Japão

1- Breve contexto histórico

O Japão é por variadas razões um dos mais fascinantes países do planeta. Isolado durante a maior parte da sua história, teve sempre um papel importante quando se integrou na comunidade internacional, chegando a ser, no período da Grande Guerra, a par dos Estados Unidos, um dos dois países mais poderosos do mundo. A primeira abertura do Japão deu-se no século XVI, na época em que o grande aventureiro português, Fernão Mendes Pinto, chegou ao arquipélago, mas durou pouco tempo[1]. Cansados do proselitismo europeu, os japoneses expulsariam os missionários e fechar-se-iam de novo, alcançando a estabilidade política com o domínio do xogunato Tokugawa[2], um governo dinástico militar que durou mais de 250 anos (até 1867). Em 1854, o Japão assinou com os Estados Unidos o Tratado de Kanagawa e, quatro anos depois, o Tratado de Amizade e Comércio, que marcaram o início da nova abertura japonesa, ainda que forçada[3]. Seja como for, isso permitiu ao Japão modernizar-se e industrializar-se intensivamente, tornando-o capaz de, nos finais do século XIX e inícios do século XX, derrotar militarmente a China e a Rússia. Esse período de extraordinário desenvolvimento ficou conhecido com Era Meiji (1868-1912), quando governou o imperador Mutsuhito Tenno. (Até à Restauração Meiji os imperadores não tinham poder e quem governava o Japão eram ditadores militares, cujo poder era hereditário, denominados xoguns). Sucessivamente, os japoneses ocuparam a península da Coreia, a Formosa (atual Taiwan), o sul da Ilha Sacalina[4], a Manchúria e a China. Em 1941, cometeram o erro de atacar os Estados Unidos e ocupar a maior parte dos territórios do sul e sudeste asiáticos, precipitando a entrada dos americanos na II Guerra Mundial.

A nossa visita ao Japão começou em Yokohama. Depois de um passeio pelo centro da cidade e uma entrada na Chinatown, subimos pela Landmark Tower, uma torre com 295,8 metros de altura e 73 andares, no elevador mais rápido do mundo. Demorámos apenas 40 segundos a atingir o 69º andar, aquele onde fica o Sky Garden, um piso panorâmico, com bar, livraria e uma vista incrível de 360º.

Apesar da derrota na II Guerra Mundial[5], o Japão tornou-se uma potência económica e um aliado dos Estados Unidos, registando, até aos anos noventa do século XX, três décadas de desenvolvimento económico sem precedentes. O imperador manteve-se como símbolo da unidade nacional, mas o poder executivo passou a ser exercido por políticos eleitos. O país modernizou-se, democratizou-se e manteve-se até hoje uma potência económica. Não possuindo grandes recursos naturais, sobretudo ao nível energético[6], é, no entanto, um colosso industrial, exportando produtos de altíssimo valor acrescentado para todo o mundo: a marca-Japão, embutida em itens diversificados e de grande consumo, como automóveis, máquinas fotográficas, televisores, telemóveis, entre muitos outros, faz parte do quotidiano dos cidadãos de, praticamente, todos os cantos do planeta[7].

No dia 11 de março de 2011, o maior terramoto da história japonesa, seguido de tsunami, devastou o nordeste da ilha de Honshu (a maior do Japão), matando milhares de pessoas e provocando danos irreparáveis na central nuclear de Fukushima[8]. No ano seguinte chegou ao poder o atual primeiro-ministro, Shinzo Abe, o político que se mantém há mais tempo no cargo, desde a II Guerra Mundial.

O dia seguinte foi integralmente passado em Tóquio, uma capital gigantesca. Nesta foto podemos ver o edifício da estação televisiva Fuji, uma das construções emblemáticas da cidade. Um terço da população japonesa vive na região de Tóquio.

2- O Japão natural

O Japão é um país insular que conta com cerca de 7 mil ilhas[9], das quais apenas 421 são habitadas: imagine-se as maravilhas que se podem encontrar em muitas delas, sobretudo nas mais remotas! As ilhas principais são Hocaido, Honshu (onde se situa a capital, Tóquio), Shikoku e Kiushu. No entanto, é importante o papel das pequenas ilhas exteriores na proteção do território, pois todas as fronteiras internacionais do Japão estão no mar. Apesar deste país ocupar apenas o 61º lugar do mundo em termos de território (cerca de 378 mil km2), a sua zona económica exclusiva (ZEE) atinge uma área de 4.470.000 km2, a sexta maior do planeta. O Japão é assim um país marítimo por excelência, com amplas vantagens no que toca à exploração dos seus amplos recursos marítimos (sobretudo a pesca) e ao comércio por via marítima (o Japão possui a quarta maior frota mercante do mundo), mas igualmente com alguns problemas, sobretudo as disputas com outros países da região[10] sobre a soberania de algumas ilhas e águas territoriais.

Ao fim da tarde fomos até Tsukiji, onde fica o famoso mercado de peixe de Tóquio. Na rua do mercado pudemos provar uns saborosos frutos do mar cozinhados, numa pequena loja, com maçarico… (Se estás no Japão, sê japonês).

O clima do Japão é diversificado, variando entre o tropical no extremo sul e o temperado frio nas regiões do norte. A altura média do país é de 438 metros e o ponto mais alto situa-se no monte Fuji, 3.776 metros acima do nível do mar. Como já foi dito, o país não possui grandes recursos naturais do ponto de vista energético (ou mineral), sendo o maior importador mundial de carvão e gás natural liquefeito, e o segundo maior importador de petróleo. Situado no chamado “anel de fogo do Pacífico”[11], o Japão está sujeito a uma intensa atividade sísmica e vulcânica[12], e também a tufões e tsunamis. Ao contrário do que acontece na maioria dos países temperados, no Japão chove sobretudo no início de Verão, e chove muito. Essa peculiaridade faz com que a produtividade agrícola seja muito elevada, apesar de apenas 14% do seu território ser cultivado. A elevada pluviosidade também faz com que a floresta japonesa, que cobre cerca de 70% do território, recupere rapidamente depois dos cortes.

Mesmo assim, o desmatamento das florestas tropicais tem contribuído para o esgotamento dos recursos florestais, não sendo este o único problema ambiental que o Japão enfrenta: as chuvas ácidas, provocadas pela intensa atividade de indústrias poluentes, acidificam a água de rios, lagos e mares; a poluição atmosférica é significativa[13]; a pesca intensiva constitui uma ameaça para algumas espécies; e, um assunto cada vez mais controverso, a produção de energia nuclear, pode provocar desastres catastróficos, como o de Fukushima, além de produzir resíduos cuja eliminação é muito problemática, se não impossível.

O Japão é o 11º país mais populoso do mundo, com mais de 125 milhões de habitantes, embora a taxa de natalidade atual seja muito baixa (1.43), o que o torna num dos países com maiores problemas no que toca ao envelhecimento da população.

Depois do aperitivo na rua, fomos jantar ao restaurante Sushi Zanmai Honten, ainda em Tsukiji, apenas guiados pela nossa intuição. Observámos que tinha muita gente, sobretudo japoneses, pelo que nos pareceu uma boa opção. Preferimos comer ao balcão ao lado de um casal japonês que nos foi dando algumas dicas. Provámos, muito provavelmente, o melhor atum das nossas vidas. À saída, quando tirámos esta foto, ainda não tínhamos percebido que estivéramos num dos melhores restaurantes de sushi em todo o mundo.

3- Cultura e sociedade

Como já vimos, o Japão é uma potência económica; e do ponto de vista da qualidade dos serviços que oferece aos cidadãos é, igualmente, um país extremamente desenvolvido: bons sistemas de saúde e educação, e um excelentíssimo sistema de transportes. Seria expectável, portanto, que fosse igualmente um país socialmente desenvolvido, o que efetivamente acontece, pese embora alguma desigualdade de género e de rendimentos. Isto ocorre, pelo menos em parte, porque a tradição tem um peso significativo na sociedade nipónica, cujas raízes são substancialmente diferentes das ocidentais. Os japoneses têm um grande orgulho na sua identidade e cultura. As religiões dominantes são o xintoísmo e o budismo, com muitos indivíduos a praticarem ambas[14]. Mas o que os japoneses defendem, sobretudo, é uma distinção étnica e linguística, sendo dos povos menos cosmopolitas do mundo, com poucos imigrantes e regras muito rígidas para os estrangeiros que pretendam viver no Japão. Isso sente-se (nós sentimo-lo) no contacto com as pessoas comuns, apesar da afabilidade de muitos delas.

Estas questões de identidade estão na base do longo conflito entre o Japão e a Coreia, com ambos a reivindicarem superioridade em relação ao outro. Porém, estudos recentes revelam que, à semelhança do que acontece com israelitas e palestinianos, o que os separa é muito menor do que o que os une, sendo povos geneticamente irmanados, que partilham uma longa história, apesar das desavenças.

Para regressarmos ao hotel onde estávamos hospedados, em Haneda, nos arredores de Tóquio, tínhamos de apanhar dois comboios suburbanos, o que, só por si, já é uma aventura, sobretudo para quem não sabe ler uma palavra que seja em japonês, a única língua em que estão inscritos nos painéis das gares os nomes das incontáveis estações e linhas. Não, a vida do turista não é aqui facilitada… Mas valeu a nossa persistência: viajarmos como verdadeiros japoneses foi para nós um desafio – superado. Não podemos deixar de realçar a pontualidade extrema (ao segundo!) das partidas e chegadas destes comboios, algo indispensável numa rede urbana tão densa que mais parece uma teia de aranha. Incrível.

Quando visitamos o Japão, percebemos quase imediatamente duas realidades distintas: a imagem familiar das modernas cidades ocidentais, com demonstrações por todo o lado de grande desenvolvimento tecnológico, e a cultura nacional, que consubstancia uma visão do mundo bem diferente do cosmopolitismo ocidental. Apesar disso, há uma aproximação gradual entre as culturas ocidental e nipónica, sobretudo nas artes e no desporto[15]. Se é certo que tradições artísticas, como o kabuki (o mais tradicional teatro popular japonês), ou desportivas, como o sumo (luta tradicional) continuam a atrair vastas camadas da população, é igualmente verdade que a música clássica, o rock, o futebol e o cinema ocidentais têm cada vez mais adeptos (e praticantes) no Japão. Em sentido contrário, temos a manga (banda desenhada japonesa) e o anime (desenhos animados) extremamente populares entre os jovens de muitos países ocidentais, como os Estados Unidos ou o Brasil; e também o sushi, que se tornou um tipo de comida popular em todas as grandes cidades americanas e europeias, o mesmo se podendo dizer do sashimi, ambos tendo por base o tradicional modo japonês de confecionar peixe fresco cru[16].

Gostaríamos de ter tido muito mais tempo, embora saibamos que nenhum tempo seria suficiente, para conhecermos o Japão. Quem sabe, um dia talvez possamos voltar… Por agora, resta-nos terminar este artigo reafirmando convictamente o que dissemos no início: o Japão é um país fascinante!

O topo do monte Fuji é o ponto mais alto do Japão: 3.776 metros. Esta foto, tirada do avião que nos levaria até Londres, na viagem de regresso a casa, fixa a última imagem da nossa visita ao país do sol nascente.

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Notas:

[1] A história do Japão cruza-se com a história de Portugal, porquanto os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao país do sol nascente, em 1542. (Ver nosso artigo em https://ilovealfama.com/tag/cristovao-ferreira/).

[2] Assim chamado por ter sido fundado, em 1603, por Tokugawa Ieyasu.

[3] Após a conquista da Califórnia ao México, em 1848, seguiu-se a descoberta de ouro, o que levou a uma explosão do tráfego marítimo americano na costa do Pacífico. A navegação de navios mercantes e baleeiros norte-americanos alargou-se, e muitos navios naufragaram, alguns em águas oceânicas próximas do Japão. Vários marinheiros americanos foram capturados e mortos pelos japoneses devido à política isolacionista do xogunato Tokugawa. Os americanos queriam que os marinheiros naufragados fossem ajudados e não mortos, bem como pretendiam que os navios americanos pudessem comprar carvão no Japão. Assim, o presidente americano Millard Fillmore enviou o comodoro Matthew Perry ao Japão com uma frota de quatro navios, dois deles vasos de guerra. O Japão na época não tinha navios nem máquinas a vapor. Perry deixou uma carta com as exigências americanas e disse que voltaria passado um ano para receber a resposta. Menos de um ano depois (em fevereiro de 1854) Perry regressou com nove navios de guerra. O xogum assinou o primeiro tratado japonês com um país ocidental e terminou com 215 anos de política de isolamento. Seguiu-se um período conturbado até ao fim do xogunato, que coincidiu com o início da Restauração Meiji e o enorme impulso na modernização do Japão.

[4] Recuperada em 1945 pela União Soviética.

[5] A forma como os japoneses se comportam na guerra diz muito sobre a sua cultura. São guerreiros ferozes e preferem morrer a renderem-se. E isso não acontece apenas com os militares: famílias inteiras cometeram suicídio para não se renderem aos americanos na II Guerra Mundial. Como se sabe, os japoneses continuaram a lutar mesmo depois da derrota de alemães e italianos e só após terem sido alvo de dois ataques atómicos, em Hiroshima e Nagasáqui, se renderam (2 de setembro de 1945).

[6] Foi essa falta de recursos a principal razão da política expansionista japonesa.

[7] Ainda não desembarcáramos em Yokohama e já nos deparávamos com uma amostra significativa do poderio económico japonês. Milhares e milhares de automóveis, alinhados sobre terraplenos gigantescos, aguardavam a sua vez de serem exportados, algures, para algum canto do mundo.

[8] Mais de 170 mil pessoas foram evacuadas e a radiação em indivíduos, solos e águas vai manter-se por muitos anos mais, assim como os esforços para contenção dos danos causados pelo acidente.

[9] A Guarda Costeira do Japão contabiliza as ilhas com mais de 100 metros de circunferência. De acordo com este critério, as ilhas japonesas são 6852. Quinze delas são ilhas vulcânicas ativas.

[10] Especialmente com a China.

[11] Cerca de 90% dos terramotos e 75% dos vulcões terrestres ocorrem no anel de fogo do Pacífico.

[12] Alguns vulcões no Japão constituem um elevado risco, como são, entre outros, os casos dos montes Unzen e Sakurajima (este último perto da densamente povoada cidade de Kagoshima), considerados “vulcões da década” pela Associação Internacional de Vulcanologia e Química do Interior da Terra (IAVCEI). Ver: https://www.iavceivolcano.org/

[13] O Japão é o quinto maior emissor mundial de dióxido de carbono proveniente do consumo de energia.

[14] A prática de ambas as religiões produz um dado curioso: a soma da percentagem de xintoístas (70,4%) com a de budistas (69,8%) é superior a 100%.

[15] Haverá poucos exemplos tão paradigmáticos da diversidade individual quanto uma grande orquestra ou uma equipa de futebol.

[16] Há quem se refira à “m.a.s.s. culture”: manga, anime, sushi e sashimi.

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Referências:

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Malásia

Aurora em Langkawi.

A Malásia é um país original, com algumas características muito particulares. Desde logo, a descontinuidade do território: uma parte na península da Malásia e outra parte na ilha de Bornéu (que divide com a Indonésia e o pequeno Brunei) separadas pelo Mar da China meridional. Depois, a população, constituída por três etnias distintas – malaios (62%), chineses (20,6%) e indianos (6,2%). É bastante curioso que os próprios partidos políticos representem essas etnias, e não classes ou ideologias, como é tradicional. Finalmente, a localização estratégica da Malásia, junto ao estreito de Malaca, que os navios que passam do Mar da China para o Mar de Andamão, e vice-versa, têm de percorrer. Esta zona do globo é, desde há muito, um ponto de encontro entre mercadores chineses, indianos, árabes e persas, um ponto nevrálgico, que aguçou a cobiça dos europeus: primeiro dos portugueses, depois de holandeses e britânicos.

A Sky Bridge.

Durante os séculos XVIII e XIX, a Grã-Bretanha estabeleceu colónias e protetorados na área da atual Malásia, os quais seriam ocupados pelo Japão durante a II Guerra Mundial, entre 1942-1945. Em 1948, os territórios governados pelos britânicos na península malaia, excetuando Singapura, formaram a Federação da Malásia, que se tornaria independente em 1957. Em 1963 juntaram-se à Federação as antigas colónias britânicas de Singapura, Sabah e Sarawak, estas duas na costa norte da ilha de Bornéu. Os primeiros anos da independência foram conturbados, com a retirada da Federação de Singapura (logo em 1965), reivindicações das Filipinas sobre Sabah, e confrontos com a Indonésia. Com o mandato do primeiro-ministro Mahathir Mohamad (1981-2003), a Malásia conseguiu diversificar a sua economia, passando da dependência quase exclusiva da exportação de matérias-primas para o desenvolvimento de manufacturas, serviços e turismo. Nos últimos anos, a Malásia vem tentando atrair investimentos em alta tecnologia, indústrias e serviços baseados no conhecimento.

Um percurso considerável até atingir o topo de Mat Cincang, o segundo monte mais alto de Langkawi (610 metros). Lá em cima, nos dias claros, avista-se, ao norte, a Tailândia e, a sudoeste, a ilha de Sumatra, na Indonésia.

A aposta na tecnologia permitiu um desenvolvimento enorme no campo das telecomunicações, pelo que a Malásia é, hoje, um dos países mais avançados nas tecnologias 4G e 5G, com cobertura de quase todo o território nacional. O segredo do relativo sucesso do país parece ser o de criar oportunidades para o conjunto da população, independentemente da etnia ou credo religioso[1], criando as condições de base, através de instituições democráticas, para a consolidação de uma sociedade liberal. De facto, pudemos constatar que a Malásia é uma sociedade tolerante, observando, nas ruas, tal como já acontecera na nossa visita à Tailândia, a harmonia entre as diferentes comunidades, muito diferente da que (não) ocorre, por exemplo, em alguns países do Médio Oriente.

Primeiro exemplo da arquitetura mogol[5] na Malásia: edifício Sultão Abdul Samad (1894-1897). Simétrico, possui uma torre-relógio com 41 metros de altura. Ocuparam este espaço a Federação de Estados Malaios (em 1897) e o Supremo Tribunal da Malásia (em 1972). Atualmente, está aqui instalado o Ministério do Turismo e Cultura da Malásia.

Assim, pudemos visitar tranquilamente mesquitas, pagodes, templos, igrejas, mercados tradicionais e apreciar, nos espaços públicos, a diversidade de costumes inerente a uma sociedade multicultural. Após termos estado em George Town[2], a nossa visita pela Malásia prosseguiu com uma paragem em Langkawi[3] e outra em Kuala Lumpur. Lankawi é uma pequena ilha (talvez do tamanho do Faial, nos Açores) situada no Estreito de Malaca, mas bem perto da costa continental, a uns meros 15 kms. Toda virada para o turismo, possui belas praias (sobretudo Tanjung Rhu, no norte, e Pantai Cenang, no sul), parques naturais e zonas de montanha, com profusa vegetação. Além disso, tem alguns equipamentos interessantes, como sejam um teleférico que nos conduz ao topo do monte Mat Cincang, onde encontramos uma ponte pedestre que parece suspensa no vazio. Pudemos visitar também dois museus, um etnográfico e um outro dedicado ao ciclo do arroz (museu Laman Padi); e visitámos ainda um enorme centro de artesanato[4], com vários stands de artesãos locais, alguns vendendo peças bastante interessantes. Como seria de esperar, tudo gira em torno do turismo nesta ilha, “porto livre de impostos”, desde 1987.

Twin Towers, em Kuala Lumpur. 452 metros de altura.

Kuala Lumpur, como grande capital, é mais cosmopolita. Alguns ocidentais instalaram-se aqui para aproveitarem as oportunidades de negócio que a abertura malaia vem oferecendo[6]. A parte antiga da cidade é a mais interessante. Aí encontrámos o mercado central (antiga sede do governo britânico), a Chinatown, o Palácio Nacional[7], a Praça da Independência e alguns edifícios interessantes, como o Tudor, do Royal Selangor Club, e a bonita catedral de Santa Maria a Virgem, dos finais do século XIX. Desde essa zona mais antiga da cidade, junto ao rio Kelang, seguimos a pé até à mesquita nacional da Malásia (Masjid Negara).Não longe ficam os templos Kuil Sri Maha Mariamman (hindu) e Sin Sze Si Ya (taoísta) e o Museu Nacional da Malásia (Muzium Negara). Após tomarmos uma água de coco junto ao mercado central, retemperámos forças para subirmos até à quarta torre de telecomunicações mais alta do mundo (Menara Kuala Lumpur), terminando a nossa visita à capital da Malásia nas emblemáticas Petronas Twin Towers.

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Notas:

[1] A religião oficial é o islamismo (cerca de 61%), mas budistas (20%), cristãos (9%), hindus (6%), bem como outros credos, incluindo alguns tradicionais chineses, são respeitados.

[2] Ver nosso artigo sobre George Town aqui: https://ilovealfama.com/2020/05/29/street-art-george-town-malasia/

[3] Langkawi, em malaio, significa “águia”.

[4] Complexo Cultural e Artesanal Budaya.

[5] Apesar do império Mogol ter tido uma relação direta com o império Mongol ( Babur, o fundador da dinastia Mogol, era descendente de Gengis Khan) foram realidades diferentes. O império Mogol durou de 1526 a 1857 e compreendia a maior parte dos territórios atuais da Índia, e dos Paquistão, Afeganistão e Bangladesh. Era, no seu apogeu, provavelmente o mais rico e poderoso do planeta. Profundamente islâmico, entrou em declínio nos finais do século XVIII sendo definitivamente sepultado pela expansão de um outro império, o britânico.

[6] Conversámos sobre a realidade malaia com dois ocidentais: um guia turístico espanhol, que também tem um restaurante na cidade, e um senhor inglês que já vive em Kuala Lumpur há 30 anos.

[7] Conhecido como Istana Negara.

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Phuket e Phang Nga, Tailândia

A baía de Patong, na ilha de Phuket.

A Tailândia reúne excelentes condições para a prática do turismo ligado ao mar: ilhas idílicas, clima tropical, paisagens arrebatadoras, povo acolhedor, e um destino relativamente barato para os padrões ocidentais. Na nossa curta estadia estivemos na ilha de Phuket, desembarcando na localidade de Patong, uma das mais atingidas pelo tsunami de 26 de Dezembro de 2004. Daí tomámos um autocarro em direção a Phang Nga.

Ilha de James Bond.

Chegados ao Parque Nacional, apanhámos de imediato uma lancha para a ilha Kao Ping Gun, atualmente conhecida por ilha James Bond, devido às filmagens finais do filme “O Homem da Pistola Dourada”, que ali decorreram. O percurso de lancha é feito através de uma paisagem quase surrealista, repleta de penhascos calcários. O nosso ponto de paragem seguinte foi em Koh Panyi, um povoado flutuante, com casas construídas sobre estacas e passadeiras de madeira entre elas. A povoação tem mesquita, escola, lojas e vários restaurantes. Almoçámos num deles. A população residente é muçulmana e vive quase exclusivamente do turismo.

Recinto desportivo flutuante na povoação de Koh Panyi.

Quando finalmente a lancha nos deixou em terra firme tomámos de novo o autocarro, que rumou ainda mais para Norte, até Krasom, onde visitámos o templo budista Suwan Khuha, situado dentro de uma gruta, um dos mais importantes da Tailândia. Era já noite cerrada quando regressámos a Patong, agora extremamente animada, com as ruas repletas de turistas, fumo, cheiros, sons, incontáveis bares, restaurantes, e todo o tipo de comércio, incluindo a prostituição. Ao contrário da maioria dos lugares, é quando começa a noite que Patong acorda.

No interior de Suwan Khuha.

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O Santo do Povo

Igreja de Santo António, em Lisboa. Tardo-barroca, data dos finais do século XVIII, e é fruto da reconstrução a que foi sujeito o anterior templo, em consequência do terramoto de 1755. Como reza a tradição, ergue-se sobre a antiga casa de morada do santo.

Hoje é dia de Santo António, talvez o santo mais popular do mundo inteiro. De facto, a imagem de António com o menino ao colo multiplica-se em inesgotáveis versões por todos os continentes, e essa singularidade, o facto de ser sempre representado com o menino, permite (sejam quais forem estilos, formas ou materiais usados) uma imediata identificação. Mas, apesar da universalidade de Santo António, apenas duas cidades podem reclamar-se como as cidades deste santo tão popular: Lisboa e Pádua. É por isso que se pode apelidá-lo, com igual propriedade, Santo António de Lisboa ou Santo António de Pádua, pois Lisboa é a cidade onde nasceu e Pádua a cidade onde morreu (e estão depositados seus restos mortais). Mas, talvez mais apropriado, ainda, seja citarmos o Papa Leão XIII: “António é o santo de todo o mundo”. Haverá, pois, inúmeras formas justas de apelidar Santo António e nós também temos uma, não sabemos se original: o Santo do Povo. O pequeno texto que se segue é uma tentativa de mostrar porquê.

A vida de Santo António

António teve uma vida cheia, embora curta, pois viveu apenas 36 anos. Nasceu em Lisboa no ano de 1195, filho primogénito de uma família rica, nobre e poderosa, e foi-lhe dado o nome de Fernando. Frustrando as expectativas da família, Fernando abandona o palácio onde vivia e, com 15 anos, ingressa numa ordem religiosa que ainda hoje existe – os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho – enclausurando-se no mosteiro de São Vicente de Fora. É aqui que se inicia a formação que o tornará um dos eclesiásticos mais cultos da Europa no início do século XIII. Pouco tempo depois, para se isolar de parentes e amigos que tentam dissuadi-lo, vai para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, igualmente da Ordem de Santo Agostinho, onde se dedica aos estudo de Teologia até completar os 25 anos, quando é ordenado sacerdote.

Capela de Santo António, no local onde se situava a cela do então Fernando de Bulhões, no mosteiro de São Vicente de Fora. Projetada por Carlos Mardel, foi construída em 1740.

Após ter tido conhecimento da morte de cinco franciscanos em Marrocos, Fernando considera a sua vida no mosteiro demasiado confortável e medíocre, e decide ir para o terreno como missionário, com a intenção de se tornar um mártir. Apesar das dificuldades, consegue deixar os Cónegos Regrantes e tornar-se um franciscano. Para cortar todas as pontes com o passado muda o nome para António (há quem diga que em homenagem ao eremita Santo Antão) e, após um breve tirocínio, embarca para África. No entanto, os seus intentos não se realizam, pois, mal desembarca no continente negro, fica gravemente doente com febre malária e vê-se obrigado a regressar a Portugal. Os ventos contrários, porém, empurram o navio em que viaja para a Sicília. Desanimado e doente, António desloca-se a Assis, onde se encontra com São Francisco, no Pentecostes de 1221.

O encontro com o Poverello faz renascer o ânimo de António, que é conduzido ao ermitério de Monte Paulo, no distrito de Forlí. Num desses dias vai à cidade para uma ordenação sacerdotal; o pregador oficial falta, e António é encarregado de dizer algumas palavras. É então que se revela o seu superior talento de pregador. A partir desse dia é enviado a percorrer todos os caminhos de Itália e França. Em 1224, na cidade de Arles, São Francisco aparece durante um seu sermão. E tal como na vida de São Francisco acontece uma pregação às aves, também na vida de Santo António acontece uma pregação, igualmente fantasiosa e poética, aos peixes. Esta teria ocorrido em Rimini, que se encontrava, à data, nas mãos dos hereges. Quando o missionário chega à cidade é recebido com um muro de silêncio. António não encontra ninguém a quem dirigir palavra. As igrejas, as praças, as ruas estão desertas. Então, quando chega ao lugar em que o rio Marecchia desagua no Adriático começa a chamar, dizendo: “Vinde vós, ó peixes, ouvir a palavra de Deus, dado que os homens soberbos não a querem ouvir!”. E os peixes emergem às centenas, aos milhares, para ouvirem Santo António. Entretanto, a curiosidade dos hereges acaba por ser mais forte do que a ordem de silêncio recebida dos seus chefes e uma multidão aproxima-se, já rendida aos dons oratórios do franciscano; muitos, maravilhados, arrependem-se e retornam à religião católica.

A grandiosa Basílica de Santo António, em Pádua. Inspirada na Basílica de São Marcos, em Veneza, mede 115 metros de comprimento, 55 de largura, e 38,5 de altura máxima no seu interior. Combina o românico da sólida estrutura com o gótico das capelas, arcos e abóbadas. É rodeada por oito cúpulas, duas torres sineiras, duas pequenas torres – minarete e dois campanário gémeos que atingem 68 metros de altura. É iluminada por três grandes rosáceas: duas ao lado do altar-mor e a outra na fachada, entre duas janelas geminadas.

Vários milagres são atribuídos a António, e a fama de santo milagreiro espalha-se. Entretanto, promove os estudos de Teologia no seio da Ordem Franciscana, e é nomeado superior dos frades da Itália do Norte; ensina em Bolonha, Montpellier, Toulouse e Pádua; trabalha incansavelmente. Eis o que nos diz um seu contemporâneo: “Pregando, ensinando, escutando as confissões, acontecia-lhe chegar ao fim do dia sem ter tido tempo para comer”. A saúde, debilitada desde os tempos de Marrocos, deteriora-se e António, cansado pelas fadigas e pela hidropisia, pressentindo o fim, pede para se recolher em contemplação no convento de Camposampiero, no ermitério que o dono do lugar, o conde de Tiso, tinha doado aos Franciscanos, junto ao próprio castelo. Uma noite o conde, que, cansado da vida política, se havia tornado discípulo de Santo António, aproximou-se da cela do amigo e viu que da mesma se libertava uma intensa luminosidade. Pensando que fosse um incêndio abriu a porta e deparou com uma cena prodigiosa: António segurava nos braços o Menino Jesus. O Santo pediu-lhe humildemente que não contasse nada a ninguém e o conde assim fez; só depois da morte de Santo António contou o que tinha visto.

No dia 13 de Junho de 1231, uma sexta-feira, Santo António faleceu. De acordo com o seu desejo, o corpo foi transportado para a pequena igreja de Santa Maria, em Pádua. Toda a cidade acompanhou o funeral e, nessa mesma tarde, sobre o seu túmulo, começaram os milagres. A fama do Santo espalhou-se ainda mais, e peregrinos, alguns de zonas longínquas, dirigem-se a Pádua. O processo de canonização inicia-se de imediato e conclui-se rapidamente, com o reconhecimento unânime da sua santidade. Os confrades de António, ajudados pelos paduanos e pelos peregrinos iniciam então a construção de uma grande basílica onde tencionam repor dignamente os restos mortais do Santo dos milagres. Em 1263, os restos mortais de Santo António são transportados para a nova basílica. Aberto o caixão, verificam que a língua se conserva prodigiosamente incorrupta.

O túmulo de António na “Capela do Santo”. Basílica de Santo António, Pádua.

Como era Santo António

Após o reconhecimento de 1263, ocorreu um novo reconhecimento, com autorização de João Paulo II, em 1981, por ocasião dos 750 anos da morte do Santo. Os restos mortais revelaram-se perfeitamente conservados. Médicos e historiadores tiveram a oportunidade de reconstruir as características físicas de Santo António: cerca de 1,70 m de altura; estrutura frágil, pouco robusta; perfil nobre; rosto alongado e estreito; olhos encovados; mãos compridas e finas. O mais extraordinário foi este reconhecimento ter confirmado o de 1263 também no que toca ao aparelho vocal: este manteve-se intacto, com a língua incorrupta, tal como 718 anos antes. Os diferentes elementos do aparelho vocal foram então guardados em relicários. Estes, por sua vez, encontram-se na “Capela das Relíquias” ou do “Tesouro”, construída nos finais do século XVII, em estilo barroco, sob projeto do arquiteto e escultor Filippo Parodi, uma das sete belíssimas capelas da não menos belíssima Basílica de Santo António. O esqueleto de António, recomposto dentro de uma urna de cristal protegida por uma caixa de madeira de carvalho, foi colocado novamente no seu túmulo, em 1 de Março de 1981. Só no mês de Fevereiro de 2010 os fiéis puderam ver os restos mortais do Santo. Esta foi a sua última exposição.

Santo Popular

Santo António desde cedo se tornou popular. Foram e são-lhe atribuídos inúmeros milagres. E todos sabemos como os milagres mais pedidos são os da saúde e do amor… Assim, não surpreende que tenham sido atribuídos ao pobre António incontáveis milagres amorosos e que ele tenha ganhado, sem vontade própria, a fama de casamenteiro. Ora, quem pode ser mais popular que um casamenteiro? Como pudemos testemunhar, quer em Portugal, quer no Brasil, mas também em Pádua e noutras partes do mundo, as festas em honra de Santo António, no dia 13 de Junho (que começam na véspera), estão fortemente implantadas na cultura popular de vários povos. Curiosamente, algumas tradições do tempo da nossa infância no bairro de Alfama, em Lisboa, que aí caíram em desuso, por exemplo “saltar à fogueira”, continuam bem vivas no Brasil, como constatámos na Paraíba, numa viagem noturna entre Campina Grande e João Pessoa: em todas as povoações por que passámos, vimos fogueiras.

Este Santo António fez um longo percurso desde Ouro Preto, no Brasil, até o Algarve, em Portugal.

Tivemos a sorte de conhecer Campina Grande e Caruaru, as duas cidades, a primeira na Paraíba e a segunda no Pernambuco, que rivalizam para organizar as melhores festas juninas do Brasil, embora estas estejam fortemente implantadas em todo a Federação, sobretudo no Nordeste. As quadrilhas juninas organizadas por associações locais dos municípios nordestinos, proliferam por todo o lado e, claro, o ponto alto das suas atuações acontece durante as festas em honra dos santos populares. As exibições das quadrilhas arrastam muitos aficionados, à semelhança do que acontece com as marchas populares, em Lisboa, e as coreografias, que obedecem a certos cânones, são, apesar disso, muito criativas.

A nossa ligação a Santo António existe desde que nascemos, em Alfama, num dia 12 de Junho. Todos os anos, nesse dia, os lisboetas preparam-se para a noite mais longa do ano, a maior festa popular da cidade. Desde o tempo da minha infância até agora, a Noite de Santo António foi-se modificando: já não se salta à fogueira; já não se queimam alcachofras; já não se fazem os bailaricos nos pátios e as festas particulares, mas abertas a todos, dos vizinhos de cada beco; já não se houvem cantigas populares que provavelmente se perderam no tempo (talvez ninguém se tenha lembrado de fazer uma recolha de pelo menos algumas dessas cantigas, o que é pena); já não se oferecem sardinhas a quem passa. Hoje, infelizmente, os moradores do bairro que intervêm na festa pensam sobretudo no negócio: em fazer um “retiro”. Apesar das mudanças, a animação é garantida, com o bairro repleto de visitantes.

A procissão de Santo António passa pelas ruas apertadas de Alfama. Na foto, o andor do arcanjo São Miguel. Pela primeira vez, depois de muitos anos, hoje, devido à Covid-19, não haverá procissão de Santo António.

O mesmo se passa na Mouraria, na Graça, no Castelo, na Bica, no Alto do Pina e em muitos outros bairros de Lisboa. A meio da noite, mais ou menos, a Marcha, vinda da atuação na Avenida da Liberdade, percorre as ruas de Alfama até ao Centro Cultural Magalhães Lima. Tal como na saída, ao fim da tarde, trata-se de um momento alto para os bairristas mais fervorosos. Nessa noite é normal as pessoas deitarem-se quando já é dia – Dia de Santo António. No 13 de Junho, de manhã, sabe-se qual é a marcha vencedora; e, à tarde, vinda da Igreja que tem o seu nome, passa pelo bairro a procissão de Santo António, à qual se vão juntando andores de outras paróquias – Sé, São Miguel, Santo Estevão, São Vicente, Santa Cruz do Castelo e São Tiago – até regressar ao local de origem. Em alguns anos assistimos a tudo isto sem interrupção, fazendo uma “direta”, voltando a casa apenas na noite desse dia 13. O padroeiro oficial de Lisboa é São Vicente (o primeiro fora São Crispim), mas pouca gente sabe ou quer saber disso. O padroeiro popular, o verdadeiro, é Santo António. O Santo do Povo.

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Fontes:

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Street Art, George Town, Malásia

“Brother and Sister”. George Town é uma cidade fotogénica.

Provavelmente será um dos nomes mais comuns de cidades em todo o mundo. Nós próprios já estivéramos noutra Georgetown, a capital das ilhas Caimão, mas esta, em particular, apesar de igualmente situada numa ilha, é a capital da província de Penang, na Malásia, que, “em reconhecimento da preservação histórica e cultural”, passou, juntamente com Malaca, a ser considerada Património Mundial UNESCO em Julho de 2008. Estas cidades situam-se no Estreito de Malaca, uma passagem marítima estratégica, desde há muitos séculos.

“Old Motorcycle”, de Ernest Zacharevic.

Quando, em 1511, Afonso de Albuquerque conquistou Malaca, esta era o ponto mais ocidental até onde navegavam os marinheiros chineses (muitos dos quais aí se instalaram na chamada Colina Chinesa), e para onde navegavam igualmente, mas em sentido contrário, indianos, persas e árabes para comprarem sedas e porcelanas. Hoje, mais de cinco séculos depois, o Estreito de Malaca, com 800 kms de comprimento e, no ponto mais estreito, apenas 3 kms de largura, é vital para a China, pois é por lá que passam os navios oriundos do Golfo Pérsico, carregados do petróleo de que este país tanto necessita. Continua, pois, a ser uma zona nevrálgica do globo, onde muitos interesses se cruzam.

“Brother and Sister on Swing”, de Louis Gan.

Para assinalar a passagem de George Town a Património Mundial, o governo malaio decidiu promover uma competição destinada a encontrar a melhor proposta artística para as ruas da zona histórica da cidade. O vencedor foi o coletivo Sculpture at Work, que apresentou, em 2012, uma série de 52 caricaturas em ferro, intitulada Marking George Town, as quais narram, em imagens, episódios da história do burgo. Os criadores foram Tang Mun Kian, Baba Chuah, Reggie Lee e o consagrado autor de banda desenhada malaio, Julian “Lefty” Kam. Estas peças fazem parte de um roteiro que foi sendo enriquecido com obras de outros artistas, nomeadamente, do lituano Ernest Zacharevic, com o projeto Mirrors George Town.

“Kids on Bicycle”, na Lebuh Armenian, é considerado o melhor trabalho, em George Town, de Ernest Zacharevic.

Os trabalhos de Zacharevic em George Town são uma combinação de objetos com pinturas, permitindo aos visitantes interagir com as obras. Os modelos retratados, normalmente crianças, são pessoas reais da população local. Um mapa com indicação dos pontos onde se podem ver estes trabalhos está disponível em vários pontos turísticos de George Town. Foi com um exemplar na mão que percorremos toda a cidade. Nessa altura não sabíamos que Ernest Zacharevic já estivera em Lisboa, em 2015, na inauguração da sua terceira exposição individual (a primeira na Europa), The Floor is Lava, na Galeria Underdogs.

Uma das 52 caricaturas em ferro das paredes da cidade. “Para consternação dos paroquianos da Igreja Portuguesa, a rua da Igreja também abrigava a sede da sociedade secreta Ghee Hin”. Como se vê, os portugueses não foram esquecidos.

É patente em George Town um contraste harmónico entre as culturas chinesa, indiana e malaia. Existe tolerância religiosa. A população é simpática e pacífica, como simpático é o custo de vida, realmente acessível, nomeadamente no que toca à alimentação e ao alojamento. Vale seguramente a pena visitar os templos Kuan Yin (budista), Sri Mariammam (hindu) e Kapitan Keling (muçulmano), bem como o forte Cornwallis e o templo do clã chinês Khoo Kongsi, entre muitos outros locais de interesse.

“Little Boy with Pet Dinosaur”, na Ah Quee Street, ainda um trabalho de Ernest Zacharevic.

A zona histórica está concentrada junto ao porto e pode ser percorrida a pé, mas, com calor intenso, talvez seja aconselhável fazê-lo no início ou no final do dia. Outra forma interessante de circular é alugando uma bicicleta; pode também apanhar-se o Cat Bus, e fazer uma viagem grátis em torno da cidade. Quem quiser hospedar-se com estilo pode ficar no Eastern & Oriental Hotel, um palácio colonial convertido em hotel de cinco estrelas, onde se pode tomar um magnífico pequeno-almoço debruçado sobre o mar. Por tudo isto, sobretudo para os amantes da street art, vale a pena visitar George Town, uma cidade histórica, colorida e verdadeiramente fotogénica.

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Parque Natural da Ria Formosa

Cacela Velha, talvez o recanto mais charmoso do Parque.

A presença humana na Ria Formosa é muito antiga. Os romanos fundaram aqui uma das maiores cidades da Hispânia, Balsa, e antes deles já fenícios e cartagineses se haviam instalado no mesmo local. Os restos dessa cidade encontram-se debaixo de terra, na Torre d’Aires, mas há outras evidências à superfície que confirmam a posição estratégica da ria: as fortalezas dos Cavaleiros de Santiago, em Cacela, e de São João da Barra, em Cabanas, e o já muito arruinado forte de Santo António, em Tavira, foram construídos nesta zona porque os navios que contornam a costa, oriundos do Mediterrâneo, têm de passar por aqui.

As praias da Ria são uma boa alternativa às praias de mar aberto, sobretudo para quem tem crianças.

Para lá da posição estratégica, toda a zona do Parque Nacional da Ria Formosa foi, e é, igualmente importante do ponto de vista económico. As armações de atum, vitais para as populações do Sotavento durante os séculos XIX e XX, sobretudo para as famílias que, em comunidade, ocupavam os arraiais, foram também fonte de rendimento para trabalhadores e trabalhadoras da indústria conserveira. O cemitério de âncoras, no Barril, é um vestígio icónico desses tempos, quando os incríveis cães d’água (raça hoje reconhecida como “cão d´água português”) ainda ajudavam na faina.

Praia do Barril: bela e singular.

A extração de sal, com certeza muito antiga, manteve-se até hoje; e a flor de sal de Tavira, usada pelos mais afamados cozinheiros de todo o mundo, é de qualidade superior. Outro produto típico da Ria Formosa são as ostras, que beneficiam do movimento das marés e do sol algarvio para ganharem uma especial depuração. As mais famosas são as do Moinho dos Ilhéus, exportadas para vários países e disponíveis para degustação na Noélia, em Cabanas, um dos melhores restaurantes portugueses; e as mais populares são as dos viveiros da Fábrica, que se podem provar na Casa da Igreja, em Cacela (talvez na volta da praia), como manda a tradição.

Pernilongo – uma das aves mais comuns da Ria Formosa.

Daí, do magnífico miradouro de Cacela Velha, podemos distinguir, entre ria e mar, uma língua de areia fina e comprida, que se estende até o Barril – são as melhores praias da Europa! E, por todo o lado, arbustos, árvores, flores e frutos tipicamente mediterrânicos: não apenas a tríade figo, alfarroba e amêndoa, mas também citrinos, nêsperas e medronhos, entre muitos outros. Nas salinas, as aves são tão variadas que, só por elas, já vale a pena sair de casa: flamingos, mergulhões, garças, maçaricos, patos-bravos, pernilongos… E, no mar, os melhores peixes e mariscos.
Pura sorte, nestes tempos de confinamento, termos, a dois passos, esta ria tão singular. Sempre diferente, sempre formosa.

Ilha-barreira de Cacela. As melhores praias da Europa.

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O Atiçador de Wittgenstein

Wittgenstein e Popper. Vienenses de origem judaica, foram contemporâneos e viveram em Inglaterra. Mas as suas visões do mundo eram radicalmente diferentes.

Quase todos os que se interessam por Filosofia já terão tido conhecimento do episódio ocorrido na sala H3 do King’s College, em Cambridge, na noite de 26 de Outubro de 1946, entre Karl Popper e Ludwig Wittgenstein. Há versões para todos os gostos sobre o que aconteceu e até a um livro já foi dado o título que também usámos neste artigo: “O Atiçador de Wittgenstein”[1]. Mas, mais do que o fait divers que se instalou em torno desse episódio, estamos interessados no que, do ponto de vista filosófico, separava os dois autores. Popper sempre foi muito crítico em relação à filosofia da linguagem e, logo, de Wittgenstein, o seu mais eminente representante. Também nós, sem escondermos que, em larga medida, somos influenciados por Popper, já nos debruçámos, em outro artigo deste blogue, sobre as principais obras de Wittgenstein, a saber, o Tratado Lógico Filosófico e as Investigações Filosóficas[2]. É indisfarçável, pois, a nossa simpatia pela posição de Popper, que não pretendemos esconder. Na autobiografia intelectual[3], Popper refere-se várias vezes ao seu compatriota e, numa secção desse livro, conta o que se passou dentro da sala H3, apinhada de estudantes, professores e curiosos. Claro que se trata da versão de Popper, uma entre várias, sobre o que aconteceu, e é possível que contenha falhas, pois não é crível que alguém recorde exatamente todos os detalhes do que se passou. Porém, acreditamos que as falhas que possam ocorrer sejam devido a isso mesmo – alguma imprecisão de memória – pois não passa pela cabeça de quem tenha estudado a obra de Karl Popper, duvidar da sua honestidade intelectual. Eis, pois, o que Popper transcreve na sua autobiografia[4].

No princípio do ano escolar de 1946-47 recebi um convite do Secretário do Clube de Ciências Morais, de Cambridge, para ler um artigo sobre um “quebra-cabeças filosófico”. Era perfeitamente claro que se tratava de uma formulação de Wittgenstein, e que por detrás dela estava a tese filosófica de Wittgenstein de que não existem problemas genuínos em filosofia, mas apenas quebra-cabeças linguísticos. Dado que esta tese se encontrava entre as minhas aversões de estimação, decidi falar sobe “Existem Problemas Filosóficos?”. Comecei o meu artigo (lido em 26 de Outubro de 1946, no gabinete de R.B. Braithwaite no King’s College) exprimindo a minha surpresa por ser convidado pelo Secretário para ler um artigo “abordando um quebra-cabeças filosófico qualquer”; e salientei que, ao negar implicitamente que existem problemas filosóficos, quem quer que tivesse escrito o convite tinha tomado partido, talvez sem se dar conta, numa questão criada por um genuíno problema filosófico.

Não preciso de dizer que a intenção desta afirmação era apenas uma introdução desafiadora e, de certo modo, bem disposta, ao meu tópico. Mas precisamente nesse momento, Wittgenstein deu um salto e disse alto e, ao que me pareceu, zangado: “O Secretário fez exactamente o que lhe disseram. Agiu sob as minhas instruções.” Não dei importância a isto e prossegui; mas resultou daqui que pelo menos alguns dos admiradores de Wittgenstein lhe deram importância e, como consequência, tomaram a minha observação, que tinha a intenção de ser uma piada, como uma queixa séria contra o Secretário. E o mesmo fez o pobre Secretário, como se pode ver pelas actas em que relata o incidente, acrescentando uma nota de rodapé: “Esta é a forma de convite do Clube.”

Contudo, prossegui dizendo que se pensasse que não existem problemas filosóficos genuínos, certamente que não seria filósofo; e que o facto de muita gente, ou talvez toda a gente, adoptar impensadamente posições indefensáveis para muitos, ou talvez todos, os problemas filosóficos, fornecia a única justificação possível para ser filósofo. Wittgenstein voltou a dar um salto, interrompendo-me, e dissertou longamente sobre quebra-cabeças e sobre a inexistência de problemas filosóficos. Num momento que me pareceu apropriado, interrompi-o, apresentando uma lista que tinha preparado de problemas filosóficos como estes: Conhecemos coisas por meio dos nossos sentidos? Obtemos os nossos conhecimento por indução? Estes problemas foram afastados por Wittgenstein como sendo mais lógicos do que filosóficos. Referi então o problema de saber se existem infinitos potenciais, ou mesmo reais, um problema que afastou como sendo matemático. (Esta rejeição consta das actas.) Mencionei então os problemas morais e o problema da validade das regras morais. Nesse ponto, Wittgenstein, que estava sentado perto da lareira e tinha estado a brincar nervosamente com o atiçador, que por vezes usava como a batuta de um maestro para sublinhar as suas asserções, desafiou-me: “Dê um exemplo de uma regra moral!” Retorqui: “Não ameaçar os conferencistas visitantes com atiçadores.” Ao que Wittgenstein, num acesso de raiva, largou o atiçador e saiu da sala, batendo com a porta.

Fiquei realmente muito penalizado. Admito que fui a Cambridge esperando provocar Wittgenstein a defender o ponto de vista de que não existem problemas filosóficos genuínos e com a intenção de o combater nesse ponto. Mas nunca tive a intenção de o irritar; e foi uma surpresa para mim descobri-lo incapaz de compreender um dito de espírito. Só mais tarde compreendi que era provável que ele achasse, de facto, que eu estava a brincar e que isso o tenha ofendido. Mas embora quisesse tratar o meu problema com boa disposição, eu falava a sério – talvez mais do que o próprio Wittgenstein, dado que, afinal, ele não acreditava em genuínos problemas filosóficos.


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Notas:

[1] David Edmonds & John Eidinow, “Wittgenstein’s Poker: The Story of a Ten-Minute Argument Between Two Great Philosophers”, Harper Collins Publishers, 2002.

[2] https://ilovealfama.com/tag/wittgenstein/

[3] Karl Popper, “Busca Inacabada: Autobiografia Intelectual”, Esfera do Caos, Lisboa, 2008, 1ª ed.

[4] Ob. cit., pp. 172-4.

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Fotos retiradas de:

  • goodreads.com
  • canterbury.ac.nz

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Os Países-modelo

1Suíça7.12Dinamarca8.1
3Islândia8.34Suécia8.5
5Finlândia8.86Noruega8.9
7Holanda10.38Austrália12.1
9Irlanda13.110Canadá13.4
11Nova Zelândia15.112Alemanha15.3
Os doze países-modelo: confiança nas instituições, baixa corrupção, sistemas de justiça eficazes, proteção social e liberdade.

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Introdução

É um facto mais ou menos conhecido: os países do norte da Europa são os socialmente mais desenvolvidos do mundo. Mas serão os únicos, ou outros, de outras zonas do globo, terão níveis de desenvolvimento idênticos? Que sistema político e, mais importante, que políticas serão prevalecentes nestes países mais desenvolvidos? Ou, ao invés, será sobretudo uma questão cultural e não tanto política? Quais as principais diferenças, se as há, entre eles? Esses países são conhecidos pela proteção social que oferecem aos cidadãos, mas isso é compatível com a liberdade individual e a liberdade económica? E quanto à igualdade, incluindo a igualdade de género? E, já agora, qual entre todos os países do mundo desenvolvido, é mesmo o mais avançado[1]?

Esta artigo é uma tentativa de resposta a estas e outras perguntas. Para isso analisámos vários rankings e índices – elaborados por instituições prestigiadas e credíveis – e acabámos por elaborar o nosso próprio índice dos doze países-modelo, uma síntese de todos os outros. Como a expressão sugere, a ideia é apontar a um farol, que nos indique a terra das boas práticas: porque acreditamos que o benchmarking é mais eficaz que as ideologias. Como veremos, além de tudo o resto, os países mais desenvolvidos são também os mais felizes. (E nem sequer têm o sol magnífico que brilha no Sul!). Então, no mínimo, deve valer a pena tentar perceber porquê.

Começámos por juntar dez estudos, a que correspondem dez rankings ou índices. A saber:

  • Índice de Desenvolvimento Humano
  • Índice da Desigualdade de Género
  • Índice de Liberdade Económica
  • Índice da Qualidade dos Cuidados de Saúde
  • Índice de Liberdade Humana
  • Coeficiente de Gini
  • Índice da Liberdade de Imprensa
  • Índice da Democracia
  • Índice da Paz Global
  • Relatório da Felicidade Mundial

Iremos debruçar-nos sobre cada um deles, de forma sumária, indicando a classificação dos 30 primeiros países e também como se classificaram os seguintes, quando não se encontrem entre os 30 primeiros: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo-Verde, S. Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Rússia, China, Cuba e Venezuela. Incidiremos uma atenção particular sobre estes países porque alguns deles pertencem à lusofonia e outros porque são governados por ditadores, mas ainda assim atraem muitos simpatizantes[2]. Sempre que acharmos motivo relevante, poderemos, pontualmente, fazer referência a qualquer outro país, sobretudo sobre aqueles que pertencem à União Europeia, por serem os que mais diretamente comparam com Portugal. O último país, que fecha cada ranking, será sempre indicado. No final deste artigo, num último bloco, elaboraremos então o nosso índice dos doze países-modelo (para tal bastará somar os dígitos que correspondem aos lugares que ocupam em cada um dos índices ou rankings aqui abordados; é óbvio que quanto mais baixa for a pontuação, melhor será a sua posição no nosso índice); e buscaremos as razões para o seu bom desempenho. Vamos a isso.

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Índice de Desenvolvimento Humano

O IDH começou por ser desenvolvido em 1990 por Amartya Sen e Mahbub al Haq e foi adaptado, em 1993, pelo PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Os critérios de avaliação foram modificados em 2010, passando a incluir as três seguintes áreas: expectativa de vida ao nascer; anos médios de estudo e anos esperados de escolaridade; e PIB per capita. Notoriamente, estes critérios não contemplam todas as áreas que contribuem para o “desenvolvimento humano” das populações de um país. Não contemplam questões importantes para a qualidade de vida, como as ambientais, a desigualdade, a pobreza, entre outras. Mas são indicadores. Conjugados com os de outros estudos dar-nos-ão, como dissemos acima, uma noção mais clara sobre o desenvolvimento de cada país. A pontuação vai de 0 a 1, sendo que quanto maior for a aproximação a 1, maior será o desenvolvimento humano de um país. Vejamos a classificação.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Noruega0.9542Suíça0.946
3Irlanda0.9424Alemanha0.939
4Hong Kong0.9396Austrália0.938
6Islândia0.9388Suécia0.937
9Singapura0.93510Holanda0.933
11Dinamarca0.93012Finlândia0.925
13Canadá0.92214Nova Zelândia0.921
15Reino Unido0.92015Estados Unidos0.920
17Bélgica0.91918Liechtenstein0.917
19Japão0.91520Áustria0.914
21-Luxemburgo (0.909); 22-Israel (0.906); 22-Coreia do Sul (0.906); 24-Eslovénia (0.902); 25-Espanha (0.893); 26-República Checa (0.891); 26-França (0.891); 28-Malta (0.885); 29-Itália (0.883); 30-Estónia (0.882); 31-Chipre (0.873); 32-Grécia (0.872); 32-Polónia (0.872); 34-Lituânia (0.869); 36-Eslováquia (0.857); 39-Letónia (0.854); 40-Portugal (0.850); 43-Hungria (0.845); 46-Croácia (0.837); 49-Rússia (0.824); 72-Cuba (0.778); 79-Brasil (0.761); 85-China (0.758); 96-Venezuela (0.726); 126-Cabo Verde (0.651); 131-Timor-Leste (0.626); 149-Angola (0.574); 178-Guiné-Bissau (0.461); 180-Moçambique (0.446); 189-Níger (0.377). Fonte: www.hdr.undp.org

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Como já deixámos claro, o Índice de Desenvolvimento Humano é demasiado básico, precisa de ser complementado com outros dados, o que é, aliás, referido no próprio relatório. No entanto é um indicador; mostra-nos, desde logo, uma tendência: os países economicamente mais ricos partem em vantagem. Mas isso, por si só, não é tudo. O Qatar, por exemplo, tem o PIB per Capita mais alto do mundo[3], mas está muito longe de ser um país socialmente desenvolvido… Os autores deste estudo remetem-nos, por isso, para outros relatórios, um dos quais analisaremos já de seguida. Apesar de tudo, não podemos deixar de reparar na posição de Portugal (40º), relativamente aos outros 27 estados-membros da União Europeia, posicionando-se à frente, apenas, da Hungria (42º), da Croácia (46º) e da Bulgária (52º).

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Índice da Desigualdade de Género

Igualmente promovido pelas Nações Unidas (PNUD- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), tem por objetivo avaliar a desigualdade entre homens e mulheres. Sabendo-se que são as raparigas e mulheres quem mais sofre com a desigualdade, são elas o principal objeto do estudo, que utiliza os seguintes parâmetros: taxa de mortalidade materna (mortes por 100.000 nascimentos); taxa de nascimentos entre mães adolescentes (entre os 15 e os 19 anos); percentagem de assentos femininos no parlamento; diferença entre a escolaridade de homens e mulheres; e taxa de participação das mulheres no mundo laboral. A classificação que se segue começa no país onde existe maior igualdade de género e termina no país com mais desigualdade de género.

Rank PaísScoreRankPaísScore
1Suiça0.0372Dinamarca0.040
2Suécia 0.0404Holanda0.041
5Noruega0.0446Bélgica0.045
7Finlândia0.0508França0.051
9Islândia0.05710Coreia do Sul0.058
11Singapura0.06512Eslovénia0.069
12Itália0.06914Áustria0.073
15Espanha0.07416Luxemburgo0.078
17Portugal0.08118Canadá0.083
19Alemanha0.08420Chipre0.086
21-Estónia (0.091); 22-Irlanda (0.093); 23-Japão (0.099); 24-Israel (0.100); 25-Austrália (0.103); 26-Emirados A. Unidos (0.113); 27-Reino Unido (0.119); 27-Montenegro (0.119); 27-Bielorrússia (0.119); 28-Malta (0.195); 30-Polónia (0.120); 31-Grécia (0.122); 31-Croácia (0.122); 33-Lituânia (0.124); 34-Nova Zelândia (0.133); 35-República Checa (0.137); 39-China (0.163); 40-Letónia (0.169); 42-Estados-Unidos(0.182); 43-Eslováquia (0.190); 48-Bulgária (0.218); 54-Rússia (0.255); 56-Hungria (0.258); 67-Cuba (0.312); 69-Roménia (0.316); 83-Cabo Verde (0.372); 89-Brasil (0.386); 106-Venezuela (0.458); 142-Moçamb. (0.569); 144-Angola (0.578); 162- Yémen (0.834).
Fonte: http://hdr.undp.org/en/content/gender-inequality-index-gii

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Como se pode verificar, são os países da Europa os campeões da igualdade de género, excetuando os mais a leste. Africanos, sul-americanos e asiáticos (excetuando a Coreia do Sul e o Japão) são aqueles onde a desigualdade de género (gênero, para os amigos brasileiros) é maior. A relativamente boa classificação de Portugal talvez seja desconhecida da maioria dos próprios portugueses. O Brasil, como de costume, é o último dos melhores, mas um dos menos maus dos piores. Os países menos democráticos são aqueles onde, sem surpresa, há maior desigualdade de género. Notoriamente, esta desigualdade prende-se sobretudo com questões culturais, em muitos casos com a religião, como no caso evidente do islamismo, mas não só.

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Índice de Liberdade Económica

Para este índice, criado em 1995, numa parceria entre o Wall Street Journal e a Heritage Foundation, são utilizados quatro critérios: Estado de Direito (direitos de propriedade, integridade do governo, eficiência judicial); Dimensão do Governo (gastos, carga tributária, saúde fiscal); Eficiência Regulatória (liberdade comercial, liberdade de trabalho, liberdade monetária); Mercados Abertos (liberdade de comércio exterior, liberdade de investimento, liberdade financeira). Cada um destes 12 parâmetros é classificado, com o mesmo peso, numa escala de 0 a 100, correspondendo, a média dos 12, à pontuação final obtida por cada país. Os países que obtenham uma pontuação entre 80 e 100 são considerados “livres”; os que obtenham uma pontuação entre 70 e 79.9 são considerados “sobretudo livres”; entre 60 e 69.9, “moderadamente livres”; entre 50 e 59.9, “sobretudo não-livres”; e de 0 a 49.9, “reprimidos”. A classificação do Índice de Liberdade Económica de 2020[4] é a seguinte.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Singapura89.42Hong Kong89.1
3Nova Zelândia84.14Austrália82.6
5Suíça82.06Irlanda80.9
7Reino Unido79.38Dinamarca78.3
9Canadá78.210Estónia77.7
11Taiwan77.112Geórgia77.1
13Islândia77.114Holanda77.0
15Chile76.816Lituânia76.7
17Estados Unidos76.618Emirados A. Unidos76.2
19Luxemburgo75.820Finlândia75.7
21-Suécia (74.9); 22-Maurícias (74.9); 23-República Checa (74.8); 24-Malásia (74.7); 25-Coreia do Sul (74.0); 26-Israel (74.0); 27-Alemanha (73.5); 28-Noruega (73.4); 29-Áustria (73.3); 30-Japão (73.3); 32-Letónia (71.9); 36-Bulgária (70.2); 37-Chipre (70.1); 38-Roménia (69.7); 42-Malta (69.5); 46-Polónia (69.1); 48-Bélgica (68.9); 52-Eslovénia (67.8); 56-Portugal (67.0); 58-Espanha (66.9); 60-Eslováquia (66.8); 64-França (66.0); 74-Itália (63.8); 76-Cabo Verde (63.6); 94-Rússia (61.0); 100-Grécia (59.9); 103-China (59.5); 125-São Tomé e Príncipe (56.2); 144-Brasil (53.7); 148-Guiné-Bissau (53.3); 154-Angola (52.2); 160-Moçambique (50.5); 178-Cuba (26.9); 179-Venezuela (25.2); 180-Coreia do Norte (4.2).
Fonte: https://www.heritage.org/index/ranking

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Ressalta desta classificação, desde logo, as péssimas posições dos países latinos, excetuando o Chile (num surpreendente décimo quinto lugar). Portugal, apesar de tudo, mantém-se à frente de Espanha, França, Itália e Grécia (esta no 100º lugar e no grupo dos países “sobretudo não-livres”!), o que não deixa de ser igualmente surpreendente. O que talvez já não constitua surpresa é estarem neste grupo de países os que estão com maiores dificuldades dentro da União Europeia. A posição do Brasil (144º) no grupo dos mostly unfree (“sobretudo não-livres”), é muito má. A da Argentina (149), para referirmos outro grande país latino, é ainda pior. As ditaduras de inspiração marxista (Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, que ocupam os três últimos lugares, e também a China, no 103º lugar) têm os piores resultados, o que prova que a falta de liberdade, em geral, e da liberdade económica, em particular, provocam, além de opressão e iniquidade, uma miséria generalizada. Singapura, um país que já visitámos e nos impressionou pelas organização, limpeza, modernidade e qualidade dos serviços, é o país mais livre economicamente, mas estranhamente, como veremos abaixo, deita tudo a perder quando o que está em causa é a liberdade de imprensa, a democracia e a igualdade de género. Lamentamos estas oscilações e contrastes de Singapura, um país que, se “limasse algumas arestas”, poderia bater-se com os melhores do mundo.

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Índice da Qualidade dos Cuidados de Saúde

Este estudo, financiado pela Fundação Bill & Mellissa Gates, abrange os anos entre 1990 e 2016, e foi publicado pela revista Lancet em Junho de 2018. Foi avaliada a qualidade e o acesso a cuidados de saúde (HAQ Index: Healthcare Access and Quality Index) de 195 países, tendo em conta várias patologias de todos os tipos. O objetivo deste estudo foi o de avaliar quais os países que mais melhoraram na prestação de cuidados de saúde aos cidadãos e aqueles que regrediram, tendo em vista orientar decisões estratégicas para melhorias futuras. A pontuação vai de 0 a 100 e o “score” final de cada país é arredondado: por exemplo a Islândia está no primeiro lugar porque obteve a pontuação de 97.1 e a Noruega no segundo porque obteve 96.6; no entanto ambas aparecem no ranking final com a média arredondada de 97, sem décimas. Passemos à classificação, que foi a seguinte.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Islândia972Noruega97
3Holanda964Luxemburgo96
5Austrália966Finlândia96
7Suíça968Suécia95
9Itália9510Andorra95
11Irlanda9512Japão94
13Áustria9414Canadá94
15Bélgica9316Nova Zelândia92
17Dinamarca9218Alemanha92
19Espanha9220França92
21-Eslovénia (91); 22-Singapura (91); 23-Reino Unido (90); 24-Grécia (90); 25-Coreia do Sul (90); 26-Chipre (90); 27-Malta (90); 28.República Checa (89); 29-Estados Unidos (89); 30-Croácia (87); 31-Estónia (86); 32-Portugal (86); 36-Eslováquia (83); 39-Polónia (82); 40-Hungria (82); 43-Letónia (81); 45-Lituânia (80); 47-Roménia (78); 48-China (78); 51-Bulgária (77); 55-Cuba (76); 58-Rússia (75); 85-Venezuela (68); 96-Brasil (64); 117-Cabo Verde (55); 139-Timor-Leste (43); 152-São Tomé e Príncipe (39); 162-Angola (33); 179-Moçambique (30); 193-Guiné-Bissau (23); 195-República Centro Africana (19). Fonte: www.thelancet.com

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É notório o destaque dos países europeus quando se fala de bons sistemas de saúde. Nos 20 primeiros lugares apenas quatro países não são europeus: Austrália, Japão, Canadá e Nova Zelândia. Em oposição, nos últimos 20 lugares, apenas o Afeganistão e o Kiribati não são africanos. Portugal consegue uma posição aceitável (32ª), embora não particularmente satisfatória, à frente de seis países da União Europeia, mas atrás de vinte, ou seja, bastante abaixo da média da UE. O Brasil alcança uma má posição e todos os restantes países lusófonos posições ainda piores. Os autores do estudo esclarecem que as discrepâncias entre as ofertas de serviços de saúde não se encontram só entre países, mas igualmente no seu seio. Os casos mais evidentes, com enormes discrepâncias, são os da China e da Índia. Destaque para a posição de Andorra – para nós uma surpresa – no décimo lugar.

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Índice de Liberdade Humana

Estudo publicado e desenvolvido por três instituições: Cato Institute (Estados Unidos), Fraser Institute (Canadá) e Friedrich Naumann Foundation for Freedom (Alemanha). Este índice é publicado de cinco em cinco anos e utiliza 76 indicadores sobre liberdade pessoal e liberdade económica nas seguintes áreas: estado de direito; segurança e proteção; circulação; religião; associação; reunião e sociedade civil; expressão e informação; identidade e relacionamento; tamanho do governo; sistema legal e direitos de propriedade; acesso a crédito; liberdade de comércio internacional; e regulação sobre crédito, trabalho e negócios. Segue a classificação de 2019.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Nova Zelândia8.882Suíça8.82
3Hong Kong8.814Canadá8.65
5Austrália8.626Dinamarca8.56
6Luxemburgo8.568Finlândia8.53
8Alemanha8.5310Irlanda8.52
11Suécia8.5012Holanda8.50
13Áustria8.4814Reino Unido8.47
15Estónia8.4615Estados Unidos8.46
17Noruega8.4418Islândia8.41
19Taiwan8.4020Malta8.37
21-República Checa (8.34); 22-Lituânia (8.32); 23-Letónia (8.29); 24-Bélgica (8.29); 25-Japão (8.28); 26- Portugal (8.27); 27-Coreia do Sul (8.20); 28-Chile (8.15); 29-Espanha (8.12); 30-Roménia (8.11); 30-Singapura (8.11); 32-Itália (8.04); 33-Eslováquia (8.02); 33-França (8.02); 35-Eslovénia (7.97); 36-Chipre (7.93); 37-Croácia (7.86); 39-Bulgária (7.79); 40-Polónia (7.78); 45-Hungria (7.65); 52-Cabo Verde (7.45); 57-Grécia (7.33); 86-Timor-Leste (6.76); 109-Brasil (6.48); 114-Rússia (6.34); 120-Moçambique (6.24); 126-China (6.17); 130-Guiné-Bissau (6.07); 151-Angola (5.40); 161-Venezuela (3.80); 162-Síria (3.79).
Fonte: https://www.cato.org/human-freedom-index-new

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Sempre soubemos que a Nova Zelândia é um dos melhores países do mundo, uma democracia consolidada, bastante afastado geograficamente dos centros de conflito mundiais, um país pacífico, e, além de tudo isso, um território de grande beleza, com zonas quase intocadas. Não causa por isso surpresa a sua classificação como país mais livre do mundo,algo de que os neozelandeses se devem orgulhar. Dos países nórdicos, habituados aos primeiros lugares, quem se destaca é a Dinamarca, no 6º lugar, seguida da Finlândia (8º) e Suécia (11º). Noruega (17º) e Islândia (18º) também estão nos vinte primeiros lugares. Não há grandes surpresas neste ranking, portanto, mas há algo que salta à vista e que queremos realçar – a classificação de Hong Kong. Ao olharmos para a distância que separa o 3º lugar de Hong Kong e o 126º da China não podemos deixar de pensar nos cidadãos daquele território e na sua luta, precisamente pela liberdade, contra a perda de autonomia relativamente à China. É revoltante pensar nesse povo ameaçado por um gigante imensamente maior, sem que ninguém lhe queira valer. Portugal tem uma classificação mediana. Brasil fica abaixo de Cabo Verde e Timor-Leste e obtém uma classificação muito má.

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Coeficiente de Gini

Desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini, em 1912, mede a diferença de rendimentos dentro de um país. O coeficiente 0 corresponde a uma igualdade perfeita (quando todos os indivíduos têm igual rendimento) e 1 a uma desigualdade perfeita (quando todo o rendimento está concentrado num único indivíduo). Assim, quanto maior for o coeficiente mais desigual é o país. Vejamos quais os países mais igualitários em termos de distribuição de rendimentos, de acordo com este estudo da World Population Review, publicado em 2020.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Ilhas Faroé22.72Eslováquia23.7
3Eslovénia24.44Suécia24.9
5República Checa256Ucrânia25.5
7Bélgica25.98Cazaquistão26.3
9Bielorrússia26.510Moldávia26.8
11Noruega26.812Alemanha27
13Finlândia27.214Roménia27.3
15Islândia2816Malta28.1
17Hungria28.218Dinamarca29
19Albânia2920França29.3
21-Suíça (29.5); 22-Austrália (30.3); 23-Holanda (30.3); 24-Luxemburgo (30.4); 25-Áustria (30.5); 26-Paquistão (30.7); 27-Croácia (30.8); 28-Polónia (30.8); 29-São Tomé e Príncipe (30.8); 30-Irlanda (31.3); 33-Itália (31.9); 36-Canadá (32.1); 38-Reino Unido (32.4); 43-Taiwan (33.6); 47-Portugal (33.9); 51-Letónia (34.5); 52-Chipre (34.8); 53-Estónia (34.8); 60-Espanha (35.9); 62-Nova Zelândia (36.2); 64-Grécia (36.7); 71-Japão (37.9); 72-Lituânia (37.9); 77-Venezuela (39); 86-Bulgária (40.2); 93-Rússia (41.2); 99-Angola (42.7); 109-Estados Unidos (45); 111-Moçambique (45.6); 114-Singapura (45.9); 119-China (46.5); 128-Brasil (49); 137-Hong Kong (53.9); Lesoto (63.9).
Fonte: https://worldpopulationreview.com/countries/gini-coefficient-by-country/

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O coeficiente de Gini é um pouco controverso, uma vez que mede apenas a concentração de rendimento, o que só por si é curto para medir o nível de desenvolvimento social de um país, como, aliás, o ranking mostra (a Moldávia não é socialmente mais desenvolvida que o Canadá; ou a Ucrânia mais desenvolvida que a Nova Zelândia, apesar de terem um menor coeficiente de Gini). No entanto, um baixo coeficiente de Gini (uma menor desigualdade de rendimento) não é, em si mesmo, negativo, desde que não impeça o desenvolvimento de outras variáveis (como o crescimento económico, por exemplo), e isto também é controverso. Mais uma vez, trata-se de um indicador que tem de ser conjugado com outros. De qualquer forma, duas coisas são claras. 1- Dentro dos países mais ricos, os que têm um menor índice de Gini, ou seja, os mais igualitários, distribuídos entre os primeiros dezoito lugares são, mais uma vez, os países nórdicos (Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia e Dinamarca), desta vez acompanhados pelos países de Leste (a Alemanha também se sai bem); 2- Os estados cujos regimes fazem da igualdade a sua bandeira encontram-se na metade mais desigual do mundo: A Venezuela na posição 77 e a China na 119. Não há informação sobre Cuba ou a Coreia do Norte. Realce ainda para São Tomé e Príncipe, num surpreendente 29º lugar, e para o Brasil, na 128ª e péssima posição, um dos vinte países mais desiguais do mundo, no que diz respeito à distribuição do rendimento. De acordo com o relatório da World Population Review, os Estados Unidos têm um coeficiente de Gini de 0.485, o maior dos últimos 50 anos. Em 2015, 1% da população americana com maiores rendimentos recebeu em média 40 vezes mais que os 90% com rendimentos menores. Como em outros países com coeficientes de Gini muito elevados, a pobreza é um problema crescente. Nos Estados Unidos, cerca de 30 milhões de trabalhadores ganham menos de 10 dólares/hora, o que coloca uma família de quatro pessoas, nessas condições, abaixo do limiar de pobreza.

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Índice Mundial de Liberdade de Imprensa

O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa é publicado anualmente, desde 2002, pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Tem por base um inquérito feito a jornalistas de todo o mundo e relatórios sobre a violência exercida contra os profissionais dos diversos órgãos de comunicação social. Os parâmetros são os seguintes: pluralismo; independência mediática; ambiente e auto-censura; enquadramento legal; transparência; infraestrutura; abusos. A pontuação final é definida numa escala de 0 a 100, onde 0 representa a melhor pontuação possível e 100 a pior. A situação de cada país pode ser classificada como “boa”, “satisfatória”, “problemática”, “difícil” ou “muito grave”. O ranking que se segue é referente a 2019 e foi publicado em 2020.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Noruega7.822Finlândia7.90
3Suécia8.314Holanda8.63
5Dinamarca9.876Suíça10.52
7Nova Zelândia10.758Jamaica11.13
9Bélgica12.0710Costa Rica12.24
11Estónia12.2712Portugal12.63
13Alemanha14.6014Islândia14.71
15Irlanda15.0016Áustria15.33
17Luxemburgo15.6618Canadá15.69
19Uruguai16.0620Suriname16.38
21-Austrália (16.55); 22-Samoa (18.25); 23-Namíbia (18.95); 24-Letónia (19.53); 25-Cabo Verde (19.81); 26-Liechtenstein (20.49); 27-Gana (20.81); 28-Chipre (21.74); 29-Espanha (21.99); 30-Lituânia (22.06); 32-França (22.21); 33-Reino Unido (22.23); 34-Eslovénia (22.31); 35-Eslováquia (23.58); 40-República Checa (24.89); 42-Taiwan (24.98); 43-Itália (24.98); 47-Roménia (25.67); 48-Estados Unidos (25.69); 59-Polónia (28.89); 64-Croácia (29.03); 65-Grécia (29.08); 67-Japão (29.36); 73-Hong Kong (29.65); 77-Malta (29.74); 84-Timor-Leste (29.93); 87-Hungria (30.44); 89-Guiné-Bissau (30.95); 103-Moçambique (32.66); 105-Brasil (32.79); 109-Angola (34.96); 111-Bulgária (35.11); 148-Venezuela (49.10); 149-Rússia (50.31); 151-Singapura (51.41); 169-Cuba (63.81); 177-China (78.92); 180-Turquemenistão (84.44). Fonte: https://rsf.org/

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Mais uma vez os países nórdicos nos lugares cimeiros. Os três estados que no mapa ficam lado-a-lado, também se juntam no pódio dos países onde a imprensa é mais livre: Noruega, Finlândia, Suécia. Interessante a posição da Jamaica, em 8º lugar (em 2018 era o 6º!), e da Costa Rica, no 10º, o país com a classificação mais alta em toda a América Latina. Boa classificação de Portugal, “apesar da crescente precariedade e falta de recursos”. Muito preocupante a situação na União Europeia, sobretudo a Leste, com países com problemas graves ou gravíssimos, entre os quais, Roménia, Polónia, Croácia, Grécia, Malta, Hungria e Bulgária. Mas, surpreendentemente, também Espanha, Lituânia, França, Reino Unido, Eslovénia, Eslováquia, República Checa e Itália têm problemas. Uma situação assaz grave quanto à liberdade de imprensa dentro da União Europeia! De referir ainda a posição dos Estados Unidos, supostos paladinos da liberdade, num modesto 48º lugar (desceu 3 lugares), em grande parte devido à perseguição que Trump e a sua administração fazem aos jornalistas. Quanto ao Brasil, as “ameaças, ataques, assassinatos” fazem deste país “um dos mais violentos da América Latina para a prática do jornalismo”. Singapura, que noutros rankings ocupa lugares cimeiros, neste ocupa uma vergonhosa 151ª posição. Apesar de tantos problemas, um pouco por todo o mundo, as ditaduras são, como de costume, ainda piores: os governantes dos regimes de Venezuela, Rússia, Cuba, Vietname, China, Coreia do Norte e Turquemenistão[5] odeiam a liberdade. Em relação ao ano de 2018, o país mais subiu no ranking foi a Etiópia (40 lugares) e o que mais desceu foi a República Centro-Africana (-33 lugares).

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Índice da Democracia

Começou a ser publicado pela Economist em 2006. Os países são classificados como “Full Democracies” (Democracias Plenas); “Flawed Democracies” (Democracias Imperfeitas); “Hybrid Regimes” (Regimes Híbridos); ou “Authoritarian Regimes” (Regimes Autoritários). Estes últimos não são considerados democracias, mas sim ditaduras. A pontuação atribuída vai de zero a dez, em cada um dos seguintes cinco parâmetros: Processo Eleitoral e Pluralismo; Funcionamento do Governo; Participação Política; Cultura Política; e Liberdades Civis. Com a média resultante destas pontuações obtém-se a pontuação final que conta para atribuir as diferentes posições no Índice da Democracia. Vejamos o ranking.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Noruega9.872Islândia9.58
3Suécia9.394Nova Zelândia9.26
5Finlândia9.256Irlanda9.24
7Dinamarca7.227Canadá7.22
9Austrália9.0910Suíça9.03
11Holanda9.0112Luxemburgo8.81
13Alemanha8.6814Reino Unido8.52
15Uruguai8.3816Áustria8.29
16Espanha8.2918Maurícias8.22
19Costa Rica8.1320França8.12
21-Chile (8.08); 22-Portugal (8.03); 23-Coreia do Sul (8.00); 24-Japão (7.99); 25-Estados Unidos (7.96); 26-Malta (7.95); 27-Estónia (7.90); 28-Israel (7.86); 29-Botswana (7.81); 30-Cabo Verde (7.78); 31-Taiwan (7.73); 32- República Checa (7.69); 33-Bélgica (7.64); 34-Chipre (7.59); 35-Itália (7.52); 36-Eslovénia (7.50); 36-Lituânia (7.50); 38-Letónia (7.49); 39-Grécia (7.43); 41-Timor-Leste (7.19); 42-Eslováquia (7.17); 47-Bulgária (7.03); 52-Brasil (6.86); 55-Hungria (6.63); 57-Polónia (6.62); 59-Croácia (6.57); 63-Roménia (6.49); 75-Hong Kong (6.02); 75-Singapura (6.02); 119-Angola (3.72); 120-Moçambique (3.65); 134-Rússia (3.11); 140-Venezuela (2.88); 143-Cuba (2.84); 148-Guiné-Bissau (2.63); 153-China (2.26); 167-Coreia do Norte (1.08). Fonte: https://www.eiu.com/public/topical_report.aspx?campaignid=democracyindex2019

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O Índice de Democracia 2019 (publicado em 2020) obteve os resultados globais mais baixos desde 2006. Relativamente ao ano anterior (2018), a Tailândia registou a maior subida (está agora na posição 68) e a China a maior queda (desceu 23 lugares): embora já fosse um regime autoritário, tornou-se ainda pior. Três países – França, Chile e Portugal – passaram de “democracias imperfeitas” a “democracias plenas”. A Noruega obteve a pontuação máxima (10,00) em três das cinco categorias e atingiu a média de 9,87, destacando-se no primeiro lugar. A pontuação mais baixa de Portugal foi na “participação política” (6,11), mas na média dos cinco parâmetros subiu para 8,03. Destaque para Cabo Verde, o trigésimo país mais democrático do mundo! O Brasil ficou melhor classificado do que noutros rankings e poderia ainda subir uns lugares, não fosse a sua pontuação na “cultura política” (5,00) e no “funcionamento do governo” (5,36). A China, como já vimos, provou em 2019 ser uma ditadura das piores, abaixo de Angola, Moçambique, Rússia, Venezuela, Cuba, Guiné-Bissau e muitos outros “regimes autoritários”.

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Índice de Paz Global

O relatório sobre o Índice de Paz Global-2019 é o décimo terceiro publicado pelo Institute for Economics and Peace, com sede em Sydney, na Austrália, e escritórios em Nova Iorque, Haia, Cidade do México e Bruxelas. Este índice cobre 99,7% da população mundial, 163 estados e territórios independentes, e utiliza 23 indicadores qualitativos e quantitativos (com pesos diferentes), de fontes altamente respeitáveis, de acordo com três critérios de base: nível de segurança e proteção da sociedade; extensão dos conflitos domésticos e internacionais em curso; e grau de militarização.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Islândia1.0722Nova Zelândia1.221
3Portugal1.2744Áustria1.291
5Dinamarca1.3166Canadá1.327
7Singapura1.3478Eslovénia1.355
9Japão1.36910República Checa1.375
11Suíça1.38312Irlanda1.390
13Austrália1.41914Finlândia1.488
15Butão1.50616Malásia1.529
17Holanda1.53018Bélgica1.533
18Suécia1.53320Noruega1.536
21-Hungria (1.540); 22-Alemanha (1.547); 23-Eslováquia (1.550); 24-Maurícias (1.562); 25-Roménia (1.606); 26-Bulgária (1.607); 27-Chile (1.634); 28-Croácia (1.645); 29-Polónia (1.654); 30-Botswana (1.676); 32-Espanha (1.699); 35-Letónia (1.718); 36-Taiwan (1.725); 37-Estónia (1.727); 38-Lituânia (1.728); 39-Itália (1.754); 45-Reino Unido (1.801); 48-Timor-Leste (1.805); 60-França (1.892); 63-Chipre (1.914); 65-Grécia (1.933); 77-Angola (2.012); 91-Cuba (2.073); 94-Moçambique (2.099); 110-China (2.217); 112-Guiné-Bissau (2.237); 116-Brasil (2.271); 128-Estados Unidos (2.401); 144-Venezuela (2.671); 154-Rússia (3.093); 163-Afeganistão (3.574). Fonte: http://visionofhumanity.org/app/uploads/2019/06/GPI-2019-web003.pdf

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Destaque para a posição honrosa de Portugal, apesar da sua integração na NATO. É mesmo o primeiro país da União Europeia, atrás apenas da Islândia e da Nova Zelândia. Depois, nada de surpreendente, a não ser, talvez, o aparecimento do Butão entre os vinte primeiros, no 15º lugar. O Brasil fica de novo muito mal classificado (116º lugar) atrás de outros países lusófonos e, inclusive, de algumas ditaduras. Péssima posição dos Estados Unidos. Estranhamente, o Luxemburgo não faz parte do ranking, não sabemos porquê.

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Relatório da Felicidade Mundial

O Relatório da Felicidade Mundial-2019 é o sétimo publicado, desde 2012, e foi elaborado por um grupo de especialistas independentes de vários países. O relatório tem sete capítulos: “Felicidade e Comunidade: uma Visão Geral”; “Mudando a Felicidade Mundial”; “Felicidade e Comportamento Eleitoral”; “Felicidade e Comportamento Pró-Social: uma Avaliação da Evidência”; “O Triste Estado da Felicidade nos Estados Unidos e o Papel dos Meios Digitais”; “Big Data e Bem-Estar”; e “Dependência e Infelicidade na América”. Este ano o relatório foca-se sobretudo no ambiente: natural, social e urbano. Vejamos as pontuações.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Finlândia7.7692Dinamarca7.600
3Noruega7.5544Islândia7.494
5Holanda7.4886Suíça7.480
7Suécia7.3438Nova Zelândia7.307
9Canadá7.27810Áustria7.246
11Austrália7.22812Costa Rica7.167
13Israel7.13914Luxemburgo7.090
15Reino Unido7.05416Irlanda7.021
17Alemanha6.98518Bélgica6.923
19Estados Unidos6.89220República Checa6.852
22-Malta (6.726); 24-França (6592); 25-Taiwan (6.446); 30-Espanha (6.354); 32-Brasil (6.300); 34-Singapura (6.262); 36-Itália (6.223); 38-Eslováquia (6.186); 40-Polónia (6.182); 42-Lituânia (6.149); 44-Eslovénia (6.118); 48-Roménia (6.070); 49-Chipre (6.046); 53-Letónia (5.940); 55-Estónia (5.893); 58-Japão (5.886); 62-Hungria (5.758); 66-Portugal (5.693); 68-Rússia (5.648); 75-Croácia (5.432); 76-Hong Kong (5.430); 82-Grécia (5.287); 93-China (5.191); 97-Bulgária (5.011); 108-Venezuela (4.707); 123-Moçambique (4.466); 156-Sudão do Sul (2.853).
Fonte: https://happiness-report.s3.amazonaws.com/2020/WHR20.pdf

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Oito dos dez países mais felizes do mundo são da Europa Central e do Norte. Por outro lado, este é o único ranking em que o Brasil fica à frente de Portugal, e com grande vantagem. Alguns países que vínhamos monitorizando não fazem parte deste ranking: São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Cuba. Dos países da União Europeia, há três com uma classificação ainda pior que a portuguesa – Croácia, Grécia e Bulgária. O que torna a população de alguns países mais felizes que outras? De acordo com o relatório, a felicidade nórdica reside em fatores relacionados com a qualidade das instituições – benefícios sociais alargados e confiáveis, baixo nível de corrupção, bom funcionamento da democracia e das instituições estatais – com um elevado sentimento de autonomia e liberdade, e um alto nível de confiança nos outros (incluindo imigrantes) cidadãos do país[6]. Estes fatores interagem entre si e têm um efeito positivo uns sobre os outros[7].

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Os 12 Países-Modelo

O relatório do ranking anterior, sobre os países mais felizes, já nos deu algumas indicações quanto aos motivos porque certos países são, de facto, melhores que outros. Não, evidentemente, porque seus territórios ou habitantes sejam melhores, mas porque o seu grau de desenvolvimento atingiu um estádio mais racional, logo, mais humano. Gostaríamos de salientar algo que pode parecer pueril, mas que é importante: todos esses países são democráticos[8]. E isto não é pueril pelo seguinte. Mais de metade dos países do mundo são ditaduras, e é sempre melhor um país democrático, seja qual for, que uma ditadura. Os Estados Unidos, por exemplo, têm bastantes problemas e a sua democracia está longe de atingir, por razões que não vamos discutir agora, o desenvolvimento dos estados membros do nosso ranking dos países-modelo. O mesmo poderíamos dizer de Israel. Mas mesmo assim são democracias e, portanto, melhores que qualquer ditadura. Esta é a regra de ouro: a democracia, o estado de direito, a separação de poderes são a base da nossa civilização. Tudo o que viole a regra de ouro atrapalha o desenvolvimento social. E vamos ao nosso ranking.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Suíça7.12Dinamarca8.1
3Islândia8.34Suécia8.5
5Finlândia8.86Noruega8.9
7Holanda10.38Austrália12.1
9Irlanda13.110Canadá13.4
11Nova Zelândia15.112Alemanha15.3
13-Áustria (16.0); 14-Bélgica (19.5); 15-Reino Unido (23.1); 16-Eslovénia (26.9); 17-Estónia (29,0); 18-República Checa (30.1); 19-França (30.7); 20-Espanha (31.3). O Luxemburgo poderia figurar entre os vinte primeiros deste ranking, mas por não ter sido avaliado no relatório sobre a Paz Mundial, não podemos incluí-lo, pois não seria lícito atribuir-lhe uma pontuação aleatória nesse ranking da paz mundial. Também Taiwan e Hong Kong, considerados como territórios autónomos nalguns relatórios, não constam de outros, certamente por influência da China; por isso, não podem, também, figurar do nosso ranking, embora, provavelmente, nos seus casos, não conseguissem atingir os vinte primeiros lugares. Cumpre ainda esclarecer que estados muito pequenos, como San Marino, Ilhas Faroé, Andorra, Liechtenstein e mesmo Malta, entre outros, também não são avaliados em todos os relatórios, pelo que também não podem ser contemplados no nosso ranking dos países-modelo.

Conclusões

O que este ranking mostra é, desde logo, a consistência de alguns países, sobretudo os nórdicos, excelentíssimos nas diferentes áreas. É essa consistência que faz a diferença – uma grande diferença. Se repararmos bem, ao 20º lugar da Espanha corresponde, praticamente, o dobro da pontuação do 12º da Alemanha. Daí, ter-nos parecido interessante não alargar demasiado o número de países-modelo. Se são “modelos”, não deve haver muitas discrepâncias entre eles. A Suíça, um país surpreendente, talvez o mais descentralizado do mundo com os seus vinte e seis cantões, superou os cinco países nórdicos que a seguem e ocupa o primeiro lugar do nosso ranking. Tentemos ver o que têm os países-modelo que os faz serem os melhores do mundo.

À partida, uma grande confiança nas instituições. Esta confiança advém, em larga medida, de um baixo nível de corrupção. Um relatório da Transparency International e o seu respetivo Índice de Perceção da Corrupção-2019, ainda não abordado neste artigo[9], confirma que os nossos países-modelo são os menos corruptos. Os vinte países menos corruptos são, de acordo com esse relatório: Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Singapura, Suécia, Suíça, Noruega, Holanda, Alemanha, Luxemburgo, Islândia, Austrália, Áustria, Canadá, Reino Unido, Hong Kong, Bélgica, Estónia, Irlanda e Japão. Podemos verificar que os nossos 12 países-modelo estão todos incluídos nestes vinte. Já os países com as piores classificações no nosso ranking são, como seria de esperar, os países mais corruptos[10]. O reduzido nível de corrupção tem um efeito positivo sobre os cidadãos: há um incentivo para cumprir com as obrigações fiscais porque se sabe que o dinheiro coletado vai ser bem aplicado. Por outro lado, essa confiança nas instituições, ou seja, no país, tende a generalizar-se: os indivíduos passam a confiar mais uns nos outros, a aceitarem-se nas suas diferenças, e a sociedade torna-se cada vez mais inclusiva e coesa. Tudo isto é um incentivo à participação. E a participação reflete-se, claro, na qualidade da democracia[11].

Outra característica importante destes países é a liberdade. São estados verdadeiramente livres e democráticos, respeitadores dos direitos humanos e das liberdades individuais. De acordo com o relatório sobre a felicidade mundial (o último que analisámos), a sensação de liberdade depende de três fatores principais que interagem entre si: o bem-estar material, que liberta as pessoas da escassez; as instituições políticas democráticas, que libertam as pessoas da opressão política; e os valores tolerantes e liberais, que dão mais espaço às pessoas para expressarem as suas identidades únicas. Este sentimento de autonomia e liberdade reflete-se numa imprensa verdadeiramente livre, imune a pressões políticas e económicas, na linha da frente do jornalismo independente, como mostra o relatório que abordámos sobre liberdade de imprensa.

E há ainda a considerar, como fator importante, os benefícios sociais do Estado, aquilo que os ingleses designam por welfare state. Falamos de pensões de reforma, subsídios de desemprego e de doença, serviços de educação e saúde (incluindo saúde mental), lares de idosos, prisões e até transportes públicos de qualidade. E, ao contrário do que por vezes se pensa, embora estes benefícios ou serviços sejam garantidos pelo Estado, não quer dizer que sejam sempre prestados pelo Estado[12]. Este estado social de grande qualidade implica necessariamente um financiamento e gestão eficazes e, como já vimos, um baixo nível de corrupção. Apesar disso, e embora os impostos sobre o rendimento das famílias seja relativamente elevado nos países nórdicos, a carga fiscal não é excessivamente alta, pois a composição dos impostos é feita de forma inteligente e de maneira a não dificultar a atividade económica nem a criatividade das empresas. Como seria de esperar, os nossos 12 países-modelo estão entre os 24 países do mundo mais competitivos no que diz respeito à tributação[13]. Este não é o caso de Portugal, onde os impostos sobre as empresas são dos mais altos entre os países desenvolvidos (o nosso IRC, com sobretaxas, é o segundo mais elevado da Europa), fazendo com que muitas empresas não queiram investir no nosso país[14]. Porém, os nossos países-modelo não são apenas competitivos ao nível tributário. As suas economias estão também entre as mais pujantes do mundo, de acordo com o Relatório da Competitividade Global 2017-2018, do Fórum Económico Mundial[15]. Analisámos, ainda, o ranking (elaborado pelo World Bank) sobre a ineficiência burocrática mundial, entre 2008 e 2017, e pudemos verificar que os países nórdicos estão entre os menos burocráticos do planeta [16].

Finalmente, sistemas de justiça eficazes, credíveis e céleres[17]. Estudos diversos levam a concluir que sistemas judiciais eficazes e defensores do Estado de Direito produzem efeitos económicos benéficos: o crédito é facilitado; as empresas são dissuadidas de comportamentos oportunistas e tornam-se mais propensas a inovar e investir; os custos de transação são diminuídos. Está igualmente provado que as empresas analisam a eficácia e a independência dos sistemas de justiça dos países onde pretendem investir; um inquérito a pequenas e médias empresas revela que mais de metade considera o custo e a duração dos processos judiciais como o principal motivo para não interpor uma ação por violação dos direitos de propriedade intelectual. Estas conclusões constam do relatório de 2019 do Painel de Avaliação de Justiça da União Europeia sobre os sistemas judiciais dos países da União, baseado em três critérios: 1-a duração dos processos (tempo médio de dias para resolver um caso), 2- a taxa de resolução (o rácio entre casos resolvidos/recebidos) e 3- o número de processos pendentes (que ainda precisam ser tratados no final do ano). De acordo com esse relatório, os países do Sul da Europa têm os sistemas de justiça mais lentos e os do Norte os sistemas mais céleres e eficazes. No que toca ao tempo de resolução de processos civis, comerciais, administrativos e outros em tribunais de primeira instância, por exemplo, apenas o Chipre está pior que Portugal. Grécia, Itália, Malta, França e Espanha acompanham-nos nos últimos lugares. O sistema mais eficaz dentro da União Europeia (e do mundo) é o dinamarquês. Talvez Portugal pudesse aprender algo estudando os sistemas judiciais estoniano (2º melhor da UE neste quesito) e esloveno (6º) que conseguiram, nos últimos anos, grandes melhorias[18].

A longa tradição democrática dos nossos países-modelo é mais importante do que as políticas de quem provisoriamente ocupa o poder. As instituições são igualmente mais importantes que as personalidades ou as ideologias. Por isso, o bom rumo vai-se mantendo, apesar das cores políticas se irem alternando. Nunca é de mais realçar a importância da alternância no poder, uma das grandes vantagens da democracia. Isto deveria fazer-nos atentar no seguinte: nenhuma ideologia é sempre melhor que todas as outras, nem nenhum partido político é sempre melhor que todos os outros. Há momentos em que, pelas mais variadas razões, é necessário mudar de rumo; e essa necessidade é uma coisa boa, pois evita que pessoas, partidos e ideologias se eternizem no poder[19]. Atualmente, nestes doze países, há governos conservadores, liberais, democratas-cristãos, sociais-democratas, populares e verdes. E, metade deles (Noruega, Islândia, Finlândia, Dinamarca, Nova Zelândia e Alemanha) são chefiados por mulheres. Ao contrário dos países sub-desenvolvidos, nas democracias socialmente mais avançadas, o extremismo e as ideologias radicais esbarram nas sólidas cultura democrática e tradição liberal. A diferença faz-se por mais pragmatismo, mais racionalismo, mais tolerância e mais liberdade.

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Notas:

[1] Em outro artigo do nosso blogue afirmamos o seguinte. “Os melhores medidores do desenvolvimento social de um Estado são as prisões, os hospitais psiquiátricos e os lares de idosos”. https://ilovealfama.com/2016/08/28/alfama-a-solta-2/

[2] A divisão entre países lusófonos e países governados por ditadores não é clara uma vez que também há países lusófonos com graves problemas no que diz respeito aos valores democráticos.

[3] Países com o maior PIB per capita: 1- Qatar (110,489); 2- Liechtenstein (99,732); 3- Singapura (83,793); 4- Brunei (76,389); 5- Kuwait (71,164); 6- Noruega (68,095); 7- Emirados Árabes Unidos (66,912); 8- Luxemburgo (65,543); 9- Hong Kong (60,221); 10- Suíça (59,375); 11- Estados Unidos (56,140); 12- Irlanda (55,660). Por curiosidade: Portugal (27,935); Brasil (14,068). Dados referentes ao ano de 2011.

[4] Para o índice de 2020, a maioria dos dados abrange o segundo semestre de 2018 e o primeiro semestre de 2019. No entanto, os autores do estudo alertam para o facto de alguns fatores se basearem em informações históricas. Um exemplo é o fator de política monetária, que é uma taxa média ponderada de inflação de três anos: de 1 de Janeiro de 2016 a 31 de Dezembro de 2018.

[5] Recentemente, o Presidente desta ex-república soviética, Gurbanguly Berdymukhammedov, proibiu os cidadãos seus compatriotas de falarem sobre o corona vírus, sob pena de serem detidos. As máscaras também são proibidas no país, onde, oficialmente, não existe ninguém doente com Covid-19. https://observador.pt/2020/04/02/presidente-do-turquemenistao-bane-a-palavra-coronavirus/

[6] Deixamos, como curiosidade, um mapa publicado pelo Washington Post sobre a recetividade a estrangeiros nos diferentes países do mundo, que pode ser consultado no seguinte artigo do nosso blogue: https://ilovealfama.com/2013/08/16/alfama-anfitria/

[7] É comum encontrarmos quem pense que a taxa de suicídios nos países nórdicos é muito elevada. Isto não corresponde à verdade, embora haja uma maior taxa de suicídios nos países ricos em relação com os países mais pobres. Nas últimas décadas do século passado houve, sim, altas taxas de suicídio nos países nórdicos, mas medidas muito incisivas no âmbito da saúde mental (que é levada a sério nesses países), fizeram cair drasticamente essas taxas. As autoridades escandinavas tomaram consciência da desordem afetiva sazonal (SAD-seasonal affective disorder) que afeta as populações nas longas noites de inverno (20 horas sem luz natural), e atuaram em conformidade. Para saber mais ver: https://worldpopulationreview.com/countries/suicide-rate-by-country/

[8] Não vamos entrar aqui numa discussão estéril sobre o conceito de democracia, muito útil a demagogos. É muito fácil perceber que a democracia é sinónimo de liberdade. Liberdade de criticar e de ser criticado. Liberdade de reunião e associação. Liberdade de escolha. Liberdade de eleger e, consequentemente, demitir os políticos que nos representam. Só com estas liberdades poderemos garantir os direitos humanos e a separação de poderes. E só com liberdade poderemos reformar e melhorar.

[9] Mesmo que incluíssemos este índice na avaliação dos nosso países-modelo, as posições destes não seriam alteradas.

[10] O relatório e ranking podem ser vistos em: https://www.transparency.org/files/content/pages/2019_CPI_Report_EN.pdf

[11] Apesar das eleições não serem o único meio de participação democrática, devemos esclarecer que a taxa de participação nas últimas eleições gerais na Suíça, o primeiro país do nosso ranking, se quedou pelos 45,1%. Isto, porém, não é surpreendente pois a Suíça, como já foi dito, é talvez o país mais descentralizado do mundo, um país onde as políticas dos cantões são mais diretamente sentidas pelos cidadãos do que a política geral.

[12] Ver nosso artigo sobre as transformações na educação e saúde da Suécia aqui: https://ilovealfama.com/2018/08/21/reinventar-o-estado-social-a-experiencia-sueca/

[13] Para analisar a competitividade internacional relativamente aos impostos, ver: https://taxfoundation.org/publications/international-tax-competitiveness-index/

[14] Ver: https://www.dinheirovivo.pt/economia/temos-o-segundo-irc-mais-alto-da-europa/

[15] http://www3.weforum.org/docs/GCR2017-2018/05FullReport/TheGlobalCompetitivenessReport2017%E2%80%932018.pdf

[16] Os resultados deste ranking são muito díspares quanto às posições dos nossos países-modelo, com alguns deles com um relativamente baixo nível burocrático (Suécia, Alemanha, Finlândia, Noruega, Dinamarca) e outros com um nível relativamente elevado (Suíça, Canadá, Holanda, Nova Zelândia). O ranking pode ser visto aqui: https://tcdata360.worldbank.org/indicators/mpf.gov.bur?country=BRA&indicator=3279&viz=line_chart&years=2008,2017#table-link

[17] https://worldjusticeproject.org/sites/default/files/documents/WJP-ROLI-2020-Online_0.pdf. De acordo com este relatório (que não inclui a Suíça), os doze melhores Estados de Direito são: 1- Dinamarca; 2- Noruega; 3- Finlândia; 4- Suécia; 5- Holanda; 6- Alemanha; 7- Nova Zelândia; 8- Áustria; 9- Canadá; 10- Estónia; 11- Austrália; 12- Singapura. Como se vê, no topo, os “suspeitos” do costume…

[18] https://ec.europa.eu/info/sites/info/files/justice_scoreboard_2019_en.pdf

[19] Noutro local deste blogue comparámos a governação de um país com uma navegação à bolina (contra o vento). Para manter o bom rumo é necessário bolinar, ora para a esquerda, ora para a direita. Num país, quem decide essas mudanças de direção, são os eleitores. https://ilovealfama.com/2016/08/28/alfama-a-solta-2/

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In Search of a Better World

A Summary by Way of a Preface

All things living are in search of a better world.

Men, animals, plants, even unicellullar organisms are constantly active. They are trying to improve their situation, or at least to avoid its deterioration. Even when asleep, the organism is actively maintaining the state of sleep: the depth (or else the shallowness) of sleep is a condition actively created by the organism, which sustains sleep (or else keeps the organism on the alert). Every organism is constantly preoccupied with the task of solving problems. These problems arise from its own assessments of its condition and of its environment; conditions which the organism seeks to improve.

An attempted solution often proves to be misguided, in that it makes things worse. Then follow further attempts at solutions – further trial and error movements.

We can see that life – even at the level of the unicellular organism – brings something completely new into the world, something that did not previously exist: problems and active attempts to solve them; assessments, values; trial and error.

It may be supposed that, under the influence of Darwin’s natural selection, it is the most active problem solvers, the seekers and the finders, the discoverers of new worlds and new forms of life, that undergo the fastest evolution.

Each organism also strives to stabilize its internal conditions of life and to maintain its individuality – an activity whose results biologists call “homoeostasis”. Yet this too is an internal agitation, an internal activity: an activity that attempts to restrict the internal agitation, a feedback mechanism, a correction of errors. The homoeostasis mus be incomplete. It must restrict itself. Were it completely successful, it would mean the death of the organism, or, at the very least, the temporary cessation of all its vital functions. Activity, agitation, search are essential for life, for perpetual restlessness, perpetual imperfection; for perpetual seeking, hoping, evaluating, finding, discovering, improving, for learning and for the creation of values; but also for perpetual error, the creation of negative values.

Darwinism teaches that organisms become adapted to the environment through natural selection. And it teaches that they are passive throughout this process. But it seems to me far more important to stress that the organisms find, invent and reorganize new environments in the course of their search for a better world. They build nests, dams, little hills and mountains. But their most momentous creation has probably been the transformation of the atmosphere surrounding the earth by enriching it with oxygen; this transformation was, in turn, a consequence of the discovery that sunlight can be eaten. The discovery of this inexhaustible food supply and of the countless ways of trapping the light created the kingdom of plants; and the discovery that plants can be eaten created the animal kingdom.

We ourselves have been created by the invention of a specifically human language. As Darwin says (The Descent of Man, part 1, chapter III), the use and development of the human language “reacted on the mind itself”. The statements of our language can describe a state of affairs, they can be objectively true or false. So the search for objective truth can begin – the acquisition of human knowledge. The search for truth, particularly in the natural sciences, no doubt counts among the best and greatest things that life has created in the course of its long search for a better world.

But have we not destroyed the environment with our natural science? No! We have made great mistakes – all living creatures make mistakes. It is indeed impossible to foresee all the unintended consequences of our actions. Here science is our greatest hope: its method is the correction of error.

I do not want to end this preface without saying something about the success of the search for a better world during the eighty-seven years of my life, a time of two senseless world wars and of criminal dictatorships. In spite of everything, and although we have had so many failures, we, the citizens of the western democracies, live in a social order which is better (because more favourably disposed to reform) and more just than any other in recorded history. Further improvements are of the greatest urgency. (Yet improvements that increase the power of the state often bring about the opposite of what we are seeking.)

I would like to mention briefly two things that we have improved.

The most important one is that the terrible mass poverty which still existed in my childhood and in my youth has now disappeared. (Unfortunately, this is not the case in places like Calcutta.) Some may object that there are people in our society who are too rich. But why should that bother us, if there are sufficient resources – and the good will – to struggle against poverty and other avoidable suffering?

The second is our reform of the criminal law. At first we may have hoped that if punishments were lessened, then crime would also lessen. When things did not work out like this, we nonetheless decided that we ourselves, individually and collectively, would rather suffer the effects of crime, corruption, murder, espionage and terrorism, than take the very questionable step of trying to eradicate these things by means of violence, and so run the risk of turning innocent people into victims. (Unfortunately, it is difficult to avoid this completely.)

Critics accuse our society of corruption in high places, although they may admit that corruption is sometimes punished (Watergate). Perhaps they are not aware of the alternative. We prefer an order that guarentees full legal protection even to evil criminals so that they are not punished in cases where there is doubt. And we prefer this order to another order in which even those who are innocent of any crime cannot find legal protection and are punished even when their innocence is undisputed (Solzhenitsyn).

Yet perhaps in making this decision we may have chosen still other values. Perhaps we have, quite unconsciously, applied Socrates’ wonderful teaching that “It is better to suffer from an act of injustice than to commit an act of injustice”.

Karl Raimund Popper

Kenley, Spring 1989.

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In Search of a Better World, Routledge, Chapman & Hall, Inc., London, 1994.

Em Busca de um Mundo Melhor

Sócrates, Kant e Popper – uma linha filosófica claramente definível, oposta a todas as outras.

O primeiro livro que li de Karl Popper, no início dos anos 90, foi Em Busca de um Mundo Melhor[1]. O seu conteúdo é muito diversificado e inclui palestras, artigos, transmissões radiofónicas e até uma carta. Documentos produzidos ao longo de trinta anos. A recolha e seleção do material foi do próprio Popper[2], e podemos dizer, sem grande margem de erro, com o intuito de abranger, tanto quanto possível, todas as áreas do seu pensamento.

E que áreas são essas? Bom, Popper interessou-se pelas ciências naturais, sobretudo Física, Química, Biologia e Cosmologia[3], disciplinas em que foi inovador, mas também pelas ciências sociais, particularmente pela Sociologia, campo em que produziu, além de A Pobreza do Historicismo, a obra talvez mais odiada pelos inimigos da liberdade e, para mim, o livro de não-ficção mais importante do século XX: A Sociedade Aberta e Seus Inimigos[4]. Na base do pensamento de Popper encontramos profundas convicções éticas, como mostrou Mariano Artigas em As Raízes Éticas da Epistemologia de Karl Popper[5], sendo, por isso, notório o seu comprometimento com a Ética; e, como um não-positivista, tantas vezes auto-declarado mas nem sempre atendido, Popper não desmerecia a Metafísica como fonte de possibilidades de conhecimento. Podemos ver, assim, que a sua doutrina responde cabalmente às célebres quatro perguntas de Kant[6].

Regressemos ao livro e ao primeiro capítulo que se intitula Conhecimento e Formação da Realidade – Em Busca de um Mundo Melhor. O seu conteúdo resume-se à transcrição de uma palestra proferida em Alpabach, uma pequena vila da província de Tirol, na Áustria[7], e é apenas sobre ele que nos vamos debruçar. Todos os que estão familiarizados com a obra de Karl Popper conhecem a sua divisão do Real em “mundo 1”, “mundo 2” e “mundo 3”. O mundo 1 é o da realidade física, de tudo o que existe na Terra e fora dela, vivo ou inanimado, é o mundo material, incluindo o universo, seus mecanismos e forças; o mundo 2 é o da consciência, das experiências humanas, da nossa interação com o mundo 1; e o mundo 3 é o das realizações do mundo 2, as produções da mente humana: livros, sinfonias, esculturas, automóveis, escovas de dentes, poemas, enfim, aquilo a que poderíamos chamar “cultura”.

Enquanto elementos físicos do mundo 3, essas produções humanas passam também a pertencer ao mundo 1, o mundo das coisas materiais[8]. Vemos, assim, que os três mundos estão não apenas interligados, mas também, por vezes, sobrepostos, embora perfeitamente distinguíveis. Além disso, os três mundos têm uma ordenação temporal, daí a clara numeração em 1, 2 e 3: de acordo com o conhecimento científico atual[9], podemos afirmar que a parte inanimada do mundo 1 é, de longe, a mais antiga; que depois vem a parte animada do mundo 1 e, quase simultaneamente, o mundo 2, o mundo das experiências; e que só depois, com a chegada do homem, aparece o mundo 3, o mundo dos produtos mentais e da cultura.

Popper liga os três mundos à história da Filosofia. De facto, há filósofos que afirmam existir exclusivamente o mundo 1 – os materialistas – enquanto outros acreditam existir apenas o mundo 2 – os idealistas – e existem ainda os que acreditam nos mundos 1 e 2, os chamados dualistas. Ele vai mais longe, e afirma que não apenas o mundo 1 e o mundo 2 são reais, mas também é real – e deveras importante – o mundo 3, a última etapa (até agora) da evolução.

E porque é tão importante o mundo 3, segundo Popper? Porque uma das mais significativas produções humanas é a formulação de teorias científicas, as quais, ao estarem disponíveis no mundo 3, são suscetíveis de crítica; e esta crítica pode conduzir a teorias científicas concorrentes. A formulação de teorias só é possível porque os seres humanos, num determinado momento da sua caminhada sobre a Terra adquiriram a capacidade de comunicar através de um tipo de linguagem único, diferente da linguagem dos outros animais. Popper denomina esse tipo de linguagem de argumentativa[10].

Isto pode parecer relativamente banal, mas é relevante pelo seguinte: todo o conhecimento avança através do velhinho método de tentativa e erro, sendo que, durante um longo período evolutivo, errar significava quase sempre perder a própria vida; porém, na atual fase evolutiva, temos a felicidade de podermos deixar as teorias científicas morrer, em vez de nós. É por isso que este é igualmente o estádio que reúne as condições para que a paz entre os homens seja possível (podemos substituir armas por argumentos), evoluindo de acordo com o impulso natural de qualquer organismo, “desde a amiba a Einstein”, que é o de melhorar a sua condição.

Assim, Karl Popper aceita a teoria da evolução de Darwin apenas em parte. Enquanto o darwinismo, em larga medida sob a influência de Malthus, coloca os seres vivos sobre forte pressão do ambiente que os rodeia – uma força de fora para dentro – Popper considera que todos os seres vivos estão constante e ativamente procurando melhores nichos ecológicos – uma força de dentro para fora – transformando-se, recriando-se, para melhor captarem e utilizarem o que precisam da natureza. Em busca de um mundo melhor[11].

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Notas:

[1] Esse livro era uma edição (portuguesa) da editora Fragmentos, publicado em 1992, que já não possuo. Emprestei-o e não mo devolveram. Recentemente quis comprar um novo exemplar, procurei-o, e verifiquei que o livro está esgotado, não apenas em Portugal, mas também em Espanha e até no Brasil. A solução foi mandá-lo vir do Reino Unido, através da Fruugo. É com base nessa edição inglesa que escrevemos este artigo.

[2) Em 1989.

[3] Nas palavras do próprio Popper, “toda a ciência é cosmologia”.

[4] Popper conta-nos, na sua auto-biografia, que este livro nasceu de apontamentos e reflexões acumulados durante um certo tempo. Esses textos multiplicaram-se de tal forma, que levaram Popper a pensar numa obra, que acabaria por ser “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” (em dois volumes), escrita na Nova Zelândia e publicada em 1945.

[5] Tradução nossa do artigo, aqui:https://ilovealfama.com/2017/07/13/as-raizes-eticas-da-epistemologia-de-karl-popper/

[6] “O que posso saber?”, “O que devo fazer?”, “O que me é permitido esperar?”, “O que é o homem?”. Através destas 4 perguntas, Kant abarca todas as áreas clássicas da Filosofia.

[7]: A palestra contém as marcas inconfundíveis de Popper: rigor, clareza, elegância e, sempre que a oportunidade surge, uma pitadinha de humor.

[8] De notar que um poema ou uma música são coisas imateriais enquanto estiverem apenas na nossa cabeça, mas passam a algo físico quando forem transcritas para o papel ou quando forem declamadas ou tocadas (as ondas sonoras pertencem, como é óbvio, ao mundo 1).

[9] Conhecimento que, para Popper, é sempre conjetural.

[10] De acordo com Popper, existem quatro tipos de linguagem: da mais básica para a mais complexa, 1) expressiva e 2) comunicativa, comuns aos outros animais e ao homem; 3) descritiva e 4) argumentativa, exclusivamente humanas.

[11] Esta ideia de Popper baseia-se na “seleção orgânica”, assim denominada originalmente por Lloyd Morgan, Baldwin e outros, mas que teria sido apresentada muito antes, sem essa denominação, pelo geólogo escocês James Hutton. Isto quer dizer que os indivíduos (todos os seres vivos) fazem escolhas por iniciativa própria – por exemplo, a preferência por um novo alimento, por um novo método de caça ou por uma nova árvore onde fazer o ninho. Cada novo comportamento pode ser visto como a seleção de um novo nicho ecológico. Assim, o animal e a sua descendência ficam expostos a um novo ambiente, logo, a uma nova pressão seletiva que guia o desenvolvimento genético dos indivíduos para se adaptarem ao novo ambiente.

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Foto retirada de https://www.stuff.co.nz/national/christchurch-shooting/111390530/dont-tolerate-the-intolerant-wrote-philosopher-karl-popper-during-his-stay-in-nz