Física e Filosofia

Um excelente livro, com Prefácio de Paul Davies.

A teoria da relatividade e a mecânica quântica constituem as duas últimas grandes revoluções em Física, consolidadas, após serem postas à prova durante um século. Uma trata do imensamente grande (a relatividade geral) e a outra do extremamente pequeno, pelo que as suas leis não se aplicam ao nosso dia-a-dia. A teoria da relatividade só se aplica para velocidades muito elevadas, próximas da velocidade da luz (que é absoluta), os objetos com que nos deparamos no nosso quotidiano atingem apenas frações ínfimas dessa velocidade, e nas velocidades moderadas da nossa vivência as leis de Newton são perfeitamente válidas.

Da mesma forma, a mecânica quântica, embora útil em muitos instrumentos tecnológicos que utilizamos, trata de assuntos que nos passam ao lado no decorrer da nossa vida normal. Para observarmos o que se passa dentro do átomo precisamos de aparelhos sofisticados e potentes (como os aceleradores de partículas)1 que só os cientistas usam. É por isso, por se debruçarem sobre experiências fora do mundo normal, que a linguagem utilizada pelos físicos também é — tem que ser — uma linguagem específica — a linguagem matemática, inacessível para a maioria de nós. Mas essa é, de facto, a linguagem mais adaptável à realidade, a qual, as experiências confirmam-no, vai muito além da nossa vivência quotidiana, daquilo que vemos e sentimos, e da perceção, que carregamos connosco, do espaço e do tempo.

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Nota:

1 Ver nosso artigo aqui.

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A nossa edição:

Werner Heinsenberg, Physics and Philosophy, Penguin Books, London, 1989 (ed. orig. 1958).

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Lombardia

Belaggio vista da estrada.

Aterrámos no aeroporto de Bérgamo às 14:25, vindos de Creta. Chovia bastante, mas quando saímos do avião, inesperadamente, a chuva parou. No parque de estacionamento do aeroporto estava um funcionário da To-Rent com o nosso carro alugado e passados 5 minutos já estávamos na estrada a caminho do alojamento em Valbrona, uma vila perto de Bellagio (11 kms) e a uns 60 quilómetros do aeroporto. Valbrona fica a 500 metros de altitude, não no sopé das montanhas e junto ao lago, como é o caso das cidades mais conhecidas da região: Menaggio, Varenna, Bellagio, Cernobbio, Como, etc. Trata-se de uma vila pequena, com dois mil e quinhentos habitantes, com espaço para estacionamento, e onde os alojamentos são mais baratos, relativamente a essas cidades mais conhecidas.

O pequeno apartamento fica dentro de um pátio onde se localizam três ou quatro habitações, uma delas a da proprietária, as restantes para alojamento local. Um bom investimento. Está bem equipado e é acolhedor, com roupas de cama de qualidade, o que é sempre um sinal positivo, pois é aí que muitos falham. O nome do alojamento no Booking é La Corte del Pane e recomendamo-lo, sem hesitações, a quem viajar para aquelas bandas.

Depois de arrumarmos os nossos pertences fomos dar uma vista de olhos a Bellagio, embora o tempo não estivesse muito convidativo. Além de ameaçar chuva, estava ventoso e fresco, logo, desagradável. Limitámo-nos a dar uma volta pelo centro, apreciando os belos edifícios, a Basilica de San Giacomo, o Grand Hotel Villa Serbelloni, os elegantes cafés, restaurantes e gelatarias da Piazza Giuseppe Mazzini, e já começava a escurecer quando entrámos num mini-mercado para comprar as provisões de que necessitávamos. Após o regresso ao alojamento já não saímos, ficámos a delinear o programa para o dia seguinte.

Como e o seu lago vistos de Brunate.

Como sempre, ou quase, acordámos bem cedo. A Flá é a melhor co-piloto do mundo e foi-me indicando o caminho até Como, aonde chegámos ainda a tempo de estacionarmos o carro com facilidade. Parámos num ponto próximo, então não tivemos de caminhar muito até o local onde se apanha o funicular para Brunate. Lá de cima, as vistas sobre Como e o lago são fabulosas. Deambulámos um pouco pelo centro de Brunate e quando nos preparávamos para regressar reparámos num belo edifício antigo que, na realidade, é um hotel — Bellavista Boutique Hotel — com um salão, no piso inferior, a servir de restaurante. Ao lado, tem uma sala mais pequena que é um café. Entrámos e tomámos dois deliciosos machiatti, numa mesa com vista privilegiada sobre Como.

Fizemos o percurso de volta no funicular, que é extenso, 1.084 metros, sem condutor, e com o bem conhecido sistema de cabos, em que a composição que desce puxa, por gravidade, a que sobe. Todos nos lembramos do trágico acidente que aconteceu em Lisboa, há menos de um ano, quando um cabo do elevador da Glória se rompeu. Enquanto descíamos perguntei a dois italianos se tinham ouvido falar desse acidente e, para minha surpresa, disseram-me que não. Em contrapartida, olharam alternadamente para a linha e para mim (íamos na frente do funicular) com ar apreensivo. Arrependi-me de ter falado naquilo.

Em Cernobbio.

Em Como cirandámos pela cidade, vimos a Cattedrale di Santa Maria Assunta, a Basilica di San Fedele e belas construções centenárias, como o magnífico Palace Hotel. Estava muito vento e podíamos observar no lago aqueles “carneirinhos” na água que nos indicam, em todo o lado, incluindo no Algarve, onde moramos, que quando aparecem aquelas ondinhas brancas sobre a água, não é certamente dia de irmos à praia. E aquele também não foi certamente um bom dia de negócio para os barqueiros que fazem passeios privados no Lago — as pequenas embarcações pareciam cavalos indomáveis.

Partimos de Como em direção a Cernobbio, que fica muito perto, a uns meros 5 quilómetros, na margem mais ocidental do Lago di Como. Em Cernobbio tínhamos a intenção de visitar a icónica Villa Erba, mas esta não está aberta ao público, é um espaço que se aluga para eventos particulares. Então, circulámos pela cidade. Seguimos pela Via Regina, fletimos para a Piazza Castello e continuámos para a pequena Piazza Tolomeo Gallio, onde se situa a Igreja de San Vincenzo. Depois decidimos voltar ao parque de estacionamento e continuar a nossa viagem, subindo pela estada marginal ao Lago di Como, passando sucessivamente por Moltrasio, Carate Urio e Laglio, enquanto a Flá procurava no Google algum restaurante típico para almoçarmos.

Baixo relevo de Enrico Vannuccini, na zona histórica de Menaggio.

Sabíamos que seria difícil, se não impossível, encontrarmos um restaurante típico junto ao lago. Mas como estávamos de carro, não nos importávamos de fazer um desvio de alguns quilómetros para almoçarmos em um qualquer local na montanha. Ficámos contentes quando encontrámos no Google dois ou três restaurantes rurais bem classificados. Um deles tinha uma pontuação excecional e telefonámos para lá na expectativa de um almoço no campo, com vista desafogada e comida tipica da região. Uma senhora simpática informou-nos que o restaurante só abria de quinta a domingo, e era terça-feira. Tentámos outro restaurante que também estava fechado, e desistimos. Decidimos comer pelo caminho, sem local definido.

A nossa próxima paragem foi em Argegno, mas não nos demorámos. Vimos a pequena praceta, a Piazza Roma, demos uma voltinha por ali, e continuámos a nossa viagem, rumo a Menaggio. Aqui procurámos um local para comer e mais uma vez recorremos ao Google. Acabámos por nos decidir por uma café-bar bem classificado, no coração da cidade — a Pasticceria Cassera Moretti. Situada bem perto das praças mais centrais da cidade, onde os turistas de distribuem pelas esplanadas dos cafés, bares e pizzarias do Largo Cavour e da Piazza Giuseppe Garibaldi, numa ruazinha chamada Via Carlo Camozzi, esta pasticceria vale bem uma visita. Eu comi uma enorme focaccia com presunto, queijo e tomate, e a Flá pediu um croissant com alface, tomate e burrata; dividimos ainda um cannelloni com pistácio e um bolo de massa recheada com creme de ovos, os quais acompanhámos com os inevitáveis machiatti — ninguém os faz como os italianos.

Varenna vista do Lago di Como.

De seguida, fomos explorar um pouco mais de Menaggio. Por portas e travessas fomos ter à Via Castellino dal Castello, que subimos, até chegarmos ao edifício onde nasceu o padre jesuíta Gabriel Malagrida, em 1689. A história deste padre é interessante e trágica. Depois de ter trabalhado até 1754 como missionário em várias regiões do Brasil, Malagrida encontrava-se em Lisboa quando ali ocorreu o terrível terramoto de 1755, que “o padre das barbas brancas”, como era conhecido, atribuiu a um castigo divino, exortando a população à penitência. Sabendo-se da aversão do Marquês de Pombal aos jesuítas, não surpreende que o padre fosse condenado à morte pela Inquisição, já controlada pelo Marquês, acusado de ser um falso profeta e um hereje. Foi conduzido pelas ruas de Lisboa, garroteado no Rossio, sendo depois o seu corpo queimado e as cinzas atiradas ao rio. Foi a última vítima a ser assassinada pela Inquisição, em Portugal.1 Há um livro de um padre da Companhia de Jesus, Paulo Mury, traduzido e prefaciado por Camilo Castelo Branco, intitulado História de Gabriel Malagrida (disponível aqui).

Continuámos pela Via Strecium até a Ponte di Caravaggio, sobre o rio Sanagra, junto à qual se encontra a Capella Madonna di Caravaggio (que dá o nome à ponte), uma pequena cascata e um baixo relevo de autoria do artista toscano Enrico Vannuccini, mesmo em cima de um dos muretes da ponte. A escultura é dedicada a S. João Nepomuceno, padroeiro dos que passam pelas pontes. Depois desta pequena incursão sobre a zona alta e medieval da cidade, descemos para o centro turístico, com a intenção de tomarmos o ferry para Varenna. E foi o que fizemos, mas cometemos um pequeno erro: poderíamos ter levado o carro e já teríamos ficado na outra margem, sem necessidade de regressarmos a Menaggio e circundarmos o lago pelo Norte, para depois regressarmos ao alojamento. É verdade que teríamos poupado tempo, mas também não teríamos visto outras paisagens.

Foto na Passerella Innamorati Sul Lago.

Os ferrys que ligam as principais cidades do Lago di Como (que no mapa parece um “Y” invertido) fazem-no com grande regularidade. Estão sempre a partir e a chegar. Além de encurtarem distâncias, também proporcionam vistas deslumbrantes sobre as margens, as montanhas e as cidades ribeirinhas. Varenna é muito bela vista do ferry e continua muito bela quando nela entramos — é a cidade mais bonita de todo o Lago di Como. Já dentro da cidade, e junto ao lago, há um caminho que contorna a montanha, que só se pode fazer a pé, e que ninguém que visite Varenna pode deixar de percorrer. Ligeiramente elevado sobre as águas, está cercado por vegetação e flores, e tem vistas surpreendentes a cada curva. Fica à nossa direita, quando saímos do ferry, e foi por ele que seguimos até subirmos, por ruelas, escadarias e ruas, cada uma mais bonita que a outra, até a Piazza San Giorgio, onde se encontra a igreja homónima, a Câmara Municipal e vários cafés, hotéis e restaurantes. É a maior praça de Varenna.

Daqui descemos pela Contrada dei Sarti, no final da qual se encontra Il Bottaio, onde comprámos uma carteira, feita à mão, em couro italiano. Voltámos pelo mesmo caminho, a que alguns chamam Passerella Innamorati Sul Lago, não resistindo, aqui e ali, à tentação constante de abrir e fechar o obturador da câmera fotográfica, carregando insistentemente no disparador. Continuámos a tirar fotos no ferry de regresso a Menaggio, como se quiséssemos guardar todos os recantos e encantos da esplendorosa Varenna.

Pormenor da Capela de Santa Catarina, na Catedral de Bérgamo.

O ferry acostou ao pequeno cais de Menaggio seriam umas 5:00 da tarde. Ainda tivemos de caminhar bastante até ao carro, que estava estacionado na periferia da cidade. Quando ali chegámos tínhamos completado mais de 14 quilómetros de caminhada nesse dia. Era hora de regressar a Valbrona, a uns 90 quilómetros de distância. Teríamos poupado 30 quilómetros se tivéssemos optado pelo ferry. Chegámos ao alojamento ao anoitecer, jantámos bifes de vitela com spaghetti, comemos fruta, descansámos e já não saímos. Como de costume, delineámos o programa do dia seguinte, que seria o último desta viagem.

Na verdade, não foi um dia, foi apenas uma manhã, porque às 12:15 teríamos de entregar o carro no aeroporto. Saímos do alojamento às 8:00 horas em direção à cidade de Bérgamo. Apanhámos bastante trânsito, mas uma hora e meia depois estávamos a estacionar o carro num dos parques da Cidade Alta — a designação por que é conhecido o centro histórico de Bérgamo. Fomos caminhando até a Piazza Vecchia, onde se encontram o Palazzo della Ragione e a Torre Civica (Il Campanone) e seguimos para a Piazza del Duomo, onde se situam a Iglesia Santa Maria La Mayr, a Basilica di Santa Maria Maggiore e o Duomo di Sant’Alessandro Martire (a Catedral de Bérgamo).

Na Piazza Vecchia de Bérgamo.

É impressionante, tanto património cultural em tão pouco espaço, sendo que a Catedral é uma das mais bonitas que já visitámos, com as suas seis capelas (três de cada lado), as suas naves, as pinturas, os frescos, as esculturas e todo o conjunto barroco que marca o interior.

Depois de descermos da Città Alta, tivemos ainda tempo de parar numa gelataria que pesquisámos no Google, pois não tínhamos provado até então um sorvete nesta viagem a Itália. Foi também uma forma de gerirmos o tempo para chegarmos em cima da hora combinada ao aeroporto. Entregámos o carro às 12:10 e caminhámos tranquilamente até o terminal. Às 14:25 o avião descolou, precisamente dois dias depois da nossa chegada à Lombardia, e às 16:40 aterrávamos em Faro. Chegara ao fim mais uma viagem.

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Notas:

1 Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/execucao-do-padre-gabriel-malagrida-em-lisboa/

https://lisbonquake.com/blog/padre-jesuita-censor-de-livros

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Creta

A bela praia de Balos, ao romper da manhã.

Para aproveitar os voos de low-cost entrámos em Creta pelo aeroporto de Heráclio e saímos pelo de Chania. O nosso voo, vindo de Bucareste, partiu com duas horas de atraso (se fossem três teríamos direito a indemnização), pelo que chegámos a Heráclio já depois da meia-noite e, pouco depois, apanhámos um táxi para o nosso alojamento no centro da cidade. Dormimos escassas horas porque às 7:30 estávamos a apanhar o autocarro para Chania, numa viagem de mais de três horas. Aqui chegados, nem sequer saímos do terminal rodoviário, esperámos uns 45 minutos por outro autocarro que nos transportou até ao aeroporto de Chania, onde tínhamos combinado receber o nosso carro alugado. Nesta altura eram quase 13:00 h.

Já a bordo do pequeno Kia, dirigimo-nos ao nosso alojamento nos arredores de Chania, em Gálatas, onde dormiríamos as próximas três noites. Ainda demos uma voltinha pela estrada marginal, junto à costa, na zona de Agia Marina, para fazermos tempo até o horário de check-in, e aproveitando também para fazermos algumas compras. Constatámos que a carne é bastante mais barata em Creta do que em Portugal e que há muito boa fruta, embora, comparativamente, menos barata que a carne. Chegámos finalmente ao Kansoo Rooms e ficámos de imediato rendidos à qualidade do apartamento: limpo, espaçoso, elegante e funcional, equipado com tudo o que é necessário e com uma ampla varanda, sobre a piscina. O espaço envolvente também é muito agradável, tranquilo e silencioso, apenas os vários gatos, de vez em quando, se fazem notar. No resto do dia, como não tínhamos muito tempo, deambulámos mais um pouco pela região de Agia Marina, e regressando ao fim do dia ao apartamento.

No nosso apartamento da Kangoo Rooms.

Acordámos bem cedo na manhã seguinte para visitarmos a praia de Balos. Depois do pequeno-almoço saímos de Gálatas, seriam umas 7:00 da manhã. Fizemos um percurso de cerca de 50 quilómetros, primeiro pela E65, uma rodovia em muito bom estado, e depois por uma estrada de gravilha, com uns 10 quilómetros, sempre a subir, até atingirmos o parque de estacionamento no topo da colina. Aqui chegados só restavam mais uns 500 metros, sempre a descer, até a praia de Balos. A partir de certo ponto, as vistas pelo caminho são soberbas e, inevitavelmente, perde-se um tempo considerável a fixá-las com a câmera fotográfica. Como chegámos cedo, havia uma zona da praia onde os raios do sol, escondido atrás da montanha, ainda não tinham chegado e, para nosso delite, a praia estava quase deserta.

A zona ocidental de Creta (aquela por onde circulámos) é bastante montanhosa, e nessas montanhas, por todo o lado, se veem cabras, deambulando, com a sua natural destreza, pelos declives mais incríveis sobre os precipícios. Enquanto descíamos para a praia, no meio do silêncio total, ainda não perturbado pelo burburinho humano, ouvimos, de repente, um berro que ecoou na montanha. Logo de seguida, começámos a ver cabras a convergirem de todos os lados — por baixo de nós, na praia, no topo da montanha e nas encostas envolventes — em direção ao ponto de onde tinha vindo o berro que se propagou por quilómetros (só foi preciso um) e se descortinava o vulto de um pastor. Foi algo inesperado e marcante, um grito numa língua que, presumivelmente, só aquele pastor e as suas cabras entendem.

Os cabrestos pululam pelas encostas montanhosas de toda a Creta.

A praia de Balos é enorme, tem várias zonas, todas elas calmas, pois está protegida por uma cadeia rochosa e por uma ilha, em frente. Quando fomos explorar o caminho que leva à ilha, através da barreira rochosa, encontrámos várias piscinas naturais. Uma delas, é deveras atraente, com dimensões generosas e água incrivelmente cristalina, o fundo é perfeitamente visível, permitindo que se mergulhe em segurança, se se tiver um mínimo de cuidado. Foi o que fizemos. A água estava bem fresca, mas após aquela sensação imediata de choque térmico, desfrutámos com prazer de um banho revigorante. Quando terminámos, já dois turistas italianos, talvez atraídos pela única atividade naquela praia deserta, mergulhavam no mesmo local. Quando encetámos o caminho de volta já umas dezenas de pessoas tinham chegado à praia e, olhando para o trilho na montanha, viam-se inúmeros pontinhos humanos descendo lentamente a colina.

Quando subimos o trilho de volta ao parque de estacionamento, esses pontinhos eram agora do nosso tamanho e sucediam-se numa fila interminável. Muitos tinham de esperar pela sua vez, enquanto outros tiravam selfies nos melhores pontos de vista sobre a praia. Comentámos sobre as vantagens de realmente acordarmos cedo para chegarmos a estes locais fora do grande fluxo humano, e este é um conselho que deixamos a todos os que gostam de viajar — levantar cedo para chegar primeiro. Quando atingimos o parque de estacionamento, onde estavam estacionados dois carros quando chegáramos há duas horas, estavam agora parqueados centenas e centenas de carros. Tivemos de pagar o estacionamento à saída (3€), porque à entrada ainda não havia funcionários.

Chegámos a Balos quando o sol surgiu por trás da montanha.

De novo na estrada de terra batida, o nosso Kia negro virou branco com o pó levantado pelos inúmeros carros com que nos cruzámos pelo caminho. Continuava a chegar gente. No final da descida, dirigimo-nos para a estrada que faz a ligação ao Sul, rumo a Elafonissi. A paisagem é típica de montanha e o trajeto cheio de curvas, subidas e descidas, o que faz com que a progressão seja lenta. Pontualmente, encontram-se algumas tavernas, restaurantes típicos, onde se pode apreciar a comida local, com os inevitáveis pratos de cabrito, entre outras iguarias. Enquanto circulávamos, a Flá, aniversariante do dia, procurava no Google os restaurantes mais bem classificados da zona. Houve um que nos chamou a atenção, e situava-se um pouco mais à frente, poucos quilómetros antes de Elafonissi.

Em boa hora escolhemos o Aerino Restaurant-Cafe. Optámos por pratos de peixe grelhado, sardinhas e robalo, que, em ambos os casos, estava fresquíssimo. Partilhámos também uma sopa de peixe divinal. Além disso, a vista desde o restaurante é bonita, e os funcionários são extremamente simpáticos e prestáveis. Confirmámos também que, tendo em conta a qualidade, não se trata de um restaurante caro. As duas refeições completas, incluindo bebidas e café, custaram cerca de 60€. O local é tão agradável (comentámos que deve ser sensacional ali jantar ao pôr-do-sol, dado que o restaurante está virado para Oeste), e a ocasião era tão especial, que nos demorámos um pouco mais do que o habitual. No final, ainda nos ofereceram dois petits gâteaux, e queriam que provássemos o raki cretense, mas quando nos disseram que continha 42% de grau alcoólico, amavelmente recusámos.

Após o almoço no Aerino.

Depois de almoço, seriam uma 3:00 da tarde, descemos para Elafonissi. Talvez porque a expectativa era alta, foi uma desilusão. Não há forma de aceitar que esta seja uma das mais belas praias do mundo, tal como é amplamente considerada, quando a encontramos assoberbada de gente. Apercebemo-nos disso ainda antes de ver a praia, pois os vários parques de estacionamento estavam quase todos plenos de viaturas. Lá pagámos os tradicionais 3€ e descemos, sem grande convicção até à praia. Ainda por cima estava um vento muito forte, o que não impedia que cada cantinho estivesse preenchido com pessoas. Não nos banhámos. Passeámos um pouco pela beira-mar, procurámos algum ângulo para tirar uma foto em que não aparecesse o formigueiro de gente, mas isso afigurou-se impossível. Viemos embora comentando em como seria aquela praia no verão, se era assim ainda no início de maio…

Gostaríamos de ter continuado pela costa sul para depois subirmos para Gálatas, até o nosso alojamento, mas não há uma estrada paralela à costa sul, pois a zona é muito montanhosa, pelo que tivemos de voltar pela mesma estrada. Ainda parámos uma vez para visitar, logo à saída de Elafonissi, uns 3 kms depois, o mosteiro de Chrysoslalítissa, uma edificação setecentista do cristianismo ortodoxo. Ali encontramos uma capela, celas dos monges e pequenas salas, algumas minúsculas, uma das quais servia de sala de aulas secreta, aquando da ocupação turca. O ingresso custa 4€.

No mosteiro de Chrysoslalítissa.

Decidimos regressar ao alojamento sem mais delongas. Estávamos explorando o terreno há quase doze horas, tínhamos caminhado uns 14 quilómetros, e os nossos corpos já reclamavam por descanso. A Flá fez frango frito para o jantar e por ali ficámos, a recuperar energias, enquanto delineávamos o plano para o dia seguinte. Queríamos conhecer alguns pontos da Costa Sul, havia várias possibilidades, umas mais conhecidas e outras menos, e foi por as últimas que optámos, e não nos arrependemos. Embora Creta seja um destino muito procurado, sobretudo por quem gosta de praias, e no pico de verão seja certamente quase impossível encontrar locais de veraneio com pouca gente, isso é possível nos meses da chamada época baixa, e felizmente ainda os encontrámos.

Saímos no dia seguinte, após o pequeno-almoço, com intenção de cumprir o nosso plano. Este era mais um dia especial para nós, pois completávamos 14 anos de namoro. O nosso objetivo era chegar a Loutro, uma pequena localidade piscatória na costa Sul e para isso o google maps “sugeriu” que seguíssemos pela mesma estrada do dia anterior, a E-65, mas agora em sentido contrário, ou seja, para Leste, até fletirmos para Sul, uns 20 quilómetros depois, em direção a Sfakia. Aqui teríamos procedido bem se tivéssemos estacionado o carro e apanhado um ferry para Loutro, porque a melhor forma (mais cómoda, rápida e barata) de viajar entre as pequenas localidades desta zona da Costa Sul é por navio, havendo bastantes horários disponíveis. Mas nós ainda não sabíamos disso e seguimos de carro por uma estrada sinuosa que nos levou a Aradena, uma pequena localidade sobre um profundo desfiladeiro, o qual se cruza através de uma ponte de ferro. A cobrir o tabuleiro da ponte há umas travessas de madeira, cujo matraquear se propaga quando os pneus das viaturas as vão ultrapassando. Quando os carros circulam mais rápido, o som parece o de uma metralhadora.

Aradena.

Loutro não tem estrada nem tão pouco ruas, apenas algumas estreitas ruelas e escadarias, escavadas na encosta rochosa. A principal forma de lá chegar é através do porto de mar porque a estrada que desce desde Aradena fica a uns 500 metros. E que estrada! Esculpida na rocha, estreita, sem proteção, é uma das estradas mais perigosas por onde já passámos. E depois de começarmos a descer já não se pode voltar para trás. Lá fomos, cautelosamente, respirando fundo cada vez que olhávamos para o precipício, ora ao nosso lado esquerdo, ora do lado direito, serpenteado e rezando para não nos cruzarmos com nenhum carro que viesse a subir. Lá chegámos ao fundo (literalmente), um pouco tensos, sabendo que teríamos de fazer o caminho de volta mais tarde.

Após se estacionar o carro num dos poucos espaços disponíveis (não há parque de estacionamento pois o espaço para carros, incluindo a estrada, é exíguo), pode seguir-se por vários trilhos. Há um que segue para Loutro e outro que vai para Finikas. Entre estes dois pequeninos portos (Finikas é minúsculo) há ainda um trilho, mais longo, com cerca de um quilómetro, que segue junto ao mar. E, por fim, há ainda outro trilho entre Finikas e Loutro, mais curto, pela montanha. Nós fomos primeiro a Finikas, que é o mais perto da estrada. E dali fomos pelo trilho junto ao mar até Loutro.

Loutro.

Após a última curva do trilho, a pequena localidade piscatória surge como uma miragem aos nossos olhos, o seu casario branco flutuando e se refletindo nas águas cristalinas. Percorremos a pequena praia, os cafés e restaurantes, o pequeno cais e decidimos voltar a Finikas. Tínhamos planeado almoçar numa taverna de Loutro — a Taverna Stratis — mas esta só abria às 13:30 e ainda faltava uma hora, pelo que decidimos tentar o restaurante que víramos em Finikas, o Finix-Café.

Foi uma boa opção e confirmou-se a boa classificação que tínhamos visto no Google. Comemos anchovas, lulas fritas e cabrito guizado com batatas fritas — um dos pratos típicos de Creta. A baía de Finikas é mais pequena que a de Loutro, logo, a praia também é mais pequena. Embora seja uma praia de calhaus, não é preciso andar muito para chegar à água, e esta é de uma transparência incrível. (Verdade seja dita: a água é excelente em todas as praias que vimos em Creta). Estava calor e não resistimos a ir provar a água e nadar naquela pequena baía magnífica. Além de nós, estariam 3 ou 4 pessoas na praia. É engraçado que a praia de calhaus, além de não magoar os pés se os pisarmos suavemente (deve haver uma técnica que se aperfeiçoa com o tempo), tem a vantagem de não termos de retirar a areia dos pés no final…

Nadando na pequena baía de Finikas.

Após o banho revigorante sentimo-nos mais confiantes para subir com o nosso carro a estrada sinuosa até ao topo da montanha. E desta vez apanhámos dois carros em sentido contrário. Mas, com jeito e calma, correu tudo bem. Já na estrada principal, íamos regressando para Sfakia, quando passámos junto a um ponto da estrada onde se inicia um trilho, de cerca de 600 metros, que leva à praia de Glyka Nera. Parámos, e vimos alguns pequenos grupos de pessoas a percorerem o trilho. Hesitámos sobre a hipótese de também percorrermos esse mesmo trilho ou continuarmos viagem para uma praia muito referenciada na internet, a praia de Prevelli, situada ainda na Costa Sul, mas mais para Leste, a cerca de 80 kms do local onde nos encontrávamos. Optámos pela segunda hipótese, abrindo uma exceção à nossa preferência por locais menos badalados, e acabámos por concluir, depois, que errámos. Acontece. Estas crónicas servem também para que outras pessoas possam fazer opções melhores que as nossas.

Claro que sempre se vão encontrando coisas interessantes pelo caminho, seja património natural ou edificado. Mas a praia de Preveli, em si mesma, e apesar de ser muito frequentada, deixa, pelo menos para nós, muito a desejar. É uma praia muito referenciada graças a um rio, ladeado às esquerda e direita por um palmeiral, que nela desagua. Talvez por termos chegado tarde, quando o sol já não batia no rio, que fica no fundo de um desfiladeiro, não encontrámos nenhum motivo especial de interesse. Pelo contrário, o rio tem uma cor esverdeada nada atraente e contamina a própria água da praia, em cuja areia pode ver-se uma espécie de lago, na verdade uma enorme poça de água com essa água esverdeada e parada, que em nada favorece a praia, a qual seria mais bonita sem o rio. Mas a fama é o que é, e Preveli estava cheia de gente.

Na marginal de Rethimno.

Neste dia fizemos bastante exercício, pois do parque de estacionamento (como sempre, 3€) até à praia tivemos de descer 500 degraus. Claro que subimos os mesmos 500 na volta! Mas chegámos sãos e salvos, e decidimos passar ainda por Rethimno, talvez a cidade mais turística de Creta para quem gosta de praia, aonde chegámos um pouco antes do final do dia. Passeámos um pouco pela longa marginal e fomos lanchar ao Café-Kallithea (mais uma vez, após consulta ao Google). Quando saímos começava a escurecer e pudemos observar o começo da movida noturna de Rethimno, com a sua marginal plena de cafés, lojas e restaurantes virados para o turismo. A Costa Norte é sem dúvida a mais turística, com praias mais amplas e melhores infraestruturas, e é aqui que os turistas ficam hospedados, fazendo durante a estadia alguns passeios a Balos ou Elafonissi, pois estas são praias de visita, quase sem alojamentos por perto, e é na Costa Norte que tudo acontece. E além das praias, há a vida noturna, com seus bares e discotecas, para gente que gosta de beber, dançar e divertir-se.

Tudo depende, portanto, do que se pretende fazer. No nosso caso, nós viajamos para explorar os locais, não para passarmos férias. Tempo de férias passamo-lo em Portugal, nas nossas praias do Sotavento algarvio. Mas se o nosso objetivo em Creta fosse passar férias, a zona escolhida seria, sem dúvida a de Sfakia, Finikas e Loutro, longe das multidões da Costa Norte e de outros locais badalados. Essa foi a conclusão que retirámos destes dias passados em Creta e é a sugestão que deixamos a quem queira ali fazer férias de praia.

Os nossos percursos de carro, em Creta.

De Rethimno seguimos para o nosso alojamento para descansarmos de mais um dia intenso. No dia seguinte, por volta das 9:30, despedimo-nos de Vassilis, o simpático e competente gerente de Kansoo Rooms, e seguimos rumo ao aeroporto. Pelo caminho parámos numa lavadoura de automóveis e, com um euro apenas, deixámos o pequeno Kia com uma cara nova. Por volta das 11:00 entregámos o carro e às 14:00 levantávamos voo em direção ao nosso próximo destino, o aeroporto de Bérgamo, na Lombardia. Esta era a terceira vez que nos despedíamos de Creta.

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Bucareste

O ciclópico parlamento romeno — o maior do mundo.

Aproveitando os voos de low-cost disponíveis a partir do aeroporto de Faro, decidimos dar uma pequena volta de oito dias por três países europeus: Roménia (Bucareste), Grécia (ilha de Creta) e Itália (região da Lombardia). Neste artigo iremos debruçar-nos apenas por Bucareste, capital da Roménia, um país latino, com uma língua, em parte, semelhante à nossa. Isto quer dizer que, apesar de sermos os dois países latinos mais distantes na Europa, há uma certa afinidade entre Portugal e este país do Leste europeu. A nossa estadia em Bucareste foi curta (apenas dois dias) mas intensa.

Aterrámos pouco depois da meia-noite, isto é, já na madrugada do dia 6 de maio, e, apesar da hora, durante o nosso trajeto para o centro da cidade, algo se destacou perante os nossos olhos: a dimensão dos edifícios. Por Bucareste pululam edificações enormes, incluindo o maior edifício administrativo do mundo — o Parlamento romeno. Uma segunda impressão, que confirmaríamos no dia seguinte, foi a de que estávamos perante uma cidade em crescimento. Vimos muitas obras pelo caminho (incluindo a que permitirá a ligação de metro entre a cidade e o aeroporto), e uns 25 minutos depois de entrarmos num Tesla, chamado através da aplicação Uber, chegávamos a um acolhedor e charmoso apartamento, situado no 6º andar de um robusto edifício, com um elevador minúsculo onde só cabem duas pessoas, provavelmente centenário — o nosso alojamento em Bucareste.

No nosso belo apartamento da Bulevardul Carol I, em Bucareste.

C hegámos à Roménia num período de agitação política. É bom recordar que após a dissolução da União Soviética e da revolução romena de 1989, a Roménia enveredou pelo caminho da democracia e desenvolveu-se rapidamente, acabando por integrar a OTAN, em 2004, e a União Europeia, em 2007. O rumo liberal-democrático da Roménia foi muito recentemente posto em causa (5 de Maio), quando os sociais democratas e o partido extremista de direita (Aliança para a União dos Romenos – AUR) se aliaram para derrubar o primeiro-ministro liberal e pró-europeu, Ilie Bolojan, através de uma moção de censura.

Alguns partidos desejam eleições antecipadas, mas o presidente romeno, Nicusor Dan, prefere uma solução governamental que inclua os partidos pró-europeus, talvez a mesma coligação partidária anterior, mas sem Ilie Bolojan na liderança. O presidente, bem como vários líderes partidários romenos, querem manter o rumo pró-ocidental do país, temendo a ascensão da AUR, que nas sondagens já atingiu 37% dos potenciais votos, e do seu líder, George Simion, mais um líder populista europeu, notoriamente pró-russo. Veremos o que se segue.

O Teatro Nacional da Roménia, na Praça Universitária.

A situação política romena não impediu que tivéssemos uma noite bem dormida, após a qual fomos a um mini-mercado, a poucos metros da nossa nova e provisória morada, comprar ovos, alguns legumes, fruta, água e outras pequenas coisas. Regressámos ao apartamento para guardarmos as compras e tomarmos o pequeno almoço, e só depois iniciámos o passeio previsto no nosso programa. Não há melhor forma de conhecer as cidades do que fazê-lo caminhando e foi o que fizemos, como sempre. Entre os pontos selecionados, há sempre muita coisa para descobrir. Desta vez, também não houve exceção à regra. O nosso primeiro destino era o Ateneu, mas acabámos por fazer a primeira paragem no Teatro Nacional Ion Luca Caragiale, um dos edifícios mais emblemáticos de Bucareste.

Não estava aberto para visitas, mas tivemos acesso ao seu belo átrio e pudemos apreciar esculturas, tapeçarias, lustres, escadarias, mármores, linhas arquitetónicas. Este teatro foi remodelado entre 2011 e 2015, e alberga sete salas de espetáculos (seis cobertas e um anfiteatro ao ar livre). A sua localização não podia ser mais central: na Praça Universitária, onde fica o quilómetro zero da capital, um espaço emblemático onde ocorreram acontecimentos vitais para a transformação da Roménia numa sociedade livre e aberta. Gostaríamos de ter assistido a um espetáculo neste teatro, mas tal não foi possível. No entanto, seríamos recompensados pouco depois com um espetáculo privado, só para nós.

Alexander Gadjiev atua só para nós na magnífica sala principal do Ateneu, em Bucareste.

Seguimos para o Ateneu Romeno. Situado muito perto do Palácio Real, o Ateneu foi inaugurado em 26 de outubro de 1888, numa cerimónia oficial. A sua construção, sobre uma antiga escola equestre, foi concluída em apenas 16 meses, entre 1886 e 1888, o que, face à magnitude dos trabalhos exigidos, não deixa de ser espantoso, mesmo se tivermos em conta que este belo espaço não é já o original; como quase sempre acontece, houve melhoramentos e reformas posteriores. Este magnífico edifício exibe uma diversidade de estilos, combinando a orientação neo-clássica, bem visível do exterior, com elementos específicos do estilo francês Belle Epoque, de finais do século XIX. A sala de concertos principal, de forma circular, tem uma capacidade de 850 lugares sentados, entre bancadas e camarotes. Por cima destes, está patente um enorme fresco do pintor romeno Costin Petrescu, inaugurado em 1939, que conta em 24 cenas a história do povo romeno. Esta é uma sala realmente emblemática, onde atuaram artistas de renome mundial, como Igor Stravinski, Herbert von Karajan e Pablo Casals, entre muitos outros.

Entre esses muitos outros conta-se Alexander Gadjiev, que tivemos a sorte de ver e ouvir ao vivo, durante a nossa visita, pois esta ocorreu quando o pianista italiano (sim, o nome não o sugere, mas é mesmo italiano) ensaiava para o concerto do dia seguinte com a orquestra Filarmónica George Enescu.

No interior da Carturesti Carusel.

Termos assistido ao ensaio de Alexander Gadjiev, não deixou de ser um verdadeiro privilégio. E isso só prova que quase sempre acontecem coisas inesperadas e belas nas viagens, por um lado, porque as procuramos, e, por outro lado, porque os nossos sentidos estão mais despertos. Saímos satisfeitos do Ateneu. Cá fora, inúmeros estudantes participavam de uma sessão fotográfica de final de curso, enquanto nós seguíamos rumo ao nosso próximo destino, o Palácio do Parlamento. Pelo caminho passámos por dois belos espaços verdes, dois dos vários que vimos em Bucareste (alguns com quilómetros de extensão), primeiro o jardim Cismigiu e, depois, o parque Izvor. Reparámos em muitos jovens fumando, sobretudo cigarros eletrónicos.

Quando chegámos ao Parlamento visitámos uma exposição de arte moderna patente no Átrio. Teria sido possível fazermos uma visita guiada ao interior do Parlamento, mas em horário incompatível com o nosso programa, pelo que decidimos não realizar a visita, que só poderia ocorrer umas horas mais tarde. (Quem quiser visitar o Parlamento romeno, o melhor que tem a fazer é comprar antecipadamente os ingressos pela internet). Em vez disso, seguimos por uma bela alameda para a Praça Unirii, a qual, infelizmente, estava encerrada para obras.

Gostaríamos que a nossa estadia tivesse coincidido com a presença de Garry Kasparov em Bucareste. Admiramo-lo enquanto xadrezista, mas também enquanto intransigente defensor do Mundo Livre.

Continuámos então para o nosso próximo destino, caminhando pela Splaiul Independentei, adjacente ao monumental edifício do Palácio de Justiça, construído em 1890, cruzando depois o rio Dâmbovita e acabando por entrar na Cidade Velha, a zona mais turística de Bucareste. Chegámos, enfim, à bonita livraria que procurávamos, toda pintada de branco no interior, ocupando um edifício inteiro com vários pisos — a Carturesti Carusel — que percorremos demoradamente.

Na mesma rua da livraria e em outras circundantes há vários bares com esplanadas pejadas de turistas. (Haveríamos de voltar no dia seguinte a um deles). Entre os turistas em Bucareste, reparámos que há muitos italianos, talvez devido aos voos de low-cost entre os dois países, mas, de qualquer modo, o turismo na Roménia, quando comparado com o dos países europeus do quadrante ocidental, ainda é incipiente. Depois da Carturesti Carusel, seguimos para a Macca Passage, que não merece o destaque que lhe atribuem, daí este breve referência — de passagem. Pareceu-nos mais interessante o café típico onde parámos depois — o Scovergaria Micai — sobetudo pelos doces e salgados de fabrico próprio, mas também pela oportunidade que tivemos de descansar um pouco após horas de caminhada. As funcionárias deste café, vestidas com trajes típicos, são extremamente simpáticas e prestativas.

A nossa última refeição em Bucareste foi no Grand Café Van Gogh.

Continuando o nosso caminho de volta para o apartamento, ainda passámos por outra livraria, não tão vistosa como a Carusel, mas igualmente bela, plena de livros interessantes, nas suas várias salas, e com preços bastante acessíveis. Trata-se da Antic ExLibris, uma jóia para os amantes da leitura, com muitos livros interessantes em língua inglesa. Finalmente, houve ainda tempo de passarmos, já no fim do dia, por um mercado de produtos locais, ao ar livre, bem perto do nosso alojamento; não comprámos nada, pois já tínhamos bolinhos de bacalhau preparados para o jantar.

No dia seguinte, após o pequeno-almoço, saímos com alguma nostalgia da nossa casa emprestada por dois dias, no último minuto antes do limite para o check-out, às 11 horas. Divagámos de novo pelo centro da cidade, até que decidimos almoçar no Grand Café Van Gogh, novamente na Cidade Velha. Foi uma excelente opção. Comemos uns incríveis ovos benedict com aspargos sobre pão francês (fabrico próprio) e uma panqueca americana com xarope canadiano natural, e frutos frescos. Estava tudo delicioso, até o café. Depois deste almoço relaxante, deslocámo-nos lentamente até a praça Unirii, onde apanhámos o autocarro para o aeroporto, que se arrastou através do tráfego intenso. Tivemos bastante tempo no aeroporto para recordar os melhores momentos passados em Bucareste, uma vez que o nosso voo para Heráclio, em Creta, descolou com duas horas de atraso. Foi bom conhecer Bucareste.

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