A Queda dos Machos

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Pio Abreu, um psiquiatra politicamente incorreto.

Não podemos generalizar. Mas no que toca ao mundo socialmente mais desenvolvido – e quanto à igualdade de género, Portugal é um país relativamente desenvolvido – as mulheres têm ganhado cada vez mais poder. São a maioria nas faculdades, nos tribunais, nas redações, etc. E embora estejam ainda em larga minoria nos lugares de topo, dominam em todo a linha as chefias intermédias (Pio Abreu acredita que aí reside o verdadeiro poder). Este movimento de emancipação e domínio femininos iniciou-se a partir do surgimento da pílula, nos anos sessenta do século passado, e pode dizer-se, sem risco de errar, que a pílula libertou a mulher. O reverso da medalha é que esta rápida mudança deixou muitos homens perdidos, sem capacidade de adaptação.

O antagonismo entre biologia e cultura foi acentuado pela emancipação da mulher. Verificou-se um afastamento crescente entre ambas, percecionável pelo protagonismo excessivo e crescente das ciências humanas (onde as mulheres são maioritárias) relativamente às suas homónimas naturais. Ora, este afastamento não é benéfico. Provoca tensões, antagonismos, radicalismos e, nos homens, muita insegurança relativamente à sua identidade heterossexual (obviamente, quando é o caso). Isso é notório nos jovens de hoje (mas não só), cada vez mais perdidos em relacionamentos virtuais ou, pura e simplesmente, indiferentes ao sexo (sobretudo ao sexo oposto), como mostra uma pesquisa realizada no Japão em 2015. Mais de 40% dos jovens japoneses entre os 18 e os 34 anos não tinha tido ainda relações sexuais[1].

Esta questão identitária é deveras importante[2].  A integração numa família, num círculo de amigos, num país, numa cultura, etc., são partes constitutivas da nossa identidade. E também existe, obviamente, uma identidade de género. Ora, o que acontece é que essa identidade, no que toca à masculinidade, está posta em causa. “Existe actualmente toda uma cultura, difundida pelas universidades, que, por um lado, pretende a abolição das identidades de género, mas por outro propõe várias outras identidades, incluindo lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e, evidentemente, feministas, mas onde não se pode falar de machistas, contra os quais todos se opõem”[3].

É precisamente essa identidade de “homem masculino heterossexual” que Pio Abreu assume neste livro, contra o “mainstream cultural” do presente, representativo, em sua opinião, de uma sociedade “enferma”, cujos indícios dificilmente se podem ignorar: a baixa natalidade (metade de há 30 anos), o isolamento dos idosos, a fraqueza dos laços familiares, a instabilidade das relações, amorosas ou de outro tipo qualquer. As manifestações de histeria (e a histeria não tem género, a não ser na gramática) a propósito da recente “revolta” de algumas vedetas puritanas em Hollywood tornam a posição de Pio Abreu e este seu livro ainda mais atuais.

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Notas:

[1] https://g1.globo.com/mundo/noticia/por-que-os-jovens-japoneses-estao-cada-vez-menos-interessados-em-sexo.ghtml.

[2] “Os grande problemas do mundo contemporâneo, senão todos os problemas humanos, têm a ver com a identidade. É por ela que se vive, se mata e se morre” (p. 14).

[3] p. 16.

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Foto retirada de: ionline.sapo.pt

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A nossa edição:

“A Queda dos Machos”, J. L. Pio Abreu, Dom Quixote, Alfragide, 2016.

 

O Cérebro Idiota

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A faceta cómica do neurocientista Dean Burnett transparece em cada página de Idiot Brain.

Certamente não será novidade afirmar que o cérebro é um órgão extremamente complexo. Afinal, é “como um rolo de luzinhas da árvore de Natal do tamanho do universo conhecido”. A sua história é também muito antiga, remonta pelo menos ao tempo dos répteis, a avaliar pela designação de uma das suas partes mais importantes: “o cérebro reptiliano”, responsável, por assim dizer, pelas funções básicas e de manutenção. Em contrapartida, o neo-cortex assegura as suas funções mais ativas (e mais recentes), como a atenção, a consciência, a perceção, o racíocínio, etc.

A colaboração entre estas partes do cérebro – uma muito antiga e outra relativamente mais recente – nem sempre é a melhor, e essa é uma das duas grandes razões do “comportamento” estranho que, na expressão de Burnett, torna o nosso “cérebro idiota”. A outra grande razão, ligada à anterior, deve-se à diferença de ritmos, verificada nos últimos milénios, entre os hábitos dos humanos – que mudaram muito rapidamente, graças à cultura – e o seu cérebro que, em termos evolutivos, se mantém inalterável.

Por outro lado, como é evidente, o cérebro não trabalha sozinho. Faz parte, com a espinal medula, do sistema nervoso central e conta com a colaboração do sistema nervoso periférico (somático e autónomo) para manter os nossos corpos em correto funcionamento. É esse funcionamento, controlado pelo sistema nervoso, e em última análise pelo cérebro, que é analisado neste livro. E, claro, as suas falhas. O último capítulo é dedicado, precisamente, aos colapsos cerebrais: as depressões debilitantes, o Alzheimer, os distúrbios psicóticos. E apesar de tudo, para lá da ironia adjacente ao título da obra, podemos retirar-lhe a conclusão de que o nosso cérebro, pese embora os desajustes, é uma máquina maravilhosa, sobre cujo funcionamento temos ainda muito que aprender. O cérebro condenado à autoanálise.

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Foto retirada de: http://www.cbc.ca

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A nossa edição:

“O Cérebro Idiota” Dean Burnett, Editorial Presença, Lisboa, 2017.

Armas, Germes e Aço

jared diamond
Jared Diamond tem uma larga experiência académica e também junto de comunidades remotas, nomeadamente na Nova Guiné.

Por que razão o mundo está estruturado (grosso modo) desta maneira: um Ocidente desenvolvido, um Oriente em desenvolvimento e um “terceiro mundo”, em África? As razões prendem-se quase exclusivamente com questões ambientais, e muito pouco com a genética. Há razões climáticas, geográficas, demográficas, geológicas, para que as primeiras civilizações tivessem nascido numa determinada zona do globo (Mediterrâneo e Levante) e, por isso, permitissem que os povos da Eurásia tivessem ganhado uma vantagem inicial, importante e significativa, relativamente a povos de outras zonas (como a Austrália, o continente africano ou as Américas). Essa vantagem inicial veio a refletir-se na colonização moderna. Não foi por acaso que os povos da Eurásia colonizaram outros povos, dando origem à globalização, em vez de ocorrer o inverso.

Civilizações avançadas, como os aztecas ou os incas, foram exterminadas por um punhado de europeus porque, além de não possuírem armas de fogo, estavam indefesas relativamente a armas muito mais mortíferas – os vírus de doenças epidémicas, como as varíola e sarampo, aos quais os europeus eram imunes. Porquê? Porque já tinham sido vítimas de vírus do mesmo tipo e ganhado imunidade (pelo menos até que uma nova estirpe surgisse). Na verdade, os povos da Eurásia reuniram as duas condições básicas para que tal tivesse acontecido: a) convívio com animais domesticados dos quais receberam os vírus; b) populações suficientemente grandes para que, apesar de uma percentagem muito grande de mortes, muitos, ainda assim, ganhassem imunidade.

E este convívio com os animais só foi possível porque na Eurásia existiam espécies domesticáveis (ao contrário do que as pessoas podem pensar, a maioria não o é), na fauna local, mas também na flora, o que não ocorria em outras zonas do globo. A Eurásia tinha também (ainda tem, mas isso hoje é irrelevante) outra vantagem relativamente aos restantes continentes: estende-se em longitude e não em latitude como acontece em África e na América (onde existem diferenças climáticas extremas, desde o Equador aos Pólos). Essa extensão longitudinal, permitiu que as deslocações humanas se realizassem com maior facilidade e, através delas, o intercâmbio e a difusão, não apenas de produtos materiais, mas, o que é mais importante, de conhecimentos científicos e técnicos.

Diamond conclui, assim, que as diferenças de desenvolvimento se prendem com as vantagens e desvantagens iniciais determinadas pelo ambiente, num período histórico de grande transformação (agricultura–> sedentarização–> crescimento e concentração populacionais–> cidades–> cultura) e não com quaisquer diferenças entre as potencialidades genéticas de povos ou raças, as quais, em termos cognitivos, são insignificantes. E esta talvez seja a principal conclusão deste excelente livro (vencedor de um Prémio Pulitzer, em 1998) do não menos excelente Jared Diamond.

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A nossa edição:

“Armas, Germes e Aço – Os Destinos das Sociedades Humanas”, Jared Diamond, Editora Temas e Debates – Círculo de Leitores, 1ª edição, Lisboa, 2015.

Sapiens, de Animais a Deuses

sapiens
A ciência será talvez a arma com a qual a nossa espécie provocará a sua própria destruição. Eis a inquietação principal subjacente a este livro de Yuval Harari.

Yuval Noah Harari é um académico e historiador israelita que, na esteira de Jared Diamond, aborda a história humana de uma perspetiva holística, reunindo conhecimento de várias ciências, como a biologia, a sociologia, a economia e a psicologia evolutiva, entre outras. É isso que faz em Sapiens, Uma Breve História da Humanidade, a sua obra mais conhecida (um bestseller), não incluindo, porém, no vasto leque de disciplinas, aquela que poderia “colar” todas as outras num todo homogéneo: a filosofia (particularmente, a filosofia da ciência, ou epistemologia, sem a qual, dificilmente, qualquer obra que reúna várias ciências poderá constituir uma unidade). Temos, pois, um conjunto de informações, algumas de indiscutível interesse (e que, sem dúvida, revelam a erudição do autor), e uma linha pessimista, bastante popular, que acredita na degenerescência humana, desde os tempos da chamada “Revolução Cognitiva” até os dias de hoje. O futuro do novo e autocriado “homem-deus” apresenta-se, assim, sombrio.

Resumamos, em breves pontos, as informações e interrogações de Harari.

  1. Os biólogos organizam os organismos em espécies; as espécies são reunidas em géneros[1]; e os géneros são englobados em famílias[2]. Dois animais pertencem à mesma espécie se tenderem a acasalar entre si, dando origem a crias férteis. Neste sentido, o homo sapiens é uma espécie única, mas isto é assim apenas desde há cerca de 10 mil anos. Antes disso havia mais espécies humanas (o verdadeiro significado de “humano” é o de “espécie pertencente ao género Homo“), como por exemplo, os neandertais, os desinovas, os ergasteres, os solensis ou os erectus. O conhecimento científico atual aponta para que os sapiens tenham exterminado as outras espécies homo, apesar de uma percentagem muito pequena de misturas. Depois, uma mutação terá impossibilitado a reprodução entre o sapiens e os outros homo.
  2. Uma das principais características da nossa espécie é a criação de mitos[3]. Essa criação de mitos – de ficções – permitiu-nos fazer revoluções culturais, provocando alterações sociais profundas, só possíveis às outras espécies através de alterações genéticas ou ambientais. O sapiens, através da cultura, ultrapassou a genética. A capacidade ficcional, por sua vez, permitiu aos sapiens colaborarem entre si. Os mitos e os símbolos são o motivo pelo qual milhares ou mesmo milhões de sapiens se reúnem num mesmo local. Isso não acontece com qualquer outra espécie. Esta cooperação entre os seres humanos é fundamental para o avanço científico, tecnológico, político, social, cultural, e constituiu a base da chamada Revolução Cognitiva, iniciada há cerca de 70 mil anos. Depois disso deu-se a Revolução Agrícola, há 12 mil anos; a Revolução Industrial, há 500 anos; e estamos a viver hoje em plena Revolução Científica (digital, genética, etc.).
  3. Antes da Revolução Agrícola éramos caçadores-recoletores. Os psicólogos evolutivos acham que a nossa mente atual se formou nesse período. É por isso que devoramos alimento doces e gordurosos, uma praga nos tempos modernos, mas que constituía o único meio de sobrevivência, além da caça, nos tempos de recoleção: ficou gravado nos nossos genes o instinto de devorar alimentos calóricos. Há também psicólogos evolutivos que acreditam que a nossa tendência para a poligamia se deve ao facto de as sociedades primitivas crerem que as mulheres eram fertilizadas por vários homens e que as crianças podiam nascer com as melhores qualidades de cada um deles. Para estes cientistas, proponentes da “comuna ancestral”, as nossas famílias monogâmicas são incompatíveis com o software biológico que carregamos. Outros académicos rejeitam veementemente esta teoria, frisando que a nossa tendência para a monogamia, uma das mais importantes características humanas, é praticamente universal.
  4.  O sapiens-recoletor tinha um vasto conhecimento sobre o ambiente em que vivia, muito mais que o sapiens atual. Existem provas de que o tamanho médio do nosso cérebro diminuiu desde os tempos da recoleção. Fisicamente, éramos também mais dotados que atualmente. Hoje em dia, dado que passámos a depender muito mais da capacidade dos outros, formam-se novos “nichos de imbecis”, com a transmissão de genes banais à geração seguinte. Os recoletores tinham uma dieta mais rica e variada que os seus descendentes agrícolas. Tinham também menos doenças infecciosas, pois estas surgiram apenas com a domesticação de animais, depois de se iniciar a revolução agrícola. O único animal domesticado nos tempos da recoleção era o cão.
  5. Os recoletores eram animistas, mas pouco mais podemos saber sobre as suas mentes. Interpretações sobre artefactos e pinturas rupestres revelam mais os preconceitos dos cientistas do que a realidade. Esta é uma importante lacuna na nossa compreensão da história humana. Seriam os recoletores pacíficos ou violentos? O mais provável é que a resposta dependa do local e da época, mas, na verdade, não se sabe. Há uma cortina de silêncio que nos separa desses 60 mil anos de história humana, anteriores à Revolução Agrícola.
  6. Só a partir da Revolução Cognitiva é que os seres humanos saíram da região afro-asiática. A primeira grande travessia marítima foi até a Austrália, há cerca de 45 mil anos, a partir da Indonésia. O momento em que os caçadores-recoletores pisaram pela primeira vez uma praia australiana, foi quando o homo sapiens subiu ao último patamar da cadeia alimentar, tornando-se, a partir daí, a espécie mais mortífera do planeta. A fauna australiana era constituída por animais de grande porte, sobretudo mamíferos, mas o sapiens conseguiu destruí-la em 90%. O mesmo aconteceu na Nova Zelândia, há 800 anos, quando os maoris, os primeiros colonizadores sapiens, chegaram à ilha; ou quando os primeiros sapiens chegaram à ilha de Wrangel, no Ártico, há 4.000 anos, e exterminaram os mamutes.
  7. Os registos históricos indicam que o homo sapiens é, em termos ecológicos, um homicida em série, tal como provou, igualmente, na América, o último continente colonizado, e por todo o lado. E isto aconteceu em todos os períodos históricos, sobretudo nas áreas terrestres. No entanto, hoje em dia também os grandes animais marinhos se encontram em perigo, graças à ação humana. É duvidoso que baleias, golfinhos, algumas espécies de tubarões e outros animais marinhos escapem à extinção.
  8. A agricultura terá começado entre 9.500 e 8.500 a.C. na zona que corresponde ao atual Sudeste da Turquia, o Oeste do Irão e do Levante, e, mais tarde, de forma independente, noutros locais. Houve zonas do globo onde a agricultura não vingou naquela época, nomeadamente na Austrália e na África do Sul, simplesmente porque há plantas e animais (na verdade, a maioria) que não são domesticáveis. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, a agricultura não trouxe uma maior qualidade de vida, apesar do aumento da produção de alimentos (sobretudo, trigo) e do exponencial aumento da população. A sedentarização não constituiu, por si só, uma vantagem, e a dieta do sapiens tornou-se mais pobre, embora mais abundante. As colheitas ficaram sujeitas a epidemias e a espécie humana também, sobretudo devido ao convívio com os animais domésticos. Não houve, assim, um salto qualitativo com a passagem da sociedade recoletora para a sociedade agrícola. E hoje já se sabe, com a descoberta das estruturas de Göbekli Tepe, no Sudeste da Turquia, que algumas sociedades recoletoras tinham culturas complexas e sistemas religiosos ou ideológicos sofisticados.
  9. Do ponto de vista dos animais, a sua vida a partir da Revolução Agrícola foi uma catástrofe. Embora nunca tenha havido um número tão grande de galinhas (25 mil milhões), bois, porcos e ovelhas como hoje, a verdade é que a vida destes animais é um verdadeiro inferno. O mesmo se passa com os animais de carga, cujos instintos naturais tiveram que ser quebrados para possibilitar a domesticação. A Revolução Agrícola marca o início de um período extremamente controverso; há quem defenda que colocou a humanidade no caminho do progresso, e outros dizem que a conduziu à perdição.
  10. A Revolução Agrícola, permitiu a sedentarização, a criação de grandes urbes e os impérios. O primeiro grande império foi o acadiano, forjado por Sargão, o Grande, em 2.250 a.C.; só depois, entre 1.000 a.C e 500 d.C, terão surgido os mega-impérios do Médio Oriente: o Império Assírio tardio, o Império Babilónico e o Império Persa. Em 221 d.C. a dinastia Qin uniu a China e, pouco depois, Roma unificava a bacia do Mediterrâneo. Os mitos sustentavam estes impérios. O exemplo de um mito é o Código de Hammurabi, de há cerca de 1776 a.C., quando a Babilónia era a maior cidade do mundo, juntamente com o seu império (Irão, Iraque e Síria atuais). Outro, a Declaração de Independência americana, de 4 de julho de 1776. Os mitos passaram a difundir-se com uma eficácia muito maior a partir da invenção da escrita.
  11. Tudo começou com os números sumérios. Depois desenvolver-se-iam as escritas cuneiforme (na Mesopotâmia) e hieroglífica (no Egito), e outras na China e na América Central. No entanto, a especialização tornou a linguagem matemática a mais universal, após os árabes inventarem os números de 0 a 9 que, na verdade, haviam descoberto na Índia.
  12. Parece haver um sentido para a História, pelo menos a avaliar o que tem acontecido no passado, ou seja, uma tendência para a unificação. Praticamente já não existem sociedades isoladas; há uma tendência clara para a globalização (iniciada pelos euroasiáticos – mas também por partes do Norte de África), como por exemplo, as viagens do tangerino Ibn Battuta, ainda no século XIV. Hoje em dia, a maioria dos seres humanos partilham os mesmos sistemas geopolítico e económico, legal e científico. Isto nasce, talvez, de uma peculiar faceta humana: dar-se com estranhos, cooperar, ter uma noção da espécie, da humanidade. Isto só foi possível após deixarmos de considerar aqueles que pensam de forma diferente da nossa como bárbaros.
  13. Foi no primeiro milénio antes de Cristo que surgiram três ordens potencialmente universais: monetária (económica), imperial (política) e religiosa. Os primeiros unificadores foram os mercadores, os conquistadores e os profetas. Mas o que unificou a humanidade, acima de todas as coisas, foi o dinheiro. A tendência é para o dinheiro ser cada vez mais imaterial, um mero registo num servidor de um banco. O dinheiro físico (em papel) não representa mais do que 10% (10 biliões de dólares) do total (60 biliões) em circulação. O dinheiro virtual será o futuro e um bom exemplo é o bitcoin. “O dinheiro é o mais universal e eficiente dos sistemas de confiança mútua alguma vez criados”. A primeira moeda que, de alguma forma, se assemelha ao conceito de moeda que temos hoje em dia foi criada na antiga Mesopotâmia – o shekel de prata – que, de facto, não era uma moeda mas, simplesmente, 8,33 gramas de prata. Só por volta de 640 a.C. apareceram as primeiras moedas cunhadas, no reino de Aliates da Lídia, na Anatólia Ocidental. Todas as moedas hoje existentes são descendentes destas moedas da Lídia.
  14. Depois da moeda, o maior fator de união entre os povos foram os impérios. “A maior parte da população mundial nos últimos 2.500 anos viveu sob um império”. Há uma certa aversão à palavra “império”, talvez apenas “fascista” a supere em negatividade. Mas isto é injusto e não corresponde à realidade. Imperadores generosos, como Ciro, preocupavam-se genuinamente com o povo. Além disso, os impérios são, sem dúvida, mais integradores que os estados-nação, e opõem-se de múltiplas formas ao nacionalismo. A visão de Ciro foi passada para Alexandre, o Grande, e para vários imperadores romanos, entre outros. Na China, os períodos de fragmentação política eram vistos como idades das trevas, de caos e injustiça. Parece já ter começado um império global onde dominarão padrões mundiais de comportamento financeiro, políticas ambiental e de justiça. Crescentes correntes de informação, trabalho e capitais circulam já pelo mundo, indiferentes a fronteiras e estados.
  15. Além do dinheiro e dos impérios, a religião tem sido, também ela, um fator de união da humanidade. Ou desunião. As religiões monoteístas revelar-se-iam bem menos tolerantes (em geral) que as suas antecessoras politeístas e, antes destas, animistas. Há também que considerar, ainda hoje, alguns resquícios de religiões dualistas (o duelo entre as duas forças universais – Bem e Mal), sobretudo a veiculada pelo profeta Zaratustra, entre 1500 e 1000 a.C. Existem, depois, as religiões baseadas nas leis da Natureza, sendo destas a mais conhecida, o Budismo. E, claro, as religiões não-teístas, como o marxismo e outras religiões “humanistas” como o liberalismo e o nazismo (o “humanismo evolutivo”)[4].
  16. Até à Revolução Científica, a maioria das culturas não acreditava no progresso; achavam que a idade de ouro se encontrava no passado. Hoje não é assim: há uma confiança desmedida nas possibilidades científicas e técnicas (áreas que até há uns meros 300 anos estavam separadas), sendo o projeto mais ambicioso o chamado “Projeto Gilgamesh”, através do qual, supostamente, o homem atingirá a eternidade. Mas como foi possível chegarmos a este ponto? Através da combinação, na Europa oitocentista e mesmo antes, de três elementos essenciais: ciência, capitalismo e imperialismo. Os imperialistas levaram a destruição consigo – como foram os casos de Cortés, em relação aos aztecas[5], e Pizarro sobre os incas – mas também o conhecimento: vejam-se os casos dos britânicos Henry Rawlinson e William Jones.
  17. O oficial britânico Henry Rawlinson, enviado para a Pérsia em 1830, haveria de decifrar a escrita cuneiforme e, assim, abrir uma nova luz sobre o mundo antigo. E William Jones, chegado à Índia em 1783, fundou, pouco depois, a Sociedade Asiática, acabando por descobrir, ao estudar o sânscrito antigo, a origem comum das chamadas línguas indo-europeias. Claro que os académicos quiseram saber que povo falava essa língua original; chegaram à conclusão de que os mais antigos falantes de sânscrito, que tinham invadido a Índia a partir da Ásia Central há mais de 3.000 anos, se autodenominavam Arya. O povo que falava essa língua primordial, que dera origem a todas as línguas indo-europeias, era, portanto, o povo ariano. Não demorou muito até que alguns biólogos, sob a influência de Darwin, afirmassem que os arianos eram também uma raça, casando a linguística com a seleção natural. Esse povo “puro”, de indivíduos altos, louros, de olhos azuis, inteligentes e trabalhadores, ter-se-ia, infelizmente, misturado com os indianos e persas, aquando das suas incursões para Sul. Enquanto ali as civilizações indianas e persas declinaram, na Europa, onde a raça ariana se manteve intacta, a civilização progrediu. Os resultados destas teorias são por demais conhecidos…
  18. Se estas questões relacionadas com as raças estão de certa forma ultrapassadas, há que contar, atualmente, com um outro tipo de discurso xenófobo, o “culturalismo”: não são as raças que são superiores ou inferiores, mas sim as culturas. É por isso que a extrema-direita explora o discurso da inadaptação de certos povos aos nossos valores ocidentais (democracia, direitos humanos, liberdade, tolerância, etc.).
  19. Como vimos, a ciência e o capitalismo estiveram na base do imperialismo moderno. E o capitalismo só se desenvolveu porque a ciência trouxe consigo a ideia de progresso, de confiança no futuro. Antes da ideologia capitalista pensava-se que a riqueza era sempre a mesma, apenas mudava de mãos: para uns ficarem mais ricos, outros tinham de ficar mais pobres. Com a confiança no progresso e no crescimento, isto deixou de ser assim. Para alguém ficar mais rico não é necessário que outrém fique mais pobre. A principal característica do capitalismo é o reinvestimento dos lucros da produção em mais produção. Podemos caracterizar esquematicamente da seguinte forma o capitalismo: confiança –> crédito –> crescimento.
  20. Os primeiros grandes especialistas em crédito foram os holandeses. Criaram companhias por ações, como a VOC, no Oriente, e a WIC, no Ocidente[6], as quais só perderam as imensas riquezas quando a Holanda se viu envolvida na “complacência” e em dispendiosas guerras continentais. O lugar vago de motor financeiro da Europa foi então disputado por França e Inglaterra. Face ao comportamento da coroa francesa, bem patente no episódio que ficou conhecido por “A Bolha do Mississipi”[7], quem aproveitou este lugar vago foi a Inglaterra. A decadência francesa, o elevado pagamento de juros, haveria de ser a principal causa da revolução de 1789. Tal como aconteceu como os holandeses, também as colónias britânicas foram financiadas por investidores privados, os quais, mesmo depois das nacionalizações das colónias, quer pelo estado holandês, quer pelo estado britânico, continuaram, na prática, a controlar a situação e a deter a maioria das ações nas bolsas de Londres e de Amesterdão, podendo contar com o Estado para defender os seus interesses.
  21. Exemplos dessa defesa são incontáveis: a Guerra do Ópio (1840-1842), quando a China foi obrigada pela Inglaterra a abrir os seus portos aos comerciantes de droga britânicos e, no final do século XIX, acabou com 10% da sua população viciada no ópio; a invasão do Egito pelos ingleses em 1882, para controlo do Canal de Suez, que durou até depois da II Guerra Mundial; a intervenção da armada britânica na guerra entre gregos e turcos, derrotando os otomanos na batalha de Navarino, em 1827; e tantos outros acontecimentos semelhantes, que reforçaram o papel imperial da Grã-Bretanha no século XIX. Foram, portanto, os próprios Estados que protegeram e difundiram o credo capitalista.
  22. O motor do capitalismo é a confiança no futuro. Mas o que acontecerá quando os recursos do planeta (matérias-primas e energia) se esgotarem?
  23. Antes da Revolução Industrial todos os seres vivos eram abastecidos pela energia solar captada pelas plantas. A grande revolução foi, na verdade, a da conversão da energia, a qual praticamente não conhece limites, a não ser a nossa ignorância. Mas onde a Revolução Industrial mais se fez sentir foi na agricultura, libertando as pessoas da terra e aumentando exponencialmente as produções agrícola e pecuária. O homem começou a selecionar as espécies, privilegiando os animais domésticos e a si próprio, e provocando a extinção de muitas outras espécies. No entanto, as mudanças provocadas pelo homem no planeta poderão conduzir à extinção da sua própria espécie. Será que as grandes transformações provocadas pelo homem têm contribuído para uma maior felicidade humana?
  24. A felicidade não depende de fatores externos a nós, mas da bioquímica de cada indivíduo, dos níveis de serotonina, dopamina e oxitocina. O budismo, porém, vai mais longe: a felicidade não depende fatores externos, mas também não depende de fatores internos. Depende de não buscarmos nada, nem interna nem externamente; de não criarmos qualquer expectativa. No entanto, a busca por uma vida melhor e mais longa levou-nos a usar a engenharia genética, e corremos o risco de transformar o sapiens numa espécie até agora desconhecida, através de tecnologias como a engenharia ciborgue, combinando a vida orgânica com a vida inorgânica. A tecnologia pode levar-nos ao desconhecido, transformando-nos em deuses criadores, algo inimaginável até há muito pouco tempo. É muito duvidoso que estejamos preparados para essa tarefa divina.

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Notas:

[1] O nosso género é o “homo”.

[2] A nossa família é a dos “grandes símios”. Todos os membros de cada família têm um ancestral comum.

[3] Para Yuval Noah Harari, um dos maiores mitos do sapiens, criado já na época capitalista, é a sociedade anónima limitada.

[4] Embora entendamos a intenção de Harari, dado que certas ideologias são verdadeiras religiões criadas pelo Homem, apelidá-las de “humanistas” parece-nos, se não incorreto, pelo menos desnecessário.

[5] E também toltecas e maias.

[6] VOC- Vereenigde Oostindische Compagnie; WIC- West-Indische Compagnie.

[7] A “Bolha do Mississipi” ocorreu em França e constituiu a maior crise financeira na Europa do século XVIII. A Companhia do Mississipi, uma sociedade por ações, fez correr a notícia de que havia riquezas imensas no Vale do Mississipi e rapidamente o preço das ações atingiu níveis astronómicos, formando uma enorme bolha. Quando alguns especuladores perceberam o problema procuraram vender, o que induziu muitos outros a fazer o mesmo. O preço das ações caiu a pique, provocando uma avalanche. Numa tentativa para estabilizar os preços, o banco central francês começou a comprar ações, mas a derrocada total já era inevitável. No fim, as ações perderam todo o valor. Os grandes investidores haviam vendido a tempo, mas o pequenos perderam tudo e muitos suicidaram-se. 

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Foto retirada de youtube.com.

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A nossa edição:

“Sapiens: História Breve da Humanidade”, Yuval Noah Harari, Editora Elsinore, 9ª impressão, Amadora, 2017.

 

A Construção de Jesus

Tolentino (1)
O quadro Le Repas de Simon, de Philippe Lejeune, serviu para ilustrar a capa deste excelente livro  de Tolentino Mendonça.

Conhecíamos Tolentino Mendonça das crónicas do “Expresso”, que lemos, semana a semana, religiosamente; agora conhecemo-lo também por este magnífico livro. Trata-se de uma versão abreviada e adaptada da sua tese de doutoramento em Teologia Bíblica, defendida em 2004[1]. Foi mantido o título – A Construção de Jesus – e alterado o subtítulo para A Surpresa de um Retrato. Ambos são felizes, pois se adequam perfeitamente ao que podemos ler nas cerca de duzentas páginas desta obra de excelência.

A partir de um episódio do evangelho lucano, cujos protagonistas são Jesus, um fariseu de nome Simão e uma inominada pecadora, Tolentino Mendonça parte, à boleia da narrativa de Lucas, para a descoberta da (ou de uma) identidade de Jesus, a qual se mostra, de facto, surpreendente. Quanto a nós, o livro revela três aspetos essenciais da vida de Cristo: a condição de Messias; o apego aos pecadores e o poder de perdoá-los; e o anúncio da salvação através da fé. Transcrevamos o episódio em causa narrado por Lucas, intitulado O perdão gera o amor (Lc. 7, 36-50).

Certo fariseu convidou Jesus para uma refeição em casa. Jesus entrou em casa do fariseu e pôs-Se à mesa. Apareceu então certa mulher, conhecida na cidade como pecadora. Ela, sabendo que Jesus estava à mesa na casa do fariseu, levou um frasco de alabastro com perfume. A mulher colocou-se por detrás, chorando aos pés de Jesus; com as lágrimas começou a banhar-Lhe os pés. Em seguida, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e ungia-os com perfume. Vendo isso, o fariseu que havia convidado Jesus pensou: “Se este homem fosse mesmo um profeta, saberia que tipo de mulher Lhe está a tocar, porque é pecadora”. Jesus disse então ao fariseu: “Simão, tenho uma coisa a dizer-te”. Simão respondeu: “Fala, Mestre”. “Certo credor tinha dois devedores. Um devia-lhe quinhentas moedas de prata e o outro devia-lhe cinquenta. Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?” Simão respondeu: “Acho que é aquele a quem ele perdoou mais”. Jesus disse-lhe: “Julgaste bem”. Então Jesus voltou-Se para a mulher e disse a Simão: “Vês esta mulher? Quando entrei em tua casa, não Me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, banhou-Me os pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não Me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não deixou de Me beijar os pés. Não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu-Me os pés com perfume. Por esse razão Eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque demonstrou muito amor. Aquele a quem foi perdoado pouco, demonstra pouco amor”. E Jesus disse à mulher, “Os teus pecados estão perdoados”. Então os convidados começaram a pensar: “Quem é este que até perdoa pecados?” Mas Jesus disse à mulher: “Salvou-te a tua fé. Vai em paz!

O que é verdadeiramente extraordinário, em muitos autores antigos, é a sua invulgar capacidade narrativa. Aqui deixamos este belíssimo texto no Dia de Páscoa do ano 2017[2].


Notas:

[1] o título da tese é “A Construção de Jesus. Uma leitura narrativa de Lc. 7,36-50”. Foi publicada na coleção de teses da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e na editora Assírio & Alvim.

[2] De acordo com Tolentino Mendonça, Shusaku Endo (1923-1996), um romancista japonês, autor do Silêncio, um livro que deu origem ao recente filme homónimo de Martin Scorsese, teve influência sobre a abordagem de Tolentino a este texto lucano, tal como o próprio nos diz na “Abertura”: “Devo ter ouvido antes este episódio dezenas de vezes, mas o que me fez caminhar para ele intrigado, perfeitamente movido pelo espanto, foi um comentário do romancista japonês Shusaku Endo, no seu livro Uma Vida de Jesus (…). Ora, o que Shusaku Endo defende é que a peripécia da pecadora intrusa, que faz tudo para tocar naquele hóspede, é um momento central do Evangelho de Lucas, mais eficaz na transmissão de Jesus do que muitos outros, inclusive do que as histórias de milagres, porque dá de Jesus, precisamente pelo efeito de realidade, uma imagem viva, surpreendente e real. Confesso que tive um sobressalto e senti que tinha de compreender melhor o que o romancista sugeria.” E entretanto também nós fizemos nos últimos tempos um trajeto que se aproxima dos autores referidos por Tolentino e até a ele próprio. Da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto seguimos para o volume, publicado pela Universidade do Minho, intitulado Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no Mundo, e para um dos artigos nele publicados – Os Caminhos Malditos da Projecção de Portugal no Mundo: O Caso de Cristóvão Ferreira, de M. Augusta Lima Cruz (aqui). Depois continuámos para o Silêncio, de Shusaku Endo, antes de chegarmos a esta Construção de Jesus, de José Tolentino Mendonça, que nos conduziu a uma revisitação da Bíblia. Caminhos como este – caminhos sem fim que, algures, sempre acabam por se cruzar com outros – tornam a vida mais rica, doce e surpreendente.

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A nossa edição:

“A Construção de Jesus, a Surpresa de um Retrato”, José Tolentino Mendonça, Editora Paulinas, 2ª edição, Prior Velho, 2015.

 

Keynes – Uma Teoria Útil à Economia Mundial

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John Maynard Keynes.

Quando após a Primeira Guerra Mundial, França e Inglaterra impuseram à Alemanha, além de outras sanções, o pagamento do esforço de guerra que tinham realizado (incluindo os empréstimos que tinham pedido aos Estados Unidos), o mundo entrou numa gravíssima crise económica, da qual sairia apenas depois de terminada a II Guerra Mundial. Antes da Grande Guerra, no início do século XX, a Alemanha era já o país mais industrializado da Europa e o seu grande motor económico. Ao passar, no espaço de meia década, de um país rico a um país devedor, esse papel ficou comprometido. A Alemanha viu-se obrigada a valorizar a sua moeda para saldar a pesada dívida que a obrigaram a contrair, e isto provocou uma inflação crescente, que nem dois avultados empréstimos dos Estados Unidos conseguiram estancar. No final dos anos vinte, a Alemanha deparou-se com uma hiperinflação e os Estados Unidos entraram em profunda recessão. Keynes tinha avisado que isto poderia acontecer na sua obra As Consequências Económicas da Paz, onde alertava para os graves perigos do desequilíbrio mundial causado pelas sanções à Alemanha.

Keynes pensou na melhor forma de resolver o problema causado por um mundo em depressão. A solução encontrada por Keynes foi a de propor uma política expansionista, levada a cabo pelo Estado, para reanimar a economia. Isto contrariava o que acontecera logo após a Primeira Guerra Mundial (e o que acontece hoje na Europa). Grandes investimentos públicos – estradas, caminhos-de-ferro, portos, aeroportos, hospitais, escolas – para criar emprego, aumentar o consumo interno, fazer subir os preços, criar condições para o investimento privado e assim dinamizar por dentro o crescimento, até a produção começar a crescer e por essa via crescerem também as exportações, e assim se atingir um novo equilíbrio. De acordo com Keynes, fazer o ajustamento por via de cortes salariais não era solução. Isso não permitiria que os preços subissem e não contribuiria para que as empresas contratassem mais pessoas.

Por desenvolver uma resposta inovadora ao enorme desemprego resultante da Grande Depressão, Keynes inaugurou uma nova disciplina económica – a macroeconomia. O desemprego não é determinado pelo nível dos salários, mas pelo nível de produção e, em última análise, a nível mundial, resulta do Paradoxo da Poupança, da contração geral das economias. É geralmente aceite que se deve à aplicação no terreno das ideias de Keynes a retoma económica que ocorreu, sobretudo, após a II Guerra Mundial e que se prolongou por décadas. Esse período ficou conhecido como era keynesiana, um período entrecortado com algumas crises financeiras localizadas, sobretudo na década de setenta, mas sem a dimensão da anterior Grande Depressão nem da grave crise económica que afeta hoje a União Europeia, particularmente os países do Sul pertencentes à zona-euro. Estes abdicaram da prerrogativa de desvalorizarem as suas moedas, ao aderirem à moeda-única, e isto, na prática, resulta no mesmo que voltar à rigidez do padrão-ouro. Nestas condições, é muito difícil que estes países endividados consigam cumprir as suas obrigações financeiras.

De acordo com David Vines e Peter Temin, a resposta adequada está ainda em Keynes. É preciso que as economias mais fortes, nomeadamente a Alemanha, adotem políticas expansionistas, induzindo as economias mais fracas, nomeadamente a Grécia, Portugal, Espanha e Itália, a exportarem mais, investirem mais, criarem emprego e riqueza. Só assim poderão equilibrar-se. Como todos sabemos, esta visão é muito polémica. A Europa está dividida entre a visão keynesiana e a dos liberais e monetaristas que acham que os países endividados têm de emagrecer ainda mais, mesmo que esse emagrecimento implique o fim do Estado Social, tal como o conhecemos, um Estado Social que não podemos sustentar sem endividamento excessivo. Polémicas à parte, certo é que será necessário que os nossos países passem muitos anos a exportar mais do que importam para pagar à Alemanha. Mas para onde exportar o que é necessário se todos os países querem também exportar mais do que importam? Para a situação mudar é imperioso ultrapassar este Paradoxo da Poupança, mas não se vislumbra, com os atuais políticos europeus, que isso possa acontecer.

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A nossa edição:

“Keynes – Uma Teoria Útil à Economia Mundial”, Peter Temin & David Vines, D. Quixote, 1ª edição, Lisboa, 2015.

A Ilusão da Memória

Julia Shaw
A jovem psicóloga canadiana Julia Shaw.
  1. A memória é maleável. Com o passar do tempo incorpora interesses, preferências, sonhos, experiências diversas e modifica-se, podendo transformar completamente um acontecimento passado, falseando-o, quer este tenha sido (emocionalmente) marcante ou banal. Muitas das nossas memórias são falsas, mesmo aquelas (talvez sobretudo essas) que nos parecem extremamente claras.
  2. Vários estudos confirmam amplamente que a grande maioria de nós considera-se mais inteligente (ou mais culta, ou mais sábia, ou mais talentosa) que a média, algo que, logicamente, se traduz numa impossibilidade estatística, pois não pode haver uma maioria acima (ou abaixo) da média. O que realmente acontece é que quase todos somos afetados por algo muito comum: o pretensiosismo. Os mais presunçosos são também, como seria de esperar, os mais confiantes. Porém, uma maior confiança na própria memória não significa que esta seja mais exata, antes pelo contrário.
  3. A ciência é sempre preferível à pseudociência, e os cientistas são sempre mais interessantes que os charlatães (profetas, iluminados, lunáticos, etc.). Por exemplo, a hipnose é uma treta: ninguém consegue recordar coisas de quando era pequenino ou de qualquer outra fase da vida através da hipnose.
  4. Por falar em ciência e pseudociência, o sinónimo mais aproximado para “Freud” é… “fraude”.
  5. Há muitas capacidades mnemónicas espetaculares, como indivíduos capazes de memorizar uma quantidade impressionante de dados, outros extremamente dotados para recordar rostos e outros ainda com uma excelente memória fotográfica (eidética), mas isso, ao contrário do que possa parecer, não é bom. Muitos autistas, por exemplo, não conseguem relacionar-se socialmente e, no entanto, alguns deles são hipertimésicos (savants), isto é, têm uma capacidade de memória incrivelmente superior à dos indivíduos comuns.
  6. As capacidades excecionais são, portanto, muito menos importantes que o equilíbrio. A memória funciona por associação e cada conceito ou imagem ativa um nódulo cerebral, que por sua vez ativa outro e assim sucessivamente até muitos nódulos se ligarem e formarem memórias mais complexas. Pensa-se que o hipocampo (situado, sensivelmente, no meio do cérebro) seja o responsável pela formação destas redes, em tempo real; e cada vez que recordamos criamos uma nova memória diferente da anterior, sendo influenciados de múltiplas formas quer no momento em que algo acontece, quer nos momentos em que recordamos esse acontecimento.
  7. A plasticidade do nosso cérebro, a capacidade que detém para fazer associações, não permite que as memórias sejam impermeáveis, pelo contrário, elas são suscetíveis a todo o tipo de influências. Porém, é graças a essa plasticidade que também conseguimos aprender, relacionar, criar. Jamais seríamos humanos se não tivéssemos um cérebro altamente equilibrado e relacional.
  8. O saudável equilíbrio está ligado a racionalidade e a independência. Somos seres paradoxais, dotados de uma racionalidade frágil, muitas vezes eclipsada pelas emoções e pela necessidade de pertença a grupos – turmas, escolas, clubes de futebol, bairros, partidos, nações, igrejas, etc -, o que nos leva a aceitar a irracionalidade, quase sempre sem darmos conta disso. O mundo passa a dividir-se entre nós, os bons, e os nossos rivais, os maus. (Quem quiser aprofundar este tema pode procurar um excelente livro, publicado em 2008: Previsivelmente Irracional: as forças ocultas que formam as nossas decisões, do americano Dan Ariely).
  9. É por isso que muitas vezes relutamos em contrariar alguém de um determinado grupo ou quadrante – porque temos a clara noção de que seremos imediatamente catalogados como pertencentes ao grupo ou quadrante rival. Por exemplo, se criticamos uma ideia vinda da direita é porque somos um perigoso esquerdista, e vice-versa. Ser membro fervoroso de um grupo torna-nos radicais e retira-nos a capacidade de entendermos o pensamento independente, mesmo que este constitua, como de facto acontece, a única atitude racional.
  10. Finalmente, só conseguiremos aproximar-nos de um pensamento independente se formos críticos. Mais exatamente, autocríticos. Somos seres flexíveis e influenciáveis: a racionalidade absoluta não existe e a independência completa também não. Mas mantendo-nos autocríticos poderemos ter, em momentos mais ou menos importantes, uma atitude menos irracional (e menos presunçosa, também). Isto pode parecer pouco relevante, mas talvez não seja: a racionalidade é a única forma de, no mundo, alcançarmos a paz.

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Foto retirada de: http://www.vice.com

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A nossa edição:

“A Ilusão da Memória”, Julia Shaw, Círculo de Leitores, 1ª edição, Lisboa, 2016.