Um concerto ultrarromântico

Desde há muitos anos que ouço o Concerto nº2 para Piano e Orquestra[1] de Rachmaninoff[2], em disco e ao vivo. Lembro-me bem, a primeira audição foi de uma gravação que tem como pianista Vladimir Ashkenazy[3], numa interpretação, aliás, excelente. Depois assisti ao vivo  a interpretações dos pianistas Evgeny Kissin[4] (a minha preferida), Mikhail Pletnev[5] e Nelson Freire[6]. Em disco, as audições distribuem-se por dezenas de interpretações diferentes, de grandes maestros, orquestras e pianistas, entre as quais, uma do próprio Sergei Rachmaninoff.

Estamos obviamente perante um grande clássico desse tardio e ultrarromântico compositor. Talvez o concerto mais romântico de sempre. Tanto que serviu de banda sonora a um filme que também é justamente considerado por muitos o mais romântico de todos os tempos – “Brief Encounter”[7] (Breve Encontro), do magnífico realizador britânico David Lean[8].

Aqui fica um registo dessa peça imortal, com a Filarmonica Teatro Regio Torino, dirigida por Ginandrea Noseda e com a excelente e bela Khatia Buniatishvili, ao piano. Para desfrutar.

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Notas:

[1] A palavra “concerto” deriva do termo latino “concertare” que significa “dialogar”. Concerto para piano (ou outro qualquer instrumento) e orquestra não é mais, pois, do que um diálogo entre esse instrumento e a orquestra respetiva.

[2] Compositor e maestro russo (1873-1943) que se exilou nos EUA, onde faleceu, tendo vivido também na Suíça.

[3] Pianista e maestro russo (1937), que se exilou, no tempo da União Soviética, no Ocidente. É o atual presidente da Sociedade Rachmaninoff.

[4] Outro pianista russo. Começou muito jovem a ter contacto com o piano. É considerado um dos maiores pianistas do mundo. Tem hoje 42 anos de idade.

[5] Russo, igualmente. E também um dos grandes pianistas mundiais. Nasceu em 1957 (14 de abril).

[6] Brasileiro, natural de Boa Esperança, Minas Gerais. Hoje, com 69 anos, é um pianista com excelente reputação mundial.

[7] Filme ainda a preto-e-branco, de 1945. Como protagonistas desse encontro breve, Celia Johnson e Trevor Howard.

[8] Um dos meus realizadores (diretores) favoritos. Entre outros, dirigiu “Doutor Jivago”, Lawrence da Arábia”, “A Ponte sobre o rio Kwai”, “Passagem para a Índia”, “A Filha de Ryan”. Privilegiava nos seus filmes os grandes cenários naturais. É considerado um mestre da montagem cinematográfica.

Um encontro memorável

Kissin é um dos meus pianistas preferidos. Tive a sorte de o ver atuar há tempos na Gulbenkian, num recital memorável, quando ele deveria andar pelos seus 30 anos. Ainda hoje, com 41, Evgeny Kissin, moscovita de origem judaica, mantém a sua expressão de adolescente.

O episódio que quero relatar passou-se em 1988 e trata de um daqueles encontros felizes e raros que acontecem uma vez na vida. Neste caso, na vida de duas pessoas – Evgeny Kissin e Herbert Von Karajan. Se a elas juntarmos, através do seu famoso e arrebatador concerto nº1 para piano e orquestra,  Tchaikovsky, teremos o encontro de três génios. Kissin com 17 anos, Karajan no fim da vida (um anos antes) e Tchaikovsky, presente com sua música.

Para nosso deleite, esse episódio foi gravado, e aqui fica o registo do 1º andamento, sendo que podem encontrar, na mesma fonte, todo o concerto e ainda uma reportagem sobre este encontro feliz. Nesta, Kissin recorda o momento em que, após o concerto, quando sua mãe se aproximou, Karajan afirmou, apontando para ele:

Genius.

Poderíamos ainda alargar esta onda de felicidade  à excecional Filarmónica de Berlim. Como se sabe, esta orquestra foi talhada durante 35 anos pela batuta implacável de Herbert Von Karajan. Depois, seguiram-se Claudio Abbado e o diretor atual, Sir Simon Rattle (eleito pelos membros da própria orquestra), maestros que tive o prazer de ver atuar ao vivo, bem como à OFB.