Lombardia

Belaggio vista da estrada.

Aterrámos no aeroporto de Bérgamo às 14:25, vindos de Creta. Chovia bastante, mas quando saímos do avião, inesperadamente, a chuva parou. No parque de estacionamento do aeroporto estava um funcionário da To-Rent com o nosso carro alugado e passados 5 minutos já estávamos na estrada a caminho do alojamento em Valbrona, uma vila perto de Bellagio (11 kms) e a uns 60 quilómetros do aeroporto. Valbrona fica a 500 metros de altitude, não no sopé das montanhas e junto ao lago, como é o caso das cidades mais conhecidas da região: Menaggio, Varenna, Bellagio, Cernobbio, Como, etc. Trata-se de uma vila pequena, com dois mil e quinhentos habitantes, com espaço para estacionamento, e onde os alojamentos são mais baratos, relativamente a essas cidades mais conhecidas.

O pequeno apartamento fica dentro de um pátio onde se localizam 3 ou 4 habitações, uma delas a da proprietária, as restantes para alojamento local. Um bom investimento. Está bem equipado e é acolhedor, com roupas de cama de qualidade, o que é sempre um sinal positivo, pois é aí que muitos falham. Depois de arrumarmos as coisas fomos dar uma vista de olhos a Bellagio, embora o tempo não estivesse muito convidativo. Além de ameaçar chuva, estava ventoso e fresco, logo, desagradável. Limitámo-nos a dar uma volta pelo centro, apreciando os belos edifícios, a Basilica de San Giacomo, o Grand Hotel Villa Serbelloni, os elegantes cafés, restaurantes e gelatarias da Piazza Giuseppe Mazzini. Já começava a escurecer quando entrámos num mini-mercado e comprámos as provisões de que necessitávamos. Quando regressámos ao apartamento já não saímos, ficámos a delinear o programa para o dia seguinte.

Como e o seu lago vistos de Brunate.

Como sempre, ou quase, acordámos bem cedo. A Flá é a melhor co-piloto do mundo e foi-me indicando o caminho até Como, aonde chegámos ainda a tempo de estacionarmos o carro com facilidade. Parámos num ponto próximo, então não tivemos de caminhar muito até o local onde se apanha o funicular para Brunate. Lá de cima, as vistas sobre Como e o lago são fabulosas. Deambulámos um pouco pelo centro e quando nos preparávamos para regressar reparámos num belo edifício antigo que, na realidade, é um hotel — Bellavista Boutique Hotel — com um salão, no piso inferior, a servir de restaurante. Ao lado, tem uma sala mais pequena que é um café. Entrámos e tomámos dois deliciosos machiatti, numa mesa com vista privilegiada sobre Como.

O percurso do funicular é extenso, 1.084 metros, sem condutor, com o bem conhecido sistema de cabos, em que a composição que desce puxa, por gravidade, a que sobe. Todos nos lembramos do trágico acidente que aconteceu em Lisboa, há menos de um ano, quando um cabo do Elevador da Glória se rompeu. Enquanto descíamos perguntei a dois italianos se tinham ouvido falar desse acidente e, para minha surpresa, disseram-me que não. Em contrapartida, olharam alternadamente para a linha e para mim (íamos na frente do funicular) com ar apreensivo. Arrependi-me de ter falado naquilo.

Em Cernobbio.

Em Como cirandámos pelo centro da cidade, vimos a Cattedrale di Santa Maria Assunta, a Basilica di San Fedele e belas construções centenárias, como o magnífico Palace Hotel. Estava muito vento e podíamos observar no lago aqueles “carneirinhos” na água que nos indicam, em todo o lado, incluindo no Algarve, onde moramos, que quando aparecem aquelas ondinhas brancas sobre a água, não é certamente dia de irmos à praia. E aquele também não foi certamente um bom dia de negócio para os barqueiros que fazem passeios privados no Lago — as pequenas embarcações pareciam cavalos indomáveis.

De Como seguimos para Cernobbio, que fica muito perto, a uns meros 5 quilómetros. Estávamos na margem mais ocidental do Lago di Como. Em Cernobbio tínhamos a intenção de visitar a icónica Villa Erba, mas esta não está aberta ao público, é um espaço que se aluga para eventos particulares. Então, circulámos pela cidade. Seguimos pela Via Regina e fletimos para a Piazza Castello e, ao lado, a pequena Piazza Tolomeo Gallio, onde se situa a Igreja de San Vincenzo. Fizemos o percurso de volta até ao parque de estacionamento e continuámos a subir a margem ocidental do Lago di Como. Passámos por Moltrasio, Carate Urio e Laglio, enquanto a Flá procurava no Google algum lugar típico para almoçarmos.

Baixo relevo de Enrico Vannuccini, na zona histórica de Menaggio.

Sabíamos que seria difícil, se não impossível, encontrarmos um restaurante típico junto ao lago. Mas como estávamos de carro, não nos importávamos de fazer um desvio de alguns quilómetros para almoçarmos num restaurante local na montanha. Ficámos contentes quando encontrámos no Google dois ou três restaurantes de montanha bem classificados. Um deles tinha uma pontuação excecional e telefonámos para lá na expectativa de um almoço no campo, com vista desafogada e comida tipica da região. Uma senhora simpática informou-nos que o restaurante só abria de quinta a domingo, e era terça-feira. Tentámos outro restaurante que também estava fechado, e desistimos. Decidimos comer pelo caminho, sem local definido.

A nossa próxima paragem foi em Argegno, mas não nos demorámos. Vimos a pequena praceta, a Piazza Roma, demos uma voltinha por ali, e seguimos rumo a Menaggio. Aqui procurámos um local para comer e mais uma vez recorremos ao Google. Acabámos por nos decidir por uma café-bar bem classificado, no coração da cidade — a Pasticceria Cassera Moretti. Situada bem perto das praças mais centrais da cidade, onde os turistas de distribuem pelas esplanadas dos cafés, bares e pizzarias do Largo Cavour e da Piazza Giuseppe Garibaldi, numa ruazinha chamada Via Carlo Camozzi, esta pasticceria vale bem uma visita. Eu comi uma enorme focaccia com presunto, queijo e tomate, e a Flá pediu um croissant com alface, tomate e burrata; dividimos ainda um cannelloni com pistácio e um bolo de massa recheada com creme de ovos, os quais acompanhámos com os inevitáveis machiatti — ninguém os faz como os italianos.

Varenna vista do Lago di Como.

De seguida, fomos explorar um pouco mais de Menaggio. Por portas e travessas fomos ter à Via Castellino dal Castello, que subimos, até chegarmos ao edifício onde nasceu o padre jesuíta Gabriel Malagrida, em 1689. A história deste padre é interessante e trágica. Depois de ter trabalhado até 1754 como missionário em várias regiões do Brasil, Malagrida encontrava-se em Lisboa quando ali ocorreu o terrível terramoto de 1755, que “o padre das barbas brancas”, como era conhecido, atribuiu a um castigo divino, exortando a população à penitência. Sabendo-se da aversão do Marquês de Pombal aos jesuítas, não surpreende que o padre fosse condenado à morte pela Inquisição, já controlada pelo Marquês, acusado de ser um falso profeta e um hereje. Foi conduzido pelas ruas de Lisboa, garroteado no Rossio, o seu corpo queimado e as cinzas atiradas ao rio. Foi a última vítima a ser assassinada pela Inquisição, em Portugal.1 Há um livro de um padre da Companhia de Jesus, Paulo Mury, traduzido e prefaciado por Camilo Castelo Branco, intitulado, precisamente, História de Gabriel Malagrida (disponível aqui).

Continuámos pela Via Strecium até a Ponte di Caravaggio, sobre o rio Sanagra, junto à qual se encontra a Capella Madonna di Caravaggio (que dá o nome à ponte), uma pequena cascata e um baixo relevo de autoria do artista toscano Enrico Vannuccini, mesmo sobre a ponte. A escultura é dedicada a S. João Nepomuceno, padroeiro dos que passam pelas pontes. Depois desta pequena incursão sobre a zona alta e medieval da cidade, descemos para o centro turístico, com a intenção de tomarmos o ferry para Varenna. E foi o que fizemos, mas cometemos um erro: poderíamos ter levado o carro e já teríamos ficado na outra margem, sem necessidade de regressarmos a Menaggio e circundarmos o lago pelo Norte, para depois regressarmos ao alojamento. Teríamos poupado tempo, mas também não teríamos visto outras paisagens.

Foto na Passerella Innamorati Sul Lago.

Os ferrys que ligam as principais cidades do Lago di Como fazem-no com grande regularidade. Estão sempre a partir e a chegar. Têm várias vantagens, e talvez possamos dizer que as principais são o encurtamento de distâncias e as belas vistas que proporcionam sobre as margens envolventes e as cidades ribeirinhas. Varenna é muito bela vista do ferry e continua muito bela quando nela entramos — é a cidade mais bonita de todo o Lago di Como. Junto a este há um caminho que contorna a montanha, que só se pode fazer a pé, e que ninguém que visite Varenna pode deixar de percorrer. Ligeiramente elevado sobre o lago, está cercado por vegetação e flores, com vistas surpreendentes a cada curva. Fica à nossa direita, quando saímos do ferry, e foi por ele que seguimos até subirmos, por ruelas, escadarias e ruas, cada uma mais bonita que a outra, até a Piazza San Giorgio, onde se encontra a igreja homónima, a Câmara Municipal e vários cafés, hotéis e restaurantes. É a maior praça de Varenna.

Daqui descemos pela Contrada dei Sarti, no final da qual se encontra Il Bottaio, onde comprámos uma carteira, feita à mão, em couro italiano. Voltámos pelo mesmo caminho, a que alguns chamam Passerella Innamorati Sul Lago, não resistindo, aqui e ali, à tentação constante de abrir e fechar o obturador da câmera fotográfica, carregando insistentemente no disparador. Continuámos a tirar fotos no ferry de regresso a Menaggio, como se quiséssemos guardar todos os recantos e encantos da esplendorosa Varenna.

Pormenor da Capela de Santa Catarina, na Catedral de Bérgamo.

Acostámos a Menaggio seriam umas 5:00 da tarde. Ainda tivemos de caminhar bastante até ao carro, que estava estacionado na periferia da cidade. Quando ali chegámos tínhamos completado mais de 14 quilómetros de caminhada nesse dia. Era hora de regressar a Valbrona, a uns 90 quilómetros de distância. Teríamos poupado 30 quilómetros se tivéssemos optado pelo ferry. Chegámos ao alojamento ao anoitecer, jantámos bifes de vitela com spaghetti, comemos fruta, descansámos e já não saímos. Como de costume, delineámos o programa do dia seguinte, que seria o último desta viagem.

Na verdade, não foi um dia, foi apenas uma manhã, porque às 12:15 teríamos de entregar o carro no aeroporto. Saímos do alojamento às 8:00 horas em direção à cidade de Bérgamo. Apanhámos bastante trânsito, mas uma hora e meia depois estávamos a estacionar o carro num dos parques da Cidade Alta — a designação por que é conhecido o centro histórico de Bérgamo. Fomos caminhando até a Piazza Vecchia, onde se encontram o Palazzo della Ragione e a Torre Civica (Il Campanone) e seguimos para a Piazza del Duomo, onde se situam a Iglesia Santa Maria La Mayr, a Basilica di Santa Maria Maggiore e o Duomo di Sant’Alessandro Martire (a Catedral de Bérgamo).

Na Piazza Vecchia de Bérgamo.

É impressionante, tanto património cultural em tão pouco espaço, sendo que a Catedral é uma das mais bonitas que já visitámos, com as suas seis capelas (três de cada lado), as suas naves, as pinturas, os frescos, as esculturas e todo o conjunto barroco que marca o seu interior.

Depois de descermos da Città Alta, tivemos ainda tempo de parar numa gelataria que pesquisámos no Google, pois não tínhamos provado até então um sorvete nesta viagem a Itália. Foi também uma forma de gerirmos o tempo para chegarmos em cima da hora combinada ao aeroporto. Entregámos o carro às 12:10 e caminhámos tranquilamente até o terminal. Às 14:25 o avião descolou, precisamente dois dias após a nossa chegada à Lombardia, e às 16:40 estávamos em Faro. Chegara ao fim mais uma viagem.

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Notas:

1 Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/execucao-do-padre-gabriel-malagrida-em-lisboa/

https://lisbonquake.com/blog/padre-jesuita-censor-de-livros

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Autor: Jorge Costa

Fez percursos académicos nas áreas das Filosofia, Comunicação Social, Economia, Gestão dos Transportes Marítimos e Gestão Portuária, e estuda outras disciplinas científicas. Interessa-se igualmente por Arte, nas suas diversas manifestações, e também por viagens. Gosta de jogar xadrez. O seu autor preferido, desde que se lembra, é Karl Popper. Viveu em locais diversos, sobretudo em Portugal e no Brasil, pelo que se considera um cidadão do mundo. Atualmente vive em Cabanas, no Sotavento algarvio. Gosta de revisitar, sempre que pode, a bela cidade de Lisboa e, nela, o bairro onde nasceu, Alfama, o mais popular da capital, de traça árabe, debruçado sobre o Tejo — esse rio mítico, imortalizado por Camões e Pessoa, poetas maiores da Língua Portuguesa. Não é, porém, um bairrista, característica que deplora, a par dos clubismo, partidarismo e nacionalismo. Ama a Liberdade.