Córdoba, Granada e Gibraltar

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Jardins do Alcazar dos reis cristãos, em Córdoba.

Do sul de Portugal é facílimo dar um salta à Andaluzia, ali mesmo ao lado,  e conhecer belas cidades como Huelva, Sevilha, Cádiz, Málaga, etc.  Nesta pequena viagem de três dias optamos por duas cidades espanholas – Córdoba e Granada – e uma do Reino-Unido – um verdadeiro espinho cravado num dedo de Espanha – Gibraltar.

Algo ressalta, desde logo, quando se termina uma viagem por estes três lugares, geograficamente bem próximos: o seu passado árabe. De facto, Córdoba foi no século X sede do esplendoroso califado Omíada, Granada foi o último reduto árabe na Península Ibérica, e Gibraltar foi o lugar onde, em 711, o berbere Tariq ben Ziad desembarcou com sua tropas e abriu caminho para os árabes conquistarem a Ibéria. São, por isso, cidades não apenas históricas, mas também cidades carregadas de simbolismo.

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Pormenor de uma porta, em Córdoba.

Em Córdoba visitámos a Judiaria, a Mesquita-Catedral, a Alcazar dos reis cristãos, a ponte romana, a rua das Flores e a estátua de Maimónides. Este é o nome grego do  rabino, professor, mestre, filósofo e médico judaico, Moshe Ben Maimon. A sua vasta obra, ainda hoje estudada e comentada, teve e continua a ter um impacto tão importante na religião judaica que ficou célebre o epitáfio medieval que dizia: “Desde Moisés (da Bíblia) até Moisés (Maimónides) não houve ninguém como Moisés”[1].

Por seu turno, Granada é uma cidade maravilhosa. O bairro antigo e árabe, chamado Albaicín, é encantador. Subindo-o, desde o centro da cidade, pode observar-se, na colina oposta, tendo por trás a Serra Nevada, a célebre Alhambra, que inclui um castelo cristão, um complexo palaciano e fortaleza de origem árabe, da dinastia Nasrida, e ainda jardins e hortas circundantes, a que chamam Generalife. Tudo isto é Património Mundial da UNESCO, mas o surpreendente é mesmo tudo o que é árabe – sobretudo o bairro Albaicín e o complexo palaciano de Alhambra.

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Azulejo do palácio árabe de Alhambra, em Granada.

Em Albaicín, a comparação com Alfama é quase inevitável. E, lamentavelmente para nós, Alfama fica a perder. Albaicín é muito mais limpo e preservado. As suas casas com pátios, interiores ou exteriores, sempre floridos, são muitas vezes autênticos miradouros onde os olhos pousam e repousam sobre a cidade. Claro que o pequeno rio Darro que corre entre as colinas de Alhambra e Albaicín não tem a grandiosidade do Tejo. Mas só talvez se um dia Alfama se tornar património mundial, a gente possa aqui viver com o orgulho que se sente em Granada.

Por fim, Gibraltar: um daqueles lugares que fascinam geólogos, físicos e outros cientistas da naturais: uma montanha de rocha calcária elevada do fundo do mar pelas forças descomunais da Natureza. Gibraltar pertence à Grã-Bretanha desde 1713, ano em que os espanhóis cederam o território àquele país, a título perpétuo, após a Guerra da Sucessão.

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Pormenor de coluna no palácio árabe de Alhambra, em Granada.

Subir o rochedo de Gibraltar não deixa de ser uma aventura, mesmo que o façamos de carro, como foi o nosso caso. A estrada é estreita e íngreme, e o esforço dos percursos que têm de ser feitos a pé é compensado com vistas deslumbrantes em todas as direções. As montanhas do norte de África impõem-se a Sul. Pelo caminho vêem-se famílias inteiras de macacos da berberia, tão habituados aos turistas, que chegam a posar para as fotografias.

Neste percurso ascendente – que é a principal atração turística do rochedo – podem visitar-se grutas, castelos e monumentos, mas o mais impressionante são sem dúvida os túneis cavados na rocha pelos britânicos, aquando do grande cerco feito pela Espanha (1779-1883) e também na II Guerra Mundial. Um dos túneis corta o rochedo de sul para norte, tendo pelo meio aberturas que deixam passar apenas o olhar humano (por vezes ajudado por binóculos) e os canos dos canhões. Dali é possível controlar o território espanhol, a baía de Algeciras e o próprio Mediterrâneo.

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Gibraltar. Ao fundo, África.

Gibraltar e o monte Musa, em África, constituíam na Antiguidade as chamadas Colunas de Hércules. Entre elas ficava uma porta para o desconhecido[2], – uma passagem que liga o Mediterrâneo ao Atlântico e onde passa hoje um navio a cada seis minutos. Não é difícil calcular a importância estratégica de Gibraltar. Nem surpreende que tanto o Reino-Unido quanto os gibraltinos não queiram abrir mão deste simbólico território.

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Notas:

[1] “Raízes dos Judeus em Portugal”, Inácio Steinhardt

[2] De facto, como o próprio nome indica, o Mediterrâneo era o centro do mundo. Para além, ficava o desconhecido.

 

Tarifa

IMG_4255Uma placa no centro histórico informa que a “muy nobre cidade de Tarifa” foi reconquistada aos mouros em 21 de setembro de 1292, por Sancho IV, o Bravo. Apesar dessa vitória, no fim do século XIII, a marca árabe paira ainda hoje sobre a cidade. África continua dominando o horizonte, irresistivelmente, para lá do estreito a que chamaram de Gibraltar[1], em honra do berbere Tarik ben Ziyad,[2] que, em abril de 711, desembarcou junto ao rochedo, iniciando a ocupação muçulmana da Península Ibérica, derrotando, cidade após cidade[3], os visigodos, sempre que estes ofereciam alguma resistência[4].

IMG_4249A presença árabe duraria mais de setecentos anos na Península[5] e, pelo menos, quinhentos anos, aqui, em Tarifa. Não admira, portanto, que se faça sentir ainda hoje e, provavelmente, sempre, já que o nome da cidade deriva do de outro berbere, enviado por Tarik para explorar o território e preparar o terreno para a invasão – Tarif ibn Malik.

IMG_4274Na bela praia onde Tarif desembarcou os ventos são constantes, e há por isso quem considere Tarifa a capital mundial dos wind e kitesurf. Baleias e golfinhos podem ser avistados nas águas transparentes, onde o Atântico se junta ao Mediterrâneo[6]. Existe ampla oferta de hotéis, casas para alugar, parques de campismo e todos os visitantes têm  lugar assegurado para banhos de sol e de mar, pois a praia, além de ser muito bonita, é enorme, com quilómetros de extensão[7].

IMG_4276E quem quiser sentir o que Tarik e Tarif experimentaram, embora em sentido contrário, pode sempre apanhar um ferry para Tanger ou Ceuta, e embrenhar-se em África. Tarifa orgulha-se de ser  o ponto da Europa mais próximo do continente negro. Dar o salto, para lá ou para cá, é uma tentação eterna.

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[1] Gibraltar deriva de “Gebal-Tarik” (montanha de Tarik). Todas as cidades europeias do estreito de Gibraltar têm nomes de origem árabe. Também Algeciras deriva do árabe “Al-jazeera” (a ilha).

[2] Os berberes são um povo cuja origem se mantém obscura, embora seja quase certo que são uma mistura de vários povos, incluindo de alguns judeus que se refugiaram  no Norte de África. Há quem refira a sua origem canaanita (da terra de Canaan), portanto, israelitas. O próprio Tarik acreditava ser judeu, descendente da tribo de Simeão (“Raízes dos Judeus em Portugal”, de Inácio Steinhardt, Vega, Lisboa, 2012).

[3] Em junho de 712, Mussa bin Nussair atravessou o estreito à frente de um exército de 1800 homens, desta vez quase todos árabes. Desembarcou em Algeciras e rumou a ocidente, conquistando Sevilha, Huelva, Faro (Ossónoba) e Beja. A região do sul da Península não era já a Bética dos Romanos, mas ainda a que tinha sido ocupada pelos Vândalos Silingi, que, depois de derrotados pelos Visigodos, passaram para o Norte de África. O nome da terra dos Vândalos era pronunciado, em árabe, Al Wandalus ou Andaluz. Daí deriva o nome Andaluzia.

[4]Em contraste com os visigodos, os árabes mostrar-se-iam um povo tolerante. Os habitantes da Península Ibérica, cansados dos germânicos, receberam os muçulmanos com alegria. A dinastia árabe que governava o império era a omíada, com califado em Damasco. Após lutas com os abássidas, que se reclamavam descendentes de Maomé (Abbas era tio do profeta), estes venceram e transferiram o califado para Bagdad. Porém, o omíada Abderramão I, emir de Córdova, manteve a independência e, quase 200 anos depois,  em 929, Abderramão III instaurou o califado de Córdova, que perduraria por mais de cem anos, aprofundando ainda mais a independência em relação aos abássidas. Os omíadas sempre governaram em convivência pacífica com os outros povos e com as restantes etnias árabes. Os judeus, por exemplo, viveram em paz e tiveram inclusive cargos importantes na administração, experimentando uma atmosfera de liberdade que não existia em mais nenhum lugar da Europa.

[5] A ocupação da península Ibérica pelos árabes foi sempre muito variável ao longo do tempo. Ela nunca foi absoluta – o reino das Astúrias resistiu sempre – e chegou, na parte final (a ocupação terminou em 1492), a ser diminuta – limitada ao emirato de Granada – uma pequena faixa que incluía as atuais cidades de Granada, Málaga e Almeria.

[6] Será fácil encontrar em Tarifa uma das várias empresas que fazem passeios no mar (em geral de duas horas) para observação de cetáceos.

[7] O único ponto em que os espanhóis parecem não ter aprendido nada com os árabes, nem com qualquer outro povo, é o da cozinha. O Sul de Espanha continua a ser uma zona gastronomicamente pobre. Aliás, excetuando a Galiza, come-se (geralmente) mal em Espanha.