Inconclusivo

Steven Koonin e o seu livro Unsettled, divulgado neste artigo. (Foto retirada de: https://clintel.org/fact-checking-steven-koonins-fact-checkers/). A opinião pública mainstream considera que as alterações climáticas provocadas pelo homem são uma realidade que não merece contestação. Steven Koonin mostra que, cientificamente, a influência humana sobre o clima está longe de estar estabelecida. É real, mas também muito difícil de avaliar e medir.

O texto que se segue baseia-se no livro de Steven E. Koonin, Unsettled – What Climate Science Tell Us, What it Doesn’t, and why it Matters, publicado em abril de 2021 (ainda não editado em Portugal) e, em linha com os restantes artigos da categoria “Livros”, é uma síntese deste importante e extremamente atual ensaio científico, contendo, em algumas passagens, citações literais (traduzidas por nós), não podendo, em consequência, ser considerado um texto crítico, antes um artigo de divulgação. Os títulos dos capítulos que se seguem são, inclusive, literalmente transpostos desta obra de Steven Koonin, um físico teórico do Caltech, especialista em clima e energia, e um dos mais conceituados cientistas americanos. Mãos à obra.

**************************************************

Introdução

Apesar de ser verdade que o globo está numa fase de aquecimento, e que os humanos têm alguma influência nisso, sobretudo através da queima de combustíveis fósseis, não é possível confirmar cientificamente, antes pelo contrário, as notícias alarmistas que os media veiculam quase todos os dias, anunciando um desastre ecológico. A ciência climática envolve muitos campos científicos diferentes, abrangendo a física quântica das moléculas; a física clássica do ar em movimento, água e gelo; os processos químicos na atmosfera e nos oceanos; a geologia da terra sólida; e a biologia dos ecossistemas. O estudo climático também comporta o uso de tecnologias sofisticadas, incluindo a criação de modelos nos computadores mais rápidos do mundo, controlo remoto de satélites, análise paleoclimática (que estuda os climas antigos), e métodos estatísticos avançados. Finalmente, temos ainda as áreas relacionadas com a ciência climática – política, economia, e tecnologia energética – focadas na redução das emissões de gases com efeito de estufa. Este enorme leque de conhecimentos e metodologias fazem da ciência climática e energética a mais avançada, e também a mais complexa, atividade científica multidisciplinar.

As mais importantes avaliações sobre o clima vêm dos relatórios produzidos pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change) das Nações Unidas, criado em 1988. O IPCC (manteremos ao longo do artigo os acrónimos em inglês) produziu o seu primeiro relatório de avaliação em 1990; o quarto relatório (denominado AR4) foi emitido em 2007; o quinto (AR5) em 2013, e o sexto (AR6) em 2021.1 O setor fundamental na elaboração de cada relatório é o chamado “Grupo de Trabalho I” (WG I), que lida com os aspetos físicos do sistema climático, particularmente as alterações observadas em décadas recentes, e com a forma como o clima responde às influências naturais e humanas. Outros grupos de trabalho baseiam-se nas avaliações do WG I para descrever os impactos de um clima em mudança e a resposta da sociedade a esses impactos. Cada grupo de trabalho prepara também um Resumo para Decisores Políticos (SPM – Summary for Policymakers); uma síntese de todos os setores é também publicada. Além da série de relatórios de avaliação (AR), o IPCC também publica relatórios especiais mais restritos, como sejam “Eventos Extremos”2, “O Oceano e a Criosfera”3, ou “Alterações Climáticas e Terra”4.

ExpressãoProbabilidade
Virtualmente certo (Virtually certain)99-100% de probabilidade
Muito provável (Very likely)90-100% de probabilidade
Provável (Likely)66-100% de probabilidade
Tão provável como não provável (About as likely as not)33-66% de probabilidade
Improvável (Unlikely)0-33% de probabilidade
Muito improvável (Very unlikely)0-10% de probabilidade
Excecionalmente improvável (Exceptionally unlikely)0-1% de probabilidade
Escala de probabilidade de IPCC e expressões utilizadas nos relatórios de avaliação (AR).

O governo dos Estados Unidos também emite, independentemente, a sua série de relatórios de avaliação. A Lei de Pesquisa sobre Alterações Globais, de 1990, requer uma Avaliação Climática Nacional (NCA – National Climate Assessment) a cada quatro anos. Esses relatórios são produzidos pelo Programa de Pesquisa sobre Alterações Climáticas dos Estados Unidos (USGCRP)5. Os relatórios da NCA têm, em larga medida, os mesmos propósitos dos ARs do IPCC, embora com um foco maior sobre os Estados Unidos. O conteúdo das NCAs alinha-se, geralmente, com o dos ARs, mas podem ocorrer diferenças de ênfase e linguagem. As três primeiras NCAs foram publicadas em 2000, 2009 e 2014. A quarta, NCA 2014, compreende dois volumes. O volume I, focado na ciência climática física, foi publicado em novembro de 2017, tal como o “Relatório Especial sobre Ciência Climática” (CSSR – Climate Science Special Report)6. O volume II, publicado em novembro de 2018, trata dos impactos e riscos de um clima em mudança, bem como da forma como nos podemos adaptar a essas mudanças7. A quinta NCA é esperada em 2023.

Os AR e NCA são desenhados e revistos por processos semelhantes. A entidade patrocinadora (o IPCC ou o USGCRP) seleciona equipas de especialistas para cada capítulo dos relatórios. Essas equipas produzem esboços sucessivos que são melhorados em resposta a comentários de outros peritos; a NCA também se submete a uma revisão formal levada a cabo por um painel convencionado pelas academias nacionais americanas. O processo completo demora anos. Por exemplo, a primeira reunião dos autores responsáveis pelo AR6 teve lugar em junho de 2018, cerca de três anos antes da data prevista para publicação do relatório. Os relatórios de avaliação apresentam a ciência a não especialistas. Dada a quantidade enorme de autores e de revisões, qualquer leitor poderá, naturalmente, esperar que os relatórios de avaliação e os resumos da literatura de pesquisa são completos, objetivos, e transparentes – o “padrão ouro”. De acordo com Koonin, os relatórios vão de encontro a essa expectativa, e o próprio livro que Koonin escreveu é, em grande parte, baseado neles. Mas uma leitura atenta da maioria dos mais recentes relatórios de avaliação também revela algumas falhas elementares que enganam ou desinformam os leitores em pontos importantes. Quais são essas falhas, como surgiram, como os media as aceitam e divulgam, e o que pode ser feito para as corrigir constitui uma outra dimensão da história da ciência, que importa contar.

Isto mostra que as coisas são bastante mais complexas do que geralmente se pensa. Há, por exemplo, algumas conclusões retiradas dos relatórios de avaliação, quer os das agências governamentais dos Estados Unidos, quer os do IPCC que poderão surpreender muitas pessoas, e que contrariam as manchetes alarmantes e sensacionalistas que quotidianamente vemos na comunicação social. Eis algumas delas.

  • As ondas de calor nos Estados Unidos não são mais comuns agora do que eram em 1900.
  • As temperaturas mais elevadas não subiram nos últimos 50 anos nos Estados Unidos.
  • Os seres humanos não tiveram impacte detectável sobre os furacões nos últimos cem anos.
  • O lençol de gelo da Gronelândia não está a encolher, hoje, mais rapidamente do que há 80 anos.
  • O impacte económico global das alterações climáticas induzidas pelo homem será mínimo, pelo menos até ao final deste século.

1- O que se sabe sobre o aquecimento

Uma vez que o clima é definido por médias relativas a muitos anos, ele muda gradual e lentamente. É necessário, pelo menos, uma década de dados para se definir um clima, e duas ou três décadas mais para identificar uma mudança. Isto está, muitas vezes, para além da memória humana e, por isso, precisamos de registos para não nos equivocarmos. Porém, o que conquista a atenção popular são os eventos extremos, como tempestades e ondas de calor, embora o seu número e intensidade variem de ano para ano e seja a sua média, extraída ao longo de décadas, o que define o clima. A tendência de subida da temperatura tem causas diversas. Uma delas relaciona-se com a) a variabilidade interna do sistema climático – fluxos e refluxos durante décadas, maioritariamente associados às correntes lentas dos oceanos; depois, há b) os fenómenos naturais, como mudanças na luminosidade solar, que forçam (influenciam), por sua vez, mudanças no sistema climático; e, finalmente, de grande interesse para nós, há c) as mudanças e tendências que podem ocorrer devido às atividades humanas.

É de realçar que o termo “alterações climáticas” induz a muitas confusões. A convenção-quadro das Nações Unidas define assim “alterações climáticas”: … uma mudança no clima, atribuída direta ou indiretamente à atividade humana, que altera a composição da atmosfera ao nível global, a qual, em conjunto com a variabilidade natural observada durante períodos comparáveis…8

Esta definição exclui explicitamente as alterações devidas a causas naturais e consubstancia, hoje, o entendimento comum sobre o termo. Desta forma, quando as pessoas ouvem falar de “alterações climáticas”, assumem que se trata de alterações provocadas pelo homem. Paradoxalmente, ou não, a Terra arrefeceu um pouco entre 1940 e 1980, embora a atividade humana tenha aumentado, e é por isso vital perceber porque isso aconteceu, para percebermos também qual é efetivamente a influência humana e que mudanças poderão ocorrer no futuro. Por outro lado, o aquecimento global nos últimos 40 anos não é uniforme. A superfície terrestre aquece mais rapidamente que a superfície dos oceanos e as altas latitudes perto dos polos estão a aquecer mais rapidamente que as baixas latitudes perto do equador. Em geral, as temperaturas mais frias (à noite, durante o inverno, etc.) estão a subir mais rapidamente que as temperaturas mais quentes – o clima está ficando mais suave à medida que o globo aquece.

É claro que há outras coisas importantes para o clima, para além das mudanças de temperatura na superfície ou mesmo mudanças na atmosfera. De facto, a atmosfera é uma parte relativamente menor de um muito maior e mais complexo sistema que inclui a água (oceanos, lagos, etc.), neve e gelo, em terra e no mar, a terra sólida, e coisas vivas (micróbios, plantas, animais e humanos). Os oceanos, cuja profundidade média é de 3.700 metros, são a parte mais importante e mais problemática do sistema climático da Terra. Eles detêm mais de 90% do calor climático e são a sua memória de longo prazo. As condições na atmosfera variam, de dia para dia e de ano para ano, em resposta a um grande número de influências. Os oceanos, por seu turno, mudam, e respondem a mudanças, em décadas ou séculos.

Não é fácil recolher dados úteis dos oceanos para avaliar as alterações climáticas, mas a situação melhorou muito a partir do ano 2000, com a criação do programa Argo9 – robôs à deriva nos oceanos para registarem as suas propriedades – que atingiu cobertura global em 2005, com cerca de 3500 em atividade, operando a 1 km de profundidade, mas descendo de 10 em 10 dias a 2 km, para medirem a temperatura e a salinidade, subindo depois à superfície para transmitirem os dados via satélite, antes de regressarem à sua posição normal a 1 km de profundidade. Apesar da dificuldade em recolher dados nos oceanos antes do Argo, é possível dizer que, de facto, os oceanos têm vindo a aquecer, embora muito modestamente (centésimas de grau por década), logo, o planeta também. É difícil, porém, avaliar a influência humana nesta tendência, uma vez que a subida é constante, mesmo em épocas de menor atividade humana, como sejam os anos entre 1921 e 1946.

Há 20 mil anos a Terra começou a aquecer (cerca de 5º) o que permitiu, desde há 10 mil anos, um rápido desenvolvimento da civilização. Desde há milhões de anos, a Terra alterna períodos de rápido aquecimento com períodos de lento arrefecimento. Estas variações são devidas a pequenas alterações da órbita da Terra em torno do Sol e na inclinação do eixo terrestre. O mais recente período de aquecimento, antes do atual, começou há cerca de 127 mil anos e durou 20 mil anos. Nessa altura a superfície terrestre era até 2º-3º mais quente do que é hoje. Em suma, a questão não é a de saber se a Terra está a aquecer – o que é afirmativo – mas saber qual a influência que os humanos têm nesse aquecimento – o que é difícil de avaliar.

Fraca Influência Humana

A temperatura da Terra resulta do balanço entre o aquecimento devido à luz solar e o arrefecimento derivado do calor irradiado para o espaço. Do lado do aquecimento temos a energia solar que o planeta absorve. À medida que aquece, a Terra emite radiação infravermelha para o espaço, o que aumenta a parte de arrefecimento do balanço. A lei Stefan-Boltzmann, descoberta por volta de 1880 por dois físicos a trabalhar na Áustria, diz-nos que a quantidade de radiação infravermelha que um objeto emite aumenta com a temperatura, de uma forma proporcional e bastante precisa. Assim, à medida que a temperatura do planeta aumenta devido ao aquecimento solar, o arrefecimento devido à radiação infravermelha emitida também aumenta, até o arrefecimento infravermelho ser igual ao aquecimento solar. O termo técnico para esta condição goldilock – quando o planeta não ganha nem perde energia e a sua temperatura é estável – é radiative equilibrium.

Olhemos mais atentamente para ambos os lados deste balanço. Uma vez que a Terra não é completamente negra, ela absorve apenas 70% da luz solar que a atinge. Aos 30% refletidos chama-se albedo, (do latim albus, que quer dizer “branco”). Quando o albedo é mais elevado, a Terra reflete mais luz solar e por isso fica um pouco mais fria e, claro, quando o albedo é mais fraco, a Terra absorve mais luz solar e, logo, fica mais quente. Apesar da média do albedo terrestre ser de 30%, o valor do mesmo num determinado momento depende de que parte da planeta está virada para o Sol (os oceanos são escuros, a parte terrestre é mais brilhante, as nuvens mais brilhantes ainda, e a neve e o gelo são ainda mais brilhantes), e a média mensal varia cerca de 0,01 com as estações (maior em março e menor em junho/julho). A precisão com que se mede o albedo é importante para compreendermos o sistema climático. Se o albedo médio aumentasse de 0,30 para 0,31, devido, por exemplo, a um aumento de 5% da nebulosidade, essa reflexividade adicional compensaria largamente a influência de um aumento para o dobro do CO2 presente na atmosfera.

Existem satélites que medem o albedo, mas há um projeto da JASON que pretende cobrir todo o globo com pequenos satélites para que se consiga medir o albedo com maior precisão. Um método mais antigo, mas ainda assim muito interessante, foi usado por André Danjou, um astrónomo francês, no início dos anos de 1930. Consistia em, através de um filtro apropriado, detetar o brilho da luz solar que incide na Terra, refletida na parte escura da Lua, quando esta está em quarto crescente. Compreender as mudanças da luz, refletida da Terra, na Lua pode ser muito útil para estudar outros planetas que orbitam outras estrelas, os quais são visíveis pela luz que refletem.10

Conhecendo o albedo da Terra (a média do globo e os ciclos diários e sazonais), poderemos determinar o seu equilíbrio de temperatura, através do balanço entre a luz solar absorvida contra o arrefecimento dos infravermelhos. Como vimos, o arrefecimento aumenta ao mesmo tempo que a temperatura aumenta – se a Terra ficar mais quente, os infravermelhos libertam mais calor – funcionando como uma espécie de termostato. Calcular o valor deste equilíbrio – a temperatura média da superfície terrestre – constitui o problema básico de qualquer curso sério dedicado ao clima. Esse valor é de -18ºC (0ºF). Mas este valor está errado, muito abaixo de verdadeiro valor médio global de temperatura, que é de 15ºC (59ºF). O que falta é o isolamento provocado pelos gases com efeito de estufa presentes na atmosfera, os quais fazem subir a temperatura da superfície terrestre para o valor observado. Os gases com efeito de estufa funcionam como as roupas isolantes que os exploradores dos polos terrestres usam. Impedem o calor de sair, e os infravermelhos são impedidos de viajar para o espaço.

Os gases mais comuns presentes na atmosfera terrestre são o nitrogénio (78%) e o oxigénio (21%). Juntos, eles constituem, portanto, 99% da atmosfera seca, e devido às peculiaridades das suas estruturas moleculares, o calor passa facilmente através deles. A maior parte do restante 1% é o gás inerte árgon. Mas, embora ainda menos abundantes, alguns dos outros gases – sendo os mais significativos o vapor de água, o dióxido de carbono, o metano, o óxido nitroso e o ozono – intercetam, em média, cerca de 83% do calor emitido pela superfície terrestre11. Destes gases, o que mais contribui para o efeito de estufa é o vapor de água (+ de 90%), depois, o dióxido de carbono (7%) e, finalmente, todos juntos, metano ozono e óxido nitroso, entre outros, com mais ou menos 3%.

Desde 1750, a concentração de dióxido de carbono aumentou de 0.000280 ppm (partes por milhão) até 0.000410 ppm em 2019, continuando a crescer 2.3 ppm a cada ano. Embora a maior parte da concentração de CO2 seja natural, não há dúvida de que este crescimento resulta da atividade humana, sobretudo da queima de combustíveis fósseis. O aumento de CO2 faz com que o efeito de estufa seja maior e a fração de calor intercetado, que era em 1750 de 82,1%, é hoje de 82,7%. Se duplicássemos a concentração de CO2 de 1750, que como vimos era de 280 ppm, isso resultaria numa concentração de 560ppm, a qual aumentaria a capacidade de interceção do calor para 83,2% (isto em condições de céu limpo, porque as humidade, temperatura, nebulosidade, entre outras, têm influência sobre o calor intercetado). Um tal aumento corresponderia apenas a um incremento de 2,8 moléculas de CO2 por 10 mil moléculas de ar.

A primeira questão que aqui se coloca é a de saber como é que um aumento de menos de 3 moléculas em 10.000, ou seja, um aumento de apenas 0,03%, provoca um aumento 30 vezes maior (1%) na interceção do calor libertado pela Terra em forma de radiação infravermelha. Isto acontece porque a radiação é emitida e dispersada em diferentes comprimentos de onda. Pensemos nestes comprimentos de onda como “cores”, embora não captáveis pelos nossos olhos. O vapor de água, o mais importante gás para o efeito de estufa, interceta apenas algumas cores, mas porque bloqueia quase cem por cento destas, acrescentar mais vapor de água à atmosfera não tornará o isolamento mais forte – seria como acrescentar uma camada a uma janela já pintada de preto. Mas isto não acontece com o dióxido de carbono. Esta molécula interceta algumas cores que o vapor de água não atinge, o que quer dizer que poucas moléculas de CO2 podem ter um efeito muito maior (como uma primeira demão de preto numa janela não pintada).

No entanto, embora o efeito da concentração atual de CO2 seja importante (7,6%), a sua duplicação não altera substancialmente as coisas (um aumento de 0,8%) devido ao efeito de “pintar uma janela preta”, já referido. Isto leva-nos à segunda questão. Porque é que um aumento tão modesto, de cerca de 1%, pode ter tanta importância? Acontece que os modelos do IPPC nos dizem que a duplicação dos níveis de CO2 desde os tempos pré-industriais – causando a mudança de 1% na interceção do calor, já discutida atrás – deve aumentar a temperatura da superfície terrestre em cerca de 3ºC (5,5ºF). Uma vez que a temperatura média da superfície terrestre é de 15ºC (59ºF), um aumento de 3ºC representa um aumento de 20% (3ºC em 15ºC). Mas, na escala Fahrenheit, esta mudança é de 5,5ºF, retirada da média de 59ºF, um aumento de 10%. Ora, porque é que a percentagem de subida da temperatura depende da escala que usamos? Como pode uma subida de 1% na captura de calor produzir um tal efeito colateral?

O problema está mesmo na escala que usamos, seja a de Celsius ou a de Fahrenheit, ambas adstritas às propriedades da água – que gela a 0ºC (32ºF) e ferve a 100ºC (212ºF). Ora, a lei Stefan- Boltzmann que, como vimos, descreve a relação entre o calor irradiado pela Terra e a sua temperatura, baseia-se em temperaturas absolutas, que são medidas pela escala de Kelvin, adstrita ao zero absoluto – a temperatura em que a matéria está tão fria que não emite qualquer calor (0K = -273,15ºC ou 459,67ºF). Assim, a temperatura média da superfície terrestre é de 15ºC (59ºF) a que correspondem 288K. A uma subida de 3ºC (5,5ºF) corresponde uma subida de 3K (as escalas Celsius e Kelvin têm intervalos iguais), o que, sobre 288, dá o valor correto de 1% na capacidade de a atmosfera intercetar o calor quando a concentração de CO2 é duplicada. Deste modo, na escala apropriada, a influência humana revela-se muito modesta.

Mas nem todas as influências humanas provocam aquecimento. Os aerossóis, por exemplo, são finas partículas na atmosfera que refletem a luz solar e formam nuvens refletivas. Juntamente com alterações nos terrenos, com a desflorestação (pastagens são mais refletivas que florestas) aumentam o albedo e exercem uma influência para o arrefecimento que anula cerca de metade do aquecimento provocado pelos gases com efeito de estufa. Causas naturais, como os vulcões, que lançam aerossóis para a atmosfera, onde podem permanecer durante vários anos, também contribuem para o arrefecimento. Mudanças na intensidade solar (originadas pela sua variabilidade interna) podem também alterar a quantidade de luz solar que atinge a Terra. Tudo isto torna complicado avaliar as dimensões natural e humana no que diz respeito ao delicado equilíbrio energético do planeta. A maior influência humana sobre o sistema climático prende-se com a emissão de gases com efeito de estufa. Mas a relação entre essa emissão e a influência que ela tem no clima é mais complicada do que se poderia imaginar.

Emissões Explicadas e Extrapoladas

Dos gases com efeito de estufa que sofrem influência da atividade humana, os mais importantes são o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4). Apesar do nosso foco estar centrado na redução de emissões, a correspondência entre concentração e emissão não está, de forma alguma, bem estabelecida. A emissão de CO2 pelos humanos é modesta, no contexto do ciclo natural de carbono que se move sobre a crosta terrestre – oceanos, plantas e atmosfera. Como veremos, o aumento de CO2 provocado pelo homem aumentará, sob qualquer cenário, durante décadas. Mas, apesar da precisão reclamada pelos modelos climáticos, o seu impacto é largamente incerto.

Comecemos pelo princípio. A Terra foi formada há 4,5 mil milhões de anos, com uma dotação fixa de carbono. Esse carbono encontra-se hoje em diversos locais no planeta, nos chamados “reservatórios”. O maior reservatório é de longe a crosta terrestre, que contém quase todo o carbono do planeta, cerca de 1,9 mil milhões de gigatons (1 gigaton, Gt, são mil milhões de toneladas). A segunda maior quantidade, cerca de 40 mil Gt, está nos oceanos, quase todo abaixo da superfície. Há também cerca de 2.100 Gt armazenados nas terras, solos e coisas vivas, e 5.000-10.000 Gt em combustíveis fósseis debaixo dos fundos terrestres e marinhos. Os 850 Gt de carbono presente na atmosfera, quase todo na forma de dióxido de carbono, corresponde a cerca de 25% do carbono presente na, ou perto da, superfície terrestre (em solos, plantas e oceanos pouco profundos), mas representa apenas 2% do carbono presente nos oceanos.

Poderosos processos naturais movimentam o carbono terrestre entre esses reservatórios, transformando frequentemente a sua fórmula química. O mais importante destes processos é o fluxo sazonal de cerca de 1/4 do carbono da atmosfera para as plantas em crescimento – que usam a fotossíntese para transformar o CO2 da atmosfera em matéria orgânica, que depois regressa à atmosfera através da respiração das plantas e à medida que essa matéria orgânica decai. Outros processos bastante mais lentos transportam o carbono da superfície para as profundezas dos oceanos e depois transformam-no em rochas, tais como calcário e mármore, formadas a partir de conchas de animais marinhos.

O CO2 emitido através da queima de combustíveis fósseis altera o equilíbrio deste grande ciclo anual, uma vez que o carbono é retirado das profundezas dos solos onde estava isolado através deste processo natural. O uso de combustíveis fósseis aumenta em 4,5% o carbono que circula no ciclo anual. Cerca de metade deste aumento é absorvido pela superfície terrestre (a subida de CO2 fez aumentar bastante a vegetação do planeta) e o remanescente fica na atmosfera, aumentando por esta via a concentração de CO2. Há 5 linhas independentes que provam a influência humana no aumento da concentração de CO2 nos últimos 150 anos, por isso nenhum cientista contesta essa influência:

  • as concentrações ao longo dos últimos 10 mil anos variaram entre 260 e 280 ppm, antes de uma forte subida ter ocorrido em meados do século XIX.
  • esta subida é o que seria expectável pela queima de combustíveis fósseis.
  • esta subida é antecipada em 2 anos no hemisfério norte, onde a queima de combustíveis fósseis é maior, relativamente ao hemisfério sul.
  • a subida do carbono é de um tipo de carbono “leve” 12C, presente nos seres vivos, cujos restos são, como se sabe, os constituintes dos combustíveis fósseis.
  • o oxigénio está a diminuir – embora muito levemente e sem consequências para os humanos – em proporção correspondente ao necessário para transformar o carbono fóssil em CO2.

No entanto, a concentração de CO2 já foi muitíssimo maior do que a que existe hoje. Apenas no período permiano, há 300 milhões de anos, o nível de CO2 era idêntico ao de hoje. De resto, foi sempre muito superior, e apenas há cerca de 175 milhões de anos começou a decrescer até ao século XIX. Nessa altura, em que os níveis de CO2 eram cinco ou dez vezes superiores aos de hoje, a vida de plantas e animais era florescente. Mas eram animais e plantas diferentes. A vida na Terra está agora adaptada a baixos níveis de CO2. O dióxido de carbono é o único gás com efeito de estufa provocado pelo homem com larga influência no clima. E motiva preocupação porque persiste no ciclo atmosfera/superfície terrestre por muito tempo. 60% do CO2 que é produzido hoje permanecerá na atmosfera por mais 20 anos; 30% a 50% permanecerá por um século; e entre 15 a 30% manter-se-á na atmosfera mais de mil anos. Isto quer dizer que pequenas reduções na emissão de CO2 apenas abrandarão o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, mas não o anulam. Para estabilizar essa concentração, e consequentemente a sua influência no aquecimento terrestre, teríamos de parar por completo as emissões.

O metano é o segundo gás com efeito de estufa mais importante, no que diz respeito à influência humana. Tem vindo a subir consistentemente desde o início dos anos 80 do século XX, embora um “planalto”, entre 1998 e 2008, intrigue os cientistas e constitua mais uma incerteza no seio da ciência climática. Mas a subida do metano vem de muito mais longe, pelo menos desde há 4 mil anos. As principais diferenças entre o metano e o CO2 são as seguintes.

  • O metano tem uma concentração na atmosfera muito menor (2.000 partes por bilhão – mil milhões em português – enquanto o CO2 tem cerca de 400 partes por milhão).
  • O metano dura apenas 12 anos na atmosfera, embora, depois disso, reações químicas o convertam em CO2.
  • Devido às peculiaridades de como as moléculas interagem com as diferentes cores da radiação infravermelha, cada molécula adicional de metano na atmosfera é 30 vezes mais potente do que a molécula de CO2 no que diz respeito ao efeito de estufa.

As principais fontes de metano na atmosfera são os gases emitidos pelo gado, através da fermentação interna nos seus corpos (29%)12; petróleo e gás (20%); cultivo de arroz (10%); águas residuais (9%); estrume, mineração de carvão, decaimento de materiais em aterros, entre outros.

O futuro do clima terrestre será determinado pela resposta climática, quer à influência humana quer à influência natural, quer à sua variabilidade interna. Vulcões, o Sol e as correntes oceânicas profundas têm mentes próprias, tal como o clima em si mesmo. Quanto a isto, podemos fazer pouco, mas podemos ter uma noção sobre o que os humanos farão nos próximos anos, particularmente no que diz respeito às emissões de gases com efeito de estufa e aerossóis. Face às grandes incertezas sobre as décadas que aí vêm, em vez de fazer previsões credíveis, o IPPC cria cenários que têm o nome complicado de Representative Concentration Pathways ou, simplesmente, RCPs. Um ponto principal a retirar de qualquer cenário é que a influência humana continuará a crescer no curto prazo, mesmo que cessem na totalidade as emissões. Em suma, não é só difícil isolar a influência humana dentro do complexo sistema climático, mas também a relação entre emissões e concentrações na atmosfera torna extremamente difícil moderar as nossas influências.

Muitos modelos confusos

Para tentarem perceber como as coisas se vão desenrolar, os cientistas criam em computador os seus famosos modelos. Mas o que são exatamente os modelos climáticos? A resposta curta é que são programas de computador que correm sob simulações matemáticas do sistema climático. Tal como o estatístico George Box, da universidade de Wisconsin, disse em 1978: Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis. Um problema básico dos modelos climáticos é deduzível das dificuldades atuais das previsões meteorológicas, que não conseguem uma precisão superior a 15 dias, apesar de serem hoje muito mais precisas do que eram há 30 anos. Este problema fundamental foi descrito em 1961 por Ed Lorenz, do MIT. O tempo é caótico e pequenas alterações ao modo como iniciamos o nosso modelo podem conduzir a predições muito diferentes após poucas semanas. Então, não importa quão acuradamente podemos especificar as condições presentes, a incerteza das nossas predições cresce exponencialmente à medida que as projetamos no futuro. Computadores mais poderosos não podem ultrapassar esta incerteza básica.

Todos os modelos climáticos computorizados começam através da cobertura da atmosfera com uma rede tridimensional, tipicamente dez a vinte camadas de caixas empilhadas acima da rede de superfície, em quadrados de 100X100 quilómetros. A rede que cobre os oceanos é semelhante, mas menor, tipicamente 10X10 quilómetros, e mais camadas verticais (até 30 camadas). Com a totalidade da Terra coberta desta forma, há cerca de um milhão de caixas desta rede para a atmosfera e 100 milhões de caixas para o oceano. Uma vez estabelecida esta rede no terreno, os modelos de computador usam as leis da Física para calcular como o ar, água e energia em cada caixa, num dado momento, se movem para as caixas de rede vizinhas, um pouco mais tarde; este lapso de tempo pode ser tão curto quanto dez minutos. Repetindo este processo milhões de vezes, simula-se o clima para um século (pouco mais de 5 milhões de vezes se o lapso de tempo for de 10 minutos). Estes inúmeros lapsos de tempo numa simulação podem dar trabalho, mesmo ao mais poderoso computador do mundo, durante meses. Os investigadores podem alternar entre estes diferentes fatores, dependendo do propósito do modelo em questão. Um dos desafios maiores destes modelos é que apenas usam valores únicos para a temperatura, a humidade, etc., para descrever as condições no interior de uma caixa de rede.

No entanto, vários fenómenos importantes ocorrem numa escala menor do que os 100 kms (60 milhas) das caixas, tais como montanhas, nuvens e trovoadas, e por isso os investigadores têm de construir sub redes para construírem um modelo completo. Por exemplo, fluxos de luz solar e de calor através da atmosfera são influenciados pelas nuvens. Estas desempenham um papel crucial – dependendo do tipo e formação, as nuvens refletem a luz solar ou intercetam o calor, em quantidades variáveis.

Então, porque não construir caixas mais pequenas? Infelizmente, isso iria aumentar dramaticamente a dimensão da computação, desde logo porque teríamos muito mais caixas de rede com que lidar. Mas, além do número de caixas, uma rede mais fina introduz um outro problema: a computação só será acurada se as coisas não mudarem demasiado dentro de um lapso de tempo (ou seja, se não se moverem para lá de uma única caixa de rede). Assim, se a rede for mais fina, o lapso de tempo tem igualmente de ser menor, exigindo mais tempo de computação. Para ilustrarmos isto, uma simulação que dure dois meses para uma rede de 100 kms quadrados, levaria mais de um século se usássemos uma rede de 10 kms quadrados. Este tempo poderia ser reduzido para os mesmos dois meses se tivéssemos um supercomputador cem vezes mais rápido que os atuais – uma capacidade talvez disponível dentro de duas ou três décadas, mas não hoje.

Outro problema que se levanta prende-se com a forma como a nossa grelha divide a Terra em pedaços verticais versus horizontais. A atmosfera e os oceanos são ambos como finas conchas que cobrem a superfície terrestre – a profundidade média dos oceanos (4 kms) é muito pequena quando comparada com o raio da Terra (6.400 kms), bem como a altura da atmosfera (cerca de 100 kms). Para descrever com precisão as variações verticais, as várias dezenas de caixas empilhadas são mais parecidas com panquecas do que com cubos, centenas de vezes maiores em largura do que em altura13. Em geral, as simulações são mais acuradas nas partes superiores da pilha de “panquecas”, mas estas caixas achatadas tornam-se um problema nas partes da atmosfera abaixo dos 10 kms, onde o tempo turbulento ocorre. As trovoadas têm lugar em áreas muito menores do que os 100 kms da nossa rede. Isto é particularmente importante nos trópicos, onde há um significativo fluxo de energia e vapor de água, transportados para a atmosfera pela evaporação da água dos oceanos. Deste modo, são necessárias sub redes que assumam esta “convecção húmida” – a forma como o ar e o vapor de água se movem verticalmente através das caixas achatadas – para se construírem modelos fiáveis. De facto, a maior incerteza da modelagem climática decorre do tratamento das nuvens.14

Qualquer simulação precisa também de ser “iniciada”, ou seja, precisamos de alguma forma especificar as condições do oceano e da atmosfera no início do primeiro lapso de tempo: temperatura, humidade, ventos, etc., em cada caixa da atmosfera, bem como temperatura, salinidade, correntes, etc., em cada caixa de rede do oceano. Infelizmente, mesmo com os meios sofisticados de observação existentes, esse tipo de detalhe não está ao nosso alcance, muito menos estaria nas décadas passadas. Além disso, o nível caótico da simulação tornaria a maioria dos detalhes irrelevantes passadas duas ou três semanas. Assim, a etapa inicial (1º lapso de tempo) capta apenas de forma grosseira as condições de partida. Em cada evento, por razões práticas e fundamentais, é impossível ajustar dezenas de parâmetros para que o modelo corresponda às muito mais numerosas propriedades observadas do sistema climático. As nossas limitações não nos permitem entender as características do clima, nem sequer perto dos níveis de especificidade exigidos.

Entre as coisas mais importantes que um modelo tem de considerar estão os chamados feedbacks. O crescimento da concentração de gases com efeito de estufa que provocam o aquecimento global pode também causar outras mudanças no sistema climático, as quais podem ampliar ou diminuir a sua própria influência nesse aquecimento. Por exemplo, à medida que o globo aquece, há menos neve e gelo na superfície terrestre, o que provoca a diminuição do albedo terrestre. A Terra menos reflexiva irá então absorver mais luz solar, causando ainda mais calor. Um outro exemplo de um feedback é que, à medida que a atmosfera aquece, vai carregar mais vapor de água, o que vai aumentar bastante a sua capacidade de intercetar o calor libertado. Mas mais vapor de água vai também transformar a cobertura de nuvens, aumentando quer a interceção de calor (nuvens altas) quer a reflexividade (nuvens baixas). Neste balanço ganha a reflexividade, e o feedback da rede de nuvens, de alguma forma, diminui o aquecimento direto.

É por tudo isto que os ajustamentos (tuning) são necessários mas perigosos, quer nos modelos climáticos, quer em qualquer sistema complexo. Um artigo de 15 proeminentes cientistas do clima põe as coisas nestes termos:

As escolhas e os compromissos feitos durante os ajustamentos podem significativamente afetar os resultados do modelo… Em teoria o tuning deveria ser levado em conta em qualquer avaliação, comparação ou interpretação dos resultados do modelo… Porquê uma tal falta de transparência? Isto pode acontecer porque a “sintonização” é frequentemente vista como uma parte suja, embora inevitável, da modelação climática, mais engenharia que ciência, um ato de desafinação que não merece ser registado na literatura científica. Também pode haver alguma preocupação em explicar que os modelos são ajustados, pois isto pode fortalecer os argumentos daqueles que questionam a validade das projeções sobre mudanças climáticas. Os ajustamentos podem ser vistos, sem dúvida, como uma inconfessável forma de compensar os erros dos modelos.15

Acresce a tudo isto que os resultados dos diferentes modelos divergem entre si, sendo que, quanto à temperatura média da superfície terrestre, chegam a divergir em 3ºC. Isto é particularmente chocante se tivermos em consideração que 3ºC são três vezes maiores que o valor de aquecimento observado durante o século XXI, valor esse que os próprios modelos buscam explicar e descrever. Dois modelos cuja temperatura de superfície média varie deste modo vai igualmente variar bastante nos seus detalhes. Por exemplo, uma vez que não é possível ajustar a temperatura de congelamento da água (determinada pela natureza), a quantidade de neve e gelo que cobrem a Terra, e consequentemente os albedos, podem ser muito diferentes.

Dado que nenhum modelo bate certo, o resultado médio dos relatórios de avaliação é deduzido de um “conjunto” de algumas dezenas de modelos de diversos grupos de pesquisa espalhados pelo mundo. O CMIP (Coupled Model Intercomparison Project) compila estes conjuntos. O conjunto CMIP3 está na base do relatório de avaliação AR4 do IPCC; por sua vez o CMIP5 sustenta o relatório AR5, de 2013, enquanto o CMIP6 fundamentará o relatório de avaliação conhecido por AR616. Surpreendentemente, alguns dos atuais modelos são menos precisos que modelos antigos, apesar de mais sofisticados. O próprio IPCC, embora numa linguagem asséptica, reconhece não ter ideia do que causa as falhas nos modelos, nomeadamente quando previram metade do aquecimento realmente observado entre 1910 e 1940. Isto é altamente problemático porque o aquecimento observado no início do século XX é comparável ao observado no final do século, o qual, de acordo com os relatórios de avaliação, é atribuído com “elevada confiança” à influência humana. O IPCC reconhece que é difícil quantificar as contribuições da variabilidade interna, das forças naturais ou antropogénicas para este aquecimento.17

A variabilidade interna que o IPCC refere como difícil de quantificar, embora considerado um assunto menor, é de facto um grande problema. Observações climáticas mostram claramente comportamentos repetidos ao longo de décadas e mesmo séculos. Pelo menos alguns deles devem-se a lentas mudanças nas correntes oceânicas e à interação entre o oceano e a atmosfera. O exemplo mais conhecido é o dos fenómenos associados ao El Niño (tecnicamente, El Niño -Southern Oscilation), uma alteração no calor ao longo da região equatorial do Oceano Pacífico, que ocorre irregularmente entre 2 a 7 anos e influencia a meteorologia mundial. Um comportamento lento menos conhecido é a “Oscilação Multidecadal do Atlântico” (Atlantic Multidecadal Oscilation – AMO), que envolve mudanças cíclicas de temperatura (entre 60 a 80 anos) no Atlântico Norte. O Oceano Pacífico mostra um similar, embora não relacionado, comportamento cíclico de cerca de 60 anos. Dado que temos apenas 150 anos de boas observações e registos, comportamentos sistemáticos que ocorrem em escalas de tempo maiores são menos conhecidos – mas podem existir (e quase de certeza que existem) outras variações cíclicas naturais, que ocorrem ao longo de períodos ainda maiores.

Estes ciclos influenciam o clima aos níveis regional e global e sobrepõem-se a qualquer tendência, humana ou natural, como a emissão de gases com efeito de estufa ou os aerossóis de origem vulcânica, e tornam difícil determinar que mudanças observadas se devem à influência humana ou à influência natural. O falhanço, mesmo dos modelos mais recentes, para justificar o rápido aquecimento ocorrido nos anos iniciais do século XX sugere, torna mesmo provável, que a variabilidade interna – os fluxos e refluxos naturais dos sistemas climáticos – tenha contribuído significativamente para o aquecimento que vem ocorrendo nas últimas décadas. O facto de os modelos não conseguirem reproduzir o passado constitui um grande cartão vermelho e degrada a confiança em projeções futuras. Isto reflete-se no ECS – Equilibrium Climate Sensitivity, ou seja, no valor em que subirá a temperatura média da superfície terrestre se a concentração de CO2 hipoteticamente duplicar os 280 ppm da época pré-industrial. Se as emissões se mantivessem ao ritmo atual, essa duplicação aconteceria até ao final deste século. O que acontece é que esse valor não tem agora um grau de certeza maior do que tinha em 1979 (o valor estimado nessa altura era de 3ºC.)

Os modelos dão-nos valores diferentes, que vão dos 2ºC até aos 5,5ºC. Estes altos ECS parecem resultar da sub-rede que inclui a interação das nuvens com os aerossóis nos modelos, algo que não é bem compreendido, mas que inibe o aquecimento, ao aumentar o albedo da Terra. Por outras palavras, os investigadores ajustam os seus modelos ao que eles pensam corresponder ao aumento dos gases com efeito de estufa, ou seja, cozinham os resultados. Num artigo publicado em julho de 2020, vinte cientistas combinaram as abordagens verticais e em grade (juntamente com algumas informações observacionais e de períodos antigos) na tentativa de definir a sensibilidade do clima. Os autores encontraram um intervalo provável para o ECS de 2,6 a 4,1º C, metade do estimado pelo AR5 (1,5-4,5ºC), o que significa que valores extremamente baixos ou extremamente altos são considerados pouco prováveis.18 Não surpreende que tenhamos uma pobre compreensão sobre como o clima vai responder ao aumento das concentrações de gases com efeito de estufa. Quanto mais aprendemos sobre o sistema climático, mais temos noção do quão complicado ele é.

Exagerando no calor

O que vemos quase diariamente na comunicação social são notícias sobre secas, incêndios, cheias, tempestades, etc., “sem precedentes”. Dado que a memória humana é relativamente curta, a maioria das pessoas acredita. Mas a ciência conta-nos uma história diferente. Observações desde há um século indicam que a maioria dos fenómenos meteorológicos extremos não mostram qualquer tendência significativa, e alguns destes eventos tornaram-se, na realidade, menos comuns e severos, mesmo com o aumento da influência humana sobre o clima.

Por outro lado, é difícil detetar mudanças em eventos extremos, bem como atribuí-los à influência humana, devido à baixa qualidade dos registos históricos, à elevada variabilidade natural, a influências naturais difíceis de determinar, e ao desacordo sobre os inúmeros modelos usados. Sobre a dificuldade em determinar a influência humana, a Organização Meteorológica Mundial coloca de forma clara a questão: cada evento, por exemplo um ciclone tropical, furacão ou tufão, não pode ser atribuído a mudanças climáticas provocadas pelo homem, tendo em conta o conhecimento científico atual.19

Nos Estados Unidos, país que tem os registos mais extensos e de maior qualidade sobre a temperatura, os recordes de baixas temperaturas são agora menos comuns, e os recordes diários de temperaturas mais altas não são mais frequentes hoje do que eram há um século. Porque temos então a sensação de que as temperaturas extremas estão a aumentar? Uma das razões é que os relatórios são objeto de múltiplas revisões. Por questões ideológicas, muitas vezes, os dados são deturpados. Por exemplo, um quadro apresentado pelo CSSR – Climate Science Special Report (Relatório Especial sobre Ciência Climática), que mostra o racio do registo diário de recordes de altas temperaturas versus o registo diário de recorde de baixas temperaturas, é enganador, pois leva a concluir que o número de recordes da altas temperaturas está a ocorrer com mais frequência, o que não corresponde à verdade, o que acontece é que o número de recordes de temperaturas mínimas está a baixar mais do que o de temperaturas máximas. Chama-se a isto persuadir em vez de informar. Assim, não surpreende que os media desinformem e não digam a verdade, que é a de que, afinal, os recordes de mínimas estão a diminuir e os recordes de máximas temperaturas quase não se alterou nas últimas décadas.

Terrores de tempestades

De acordo com os media, as tempestades estão a tornar-se mais comuns e mais intensas, e o aumento dos gases com efeito de estufa estão a tornar tudo isto ainda pior. No entanto, os dados e a literatura de pesquisa estão totalmente em desacordo com esta mensagem. No centro desta confusão estão os relatórios de avaliação, que apresentam sumários inconsistentes em relação às suas próprias conclusões. Mas a verdade é que furacões e tornados não mostram mudanças atribuíveis à influência humana. Tecnicamente, “furacão” é o termo usado para um ciclone tropical no Atlântico ou no leste do Pacífico; estas tempestades são chamadas “tufões” no Pacífico Oeste e apenas “ciclones” na Baía de Bengala e no norte do Oceano Índico. Para evitar confusões, Koonin não se faz essa distinção, considera no livro que todos essas tempestades são furacões. Com uma extensão de até algumas centenas de milhas, estes sistemas de tempestade apresentam um centro (“olho”) de baixas pressões, rodeado por uma espiral (contrária ao sentido dos ponteiros do relógio no hemisfério norte e no sentido dos ponteiros do relógio no hemisfério sul) de trovoadas e tornados, produzindo chuva pesada. Quanto mais baixa for a pressão do olho, mais fortes serão os ventos em seu torno. Um furacão apresenta ventos superiores a 119 km/h; se for mais fraco, é chamado “tempestade tropical”, e se for ainda mais fraco é conhecido por “depressão tropical”. Os furacões são categorizados pela sua intensidade através da escala Saffir-Simpson, que vai de 1 a 5. As maiores tempestades (as de categorias 3 a 5) têm ventos superiores a 179 km/h.20

Os furacões crescem de depressões tropicais (áreas de baixa pressão) nascidas sobre os oceanos ao longo do equador. De seguida movem-se no sentido dos polos, dependendo o seu caminho preciso dos ventos regionais; a maioria nunca chega ao solo. Há cerca de 48 furacões por ano em todo o globo. Dois terços ocorrem no hemisfério norte (onde a temporada de furacões vai de junho a novembro) e um terço no sul (de novembro a maio). Em números redondos, cerca de 60% ocorrem no Pacífico, 30% no Índico, e 10% no Atlântico Norte. São muito raros no Atlântico Sul. Os cientistas desenvolveram outras formas de medir as tempestades. Uma delas é a Energia Acumulada do Ciclone (ACE – Accumulated Cyclone Energy), que combina o número de tempestades com a sua intensidade, e outra é o Índice de Energia de Dissipação (PDI- Power Dissipation Index), semelhante à ACE, mas que confere um peso ainda maior às tempestades mais intensas (cada tempestade é medida pelo cubo, ou 3ª potência, da sua velocidade de vento).

As áreas de baixas pressões que se transformam em furacões formam-se a partir da evaporação da água do mar numa zona quente; essa água liberta calor à medida que sobe e se condensa na atmosfera. Assim, podemos esperar um incremento na atividade dos furacões à medida que a superfície do mar aquece. Infelizmente, não é assim tão simples, como se pode comprovar pelos registos de longo prazo dos números anuais e da ACE de furacões no Atlântico Norte. As flutuações de longo prazo da Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO – Atlantic Multidecadal Oscillation), atrás referida, afeta a temperatura da superfície do mar onde se formam os furacões e pode, por isso, aumentar ou suprimir a sua atividade. As condições atmosféricas têm que ser precisas para que um furacão se forme, não apenas a temperatura. Há uma série de outros fatores a ter em conta, como a variação da velocidade do vento e a sua direção com a altitude, ou a presença de poeira do Sahara, nenhum dos quais descritos pelos modelos climáticos.

Como é evidente, o facto de a temperatura não ser o único fator a ter em conta na formação de furacões não quer dizer que o aquecimento, natural ou causado pelo homem, não tenha influência. Tem havido, como sempre há em tudo que tem a ver com o clima, oscilações no número e intensidade dos furacões nos últimos anos, talvez porque o ciclo AMO esteja numa fase alta, mas tal já ocorreu no passado e, se alongarmos o período de registos, verificaremos que houve tempos em que a atividade era pelo menos tão grande como a que temos hoje, mesmo antes da influência humana se tornar significativa. Assim, a maioria dos autores tem “baixa confiança” (low confidence) em que alterações na frequência e intensidade dos ciclones tropicais estejam além do que possa ser atribuído à variabilidade natural. No entanto, os media não dão conta desta realidade, preferindo propagar o alarme não fundamentado. É verdade que os danos económicos provocados pelos furacões estão a aumentar, mas isto acontece porque hoje há mais pessoas e mais infraestruturas valiosas nas zonas costeiras, não porque as características das tempestades tenham mudado no longo prazo.

Seja o que for que o futuro nos reserve, as descrições dos dados sobre furacões, presentes nos relatórios de avaliação, pecam por omissão; violam o que Einstein uma vez disse no edifício da Academia Nacional, em Washington: “O direito da busca pela verdade implica também um dever; não devemos esconder nenhuma parte do que reconhecemos ser verdadeiro”. É claro que os furacões não são as únicas tempestades que causam estragos e ganham manchetes. Vejamos os tornados. O seu número tem aumentado significativamente. Mas isto ilustra perfeitamente os perigos da correlação. Uma simples pesquisa no Google revela-nos que também o números de barcos de pesca ou de filmes violentos duplicou desde 1950 e, com certeza, nenhuma destas tendências se deve a alterações climáticas. No caso dos tornados, a chave para esta “tendência” reside na compreensão de como os dados são compilados – o que é frequentemente tão importante quanto os dados em si. Como são, afinal, os tornados contabilizados?

Hoje em dia os radares detetam tornados muito fracos, distantes mais de 160 kms, mas antes dos radares estarem largamente disponibilizados os tornados fracos nem sempre eram registados. Estes tornados mais fracos nem sempre deixam um rastro de destruição, sobretudo nas áreas escassamente povoadas. A força dos tornados é medida na escala Fujita (Enhanced Fujita Scale), originalmente desenvolvida em 1971, com uma versão aumentada em 2007. A categorização dos tornados vai de EF0 para as tempestades mais fracas até ao EF5, para as que têm ventos acima das 260 mph (milhas/hora). Sessenta por cento dos tornados nos Estados Unidos são hoje da categoria EF0, enquanto em 1950 essa categoria representava apenas 20%. Isto sugere que o aumento do número de tornados se deve à maior contagem de fracas tempestades nas décadas recentes, o que, de acordo com a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), é, de facto, o caso.21 De acordo com os registos no terreno, se tivermos em conta apenas os tornados de força EF1 ou superiores, verifica-se que o seu número não varia muito desde 1974. Mas se tivermos em consideração o número de tornados da categoria EF3 ou de força superior, o que se verifica é que o seu número decresceu em cerca de 40% nos 60 anos que se seguiram a 1954.

Os dados também nos dizem que há menos dias/ano com tornados, mas maior número de tempestades nos dias em que estas ocorrem. As causas, naturais ou humanas, que provocaram estas mudanças ao longo das últimas décadas mantém-se um mistério. No entanto, podemos com confiança atribuir à influência humana uma grande mudança relacionada com os tornados: as mortes provocadas pelos tornados caíram mais de dez vezes desde 1987 nos Estados Unidos, o que se deve, em larga medida, aos avisos dos radares.22

Perigos de Precipitação – das Inundações aos Incêndios

As relações entre tempo e clima são complicadas, especialmente para a precipitação, sob a forma de chuva ou de neve. Por exemplo, embora possa parecer contraintuitivo, a subida da temperatura pode afinal contribuir para que neve mais – se um aumento das temperaturas mínimas impedir o congelamento do Oceano Ártico no inverno, mais água será evaporada para a atmosfera. De acordo com os registos, os grandes nevões no mundo desenvolvido têm vindo a decrescer, embora de forma muito lenta e pouco acentuada. Desconhece-se qual a influência humana nesta tendência, se é que existe de todo.

Quanto à precipitação, temos de considerar o seguinte. O volume de água existente na Terra é, essencialmente fixo. Quase todo (cerca de 97%) está nos oceanos, e quase todo o resto encontra-se em Terra – no gelo e na neve (especialmente na Gronelândia e nos lençóis de gelo do Ártico, em lagos e rios, e no subsolo. No entanto, a água terrestre que se encontra na atmosfera tem um papel central no clima, visto que o vapor de água é o mais importante gás com efeito de estufa, e as nuvens contribuem para a maior parte do albedo terrestre. A energia solar movimenta a água entre estes diversos reservatórios e forma o chamado ciclo hidrológico. A maior e mais dinâmica parte deste ciclo é o fluxo de água que sobe da superfície terrestre para a atmosfera (85% deste fluxo advém da evaporação dos oceanos, os outros 15% da superfície terrestre, a maior parte da transpiração das plantas). Essa água mantém-se nas alturas por uma média de 10 dias, antes de condensar e cair de novo, na forma de chuva ou neve (77% cai nos oceanos e 23% no solo terrestre). Globalmente, a chuva é mais intensa perto do equador (onde muita da água evaporada volta à superfície à medida que o ar quente e húmido sobe e arrefece) mas baixa onde o ar seco desce, criando os desertos que flanqueiam o equador.

O lugar mais seco da Terra fica na América do Sul, no extremo norte do deserto de Atacama, no Chile: Arica, onde chove apenas 0,6 mm por ano. O mais húmido é Mawsynram, na Índia, com a média de 11,871 mm/ano. Se todo o resto se mantiver igual, é expectável que o ciclo hidrológico se intensifique à medida que o globo aquece: haverá mais evaporação e o ar quente transportará mais água, conduzindo a mais precipitação. É igualmente expectável que esta precipitação seja mais pesada, com áreas secas a ficarem ainda mais secas e as áreas húmidas ainda mais húmidas, com mais períodos de intensa precipitação. Isto pode levar a inundações em algumas áreas, mas uma vez que as temperaturas mais elevadas devem também aumentar a evaporação, as secas podem também aumentar. Há escasso consenso entre os modelos acerca de como, onde e quando estas alterações têm lugar.

Além disso, é bastante difícil escolher e analisar dados que sejam úteis para testar as expectativas sobre o que pode acontecer, e mesmo até responder a uma questão básica como: “como tem mudado a média de precipitação?” Ao contrário das alterações na temperatura, a precipitação pode variar enormemente em curtas distâncias e em poucos minutos – pode chover em determinado local, embora o tempo esteja perfeitamente seco a 30 kms (ou mesmo 3 kms) de distância. Isto acontece porque, como mencionado atrás, acontecem alterações súbitas nas propriedades da água: em função da temperatura e da quantidade de vapor de água, a água pode condensar e criar precipitação ou não. Assim, ao contrário do que acontece com a temperatura, não há nenhuma forma fácil de combinar os dados sobre precipitação recolhidos pelas estações meteorológicas espalhadas pelo mundo e obter um quadro geral da situação. No entanto, a combinação de dados registados por observações no solo e por satélite permite-nos projetar um quadro global de longo prazo, mais apurado sobre as zonas onde as estações meteorológicas são mais numerosas. Apesar disso, como se mostra num artigo publicado por um grupo de cientistas no Bulletin of the American Meteorological Society, em 2018: … Não parece haver qualquer tendência positiva no volume global de precipitação, devido ao aumento global de temperatura. Porquanto haja tendências regionais, não há evidência de aumento de precipitação à escala global em consequência do aquecimento global observado.23

Outro aspeto de particular importância para o sistema climático, no que diz respeito à precipitação, é a cobertura de neve que aumenta o albedo terrestre. Observações por satélite no hemisfério Norte mostram que há um declínio na cobertura de neve durante a Primavera (e também com algum significado no Verão), como seria expectável num globo a aquecer – especialmente num em que as baixas temperaturas estão a aumentar, enquanto a neve durante o Outono e o Inverno aumentou modestamente. As pequenas alterações no volume de precipitação nos Estados Unidos ao longo dos anos, não alteram a média de incidência de inundações.

As secas são ainda mais difíceis de determinar do que as inundações, uma vez que não resultam apenas da precipitação (ou, antes, da falta dela). Ao contrário, as secas envolvem combinações de temperatura, precipitação, composição e capacidade de escoamento do solo. Atividades humanas, como a irrigação, que esgota a água no solo, ou o esgotamento das terras por excesso de aragem (de “arar” a terra), como aconteceu durante os Grandes Planos americanos nos anos 1930, também jogam um papel. As secas medem-se através do Índice de Gravidade da Seca de Palmer (PDSI – Palmer Drought Severity Index). Secas severas têm acontecido ao longo dos milénios, e os dados, sobretudo através dos registos nos anéis, mostra-nos muitas secas que perduraram por décadas, muitas antes de 1900, incluindo as mega secas de 900 a 1300 AD, e que, portanto, não podem ser atribuídas a influências humanas, mas antes ao aquecimento natural do globo naquela época. O AR5 de 2014 reconhece que “pode dizer-se com elevada confiança que houve secas de maior magnitude e mais longa duração no último milénio, do que aquelas observadas em muitas regiões nos últimos cem anos.

As secas tornam os incêndios mais severos e os grandes incêndios dominam as parangonas dos jornais, que atribuem as causas dos mesmos às alterações climáticas. Apesar disso, os dados mostram-nos que a área ardida, a nível global, diminuiu 25% de 1998 até 2015. Uma das razões para este declínio é atribuída pelos cientistas à atividade humana, nomeadamente à expansão e intensificação da agricultura. Mais uma vez, os modelos são imperfeitos e as previsões incertas. Não se conhece exatamente que papel desempenha a humanidade relativamente a estes aspetos do clima no futuro.

O Nível do Mar Assusta

Depois dos oceanos, a maior reserva de água da Terra está nos lençóis de gelo da Gronelândia e do Ártico. Enquanto numerosos fatores contribuem para pequenas alterações do nível do mar, o que conta mais, o que é mesmo mais importante ao longo do tempo geológico, depende do gelo que se encontra nos solos. Ciclos lentos – variações na órbita da Terra e na inclinação do seu eixo ao longo de dezenas de milhares de anos – alteram a quantidade de luz solar absorvida pelos hemisférios Norte e Sul. Essas alterações causaram grandes oscilações na temperatura global durante milhões de anos. E também provocam o crescimento ou a diminuição dos lençóis de gelo que cobrem os continentes (os intervalos são tecnicamente chamados “glaciações” e “interglaciações”, respetivamente), despejando menos ou mais água nos oceanos, e assim causando a descida ou subida dos níveis do mar. Por exemplo, durante o último período interglacial (pouco gelo), há 125 mil anos, conhecido por Eemian (Eemiano), o nível dos mares era cerca de 6 metros mais alto do que é hoje.

O último Glaciar Máximo ocorreu há cerca de 22 mil anos, altura em que os glaciares continentais começaram a derreter de novo. A Terra encontra-se hoje no interglacial Holoceno, que os geólogos acreditam ter começado há 12 mil anos. De acordo com os dados geológicos, o nível do mar subiu cerca de 120 metros desde o Último Glaciar Máximo, muito rapidamente (120mm por década) até cerca de 7 mil anos atrás, tendo depois essa subida abrandado drasticamente. A questão, portanto, não é a de saber se o nível dos mares está subindo, mas de que forma os seres humanos contribuem (ou não) para isso. Nas últimas três décadas o nível do mar subiu cerca de 3mm por ano, mais do que a média de 1,8 mm desde 1880. No entanto, a média não nos diz nada sobre se ocorreram ou não períodos de maiores subidas, como este dos últimos 30 anos.

Para sermos claros, o nível dos mares sobe à medida que a temperatura do globo sobe. Quando a temperatura de superfície terrestre aumenta, o gelo derrete – e à medida que os oceanos aquecem, a água que contêm expande-se. Os níveis sobem e descem sazonalmente no longo prazo, em resposta aos ciclos orbitais discutidos anteriormente, e em resposta às influências naturais ou humanas. Enquanto as taxas de subida ao longo do século passado tiveram significativos altos e baixos, um globo em aquecimento provoca, indubitavelmente, mais água nos oceanos. O que acontecerá, então, ao nível dos mares, no futuro? A resposta depende sobretudo da quantidade de gelo que derrete na superfície terrestre, à medida que as temperaturas sobem, e também do aumento da temperatura dos oceanos.

No entanto, sabe-se que o derretimento do gelo ao nível global diminuiu desde 1900 e é hoje o mesmo que há 50 anos; a contribuição da Gronelândia para este derretimento atingiu um nível mínimo em 1985 e não é agora mais elevado do que era em 1935. Os cientistas que constroem os modelos deparam-se com um problema fundamental: não compreenderam as alterações que ocorrem na Antártida e na Gronelândia que determinaram o volume dos oceanos e, consequentemente, a subida ou descida do nível dos mares. Os dados sugerem que há ciclos que condicionam o nível das águas, nomeadamente o AMO (Oscilação Multidecadal do Atlântico)24, já referido, sendo expectável que esse nível desça durante as próximas décadas, ao contrário do que é divulgado pela comunicação social.

Em suma, não sabemos o quanto da subida do nível global do mar é devida ao aquecimento provocado pelo homem, e quanto é devido aos ciclos naturais de longo prazo. Há poucas dúvidas de que, ao contribuirmos para o aquecimento do planeta, também contribuímos para a subida do nível dos mares. Mas há pouca evidência de que essa contribuição seja significativa, muito menos catastrófica. A tendência dos humanos construírem cidades nas zonas costeiras também tem contribuído para o aumento do nível dos mares.25

Apocalipses que não são

Os supostos apocalipses, que afinal, não o são, são três:

  • Mortes causadas pelas alterações climáticas.
  • Desastre na agricultura.
  • Desastre na economia

Quanto ao primeiro, é preciso reconhecer que as pessoas não morrem por causa do clima. O clima muda devagar e as sociedades adaptam-se ou migram. Mas as pessoas morrem devido a eventos meteorológicos relacionados com o clima – secas e inundações, tempestades, temperaturas extremas e grandes incêndios, embora tenhamos já visto que estamos longe de ter alguma certeza de que alterações no clima provoquem estes fenómenos. Desde 1930, as mortes provocadas por fenómenos meteorológicos decaíram consecutivamente, sendo hoje menos de metade do que as que ocorriam naquela década. Por outro lado, muitas mortes atribuídas ao clima – como aquelas provocadas pelo cozinhar com madeira e restos de animais e plantas – são na realidade causadas pela pobreza. Não há dúvida de que a poluição afeta o clima (como vimos, os aerossóis provocam o arrefecimento do planeta), mas as mortes devidas à poluição não são causadas pelas alterações climáticas, antes pela própria poluição.

Quanto ao suposto desastre na agricultura, é importante começar por referir que o aumento da concentração de dióxido de carbono tem sido um fator muito relevante para o aumento da produção agrícola, uma vez que impulsiona a taxa de fotossíntese e altera a fisiologia das plantas, fazendo com que usem a água de forma mais eficiente.26, 27 2020 foi o ano-recorde da produção de grãos. Em suma, o que a ciência realmente nos diz é que o colapso nas colheitas derivado do clima é outro apocalipse que, simplesmente, não o é. E, consequentemente, nada indica que possa ocorrer, devido às “alterações climáticas”, um desastre económico.

Fica claro que os media, os políticos e frequentemente os próprios relatórios de avaliação desvirtuam descaradamente o que a ciência diz sobre clima e catástrofes. Essas falhas devem ser atribuídas aos cientistas que escrevem ou reveem os relatórios, os repórteres que acriticamente os refletem, os editores que permitem que tal aconteça, os ativistas e as suas organizações que primem os botões de alarme, e os especialistas cujo silêncio público engrossa o engano.

Quem degradou a ciência e porquê

Há vários responsáveis pela desinformação que passa para o público sobre as alterações climáticas. Eis os principais: os media; os políticos; as instituições científicas; os cientistas; os ativistas e as ONGs; o próprio público. Claro que nem todos os membros destes grupos alinham no alarme geral, mas os que o fazem são suficientes para sustentar essa tendência, que se tornou maioritária e, mais do que isso, uma verdade incontestável na maior parte da opinião pública mundial. Os media são responsáveis porque destacam, na abertura de telejornais ou em parangonas na imprensa, aquilo que vende mais: o alarmismo. Isto é particularmente verdade no que toca às matérias sobre clima e energia. Informar em profundidade não vende, é muito mais rentável a manchete sensacionalista – sobretudo num mundo onde a partilha de notícias nas redes sociais é a parte mais importante do negócio – até porque há sempre, algures no mundo, uma história sobre um qualquer evento meteorológico extremo para contar.

Por outro lado, a maioria dos jornalistas não tem formação científica. E isto é muito importante porque, como vimos, os próprios relatórios de avaliação podem ser mal interpretados, sobretudo por quem não é especialista. Assim, os jornalistas embarcam facilmente na missão de salvar o mundo da destruição humana, considerando o alarmismo correto, mesmo um dever, o qual se deve, em larga medida, ao desconhecimento que têm do desenvolvimento atual da ciência climática. Quanto aos políticos, é preciso notar que ganham eleições agradando ao público, de alguma forma, dizendo o que este quer ouvir. Isto não é novo. Como notou H. L. Mencken’s no seu livro Em Defesa das Mulheres, de 1918:

Todo o propósito da prática política é manter a populaça alarmada (e, consequentemente, ansiosa por segurança), assustando-a com uma série infindável de duendes, a maioria imaginários.28

As ameaças de catástrofe climática – tempestades, secas, subida dos mares, destruição de colheitas, colapso económico – impacta em toda a gente. E essas ameaças podem ser consideradas urgentes (envolvendo um recente evento climático mortífero, por exemplo), mas também suficientemente distantes para que as terríveis previsões de um político sejam postas à prova apenas décadas depois de ele deixar o cargo. Por outro lado, e embora a ciência climática e as questões energéticas associadas sejam complicadas, a complexidade e as suas nuances não se adequam a mensagens políticas eficazes. Assim, a ciência é descartada em favor da Ciência e “simplificada” para uso na arena política, o que permite que as ações necessárias sejam resumidas de forma simples – basta eliminar os combustíveis fósseis para salvar o planeta. É claro que este não é um problema específico do clima, e o eleitorado – que odeia zonas cinzentas – tem a sua quota-parte de culpa.

Alguns políticos tentaram descaradamente minar o processo científico. Michael Bloomberg e Tom Steyer, dois políticos bilionários, tinham o objetivo de “fazer a ameaça climática parecer real, imediata e potencialmente devastadora para o mundo dos negócios.” Conspiraram com alguns cientistas, entre outros, para produzir uma série de relatórios descaracterizando o cenário de emissões extremas RCP 8.5 como “negócio de sempre” (ou seja, um mundo que não se esforça para conter as emissões). Os relatórios foram acompanhados por uma campanha sofisticada para infundir essa noção em conferências e revistas científicas.29 Aqueles que procuram corromper dessa forma o processo científico jogam o mesmo jogo que a multidão anticientífica que eles condenam em voz alta. Felizmente, a fraude está sendo denunciada agora nas principais revistas científicas.30

Finalmente, é prática comum sugerir que muitos dos políticos de direita, que defendem a ideia de “uma farsa da mudança climática”, são influenciados por vínculos a industriais afetados negativamente pela regulamentação ambiental restritiva. Infelizmente, à medida que a indústria das energias alternativas cresce, há incentivos financeiros para que os políticos também exagerem na tónica da catástrofe climática. A ciência não deve ser partidária, mas a interligação da ciência climática com a política, em geral, e com a política energética, em particular, praticamente garantiu que isso iria acontecer.

Quanto às instituições científicas, deveriam merecer o nosso apoio, pois é nelas que se baseia a nossa confiança – e a dos media e dos políticos – no que nos é apresentado como A Ciência. No entanto, quando se trata de clima, essas instituições parecem, frequentemente, mais preocupadas em fazer a ciência encaixar-se numa narrativa, do que em garantir que a narrativa se encaixe na ciência. Já vimos que as instituições que preparam as avaliações oficiais têm um problema de comunicação, sumariando ou interpretando os dados de formas ativamente enganadoras. Outras instituições, ou os seus líderes, exageram também na sua intenção de persuadir em vez de informar. Vejamos, por exemplo, o que disseram os presidentes das Academias Nacionais de Ciência, Engenharia e Medicina, nos Estados Unidos, em 28 de junho de 2019:

Os cientistas sabem, desde há algum tempo, por múltiplas linhas de evidência, que os humanos estão a alterar o clima da Terra, sobretudo através da emissão de gases com efeito de estufa. A evidência dos impactos das alterações climáticas são igualmente claros bem como o seu crescimento. A atmosfera e os oceanos estão a aquecer, a magnitude e frequência de certos eventos extremos estão a aumentar, e o nível do mar está a subir ao longo das nossas costas.31

Mesmo considerando a necessidade de concisão, esta é uma forma enganadora, incompleta e imprecisa de mostrar o que nos diz a ciência climática. Confunde o aquecimento causado pelo homem com mudanças climáticas em geral, sugerindo, erradamente, que as influências humanas são as únicas responsáveis por essas mudanças. Invoca “certos eventos extremos”, enquanto omite o facto de que a maioria deles (incluindo aqueles que afloram mais rapidamente à mente quando se lê a frase “eventos extremos”, como os furacões) não mostram nenhuma tendência significativa. E afirma que “o nível do mar está a subir” de uma forma que não só sugere que isso também é apenas atribuível ao aquecimento causado pelo homem, mas que também omite o facto de que essa subida não é novidade.

Quando a comunicação da ciência climática é corrompida desta forma, isso mina a confiança que as pessoas têm no que o establishment científico diz sobre outras questões sociais cruciais (o COVID-19 é o notável exemplo recente). Tal como Philip Handler, um ex-presidente da Academia Nacional de Ciências, escreveu num editorial de 1980:

É tempo de regressar à ética e às normas da ciência para que o processo político possa decorrer com maior confiança. O público pode perguntar porque ainda não sabemos o que parece vital para a tomada de decisão – mas a ciência manterá o seu lugar na estima do público apenas se admitirmos firmemente a magnitude das nossas incertezas e, consequentemente, afirmarmos a necessidade de mais pesquisas. E perderemos esse lugar se dissimularmos ou se argumentarmos como se todas as informações e entendimento necessários estivessem disponíveis. Os cientistas servem melhor as políticas públicas cingindo-se à ética da ciência, e não à ética da política.32

A verdade é que os cientistas não deveriam ceder à pressão institucional, seja do governo, de uma empresa ou de uma organização não governamental, e nem sequer deveriam recear a pressão dos seus pares. Tal como Richard Feynman afirmou, a integridade científica tem de ser mantida e isso só pode ocorrer se o cientista for imune a pressões: se tiver a sorte de estar em algum lugar onde seja livre para manter o tipo de integridade que descrevi e onde não se sinta forçado, pela necessidade de manter uma posição, ou de apoio financeiro, ou outra qualquer, a perder a sua integridade.33 Porém, no que concerne ao clima e à energia, os cientistas, de várias áreas, caem frequentemente naquilo que se pode chamar “simplificação climática”. E o que causa isto? Talvez a falta de conhecimento sobre o assunto, ou talvez o medo de falar contra os seus pares científicos. Ou talvez seja simples convicção no proclamado consenso, nascida mais de uma fé do que da evidência.

Quanto às ONGs, a imprensa tende a conferir-lhes uma posição de autoridade. Mas também estes são grupos de interesses, com as suas próprias agendas climáticas e energéticas. E são também atores poderosos, que mobilizam apoiantes, arrecadam dinheiro, realizam campanhas e alcançam poder político. Para muitos, a “crise climática” é a sua completa raison d’être. É claro que não há problema em ser-se ativista, e os esforços das ONGs tornaram o mundo melhor de incontáveis maneiras. Mas distorcer a ciência para seguir uma causa é indesculpável, particularmente com a cumplicidade dos cientistas que trabalham nos seus conselhos consultivos. Finalmente, com toda a distorção que ocorre a montante, não surpreende que o público tenha uma visão pseudocientífica. Deste modo, quem divulgue alguns aspetos menos conhecidos dos relatórios de avaliação é imediatamente rotulado de negacionista ou militante de direita, pois a crença nas alterações climáticas consolidou-se na opinião pública como a única posição politicamente correta.

Como restaurar a ciência

A principal proposta de Koonin para restaurar a credibilidade da ciência passa pela criação de uma “Equipa “Vermelha” (Red Team) que deveria ser encarregada de analisar os relatórios de avaliação, tentando identificar e avaliar os pontos fracos. Em contrapartida, outro grupo qualificado, digamos, a “Equipa Azul” (Blue Team), que seria, presumivelmente, constituída pelos próprios autores dos relatórios, teria oportunidade de rebater os pontos fracos encontrados pela Equipa Vermelha. É claro que o IPCC das Nações Unidas, bem como o governo dos Estados Unidos, consideram os seus relatórios incontestáveis, uma vez que são rigorosamente revistos por pares científicos, antes da publicação. Sendo assim, qual a necessidade de um outro nível de revisão? A resposta direta é que – tal como em capítulos precedentes deste artigo foi salientado – esses relatórios apresentam grandes falhas. E uma razão importante para essas falhas prende-se com a forma como os relatórios são revistos. A ciência é um corpo de conhecimento que cresce através de testes, degrau a degrau. Se cada passo for sólido, os investigadores podem alcançar rapidamente resultados espantosos, como o desenvolvimento de vacinas ou moderna tecnologia da informação.

Ao saber que um investigador produziu um novo conhecimento sólido, outros pesquisadores examinam, e muitas vezes desafiam, resultados de experiências ou observações, ou formulam novos modelos e teorias. Foram as medições feitas corretamente? Havia controlos adequados às experiências? São os resultados consistentes com o conhecimento prévio? Quais são as razões para um resultado inesperado? Respostas satisfatórias a questões como estas são indispensáveis para a aceitação de novos resultados no sempre crescente corpo do conhecimento científico. Koonin participou em muitas revisões de pares, ao longo da sua longa carreira científica de 45 anos, às vezes como autor, outras vezes como revisor, outras como árbitro, e umas poucas vezes como editor. O que ele nos diz é que a revisão por pares pode efetivamente melhorar a apresentação de um artigo científico e normalmente captar os erros mais notórios, mas está muito longe de ser perfeita, e não garante de forma alguma que o artigo publicado não contenha erros. Uma avaliação independente dos resultados por outros investigadores, que conduzam estudos alternativos, é uma garantia muito mais forte de que os resultados estão corretos.

Mas um relatório de avaliação não é um artigo de pesquisa – de facto, trata-se de um tipo de documento muito diverso, com um propósito muito diferente. Artigos em revistas científicas são escritos por especialistas para especialistas. Ao invés, os autores dos relatórios de avaliação devem avaliar as validade e importância de uma diversidade de artigos, e depois sintetizá-los num conjunto de declarações importantes, destinadas a não especialistas. Por isso, a “história” do relatório de avaliação importa, como importa a linguagem usada para contá-la – especialmente em algo tão importante como o clima. Os processos para construir e rever os relatórios de avaliação sobre ciência climática não promovem a objetividade. Os funcionários das agências científicas e ambientais do governo (que devem eles próprios ter um ponto de vista) nomeiam ou escolhem os autores, que não estão sujeitos a restrições devidas a conflitos de interesses. Quer dizer, um autor pode trabalhar para uma companhia petrolífera ou para uma ONG que promova a “ação climática”. Isto aumenta as hipóteses de a persuasão ser favorecida, em detrimento da informação.

Um grande número de revisores especializados e voluntários reveem o texto preliminar dos relatórios. Mas ao contrário da revisão por pares dos artigos científicos, os desacordos entre revisores e autores não são resolvidos por um árbitro independente; o autor principal pode optar pela rejeição de uma crítica dizendo, simplesmente, “não concordamos”. As versões finais das avaliações são então objeto da aprovação governamental (através de um processo entre agências para o governo dos Estados Unidos, e reuniões, muitas vezes contenciosas, entre especialistas e políticos, no caso do IPCC). E – um ponto muito importante – os “Resumos para Decisores Políticos” do IPCC são fortemente influenciados, se não mesmo escritos, por governos que têm interesse em promover políticas particulares. Em suma, há muitas oportunidades para corromper a objetividade do processo e da versão final. É por isso que uma Equipa Vermelha é tão necessária. Ela poderia constituir uma importante ferramenta para corrigir os erros no processamento dos relatórios de avaliação.

Seguem-se algumas dicas para quem quer estar bem informado. Se tiver tempo, aprofunde as notícias dos media, pesquisando a fonte da notícia. Resumos dos artigos de pesquisa originais estão disponíveis nas revistas científicas onde aparecem e, para uma pesquisa particularmente importante, o próprio artigo está por vezes disponível online, gratuitamente. Há também alguns blogues que, de uma forma séria e consistente, se debruçam sobre a mais recente ciência climática. Do lado consensual, Real Climate (realclimate.org) é um dos que vale a pena consultar, enquanto o sítio de Judith Curry’s, Climate Etc. (judithcurry.com), alberga discussões sérias de um ponto de vista não consensual.

Mas não há nada como consultar diretamente os dados – que são, afinal, o árbitro de toda a ciência. Dados climáticos são prontamente disponibilizados online pelo governo dos Estados Unidos, pela EPA (em http://www.epa.gov/climate-indicators) e pela NOAA (em http://www.noaa.gov/climate). Assim, se alguém se deparar com uma narrativa acerca da subida do nível do mar, furacões ou temperaturas médias, e quiser escavar mais fundo, pode fazê-lo através de uma simples ligação à internet e uma sensibilidade (que se espera mais apurada após a leitura do presente artigo) sobre quais as questões que verdadeiramente necessitam de resposta.

A quimera da descarbonização

Os cientistas não têm bolas de cristal que lhes digam o que vai acontecer no futuro. Têm apenas os dados, com as suas imperfeições, e a maior ou menor capacidade para aplicar o pensamento crítico, e usar esses dados para identificar, ou mesmo antecipar, problemas e construir as soluções necessárias. As pessoas têm muitas ideias diferentes sobre quais devem ser essas soluções. Todos já ouvimos falar de, pelo menos, algumas delas. Numa lado extremo há os que defendem a eliminação completa das emissões de gases com efeito de estufa durante as próximas décadas, tal como é apoiado por muitos governos, a ONU, e virtualmente todas as ONGs. No outro extremo, há os que dizem que devemos continuar com os nossos negócios como habitualmente, assumindo a posição de que o clima é imune à influência humana, e que nós próprios temos a capacidade de nos adaptar a quaisquer mudanças que possam ocorrer.

Os vários relatórios do IPCC dizem-nos que é urgente reduzir as emissões de gases com efeito de estufa para prevenir os piores impactos das mudanças climáticas causados pelo homem. E dizem-nos também que a “mitigação” das emissões deve ser acompanhada por uma transição para fontes de energia e práticas agrícolas de “baixo carbono”. O objetivo central tornou-se atingir a carbonização zero em meados do século. Embora, em princípio, não existam barreiras intransponíveis para esta redução, múltiplos fatores – técnicos, científicos, económicos e sociais – tornam esta pretensão bastante implausível. Felizmente, não só é extremamente incerto que um desastre climático esteja iminente, como temos estratégias alternativas para respondermos às mudanças climáticas, particularmente a adaptação e a geoengenharia. A resposta mais provável da sociedade às alterações climáticas é, efetivamente, a adaptação humana.

O CO2 acumula-se na atmosfera, não desaparece quando paramos de o emitir, permanece na atmosfera durante séculos, absorvido lentamente pelas plantas e os oceanos. Reduções modestas das emissões apenas atrasarão, mas não eliminam o aumento da concentração do CO2. Tendo em conta o desenvolvimento mundial, é virtualmente impossível uma simples estabilização da influência humana. Muitos decisores políticos acreditam de que apenas necessitamos dos incentivos certos para desenvolvermos e aplicarmos novas tecnologias que levem à descarbonização. Mas os cientistas sabem que existem poderosos constrangimentos físicos que qualquer tecnologia tem de respeitar. Por exemplo, nenhuma política pode contornar os limites fundamentais sobre eficiência energética, impostos pela segunda lei da termodinâmica – não se pode “criar” energia, apenas convertê-la de uma forma para outra, e o processo de conversão sempre incluirá, por si só, uma certa quantidade de energia.

De facto, a população terrestre de menos de 8 mil milhões de habitantes humanos, subirá (sobretudo à custa do mundo em desenvolvimento) para 9 mil milhões em meados do século34. Assim, embora alguns vejam no Acordo de Paris um passo crucial para a mobilização geral no sentido de mitigar as emissões, é difícil fazer algo para reduzir a influência humana, tendo em conta a necessidade de uma redução de 100% apenas para estabilizar a concentração de CO2. É por isso que as metas do acordo não estão a ser atingidas. Elas são claramente irrealistas35, porque as energias renováveis estão muito longe de satisfazer a procura.

Por outro lado, mesmo que a transição para energias renováveis realmente aconteça nos países desenvolvidos, isso fará muito pouca diferença, se é que fará alguma, no clima: os Estados Unidos, por exemplo, emitem apenas 13% dos gases com efeito de estufa. É claro que muitos argumentarão que outros países seguirão o seu exemplo. Mas que probabilidade eles têm para fazer isso, quando a pressão sobre a necessidade de energia é tão alta e os benefícios das reduções tão baixos?

Planos B

À medida que a efetiva mitigação dos gases com efeito de estufa se mostrava cada vez mais difícil, cresceu o nosso interesse por estratégias diferentes para responder às alterações climáticas. Uma delas é a geoengenharia. A outra é, simplesmente, adaptarmo-nos ao clima em mudança. São estes os Planos B. Há pelo menos duas formas de contrariar o aquecimento do planeta. Uma é tornar a Terra um pouco mais reflexiva (aumentando o seu albedo), absorvendo um pouco menos de energia solar. Esta estratégia é denominada “Gestão da Radiação Solar” (SRM – Solar Radiation Management) e poderia ser adequada, quer o aquecimento seja natural ou resultado de influências humanas. A outra é retirar CO2 da atmosfera por forma a compensar as emissões provocadas pelo homem. Esta estratégia é conhecida por CDR – Carbon Dioxide Removal (“Remoção de Dióxido de Carbono”).

Comecemos pelo SRM. Há muitas maneiras de aumentar o albedo, incluindo tornar a superfície terrestre mais brilhante, com “telhados brancos” nos edifícios, plantações alteradas para se tornarem mais reflexivas, clarear o oceano com micro bolhas na superfície, e colocando refletores gigantes no espaço, só para citar algumas. No entanto, criar aerossóis na estratosfera pode ser a forma mais plausível de se conseguir um impacto global, à semelhança do que acontece de forma natural com as grandes erupções vulcânicas. Existe tecnologia suficiente para criar neblina estratosférica, incluindo aditivos do combustível para aviões ou projéteis de artilharia que dispersam o gás sulfeto de hidrogénio (que cheira a ovos podres) a elevadas altitudes. Isto não poderia ser feito de uma vez só. A neblina teria de ser renovada regularmente, anualmente ou a cada dois anos. A quantidade de enxofre que teríamos de enviar para a estratosfera seria apenas cerca de um décimo do que os seres humanos emitem quotidianamente em altitudes muito mais baixas, pelo que os impactos na saúde das pessoas seria mínimo. E os custos do projeto são tão reduzidos que um pequeno país ou mesmo um indivíduo abastado poderiam desenvolvê-lo sem problemas.

Mas a “Gestão da Radiação Solar” (SRM) também tem desvantagens significativas. Em primeiro lugar, se não se renovasse a neblina, a temperatura teria um salto súbito quando o efeito de arrefecimento terminasse (seria como fechar um chapéu de sol na praia). Em segundo lugar, aumentar o albedo não significa o fim do aquecimento provocado pelo efeito de estufa. Os gases com efeito de estufa provocam o aquecimento por todo o globo e a todo o tempo, enquanto as alterações no albedo apenas refrescam quando e onde a luz solar que reflete é significativa; não tem relevância à noite e é pouco significativo no inverno, particularmente nas latitudes mais elevadas. Ou seja, provavelmente os efeitos colaterais podem ser piores, pelo menos nalgumas zonas, que o aquecimento do que o aquecimento que combater. Apesar disso, o SRM merece mais investigação, e o Congresso dos Estados Unidos concedeu recentemente fundos para mais trabalho exploratório. Isso poderá conduzir-nos a uma melhor compreensão do sistema climático.

Em vez de tornarmos a Terra mais reluzente, podemos atenuar o aquecimento removendo diretamente o CO2 da atmosfera. A CDR – Carbon Dioxide Removal (“Remoção do Dióxido de Carbono”) retira o carbono da atmosfera em vez de (ou além de) se emitir uma menor quantidade. Há claras vantagens no CDR. Tornaria a questão de “de quem é este CO2” menos relevante e, logo, menos contenciosa. A atribuição de responsabilidades pelas emissões é um dos maiores impedimentos aos esforços internacionais para a sua redução. Também permitiria a exploração de combustíveis fósseis de acordo com a procura necessária ao desenvolvimento económico e tecnológico (embora alguns considerassem isso um retrocesso). Finalmente, uma vez que o CDR anula diretamente as emissões humanas, haveria poucos efeitos colaterais com que nos preocuparmos.

Não é difícil construir uma fábrica química destinada a capturar o CO2 diretamente da atmosfera. Esta tecnologia é similar àquelas usadas nos sistemas de exaustão das centrais nucleares, embora com o desafio adicional de ter de movimentar uma grande quantidade de ar através do sistema. Assim, as verdadeiras questões são acerca da escala e do custo. A quantidade de carbono que necessita de ser removida para reduzir significativamente a influência humana é assustadora. O consumo global de energia é medida em gigatoneladas (mil milhões de toneladas). Anualmente, o mundo consome cerca de 4,5 Gt de petróleo e 8 Gt de carvão. Assim, uma remoção anual de 10 Gt de CO2 (cerca de 1/3 das emissões atuais) requereria uma infraestrutura correspondente só para capturar e manusear o material. É desnecessário dizer que isto não seria barato. Estimativas recentes indicam que custaria até 100 dólares a captura e compressão de uma tonelada de CO2, todos os anos. E depois teríamos o problema adicional de saber que fazer com o CO2, após o removermos da atmosfera. O mundo de hoje utiliza apenas 0,2 Gt de CO2 a cada ano – cerca de 0,13 Gt para produzir ureia (fertilizante) e 0,08 Gt para aumentar a produção de petróleo (bombear CO2 nos campos de petróleo através de “poços de injeção” ajuda a mover o petróleo do subsolo até aos “poços de produção”). Estes usos correntes de CO2 são 100 vezes menores do que a quantidade que seria necessário remover da atmosfera. Infelizmente, é difícil imaginar novas utilizações.

Em vez de se usarem fábricas químicas para remover o dióxido de carbono da atmosfera, poderíamos usar a vegetação natural. Cerca de 200 Gt de carbono flui todos os anos para cima e para baixo, entre a superfície terrestre e a atmosfera, como parte de um ciclo sazonal, mais ou menos em equilíbrio. Ao extrair os combustíveis fósseis do solo, o seres humanos adicionam cerca de 8 Gt de carbono (na forma de 30 Gt de CO2) a esse ciclo anual. Cerca de metade desse excesso é absorvido através da fotossíntese. Se conseguíssemos induzir mais fotossíntese, mais CO2 seria removido. É por isso que existe o apelo à plantação de biliões de árvores para salvar o planeta. Mas embora possamos plantar árvores agora, o crescimento da floresta demora décadas. E temos ainda que compreender a quantidade exata de CO2 que as florestas absorveriam, e os impactos ecológicos derivados de vastas áreas de florestação.

Tem havido nos tempos mais recentes um investimento mais forte do governo americano nas tecnologias que permitem a remoção de dióxido de carbono. Sem dúvida que podem fazer-se progressos. Por exemplo, deverá ser possível modificar plantas geneticamente para melhor capturarem e armazenarem CO2 (embora seguramente se seguissem preocupações ambientais por causa da possível propagação dessas plantas modificadas). Mesmo assim, é difícil aceitar que isto seria feito na escala necessária para mitigar significativamente a influência humana sobre o clima.

Falemos agora de outro – talvez o principal – Plano B: a adaptação. São cinco as razões para pensarmos que a adaptação será a nossa principal resposta às alterações climáticas.

  1. A adaptação é agnóstica. Os seres humanos vêm desde há milénios se adaptando às alterações no clima, a maior parte do tempo sem terem a menor noção (além da vingança dos deuses) do que as causava. A informação que temos hoje ajudar-nos-á na adoção de estratégias, enquanto a sociedade pode adaptar-se às mudanças climáticas, quer sejam naturais ou provocadas pelo homem.
  2. A adaptação é proporcional. Medidas modestas podem ser reforçadas se as mudanças climáticas aumentarem ainda mais.
  3. A adaptação é local. A adaptação é naturalmente ajustável às diferentes necessidades e prioridades das populações locais. Isto torna-a também mais praticável politicamente. A adaptação local não requer consensos, compromissos e coordenação globais, que se têm até agora mostrado ilusórios nos esforços de mitigação.
  4. A adaptação é autónoma. As sociedades têm-no feito desde que a humanidade as formou – os holandeses, por exemplo, construíram e melhoraram diques durante séculos, resgatando terra ao Mar do Norte. A adaptação dar-se-á por si própria, quer a planeemos ou não.
  5. A adaptação é efetiva. As sociedades têm prosperado em ambientes que vão do Ártico aos Trópicos. A adaptação às alterações climáticas sempre contribuíram para reduzir o impacto líquido, relativamente à hipótese de não ser feito nada – ao fim e ao cabo, não iríamos alterar as nossas sociedades para tornar as coisas piores!

Como tantas outras coisas, uma adaptação efetiva é mais fácil nas sociedades mais ricas, que têm os recursos institucionais e económicos para atuarem de acordo com as circunstâncias. Os países menos desenvolvidos são mais frágeis. Assim, a melhor maneira de nos adaptarmos globalmente é encorajar o desenvolvimento económico dos países mais atrasados e fortalecer as suas instituições (tais como o estado de direito ou a capacidade de formular e executar estratégias nacionais). Nesse sentido, a tarefa de reforçar a adaptação acaba por ser a de diminuir a pobreza, o que seria sempre algo benéfico por muitas razões para lá das questões sobre o clima.

**************************************************

Notas:

1 Dado que o livro de Steven Koonin, aqui divulgado, foi editado em abril de 2021, o autor não tinha ainda conhecimento do AR6, o qual só seria publicado em 7 de agosto de 2022.

2 IPCC. “Managing the Risks of Extreme Events and Disasters to Advance Climate Change Adaptation (SREX).” IPCC, January 1, 2000. https://archive.ipcc.ch/report/srex/.

3 IPCC. “Special Report on the Ocean and Cryosphere in a Changing Climate.” January 1, 2000. https://www.ipcc.ch/srocc/.

4 IPCC. “Climate Change and Land.” Special Report on Climate Change and Land, January 1, 2000. https://www.ipcc.ch/srcel/.

5 US Global Change Research Program.

6 USGCRP. Climate Science Special Report: Fourth National Climate Assessment, Volume I. US Global Change Research Program, Washington, DC., 2017. https://science2017.globalchange.gov/.

7 USGCRP. “Fourth National Climate Assessment, Volume II: Impacts, Risks, and Adaptation in the United States: Summary Findings.” NCA4, January 1, 1970. https://nca2018.globalchange.gov/.

8 Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, artigo 1.

9 https://argo.ucsd.edu/about/.

10 https://iopscience.iop.org/article/10.1086/503322/meta.

11 Harde, Hermann. “Radiation Transfer Calculations and Assessment of Global Warming by CO2.” International Journal of Atmospheric Sciences, March 20, 2017. https://www.hindawi.com/journals/ijas/aip/9251034/.

12 Ao contrário do que geralmente se pensa, a maior parte do metano é libertado pela parte da frente dos animais e não pela parte de trás.

13 Como comparação, um cêntimo é apenas treze vezes mais largo do que espesso.

14 Schneider, T., J. Teixeira, C. Bretherton, et al. “Climate goals and computing the future of clouds”. Nature Clim Change 7 (2017): 3-5. https://doi.org/10.1038/nclimate3190.

15 Bulletin of the American Meteorological Society 98 (2017): 589-602. https://journals.ametsoc.org/bams/article/98/3/589/70022/The-Art-and_Science-of-Climate-Model-Tuning.

16 Entretanto publicado, mas ainda no prelo à data da publicação de Unsettled, em abril de 2021. https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/.

17 IPPC. AR5 WGI, 887.

18 Sherwood, S.C., M .J. Webb, J.D. Annan, K.C. Armour, P.M. Forster, J.C. Hargreaves, et al. “An assessment of Earth’s climate sensitivity using multiple lines of evidence.” Reviews of Geophysics 58 (2020): e2019RG000678. https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1029/2019RG000678.

19 World Meteorological Society. Frequently Asked Questions (FAQ). Accessed November 20, 2020. https://www.wmo.int/pages/prog/wcp/ccl/faq/faq_doc_en.html.

20 https://www.weather.gov/mfl/saffirsimpson.

21 https://www.ncdc.noaa.gov/climate-information/extreme-events/us-tornado-climatology/trends.

22 https://journals.ametsoc.org/waf/article/17/3/354/40126/Deaths-in-the-3-May-1999-Oklahoma-City-Tornado.

23 https://journals.ametsoc.org/bams/article/99/4/689/70305/Global-Precipitation-Trends-across-Spatial-Scales.

24 https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2012GL05288.

25 Global Sea Level Rise: What it Means to You and Your Business” Zurich.com, May 21, 2019.

26 Hille, Karl. “Rising Carbon Dioxide Levels Will Help and Hurt Crops.” NASA, May 3, 2016. https://www.nasa.gov/feature/goddard/2016/nasa-study-rising-carbon-dioxid-levels-will-help-and-hurt-crops.

27 Dusenge, M. E., A. G. Duarte, and D. A. Way. “Plant carbon metabolism and climate change: elevated CO2 and temperature impacts on photosynthesis, photorespiration and respiration”. New Phytologist 221 (2019): 32-49.

28 www. gutenberg.org/files/1270/1270-h/1270-h.htm.

29 Pilke, Roger. “How Billionaires Tom Steyer and Michael Bloomberg Corrupted Climate Science.” Forbes, January 2, 2020.

30 Lomborg, Bjorn. False Alarm: How Climate Change Panic Costs Us Trillions, Hurts the Poor, and Fails to Fix the Planet. New York: Basic Books, 2020.

31 McNutt, Marcia, C. D. Mote Jr., Victor Z. Dzau. “National Academies Presidents Affirm the Scientific Evidence of Climate Change.” The National Academies of Sciences, Engeneering, and Medicine, June 18, 2019.

32 Handler, Philip. “Public Doubts About Science”. Science, June 6, 1980.

33 Feynman, Richard P. “Cargo Cult Science”. Caltech 1974 commencement adress, June 1974.

34 O desenvolvimento dos países industrialmente mais atrasados, combinado com o crescimento populacional, implicará que a procura energética aumente 50% em 2050.

35 Por exemplo, muitos poderão ficar surpreendidos, mas a quantidade de energia proveniente da queima de madeira (a energia por excelência do século XIX) é a mesma hoje do que a utilizada no tempo da Guerra Civil Americana.

**************************************************

Biblioteca Pessoal

Karl Popper é o autor mais representado nesta biblioteca sempre em atualização.
AutorTítuloEditora/LocalAno/Class.
Abela, Joseph S.Malta, a Brief HistoryBDL Publish., Valletta2014/H
Abreu, Maurício & Fernandes, José ManuelRios de PortugalCírculo de Leitores, Lisboa1990/V
Abreu, Pio J. L.A Queda dos MachosD. Quixote, Lisboa2016/I
Aczel, Amir D.O Último Teorema de FermatGradiva, Lisboa2004/C
Adorno, FrancescoSócratesEdições 70, Lisboa1986/F
Afonso, AnicetoGrandes Batalhas da História de Portugal VII, 1914-1918 Verso da História, Vila do Conde2007/H
Afonso, JoãoEntender de Vinho Esfera dos Livros, Lisboa2010/G
Agamben, GiorgioA Potência do PensamentoRelógio D’ Água, Lisboa2013/F
Agostinho, SantoO Livre ArbítrioFac. Filosofia, Braga1986/F
Agualusa, José EduardoA Sociedade dos Sonhadores InvoluntáriosQuetzal, Lisboa2017/FL
Alarcão, JorgePortugal RomanoVerbo, Lisboa1987/H
Alcoforado, MarianaCartas PortuguesasL & PM, Porto Alegre2007/I
Aleksiévitch, SvetlanaO Fim do Homem SoviéticoC.ª das Letras, São Paulo2017/H
Alencar, José deSenhoraMartin Claret, São Paulo2001/FL
Alfaro, CatarinaAmadeo de Souza-Cardoso – XX DessinsGulbenkian, Lisboa2016/A
Almeida, António Gomes deÀ Roda do Tacho – Volta a Portugal em CulináriaTV-Guia Editora, Lx1994/G
Almeida, Djaimilia Pereira deMaremotoRelógio D’Água, Lisboa2021/FL
Almeida, Fialho deOs GatosExpo 98 S. A., Lisboa1998/V
Almeida, Onésimo TeotónioA Obsessão da PortugalidadeQuetzal, Lisboa2017/I
Almodóvar, Miguel ÁngelO Segundo CérebroVogais, Amadora2019/C
Alves, CastroO Navio NegreiroExpo 98 S. A., Lisboa1997/P
Alves, João Miguel (ed. e rev.)O Livro das 1001 Noites (7 volumes)Alêtheia, Lisboa2017/FNL
Amado, JorgeContrabandistaExpo 98 S. A., Lisboa1998/FL
Amado, JorgeCapitães da AreiaC.ª das Letras, São Paulo2015/FL
Amado, JorgeA Morte e a Morte de Quincas Berro d’ ÁguaC.ª das Letras, São Paulo2015/FL
Amado, JorgeO País do CarnavalDom Quixote, Lisboa2016/FL
Amado, JorgeTieta do AgresteC.ª das Letras, São Paulo2020/FL
Amaral, LucianoEconomia Portuguesa, as Últimas DécadasFFMS, Lisboa2010/E
Amis, MartinA Zona de InteresseQuetzal, Lisboa2015/FNL
Anchieta, José de Capitania de São VicenteExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Andersen, Hans ChristianA SereiazinhaExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Andrade, Carlos DrummondPoesia e Prosa- Volume únicoNova Aguilar, Rio de Janeiro1979/P-FL
Andrade, Carlos DrummondAntologia PoéticaRecord, Rio de Janeiro1988/P
Andrade, Carlos DrummondOs Dias LindosRecord, Rio de Janeiro2008/FL
Andrade, EugénioAntologia Pessoal da Poesia PortuguesaCampo das Letras, Porto2000/P
Andrade, OswaldSerafim Ponte GrandeGlobo, São Paulo2004/FL
Anica, Arnaldo CasimiroTavira e o seu Termo – Memorando históricoCMT, Tavira1993/H
Antunes, António LoboMemória de ElefanteObjetiva, Rio de Janeiro2006/FL
Antunes, António LoboO meu Nome é LegiãoD. Quixote, Lisboa2007/FL
Antunes, João LoboNuma Cidade FelizGradiva, Lisboa1999/I
Antunes, João LoboMemória de Nova Iorque e Outros EnsaiosGradiva, Lisboa2002/I
Antunes, ManuelLegómena – Textos de Teoria e Crítica LiteráriaINCM, Lisboa1987/I
Arbex, DanielaHolocausto BrasileiroGeração Edit., São Paulo2013/H
Arenas, ReinaldoAntes que AnoiteçaEdições Asa, Porto1993/B
Arendt, HannahA Vida do Espírito – Volume II, QuererInst. Piaget, Lisboa2000/F
Arendt, HannahEichmann em JerusalémC.ª das Letras, São Paulo2013/H
Arendt, HannahOrigens do TotalitarismoC.ª das Letras, São Paulo2013/F-H
Arendt, HannahHomens em Tempos SombriosC.ª das Letras, São Paulo2013/B
Aron, RaymondEnsaio sobre as LiberdadesBookbuilders, Silveira2021/F
Aslan RezaO ZelotaQuetzal, Lisboa2014/B-H
Assembleia ConstituinteConstituição da República Portuguesa – 7ª revisãoAssembleia da República, Lisboa2016/I
Assis, Machado deObras Completas – Volume IIINova Aguilar, Rio de Janeiro1979/FL
Assis, Machado deContos EscolhidosNúcleo, São Paulo1996/FL
Assis, Machado deMemórias Póstumas de Brás CubasL & PM, Porto Alegre1997/FL
Assis, Machado deEsaú e Jacó/Memorial de AiresNova Cultural, São Paulo2003/FL
Assis, Machado deDom CasmurroCiranda Cult., São Paulo2008/FL
Assis, Machado deHelenaCiranda Cult., São Paulo2008/FL
Assis, Machado deA Mão e a LuvaCiranda Cult., São Paulo2008/FL
Assis, Machado deO AlienistaL & PM, Porto Alegre2011/FL
Atkins, PeterComo Surgiu o Universo Gradiva, Lisboa2018/C
Atwood, MargaretThe Handmaid’s TaleVintage, London1985/FNL
Atwood, MargaretO Conto da AiaRocco, Rio de Janeiro2017/FNL
Austen, JaneRazão e SensibilidadeNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Avillez, JoséReceitas em Grande (4 volumes)Expresso, Lx2016/G
Bachelar, GastonO Novo Espírito CientíficoEdições 70, Lisboa1986/F
Baldwin, JamesO Quarto de GiovanniC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Balibar, FrançoiseEinstein: uma leitura de Galileu a NewtonEdições 70, Lisboa1988/C
Balzac, Honoré deUm Drama à Beira-MarExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Balzac, Honoré deA Mulher de Trinta AnosNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Bandeira, ManuelEstrela da Vida InteiraNova Fronteira, Rio de Janeiro1993/P
Bandeira, ManuelSeleta de ProsaNova Fronteira, Rio de Janeiro1997/I
Baranowski, ShelleyImpério Nazista Edipro, São Paulo2014/H
Barros, Elaine (et al)501 Ilhas ImperdíveisLafonte, São Paulo2012/I
Barros, Jorge Um Olhar PortuguêsCírculo de Leitores, Lisboa1991/A-V
Bastiat, FrédéricO Estado e outros EnsaiosLetras Errantes2019/E
Baudouin, JeanKarl PopperEdições 70, Lisboa1992/F
Beccaria, CesareDos Delitos e das PenasGulbenkian, Lisboa2017/I
Beevor, AntonyEstalinegradoBertrand, Lisboa2014/H
Beijl, Karina Zegers dePessoas Altamente SensíveisEsfera dos Livros, Lisboa2020/I
Belchior, Maria de Lourdes (et al)Antologia de Espirituais PortuguesesINCM, Lisboa1994/I
Bellow, SaulAs Aventuras de Augie MarchQuetzal, Lisboa2010/FNL
Bellow, SaulMorrem Mais de MágoaQuetzal, Lisboa2010/FNL
Bellow, SaulJerusalém, Ida e VoltaTinta da China, Lisboa2016/V
Bento-Gonçalves, AntónioOs Incêndios Florestais em PortugalFFMS, Lisboa2021/I
Berlin, IsaiahKarl MarxEdições 70, Lisboa2020/B
Bernstein, JeremyAlbert Einstein e as Fronteiras da FísicaClaro Enigma, São Paulo2013/C
Bessa-Luís, AgustinaEmbarque em BrindisiExpo 98 S. A., Lisboa1998/FL
Beyer, Robert T. (org.)Fundamentos da Física NuclearGulbenkian, Lisboa2004/C
Blasco-Ibañez, VicenteA Barca AbandonadaExpo 98 S. A., Lisboa1998/FNL
BocagePoesia EróticaAlêtheia, Lisboa2017/P
BoccaccioDecamarãoNova Cultural, São Paulo2002/FNL
Bordalo, Francisco MariaO Galeão EnxobregasExpo 98 S.A., Lisboa1997/FL
Borges, Jorge LuisObras Completas I (1923-1949)Círc. Leitores, Lisboa1998/I
Borges, Jorge LuisObras Completas II (1952-1972) Círc. Leitores, Lisboa1998/I
Borges, Jorge LuisObras Completas III (1975-1985) Círc. Leitores, Lisboa1998/I
Borges, Jorge LuisObras Completas IV (1975- 1988) Círc. Leitores, Lisboa1998/I
Boris, FaustoHistória Concisa do BrasilEDUSP, São Paulo2012/H
Born, MaxFísica AtómicaGulbenkian, Lisboa1986/C
Bosi, AlfredoCéu, InfernoEditora 34, São Paulo2003/I
Botelho, Paulo CésarCinco Viagens de JangadaEd. Autor, Recife1999/V
Botton, Alain de Como Pensar mais Sobre SexoLua de Papel, Alfragide2019/I
Bouchey, PhilippeO Guia do RockPergaminho, Lisboa1991/A
Bougainville, Louis-Antoine deViagem de Volta ao Mundo…Expo 98 S. A., Lisboa1998/V
Bourdon, Albert-AlainHistória de PortugalTexto & Grafia, Lisboa2010/H
Braga, Maria OndinaO Destino Viaja a BordoExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Branco, Camilo CasteloAmor de PerdiçãoAlêtheia, Lisboa2016/FL
Branco, Camilo CasteloA Queda dum AnjoAlêtheia, Lisboa2016/FL
Branco, Camilo CasteloEusébio MacárioAlêtheia, Lisboa2016/FL
Branco, Camilo CasteloA Brasileira de PrazinsAlêtheia, Lisboa2016/FL
Branco, Camilo CasteloNovelas do MinhoAlêtheia, Lisboa2016/FL
Branco, Camilo CasteloO que Fazem as MulheresAlêtheia, Lisboa2016/FL
Branco, Camilo CasteloO Retrato de RicardinaAlêtheia, Lisboa2016/FL
Branco, Camilo CasteloVinte Horas de LiteiraAlêtheia, Lisboa2016/FL
Branco, Camilo CasteloAmor de PerdiçãoOp. Omnia, Guimarães2017/FL
Branco, Camilo CasteloCoração, Cabeça e EstômagoAlêtheia, Lisboa2017/FL
Brandão, RaulA Ilha AzulExpo 98 S. A., Lisboa1996/V
Brandão, RaulMulheresExpo 98 S. A., Lisboa1998/V
Brandão, RaulAs Ilhas Desconhecidas – Notas e paisagensQuetzal, Lisboa2011/V
Brasil, AssisA Chave do Amor e outras histórias piauiensesImago, Rio de Janeiro2007/FL
Brasil, AssisA Fala da Cor na Dança do Beija-FlorC.ª Editora Nacional, São Paulo2005/FL
Brasil, AssisUm Poeta Chamado GriloNova Aliança, Teresina2009/FL
Brasil, AssisNemo, o Peixinho FilósofoNova Aliança, Teresina2009/FL
Brasil, AssisO Menino que Vendeu sua ImagemNova Aliança, Teresina2010/FL
Brasil, AssisOs que Bebem como os CãesRenoir, Teresina2010/FL
Braun, MichaelAngela Merkel Livros Horizonte, Lisboa2017/B
Bregman, RutgerUtopia para Realistas Bertrand, Lisboa2018/I
Brennan, JasonCapitalismo. Porque não?Gradiva, Lisboa2016/F
Breyner, Sophia de MelloEra uma vez uma Praia AtlânticaExpo 98, S. A., Lisboa1997/I
Brito, Bernardo Gomes deHistória Trágico-Marítima – Naufrágio de SepúlvedaExpo 98 S. A., Lisboa1996/H
Brito, Maria FilomenaIgreja de São RoqueSanta Casa, Lisboa2008/A
Brito, Miguel Nogueira dePropriedade Privada: Entre o Privilégio e a LiberdadeFFMS, Lisboa2010/I
Brito, Raquel Soeiro de (coord.)Atlas de PortugalInst. Geográfico Portugal, Lisboa2005/C
Brizendine, LouannO Cérebro FemininoAlêtheia, Lisboa2007/C
Bronowski, JacobEl Ascenso del HombreCapitán Swing, Madrid2016/C
Brontë, EmilyO Morro dos Ventos UivantesNova Cultural, São Paulo2002/FNL
Brooke-Hitching, EdwardO Atlas DouradoBertrand, Lisboa2019/V
Brotas, AntónioO Essencial sobre a Teoria da RelatividadeINCM, Lisboa1988/C
Buarque, ChicoBudapesteC.ª das Letras, São Paulo2003/FL
Buckley Jr, JamesWho Was Ernest Shackleton?Penguin, New York2013/V
Bueno, EduardoBrasil: Terra à VistaL &PM, Porto Alegre2013/H
Bukowski, CharlesFctótumL & PM, Porto Alegre2012/FNL
Burnett, DeanO Cérebro Idiota Presença, Lisboa2017/C
Burnett, Frances HodgsonO Jardim SecretoPrincipis, São Paulo2019/FNL
Burnie, DavidComo Funciona a NaturezaQuetzal, Lisboa1991/C
Cadilhe, GonçaloFernão de Magalhães- A Viagem (2 volumes)Alêtheia, Lisboa2019/H-V
Cain, SusanO Poder dos QuietosAgir, Rio de Janeiro2012/I
Calado, MariaRoteiros Republicanos – LisboaQuidNovi, Lisboa2010/H
Caldeira, Jorge101 Brasileiros que Fizeram HistóriaEstação Brasil, Rio de Janeiro2016/B-H
Callado, AntonioA Madona de CedroNova Fronteira, Rio de Janeiro2004/FL
Calvino, ItaloSeis Propostas para o Próximo MilénioTeorema, Lisboa1994/I
Camões, LuísOs LusíadasImprensa N. de Lisboa1928/P
Camões, LuísLírica Completa I INCM, Lisboa1994/P
Camões, LuísLírica Completa II INCM, Lisboa1994/P
Camões, LuísLírica Completa III INCM, Lisboa1994/P
Camões, LuísOs Lusíadas – Ilha dos AmoresExpo 98 S.A., Lisboa1996/P
Camões, LuísSonetosAlêtheia, Lisboa2017/P
Campos, Álvaro deOde MarítimaExpo 98 S. A., Lisboa1996/P
Campos, Álvaro deAntologia Poética – poemas escolhidosBertrand, Lisboa2018/P
Campos, FernandoA Sala das PerguntasCírculo de Leitores, Lisboa2000/FL
Camus, AlbertO Avesso e o Direito/ Discursos da SuéciaLivros do Brasil, Lisboa2007/I
Capote, TrumanA Sangue FrioLivros do Brasil, Lisboa2005/FNL
Cardim, Joaquim CanasAr do MarExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Carey, PeterO Japão é um Lugar EstranhoTinta da China, Lisboa2018/V
Carles, JulesAs Origens da VidaEdições 70, Lisboa1984/C
Carlos, JorgeO Português ou Escravos da EsperançaCampo das Letras, Porto2003/FL
Carroll, LewisAlice no País das Maravilhas (2 vol.)Relógio D’ Água, Lisboa2010/FNL
Carroll, LewisThrough the Looking GlassHarper Collins, London2010/FNL
Carroll, LewisAlice do Outro Lado do Espelho (2 vol.)Relógio D’ Água, Lisboa2010/FNL
Carneiro, Mário de SáPoesiaCír. Leitores, Lisboa1990/P
Carvalho, Ana Margarida deQue Importa a Fúria do MarTeorema, Alfragide2013/FL
Carvalho, BernardoNove NoitesC.ª das Letras, São Paulo2015/FL
Carvalho, João Renôr Ferreira A guerra no Maranhão: 1614-1615Ethos, Teresina2014/H
Carvalho, José CândidoO Coronel e o LobisomemRocco, Rio de Janeiro2000/FL
Carvalho, Mário deO Capitão PassanhaExpo 98 S. A., Lisboa1977/FL
Carvalho, Mário deUm Deus Passando Pela Brisa da TardeCír. Leitores, Lisboa1999/FL
Cassirer, ErnstEnsaio sobre o HomemMartins Fontes, São Paulo1994/F
Cassirer, ErnstEnsaio sobre o HomemGuimarães Edit., Lisboa1995/F
Castro, Ferreira deO Senhor dos NavegantesExpo 98 S. A., Lisboa1998/FL
Castro, Jerónimo Osório Mar ImplacávelExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Castro, SilvioA Carta de Pero Vaz de CaminhaL & PM, Porto Alegre2011/H
Casula, Francesco CesareHistoria de CerdeñaCarlo Delfino Edit., Sassari2000/H
Cervantes, Miguel de Dom Quixote (2 vol.)Civilização, Porto1999/FNL
Chaitin, Gregory J.Conversas com um Matemático Gradiva, Lisboa2003/C
Chandler, RaymondContos – As Pérolas são um Estorvo (e outras histórias)Afrontamento, Porto1987/FNL
Chaplin, CharlesMy AutobiographyPenguin Books, London1976/B
Châtelet, Albert & Groslier, Bernard (org.)História da Arte – Larousse (3 vol.)Círculo de Leitores, Lisboa1990/A
Chatfield, TomComo Aproveitar ao Máximo a Era DigitalLua de Papel, Alfragide2019/I
Chaves, NeyA Saúde dos Seus Olhos Imago, Rio de Janeiro2002/I
Chonghuo, TianTratado de Medicina ChinesaRoca, São Paulo1993/I
Churchill, WinstonMemórias da II Guerra Mundial (2 vol.)Nova Fronteira, Rio de Janeiro2012/B-H
Cipolla, CarloAs Leis Fundamentais da Estupidez HumanaPadrões Culturais, Lisboa2014/H
Clarkson, TimThe Makers of ScotlandBirlinn Ltd, Edinburgh2013/H
Cláudio, MárioO Último Faroleiro de Muckle FluggaExpo 98 S. A., Lisboa1998/FL
Cobb, MatthewUma História do CérebroTemas e Debates, Lisboa2021/C
Cocco, MiguelMude a sua Vida com a Auto-HipnoseLua de Papel, Alfragide2015/I
Coetzee, J.M.JuventudeC.ª das Letras, São Paulo2013/FNL
Coetzee, J.M.DesonraC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Cognetti, PaoloAs Oito MontanhasD. Quixote, Lisboa2017/FNL
Coleridge, Samuel TaylorRima do Velho MarinheiroExpo 98 S. A., Lisboa1998/P
Condemi, Silvana/Savatier, FrançoisÚltimas Notícias do Sapiens Temas e Debates, Lisboa2019/C
Conrad, JosephMocidade – Uma narrativaExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Conrad, JosephO Companheiro ClandestinoExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Cornford, F.M.Principium Sapientiae, As Origens do Pensamento Filosófico GregoGulbenkian, Lisboa1989/F
Correia, Clara PintoA Pega AzulExpo 98 S. A., Lisboa1996/FL
Correia, Clara PintoO Mistério dos MistériosRelógio D’ Água, Lisboa1999/C
Correia, Joaquim HortaCrónicas de BombordoC.M. Silves2006/I
Correia, Pedro & Gonçalves, RodrigoPolítica de A a ZContraponto, Lisboa2017/D-I
Cortesão, JaimeOs Descobrimentos Portugueses (8 vol.)Alêtheia, Lisboa2016/H
Costa, Vasco Pereira daMemória BreveInst. Açoriano de Cultura, A. do Heroísmo1987/I
Couto, MiaMar me QuerExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Couto, MiaA Confissão da LeoaCaminho, Alfragide2013/FL
Crane, StephenO BoteExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Cruz, AfonsoJesus Cristo Bebia CervejaAlfaguara, Lisboa2015/FL
Cruz, AfonsoFloresPenguin, Lisboa2015/FL
Cruz, AfonsoO Vício dos LivrosC.ª das Letras, Lisboa2021/I
Cristiano, Diniz (org.)Fico Besta Quando me Entendem – entrevistas com Hilda HilstGlobo, São Paulo2013/I
Cruz, Gilda O. (org.)Clássica I – Bach/Vivaldi/HändelOrbis, Barcelona1993/A
Cruz, Gilda O. (org.)Clássica II – Haydn/Mozart/RossiniOrbis, Barcelona1993/A
Cruz, Gilda O. (org.)Clássica III – Beethoven/SchubertOrbis, Barcelona1993/A
Cruz, Gilda O. (org.)Clássica IV – Chopin/Mendelssohn/
Schumann
Orbis, Barcelona1993/A
Cruz, Gilda O. (org.)Clássica V – Berlioz/Liszt/Brahms/
Dvorák
Orbis, Barcelona1993/A
Cruz, Gilda O. (org.)Clássica VI – Tchaikovsky/Mahler/
Bruckner/Verdi
Orbis, Barcelona1993/A
Cruz, Gilda O. (org.)Clássica VII – Debussy/Ravel/Sibelius/
Albéniz/Granados/Falla
Orbis, Barcelona1993/A
Cruz, Gilda O. (org.)Clássica VII – Bartok/Prokofiev/
Schostakovitch/Strauss/
Stravinsky
Orbis, Barcelona1993/A
Cunha, Celso & Cintra LindleyNova Gramática do Português ContemporâneoJoão Sá da Costa, Lisboa1996/D
Cunha, Tiago e PittaPortugal e o MarFFMS, Lisboa2011/I
Dacosta, LuísaMarés de MarExpo 98 S.A., Lisboa1997/FL
Damásio, AntónioO Erro de DescartesEuropa-América, Lisboa1995/C
Damásio, AntónioE o Cérebro Criou o HomemC.ª das Letras, São Paulo2011/C
D’ Arcos, Joaquim PaçoO Navio dos MortosExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Darwin, CharlesUma Viagem a Bordo do BeagleExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Darwin, CharlesAutobiografiaRelógio D’ Água, Lisboa2004/B
Darwin, CharlesA Origem das EspéciesEscala, São Paulo2009/C
Davies, Ben (project editor)English for Everyone – English Grammar GuideDorling Kinderslay, London2016/D
Davies, HunterThe Beatles Lyrics Weidenfeld & Nicolson, London2017/A
Dawkins, RichardO Relojoeiro CegoEdições 70, Lisboa1988/C
Dawkins, RichardA Desilusão de DeusCasa das Letras, Cruz Quebrada2007/C
Dawkins, RichardA Grande História da EvoluçãoC.ª das Letras, São Paulo2010/C
Dawkins, RichardEl Gen EgoístaSalvat, Barcelona2011/C
Dawkins, RichardO Gene EgoístaGradiva, Lisboa2021/C
Defoe, DanielMoll FlandersNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Deleuze, GillesA Filosofia Crítica de KantEdições 70, Lisboa1983/F
Delius, Christoph (et al)História da FilosofiaKönemann, Colónia2001/F
DescartesDiscurso do MétodoEuropa-América, Lisboa1977/F
Dessinga, Giscard KevinKarl Popper – une épistémologie de la precarité et du combat
L’ Harmattan, Paris
2022/F
Deutsch, DavidO Início do InfinitoGradiva, Lisboa2013/C-F
Diamond, JaredArmas, Germes e Aço Temas e Debates, Lisboa2015/I
Diamond, JaredComo se Renovam as Nações Temas e Debates, Lisboa2019/I
Dias, GonçalvesI-Juca-Pirama/Os Timbiras/Outros PoemasMartin Claret, São Paulo2003/P
Dinis, JúlioO Canto da SereiaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Dobson, SteveHoteles InsólitosJonglez, Madrid2008/A
Domenig, StephanA Cura AlcalinaVogais, Amadora2017/I
Dostoiévski, FiódorOs Irmãos Karamázov (2 vol.)Editora 34, São Paulo2012/FNL
Dostoiévski, FiódorO JogadorPresença, Lisboa2001/FNL
Dostoiévski, FiódorCrime e CastigoPresença, Lisboa2001/FNL
Dostoiévski, FiódorCrime e CastigoEditora 34, São Paulo2021/FNL
Dourado, AutranÓpera dos MortosFrancisco Alves, Rio de Janeiro1998/FL
Doyle, Arthur ConanThe Adventures of Sherlock HolmesCanterbury Classics, S. Diego2012/FNL
Doyle, Arthur ConanO Cão dos BaskervillesEuropa-América, Lisboa2007/FNL
Duarte, Luis MiguelGrandes Batalhas da História de Portugal II, 1383-1389Verso da História, Vila do Conde2007/H
Durant, PhilippeJack NicholsonPergaminho, Lisboa1990/B
Ebbesen, Lisette/Saabye, MarianneKroyer – An International PerspectiveThe Hirschsprung Collection, Copenhagen2012/A
Eco, HumbertoA Misteriosa Chama da Rainha LoanaGradiva, Lisboa2018/FNL
Eco, HumbertoO Pêndulo de FoucaultGradiva, Lisboa2016/FNL
Eco, UmbertoConstruir o Inimigo, e outros Escritos OcasionaisGradiva, Lisboa2011/I
Eco, UmbertoHistória das Terras e Lugares LendáriosRecord, São Paulo2013/I
Elkaïm, MonyComo Sobreviver à Própria FamíliaSinais de Fogo, Lisboa2007/C
Egan, SeanBob DylanRobinson, London2017/B
Einstein, AlbertA Teoria da RelatividadeL & PM, Porto Alegre2015/C
Endo, ShusakuSilêncioD. Quixote, Alfragide2010/FNL
Engels, FriedrichA Origem da Família, da Propriedade Privada e do EstadoLafonte, São Paulo2012/I
ErasmoElogio da LoucuraNova Fronteira, Rio de Janeiro2011/F
Escudero, Lorenzo de la Plaza (coord.)Dicionário Visual de ArquiteturaQuimera, Lisboa2014/A-D
EsopoFábulas CompletasCosac Naify, São Paulo2015/FNL
Espanca, FlorbelaSonetosEuropa-América, Lisboa1988/P
Estanque, ElísioA Classe Média: Ascensão e DeclínioFFMS, Lisboa2012/I
Eugênio, J.K./Silva, Halan (org.)Cantiga de Viver – Leituras sobre H. DobalF. Quixote, Teresina2007/P
Falcão, Pedro BragaPalavras que Falam por Nós Clube do Autor, Lisboa2014/I
Faria, AlmeidaO ConquistadorCír. Leitores, Lisboa1994/FL
Faulkner, WilliamO Som e a FúriaC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Faulkner, WilliamLuz em AgostoC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Farndon, JohnComo Funciona a TerraQuetzal, Lisboa1992/C
Ferguson, NiallA Grande DegeneraçãoPlaneta, São Paulo2013/I
Ferrante, ElenaA Amiga GenialBiblioteca Azul, S. Paulo2015/FNL
Ferrante, ElenaHistória do Novo SobrenomeBiblioteca Azul, S. Paulo2016/FNL
Ferrante, ElenaHistória de Quem Foge e de Quem FicaBiblioteca Azul, S. Paulo2016/FNL
Ferrante, ElenaHistória da Menina PerdidaBiblioteca Azul, S.Paulo2017/FNL
Ferrante, ElenaA Vida Mentirosa dos AdultosRelógio D’ Água, Lisboa2020/FNL
Ferrante, ElenaDias de AbandonoBiblioteca Azul, Rio de Janeiro2021/FNL
Ferrante, ElenaUm Amor IncômodoIntrínseca, Rio de Janeiro2017/FNL
Ferraz, Guilherme IvensManual de PilotagemBertrand, LisboaI
Ferreira, Ana Maria PereiraO Essencial sobre Portugal e a Origem da Liberdade dos MaresINCM, Lisboa1988/H
Ferreira, José MedeirosPortugal na Conferência de Paz, Paris 1919Quetzal, Lisboa1992/H
Ferreira, VergílioUma Esplanada sobre o MarExpo 98 S. A., Lisboa1996/FL
Ferry, LucO Homem-Deus ou o Sentido da VidaAsa, Porto1997/F
Feynman, Richard P.QED – A Estranha Teoria da Luz e da MatériaGradiva, Lisboa1988/C
Feynman, Richard P. QED – A Estranha Teoria da Luz e da Matéria Gradiva, Lisboa2015/C
Feynman, Richard P.“Está a Brincar Sr. Feynman!”Gradiva, Lisboa1988/B-C
Fielding, HenryO Diário de uma Viagem a LisboaExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Figueiredo, Tomaz de Dez Quilos de TrutasExpo 98 S. A., Lisboa1998/FL
Fischer, Luís AugustoCoruja, Qorpo-Santo & JacaréL & PM, Porto Alegre2013/B
Fitzgerald, F. ScottSuave é a NoiteNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Flaubert, GustavMadame BovaryNova Cultural, São Paulo2002/FNL
Follett, KenA Queda dos GigantesPresença, Barcarena2016/FNL
Fonseca, RubemContos ReunidosC.ª das Letras, São Paulo2004/FL
Fonseca, RubemAgostoNova Fronteira, Rio de Janeiro2012/FL
Fontaine, Jean de LaFábulasTemas e Debates, Lisboa2018/FNL
Fordham, JohnJazz – History, Instruments, Musicians, RecordingsDorling Kindersl, London1993/A
Franco, Gustavo H. B.As Leis Secretas da EconomiaZahar, Rio de Janeiro2012/E
Freyre, GilbertoCasa-Grande & SenzalaGlobal, São Paulo2006/C-H
Friedman, GeorgeOs Próximos 100 Anos – Uma Previsão para o Século XXIExpresso, Lisboa2018/I
Frith, ChrisMaking Up the Mind Blackwell Publ., Oxford2007/C
Fuego, Andréa DelOs MalaquiasPorto Editora, Porto2012/FL
Furtado, CelsoFormação Econômica do BrasilC.ª das Letras, São Paulo2006/E
Furtado, PeterHistory Day by DayThames & Hudson, London2019/H
Galor, OdedA Jornada da HumanidadeLua de Papel, Alfragide2022/E
Garabatus, Frey IoannesAs QuybyrycasExpo 98 S. A., Lisboa1997/P
Garcia, CristinaCacela, Terra de LevanteCâmara VRSA2008/V
Garrett, AlmeidaFrei Luís de SousaAlêtheia, Lisboa2017/FL
Garschagen, BrunoPor que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o EstadoRecord, Rio de Janeiro2015/I
Gaspar, CarlosA Balança da EuropaAlêtheia, Lisboa2017/H
Gee, HenryA Vida na Terra – Uma Breve HistóriaBertrand, Lisboa2022/B
Gerwarth, Robert/Manela, Erez (org.)Impérios em Guerra – 1911-1923Dom Quixote, Lisboa2014/H
Goff, Jacques LeA Europa Explicada aos JovensGradiva, Lisboa2007/I
Gógol, NicolaiAlmas MortasNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Gógol, NicolaiO RetratoL & PM, Porto Alegre2012/FNL
Gorbatchov, MikhailAnte-MemóriasAsa, Lisboa1994/B
Gouillou, PhilippePorque é que as Mulheres dos Ricos são Belas?Europa-América, Lisboa2004/C
Golding, WilliamO Deus das MoscasVega, Lisboa1997/FNL
Gomes, Bertílio & Gomes, Gabriel e ValentimAs Nossas Receitas para Cozinhar em Família – IReverso, Lisboa2017/G
Gomes, ConceiçãoOs Atrasos da JustiçaFFMS, Lisboa2011/I
Gomes, DiasO Pagador de PromessasBertrand Brasil, Rio de Janeiro2003/FL
Gomes, Virgílio NogueiroTratado do Petisco e das Grandes Maravilhas da Cozinha NacionalMarcador, Barcarena2013/G
Gowers, TimothyMatemática, Uma Breve IntroduçãoGradiva, Lisboa2008/C
Grass, GünterThe Tin DrumVintage, London1998/FNL
Grayling, A. C.For the Good of the WorldOneworld, London2022/I
Greene, GrahamO Fator HumanoL & PM, Porto Alegre2008/FNL
Greene, GrahamO Nosso Agente em HavanaD. Quixote, Alfragide2017/FNL
Gribbin, JohnÀ Procura do Gato de Schrödinger Presença, Lisboa1988/C
Griffiths, BrianInflação: o Preço da ProsperidadePioneira, São Paulo1981/E
Grimal, PierreMitologia GregaL & PM, Porto Alegre2013/I
Grossman, VassiliTudo PassaD. Quixote, Alfragide2013/FNL
Guimarães, BernardoA Escrava IsauraMartin Claret, São Paulo2003/FL
Gullar, FerreiraToda PoesiaJosé Olympio, Rio de Janeiro2004/P
Haggard, RiderAs Minas de SalomãoL & PM, Porto Alegre2011/FNL
Hamilton, EdithA MitologiaD. Quixote, Lisboa1983/I
Hakluyt, RichardViagem de Sir Francis DrakeExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Hakluyt, RichardViagens do Capitão Martin FrobisherExpo 98 S. A., Lisboa1998/V
Hall, Edward T.A Dimensão OcultaRelógio D’ Água, Lisboa1986/C
Hamsun, KnutNa Ilha BlamandsoyExpo 98 S. A., Lisboa1998/FNL
Hann, JudithComo Funciona a CiênciaQuetzal, Lisboa1991/C
Harari, Yuval NoahSapiens, de Animais a DeusesElsinore, Amadora2017/I
Harari, Yuval Noah21 Lições para o Século XXIElsinore, Amadora2018/I
Harte, Francis BretMaré AltaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Haruf, KentNossas NoitesC.ª das Letras, São Paulo2017/FNL
Hatton, BarryOs PortuguesesClube do Autor, Lisboa2011/I
Haustrate, GastonO Guia do CinemaPergaminho, Lisboa1991/A
Hay, Louise /Dane, HeatherCaldos, Preparados e CanjasPergaminho, Lisboa2019/G
Hayek, FriedrichO Caminho da ServidãoInst. Liberal, Rio de Janeiro1990/F
Hayek, FriedrichA Constituição da LiberdadeEdições 70, Lisboa2018/F
Heinemann, FritzA Filosofia no Século XXGulbenkian, Lisboa1993/C
Helder, HerbertoOs Passos em VoltaPorto Editora, Porto2015/I
Herculano, AlexandreDe Jersey a GranvilleExpo 98 S. A., Lisboa1996/V
Herculano, AlexandreTrês Meses em CalecutExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Herder, Johann GottfriedEnsaio sobre a Origem da LinguagemAntígona, Lisboa1987/F
Herring, PeterOs Clássicos Rock StarsLivro Técnico, R. de Janeiro1989/A
Heslewood, JulietHistória da Escultura Ocidental Caminho, Lisboa1995/A
Hesse, HermannO Lobo das EstepesLeya, Alfragide2018/FNL
Higgins, JackBad CompanyHarper Collins, London2003/FNL
Hilst, HildaA Obscena Senhora DC.ª das Letras, São Paulo2020/FL
Hilst, HildaO Caderno Rosa de Lori LambyC.ª das Letras, São Paulo2021/FL
Hobsbawm, EricO Novo Século – Entrevista a Antonio PolitoCompanhia das Letras, São Paulo2009/I
Hoffmann, E. T. A.As Minas de FalunExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Holland, MinaO Atlas Gastronómico – Uma volta ao mundo em 40 cozinhasCasa da Palavra, Rio de Janeiro2013/G
Holmes, RichardA Era do Deslumbramento Gradiva, Lisboa2015/I
HomeroOdisseiaEuropa-América, Mem Martins1994/P-FNL
HomeroOdisseia – A Chegada de Ulisses ao País dos FeacesExpo 98, S. A., Lisboa1996/P-FNL
Howard, MichaelPrimeira Guerra MundialL & PM, Porto Alegre2013/H
Hugo, VictorOs Fundos Falsos do ObstáculoExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Hunt & ShermanHistória do Pensamento EconómicoEditora Vozes, Petrópolis2001/E
Hussain, AliMysticism in the MaldivesNovelty Publishers, Male1991/I
Huxley, AldousAdmirável Mundo NovoBiblioteca Azul, Rio de Janeiro2021/I
Huxley, AldousRetorno ao Admirável Mundo NovoBiblioteca Azul, Rio de Janeiro2021/I
Ingvarsson, VigfúsTravelling in Iceland – Hearing the land speakVestfirska Forlagid, Dýrafjördur2016/V
Ishiguro, KazuoAs Pálidas Colinas de NagasáquiGradiva, Lisboa2019/FNL
James, HenryUma Tragédia de EnganosExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
James, HenryOs EuropeusEuropa-América, Lisboa2000/FNL
James, OliverComo Desenvolver a Inteligência EmocionalLua de Papel, Alfragide2019/I
Jardim, EduardoHannah Arendt – pensadora da crise e de um novo inícioCiv. Brasileira, Rio de Janeiro 2011/B
Joyce, JamesUlissesLivros do Brasil, Lisboa1989/FNL
Junior, Itamar VieiraTorto AradoTodavia, São Paulo2022/FL
Kafka, FranzO CasteloNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Kaku, MichioO Cosmos de EinsteinGradiva, Lisboa2005/C
Kallentoft, MonsSangue Vermelho em Campo de NeveD Quixote, Lisboa2014/FNL
Kant, ImmanuelCrítica da Razão PuraBertrand, Lisboa1985/F
Kant, ImmanuelA Metafísica dos CostumesGulbenkian, Lisboa2017/F
Kant, ImmanuelA Paz Perpétua e outros OpúsculosEdições 70, Lisboa1995/F
Kant, ImmanuelCrítica da Faculdade do JuízoG. E. N., Rio de Janeiro2012/F
Kant, ImmanuelDissertação de 1770/ Carta a Marcus HerzINCM, Lisboa2004/F
Kaube, JürgenAs Origens de TudoDesassossego, Lisboa2019/I
Keazor, HenryNicolas PoussinTaschen, Colónia2008/A-B
Keegan, JohnUma História da GuerraC.ª das Letras, São Paulo2006/H
Keegan, JohnUma História da GuerraTinta da China, Lisboa2016/H
Kirk, G.S. & Raven, J.E.Os Filósofos Pré-SocráticosGulbenkian, Lisboa1990/F
Kishtainy, Niall (e outros)O Livro da EconomiaEditora Globo, São Paulo2013/E
Kitamura, KatieUma SeparaçãoC. ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Knoll, Andrew H.Uma Breve História da TerraDesassossego, Lisboa2022/C
Koonin, Steven E.UnsettledBenBella Books, Dallas2021/C
Kramer, Peter D.Contra a DepressãoRelógio D’ Água, Lisboa2007/C
Krishnamurti, J.O Sentido da LiberdadePresença, Barcarena2007/I
Krishnamurti, J.O Que Estás a Fazer com a tua Vida?Cultura, Lisboa2020/I
Kruel, KenardTorquato Neto Zodíaco, Teresina2008/B
Krug, NoraHeimatQuadrinhos na Cia, São Paulo2019/B
Krugman, PaulThe Return of Depression EconomicsPenguin Books, New York2008/E
Kundera, MilanA Insustentável Leveza do SerNova Fronteira, Rio de Janeiro1985/FNL
Lacalle, DanielNós os MercadosMarcador Editora, Barcarena2013/E
Lampedusa, Giuseppe TomasiO LeopardoPresença, Lisboa1995/FNL
Lawrence, D. H.Mulheres ApaixonadasNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Lawrence, D. H.O Amante de Lady ChatterleyBestbolso, R. de Janeiro2008/FNL
Laxness, HalldórWorld LightVintage Books, New York2002/FNL
Leilani, RavenLuxúriaC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Leonardo, Ana CristinaO Centro do MundoQuetzal, Lisboa2018/FL
Letria, José JorgeGrandes Frases de Todos os TemposOficina do Livro, Lisboa2011/I
Lispector, ClaricePerto do Coração SelvagemRocco, Rio de Janeiro1998/FL
Lispector, ClariceA Hora da EstrelaRocco, Rio de Janeiro1998/FL
Lispector, ClariceClarice na CabeceiraRocco, Rio de Janeiro2009/FL
Lispector, ClariceLaços de FamíliaRocco, Rio de Janeiro2009/FL
Lispector, ClariceTodos os ContosRocco, Rio de Janeiro2016/FL
Lispector, ClariceÁgua VivaRocco, Rio de Janeiro2017/FL
Llansol, Maria GabrielaA Terra fora do SítioExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Llansol, Maria GabrielaUm Falcão no PunhoRelógio D’ Água, Lisboa1998/I
Llosa, Mario VargasA Civilização do EspetáculoObjetiva, Rio de Janeiro2013/I
Llosa, Mario VargasA Guerra do Fim do MundoLeya, Alfragide2016/FNL
London, JackO PagãoExpo 98 S. A., Lisboa1996/V
London, JackFaz-te a OesteExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Lopes, Filipe Mário (et al)Igreja de Santo AntónioC. M. de Lisboa1997/A
Lopes, Helena TrindadeA Mulher que Amou o FaraóEsfera dos Livros, Lisboa2011/FL
Lorentz, H.A./Einstein, A./Minkowski H.O Princípio da RelatividadeBertrand, Lisboa2014/C
Loução, Paulo & Santos, CarlosA Viagem de Vasco da GamaÉsquilo, Lisboa1998/H
Lourenço, EduardoO Labirinto da SaudadeGradiva, Lisboa2020/I
Louro, SóniaAmália, o Romance da Sua VidaSaída de Emergência, Lisboa2012/B-FL
Louro, SóniaO Cônsul DesobedienteSaída de Emergência, Lisboa2015/B-FL
Lowry, MalcolmÀ Sombra do VulcãoL&PM, Porto Alegre2007/FNL
Landes, David S.A Riqueza e a Pobreza das NaçõesGradiva, Lisboa2001/E
Maalouf, AminLeão, o AfricanoQuetzal, Lisboa2008/B-FNL
Machado, DinisO Que Diz MoleroQuetzal, Lisboa2014/FL
Machado, José Pedro (coord.)Grande Dicionário da Língua Portuguesa (6 vol.)Círculo de Leitores, Lisboa1996/D
Maclean, NormanLenhadores e Chulos & SFEU 1919Teorema, Lisboa1993/FNL
Magee, BryanPopperFontana Press, London1985/F
Magee, BryanPhilosophy and the Real WorldOpen Court, Illinois1994/F
Mailer, NormanUm Sonho AmericanoL & PM, Porto Alegre2011/FNL
Mainardi, DiogoA QuedaRecord, Rio de Janeiro2012/I
Maire, GastonPlatãoEdições 70, Lisboa1986/F
Malcolm, JackBreve História de LisboaAlêtheia Editores, Lisboa2008/H
Mancuso, StefanoA Revolução das PlantasPergaminho, Lisboa2019/C
Mandela, NelsonUm Longo Caminho para a LiberdadePlaneta, Lisboa2012/B
Mann, ThomasA Morte em VenezaRelógio D’ Água, Lisboa1987/FNL
Mann, ThomasDoutor FaustoD. Quixote, Lisboa1996/FNL
Mann, ThomasA Montanha MágicaC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Mann, ThomasOs BaddenbrookC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Mansfield, KatherineNa BaíaExpo S. A., Lisboa1997/FNL
Marcelo, SóniaGuerra ao AçúcarChá das Cinco, Porto Salvo2017/G-I
Marchi, LiaTocadores Portugal-Brasil, Sons em MovimentoPosigraf, Curitiba2006/A
Marí, AntoniO Caminho de VincennesTeorema, Lisboa1997/FNL
Marques, AntónioO Essencial sobre MetafísicaINCM, Lisboa1987/F
Márquez, Gabriel GarcíaDo Amor e Outros DemóniosD. Quixote, Lisboa1995/FNL
Márquez, Gabriel GarcíaMemória das Minhas Putas TristesD. Quixote, Lisboa2005/FNL
Márquez, G. García/Mendoza, PlinioO Aroma da GoiabaD. Quixote, Lisboa2005/FNL
Márquez, G. GarciaO Amor nos Tempos de CóleraLeya, Alfragide2012/FNL
Marr, AndrewHistória do Mundo (6 vol.)Texto Editores, Alfragide2016/H
Marshall, TimPrisioneiros da Geografia Desassossego, Porto Salvo2017/I
Martins, Maria JoãoEscola de ValidosTeorema, Lisboa2007/FL
Marx, KarlO Capital, Livro I – O processo de produção do capitalBoitempo, São Paulo2013/I
Marx, KarlO Capital, Livro II – O processo de circulação do capitalBoitempo, São Paulo2014/I
Marx, Karl/Engels, FriedrichManifesto do Partido ComunistaCamelot, São Paulo2021/I
Maschio, E. A. DalPlatão – A Verdade está noutro LugarCofina, Lisboa2015/F
Mata, Vanessa daA Filha das FloresC. ª das Letras, São Paulo2013/FL
Matos, Gregório dePoesia Lírica e SatíricaNúcleo, São Paulo1996/P
Mattoso, José (et al)História de Portugal (8 vol.)Círculo de Leitores, Lisboa1992-3/H
Matveikova, IrinaO Intestino Feliz Esfera dos Livros, Lisboa2015/C
Matvejevitch, PredragBreviário Mediterrânico Quetzal, Lisboa2019/V
Matthews, OwenFilhos de EstalineD. Quixote, Alfragide2008/FNL
Maupassant, Guy deSobre a ÁguaExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Maupassant, Guy deUma VidaNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Maynard-Smith, JohnOs Problemas da BiologiaGradiva, Lisboa1994/C
McWhirter, AlasdairDicionário Ilustrado do Conhecimento EssencialReader’s Digest, Lisboa1996/D
Meirelles, CecíliaPoesia Completa (4 vol.)Nova Fronteira, Rio de Janeiro1997/P
Melo, AlexandreTriunfo da Crise EconómicaDocumenta, Lisboa2016/E
Melo, Francisco Manuel deEpanáfora AmorosaExpo 98 S. A., Lisboa1997/I
Melo, João de (org.)Antologia do Conto PortuguêsDom Quixote, Lisboa2002/FL
Melville, HermanBenito Cereno (2 vol.)Expo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Melville, HermanMoby DickHarper Collins, London2013/FNL
Mendes, António RosaA Peregrinação e a Peregrinação de Fernão Mendes PintoGente Singular, Olhão2011/I
Mendes, Fernando R.Segurança Social – O Futuro HipotecadoFFMS, Lisboa2011/I
Mendonça, José TolentinoA Construção de Jesus – A Surpresa de um RetratoPaulinas Editora, Prior Velho2015/I
Mendonça, ManuelaGrandes Batalhas da História de Portugal IIIVerso da História, Vila do Conde2007/H
Mendonça, Nun’ Álvares dePerseguição no MarExpo 98 S. A., Lisboa1996/V
Merleau-Ponty, MauriceElogio da FilosofiaGuimarães Editores, Lisboa1993/F
Merridale, CatherineFortaleza Vermelha – O coração secreto da história da RússiaTemas e Debates, Lisboa2014/H
Meyer, AugustoOs Pêssegos VerdesABL, Rio de Janeiro2002/I
MichaelisDicionário Inglês-PortuguêsMelhoramentos, São Paulo2009/D
Michelet, JulesUm Olhar sobre os MaresExpo 98 S.A., Lisboa1996/I
Middleton, RichardO Navio FantasmaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Miguéis, José RodriguesGente da Terceira ClasseExpo 98 S. A., Lisboa1996/FL
MilesFrank Zappa – A Visual DocumentaryOmnibus Press, New York1993/A-B
Montefiore, Simon S.Estaline – A Corte do Czar Vermelho (6 vol.)Alêtheia Editores, Lisboa2017/B-H
Montefiore, Simon S.Jerusalém, a BiografiaAlêtheia Editores, Lisboa2015/V
Moog, ViannaUm rio Imita o RenoJosé Olympio, Rio de Janeiro2012/FL
Moraes, Venceslau deO Pescador UrashimaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Moraes, Vinicius deAntologia PoéticaC.ª das Letras, São Paulo2004/P
Morais, Paulo & Morais, ÍrisAs Nossas Receitas para Cozinhar em Família – VReverso, Lisboa2017/G
Morin, EdgarO Paradigma PerdidoEuropa-América, Lisboa1991/I
Morin, EdgarAs Grandes Questões do Nosso TempoEditorial Notícias, Lisboa1994/I
Morris, DesmondThe Naked ApeVintage, London2005/C
Morris, IanO Domínio do OcidenteBertrand, Lisboa2017/I
Morris, IanCaçadores, Camponeses e Combustíveis FósseisBertrand, Lisboa2017/I
Moser, BenjaminClarice, uma BiografiaSchwarcz, São Paulo2017/B
Mosse, KateThe Taxidermist’ s DaughterOrion, London2014/FNL
Moura, Fátima & Nobre, Justa As Origens da Gastronomia PortuguesaVogais, Amadora2016/G
Mourão-Ferreira, DavidO ViúvoExpo 98 S. A., Lisboa1996/FL
Munch, EdvardLike a Ghost I Leave YouMunchmuseet, Oslo2017/A
Namora, FernandoOs ClandestinosEuropa-América, Lisboa1972/FL
Nassar, RaduanLavaoura ArcaicaC.ª das Letras, São Paulo2012/FL
Nemésio, VitorinoMau Tempo do CanalINCM, Lisboa1994/FL
Nemésio, VitorinoPrimeiro CorsoExpo 98 S. A., Lisboa1996/FL
Nemésio, VitorinoO Navio PirataExpo 98 S. A., Lisboa1998/FL
Nemésio, VitorinoPoesia (1916-1940)INCM, Lisboa2018/P
Nestor, JamesRespiraPergaminho, Lisboa2021/I
Neto, João Cabral de MeloA Educação pela Pedra e DepoisNova Fronteira, Rio de Janeiro1997/P
Neto, João Cabral de MeloProsaNova Fronteira, Rio de Janeiro1997/FL
Neto, João Cabral de MeloSerial e AntesNova Fronteira, Rio de Janeiro1997/P
Neto, João Cabral de MeloMorte e Vida SeverinaMediafashion, São Paulo2008/P
Niemeyer, Oscar?Revan, Rio de Janeiro2004/I
Nogueira, Rodrigo SáDicionário de Verbos Portugueses ConjugadosClássica Editora, Lisboa1999/D
North, Douglass C.Institutions, Institutional Change and Economic PerformanceUniversity Press, Cambridge1990/E
Nozick, RobertAnarquia, Estado e UtopiaEdições 70, Lisboa2009/F
O’ Neill, AlexandrePoesias Completas & DispersosAssírio & Alvim, Lisboa2017/P
Oliveira, João Braz deA Última Viagem da Nau da ÍndiaExpo 98 S. A., Lisboa1998/V
OndjakiOs TransparentesCaminho, Alfragide2014/FL
OndjakiHá Prendisajens com o Xão/O AssobiadorCaminho, Alfragide2009
Ortigão, RamalhoO MarExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Orwell, GeorgeA Quinta dos animaisCardume Edit., Matosinhos2016/FNL
Orwell, GeorgeAnimal FarmPenguin Books, London2000/FNL
Osborne, RichardFilosofia para PrincipiantesEditorial Presença, Lisboa1997/F
Otero, Malcolm & Giménez, SantiEl Club de Los Execrables Penguin, Barcelona2018/B
Oz, AmosUma História de Amor e TrevasD. Quixote, Alfragide2016/B
Pääbo, SvanteO Homem de NeandertalGradiva, Lisboa2019/C
Pacheco, HélderNós, PortuguesesAfrontamento, Porto1991/V
Padura, LeonardoO Homem que Gostava de CãesPorto Editora, Lisboa2011/FNL
Page, MartinPortugal e a Revolução GlobalNova Fronteira, Rio de Janeiro2011/H
Paiva, TeresaBom Sono, Boa VidaOficina do Livro, Alfragide2015/C
Pamuk, OrhanIstambul, Memórias de Uma CidadePresença, Lisboa2008/V
Pamuk, OrhanA Casa do SilêncioPresença, Lisboa2008/FNL
Papadiamándis, AléxandrosNostálgicaExpo 98, S. A., Lisboa1998/FNL
Paraire, Philippe50 Anos de Música RockPergaminho, Lisboa1992/A
Parker, BarryO Sonho de EinsteinEdições 70, Lisboa1988/C
Pascoaes, Teixeira deArte de Ser PortuguêsAssírio & Alvim, Lisboa1991/I
Pasquinelli, AlbertoCarnap e o Positivismo LógicoEdições 70, Lisboa1983/F
Pereda, José María deA LevaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Pereira, Leonel & Pereira, SofiaAs Nossas Receitas para Cozinhar em Família – IVReverso, Lisboa2017/G
Pereira, SaraRoteiro de fado de LisboaEBAHL, Lisboa2001/A
Pereira, Virgínia Soares (org.)Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no MundoHúmus, V. N. Famalicão2013/I
Peres, DamiãoComo Nasceu PortugalVertente, Porto1992/H
Pérez-Reverte, ArturoO Cemitério dos Barcos sem NomeAsa, Porto2002/FNL
Perry, PhilippaComo Manter a Sanidade MentalLua de Papel, Alfragide2019/I
Pessanha, CamiloClepsydra – The Poetry of Camilo PessanhaLisbon Poets & Co., Lisboa2018/P
Pessoa, FernandoEnglish Poems I-II-II/35 Sonnets Edição do Tradutor1975/P
Pessoa, FernandoO MarinheiroExpo 98 S.A., Lisboa1997/FL
Pessoa, FernandoMensagemNúcleo, São Paulo1995/P
Pessoa, FernandoPoesia de Fernando PessoaEditorial Presença, Lisboa2006/P
Pessoa, FernandoO Banqueiro AnarquistaAssírio & Alvim, Lisboa1999/FL
Pessoa, FernandoObras em ProsaNova Aguillar, R de Janeiro1986/I
Pessoa, Henrique SáCurso de CozinhaEsfera dos Livros, Lisboa2010/G
Peters, F.E.Termos Filosóficos GregosGulbenkian, Lisboa1983/F
Petruchévskaia, LiudmilaA menininha do Hotel MetropolC.ª das Letras, São Paulo2020/B
Piazza, Pier VincenzoHomo BiologicusBertrand, Lisboa2020/C
Piçarra, ConstantinoRoteiros Republicanos – BejaQuidNovi, Lisboa2010/H
Pina, TeresaDireitos Humanos – O que Está por Fazer no Século XXITemas e Debates, Lisboa2018/I
Pinker, StevenO Iluminismo AgoraPresença, Lisboa2018/I
Piñon, NélidaO Presumível Coração da AméricaTopbooks, Rio de Janeiro2002/I
Piñon, NélidaAprendiz de Homero Record, Rio de Janeiro2008/FL
Pinto, Fernão MendesE Tais Pancadas tem a Costa da China Expo 98 S. A., Lisboa1997/V
Pinto, Fernão MendesZeimoto dá Primeira Espingarda aos Japões Expo 98 S. A., Lisboa1998/V
Pinto, Fernão MendesPeregrinação (2 vol.)Relógio D’ Água, Lisboa2001/V
Pinto, Fernão MendesPeregrinação de Fernão Mendes Pinto – Adaptação de Aquilino RibeiroSá da Costa Editora, Lisboa2008/V
Pires, José CardosoViagem à Ilha de SatanásExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Pires, José CardosoO DelfimRelógio D’ Água, Lisboa2015/FL
Pirsig, Robert M.Zen e a Arte da Manutenção de MotocicletasPresença, Lisboa2007/FNL
PlatãoA RepúblicaBertrand, Lisboa1987/F
PlatãoLaquesINIC, Coimbra1987/F
PlatãoFédonMinerva, Coimbra1988/F
PlatãoHípias MaiorINIC, Coimbra1989/F
Poe, Edgar AllanManuscrito Encontrado numa GarrafaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Poe, Edgar AllanPoética (Textos Teóricos)Gulbenkian, Lisboa2016/I
Pompéia, RaulO AteneuNova Cultural, São Paulo2003/FL
Popova, NátaliaSão Petersburgo e SubúrbiosN. Ukhnaleva, S. Petersburgo2007/V
Popper, KarlIn Search of a Better WorldRoutledge, London1996/F
Popper, KarlA Sociedade Aberta e Seus Inimigos I (Platão)Editorial Fragmentos, Lisboa1993/F
Popper, KarlA Sociedade Aberta e Seus Inimigos II (Hegel e Marx)Editorial Fragmentos, Lisboa1993/F
Popper, KarlA Pobreza do HistoricismoEsfera do Caos, Lisboa2007/F
Popper, KarlBusca Inacabada – Autobiografia intelectualEsfera do Caos, Lisboa2008/B-F
Popper, KarlO Realismo e o Objectivo da CiênciaDom Quixote, Lisboa1997/F
Popper, KarlO Universo Aberto Dom Quixote, Lisboa1988/F
Popper, KarlA Teoria dos Quanta e o Cisma na FísicaDom Quixote, Lisboa1992/F
Popper, KarlUm Mundo de PropensõesEditorial Fragmentos, Lisboa1991/F
Popper, KarlA Vida é AprendizagemEdições 70, Lisboa2001/F
Popper, KarlO Mito do Contexto Edições 70, Lisboa1999/F
Popper, KarlLesson of This CenturyRoutledge, London2000/F
Popper, KarlConjecturas e RefutaçõesAlmedina, Lisboa2003/F
Popper, KarlThe Logic of Scientific DiscoveryRoutledge, New York2002/F
Popper, KarlLa Connaissance ObjectiveFlammarion, Paris1998/F
Popper, KarlUnended Quest – An intelectual autobiographyOpen Court, Illinois1990/B-F
Popper Karl & Condry, JohnTelevisão: Um Perigo para a DemocraciaGradiva, Lisboa1995/F
Porto Editora (vários)Dicionário da Língua PortuguesaPorto Editora, Porto2014/D
Proust, MarcelUm Amor de SwannL & PM, Porto Alegre2011/FNL
Queirós, EçaO MiantonomahExpo 98 S. A., Lisboa1997/I
Queirós, Eça deAlves e C.ªAlêtheia Editores, Lisboa2017/FL
Queirós, Eça deOs MaiasBertrand, Lisboa2009/FL
Queirós, Eça deO Crime do Padre AmaroCiranda Cultural, São Paulo2009/FL
Queirós, Eça deCartas de InglaterraEuropa-América, Lisboa2007/FL
Queiroz, EçaA Cidade e as SerrasL & PM, Porto Alegre2011
Queiroz, EçaO EgiptoLivros do Brasil, LisboaFL
Queiroz, EçaO MandarimLivros do Brasil, LisboaFL
Queiroz, EçaA Ilustre Casa de RamiresLivros do Brasil, LisboaFL
Queiroz, EçaO Primo BazilioLivros do Brasil, LisboaFL
Queiroz, EçaA Tragédia da Rua das Flores (Ed. Diplomática)Livros do Brasil, Lisboa1981/FL
Queiroz, EçaA RelíquiaLivros do Brasil, LisboaFL
Queiroz, EçaOs MaiasLivros do Brasil, Lisboa, Lisboa2003/FL
Queiroz, RachelMemorial de Maria MouraJosé Olympio, Rio de Janeiro2021/FL
Queiroz, RachelO QuinzeJosé Olympio, Rio de Janeiro2022/FL
Quental, AnteroSonetos CompletosAlêtheia Editores, Lisboa2017/P
Quental, AnteroTendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIXEditorial Presença, Lisboa1995/F
Racine, JeanOs Demandistas/Andrómaca/
Berenice
Civilização Brasileira1966/FNL
Radice, Lucio LombardoO InfinitoEditorial Notícias, Lisboa1983/C
Rahimi, AtiqSyngué Sabour, Pedra-de-PaciênciaEstação Liberdade, São Paulo2021/FNL
Ramos, GracilianoVidas SecasRecord, Rio de Janeiro2012/FL
Rassam, JosephTomás de AquinoEdições 70, Lisboa1988/F
Raworth, KateEconomia DonutTemas e Debates, Lisboa2018/E
Rees, MartinO Nosso Habitat CósmicoGradiva, Lisboa2002/C
Rees, LaurenceThe Dark Charisma of Adolf HitlerEbury Press, London2012/B
Reeves, HubertUm Pouco mais de AzulGradiva, Lisboa1983/C
Reeves, HubertA Hora do Deslumbramento Gradiva, Lisboa1987/C
Reeves, Hubert (et al)A Mais Bela História do Mundo Gradiva, Lisboa1996/C
Reeves, HubertAves, Maravilhosas Aves Gradiva, Lisboa2000/C
Reeves, HubertCrónicas dos Átomos e das GaláxiasGradiva, Lisboa2007/C
Restany, PierreHundertwasser – O pintor-rei das cinco pelesTaschen, Köln2003/A
Reynolds, J. N.Mocha Dick, a Baleia BrancaExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Ribeiro, Anabela MotaPor SaramagoTemas e Debates, Lisboa2018/B
Ribeiro, AquilinoO Romance da RaposaBertrand, Lisboa1996/FL
Ribeiro, AquilinoO MalhadinhasBertrand, Lisboa2018/FL
Richards, DickBrief History of CyprusKyriakou, Limassol1992/H
Ricoeur, PaulTeoria da InterpretaçãoEdições 70, Lisboa1987/I
Ridley, MattGenoma Gradiva, Lisboa2001/C
Ridley, MattA Rainha de CopasGradiva, Lisboa2004/C
Rodrigues, NelsonTeatro Completo I Nova Fronteira, Rio de Janeiro1981/FL
Rodrigues, NelsonTeatro Completo II Nova Fronteira, Rio de Janeiro1981/FL
Rodrigues, NelsonTeatro Completo – Volume ÚnicoNova Aguilar, Rio de Janeiro1979/FL
Rodrigues, NelsonOs Sete GatinhosNova Fronteira, Rio de Janeiro2004/FL
Rodrigues, NelsonA Vida Como Ela éNova Fronteira, Rio de Janeiro2011/FL
Rogers, CarlTornar-se PessoaPadrões Culturais, Lisboa2010/C
Rosa, António RamosAntologia PoéticaCírculo de Leitores, Lisboa2001/P
Rosa, António RamosPoesia, Liberdade LivreUlmeiro, Lisboa1986/I
Rosa, João GuimarãesGrande Sertão: VeredasJosé Olympio, Rio de Janeiro1956/FL
Rosa, João GuimarãesFicção Completa (2 volumes)Nova Aguilar, Rio de Janeiro1994/FL
Rosa, João GuimarãesManuelzão e MiguilimNova Fronteira, Rio de Janeiro2001/FL
Rosa, João GuimarãesA Hora e Vez de Augusto MatragaNova Fronteira, Rio de Janeiro2013/FL
Rosa, João GuimarãesSagaranaNova Fronteira, Rio de Janeiro2012/FL
Rosa, João GuimarãesNoites do Sertão (Corpo de Baile)Nova Fronteira, Rio de Janeiro2016/FL
Rosa, Tomás daIlha Morena – ContosNúcleo Cultural, Horta2003/FL
Rosenblatt, HelenaA História Esquecida do LiberalismoEdições 70, Lisboa2021/I
Ross, DavidAristótelesDom Quixote, Lisboa1987/F
Roth, PhilipThe Plot Against AmericaVintage, London2004/FNL
Roth, PhilipCasei com um ComunistaC.ª das Letras, São Paulo2014/FNL
Roth, PhilipA Mancha HumanaLeya, Alfragide2016/FNL
Rousseau, Jean JacquesDo Contrato SocialMartin Claret, São Paulo2000/I
Rousseau, Jean JacquesA Origem da Desigualdade entre os HomensLafonte, São Paulo2012/I
Rovelli, CarloSete Breves Lições de FísicaPenguin, Lisboa2014/C
Ruben AViagem para Delos e MyconosExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Rulfo, JuanPedro PáramoCavalo de Ferro2017/FNL
Rushdie, SalmanThe Enchantress of FlorenceVintage, London2014/FNL
Russell, BertrandOs Problemas da FilosofiaArménio Amado, Coimbra1974/F
Rutherford,F./Ahlgren, AndrewCiência para TodosGradiva, Lisboa1995/C
Sabino, FernandoA Companheira de ViagemRecord, Rio de Janeiro2002/FL
Sabino, FernandoO Encontro MarcadoRecord, Rio de Janeiro2004/FL
Sagalés, Irene CordónOs primeiros impérios da históriaAtlântico Press, Lisboa2017/H
Sagan, CarlO Cérebro de BrocaGradiva, Lisboa1987/C
Salinger, J.D.The Catcher in the RyePenguin, New York2018/FNL
Sampaio, GustavoPorque Falha Portugal?Manuscrito, Queluz de Baixo2017/I
Sandel, Michael J.O Que o Dinheiro não CompraCivilização Brasileira, Rio de Janeiro2012/E
Santana, Maria JoséIlhas da RiaFFMS, Lisboa2021/I
Santareno, BernardoNos Mares do Fim do MundoExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Sant’ Elmo, RuiLaços de FamíliaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Santiago, SilvianoMachadoC.ª das Letras, São Paulo2017/B
Santo, Gabriel do EspíritoGrandes Batalhas da História de Portugal – VVerso da História, Vila do Conde2007/H
Santos, Henrique Pereira dosPortugal: Paisagem RuralFFMS, Lisboa2017/I
Santos, JoelFotografia – Luz, Exposição, Composição, EquipamentoCentro Atlântico, Famalicão2017/A
Santos, JoelFoto HDR Centro Atlântico, Famalicão2014/A
Santos, José RodriguesImortalGradiva, Lisboa2019/FL
Santos, José TrindadeAntes de SócratesGradiva, Lisboa1985/F
Santos, Luís555 Problemas de XadrezEditorial Caminho, Lisboa1996/I
Santos, Pedro MartaHeróis da História de PortugalGuerra e Paz Editores, Lisboa2011/B-H
Sapkota, Tanka & Sapkota, Anjali e AdarshaAs Nossas Receitas para Cozinhar em Família – IIIReverso, Lisboa2017/G
Sapolsky, Robert M.Comportamento – A biologia humana no nosso melhor e piorTemas e Debates, Lisboa2018/C
Saraiva, José HermanoHistória Concisa de PortugalEuropa-América, Mem Martins1978/H
Saramago, JoséMemorial do ConventoEditorial Caminho, Lisboa1983/FL
Saramago, JoséHistória do Cerco de LisboaEditorial Caminho, Lisboa1989/FL
Saramago, JoséViagem a PortugalEditorial Caminho, Lisboa1995/V
Saramago, JoséMoby Dick em LisboaExpo 98 S. A., Lisboa1996/FL
Saramago, JoséEnsaio Sobre a CegueiraPorto Editora, Lisboa2014/FL
Saramago, JoséO Ano da Morte de Ricardo ReisPorto Editora, Lisboa2016/FL
Sardo, Flávio & Brandão, A. NetoRoteiros Republicanos – AveiroQuidNovi, Lisboa2010/H
Sartre, Jean-PaulO Ser e o NadaCírculo de Leitores, Lisboa1993/F
Scarre, ChrisSinais do Tempo do Mundo AntigoPúblico, Lisboa1994/H
Scheler, MaxMorte e SobrevivênciaEdições 70, Lisboa1993/F
Schöber, UlrikeTesouros Naturais Património da Humanidade pela UnescoNaumann & Gobel, Colónia2016/I
Schopenhauer, ArthurO Livre-ArbítrioNova Fronteira, Rio de Janeiro2012/F
Schröter, KlausThomas MannTemas e Debates, Lisboa2001/B
Segalen, VictorOs Homens de Fala-NovaExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Seldes, BarryLeonard Bernstein Editorial Bizâncio, Lisboa2010/B
Sen, AmartyaA Ideia de JustiçaCompanhia das Letras, São Paulo2012/E
Sena, Jorge deA Grã-CanáriaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
SênecaSobre a Brevidade da VidaC.ª das Letras, São Paulo2017/F
Shakespeare, WilliamA TempestadeExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Sharpe, TomWilt em Parte IncertaTeorema, Lisboa2004/FNL
Sharpe, TomWiltTeorema, Lisboa2011/FNL
Shaw, JuliaA Ilusão da MemóriaTemas e Debates, Lisboa2016/C
Shellenberger, MichaelApocalipse NuncaDom Quixote, Lisboa2021/C
Siegel M. SethLet There Be WaterThomas Dunne Books, New York2017/C
Silva, Susana S.Roteiros Republicanos – Ponta DelgadaQuidNovi, Lisboa2010/H
Simões, João GasparFernando Pessoa – Ensaio Interpretativo da sua Vida e da sua ObraTexto Editores, Alfragide2011/B
Silva, AgostinhoVida ConversávelAssírio & Alvim, Lisboa1994/I
Silva, AgostinhoA Última ConversaEditorial Notícias, Lisboa1996/I
Silva, AgostinhoTextos e Ensaios Filosóficos IÂncora Editora, Lisboa1999/I
Silva, AgostinhoTextos e Ensaios Filosóficos IIÂncora Editora, Lisboa1999/I
Silva, AgostinhoPáginas EsquecidasQuetzal, Lisboa2019/I
Silva, Da Costa ePoesias CompletasNova Fronteira, Rio de Janeiro2008/P
Silvestrini, VittorioIntrodução à Teoria da RelatividadeEditorial Notícias, LisboaC
Singer, PeterLibertação AnimalVia Óptima, Porto2000/F
Slocum, JoshuaSozinho à Volta do MundoExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Sloterdijk, PeterCrítica da Razão CínicaRelógio D’ Água, Lisboa2011/F
Slovo, GillianOrquídeas NegrasCivilização, Porto2009/FNL
Smee, SebastianLucian FreudTaschen, Colónia2008/A
Smil, VaclavEnergia e Civilização – Uma HistóriaBookbuilders, Silveira2021/I
Smith, AdamRiqueza das Nações (2 vol.)Gulbenkian, Lisboa1981/E
Smith, John Maynard/Szathmáry, EörsAs Origens da VidaGradiva, Lisboa2007/C
Smith, MichaelShackleton – The BossCollins, Cork2010/V
Soares, Joaquim Pedro CelestinoO Mar não tem CancelasExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Soares, Luísa DuclaO Segredo da FelicidadeCivilização, Porto2012/FL
Soares, MárioPortugal Amordaçado (7 vol.)Expresso, Lisboa2017/I
SófoclesAntígonaGulbenkian, Lisboa2018/FNL
Soleil, J. J & Lelong, G.As Obras-Chave da MúsicaPergaminho, Lisboa1991/A
Solomon, AndrewO Demónio da Depressão – Um atlas da doençaQuetzal, Lisboa2016/C
Solomon, AndrewLonge da ÁrvoreQuetzal, Lisboa2017/I
Solomon, AndrewUm Crime da Solidão – Sobre o suicídioQuetzal, Lisboa2020/I
Solomon, AndrewLugares DistantesQuetzal, Lisboa2021/V
Soule, Amanda BlakeHandmade Home Trumpeter, Boston2008/I
Spengler, OswaldO Homem e a TécnicaGuimarâes Edit., Lisboa1980/F
Steinhardt, InácioRaízes dos Judeus em PortugalVega, Lisboa2012/H
Sterne, LaurenceA Vida e Opiniões de Tristram Shandy (2 vol.)Antígona, Lisboa1997/FNL
Stevenson, Robert LouisO Clube dos SuicidasVega, Lisboa1989/FNL
Stevenson, Robert LouisOs Homens AlegresExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Stevenson, Robert LouisA Ilha do TesouroRelógio D’ Água, Lisboa1995/FNL
Stone, IrvingA Vida Aventurosa de Jack LondonLivros do Brasil, Lisboa1961/B
Suassuna, ArianoO Santo e a PorcaJosé Olympio, Rio de Janeiro2003/FL
Suassuna, ArianoAuto da CompadecidaNova Fronteira, Rio de Janeiro2012/FL
Tabucchi, AntonioA Mulher de Porto PimExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Talbot, DavidIrmãos KennedyGlaciar, Lisboa2018/B
Tanner, MichaelNietzscheEdições Loyola, São Paulo2004/F
Tavares, AntónioAdministração Pública PortuguesaFFMS, Lisboa2019/I
Tavares, Gonçalo M.JerusalémEditorial Caminho, Lisboa2011/FL
Tavares, Miguel SousaEquadorOficina do Livro, Cruz Quebrada2007/FL
Tchekhov, AntonAs Três IrmãsNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Teixeira-Gomes M.Agosto AzulExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Telles, Lygia FagundesAntes do Baile VerdeC. ª das Letras2021/FL
Temin, Peter & Vines, DavidKeynes, Uma Teoria Útil à Economia MundialDom Quixote, Lisboa2015/E
Tenório, JefersonO Avesso da PeleC.ª das Letras, São Paulo2022/FL
Telles, Lygia FagundesOs Melhores ContosGlobal, São Paulo1988/FL
Theroux, PaulViagem por ÁfricaQuetzal, Lisboa2019/V
Tinhorão, José RamosMúsica Popular – Um Tema em DebateEditora 34, São Paulo1997/A
Tirole, JeanEconomia do Bem ComumGuerra & Paz, Lisboa2018/E
Titiev, MischaIntrodução à Antropologia CulturalGulbenkian, Lisboa1992/C
Tolstói, LievOs Três EremitasExpo 98, S. A., lisboa1997/FNL
Tolstói, LievAnna KariêninaC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Torga, MiguelBichosCoimbra1995/FL
Torga, MiguelPortugalLeya, Alfragide2015/V
Towns, Brian Singer (edt.)Bíblia SagradaPaulus, Lisboa2015/I
Trevisan, DaltonCemitério de ElefantesRecord, Rio de Janeiro2009/FL
Tyson, Neil de GrasseAstrofísica para Gente com PressaGradiva, Lisboa2017/C
Ulítskaia, LiudmilaMeninasEditora 34, São Paulo2021/FNL
Umbral, FranciscoMortal e RosaCampo das Letras, Porto2003/FNL
Ungaretti, GiuseppeLições de Literatura no Brasil, 1937-1942Ática, São Paulo1996/I
Urbani, Maria Da VillaSt. Mark’s BasilicaEditions Kina, Italy2000/A
Várzea, VirgílioNúpcias MarinhasExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Vasconcelos, JorgeA Energia em PortugalFFMS, Lisboa2019/I
Vaz, Júlio MachadoOlhos nos Olhos – histórias de sexo e de vidaDom Quixote, Lisboa2007/FL
Vegar, José (org.)Reportagem- uma antologiaAssírio & Alvim, Lisboa2001/I
Veiga, Carlos MargaçaGrandes Batalhas da História de Portugal IV Verso da História, Vila do Conde2007/H
Venâncio, FernandoAssim Nasceu Uma Língua Guerra & Paz, Lisboa, Lisboa2019/I
Ventura, Margarida GarcezGrandes Batalhas da História de Portugal IVerso da História, Vila do Conde2007/H
Vergeest, AukjeMeet Vincent Van GoghVan Gogh M., Amsterdam2020/A-B
Verde, CesárioO Livro do Cesário VerdeL & PM, Porto Alegre2003/P
Verga, GiovanniJuramentos de MarinheiroExpo 98 S. A., Lisboa1998/FNL
Verissimo, EricoO Tempo e o Vento (parte 3)- O Arquipélago (3 vol.)Globo, São Paulo2004/FL
Verne, JúlioA Volta ao Mundo em 80 DiasPúblico, Porto2004/FNL
Vialatoux, JosephA Intenção FilosóficaAlmedina, Coimbra1979/F
Vicente, GilAuto da Barca do InfernoAlêtheia Editores, Lisboa2017/FL
Vicente, Pedro AntónioGrandes Batalhas da História de Portugal VIVerso da História, Vila do Conde2007/H
Vichot, Julio CubríaBreve História de CubaCapitán San Luis, Havana2014/H
Vieira, JoaquimJosé Saramago, Rota de VidaLivros Horizonte, Lisboa2018/B
Vieira, José LuandinoKapapaExpo 98 S. A., Lisboa1998/FL
Vieira, Marlene & Vieira, IsabelAs Nossa Receitas para Cozinhar em Família – IIReverso, Lisboa2017/G
Vieira, MayaraAbsolutamente CrônicaPenalux, São Paulo2017/I
Vieira, Padre AntónioSermão de Santo António aos PeixesExpo 98 S. A., Lisboa1997/I
Vieira, Padre AntónioEscritos Históricos e PolíticosMartins Fontes, São Paulo2002/I
Vieira, Padre AntónioSermões: Sexagésima/S. António aos Peixes/do MandatoAlêtheia Editores, Lisboa2017/I
Vila-Nova, MargaridaMargarida na AustráliaGuerra e Paz, Lisboa2007/V
Vilaró, Carlos PáezPosdata, AutobiografiaPrisa Ediciones, Montevideo2012/B
VirgílioEneidaNova Cultura, São Paulo2003/FNL
Volpe, Galvano DellaRousseau e Marx, a Liberdade IgualitáriaEdições 70, Lisboa1982/F
VoltaireTratado sobre a TolerânciaRelógio D’ Água, Lisboa2015/F
Wagner, JeanO Guia do Jazz – Iniciação à história e estética do JazzPergaminho, Lisboa1990/A
Walker, MatthewPorque Dormimos?Desassossego, Porto Salvo2019/C
Washington, IrvingA ViagemExpo98 S. A., Lisboa1997/V
Watson, James D.A Dupla HéliceGradiva, Lisboa1987/C
Wells, H. G.Uma Breve História do MundoL & PM, Porto Alegre2013/H
Welsh, FrankThe History of the WorldQuercus, London2011/H
Weyl, HermannSimetriaGradiva, Lisboa2017/C
Wilde, OscarO Retrato de Dorian GrayEstampa, Lisboa1995/FNL
Wilde, OscarO Pescador e a sua AlmaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Wilde, OscarThe Picture of Dorian GrayEli Readers, Italy2010/FNL
Williams, RichardMiles Davis – The man in the green shirtBloomsbury, London1993/A
Wisnik, José MiguelVeneno Remédio – O Futebol e o BrasilC.ª das Letras, São Paulo2008/I
Wittgenstein, LudwigTratado Lógico-Filosófico/ Investigações FilosóficasGulbenkian. Lisboa1987/F
Wolf, MartinAs Mudanças e os ChoquesClube do Autor, Lisboa2014/E
Wolff, TobiasNo Exército do FaraóTeorema, Lisboa1997/FNL
Woolf, VirginiaOrlandoRelógio D’ Água, Lisboa1994/FNL
Woolf, VirginiaMrs. DallowayEuropa-América, Lisboa2007/FNL
Wrangham, RichardPegando Fogo – Por que cozinhar nos tornou humanosZahar, Rio de Janeiro2010/C
Wulf, AndreaA Invenção da NaturezaTemas e Debates, Lisboa2016/B
Yesudian, SelvarajanIoga e SaúdeCultrix, São Paulo1987/I
Yimin, ZhouStamford Raffles, Founder of Modern SingaporeAsiapac Books, Singapore2002/B-H
Young, FernandaPosso Pedir Perdão, Só Não Posso Deixar de PecarLeYa, São Paulo2019, FL
Yourcenar, MargueriteMemórias de AdrianoUlisseia, Lisboa1997/FNL
Zambujal, Isabel & Pedro, MariaGrandes Compositores (6 volumes)Expresso, Lisboa2010/A
Zenith, RichardPessoa – Uma BiografiaQuetzal, Lisboa2022/B
Zizek, SlavojProblema no ParaísoZahar, Rio de Janeiro2015/I
Zúquete, AfonsoNobreza de Portugal – Os Reis (8 vol.)Alêtheia Editores, Lisboa2018/H
Zweig, StefanFernão de Magalhães – A Biografia (3 vol.)Alêtheia Editores, Lisboa2019/B-H
Classificação: A- Arte e Arquitetura; B- Biografia; C- Ciências; D- Dicionários e Gramáticas; E- Economia; F- Filosofia; FL- Ficção lusófona; FNL- Ficção não-lusófona; G- Gastronomia; H- História; I- Interdisciplinares ou de difícil classificação (ensaios e temas diversos); P- Poesia; V- Viagens e locais.

**************************************************

número de volumes da biblioteca em: 04/06/2022: 911.

**************************************************

A Riqueza das Nações

Adam Smith não foi apenas um economista. Entre outras matérias, escreveu e ensinou sobre Física, Astronomia, Metafísica, Ética, Lógica e Literatura. O saber de Smith era, pois, enciclopédico. Isso ressalta da Riqueza das Nações, uma obra monumental e de referência, hoje clássica, no seio do conhecimento económico. Dada a sua dimensão, é dividida, desde a edição original de 1776, em dois volumes, com um título descritivo e amplo, bem ao gosto da época: Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. O conteúdo faz jus ao título. Smith descreve amplamente os sistemas de organização de diferentes sociedades em diferentes épocas, desde os egípcios, gregos e romanos até aos reinos e repúblicas da sua época, incluindo quase meia centena de referências a Portugal, a maioria destas não muito elogiosa1.

Claro que muitas das ideias de Smith estão ultrapassadas pelos quase 250 anos que entretanto passaram. Muita coisa mudou. As questões comerciais, cambiais, financeiras, demográficas, económicas, sociais e políticas são substancialmente diferentes. E há problemas novos que naquela época nem sequer se imaginavam, como as questões ambientais. Apesar disso, há princípios económicos que se podem deduzir da Riqueza das Nações que não são anacrónicos, pelo contrário, mantêm-se atualíssimos. O principal resulta, sem dúvida, da excessiva intervenção do Estado nas atividades económicas, que deveriam decorrer tão livremente quanto possível entre os cidadãos. Excessiva intervenção que se revela em impostos elevados (que servem para cobrir a ineficiência dos governos), fixação de salários e preços, monopólios2, protecionismo e, sobretudo, numa administração tendenciosa da justiça, protegendo os mais fortes (os que estão próximos do poder), não permitindo que os empreendedores mais humildes criem riqueza e, assim, elevem o nível social de toda a população.

Mas o trabalho de Mr. Smith também é importante porque, além de estabelecer o princípio da liberdade económica, ele foi o primeiro a sistematizar a economia, sendo por isso ainda hoje considerado por muitos o fundador desta disciplina. A Riqueza das Nações acolhe, nos seus dois volumes, cinco “livros”, que correspondem às grandes áreas da economia. O primeiro trata do trabalho, da produção e da distribuição da riqueza; o segundo do capital, sua natureza, acumulação e utilização; o terceiro compara os desenvolvimentos económicos das diferentes nações, numa perspetiva histórica3; o quarto versa sobre os diferentes sistemas de economia política; e o quinto, e último, livro trata das formas como o Estado se financia para prestar os serviços necessários ao bom funcionamento da sociedade. Tudo isto exposto de forma elegante, clara, simples, sem adornos desnecessários. Esta é uma obra pragmática, centrada nos resultados e não nas intenções, fortemente radicada numa moral4, mas sem moralismos ou ideologia.

O liberalismo de Smith está bem expresso na citação seguinte, que, provavelmente, melhor do que qualquer outra, poderá sintetizar o seu paradigma económico: O esforço natural de cada indivíduo para melhorar a sua própria condição, quando lhe é permitido exercê-lo com liberdade e segurança, é um princípio tão poderoso que, só por si e sem qualquer outro contributo, é não só capaz de criar a riqueza e prosperidade de uma sociedade, como ainda de vencer um grande número de obstáculos com que a insensatez das leis humanas tanta vez cumula as suas ações.5 Por outro lado, a sua preocupação com os gastos do Estado é igualmente bastante clara, uma vez que resolver os problemas do momento é sempre a ideia principal daqueles que estão ligados à administração dos negócios públicos, deixando sempre para as gerações vindouras o cuidado de saldar a dívida pública. 6

**************************************************

A nossa edição: Riqueza das Nações, Adam Smith, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1981.

**************************************************

Notas:

1 Adam Smith faz um retrato negro de Portugal: vida terrível das classes mais desfavorecidas, com pagamento de dízimo aos frades mendicantes, sob pena de quem não o fizer ser considerado pecador; clero como grande proprietário de terras; monopólios no comércio com as colónias, o que faz elevar os preços e os lucros dos mercadores protegidos, enquanto a maioria da população perde poder de compra; protecionismo, com demasiados impostos sobre os produtos importados, fazendo que os produtos nacionais se desvalorizem; e, sobretudo, “administração irregular e parcial da justiça, que muitas vezes protege o devedor rico e poderoso da perseguição do seu prejudicado credor e que faz com que a parte industriosa da nação tema preparar bens para o consumo desses grandes e arrogantes homens a quem não ousam recusar a venda a crédito e de quem não têm qualquer segurança em relação a pagamento” (Ob. cit., vol. II, p. 171).

2 “Um monopólio contribui necessariamente para manter a taxa de lucro em todos os ramos do comércio acima do que naturalmente seria se todas as nações possuíssem um comércio livre” (ob. cit., vol. II, p. 154).

3 Como já foi dito, Adam Smith era muito mais que um economista. Além de todas as disciplinas, mencionadas neste artigo, em que era versado, ele era ainda um grande conhecedor da história universal.

4 Sem dúvida que por toda a obra perpassam os princípios da equidade, da humanidade e da justiça.

5 Ob. cit., vol. II, p. 68.

6 Ob. cit., vol. II, p. 633.

**************************************************

Foto retirada de: https://www.institutoliberal.org.br

**************************************************

Porque dormimos?

Matthew Walker fotografado no seu laboratório do sono. Foto de Saroyan Hamphrey.

Podemos pensar que uma ou duas noites mal dormidas não causam grandes problemas, até porque no fim de semana podemos dormir mais tempo e colocar o sono em dia. Puro engano. Os danos no cérebro e no corpo que a privação do sono provoca não são reparáveis com noites em que durmamos mais para compensar o sono perdido. Pelo contrário, o déficit de sono nunca é recuperável, apenas acumulável. Assim, se dormirmos regularmente menos de sete horas por noite, os danos físicos e mentais, mais cedo ou mais tarde, acabarão por surgir1.

Que tipo de danos? Bom, praticamente todos. As doenças mentais causadas pela falta de sono vão desde a esquizofrenia à doença de Alzheimer, passando pela depressão, o distúrbio bipolar, a ansiedade e o suicídio; e as doenças fisiológicas provocadas pela carência de sono passam, entre outras patologias, pelo cancro, a diabetes, os ataques cardíacos, a infertilidade, a obesidade e a imunodeficiência. Pode parecer exagerado, mas não é: estas conclusões são sustentadas por décadas da melhor investigação científica e têm por base um incontável número de experiências, levadas a cabo um pouco por todo o mundo2. De resto, o livro que aqui analisamos, Porque Dormimos?, é fruto de uma longa investigação (de mais de vinte anos) do seu autor, Matthew Walker.

1- Sono, o enigma desvendado

Até há muito pouco tempo, ninguém sabia exatamente porque dormimos. O assunto era demasiado controverso. Um dos problemas é que se procurava uma função única, um “cálice sagrado” que todos queriam encontrar. As teorias eram diversificadas: o sono é um período em que o corpo conserva energia; dormir é uma oportunidade para oxigenar os globos oculares; dormir é um estado não consciente em que realizamos os desejos reprimidos quando estamos acordados… e havia também quem dissesse o que parecia mais óbvio: dormimos para descansar. Mas, afinal, essa resposta não era assim tão óbvia, pois isso implicaria que um lenhador precisasse de muito mais tempo de sono que um empregado de escritório ou um reformado, o que não é o caso.

Nas últimas duas décadas, porém, as neurociências tiveram um desenvolvimento incrível e contribuíram de forma decisiva para tornar essas e outras respostas obsoletas. O sono é infinitamente mais complexo, relevante e interessante do que se pensava. Sobretudo, é vital: o que quer dizer que a sua carência acarreta graves prejuízos para a saúde. Estas descobertas foram possíveis graças a equipamentos que vieram permitir a realização de ressonâncias magnéticas e tomografias, as quais juntamente com o uso de elétrodos3, tornaram possível detetar as regiões do cérebro que estão (ou não) mais activas4 em determinado momento. Por outro lado, a montagem de laboratórios do sono em universidades e centros de investigação proporcionaram o desenvolvimento de estudos sobre os efeitos, no corpo e na mente, provocados pela privação do sono, a maior parte das vezes comparando os resultados obtidos por um grupo de pessoas que dorme normalmente com os de outro grupo de pessoas privadas de um sono completo5.

E não restam dúvidas: dormimos porque dormir é tão vital como comer, beber ou respirar. De acordo com a mais recente investigação, o sono é “a atividade mais eficaz que podemos levar a cabo para repor diariamente a saúde do nosso cérebro e do nosso corpo – até ao momento é o melhor esforço da Mãe Natureza para contrariar a morte”6. Ou seja, para a ciência atual, a questão já não é a de se saber para que é que o sono é benéfico. Em vez disso, a pergunta que se faz é se existirá alguma função biológica que não beneficie de uma boa noite de sono. E a resposta que milhares de estudos já realizados nos dão é: não, não existe. Por outro lado, todas as patologias são agravadas e muitas causadas pela falta de sono.

2 – O que nos leva a dormir ou ter dificuldade em fazê-lo

Há dois fatores paralelos que, combinados, determinam os períodos do dia em que nos sentimos mais despertos ou sonolentos: o ritmo circadiano (Processo-C) e a pressão do sono (Processo-S), esta determinada pela acumulação de um químico no cérebro chamado adenosina7. Quando o ritmo circadiano está alto e o nível de adenosina baixo (por exemplo, de manhã), sentimos um agradável estado de vigília plena, e estamos prontos para enfrentar as vicissitudes do dia; pelo contrário, quando chega a noite, depois de estarmos 15 horas acordados, o nosso cérebro está inundado com altas concentrações de adenosina, enquanto o ritmo circadiano está a diminuir, baixando os níveis de atividade e alerta. São, portanto, estes os fatores naturais que nos induzem à vigília ou ao sono. Qualquer perturbação num destes (ou em ambos os) processos é prejudicial para o nosso sono e para a nossa saúde.

Além destes processos, há ainda outra substância, uma hormona, que dá o “tiro de partida” para o sono – a melatonina. Esta hormona, libertada por uma glândula situada algures nas profundezas da parte de trás do cérebro chamada pineal, sob ordens do núcleo supraquiasmático (ver nota 9), é libertada na corrente sanguínea enviando uma mensagem clara ao cérebro e ao corpo, “está escuro! está escuro!”, assinalando assim a hora de dormirmos. Após começarmos a dormir, a concentração de melatonina vai diminuindo até se desligar completamente quando a luz do dia emerge da noite. A ausência de melatonina informa o nosso corpo de que o sono foi cumprido e é tempo de vigília. Depois, com o anoitecer, os níveis de melatonina começam a subir até atingirem o pico, iniciando-se assim um novo ciclo.

De salientar que o ritmo circadiano8 não regula apenas os horários do sono, mas também os de comer, beber, as emoções, a quantidade de urina que o corpo produz, a temperatura interior do corpo, o metabolismo e, entre outros, a libertação de inúmeras hormonas. Os ritmos circadianos são variáveis entre espécies mas também entre indivíduos9. No que diz respeito ao sono, há três tipos de pessoas, cada uma com o seu cronotipo, de acordo com os diferentes ritmos circadianos: o “tipo matutino” (constituído pelos indivíduos que despertam mais cedo de manhã e se sentem sonolentas não muito depois do início da noite) que engloba cerca de 40% da população; o “tipo vespertino” (constituído por pessoas que adormecem mais tarde e, logo, acordam mais tarde também) que inclui cerca de 30% da população; e um tipo intermédio, algures entre os dois primeiros, com ligeira inclinação para a vivência noturna, que engloba os restantes 30%.

Há sobretudo duas substâncias que, por serem mais comuns, prejudicam o sono. A cafeína e o álcool. A cafeína bloqueia e desativa os recetores da adenosina, bloqueando, assim, o sinais de sonolência que esta envia para o cérebro. Os efeitos da cafeína começam a sentir-se cerca de meia-hora depois de bebermos um café, por exemplo, mas a sua característica mais problemática é o prolongamento desses efeitos no tempo, em qualquer caso, de várias horas. De facto, a eliminação da cafeína do organismo depende de uma enzima produzida pelo fígado, muito diferenciada entre indivíduos, por fatores genéticos. Assim, há pessoas cuja enzima é mais eficaz a eliminar a cafeína, mas a maioria demora mais de sete horas a eliminá-la da corrente sanguínea. Isso quer dizer que a grande maioria das pessoas que bebem café depois do jantar vai certamente ter dificuldades em adormecer. Já o álcool produz um efeito igualmente nocivo, mas muito mais enganador10. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o álcool não ajuda a adormecer mais depressa e nem sequer proporciona um sono mais profundo. O álcool fragmenta o sono e provoca breves momentos de despertar, embora a pessoa não se aperceba disso. O fígado e os rins demoram horas a degradar e excretar o álcool, de modo que o consumo de bebidas alcoólicas à noite irá inevitavelmente prejudicar o sono.

Para além da cafeína e do álcool (e também outras drogas e o tabaco), outros fatores externos que conflituam com o sono são a iluminação excessiva, sobretudo as luzes LED11, as temperaturas elevadas e os horários prematuros de iniciar as aulas e de pegar ao trabalho. Entrar no trabalho ou na escola às oito da manhã (e às vezes mais cedo) priva milhões de pessoas de dormirem o suficiente, sobretudo os “vespertinos” que, naturalmente, são impelidos a ir para a cama mais tarde. Os prejuízos na saúde das pessoas, e os custos para a sociedade e as empresas, são incalculáveis. É por isso que a fixação de horários diversificados seria uma medida que, além de simples, traria um impacto extremamente positivo, tanto maior quanto mais alargado. Mas existem fatores internos que também prejudicam o sono. Distúrbios psicológicos como a ansiedade e a depressão, entre outros, podem condicionar o sono. Mais grave é quando a falta de sono e esses distúrbios se auto-alimentam, criando um círculo vicioso difícil de quebrar. A solução, de acordo com Walker, não passa pela tomada de comprimidos para dormir, uma vez que estes não nos induzem a dormir naturalmente (impedindo-nos por isso de receber os benefícios do sono), antes funcionam como sedativos e podem mesmo provocar a morte. Mais à frente aludiremos ao que Walker propõe para dormirmos melhor.

3- A ciência do sono

Pode dizer-se que a moderna ciência do sono começou em 1952, quando o professor da Universidade de Chicago Nathamiel Kleitman e o seu aluno Eugene Aserinsky descobriram que temos dois tipos de sono diferentes: NREM e REM12. O primeiro, predominante num primeiro ciclo de sono e o segundo nos últimos ciclos (são considerados cinco ciclos de sono sensivelmente de hora e meia cada, num sono normal de entre sete a oito horas). O sono NREM, quando não existem movimentos rápidos dos olhos, produz ondas cerebrais mais lentas e longas, enquanto o sono REM, quando o movimento ocular é rápido e acompanhado de sonhos, produz ondas cerebrais curtas e rápidas, muito semelhantes às emitidas quando estamos acordados. Ambos os tipos de sono são indispensáveis para a nossa saúde física e mental.

Quando começaram a medir as ondas lentas do sono NREM, nas décadas de 1950 e 1960, os cientistas consideraram que o cérebro estaria ocioso ou até adormecido nesses momentos. Mas isto estava profundamente errado. As ondas cerebrais do sono NREM espalham-se harmoniosamente desde o meio do cérebro, no tálamo, bloqueando a transferência da perceção de sinais exteriores, até ao cimo do cérebro, o córtex. A perda da sensação de consciência explica porque não sonhamos durante o sono NREM e faz com que o córtex descanse, entrando no modo de funcionamento por defeito. É então que as memórias de curto prazo são transportadas do seu local de armazenamento provisório, o hipocampo, para outro mais seguro, o neocórtex. Isto não acontece apenas nos humanos, mas também nos chimpanzés, orangotangos, bonobos, gatos, ratinhos e até nos insetos. Está provado também que o sono NREM, sobretudo na fase 2, melhora as capacidades motoras, daí ser muito importante nas crianças e nos desportistas, entre outros.

É também muito importante perceber o que acontece quando o sono NREM é prejudicado nos indivíduos mais velhos, o que, infelizmente, acontece com grande frequência. Isto tem implicações graves na memória destas pessoas, e está diretamente relacionado com a doença de Alzheimer.13 Finalmente, outro aspeto a ter em conta quanto ao sono NREM é que este atua como calmante, permitindo que o ramo de luta ou fuga do sistema simpático se acalme, diminuindo o risco de pressão alta e a ocorrência de apoplexias. Um bom sono NREM é, portanto, vital.

Sono REMSono NREM
Ondas cerebrais com frequência rápida e caótica.Ondas cerebrais com frequência lenta e sincronizada.
Ondas produzidas em quatro aglomerações distintas do cérebro. Ondas produzidas no centro dos lobos frontais.
Ondas tipo rádio FM.Ondas tipo rádio AM .
Entrada sensorial do tálamo aberta.Entrada sensorial do tálamo fechada.
Corpo totalmente paralisado (atonia).Corpo não-totalmente paralisado.
Com sonhos.Sem sonhos.
Indivíduos com potencial criativo elevado se acordados neste período.Indivíduos pouco ou nada criativos se acordados neste período.
Sem episódios de sonambulismo.Possibilidade de episódios de sonambulismo.
Pouco sensível à temperatura, ao exercício físico e à alimentação.Sensível à temperatura, ao exercício físico e à alimentação.
Diferenças entre os sonos REM e NREM.

Como se pode verificar pelo quadro acima, o sono REM tem características bastante diferentes do sono NREM. Desde logo as ondas produzidas pelo cérebro durante o sono REM, de frequência curta e rápida, são mais semelhantes ao estádio de vigília do que ao período de sono NREM. É por isso que o sono REM é muitas vezes chamado de “sono paradoxal”: um cérebro que parece estar acordado (com partes 30% mais ativas do que no estado de vigília) e um corpo claramente adormecido. Durante o sono REM o corpo perde completamente a tonacidade e os músculos pura e simplesmente paralisam, transformando-nos em prisioneiros dentro do próprio corpo. Isto acontece para que possamos sonhar à vontade. Seria muito perigoso se durante alguns sonhos extremamente movimentados nós próprios nos pudéssemos mover. Assim, a Natureza, através do processo evolutivo, resolveu o assunto obrigando-nos à imobilidade durante os períodos de sono REM.

O sono REM é um estado caracterizado por uma forte ativação nas regiões visuais, motoras, emotivas e autobiográficas do cérebro, e por uma desativação relativa nas regiões que controlam o pensamento racional. Uma questão particularmente importante do sono REM está relacionada com os sonhos, uma vez que só neste modo de sono podemos sonhar. Calcula-se que entre 35% a 55% das preocupações e emoções que experimentamos durante o dia reapareçam à noite quando sonhamos.14 A princípio pensou-se que os sonhos fossem um sub-produto do sono REM, mas posteriormente descobriu-se que os sonhos têm uma função própria. Ou melhor, duas.

A primeira tem que ver com a nossa saúde mental e emocional. De facto, os sonhos fazem um trabalho de terapia noturna: quando sonhamos com experiências traumáticas ou dolorosas sentir-nos-emos mais aliviados e calmos quando voltarmos a recordá-las. Isto acontece porque a única altura das 24 horas do dia em que a concentração de um químico relacionado com o stress, a noradrenalina, é completamente desligado no interior do cérebro, é durante o sono REM.15 A segunda tem a ver com a nossa apetência para a interpretação de expressões faciais, a resolução de problemas e a criatividade.

As áreas do nosso cérebro dedicadas à descodificação dos sinais que nos chegam das expressões faciais são as áreas que o sono REM equilibra durante a noite para que possam estar operacionais na manhã seguinte. Experiências com pessoas privadas de sono REM mostraram que estas tiveram dificuldades em ler expressões faciais, vivenciando um mundo adverso e ameaçador que não correspondia à realidade.16 Finalmente, a função mais extraordinária dos sonhos é a de ampliar a criatividade. Quando sonhamos, o nosso cérebro reúne vastos segmentos dos conhecimentos adquiridos, misturando-os de forma inspirada e, enveredando por atalhos, descobre soluções para problemas anteriormente impenetráveis. É por isso que quando acordamos após um sonho temos uma maior probabilidade de criar peças artísticas valorosas, como poemas ou canções, e maior apetência para resolver problemas, como anagramas. Os exemplos são vastos e variáveis, muitos deles famosos: Mendeleev viu a tabela periódica num sonho; Keith Richards compôs os acordes de “Satisfaction” durante o sono REM;17 Paul McCartney acordou com a melodia de “Yesterday” na cabeça. St. Paul Boux, um poeta surrealista francês, colocava na porta do quarto, antes de dormir, uma placa que dizia: “Não perturbar: poeta trabalhando.”

Esta ligação e mistura criativa de informações é o que distingue o nosso cérebro dos computadores. Os nossos “algoritmos” são diferentes e bem podemos falar de um “algoritmo do sonho”. As pessoas que sonham com um problema têm uma probabilidade muito maior de o resolver do que aquelas que não sonham. O cérebro durante o sonho conjuga a memória recente sobre um determinado assunto com outras antigas relacionadas com o mesmo assunto e ainda outras hipotéticas relações, proporcionando respostas altamente criativas, inacessíveis a quem não sonha.18

Tudo isto nos conduz a um grave problema: tendo em conta 1) que os nossos adolescentes acordam cada vez mais cedo para irem para a escola, 2) que o ritmo circadiano na adolescência se adianta algumas horas e que 3) é no final do nosso sono que prevalece o sono REM com sonhos, estamos a privar os adolescentes das nossas sociedades da qualidade de vida que eles, não apenas enquanto adolescentes mas também na idade adulta, merecem. E porque se adianta o ritmo circadiano dos adolescentes algumas horas? A ciência não tem uma resposta inequívoca, mas Walker avança como uma hipótese a ter em conta: ao diferenciar os sonos dos adolescentes e dos pais, a Natureza está a incentivar a emancipação destes iminentes adultos.19

4- Como dormir melhor

No final do livro, Matthew Walker deixa-nos 12 dicas para melhorarmos o nosso sono, dizendo-nos que, se tivéssemos de escolher apenas uma delas, seria a primeira: manter um horário de sono regular. Além disso, devemos: evitar o álcool, a cafeína e a nicotina; fazer exercício físico, mas não a horas tardias; evitar grandes refeições e demasiadas bebidas à noite; evitar medicamentos que de alguma forma perturbem o sono; não fazer sestas depois das três da tarde; descontrair antes de ir para a cama e, se possível, tomar um banho quente e relaxante antes de dormir; escurecer o quarto e mantê-lo não demasiado quente; não ver televisão nem usar o computador ou o telemóvel antes de adormecer (é preferível ler um livro); evitar as luzes LED; manter uma exposição solar adequada, o que quer dizer que devemos receber bastante luz durante a manhã e expor-nos à luz natural durante, pelo menos, meia-hora durante o dia; desligar as luzes antes de ir para a cama; não ficar acordados na cama se não conseguirmos dormir: se nos mantivermos acordados durante mais de 20 minutos devemos levantar-nos e fazer qualquer coisa relaxante até sentir sono. A ansiedade por não conseguirmos dormir pode dificultar ainda mais o adormecer.

Finalmente, recordemos que uma vida com o sono em dia é sinal de uma vida saudável. Catástrofes como o desastre no reator nuclear de Chernobyl e o encalhe do petroleiro Exxon Valdez, entre tantos outros, foram provocados pela falta de sono.20 E, já agora, se algum dia (ou noite) sentir sono enquanto conduz, por favor, pare. A probabilidade de ter um acidente grave é elevadíssima.

Bom dia, boa noite, bom sono e bons sonhos!

**************************************************

A nossa edição:

Matthew Walker, Porque Dormimos, Editora Desassossego, Lisboa, 2019, 1ª ed.

**************************************************

Notas:

1Depois de dez dias de apenas sete horas de sono por noite, o cérebro fica tão disfuncional quanto estaria depois de 24 horas sem dormir.

2 A importância do sono é hoje reconhecida pela OMS que catalogou a falta de sono abrangente como um epidemia global. E o próprio Guiness Book retirou o recorde da privação do sono do seu livro de recordes, por reconhecer o seu caráter nocivo.

3 Os elétrodos registam sinais emitidos por três regiões distintas: a atividade das ondas cerebrais, a atividade dos movimentos oculares e a atividade muscular.

4 De realçar que o cérebro consome 20% da energia do nosso corpo, embora represente apenas 2% do seu peso total.

5É considerado “sono normal” um sono contínuo com duração entre 7,5 e 9 horas. Uma sesta com duração máxima de hora e meia e que termine antes das 15:00 horas, também é considerada normal e mesmo benéfica.

6Ob. cit., p. 18.

7Logo que acordamos a adenosina começa a acumular-se no cérebro. Quando atinge o seu ponto máximo, sentimos uma vontade irresistível de dormir. Na maior parte das pessoas isto acontece depois de estarem entre 12 a 16 horas acordadas.

8 “Circa” (em torno de) e “diam” (dia). Daí deriva o termo circadiano.

9 Foi possível determinar o ritmo circadiano humano através de experiências em que indivíduos foram privados da luz solar. A mais famosa foi realizada em 1938, quando o professor da Universidade de Chicago Nathaniel Kleitman e o seu assistente Bruce Richardson estiveram 32 dias mergulhados na escuridão profunda da Caverna Mammoth, no Kentucky, uma das mais profundas do planeta. Sabe-se hoje que o relógio circadiano de um humano adulto é de cerca de 24 horas e 15 minutos. São a luz solar e o núcleo supraquiasmático que ajustam o nosso relógio interior para as 24 horas do dia. “Quiasma” significa ponto de cruzamento, e o núcleo supraquiasmático situa-se mesmo por cima do ponto, no centro do cérebro, onde os nervos óticos, com origem nos globos oculares, se cruzam, “decidindo” quando queremos estar acordados ou a dormir.

10 O sono insuficiente durante a infância tem relação direta com o consumo de álcool e drogas na adolescência. “O álcool é um dos repressores mais poderosos do sono REM de que temos conhecimento” (ob. cit., p. 97).

11 Apesar de em 2014 Shuji Nakamura, Isamu Akasaki e Hiroshi Amano terem ganhado o Prémio Nobel da Física pela invenção da luz LED, devido à poupança de energia e à maior longevidade das lâmpadas LED, estas emitem luzes azuis de ondas curtas muito mais próximas da luz do dia do que as velhinhas lâmpadas incandescentes de luzes quentes e amarelas, perturbando assim o sono.

12 REM (Rapid Eye Movement); NREM (Non-rapid Eye Movement).

13 A doença de Alzheimer é provocada pela acumulação de uma proteína chamada beta-amiloide. A Drª Maiken Nedergaard, da Universidade de Rochester, descobriu uma espécie de “rede de esgoto”, a que chamaram sistema glinfático (constituído por células gliais espalhadas pelo cérebro), o qual, à semelhança do que o sistema linfático faz no corpo, limpa as substâncias nocivas do cérebro, nomeadamente os contaminantes metabólicos perigosos gerados pelo trabalho dos neurónios, entre eles a perigosa proteína beta-amiloide, bem como outra proteína denominada “tau” e moléculas de pressão, que se pensa serem a causa da Alzheimer. A carência de sono NREM faz com que essa limpeza não seja eficientemente realizada, provocando a acumulação dos contaminantes metabólicos. Margareth Thatcher e Ronald Reagan, que afirmavam dormir apenas 4 ou 5 horas por noite, contraíram a doença de Alzheimer… Alguém deveria avisar o nosso Presidente!

14 O professor da Universidade de Harvard, Robert Stickgold, chegou a esta conclusão após conceber uma experiência com 29 jovens adultos saudáveis, a quem pediu que registassem o que faziam durante o dia, bem como as suas preocupações emocionais. Pediu-lhes também que registassem os sonhos de que se lembrassem, obtendo, assim, 299 relatórios de sonhos ao longo de 14 dias.

15 O Dr. Murray Raskind, um médico especialista em PSPT (Perturbação de Stresse Pós-Traumático) e doença de Alzheimer, constatou que um medicamento chamado prozonina, que receitava para controlo da pressão arterial de alguns dos seus pacientes, também lhes aliviavam os pesadelos e sonhos dolorosos recorrentes devidos aos traumas de guerra. Veio a revelar-se que a prozonina tinha também o efeito de suprimir a noradrenalina no cérebro, permitindo que os pacientes dormissem mais tranquilamente.

16 Isto é bastante problemático para pessoas que nas suas atividades profissionais, como polícias e pessoal médico, frequentemente têm que avaliar as emoções transmitidas por expressões faciais de inúmeros indivíduos, avaliações em que o erro pode causar uma tragédia.

17 Keith costumava deitar-se com uma guitarra e um gravador ligado ao lado da cama. Numa manhã, quando acordou, sem se lembrar de nada, puxou a fita do gravador atrás e ouviu os primeiros acordes de “I Can Get No Satisfaction”.

18 Uma descoberta relativamente recente (2013) confirmou que há “sonhadores lúcidos”, ou seja, pessoas que conseguem controlar os próprios sonhos. Estes indivíduos representam quase 20% da população.

19 Durante a adolescência, o processo de desenvolvimento da arquitetura cerebral, com a ajuda do sono REM, já está completo. O objetivo agora já não é aumentar a escala, antes reduzi-la, e aqui quem tem o protagonismo é o sono NREM, ajudando na poda das ligações, e no desbaste sináptico que tipicamente acontece na adolescência.

20 Ob. cit., pp. 350-51.

**************************************************

Foto retirada de:

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2017/sep/24/why-lack-of-sleep-health-worst-enemy-matthew-walker-why-we-sleep.

**************************************************

Homo Interstaticus

Homo Biologicus, é o título do primeiro livro do médico francês Pier Vincenzo Piazza.

Todo o organismo tende para um estado de equilíbrio, o estado homeostático. Temos de respirar, comer e beber para manter esse equilíbrio, sendo que a auto-regulação do nosso organismo faz o resto. Há milhões de anos, quando os nossos ancestrais viviam num ambiente em que os recursos alimentares disponíveis eram escassos, a seleção natural, por uma questão de sobrevivência da espécie, “criou” o que hoje chamamos de homem “exostático”, aquele que, em oposição ao homem “endostático” que apenas se alimenta até ficar saciado, come mais do que necessita para repor o equilíbrio momentâneo, isto é, armazena comida no organismo prevenindo momentos futuros de escassez. Tal como beber sem ter sede ou respirar mais do que o necessário, também comer sem ter fome era, naquela período, penoso. Então, a seleção natural teve de “engendrar” uma estratégia para que o organismo dos nossos ancestrais armazenasse o bem mais escasso de que necessitava – comida – e assim nasceu o prazer.

A nossa espécie passou, a partir daí, a ter dois tipos de indivíduos, os “endostáticos” e os “exostáticos”. Estes últimos são os mais propícios a ter todo o tipo de prazeres, desde a vontade incontrolável de comer (daí a praga da obesidade), ao consumo de drogas, passando pelo vício do jogo e a apetência para desportos radicais. Para lá de um sistema endocabinoide mais operante próprio dos “exostáticos”, não existe nada de errado com estes indivíduos. O que acontece é que o processo de seleção natural tem uma escala de milhões de anos e o processo tecnológico humano de transformação dos recursos terrestres (nomeadamente a agricultura) tem uma escala muito menor. Ou seja, os nossos organismos preparados pela natureza para viverem em tempos de escassez, viram-se subitamente rodeados de abundância. Daí que haja tantos indivíduos obesos nas sociedades ocidentais: enquanto “exostáticos”, eles estão “programados” pela natureza para comerem mais do que necessitam e assim armazenarem energia, em prol da sobrevivência da espécie.

Esta dualidade endo/exos da nossa espécie reflete-se também nas visões que temos do mundo. O indivíduo “endostático” tende a ser conservador e o “exostático” progressista. As visões “endostática” e “exostática”, além de se oporem entre si, são limitativas e parciais, não nos permitindo enfrentar com eficácia os graves problemas que o mundo enfrenta, pois tal só é possível se compreendermos, afinal, por que existe essa oposição. Para isso, Piazza, o autor de Homo Biologicus, o livro onde tudo isto se esclarece, propõe um homem novo, com uma nova visão: o homo interstaticus. Com uma abordagem mais abrangente, este novo homem está pronto para sintetizar as visões “endostática” e “exostática”, e assim dar resposta aos problemas que a nossa espécie enfrenta. Por exemplo, não é mais possível, considerar os viciados em drogas (ou noutra coisa qualquer) como pessoas falhas de vontade, uma vez que a sua biologia os impele a ter esse comportamento. Ninguém se lembraria de considerar um esquizofrénico ou um autista como pessoas falhas vontade. Pois o mesmo deve acontecer com os viciados em drogas (das leves às duras, incluindo as mais disseminadas e legais como o álcool e, sobretudo, o tabaco) que, à luz dos conhecimentos científicos contemporâneos, tal como os que padecem de Alzheimer ou Parkinson, são pessoas doentes.

A abordagem aos problemas causados pelas drogas está pois condicionada pelo nosso dualismo. É por isso que a maioria de nós ainda pensa que as drogas consideradas “duras” são as mais perigosas, quando na realidade são as menos tóxicas e as que menos matam. Estas drogas são proibidas em quase todas as sociedades, ao contrário do álcool (proibido apenas em algumas sociedades) e do tabaco (cujo consumo não é proibido em nenhum país), que matam um número de indivíduos muitíssimo superior em todo o mundo, simplesmente por uma razão: porque um viciado em tabaco consegue perfeitamente trabalhar enquanto um viciado em heroína tem grande probabilidade de deixar de ser produtivo. Esta perspetiva utilitarista, que considera o viciado um fraco sem domínio de si mesmo, não nos permite abordar a raiz do problema.

Na verdade, essa visão do homem sem vontade, advém mais uma vez de uma perspetiva dualista ainda presente nas nossas sociedades: a de que somos compostos por duas partes, uma material (o corpo) e outra imaterial (a mente ou a alma). Piazza mostra-nos que tal coisa não existe: a nossa suposta “vontade” é fruto do que se passa no nosso cérebro que, apesar da sua incrível complexidade, é matéria. Somos, de facto, um animal exclusivamente biológico, um organismo com o cérebro proporcionalmente maior, mas ainda assim, um organismo como os outros na natureza. É com consciência das nossas limitações que devemos também abordar o futuro, repensar tudo, incluindo o percurso de guerras e destruição ambiental que vem caracterizando a atividade humana. É necessário um novo ponto de partida e a esperança reside numa abordagem mais abrangente e integral, à luz dos novos conhecimentos científicos sobre a biologia humana, a do homo interstaticus.

**************************************************

A nossa edição:

Homo Biologicus, Pier Vincenzo Piazza, Bertrand Editora, Lisboa, 2020.

**************************************************

Foto retirada de :

https://www.sudouest.fr/2019/09/29/piazza-la-biologie-et-la-vie

**************************************************

Em Busca de um Mundo Melhor

Sócrates, Kant e Popper – uma linha filosófica claramente definível, oposta a todas as outras.

O primeiro livro que li de Karl Popper, no início dos anos 90, foi Em Busca de um Mundo Melhor[1]. O seu conteúdo é muito diversificado e inclui palestras, artigos, transmissões radiofónicas e até uma carta. Documentos produzidos ao longo de trinta anos. A recolha e seleção do material foi do próprio Popper[2], e podemos dizer, sem grande margem de erro, com o intuito de abranger, tanto quanto possível, todas as áreas do seu pensamento.

E que áreas são essas? Bom, Popper interessou-se pelas ciências naturais, sobretudo Física, Química, Biologia e Cosmologia[3], disciplinas em que foi inovador, mas também pelas ciências sociais, particularmente pela Sociologia, campo em que produziu, além de A Pobreza do Historicismo, a obra talvez mais odiada pelos inimigos da liberdade e, para mim, o livro de não-ficção mais importante do século XX: A Sociedade Aberta e Seus Inimigos[4]. Na base do pensamento de Popper encontramos profundas convicções éticas, como mostrou Mariano Artigas em As Raízes Éticas da Epistemologia de Karl Popper[5], sendo, por isso, notório o seu comprometimento com a Ética; e, como um não-positivista, tantas vezes auto-declarado mas nem sempre atendido, Popper não desmerecia a Metafísica como fonte de possibilidades de conhecimento. Podemos ver, assim, que a sua doutrina responde cabalmente às célebres quatro perguntas de Kant[6].

Regressemos ao livro e ao primeiro capítulo que se intitula Conhecimento e Formação da Realidade – Em Busca de um Mundo Melhor. O seu conteúdo resume-se à transcrição de uma palestra proferida em Alpabach, uma pequena vila da província de Tirol, na Áustria[7], e é apenas sobre ele que nos vamos debruçar. Todos os que estão familiarizados com a obra de Karl Popper conhecem a sua divisão do Real em “mundo 1”, “mundo 2” e “mundo 3”. O mundo 1 é o da realidade física, de tudo o que existe na Terra e fora dela, vivo ou inanimado, é o mundo material, incluindo o universo, seus mecanismos e forças; o mundo 2 é o da consciência, das experiências humanas, da nossa interação com o mundo 1; e o mundo 3 é o das realizações do mundo 2, as produções da mente humana: livros, sinfonias, esculturas, automóveis, escovas de dentes, poemas, enfim, aquilo a que poderíamos chamar “cultura”.

Enquanto elementos físicos do mundo 3, essas produções humanas passam também a pertencer ao mundo 1, o mundo das coisas materiais[8]. Vemos, assim, que os três mundos estão não apenas interligados, mas também, por vezes, sobrepostos, embora perfeitamente distinguíveis. Além disso, os três mundos têm uma ordenação temporal, daí a clara numeração em 1, 2 e 3: de acordo com o conhecimento científico atual[9], podemos afirmar que a parte inanimada do mundo 1 é, de longe, a mais antiga; que depois vem a parte animada do mundo 1 e, quase simultaneamente, o mundo 2, o mundo das experiências; e que só depois, com a chegada do homem, aparece o mundo 3, o mundo dos produtos mentais e da cultura.

Popper liga os três mundos à história da Filosofia. De facto, há filósofos que afirmam existir exclusivamente o mundo 1 – os materialistas – enquanto outros acreditam existir apenas o mundo 2 – os idealistas – e existem ainda os que acreditam nos mundos 1 e 2, os chamados dualistas. Ele vai mais longe, e afirma que não apenas o mundo 1 e o mundo 2 são reais, mas também é real – e deveras importante – o mundo 3, a última etapa (até agora) da evolução.

E porque é tão importante o mundo 3, segundo Popper? Porque uma das mais significativas produções humanas é a formulação de teorias científicas, as quais, ao estarem disponíveis no mundo 3, são suscetíveis de crítica; e esta crítica pode conduzir a teorias científicas concorrentes. A formulação de teorias só é possível porque os seres humanos, num determinado momento da sua caminhada sobre a Terra adquiriram a capacidade de comunicar através de um tipo de linguagem único, diferente da linguagem dos outros animais. Popper denomina esse tipo de linguagem de argumentativa[10].

Isto pode parecer relativamente banal, mas é relevante pelo seguinte: todo o conhecimento avança através do velhinho método de tentativa e erro, sendo que, durante um longo período evolutivo, errar significava quase sempre perder a própria vida; porém, na atual fase evolutiva, temos a felicidade de podermos deixar as teorias científicas morrer, em vez de nós. É por isso que este é igualmente o estádio que reúne as condições para que a paz entre os homens seja possível (podemos substituir armas por argumentos), evoluindo de acordo com o impulso natural de qualquer organismo, “desde a amiba a Einstein”, que é o de melhorar a sua condição.

Assim, Karl Popper aceita a teoria da evolução de Darwin apenas em parte. Enquanto o darwinismo, em larga medida sob a influência de Malthus, coloca os seres vivos sobre forte pressão do ambiente que os rodeia – uma força de fora para dentro – Popper considera que todos os seres vivos estão constante e ativamente procurando melhores nichos ecológicos – uma força de dentro para fora – transformando-se, recriando-se, para melhor captarem e utilizarem o que precisam da natureza. Em busca de um mundo melhor[11].

******************************

Notas:

[1] Esse livro era uma edição (portuguesa) da editora Fragmentos, publicado em 1992, que já não possuo. Emprestei-o e não mo devolveram. Recentemente quis comprar um novo exemplar, procurei-o, e verifiquei que o livro está esgotado, não apenas em Portugal, mas também em Espanha e até no Brasil. A solução foi mandá-lo vir do Reino Unido, através da Fruugo. É com base nessa edição inglesa que escrevemos este artigo.

[2) Em 1989.

[3] Nas palavras do próprio Popper, “toda a ciência é cosmologia”.

[4] Popper conta-nos, na sua auto-biografia, que este livro nasceu de apontamentos e reflexões acumulados durante um certo tempo. Esses textos multiplicaram-se de tal forma, que levaram Popper a pensar numa obra, que acabaria por ser “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” (em dois volumes), escrita na Nova Zelândia e publicada em 1945.

[5] Tradução nossa do artigo, aqui:https://ilovealfama.com/2017/07/13/as-raizes-eticas-da-epistemologia-de-karl-popper/

[6] “O que posso saber?”, “O que devo fazer?”, “O que me é permitido esperar?”, “O que é o homem?”. Através destas 4 perguntas, Kant abarca todas as áreas clássicas da Filosofia.

[7]: A palestra contém as marcas inconfundíveis de Popper: rigor, clareza, elegância e, sempre que a oportunidade surge, uma pitadinha de humor.

[8] De notar que um poema ou uma música são coisas imateriais enquanto estiverem apenas na nossa cabeça, mas passam a algo físico quando forem transcritas para o papel ou quando forem declamadas ou tocadas (as ondas sonoras pertencem, como é óbvio, ao mundo 1).

[9] Conhecimento que, para Popper, é sempre conjetural.

[10] De acordo com Popper, existem quatro tipos de linguagem: da mais básica para a mais complexa, 1) expressiva e 2) comunicativa, comuns aos outros animais e ao homem; 3) descritiva e 4) argumentativa, exclusivamente humanas.

[11] Esta ideia de Popper baseia-se na “seleção orgânica”, assim denominada originalmente por Lloyd Morgan, Baldwin e outros, mas que teria sido apresentada muito antes, sem essa denominação, pelo geólogo escocês James Hutton. Isto quer dizer que os indivíduos (todos os seres vivos) fazem escolhas por iniciativa própria – por exemplo, a preferência por um novo alimento, por um novo método de caça ou por uma nova árvore onde fazer o ninho. Cada novo comportamento pode ser visto como a seleção de um novo nicho ecológico. Assim, o animal e a sua descendência ficam expostos a um novo ambiente, logo, a uma nova pressão seletiva que guia o desenvolvimento genético dos indivíduos para se adaptarem ao novo ambiente.

**************************************************

Foto retirada de https://www.stuff.co.nz/national/christchurch-shooting/111390530/dont-tolerate-the-intolerant-wrote-philosopher-karl-popper-during-his-stay-in-nz.

**************************************************

Longe da Árvore

Andrew Solomon, ao centro, com a família mais próxima.

O título, “Longe da Árvore”, remete para um provérbio alemão que diz “a maçã nunca cai longe da árvore”, sugerindo que os filhos nunca se afastam muito das características dos pais. Esta ligação (ou continuidade) entre pais e filhos é chamada “identidade vertical”. Mas há casos em que prevalece uma identidade diferente, partilhada por indivíduos com características e personalidades especiais – a “identidade horizontal”. Solomon estudou dez grupos com este tipo de identidade, que correspondem a dez capítulos do livro. São estes: “Surdos”, “Anões”, “Síndrome de Down”, “Autismo”, “Esquizofrenia”, “Deficiência”, “Prodígios”, “Violação”, “Crime” e “Transgéneros”, aos quais acrescentou um primeiro capítulo sobre “Filhos” e um último, intitulado “Pais”.

Solomon descreve os desenvolvimentos que ocorrem dentro de cada grupo, recorrendo a casos reais (centenas deles) que pesquisou, muitas vezes in loco, durante mais de uma dezena de anos, mostrando-nos como, mesmo quando os pais, à partida, pensam não ser capazes de suportar o drama vivido, começam por aceitar aquele indivíduo (filho ou filha) tal como é, acabando, quase sempre por amá-lo e dedicar-lhe, por vezes em exclusividade, a sua própria vida. Esta é a regra, mas, como sempre, há exceções.

Alguns destes filhos excecionais acabam por ser também pais que muitas vezes desejam filhos “perto da árvore”[1]. Alguns destes grupos constituem-se já como subculturas, como é o caso das comunidades surda e gay, por exemplo, e o mesmo começa a acontecer com portadores do síndrome de Down e outros, cujos pais, por razões diversas, não consideram que os filhos tenham qualquer patologia (daí não estarem interessados numa cura), mas apenas uma identidade diferente, que, em nome da diversidade, se deve perpetuar. Até que ponto isto é legítimo e saudável constitui apenas uma das muitas questões controversas que os desenvolvimentos técnicos, científicos e sociais vieram colocar na ordem do dia. Passámos rapidamente de uma época (há uns meros 20 ou 30 anos), em que estas pessoas excecionais eram descartadas pela sociedade, colocadas em instituições, abandonadas ou mesmo mortas, para a época atual, em que as crianças que nascem com identidades horizontais veem reconhecido o seu direito a uma vida digna por parte do Estado e das famílias. Pais extremosos, completamente dedicados a esses filhos invulgares, permitem-nos perspetivar, pela sua luta de hoje, um futuro em que os filhos poderão ter essas (ou outras) características excecionais selecionadas pelos pais. Surdos podem querer ter filhos surdos, anões podem querer filhos anões, etc.

O livro (com mais de mil páginas) é escrito com mestria e elegância, fazendo jus à elevada reputação do autor. No último capítulo, Solomon aborda a sua própria experiência enquanto progenitor, descrevendo o seu trajeto de pai homossexual, sugerindo que o exemplo de tantos outros, que aceitaram as identidades horizontais dos filhos, pode ter sido inspirador.

**************************************************

Notas:

[1] Expressão nossa.

**************************************************

Foto retirada e adaptada de: nytimes.com.

**************************************************

Comportamento

Robert Sapolsky.

O que nos induz a um determinado comportamento, sobretudo em situações-limite, como a de “matar ou morrer”? Aquilo que fazemos num momento, por exemplo, apertar um gatilho, tem causas complexas que remontam de frações de segundo a milhares de anos. As causas imediatas são as que se relacionam com a anatomia cerebral de cada indivíduo e as mais remotas prendem-se com a forma como evoluímos enquanto espécie. Pelo meio temos as hormonas, o ambiente na infância (sobretudo) e ao longo da vida, a cultura em que estamos inseridos. Tudo depende do contexto. Temos predisposição genética e ambiental para agir de determinado modo, mas é em última análise o contexto (o momento), que inclui todas as varáveis citadas acima e outras, que potencia ou não essa forma de agir.

O livre-arbítrio é algo muito difícil de conceber dado que todos somos condicionados pelo contexto, sempre. De acordo com a perspetiva de Sapolsky, é provável que daqui a quinhentos anos os nossos descendentes achem as condenações que fazemos de certos comportamentos tão estúpidas quanto nós achamos hoje as que se faziam há quinhentos anos; por exemplo, de pessoas com epilepsia que se dizia estarem possuídas pelo demónio. Ou seja, é possível, e até previsível, que no futuro as pessoas não sejam consideradas culpadas por comportamentos que agora consideramos repulsivos, monstruosos ou repugnantes. Esse desafio já se coloca hoje nos sistemas judiciais mais evoluídos.

***************************************************

A nossa edição:

Comportamento, Robert M. Sapolsky, Temas e Debates, Círculo de Leitores, Lisboa, 1ª edição, 2018.

***************************************************

Autor da foto: L.A. Cicero, em
https://news.stanford.edu/2017/05/08/biologist-robert-sapolsky-takes-human-behavior-free-will/

**************************************************

Reinventar o Estado Social – A Experiência Sueca

mauricio rojas
Mauricio Rojas nasceu no Chile em 1950 e residiu na Suécia (entre 1974 e 2008), aonde chegou como exilado político. Foi deputado no parlamento sueco e integrou a Comissão Constitucional, sendo também porta-voz do Partido Liberal sobre matérias de emigração e integração. Desde finais de 2008 vive em Madrid. É diretor do Observatório de Imigração e Cooperação para o Desenvolvimento da Universidade Rei Juan Carlos.

O presente artigo não é, nem pretende ser, uma análise crítica ao livro de Mauricio Rojas, cujo título partilha. Trata-se apenas de uma divulgação deste, o qual, por seu turno, é uma descrição (supostamente) factual da transição sueca, iniciada nos anos 1990,  para um novo modelo social. Dado que este novo modelo é largamente desconhecido da maioria das pessoas (que se refere ao “modelo sueco” desconhecendo esta transição), achamos por bem divulgá-lo. Para tal resumimos o livro de Rojas, traduzindo livremente (e por isso assumindo a responsabilidade por alguma falha), do original em castelhano (tanto quanto sabemos não há tradução em português), adaptando-o ao nosso artigo.  Esperamos com este trabalho contribuir para um melhor conhecimento do novo estado social sueco e das razões que forçaram a Suécia a abandonar o seu, ainda hoje, famoso modelo do passado. Vejamos o que nos conta Mauricio Rojas.

Um pouco de história 

Até à década de 60, a Suécia caracterizou-se pela pequena dimensão do Estado e pela baixa carga tributária, menor que a dos Estados Unidos,  do Reino Unido, da Alemanha e da França. No entanto, num curto espaço de tempo, ou seja, nos anos 70, a carga tributária sueca era já maior do que a de qualquer dos países referidos e correspondia a cerca de 40% do PIB. Outro dado interessante é que, até meados do século XX (mais precisamente entre 1870 e 1950), entre os países desenvolvidos, apenas o PIB da Suíça cresceu mais que o da Suécia1; pelo contrário, entre 1950 e 1973, apenas o Reino Unido teve um crescimento inferior ao sueco; e de 1973 a 1998, apenas a Suíça. Durante aquele período (de 1870 a 1950), o Estado sueco teve um papel importantíssimo, construindo caminhos de ferro, criando as chamadas “escolas do povo”, que garantiam a escolaridade a praticamente todas as crianças do país, e simultaneamente instituições que protegiam a liberdade individual e a propriedade, que exigiam o cumprimento dos contratos e mantinham o Estado de Direito.

Desta pujante economia retirariam os governantes sociais democratas os frutos que lhes permitiram criar o seu modelo de estado de bem-estar social quando chegaram ao poder na Suécia, em 1932. Até à década de 60 manteve-se uma clara delimitação de funções entre empresas privadas e Estado, em que este respeitava a liberdade empresarial na indústria, no comércio e no setor financeiro enquanto o empresariado respeitava e mesmo apoiava uma certa expansão estatal e, consequentemente, um certo controlo social-democrata das áreas de bem-estar social. Este “modelo sueco” foi elogiado por Roosevelt, em 1936, nos seguintes termos: ” Na Suécia há uma família real, um governo socialista e um sistema capitalista trabalhando em conjunto da maneira mais feliz que poderíamos imaginar”.

Estes primeiros governos eram protagonizados por líderes oriundos do operariado industrial, que tinham uma visão moderada da social-democracia. Os líderes posteriores, porém, eram oriundos da classe média e, o que não deixa de ser curioso mas concordante com o que se passa um pouco por todo o lado, eram muito mais radicais. Em vez da socialização das fábricas e outros meios de produção, o novo modelo buscava socializar os resultados da produção através de impostos cada vez mais altos sobre o rendimento e o consumo, algo que viria a atingir o auge nas décadas de 70 e 80.

A Suécia foi também o país onde durante mais tempo – de 1935 a 1975 – estiveram em vigor leis sobre esterilização forçada. Neste período foram esterilizadas 62.888 pessoas, quase todas mulheres de baixa condição social. Os motivos mais apontados eram “débil mental”, “imbecil”, “frouxa”, “anti-social”, “misturada racialmente” e “sangue cigano”. Este radicalismo cresceu paulatinamente, levando ao abandono do tradicional folkhemmet2, com o qual se buscava um mínimo de dignidade e apoio social para todos, passando, nas décadas posteriores ao fim da II Guerra Mundial, à formação do grande Estado benfeitor sueco. Em três décadas apenas, a Suécia passou de uma situação em que era um dos países desenvolvidos com impostos mais baixos a outra muito distinta em que superou todos os outros países neste terreno.

De facto, em 1990 a Suécia tinha impostos 54,1% mais elevados do que a média da OCDE e 93% acima dos Estados Unidos. Por seu turno, a despesa pública passou de 31% do PIB em 1960 para 60% em 1980, período em que triplicou o emprego público. As promessas de segurança económica e social tinham sido enormemente ampliadas, comprometendo-se o Estado a assegurar um alto nível de proteção face a uma eventual perda de rendimentos, fosse esta devido a doença ou desemprego. Finalmente, chegou-se ao ponto de assegurar a todos os cidadãos um alto nível de vida, independentemente da sua contribuição para o bem-comum.

Com a ascensão de Olof Palme à liderança do partido social-democrata, em 1969, destruiu-se o que ainda restava da folkhem de Per Albin Hansson, e do compromisso por parte do Estado de não se imiscuir na gestão empresarial do setor privado sueco. Foi então que se colocou unilateralmente o poder do Estado do lado dos grandes sindicatos, abrindo as portas a reivindicações salariais desmedidas, que afetaram muito seriamente as indústrias suecas e deram origem, em 1976, a uma inflação de 10%, algo que não acontecia desde 1951. Entretanto, enquanto o emprego público crescia, acontecia precisamente o contrário no setor privado. Entre 1965 e 1985 foram reduzidos 274.000 postos de trabalho no setor privado, enquanto o emprego público se expandia em mais de 850.000 postos de trabalho. Isto foi absolutamente insólito e não encontra paralelo em nenhum outro país desenvolvido. Os problemas de eficiência típicos das economias planificadas começaram a fazer-se sentir e os suecos foram ultrapassados pela larga maioria dos países desenvolvidos, quando, 30 anos antes, apenas os Estados Unidos tinham um PIB per capita superior3.

Para alimentar o Estado todo-poderoso os impostos subiram a níveis asfixiantes, chegando a 56,2% do PIB em 19894. Num contexto destes a progressividade tributária é necessariamente muito reduzida, assim como a margem para aumentar ainda mais os impostos5. Isto foi muito problemático e implicou que o Estado de bem-estar sueco dependesse constantemente de uma conjuntura de pleno emprego e, estruturalmente, de uma relação demográfica favorável para manter um rácio ótimo entre população ativa e passiva. Por outro lado, este modelo económico causou enormes dificuldades à criação de emprego, se o compararmos aos de economias com impostos mais baixos.

As duas consequências mais importantes retiradas deste modelo sueco foram as seguintes. Ao nível económico, uma diminuição clara do PIB per capita (que desceu continuamente entre 1975 e 1995) e, ao nível social, um monopólio estatal sobre a organização dos serviços básicos de educação, saúde e assistência social, que limitou a liberdade de escolha dos indivíduos. Esta orientação política conduziu à criação de uma verdadeira volkgemeinscaft5, ou seja, uma sociedade baseada na homogeneidade dos seus elementos.

A mudança

A crise deste estado benfeitor e o início do seu abandono progressivo deu-se na década de 90. A isso conduziram fatores económicos, sociais, políticos e ideológicos. Comecemos pela economia, certamente o elemento catalisador da mudança. Em meados dos anos 70 tornou-se evidente que a Suécia tinha entrado num ciclo de crescimento lento, perdendo competitividade face às economias mais desenvolvidas. Novos competidores industriais e os aumentos de salários desmedidos só agravaram a situação. Estas dificuldades ajudam a explicar a derrota histórica da social-democracia nas eleições de 1976, a primeira do pós-guerra. Mas seria em 1990 que todo o sistema se desmoronaria, quando, após alguns anos de especulação financeira e imobiliária, se desencadeou a mais grave crise económica do país, desde os anos 30.

Nos anos seguintes, tudo piorou. De 1991 a 1993 o produto per capita caiu mais de 6%, e entre 1990 e 1994 perderam-se mais de meio milhão de empregos. A consequência imediata foi uma crise fiscal de enorme magnitude, face aos subsídios que tiveram de ser pagos e à quebra de receitas derivada do menor número de trabalhadores no ativo. Nestas condições era inevitável o endividamento do Estado, pelo que o montante da dívida pública duplicou em apenas quatro anos. Tudo isto abalou a confiança na economia sueca e a coroa foi alvo de especulação financeira, obrigando o Banco Nacional a subir a taxa de juro em 500% e a abandonar a política de câmbio fixo.

A Suécia foi então obrigada a apertar o cinto, reduzindo salários e diminuindo o número de funcionários públicos. Alguns serviços públicos passaram a ser geridos por privados. O setor industrial exportador deu uma preciosa ajuda, aproveitando a forte depreciação da coroa desde o abandono, em 18 de novembro de 1992, do câmbio fixo. Isto permitiu que as exportações duplicassem nos cinco anos seguintes, que o excedente comercial praticamente quadriplicasse entre 1992 e 1997 e que, na segunda metade da década de 90, se conseguisse um superavit fiscal e uma redução da dívida pública. O obreiro desta mudança foi o social-democrata Göran Persson, primeiro como Ministro das Finanças (1994) e depois como Chefe do Governo (1996).

Os gastos públicos foram reduzidos em mais de 70 milhões de coroas e a crise sueca fez com que muitos cidadãos refletissem sobre o Estado de bem-estar. Ao fim e ao cabo o impensável acontecera: a sociedade igualitária, niveladora e controladora que prometia a estabilidade ilimitada, embora à custa da completa ausência de liberdade de escolha dos cidadãos, colapsara.

O desmantelamento do Estado benfeitor foi iniciado pelo líder do Partido Moderado, Carl Bildt, que governou a Suécia entre outubro de 1991 e o mesmo mês de 1994. Quando após o mandato de Bildt, os sociais-democratas regressaram ao poder, continuaram e até aprofundaram as suas reformas. E, quando, em 1996, os sociais-democratas foram de novo derrotados, a Suécia apresentava já finanças públicas sólidas, alto nível de crescimento e um Estado social muito diferente do Estado benfeitor de 1990. Foi sobre esta base que, em outubro de 2006, o novo líder conservador Fredrik Reinfeldt pôde aprofundar ainda mais as reformas anteriores. Abandonara-se definitivamente o modelo de economia fechado e planificado e criara-se um sistema de bem-estar misto, baseado na participação e na colaboração de três atores distintos: o estado, as empresas e os cidadãos.

Todo o processo se iniciou após a diminuição do número de funcionários públicos e a acumulação de privilégios, sobretudo no que toca à inamovibilidade  dos cargos. Este privilégio só se mantém hoje em dia na Suécia para um número muito limitado de funcionários públicos, nomeadamente os juízes, não se estendendo à grande massa de trabalhadores das áreas do bem-estar social. Isto foi possível porque o movimento operário, que tem um peso histórico na Suécia, nunca esteve disposto a dar ao setor da classe média e do funcionalismo privilégios ou direitos particulares. De qualquer forma, estas medidas constituíram (e constituem para qualquer país que queira seguir o exemplo sueco) uma condição sine qua non para o êxito da reforma.

Outro facto que importa conhecer para compreender esta reforma é o caráter profundamente descentralizado do estado sueco, composto por três níveis: O Estado Central, as Administrações Provinciais e as Municipalidades. O estado cuida das tarefas gerais do Reino, como a defesa, a justiça, a função policial, a educação superior e uma série de entidades nacionais com diferentes tarefas. As vinte e duas administrações provinciais têm a seu cargo a saúde, os transportes e outras funções relacionadas com as infraestruturas. As municipalidades têm a seu cargo uma ampla gama de funções sociais, como a educação pré-escolar, básica e secundária, o cuidado a idosos e descapacitados, assim como uma série de outros serviços básicos. Estes três níveis gozam de ampla autonomia e têm o direito de cobrar impostos nas respetivas jurisdições, sendo que, nos casos das administrações provincial e municipal, recebem ainda transferências da Administração Central.

Educação

A primeira medida adotada em 1992 pelo governo de Carl Bildt e que hoje rege toda a educação pré-escolar, básica e secundária do país foi o “vale para a  educação básica”. Este é pago com fundos tributários e permite aos pais escolherem a escola dos seus filhos, seja pública ou privada. Foram criados também “vales de bem-estar” pagos pelos municípios, dirigidos a crianças em idade pré-escolar e aos cidadãos idosos.  O Estado perdeu o monopólio da prestação dos serviços sociais, mas ganhou uma relevância muito maior no papel de regulação e controlo. Isto pode parecer paradoxal, mas é uma parte importante do processo de abertura ao setor empresarial. Na verdade, ao contrário do que geralmente se crê, um mercado livre é muito mais regulado – por normas de direito privado e de direito público – que um sistema planificado de monopólio estatal que, por natureza, detesta os controlos e não gosta da transparência nas suas atividades.

No que toca especificamente à educação, o domínio onde o monopólio estatal era mais evidente (em 1990, 99% das escolas eram públicas), já existiam, no ano letivo 2006-07, 599 escolas básicas e 300 escolas secundárias independentes, cobrindo um total de 135.000 alunos, nove vezes mais do que no início da reforma, em 1992-93. A cada ano que passa, a Superintendência de Escolas recebe mais pedidos de criação de escolas independentes. São três, as principais razões para o êxito da reforma educativa: 1- a procura por pais e alunos de alternativas pedagógicas mais ajustadas às suas preferências; 2- o problema da disciplina, que é muito sério nas escolas públicas; 3- a qualidade no ensino.

Esta última razão é talvez a mais importante como mostram os pais dos alunos das escolas independentes, que se manifestam mais satisfeitos que os pais dos alunos das escolas municipais em itens como “disciplina”, “material pedagógico”, “apoio a alunos com dificuldades”, “transmissão de valores”, “fortalecimento da auto-estima” e “consideração de necessidades individuais”, de acordo com um amplo inquérito de 2006. Acresce ainda que o número de alunos por turma é menor nas escolas independentes onde, seja qual for a forma de medi-los, os resultados escolares são claramente superiores. O rendimento escolar de alunos provenientes de grupos socialmente mais vulneráveis – como sejam os filhos de imigrantes – é também melhor nas escolas independentes, onde o nível de reprovação é cerca de metade do das escolas municipais.

A normativa legal fundamental para o funcionamento das escolas independentes é definida pelo capítulo 9 da Lei Escolar da Suécia, que estabelece a responsabilidade fiscal (diretamente assumida pelos municípios) de assegurar a igualdade de condições de financiamento entre escolas públicas e escolas independentes. Tanto no ensino básico quanto no ensino secundário, a escolaridade é gratuita, coberta totalmente pelo vale escolar.

Atendendo a que a Lei Escolar proíbe as escolas de qualquer cobrança extra, muitos perguntar-se-ão por que alguns consórcios privados, que têm objetivos lucrativos, são proprietários de algumas escolas independentes. A razão é simples: porque são mais eficientes que os funcionários das escolas públicas, as quais, através dos seus custos, servem de indicador para o montante do vale escolar. Este valor pecuniário é efetivamente alto. O custo médio de um educando sueco do nível básico supera em 28% a média dos países da OCDE, em 34% a Finlândia (vizinho da Suécia que exibe resultados escolares muito superiores aos suecos) e em 50% a Espanha. Existe, pois, uma larga margem para ganhos de eficiência, que muitas escolas independentes têm capitalizado. Isto provoca, por vezes, reações adversas de alguma opinião pública que não quer admitir o lucro numa atividade publicamente financiada. No entanto, quando se torna evidente que eliminar o lucro da iniciativa privada no setor não implicaria nem uma coroa de poupança quer ao setor público quer aos contribuintes, a polémica acalma.

Apesar destas reformas, a escola sueca ainda apresenta importantes desafios. A política escolar anterior deteriorou seriamente tanto os conteúdos educativos como a ordem e a disciplina necessárias para levar a cabo o ensino efetivo às crianças e jovens, além de desvalorizar os controlos dos conhecimentos adquiridos, como sejam as notas e os exames. As políticas educativas atuais procuram inverter a situação. Assim, depois de décadas de flumskola (“escola da frivolidade”) está a voltar-se aceleradamente ao ideal clássico da bildningsskola, ou seja, a escola da formação e do conhecimento. Dela dependerá, em grande parte, o futuro da Suécia.

Saúde

A saúde, a educação e a assistência a idosos formam os grandes eixos de todo o estado social. Os gastos totais em saúde eram em 2006 de 239.000 mil milhões de coroas, cerca de 8,4% do PIB da Suécia. 84% deste montante era dinheiro público. Entre os países da OCDE, apenas o Reino Unido, a Eslováquia, a República Checa e o Luxemburgo superaram essa percentagem. Existe hoje, no setor da saúde sueco, uma ampla aceitação tanto do princípio da soberania do consumidor, que tende a converter-se num sistema de liberdade nacional quanto à escolha de cuidados médicos e hospitalares, como da participação do setor empresarial enquanto fornecedor de serviços dentro do sistema de saúde fiscalmente financiado.

A reforma do sistema público de saúde passou por três fases, desde o sistema planificado tradicional até formas mais abertas à competência e livre decisão dos cidadãos. A primeira iniciou-se nos anos 80 e começou por separar procura e produção dentro do sistema de produção público, e a criação de uma espécie de mercado interno com preços e faturação entre diversas unidades do sistema. No início dos anos 90. o governo de Carl Bildt eliminou as barreiras que impediam ou dificultavam a subcontratação dentro do setor da saúde, começando assim o processo de licitação de vários serviços assim como a privatização de ambulatórios, centros médicos e, inclusive, grandes hospitais. Atualmente7 ocorre uma terceira fase, onde o foco se coloca na criação de um mecanismo semelhante ao do “vale escolar”, com liberdade de estabelecimento de alternativas médicas e liberdade plena do utente para escolher a entidade prestadora de serviços.

O sistema de “licitações” (contratos de concessão do serviço público a privados) teve como principal objetivo baixar os custos da prestação dos serviços, respeitando critérios de quantidade, qualidade e uma eventual cobrança direta, ainda que parcial, ao utente. Este sistema – regulado pela lei sueca mas também pela União Europeia – não altera as condições básicas da planificação clássica e não aumenta a capacidade de escolha dos cidadãos. Foi usado na primeira fase da reforma, sobretudo devido à necessidade de se imporem medidas de austeridade. No entanto, constatou-se que a falta de alternativas, deteriorava a qualidade dos serviços e uma forma de controlar essa qualidade seria dar aos cidadãos uma maior liberdade de escolha.

Isto foi conseguido dando aos cidadãos a possibilidade de escolher entre os vários prestadores e, de forma mais ampla e plena, através dos vales de saúde e da criação livre de prestadores de serviços de saúde. Como vimos, a saúde é um setor sob responsabilidade dos governos provinciais, pelo que a implementação das reformas não é uniforme, dependendo muito das características demográficas de cada província. Estocolmo é uma das regiões onde as reformas estão mais adiantadas. O valor do vale de saúde é equivalente ao custo médio em saúde primária dos habitantes da província respetiva.

Os prestadores não podem selecionar quem busque os seus serviços, evitando-se, com esta imposição, a descriminação dos utentes de mais alto risco. O centro médico deve cobrir os custos efetivos dos cuidados aos seus utentes, o que gera – e este é um dos aspetos mais positivos de um sistema destes – fortes incentivos para que os prestadores de serviços de saúde invistam em medidas preventivas já que a sua margem de lucro dependerá em grande parte da baixa utilização dos serviços especializados, mais caros, por parte dos pacientes que escolham aquele centro médico específico. Ao mesmo tempo, os utentes podem mudar de centro médico quatro vezes por ano no caso da província de Halland e quando queiram, no caso da província de Estocolmo.

Acresce, ainda, que esta plena liberdade de escolha foi acompanhada pela elaboração de “guias de saúde” que dão aos cidadãos ampla informação sobre os rendimentos e características dos centros de saúde, assegurando, assim, uma escolha informada. Existem vários hospitais, além de um privado e outro a caminho de sê-lo, que prestam, mediante concessão, cuidados mais especializados. O paciente tem liberdade de escolher o hospital que prefere, embora o sistema de listas de espera possa distribuir os pacientes por outros hospitais. Quanto aos cuidados de emergência, o utente escolhe com toda a liberdade o hospital, e o serviço é pago por um fundo flexível do orçamento da administração provincial.

Entre as consequências mais notáveis do processo de abertura do setor de responsabilidade pública à iniciativa privada está o rápido surgimento de grandes empresas em todos aqueles itens onde antes só existiam atores públicos. O caso da empresa Capio AB é emblemático8. Este consórcio está hoje9 presente em nove países e dá emprego a 16.500 profissionais, atendendo 3 milhões de pessoas/ano. A receita bruta em 2006 era cerca de 1.500 milhões de euros. Este é o exemplo mais destacado de um novo tipo de empresa transnacional sueca, surgido da transformação do seu velho Estado benfeitor e destinado a continuar o êxito internacional das suas indústrias clássicas.

A assistência à terceira idade (a partir dos 65 anos) foi também alvo de reformas muito semelhantes às que foram realizadas na saúde e na educação, com a criação de vales municipais que garantem à iniciativa privada a possibilidade de prestação de serviços. O município de Nacka nos arredores de Estocolmo tem sido pioneiro neste tipo de reformas e o seu sistema de bem-estar, aberto à iniciativa privada, cobre as seguintes áreas: creches; educação básica e secundária; cuidados infantis; educação para adultos e ensino do idioma sueco a imigrantes; aconselhamento familiar; terapia familiar; lares para incapacitados e pessoas com necessidades especiais; serviços ao domicílio para maiores de 65 anos; centros de atividades para a velhice; lares da terceira idade; serviços clínicos.

Pensões

A sustentabilidade do sistema de pensões depende da relação entre população ativa e passiva e é o grande atoleiro de quase todos os países desenvolvidos. Vejamos o caso da Suécia, onde se reformou o sistema de pensões criando um sistema misto de repartição e capitalização, acompanhado de uma engenhosa construção que alarga e torna mais sólida a base financeira do sistema, ao mesmo tempo que liga o montante efetivo das pensões quer ao crescimento económico, quer à situação demográfica. De realçar que esta reforma foi possível graças ao acordo entre o centro-direita e os sociais-democratas, no tempo de Carl Bildt. A reforma mostrou-se absolutamente necessária, face à insustentabilidade do velho sistema, incapaz de resolver os problemas criados pelo aumento do número de reformados e da esperança de vida da população. Outro grande problema era que o antigo modelo social-democrata se baseava em benefícios fixos calculados generosamente a partir da média dos 15 anos de salários mais altos do reformado, valor reajustado automaticamente de acordo com o índice de aumento dos preços.

O atual sistema de pensões e de proteção económica à velhice vigente na Suécia tem três grandes componentes: 1- acesso subsidiado ou, em certos casos, gratuito a uma série de serviços (transportes, serviços domiciliários, cuidados médicos, lares, adaptação das habitações a necessidades especiais, etc.) e bens (medicamentos, em particular); 2- pensão mínima de velhice e outras ajudas, nomeadamente às despesas dos pagamentos das casas, assegurando a todos os cidadãos que não têm outros meios, ou quando os mesmos são insuficientes, uma vida decente mesmo que modesta; 3- o sistema de pensões propriamente dito, baseado nas contribuições realizadas durante a vida laboral dos cidadãos.

A reforma das pensões baseou-se na criação de dois sistemas complementares. O primeiro capta a maior parte dos descontos obrigatórios dos trabalhadores, que é o equivalente a 16 unidades percentuais do total da quotização, que é 18,5% do salário bruto. Estes descontos são recebidos pela Caixa de Seguros (Försäkringskassan) que depois de fazer os pagamentos das pensões correspondentes, deposita os eventuais excedentes em fundos de pensões, que os investem em carteiras de valores. As 2,5 unidades percentuais que sobram dos descontos obrigatórios formam a base da assim chamada “pensão de prémio” (premie pension) e vão para contas individuais de cada trabalhador, que decide, com toda a liberdade, em que fundo as deposita, entre um total de mais de 700 alternativas autorizadas10. O rendimento desta parte individualizada do sistema de pensões está totalmente dependente da rentabilidade dos fundos de investimento escolhidos. Os valores aforrados podem ser transformados, a partir dos 61 anos, a idade mínima da reforma, numa pensão vitalícia fixa ou ser mantidos como fundos de valores.

O eixo do novo sistema corrente de pensões administrado pelo estado é a sua separação do restante orçamento fiscal. A ideia é criar um sistema autónomo protegido de qualquer uso dos descontos para outra finalidade fiscal. A Caixa de Seguros administra o sistema recebendo diretamente os descontos e efetuando os pagamentos correspondentes, que se reajustam anualmente de acordo com o desenvolvimento médio do nível dos salários. Se se gerar um excedente, o que sobra não passa para o orçamento fiscal corrente, antes entra num sistema coletivo de capitalização formado por cinco grandes fundos de pensões que, com ampla independência, os investem em todo o tipo de valores no mercado nacional e internacional sem mais limitações ou propósito do que a busca de uma sólida rentabilidade a longo prazo.

Estes fundos de capitalização coletiva formam uma reserva eventualmente necessária em caso de défice do sistema. Em nenhum caso é permitido que um défice seja coberto por meios suplementares do orçamento ou por um aumento dos descontos. Uma das ideias centrais do sistema é que as gerações futuras não assumam o peso de um sistema deficitário, protegendo-as, assim, de uma pressão tributária crescente. No caso dos pagamentos superarem as receitas do sistema mais os recursos dos fundos de capitalização, ativa-se o que se apelida de “travão” do sistema que, reduzindo o valor das pensões pagas, restabelece o equilíbrio.

Todo o sistema se baseia na manutenção de um equilíbrio a longo prazo entre receitas e despesas através de uma fórmula simples que divide os descontos previstos mais o fundo de capitalização (que formam a base total de recursos ou o “haver” do sistema) pelos gastos previsíveis com o pagamento das pensões (o “deve” ou dívida total do sistema). Esta fórmula, que se calcula todos os anos, estabelece a viabilidade global do sistema e, em caso de défice, dá o sinal para ativação do “travão”. Isto acontece quando o resultado da divisão, chamado “coeficiente de equilíbrio” (balanstalet), é inferior a 1, o que simplesmente significa que o “deve” do sistema é superior ao “haver”. Nesse caso reduz-se o montante do “deve” (o direito a pensões futuras) multiplicando-o pelo coeficiente de equilíbrio que ao ser menor que 1 reduzirá esse montante restabelecendo assim o equilíbrio.

Eis a fórmula para calcular o coeficiente de equilíbrio e o cálculo real (em milhares de milhões de coroas) que, a partir da mesma, a Caixa de Seguros fez em 2006.

Coeficiente de equilíbrio = descontos futuros+fundos coletivos de capitalização/ pensões futuras

1,0149= 5.945+858/6.703

Este resultado indica, em concreto, que o balanço a longo prazo é positivo, com um excedente de 100.000 milhões de coroas. É por isso que o resultado da divisão é maior que 1. Isto significa que o travão não deve ativar-se e que, portanto, as pensões podem continuar a ser reajustadas automaticamente de acordo com o aumento médio dos salários. Esta fórmula tem, entre outras, a grande vantagem de gerar um equilíbrio que tem em consideração as mudanças futuras na base demográfica do sistema, o que se torna necessário para poder avaliar o “deve” e o “haver” do mesmo a longo prazo. O valor da pensão individual que se recebe é determinado pelos descontos efetivos realizados durante toda a vida laboral que dão direito aos assim chamados “direitos de pensão” que, no momento da reforma, se dividem pelos anos restantes de expectativa média de vida vigente nesse ano para o grupo ou escalão de idade a que pertence o reformado.

Vejamos um exemplo para tornar tudo isto mais claro. Sven Svensson trabalhou durante 40 anos ganhando um salário bruto anual médio de 214.000 coroas, o que dá um desconto anual (16%) de 32.000 coroas. O total acumulado durante os 40 anos será então de 1,28 milhões de coroas ao qual há que somar os aumentos gerados pelo reajuste anual médio dos salários. Suponhamos que este foi em média de 2% ao ano. Isto dá um aumento total dos descontos de Sven de 653.863 coroas, o que eleva o seu fundo de direitos de pensão a 1.932.863 coroas no momento de reformar-se aos 65 anos. É sobre esta base que se calcula a pensão de Sven. Agora falta só dividir este montante pelos anos restantes de vida, que correspondem à expectativa média para as pessoas que, tal como Sven, tenham nesse momento 65 anos. Digamos que esse número seja de 18,3 anos, Ora bem, para evitar uma quebra demasiado brusca de rendimento introduziu-se no sistema uma modificação deste número ao adiantar parte dos aumentos esperados, de acordo com a variação média dos salários.

Sendo o valor desses aumentos futuros desconhecido, a lei estabelece uma percentagem hipotética para esse reajuste na ordem de 1,6%. Assim, feitos todos os cálculos pertinentes, o resultado da divisão é 124.701 coroas anuais de pensão para Sven (sem este ajuste o valor seria apenas de 103.621 coroas). Ora bem, este valor alterar-se-á ano após ano, de acordo com o desenvolvimento médio dos salários, ao qual se deduzirá o 1,6% anual já adiantado. Entre as grandes vantagens deste sistema está o forte incentivo para que se adie a reforma. Assim, continuando com o exemplo de Sven, se este só se reformar aos 70 anos, o divisor que determina o valor da sua pensão, não seria 18,3 mas 13,3 (que é o que resta da expectativa média de vida), o que, feitos os cálculos, daria uma pensão de 170.000 coroas, ou seja, 36% superior.

O Estado facilitador

O novo sistema de pensões é ainda demasiado recente para ser devidamente avaliado. No entanto, 72 cenários projetados referem a solidez do mesmo. De momento não se prevê qualquer situação em que seja necessário usar o “travão” do sistema. Durante os cinco anos de pleno funcionamento geraram-se sempre excedentes no balanço entre contribuições e pagamento corrente de pensões o que, somado ao rendimento do fundo de pensões, proporcionou o aumento de capital dos mesmos ou, o que vai dar ao mesmo, ao incremento do plafond de estabilidade. Estes fundos coletivos de capitalização investiram o seu “haver” numa diversidade de valores, maioritariamente em ações. A sua rentabilidade tem variado, por isso, de acordo com as variações das bolsas de valores mas, em média, foi claramente superior ao crescimento da economia sueca e à subida de salários no país.

O Banco Mundial é uma das várias organizações que têm elogiado o novo sistema sueco, aconselhando a sua aplicação noutros países, o que já é uma realidade, com alguma alterações, no caso da Letónia. As características deste sistema são o resultado de uma combinação de elementos de sistemas muito díspares, compatibilizando alternativas que frequentemente são vistas como antagónicas. Trata-se, em suma, de um bom exemplo do pragmatismo renovador que a Suécia buscava para um novo modelo social.

As reformas levadas a cabo desde os anos 90 transformaram a Suécia num país muito diferente do que era antes. Um estudo da OCDE, de fevereiro de 2007, resume assim a sua avaliação sobre a economia sueca: “a Suécia pode regozijar-se pelo excelente desenvolvimento macroeconómico com altas taxas de crescimento, baixo desemprego e expectativas inflacionárias estáveis. As reformas empreendidas ainda durante os anos 90 estão dando frutos em termos de crescimento, produtividade e PIB”. Esta nova Suécia está muito mais próxima da sua tradicional busca pelo middle way, o caminho intermédio que a tornou mundialmente conhecida e do qual se afastou quando se converteu num país extremista, relativamente à expansão e ambição do Estado.

Em termos muito simples podemos classificar os estados sociais existentes num plano cujos extremos contrapostos são o modelo minimalista e o modelo maximalista. Ao primeiro chamaremos “estado subsidiário”, o qual pode ser exemplificado pelo estado de bem-estar dos Estados Unidos. Ao segundo chamaremos “estado benfeitor” e o seu exemplo paradigmático é a Suécia do período anterior à crise dos anos 90. O middle way, ou “estado facilitador”, combina certas características daqueles modelos contrapostos, formando uma espécie de modelo misto. A transição da Suécia para este novo modelo deu-se a uma velocidade surpreendente, o que, entre outras coisas, explica porque internacionalmente se continua a falar de um “modelo sueco” que só existe nos livros de História.

**************************************************

Notas:

1 Fonte: A. Madisson (2001).

2 “Casa comum”.

3 Fonte: U.S. Department of Labour (2006).

4 Em 1959 era de 25%.

5 Este problema clássico explica, por exemplo, que o sistema tributário dos Estados Unidos fosse muito mais progressivo que o sueco. E também por que a Suécia tinha os impostos mais altos do mundo sobre os salários baixos, o que dificultava enormemente a criação de empregos.

6 “Comunidade nacional”.

7 Não esquecer que o texto original de Rojas é de 2008.

8 http://www.capio.com.

9 Mais uma vez recordamos que o texto original de Rojas é de 2008.

10 Caso o trabalhador em questão não queira exercer o seu direito de escolher esses fundos de capitalização, isto será feito por um fundo de colocação de capitais da administração Pública.

**************************************************

A nossa edição:

Mauricio Rojas, Reinventar el Estado del Bienestar (La Experiencia de Suecia), Gota a Gota Ediciones, Madrid, 2014 (edição digital da obra impressa em 2008).

**************************************************

Foto retirada de: alchetron.com.

**************************************************

Exatamente um mês depois de publicarmos este artigo saiu no youtube um interessantíssimo documentário de Johan Norberg sobre a realidade sueca que aqui deixamos à consideração dos nossos leitores. Estão disponíveis legendas em português (do Brasil).

A realidade sueca escapa, em muitos aspetos, à visão tradicional que se tem da Suécia no estrangeiro.

**************************************************

Utopia para Realistas

www.aftenposten.no (1)
Rutger Bregman.

Nunca houve tanta abundância no mundo, refere Rutger Bregman. Nem tanto dinheiro. Nem tanta qualidade de vida. No entanto, o progresso económico e social é amplamente assimétrico. E esta assimetria não se verifica apenas entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos: desde os anos oitenta do século XX, sobretudo onde o credo neoliberal vingou (com Reagan e Thatcher), também ocorreu no seio dos países desenvolvidos. Poder-se-ia pensar que esta desigualdade não é, de facto, um problema, desde que todos melhorem. Mas é um problema: um estudo de Wilson e Pickett mostra que o índice de problemas sociais[1] aumenta proporcionalmente à desigualdade. Além disso, a desigualdade produz stress e este, por sua vez, é uma fonte determinante de doenças e problemas de saúde crónicos. O que fazer, então? De acordo com Bregman, se queremos manter os benefícios da tecnologia só nos resta uma opção: redistribuir, redistribuir em massa: redistribuir dinheiro (rendimento básico), tempo (semana laboral mais curta) e espaço (livre circulação de pessoas).

Relativamente à primeira medida – a redistribuição de dinheiro sem contrapartidas – é preciso esclarecer que fica mais barato (os estudos confirmam-no) do que a assistência social (aos sem-abrigo, por exemplo). O pagamento a técnicos, polícia e funcionários judiciais tem um custo mais elevado e requer muito mais burocracia do que, pura e simplesmente, doar o dinheiro que as pessoas precisam para viver. E a ideia nem sequer é nova: Thomas More lançou-a na sua conhecida obra Utopia, em 1516; e muitos outros se lhe seguiram, incluindo Thomas Paine, John Stewart Mill, H. G. Wells, George Bernard Shaw, John Kenneth Galbraith, Jan Tinbegen, Martin Luther King, Bertrand Russell e, imagine-se, os insuspeitos Friedrich Hayek e Milton Friedman. E todos tinham razão[2]. A pobreza conduz a comportamentos perigosos, e não é por acaso que há mais vícios e transtornos psicológicos entre os pobres. A pobreza é um círculo vicioso que muito poucos conseguem vencer sozinhos, nem mesmo com ajudas sociais do Estado. É preciso dar dinheiro às pessoas para que estas sejam independentes[3].

Quanto à semana laboral de 15 horas, a medida poderia resolver largamente o problema do desemprego, que a robotização inevitavelmente ampliará. A questão da produtividade não é, segundo Bregman, um problema real. Por um lado, a riqueza produzida no mundo é mais do que suficiente para todos viverem bem e, por outro, está demonstrado que um tempo de trabalho mais reduzido é benéfico, quer para o indivíduo, quer para a sociedade. De facto, os países com semanas laborais mais curtas são os mais ricos, os mais criativos e os que têm populações com maiores níveis de educação; são também os que lideram as estatísticas sobre a igualdade de género, a igualdade de rendimentos, e os que têm mais voluntários.

Finalmente, relativamente à liberdade de circulação, é preciso dizer que, no mundo global onde vivemos, tudo circula quase sem barreiras, exceto as pessoas. Curiosamente, os passaportes quase não existiam (talvez apenas na Rússia e no Império Otomano) antes da Primeira Guerra Mundial. Foi o receio da espionagem que provocou o fechamento das fronteiras. No entanto, calcula-se que a livre circulação de pessoas, por si só, aumentaria a riqueza mundial em 65 biliões de dólares. Sim: 65 000 000 000 000. “As fronteiras são a maior causa de discriminação em toda a História do planeta”[4]. Como disse Phileas Fogg (protagonista de A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Julio Verne) ao cônsul britânico no Suez, “os passaportes só servem para aborrecer os indivíduos honestos”[5].

Concordamos com Bregman quanto às medidas apontadas. Mas temos dúvidas quanto ao título do livro. “Utopia” é um termo demasiado radical, conotado e ideológico, tendo em conta que este trabalho se pretende objetivo e científico, considerando que se apoia em centenas de estudos. O autor pretendeu suavizá-lo, ao completar o título com a palavra “realistas” (uma contradição apenas aparente?) e esclarecendo que o termo “utopia” significa “bom lugar”, mas também “nenhum lugar”[6]. Em nossa opinião, se evitasse o termo “utopia”, Rutger Bregman evitaria simultaneamente que as suas propostas fossem conotadas com a esquerda mais radical; e com isto evitaria, finalmente, uma contradição: algumas das propostas que defende – nomeadamente a abertura de fronteiras – não são compatíveis com as posições nacionalistas da esquerda utópica, contrárias, por exemplo, à União Europeia.

As medidas propostas por Bregman requerem cooperação e integração num espaço comum que é, afinal, o mundo. Não se vislumbra, por agora, como isso seja possível, face aos antagonismos patentes em, e entre, várias regiões do globo, e mesmo ao recrudescimento de ambições globais. E não adianta querer arrumar o mundo sem primeiro arrumar a própria casa, pois seria utópico (cá está de novo a palavra) querer fazer tudo de uma vez. É este “arrumar da casa” que estamos a fazer há mais de meio século na Europa: cooperar e integrar num espaço comum, solidário, livre e aberto. Talvez esta grande experiência possa um dia ser ampliada, e cobrir o mundo inteiro. Para isso é preciso, em primeiro lugar, realizar a utopia das utopias, algo que não é referido nunca neste excelente trabalho de Rutger Bregman, e algo que também já conquistámos na Europa unida, esperamos que definitivamente – a Paz.

**************************************************

A nossa edição:

Utopia para Realistas, Rutger Bregman, Bertrand Editora, Lisboa, 2018.

**************************************************

Notas:

[1] O índice de problemas sociais contém os seguintes parâmetros: esperança de vida, literacia, mortalidade infantil, taxa de homicídios, população prisional, gravidez na adolescência, depressão, confiança social, obesidade, alcoolismo, toxicodependência, mobilidade vs imobilidade social. 

[2] Ao contrário de Karl Marx, que considerava sagrado o direito ao trabalho. Segundo Marx, a assistência aos pobres constituía uma tática a que os empregadores recorriam para manter os salários no nível mais baixo possível. Libertar os trabalhadores dos grilhões da pobreza exige uma revolução, não um rendimento básico.

[3] Em 1969, o presidente americano Richard Nixon quis atribuir um rendimento incondicional a todas as famílias pobres. No entanto, um conselheiro da presidência, Martin Anderson, conseguiu demovê-lo da ideia. Isto aconteceu porque Anderson elaborou um relatório baseado num clássico de Karl Polanyi (“A Grande Transformação”, de 1944), que criticava duramente uma experiência (das primeiras no mundo) de previdência social, ocorrida na Inglaterra do século XIX, que ficou conhecida como o  “Sistema de Speenhamland”. Esta experiência foi muito criticada na época: o maior estudo público levado a cabo até então em Inglaterra concluiu que Speenhamland tinha sido uma catástrofe: provocara a explosão de condutas imorais, o crescimento exponencial da população e uma redução acentuada dos salários, entre outros inconvenientes. No entanto, nas décadas de 1960 e 1970, veio a descobrir-se que esse estudo tinha sido uma fraude. Grande parte do relatório elaborado pela Comissão Real fora inventado. Ainda assim, ironicamente, fez com que, 150 anos mais tarde, Nixon mudasse de ideias.

[4] p. 192.

[5] p. 191.

[6] p. 27.

**************************************************

Foto retirada de:

http://www.aftenposten.no

**************************************************