz que abrangesse o mundo inteiro, sendo que a situação se agravou com o desenvolvimento dos transportes, com a facilidade de movimentar a máquina de guerra de um ponto do globo para outro.

Desde pelo menos a época dos Assírios que sempre houve impérios poderosos. Romanos, Árabes, Mongóis, Otomanos, Espanhóis, Holandeses, Franceses, Britânicos — todos foram expansionistas e dominadores nas suas zonas de influência. A partir da Grande Guerra (1914-18), os países, os chamados estados-nação, substituíram-se aos impérios. As grandes potências militares que emergiram da Primeira Guerra Mundial iriam confrontar-se na Segunda: Estados Unidos e Japão — hoje aliados.

Nunca houve, portanto, um período histórico sem potências dominantes. No último século, o papel de potência dominante tem cabido aos Estados Unidos. E dado que a História nos mostra que não há vazios de poder, qual a potência alternativa seria melhor para o mundo? A resposta tem de ser procurada entre os potenciais inimigos dos americanos: Rússia, China, Coreia do Norte, Irão? (É curioso ver que Marx — ele mesmo! — formulava em 1853 o mesmo tipo de pergunta em relação à Índia: “a questão, portanto, não é se os ingleses tem o direito de conquistar a Índia, mas antes se preferimos que a Índia seja conquistada pelos turcos, pelos persas, pelos russos em vez dos britânicos”)1.

Desde logo, há que ter em conta que nestes países — todos autocracias — é muito mais fácil mobilizar o povo para a guerra. Com a comunicação social e as redes sociais controladas, bem como os tribunais e o sistema educativo, é fácil doutrinar toda a população contra o inimigo: previsivelmente, o malévolo Ocidente e o seu representante máximo, os Estados Unidos. A guerra poderia ser feita sem contestação.

Nos regimes democráticos, pelo contrário, os líderes políticos necessitam de aprovação de diversos tipos para fazer a guerra — desde maiorias parlamentares até à adesão da opinião pública. Apesar de ser desvalorizado por muitos, o tipo de regime está intimamente ligado à política externa e não é teoricamente aceitável, nem está experimentalmente comprovado, que uma autocracia seja mais pacífica, pelo menos no longo prazo, que uma democracia. Quem oprime os seus em casa não pode libertar os vizinhos.

Os Estados Unidos vieram em socorro da Europa nas duas guerras mundiais e na última Administração Biden fizeram frente ao ditador Putin, ajudando os ucranianos. Não são uma democracia perfeita, mas, embora com oscilações (e que grande “oscilação” é Trump!), têm melhorado continuamente. Apesar dessas melhorias são serem suficientes, enquanto se mantiverem uma democracia continuam a ter condições para melhorarem. O que não acontece com as outras superpotências militares, enquanto se mantiverem ditaduras. É por isso que os Estados Unidos, ainda assim, são, por ora, a potência menos nociva para o Mundo.

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Nota:

1 Karl Marx, The Future Results of British Rule in India, New York Daily Tribune, August 8, 1853.

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Migrações

A imigração é um tema atual nas sociedades mais desenvolvidas, sobretudo nos Estados Unidos e na União Europeia. Líderes populistas, como Trump, Le Pen ou Ventura, insurgem-se contra os imigrantes, acusando-os de sobrecarregarem os serviços públicos, receberem subsídios indevidos e contribuirem para o aumento da criminalidade. Tudo falso, como mostra Hein de Haas, através dos dados estatísticos publicados no seu livro Como Funciona Realmente a Migração.

De Haas baseia-se em dados quantitativos para desmontar aquilo a que chama de mitos — que políticos e comunicação social propagam sobre as migrações. Já Douglas Murray analisa o problema de um ponto de vista muito mais qualitativo. A questão que se coloca é a da identidade europeia: manterá a Europa as suas matrizes religiosa, cultural, civilizacional? Ou a presença muçulmana — com as suas misoginia e homofobia, o seu aproveitamento do liberalismo europeu — acabará por prevalecer?

Alarmismo injustificado, dirão alguns. Mas muitos muçulmanos atuais encontram-se, de facto, num mundo semelhante ao dos cristãos de outrora, quando lutar contra os infiéis era a mais importante ocupação de um homem de honra. (Cliff, 2011). E tal como acontecia com o cristianismo medieval, no mundo islâmico da atualidade a independência e a capacidade de iniciativa da sociedade civil podem ser medidas de forma mais adequada, não pela sua relação com o estado, mas pela sua relação com a religião, da qual, na percepção dos muçulmanos, o próprio estado é manifestação e instrumento. (Lewis, 2002).

A análise qualitativa de Murray, mostra-nos que as migrações não são todas iguais. É este o grande contraste com o livro de De Haas. Não faz sentido falar em guerra santa, quando as sociedades liberais em que vivemos desistiram de evangelizar o mundo. Mas o que devemos fazer quando o outro lado não desistiu de lutar e insiste num proselitismo por meios violentos? A resposta a esta importante questão não é unívoca, pelo contrário, é marcadamente ideológica, e é por isso que o livro de Murray é tão polémico. No entanto, ele alerta-nos para um problema que, ao contrário de De Haas, não deveríamos ignorar.

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Referências:

  • Cliff, Nigel, Guerra SantaComo as Viagens de Vasco da Gama Transformaram o Mundo, Globo Livros, São Paulo, 2012 (ed. orig. 2011).
  • De Haas, Hein, Como Funciona Realmente a Migração, Temas e Debates, Lisboa, 2024 (ed. orig. 2023).
  • Lewis, Bernard, O Médio Oriente e o Ocidente — O que Correu Mal?, Gradiva, Lisboa, 2003 (ed. orig. 2002).
  • Murray, Douglas, A Estranha Morte da Europa, Desassossego, Porto Salvo, 2018 (ed. orig. 2017).

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Três Anos de Guerra

Foto do portão de um armazém numa rua de Cabanas, Tavira.

Voltaram a transformar a Rússia no que ela

sempre foi: uma enorme prisão.

Giuliano da Empoli, O Mago do Kremlin.

Completam-se hoje três anos sobre a invasão russa em larga escala da Ucrânia. Não se conhece exatamente o número de vítimas, a não ser que ascendem, pelo menos, às muitas centenas de milhar. Quem conhece minimamente o percurso de Putin sabe que os que perecem sob as suas ações não são apenas vítimas de guerras — seja na Chechénia, na Ingúchia, na Ossétia, na Síria ou na Ucrânia. São também os seletivamente assassinados sob as suas ordens, diretas ou indiretas: oligarcas, opositores políticos, jornalistas, gente comum executada como exemplo ou morta em atentados de falsa bandeira (Satter, 2016) e recrutas sujeitos à disciplina imposta pelos avozinhos — militares mais velhos que torturam e assassinam barbaramente qualquer jovem que ponha em causa a lei das casernas (Politkovskaya, 2004).

O célebre campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, descreve assim os governos de Putin: a hierarquia rígida, a extorsão, a intimidação, uma imagem de duro, uma longa sequência de mortes convenientes entre os principais críticos, eliminação de traidores, o código de sigilo e lealdade, e, acima de tudo, um mandato para manter a entrada de receitas. Por outras palavras, uma máfia (Kasparov, 2015).

A liderança assassina da Rússia pode, portanto, considerar-se a causa próxima da invasão da Ucrânia pelo exército russo. No entanto, há uma causa mais profunda: a convicção de que a Ucrânia pertence e há-de sempre pertencer à Rússia. A tentativa de controlo da Ucrânia pela Rússia (e quando não é possível o controlo, a tentativa de destruição) é muito antiga, tem séculos, vem ocorrendo desde o tempo dos czares, passando pelos sovietes, até hoje. Após o colapso da União Soviética, os ucranianos manifestaram fortemente em referendo (mais de 92% dos votos), o seu desejo de independência, mas, mais de três décadas depois, foram de novo atacados. A propaganda oficial russa, para contentar o povo e justificar a invasão internacionalmente, diz-nos que a Rússia está a responder a uma ameaça da NATO. Mas os ideólogos e pseudo-historiadores em que Putin se inspira consideram a Ucrânia uma pequena Rússia, invocam a origem comum dos dois povos, e olham para qualquer tentativa de emancipação ucraniana como uma traição à Rússia. É esta a razão profunda desta guerra.

Porém, a ideia de que ucranianos e russos são o mesmo povo não corresponde aos factos — é um mito incutido há muito na sociedade russa com o intuito de dominar a Ucrânia. Os historiadores independentes referem que o Rus de Kyiv, que já existia no século X, se dividiu em vários estados semi-independentes. Os mais importantes desses estados eram a Galícia-Volínia, hoje parte de território ucraniano e parte do sul da Bielorrússia; a Grande Novgorod, a noroeste do antigo reino de Kyiv; e o principado de Vladimir — a nordeste do que viria a ser Moscovo — o núcleo da moderna Rússia.

Os russos podem, pois, considerar que as suas religião, linguagem escrita, literatura e arte tiveram origem no Rus de Kyiv, mas os viajantes de São Petersburgo e de Moscovo deparavam-se na região de Kyiv — ainda antes de esta ser invadida pelos mongóis, no século XIII — com língua, canções e cultura diferentes daquelas que conheciam nas suas terras. Mais tarde, já no último quartel do século XV, Ivan, o Grande, declarou-se herdeiro dos príncipes de Kyiv para reivindicar o direito de governar Novgorod — e assim nascia o mito da origem russa em Kyiv, que nunca mais abandonaria o imaginário russo. Para os russos a Ucrânia não existe porque Kiev e, logo, os ucranianos são russos (Plokhy, 2023).

É por isso que o objetivo primordial de Putin quando invadiu a Ucrânia em grande escala há três anos (como se sabe, as intervenções na Ucrânia já tinham começado muito antes) não era a conquista de território, mas a destruição da identidade ucraniana, visando ocupar Kiev e colocar no poder um presidente pró-russo que implementasse as políticas favoráveis a Moscovo. A narrativa do Kremlin, segundo a qual a invasão da Ucrânia foi uma resposta ao avanço da NATO, não passa, pois, de propaganda que não colhe entre os que conhecem a realidade histórica, mas se replica entre os inimigos das sociedades abertas.

Esta tentativa de destruição da identidade dos povos subjugados pelos russos tem uma longa tradição e é conhecida por russificação. Aconteceu na Estónia, na Letónia e na Lituânia, durante o período soviético, e acontece nos territórios que Putin vem anexando desde 2008, seja na Geórgia, na Crimeia ou no Donbass. O instrumento principal da russificação é obrigar as pessoas a falarem russo, proibindo as línguas locais. Uma língua diferente é considerada língua dos porcos e os que se opõem à russificação são considerados nacionalistas, fascistas ou, simplesmente, nazis. (Oksanen, 2024).

Daí não ser de todo surpreendente que os russos considerem o governo em Kiev como nazi — o que é verdadeiramente surpreendente é o número de pessoas que nas sociedades livres e democráticas replicam a narrativa russa. Claro que há nazis na Ucrânia. Há até ucranianos-nazis celebrados (Stepan Bandera é o exemplo mais citado), não tanto por serem nazis, mas sobretudo por terem lutado pelas independência e identidade do país. Também é verdade que houve elementos da extrema-direita na linha da frente da revolução EuroMaiden, por exemplo, quando os ucranianos obrigaram o presidente pró russo, Yanukovitch, compadre de Putin, a fugir para Moscovo. Mas isso não quer dizer que o governo ucraniano seja nazi, muito pelo contrário. Nem sequer quer dizer que a ideologia nazi tenha grande representação na sociedade ucraniana, uma vez que o partido Liberdade, de extrema-direita, obteve apenas 1,62% dos votos nas ultimas eleições. (Yekelchyk, 2020).

Se há um governo nacionalista, fascista e nazi no mundo, esse governo é o russo. Os nazis procuraram o extermínio dos judeus; Putin procura exterminar os ucranianos. As evidências de tentativa de genocídio do povo ucraniano são inequívocas, consubstanciadas em atos de terror, como os bombardeamentos deliberados sobre a população civil ou a deportação forçada de mais de meio milhão de crianças, e é por isso que recai sobre Putin um mandado de captura emitido pelo Tribunal Penal Internacional. A agressão russa é apoiada por grande parte do povo, por inúmeros intelectuais e por ideólogos como Alexander Dugin, que considera a Ucrânia uma ficção venenosa, Eduard Limonov, para quem a Ucrânia precisa de ser aniquilada, e Yegor Kholmogorov que advoga, simplesmente, o desmembramento e a destruição da Ucrânia. (Finkel, 2024).

A luta da Ucrânia é, pois, existencial. É uma luta para manter as suas fronteiras, mas sobretudo as suas língua, cultura e capacidade de decidir sobre o próprio destino, enfim, uma luta por uma identidade que remonta ao Rus de Kyiv e ao aparecimento daquele conjunto de aventureiros, homens livres e guerreiros a quem chamaram cossacos. Ameaçada ancestralmente por um país que a considera a Pequena Rússia, a Ucrânia só poderia reagir a esta nova invasão como reage um animal acossado: lutar ou fugir. O líder ucraniano, apoiado pela população, optou pela primeira possibilidade — e o custo dessa ousadia tem sido, como se sabe, muito elevado.

Ao contrário de Putin, a vida humana é valiosa para Zelensky. Tendo sobrevivido a dez atentados desde o início da guerra (Rudenko, 2022), a sua preocupação principal é evitar ao máximo a perda de vidas humanas. É por isso que é tão difícil admitir que tenha de ceder território, depois de tanta gente ter morrido a defendê-lo, enquanto, por outro lado, a continuação da luta implica ainda mais mortes. É este o terrível dilema com que Zelensky se confronta. Inevitavelmente, embora sem poder verbalizá-lo publicamente, Zelensky deplora o apoio a conta-gotas que recebeu de um Joe Biden, sempre temeroso, que apenas em final de mandato permitiu que os ucranianos usassem os mísseis de longo alcance em território russo. As hesitações americanas e europeias ficarão para sempre ligadas ao desfecho deste conflito.

Agora, com o ressurgimento de Trump, Putin tem finalmente uma oportunidade de salvar a face, e Zelensky tem de ultrapassar as suas ambições maximalistas, esquecer a recuperação total de território e agarrar-se ao fundamental: obter garantias de segurança para que a Federação Russa não volte a atacar, depois de alcançado uma acordo de paz, e assim manter a independência e a identidade ucranianas. Não sabemos até que ponto ele pode trocar as terras raras por um acordo que não lhe seja totalmente desfavorável, uma vez que Trump quer essas terras em troca da ajuda que os Estados Unidos já deram à Ucrânia durante estes três anos de guerra, e não em troca de garantias de segurança para o futuro. Trump pode pressionar Zelensky ameaçando-o com o corte de material militar, sendo crítico aquele que é necessário para as baterias que protegem as principais cidades ucranianas e, sobretudo, ameaçando cortar as informações disponibilizadas pelo sistema de telecomunicações Starlink, cruciais para as operações do exército ucraniano. Zelensky poderá mesmo não resistir a uma eventual pressão americana para o afastar do poder.

Seja como for, os líderes ocidentais, sejam europeus ou americanos, deveriam garantir a segurança da Ucrânia, depois do monumental falhanço do Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança, assinado em 5 de dezembro de 1994. É um dever moral básico, implicitamente reconhecido por Bill Clinton, quando, em 2023, se mostrou arrependido por ter pressionado a Ucrânia a entregar as armas nucleares à Rússia. Os subscritores do memorando não garantiram a segurança da Ucrânia, traindo-a, e, com Trump, os ucranianos são traídos duplamente. Trump — cuja ligação à Rússia remonta ao início dos anos 90, quando oligarcas oriundos do KGB o salvaram da falência (Belton, 2020) — é uma desgraça para o mundo, para a América, e particularmente para a Ucrânia.

O Ocidente nunca entendeu o problema ucraniano. Fechou os olhos às atrocidades internas e externas de Putin, na esperança de uma normalização de relações, não percebendo que estava a lidar com o líder de uma máfia. Quando, finalmente, há três anos, reagiu, fê-lo timidamente. Agora, com Donald Trump, a esperança da Ucrânia — e de outros povos ameaçados pela Federação Russa, como os georgianos, os moldavos e os países bálticos — talvez não resida apenas numa Europa que acordou demasiado tarde. Há que ter em conta países influentes como o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, o Canadá e a Turquia. Não sabemos se conseguirão pressionar o imprevisível Trump para que este garanta à Ucrânia, num volte-face pouco provável, a segurança ou a ajuda de que ela tanto necessita, assim como não sabemos, sequer, se Trump conseguirá acabar com a guerra, como tanto deseja.

Mas sabemos que é sobretudo nestes países que recai a esperança ucraniana. Os europeus, com o apoio de outras democracias, são os únicos que podem ajudar a Ucrânia se a esta não restar outra alternativa a não ser continuar a luta armada. Este apoio será necessário, mesmo contra a vontade de Trump. Muitos consideram que é um erro enfrentar e irritar um egocêntrico como Trump. Nós pensamos o contrário. É necessário enfrentar as personalidades autoritárias logo que possível, pois será mais difícil e custoso fazê-lo mais tarde. Isto revelou-se verdadeiro relativamente a Putin, que subiu a parada face à inércia dos líderes ocidentais, e continua a ser verdadeiro em relação a Trump, que não deixará de fazer o que quiser, se lho permitirem. As reiteradas mentiras, as tentativas de extorsão e a declarada intenção de saquear matérias primas e territórios, provam-no.

Trump, eleito depois de ter tentado destruir a democracia americana — e, só por isso, o pior presidente da História da América —, acusado em casos de falsificação, obstrução à justiça e conspiração, procura chantagear o mundo para tornar a “América grande de novo”. O que não é novo é a predileção que os autoritários como ele têm pelos verdadeiros autocratas. Trump admira homens fortes à custa dos mais desprotegidos, seja na Ucrânia ou em Gaza. E é por isso que é preciso enfrentá-lo. Mas, como? Desde logo, denunciando as mentiras que diga a nosso respeito, rejeitando firmemente as interferências na forma como nos governamos e, sobretudo, não alimentando qualquer ilusão a respeito do seu comportamento. Devemos preparar-nos para o pior e contar apenas com nós próprios. A Europa deve, desde já, investir na criação de condições para se defender sozinha.

Isto é possível, se houver vontade política. E como a defesa da Europa está intimamente ligada à defesa da Ucrânia, teremos inevitavelmente que ajudar os ucranianos, enquanto estes quiserem resistir. Teremos de acreditar que a identidade ucraniana prevalecerá, pois são os próprios ucranianos que nos provam que tal é possível, todos os dias. Uma Ucrânia, mesmo que diminuída em território (veremos até que ponto) mas reforçada em identidade e independência, constituirá uma derrota para os russos, pois sempre foi a identidade e a independência da Ucrânia que eles procuraram destruir. Claro que nunca irão dizê-lo, irão sempre cantar vitória, mas era esse o objetivo, frustrado pelos valorosos ucranianos, que Putin visava com a invasão iniciada em 24 de fevereiro de 2022. Os ucranianos poderão ser felizes, mesmo perdendo 20% do território, desde que saibam que os deixarão viver em paz. Isso só será possível se a Ucrânia obtiver garantias de segurança — e é por elas que Zelensky se baterá até ao limite das suas forças.

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Referências:

  • Anna Politkovskaya, A Rússia de Putin, Elsinore, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2004).
  • Anna Politkovskaya, Um Diário Russo, Temas e Debates, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2007).
  • Catherine Belton, Os Homens de PutinComo o KGB se apoderou da Rússia e depois atacou o Ocidente, Ideias de Ler, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2020).
  • Christopher Miller, The War Came to Us — Life and death in Ukraine, Bloomsbury, Londres, 2023.
  • David Satter, Quanto Menos Soubermos Melhor Dormimos, Zigurate, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2016).
  • Eugene Finkel, Intent to Destroy — Russia’s Two-Hundred-Year Quest to Dominate Ukraine, Basic Book, Londres, 2024.
  • Garry Kasparov, O Inimigo que vem do Frio — A liderança de Putin e a grande ameaça à paz mundial, Clube do Autor, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2015).
  • Giuliano da Empoli, O Mago do Kremlin, Gradiva, Lisboa, 2022.
  • Michel Eltchaninoff, Na Cabeça de Putin, Zigurate, Lisboa, 2022 (Ed. orig., 2015).
  • Sofi Oksanen, A Guerra de Putin contra as Mulheres — uma história antiga de violência e opressão, Objetiva, Lisboa, 2024.
  • Sergii Rudenko, Volodymyr Zelensky — Biografia, Casa das Letras, Alfragide, 2022.
  • Serhii Plokhy, The Russo-Ukrainian War, Allen Lane, Dublin, 2023
  • Serhy Yekelchyk, Ucrânia — O que toda a gente precisa de saber, Edições 70, Lisboa, 2020. (Ed. orig., 2015).

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A guerra de Putin contra as mulheres

“Os Cossacos de Zaporíjia escrevendo uma Carta ao Sultão Turco”, de Ilya Efimovich Repin (imagem retirada de: https://www.meisterdrucke.pt/).

Transcrevemos abaixo um trecho do livro A Guerra de Putin contra as Mulheres, da escritora estonia-finlandesa Sofi Oksanen. O livro é de 2024, em ambas as edições — a portuguesa e a original.

Quando a minha avó estónia ia às compras na cidade, era atendida por vendedoras que falavam russo. Na União Soviética era uma profissão muito prezada pois dava acesso a bons negócios por baixo da mesa. Nos grandes armazéns, em particular, estes empregos eram exercidos por russófonos. Como o self-service só chegou bastante mais tarde, e apenas em certas lojas, era preciso pedir à vendedora os produtos pretendidos para que ela os fosse buscar à prateleira. A minha avó cresceu na Estónia independente e, por isso, não tinha aprendido russo na escola. Se um cliente falasse estónio era repreendido: “Fala a língua dos humanos!” A humilhação e o rebaixar ao nível animal daqueles que não falavam russo tornava-se assim o dia a dia dos estónios.

Hoje em dia, na Ucrânia, os torturadores dirigem-se às suas vítimas ucranianas em russo: “Não fales a língua dos porcos!”

Na União Soviética e na Rússia, a língua dos humanos é o russo. As outras são as dos animais.

No seu livro Humanity, o filósofo e historiador Jonathan Glover analisou os fatores que conduzem à violência extrema. Quer se trate de Mao, Hitler ou Putin, os mecanismos que propiciam atos de brutalidade são surpreendentemente semelhantes. Tanto na União Soviética como na Alemanha de Hitler, as populações a liquidar foram desumanizadas. Com isto, enfraquecia-se uma atitude de compaixão e respeito reservada à humanidade, aquilo que Glover chama “recursos morais”. A ideia é minar estas qualidades humanas enquanto tudo corre bem no país empenhado na via dos crimes de guerra, remover a barreira moral que existe em relação aos crimes de sangue, construindo e difundindo uma imagem denegrida do inimigo através dos feeds de notícias, de tomadas de posição e de histórias. O grupo visado começa a sofrer medidas opressivas, é desumanizado, reduzido à categoria de animal, depois de inseto e, por fim, de mera abstração. Matar civis não constitui um problema quando não existe a obrigação de tratá-los como seres humanos. O genocídio é a fase final. Nas valas comuns, as pessoas deixam de ter direito ao seu nome e à sua identidade.

Os genocídios, os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade partilham um denominador comum: o Estado genocida prepara o terreno antes de passar à ação. O genocídio e os crimes de guerra começam através de palavras que criam uma realidade. A linguagem populista, polarizada, é a principal matéria-prima. Embora o discurso de ódio nem sempre conduza ao genocídio, o genocídio é sempre precedido por um discurso de ódio, que se inflama passo a passo, e que é geralmente misógino. A violência sexual genocida cometida na Ucrânia é um exemplo extremo daquilo que o populismo autoritário é capaz e do seu objetivo: a destruição total de um povo e de um Estado. Neste sentido, a propaganda russa é um fator crucial na viabilização dos crimes de guerra. No Ruanda, uma estação de rádio muito popular desempenhou um papel determinante na preparação do genocídio e na sua execução. Os diretores da Radio Télévision Libre des Mille Collines (RTLM) foram condenados a prisão perpétua por genocídio. A mesma pena foi aplicada a um apresentador e ao editor da revista Kangura, que incitava ao ódio contra os Tutsis.

A propaganda interna russa move-se da mesma forma há décadas. Encontra eco nos velhos estereótipos acerca do inimigo que perduram. As gerações anteriores estavam habituadas a ver os não russos como fascistas, nazis, indivíduos doentes devido ao seu “nacionalismo”. A utilização de termos estigmatizantes era habitual e moralmente aceite há várias gerações. Repetidas pelas autoridades, pelo sistema educativo, pelos meios de comunicação social e pela justiça, estas mentiras tornaram-se uma verdade comummente aceite. Em 2014, quando o ultranacionalista Aleksandr Dugin exortou os seus concidadãos a matarem todos os ucranianos, mesmo na Rússia a sua posição foi considerada demasiado radical, resultando no seu despedimento da Universidade de Moscovo. Em 2022, com a grande ofensiva, muitos políticos retomaram o seu apelo de outras formas. Em menos de dez anos, declarações deste tipo banalizaram-se no discurso político russo.

O vocabulário desumanizante tem uma longa tradição na Rússia, a vários níveis da sociedade. No jargão oficial da URSS, os membros de um grupo humano colonizado eram designados pelo termo genérico “elementos”. Nos vários documentos dos serviços de segurança que tive a oportunidade de ler, o que mais me surpreendeu talvez tenha sido a linguagem utilizada: as construções são quase todas passivas. As ordens, recomendações e comunicados são assinados com nomes, mas o corpo do texto é sempre redigido na voz passiva, o que minimiza a responsabilidade do signatário. Não existe a sensção de que se está a dar ordens ou a executar medidas opressivas. Apenas se obedece a instruções superiores. Não é surpreendente que, aquando do colapso da URSS, os funcionários dos serviços de segurança não tenham publicado memórias nas quais lamentavam os seus atos ou o facto de terem participado na opressão. Não se arrependeram da forma como tinham tratado os “elementos”, pois enquanto “elementos” era como se de blocos de cimento se tratassem.

A pesada burocracia que dilui a responsabilidade individual nas cadeias de comando e nas reorganizações era bem conhecida na Alemanha de Hitler, tal como a progressiva desumanização dos judeus destinada a pôr em marcha o Holocausto. Desde a Segunda Guerra Mundial tem havido um extenso e cuidadoso estudo do percurso que levou ao Holocausto, e as obras que todos os anos são publicadas sobre o tema mostram que as pessoas querem saber mais. Pergunto, porém, quantos livros foram publicados no Ocidente sobre a retórica desumanizadora através da qual a URSS justificava os seus crimes contra os direitos humanos no Bloco de Leste? Será que faz parte do currículo escolar de um único país ocidental?

O KGB comandou os autores do revisionismo histórico soviético, fornecendo todo um léxico, a partir de diretórios e dicionários atualizados com regularidade e onde cosntavam, nomeadamente, epítetos. Os termos associados aos “Estados liquidados” eram altamente estigmatizantes e falaciosos. Em contrapartida, os adjetivos associados à União Soviética serviam para realçar a grandeza, o poder, a invencibilidade e outras características heroicas. Os olhares dos censores era inescapável, e este jargão não surgiu de forma espontânea: as instruções do KGB e o uso repetitivo de atributos eram fundamentais. As reações de caráter emocional eram importantes e induzidas através de epítetos: quando se associam apenas palavras negativas a certas coisas, as pessoas acabam por sentir repugnância por elas. O jargão oficial tornou a linguagem soviética redundante, pesada e difícil de compreender.

O poeta Lev Rubinstein afirmou que a propaganda era “a morte do significado”. Parece-me uma excelente formulação. Uma vez que pensamos através de palavras, só quando forem devolvidos os significados que correspondem à realidade é que a linguagem poderá despertar e, ao mesmo tempo, iluminar o pensamento. Foi por esta razão que os Estados bálticos aboliram as expressões soviéticas após a restauração da independência. A linguagem da URSS era um idioma ideologicamente puro cujos significados não correspondiam à realidade. Descrevia uma utopia na qual certos “elementos” deixavam de existir, tornando-a real.

A linguagem soviética permitia proceder às deportações, interrogatórios e perseguições. Deste modo, todos os russos tinham o direito de tratar os estónios como tratavam a minha avó, que não merecia ser atendida na loja porque não falava “a língua dos humanos”. Este jargão passou para o novo milénio, e através do exército de trolls da Rússia tem silenciado aqueles que denunciaram os crimes da Rússia contra os direitos humanos, durante mais de dez anos, nas redes sociais. A mesma linguagem foi utilizada para justificar o bombardeamento de barragens e hospitais ucranianos, e justificou o massacre de Bucha.

Na Rússia, a linguagem da era soviética nunca foi condenada. Enquanto o debate pós-colonial aboliu o vocabulário pejorativo nas outras antigas potências imperiais, nada disso teve lugar na Federação Russa, apesar da breve recuperação democrática no início da década de 1990, que tornou possível falar do passado e investigar de forma mais livre e menos censurada. Não sei se a retórica fascista que estigmatiza e demoniza o inimigo se teria dissipado espontaneamente sem o governo de Putin, mas o discurso de ódio e a linguagem do Estado totalitário não podem coexistir com os valores democráticos, tal como os retratos de Estaline e a admiração pelos símbolos que personifica não podem coexistir com os ideais democráticos. Não há coexistência possível.

Os teóricos do Partido Comunista compreendiam que a língua era um instrumento do pensamento, por isso o enfraqueciemnto das línguas nacionais era uma missão importante em toda a URSS. Aqueles que dominavam o russo começaram a pensar como os russos, o ponto de partida étnico do Homo sovieticus. Como resultado da russificação iniciada durante a era czarista, o russo era já a língua de ensino em muitas regiões. Na Ucrânia, por exemplo, o ucraniano foi várias vezes proibido. Estaline chegou mesmo a banir os carateres ucranianos que não constavam do alfabeto russo. O fraco conhecimento e implantação da língua russa na região do Báltico incomodava e dava dores de cabeça ao Partido. Era também uma forma de resistência passiva por parte das populações ocupadas.

Embora os Estados bálticos tenham encetado a descolonização na década de 1990, o processo foi mais prolongado na Ucrânia, tendo, contudo, a Revolução da Dignidade conduzido às leis da descomunização. Posteriormente, a grande ofensiva russa levou a uma desrussificação, a ponto de os autores que escreviam em russo terem passado a fazê-lo em ucraniano: a língua russa é um instrumento de opressão e supremacia russa.

Até agora, e ao contrário da antiga URSS, a propaganda da Federação Russa não teve um objetivo ideológico. No entanto, além da construção de estereótipos acerca do inimigo, ambas partilham o hábito de alterar o significado das palavras. A ocupação era chamada “amizade” e “libertação”; a resistência, “loucura”, “doença” ou “crime”. No início da guerra no leste da Ucrânia, a Rússia falava do “genocídio do Donbass”, cometido contra os russos e russófonos da região, o que não era verdade. O nacionalismo russo é descrito como “patriotismo”, quando se trata de nacionalismo. À guerra na Ucrânia chama-se “operação especial”, quando se trata de uma guerra. A escolha das palavras mostra que Moscovo tem consciência da relutância das pessoas em relação à guerra. Putin está, por isso, empenhado em mantê-la fora da Rússia. Assim, a grande ofensiva começou por se chamar “operação especial”, tendo sido criminalizada a utilização de termos diferentes dos oficiais a fim de transmitir a imagem de uma pequena operação, longínqua e circunscrita, que não podia, de forma alguma, dizer respeito a toda a nação. Esta necessidade de manter a guerra à distância dificultou a mobilização, pois as pessoas iriam compreender que se tratava afinal de contas de uma guerra e que todos estavam envolvidos. Na primavera de 2022, os russos estavam longe de imaginar que os seus filhos poderiam ter de matar os primos, pois antes da Ucrânia os combates desenrolaram-se sempre em regiões distantes e a Rússia não levava a cabo uma ofensiva deste género desde a Segunda Guerra Mundial. Uma das missões de Putin é manter a guerra fora da Rússia, física mas também mentalmente, e conseguiu-o manipulando a linguagem.

O Kremlin não esperava que o conflito durasse muito tempo — talvez pelo facto de predominar na Rússia um grande desconhecimento da história da Ucrânia, da qual se conhecia apenas a versão russa, igualmente adotada pelo Ocidente. A forma como a Rússia assimilou a cultura ucraniana alimentou a ideia de que os ucranianos eram “pequenos russos provincianos” sem cultura própria.

Antes da grande ofensiva, uma exposição de Ilya Repin (1884-1930) percorreu a Europa, tendo sido a maior exposição alguma vez apresentada fora da Rússia. No Museu de Arte do Ateneu, na Finlândia, assim como nas notas explicativas no Petit Palais, em Paria, o artista foi a presentado como um pintor da alma russa. Quando eu estava a escrever um artigo sobre este assunto em 2022, o Google também informava que Repin era russo, embora o próprio, nascido na Ucrânia, se considerasse descendente de cossacos ulanos de origem polaca, sendo a expressão da ucranianidade central na sua obra.

A exposição continha um dos seus quadros mais conhecidos, Os Cossacos da Zaporíjia Escrevendo uma Carta ao Sultão da Turquia (1880-1891), emprestado pelo Museu Russo de São Petersburgo. Os visitantes talvez pensassem que estavam a apreciar uma pintura russa, como indicavam as notas explicativas. Na realidade, o quadro refere-se à Ucrânia. Para os zapórogos, a ambição de alcançar independência em relação à Rússia era essencial, e o quadro representa o hetmanato cossaco. A história deste Estado autónomo é importante para o nascimento dos ideais democráticos na Ucrânia porque, ao contrário da Rússia, não existia um regime de servidão e os seus governantes eram eleitos por uma assembleia geral. A Ucrânia de hoje baseia-se nas ideias dos cossacos. Ao longo dos séculos, chegaram ao território ucraniano imigrantes e refugiados provenientes dos vários impérios: austríaco, austro-húngaro, otomano e russo. Rory Finnin, professor de Estudos Ucranianos em Cambridge, descreve a identidade nacional ucraniana como a história de vários indivíduos que se unem em torno de um ideal anti-imperialista. Foi justamente isso que atraiu as pessoas durante séculos, e é isso que faz da Ucrânia a antítese da Rússia.

Na primavera de 2022, circulou na Internet uma fotografia que recria a composição de Repin no campo de batalha: os soldados ucranianos mandavam assim um recado a Moscovo.

Definir Ilya Repin como um pintor russo é um exemplo típico de apropriação cultural por parte da Rússia, segundo a qual a história cultural da Ucrânia não constituiu um todo independente. Note-se que os museus ocidentais têm apoiado esta política colonial. Quando vista através dos olhos do colonizador, a identidade de um povo e a sua luta pela independência tornam-se invisíveis. O racismo russo em relação aos ucranianos e o tratamento inferiorizante de que são alvo reforçaram a imagem que Moscovo tinha dos ucranianos como seres submissos e incapazes de resistir. No imaginário russo, a Ucrânia, mas também a Polónia e os outros países bálticos, são considerados invensões de povos pequenos, emotivos e histéricos. Daí a surpresa perante a resistência ucraniana, também sentida no Ocidente.

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A nossa edição:

Sofi Oksanen, A Guerra de Putin contra as Mulheres, Objetiva, Lisboa, 2024 (pp. 67-73).

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Povo marítimo

Praia da Terra Estreita, Algarve.

Somos, por excelência, um povo marítimo. Não sei se herdámos esta ligação ao mar dos hábeis navegadores fenícios; se tem que ver com a barreira espanhola que nos empurrou para o Atlântico; se se deve ao facto de este espaço a que chamamos Portugal ter sido durante muitos anos encruzilhada marítima entre o Norte da Europa e o Mediterrâneo; ou se é algum gene específico que determina esta nossa apetência para o mar, agora reduzida, quase exclusivamente e por razões várias, a uma invasão das praias durante a época estival.
Pode ser tudo isso e mais alguma coisa, mas a última hipótese é, afinal, bastante plausível, pois está demonstrado que o ambiente influencia os genes (e vice-versa).
Não será por acaso que temos um cão de água — por sinal, algarvio — que não apenas nada, mas também mergulha, trabalha e tem tanta alegria no mar quanto um golfinho (aqui). Os que pensam que exagero talvez um dia se surpreendam quando nascer o primeiro bebé português com membranas interdigitais…

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50 anos de Abril

Exposição pública sobre a Guerra da Coreia, em Seul.

Este ano celebramos, mais uma vez, o 25 de Abril em viagem, concretamente na magnífica Coreia do Sul.

Os coreanos são um povo muito antigo que teve a pouca sorte de, a dado momento da sua história, se ver acossado por impérios grandiosos e poderosos, como são os casos russo, chinês e japonês.

A Coreia foi ocupada pelo Japão várias vezes, a última entre 1910 e 1945 e, ainda neste ano, no final da II Guerra Mundial, invadida pelos soviéticos. Com esta invasão iniciava-se a chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, e estavam criadas as condições para que, cinco anos mais tarde, ocorresse uma guerra bem quente, a Guerra da Coreia, um conflito que provocou quase 5 milhões de mortos e reforçou a divisão da nação coreana, mantida até hoje, em dois estados independentes.

O contraste existente entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul é gigantesco, embora estejamos a falar do mesmo povo; e isto, só por si, prova como são importantes os regimes políticos. De facto, não poderia haver melhor exemplo prático como o da Coreia para constatar que há um abismo separando comunismo e democracia, opressão e liberdade.

Os dados são avassaladores e só para se ter um vislumbre da discrepância entre os dois estados, bastará dizer que os sul-coreanos são em média 27 vezes mais prósperos do que os seus vizinhos do norte. A extraordinária progressão da Coreia do Sul contrasta fortemente com a estagnação da Coreia do Norte e mostra-nos como as sociedades abertas se desenvolvem, social, económica e culturalmente, enquanto as sociedades fechadas — de esquerda ou de direita — apenas trazem miséria ao povo.

Pretendemos mostrar a importância das sociedades abertas nestes 50 anos de Abril. E nunca esquecer o quanto somos felizes por viver em Liberdade.

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