Golpe Militar de 31/03/1964

presidentes militaresPassam hoje precisamente cinquenta anos[1] sobre o Golpe Militar que destituiu do poder o presidente brasileiro João Goulart, o Jango[2]. Visto com os olhos de hoje, a condenação do golpe é quase unânime, pese embora a posição radical de alguns ultraconservadores, poucos têm a coragem de o apoiar. Mas não foi isso que aconteceu em 1964. O golpe militar contou com o apoio de largas camadas da população civil, individualidades ou organizações diversas[3], intelectuais[4] estudantes, empresários, jornalistas e pessoas comuns. Prova disto foi a manifestação que no dia 2 de abril, 48 horas após a tomada do poder pelos militares, juntou milhares de pessoas no Rio de Janeiro – a Marcha da Vitória. Também a imprensa, na sua esmagadora maioria, teve um enorme papel na desestabilização do executivo presidido por João Goulart. Jornais como o “Correio da Manhã”[5], carioca, o “Folha de São Paulo”, o “Globo” e até outros fora dos grandes centros urbanos do Sudeste, como o maior jornal do Ceará, “O Povo”, apoiaram declaradamente o golpe.

O papel da imprensa foi, aliás, deplorável, sobretudo após o golpe. A este respeito, o historiador João Teófilo (PUC/SP) escreve o seguinte[6]. “Muitos jornais, como se sabe, mantiveram-se ao lado da ditadura, mesmo na época em que a censura e a perseguição e morte de jornalistas indicou que o regime vivia sua fase mais perversa. Aliás, foi durante o período ditatorial que alguns grupos de comunicação viram seus negócios crescer. É certo, também, que no período da abertura política e da campanha “Diretas Já!”, muitos jornais vestiram a carapuça da democracia e apostaram no cavalo que estava ganhando, uma vez que o regime apresentava sinais de declínio e as pressões sociais pelo seu fim ganhavam força (…). É cômodo, 50 anos depois, situar-se numa zona de conforto e responsabilizar tão somente os militares pelo arbítrio de 21 anos. Jornais que apoiaram a ditadura o fizeram e ainda o fazem com certa frequência. Mas não nos enganemos. Para que o golpe fosse consumado, era preciso apoio. E nisso, a imprensa brasileira, de uma maneira geral, teve um papel importante: não só no momento do golpe, mas também na consolidação da ditadura civil-militar. É um equívoco, pois, quando a memória da sociedade e mesmo a história, seja aquela feita por historiadores, jornalistas ou sociólogos, responsabiliza somente os militares. Está mais do que evidente que esta culpa precisa ser divida, e 50 anos parece ser uma idade madura o suficiente para pôr o dedo na ferida”.

O que teria levado setores tão alargados da sociedade a apoiar um golpe violento, ao arrepio das mais elementares regras democráticas? – Eis a pergunta que se impõe. De acordo com o historiador Daniel Aarão Reis, o cimento que uniu aqueles diversos setores da sociedade foi o medo. As circunstâncias políticas haviam mudado em poucos dias[7], radicalizaram-se, sobretudo após o discurso de Jango, em 13 de março, no Rio, quando anunciou as suas Reformas de Base – estatização de refinarias e expropriação de terras. A classe média e as elites, apoiadas pela Igreja e pela Imprensa, unem-se na Praça da Sé, em São Paulo, manifestando-se abertamente contra aquelas reformas, repudiando a suposta ameaça comunista, abrindo caminho para a intervenção militar. Em tempos de Guerra Fria, o temor de que o Brasil se transformasse numa “nova Cuba” constituiu o motivo essencial de reação tão alargada.

Mas talvez não fosse apenas isso. A situação económica do país não era brilhante. De acordo com o Ministro do Trabalho de Jango, Almino Affonso[8], a inflação herdada dos governos anteriores era elevadíssima, na ordem dos 55% quando Goulart tomou posse, em 1963, atingindo os 60% passados dois meses. A inflação provocou uma crise social. Por outro lado, a dívida externa era elevadíssima, o que implicava negociações difíceis com os EUA. Finalmente, o Plano Trienal elaborado pelo Ministro do Planejamento, Celso Furtado[9], que previa, entre outras coisas, a reforma agrária, chocou com a oposição dos latifundiários, maioritários na Câmara, inviabilizando, assim, qualquer alteração à Constituição.

Hoje, decorridos 30 anos desde o fim do Regime Militar, a situação económica do Brasil, embora mais estável, continua a não ser brilhante. As feridas abertas pelas atrocidades cometidas pelos membros da Ditadura não estão completamente cicatrizadas. Uma Comissão Nacional da Verdade foi instituída recentemente, já no mandato de Dilma Rousseff, para investigar as arbitrariedades cometidas durante o regime ditatorial. Após alguma resistência dos militares[10], passou a debruçar-se sobre violações graves dos direitos humanos ocorridas num período mais vasto, entre 1946 e 1988. A Comissão, constituída por sete membros nomeados pela presidente e catorze auxiliares, trabalha oficialmente desde maio de 2012 com o objetivo de apresentar um relatório, denunciando as violações dos direitos humanos perpretadas durante aquele período.

Aqui fica uma cronologia, com os principais acontecimentos – os que antecederam o golpe e os que dele resultaram.

1961 (25 de agosto) – Jânio Quadros renuncia à presidência. João Goulart, então vice-presidente, está na China em viagem oficial e quando regressa para tomar o cargo é impedido pelos militares. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, lidera então uma mobilização nacional – a Campanha da Legalidade – que acaba por se sagrar vitoriosa, com o apoio do III Exército. Falha, assim, o golpe militar.

1964 (13 de março) – Jango discursa perante milhares de pessoas na Central do Brasil, no Rio, comprometendo-se com a estatização de refinarias e a expropriação de terras. Este é um episódio considerado decisivo para o golpe, que se concretizaria em pouco mais de duas semanas.

1964 (19 de março) – A reação conservadora ao discurso de Jango não se fez esperar. Nas ruas de S. Paulo milhares de pessoas protestam contra as “reformas de base” e a suposta ameaça comunista. A marcha é já um prenúncio do levantamento militar.

1964 (31 de março) – O Golpe. O general Olympio Mourão Filho[11] coloca as tropas na rua, em Juiz de Fora, Minas-Gerais. Jango deixa a sede do governo no Rio, vai para Brasília e depois para Porto Alegre. Sem reação, exila-se no Uruguai[12].

1964 (9 de abril) – A junta militar publica o primeiro Ato Institucional. Surgem as primeiras cassações  de mandatos e suspensões dos direitos políticos. O presidente é autorizado a decretar o estado de sítio e a propor emendas constitucionais. As eleições presidenciais são marcadas para 1966, pelo voto direto, mas nunca chegam a acontecer.

1964 (15 de abril) – O general Humberto de Alencar Castello Branco é nomeado presidente do Brasil[13].

1968 (13 de dezembro) – Com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), o regime ditatorial radicaliza-se. O presidente Arthur da Costa e Silva[14] decreta o documento, que autoriza medidas arbitrárias, tais como o encerramento dos parlamentos e a suspensão, por dez anos, dos direitos políticos dos cidadãos. Assiste-se a uma grande ampliação da censura.

1974 (15 de março) – Após o período em que a repressão conheceu o seu auge, durante o mandato do general Emílio Garrastazu Médici[15], assume a presidência Ernesto Geisel[16], dando-se início a uma abertura democrática “lenta, segura e gradual”. Tão lenta e gradual que demoraria mais de uma década a concretizar-se.

1979 (15 de março) – Início da presidência de João Figueiredo[17], que assina, em agosto de 1979, a Lei da Amnistia e dá continuidade ao processo de abertura democrática iniciado por Ernesto Geisel[18]. Extinguiu em 1980 o bipartidarismo instaurado, possibilitando o aparecimento de novos partidos.

1985 (15 de janeiro) – Tancredo Neves vence as eleições mas adoece na véspera de tomar posse e morre pouco tempo depois. O seu vice, José Sarney, do PMDB, torna-se o primeiro presidente civil eleito após 21 anos de ditadura.

1988 (5 de outubro) – Nasce a nova Constituição, uma promessa de Tancredo que Sarney soube cumprir, após mais de 20 meses de debates, com forte participação popular. Institui-se, assim, o Estado de direito democrático.

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Notas:

[1] Curiosamente, decorrem hoje, também, 100 anos sobre o nascimento do grande poeta mexicano, Octavio Paz, Nobel da Literatura em 1990.

[2] João Goulart ganhou o apelido de Jango ainda criança. Jango não é mais que o diminutivo de João Goulart. Descendente de açorianos, Jango era natural do Rio Grande do Sul (São Borja), como a maioria dos presidentes militares que lhe sucederam. João Goulart foi também vice-presidente de Juceslino Kubitschek, entre 1956 e 1961, tendo sido eleito com mais votos que o presidente.

[3] Casos do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipês) e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), criados em 1961, que ajudaram a fornecer base social e económica à ação militar, investindo milhões nas campanhas de candidatos conservadores que, mais tarde, apoiariam o golpe. Caso também da Federação dos Estudantes Universitários Particulares do Rio Grande do Sul (Feup).

[4] Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz e Rubem Fonseca, entre outros, apoiaram o golpe.

[5] O “Correio da Manhã” publicaria dois violentos editoriais exigindo a deposição de Goulart. O primeiro, em 31 de março, sob o título “Basta”, afirmava que “(…) Quase todas as medidas tomadas pelos Sr. João Goulart, nestes últimos tempos, com grande estardalhaço, mas inexeqüíveis, não têm outra finalidade senão de enganar a boa fé do povo, que, aliás, não se enganará. Não é tolerável esta situação calamitosa provocada artificialmente pelo Governo, que estabeleceu a desordem generalizada, desordem esta que cresce em ritmo acelerado e ameaça todas as forças vivas do país (…). Já o editorial do dia 2 de abril, intitulado “Fora”, ia mais longe: “A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo. Chegou ao limite final a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao Sr. João Goulart senão a de entregar o Governo ao seu legítimo sucessor. Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: saia”.

[6] Conferir aqui: http://cafehistoria.ning.com/legitimandoasaidaautoritaria

[7] O governo de Jango era considerado “bom” ou “ótimo” por 42% da população, de acordo com pesquisa Ibope, realizada no início de março de 1964.

[8] Almino Affonso acaba de lançar um livro onde faz uma defesa consistente de Jango, e onde afirma que este jamais pretendeu implementar um regime comunista no Brasil. O livro, lançado esta semana, intitula-se “1964 na Visão do Ministro do Trabalho de João Goulart”.

[9] Celso Furtado, autor de “Formação Econômica do Brasil”, está referenciado em vários artigos deste blog.

[10] Os militares conseguiram que fossem retiradas dos textos da Comissão várias palavras e expressões, como, por exemplo, “repressão política”.

[11] O general Olímpio Mourão Filho esteve envolvido num episódio sombrio, em 1937, que ficou conhecido como Plano Cohen. Na altura era um oficial integralista que forjou um documento, para incriminar os comunistas e, assim, forçar o golpe militar que instauraria o Estado Novo.

[12] Os factos parecem demonstrar que Goulart não tinha hipótese de reagir. A sua atitude terá até sido nobre e corajosa, ao não envolver uma pequena parte de forças que lhe eram leais e eventualmente o povo num banho de sangue. Do lado dos golpistas estavam todas as forças armadas, Jango não teria qualquer possibilidade de êxito se optasse pelo confronto.

[13] Castello Branco, cearense e familiar do escritor José de Alencar, presidiria durante pouco tempo. Morreu em julho de 1967.

[14] Costa e Silva, marechal, gaúcho de Taquairi (região central do Rio Grande do Sul) foi o vigésimo sétimo presidente brasileiro e o segundo do regime militar.

[15] Garrastazu Médici (1905-1985) nasceu em Bagé, no Rio Grande do Sul, e faleceu no Rio de Janeiro. Foi o vigésimo oitavo presidente brasileiro e o terceiro do regime militar. Seu período na presidência ficou conhecido como “Anos de Chumbo”.

[16] Ernesto Beckmann Geisel (1907-1996) foi mais um presidente gaúcho, natural de Bento Gonçalves, filho de imigrantes luteranos alemães.

[17] João Figueiredo, quinto presidente do regime militar, nasceu e morreu no Rio de Janeiro (1918-1999).

[18] Chico Buarque lançou em 1984 uma canção premonitória do fim da ditadura, “Vai Passar” (ver abaixo). Na verdade, a ditadura estava passando, mesmo. Esperemos que não volte mais.

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Fontes:

http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=68735

http://blogs.estadao.com.br/jamil-chade/2012/03/04/militares-planejaram-golpe-tres-anos-antes-em-1961/

http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2012/03/24/1111/

http://cafehistoria.ning.com/legitimandoasaidaautoritaria

História Concisa do Brasil, Boris Fausto, Editora da Universidade de São Paulo, 2012

Jornal Zero Hora, Porto Alegre, RS, 30/03/2014

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Formação Económica do Brasil

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Celso Furtado (1920-2004).

Trata-se de um clássico. Este livro é muito interessante para nós, portugueses, pois explica, bem melhor do que todos os livros de história que lemos até hoje, como e por que razão Portugal nunca foi o principal beneficiado com as riquezas da sua colónia americana. É muito comum ouvir alguém dizer, em Portugal, “nunca soubemos aproveitar as riquezas, sempre esbanjámos tudo, desde o ouro do Brasil”. Ora, Celso Furtado demonstra-nos, através deste magnífico livro, que essa história do esbanjamento tem muito pouco de verdadeira. O ouro apenas passava por Lisboa – o seu destino final era Londres, na Inglaterra.

É isso que iremos ver em seguida, pois optámos por nos debruçar, neste apontamento, exclusivamente sobre as duas principais riquezas brasileiras da época colonial: primeiro o açúcar e depois o ouro.

A – Quanto ao açúcar

1 – Foi devido à exploração da cana de açúcar que os portugueses puderam implantar-se no Brasil. Não fora essa exploração e jamais os portugueses conseguiriam ocupar o território e cobrir os enormes gastos com a defesa do mesmo – muito cobiçado, sobretudo pelos franceses. Foi um grande êxito essa empresa agrícola do século XVI – única na época.

2 –  O conhecimento técnico por parte dos portugueses – que já tinham experiência de produção de açúcar nas ilhas atlânticas – permitiu-lhes ocupar boa parte do território do nordeste brasileiro, que rapidamente foi aumentando, dado que a exploração da cana é extensiva. O negócio do açúcar expandiu-se enormemente, sobretudo a partir da segunda metade do século XVI, graças à colaboração dos flamengos, sobretudo, holandeses. Estes recolhiam o produto em Lisboa, refinavam-no e faziam a distribuição por toda a Europa, particularmente o Báltico, a França e a Inglaterra. Os holandeses eram grandes comerciantes e tinham o tipo de organização ideal para distribuir um produto novo, como o açúcar, pela Europa.  A contribuição dos holandeses não se limitou, porém, à refinação e comercialização do açúcar. Eles financiaram a instalação de engenhos produtivos no Brasil e também a importação de mão de obra escrava. Além disso, parte do transporte do produto para Lisboa era também realizado por eles. Logicamente, obtinham em todo este processo bons lucros, e o negócio acabava por ser mais deles do que dos portugueses.

3 – Este negócio foi praticamente um monopólio, durante muitos anos, porque a outra potência colonizadora, a Espanha, estava concentrada na extração de metais preciosos. Isso provocou um enorme poder económico no estado espanhol, que cresceu desmesuradamente, o que provocou um enorme aumento dos gastos públicos e privados subsidiados pelo governo. Consequência: inflação, que chegou a propagar-se por toda a Europa, traduzida em persistente déficit da balança comercial, via aumento das importações. Assim, os metais preciosos recebidos da América provocavam um fluxo de importação de efeitos negativos sobre a produção interna, altamente estimulante para as demais economias europeias. A decadência económica de Espanha prejudicou enormemente suas colónias americanas e nenhuma exploração de envergadura, fora da mineira, chegou a ser encetada. As exportações agrícolas de toda a imensa região não alcançaram importância significativa durante os três séculos do império espanhol. Um factor importante do êxito da colonização agrícola portuguesa foi, assim, a decadência da economia espanhola, que se deveu principalmente à descoberta precoce dos metais preciosos.

4 – O sistema, montado pelos colonos portugueses e pelos comerciantes e investidores holandeses, desarticular-se-ia quando Portugal perdeu sua independência sendo integrado na Espanha. Os holandeses que controlavam todo o comércio europeu por mar, incluindo o do açúcar, logo se envolvem em guerra com a Espanha, vindo a ocupar (por um quarto de século) a região produtora de açúcar, no Brasil. Aqui os holandeses adquiririam  os conhecimentos técnicos e organizacionais da indústria, que mais tarde constituiriam a base para a implantação e desenvolvimento de uma indústria concorrente na região do Caribe. Estava perdido o monopólio de que beneficiaram o portugueses e holandeses nos três quartos de século anteriores. Na segunda metade do século XVII os preços do açúcar reduzir-se-iam a metade e permaneceriam baixos durante todo o século seguinte. Perdeu-se o monopólio, mas a produção de cana manteve-se no Brasil até hoje.

B – Quanto ao ouro

1 – A corrida ao ouro brasileiro começou no início do século XVIII e proporcionou o primeiro grande fluxo de imigração de origem europeia, nomeadamente portuguesa, para o Brasil. Era possível pessoas de recursos limitados se aventurarem na mineração, pois aqui não se exploravam grandes minas – como ocorria com a prata no Perú e no México – mas o ouro de aluvião, que se encontrava depositado no fundo dos rios. Calcula-se que a população de origem europeia (e das ilhas atlânticas) tenha decuplicado no decorrer do século da mineração, no Brasil. A exportação de ouro cresceu em toda a primeira metade do século XVIII e alcançou seu ponto máximo em torno de 1760, quando atingiu o valor de 2,5 milhões de libras. A partir daí decresceu e, por volta de 1780, já não alcançava 1 milhão de libras.

2 – Depois da restauração da independência, Portugal encontrava-se numa situação muito difícil. Havia perdido os melhores entrepostos orientais e a melhor parte da colónia americana havia sido ocupada pelos holandeses. A situação interna era muito complicada também, com os espanhóis, durante mais de um quarto de século, não reconhecendo a independência. Portugal compreendeu que para sobreviver como metrópole colonial tinha de se aliar a uma grande potência, o que significaria necessariamente alienar parte da sua soberania. Tentou em primeiro lugar aliar-se aos holandeses, inclusive propondo a divisão do Brasil, mas a Holanda rejeitou a proposta, talvez demasiado confiante no seu poder marítimo. A solução acabaria de vir pelo lado dos ingleses, através de sucessivos acordos (1642-54-61) que estruturaram uma aliança que marcaria profundamente a vida política e económica de Portugal e do Brasil durante os dois séculos seguintes.

3 – Assim, tal como não se poderia explicar o grande êxito da empresa açucareira sem ter em conta a cooperação comercial-financeira com os holandeses, também só pode explicar-se a persistência do pequeno e empobrecido reino português como grande potência colonial na segunda metade do século XVII, bem como sua recuperação no século XVIII – durante o qual manteve sem disputas a colónia mais lucrativa da época –  se tivermos em conta a situação especial de semi-dependência que aceitou como forma de soberania. Portugal fazia concessões económicas e a Inglaterra pagava com promessas ou garantias políticas. Os ingleses conseguiam o privilégio de manter comerciantes residentes em praticamente todas as praças portuguesas e Portugal conseguia, através de uma cláusula secreta do acordo de 1661, que os ingleses se comprometessem a defender as colónias portuguesas contra quaisquer inimigos.

4 – Mas o acordo que haveria de ser determinante sobre o percurso do ouro foi o acordo comercial de 1703 (Tratado de Methuen). Portugal abria o seu mercado às lãs inglesas e a Inglaterra dava preferência aos vinhos portugueses. O acordo foi ruinoso para Portugal, que se viu obrigado a transferir para Inglaterra o impulso dinâmico criado pela produção aurífera no Brasil para pagar o deficit comercial. Em contrapartida, porém, conseguia manter uma sólida posição política, consolidando definitivamente seu território americano.O mesmo agente inglês que negociou o acordo comercial de 1703 (John Methuen) também tratou das condições que garantiriam a Portugal uma sólida posição na conferência de Utrecht. Aí conseguiu o governo lusitano que a França renunciasse a quaisquer reclamações sobre a foz do Amazonas e a quaisquer direitos de navegação nesse rio. Igualmente nessa conferência Portugal conseguiu da Espanha o reconhecimento de seus direitos sobre Colónia do Sacramento. Ambos os acordos tiveram a garantia direta da Inglaterra.

5 – Assim, enquanto a economia do ouro brasileiro proporcionou a Portugal apenas uma aparência de riqueza, trouxe à Inglaterra um forte estímulo ao desenvolvimento manufactureiro (e o oposto a Portugal), uma grande flexibilidade à capacidade de importar, permitindo uma concentração de reservas que fizeram do sistema bancário inglês o principal centro  financeiro da Europa, que se transferiu de Amsterdam para Londres. Recebendo a maior parte do ouro que então se produzia no mundo, os bancos ingleses reforçaram a sua posição. Segundo fontes inglesas, as entradas de ouro brasileiro em Londres chegaram a atingir as 50 mil libras por semana, permitindo uma acumulação substancial de reservas metálicas, sem as quais a Grã-Bretanha dificilmente poderia ter atravessado as guerras napoleónicas.

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Foto retirada de jornalggn.com.br

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A nossa edição:

“Formação Económica do Brasil”, Celso Furtado, Editora das Letras, 24ª edição, São Paulo, 2011.

São Luís e Lençóis Maranhenses, Brasil

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Vista aérea da região de São Luís.

Apesar do Maranhão ser, tradicionalmente, uma das regiões mais pobres do Brasil, as edificações do centro histórico de São Luís mostram que a cidade já foi importante. No último quartel do século XVIII, Pombal ajudou os colonos maranhenses a se verem livres dos jesuítas. Criou uma companhia de comércio altamente capitalizada, aproveitando as alterações no mercado mundial do algodão, cuja procura crescia intensamente; essas alterações deveram-se sobretudo à Guerra da Independência dos EUA e à Revolução Industrial Inglesa. Foi uma empresa muito bem sucedida. Porém, ultrapassadas as condições de anormalidade que prevaleciam no mercado mundial de produtos tropicais, não só o Maranhão mas o próprio Brasil regressariam a um sistema económico precário que, sobretudo o primeiro, mantêm até hoje.

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Centro histórico de S. Luís.

Essa precariedade é notória em São Luís, “a ilha do amor”, mas que bem poderia chamar-se “da pobreza”, “do desmazelo” ou “da corrupção”.Com efeito, a experiência ensina-nos a reconhecer o cheiro corrupto quando este paira no ar. Em São Luís ele brota dos buracos das ruas, dos edifícios degradados, dos semblantes resignados das pessoas comuns. Aqui, a população é sobretudo negra ou mestiça, prova de que a escravatura no Maranhão, embora tardia, foi bastante intensa.

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Rio Preguiças, em Barreirinhas.

Escapam da degradação geral do centro histórico de São Luís alguns oásis, quase sempre geridos pelo governo do Estado e não pela Prefeitura, como são os casos dos Teatro Artur Azevedo, Museu Histórico e, sobretudo, o conjunto edificado do bairro Praia Grande. Neste último é agradável passear à noite, ouvir música ao vivo, tomar um copo e associar-se aos transeuntes, turistas e locais. Atravessando o rio Anil, pela ponte José Sarney (a família Sarney é omnipresente no Maranhão), chega-se à parte mais moderna da cidade, onde encontramos praias consideradas impróprias para banhos e edifícios recentes, porém sem a vitalidade das outras capitais nordestinas.

Se a convivência com São Luís ficou aquém das expectativas, a chegada a Barreirinhas, para compensar, foi uma agradável surpresa. Aqui, o turismo e a pesca são as principais atividades económicas, e parecem chegar para que se respire um ar mais puro. O autocarro demora umas cinco horas para percorrer os cerca de 300 kms que medeiam entre as duas cidades. O bilhete custa 30 reais, mas é preferível pagar 40 e viajar numa “van” que transporta os passageiros até a porta dos hotéis ou das pousadas das duas cidades. Dado que o autocarro estaciona nas estações rodoviárias, além do trajeto mais rápido, poupa-se também no custo do táxi entre estas e o hotel. Existem várias empresas que fazem o transporte por “van”, o qual pode ser comprado em qualquer um dos hotéis ou pousadas de Barreirinhas e São Luís.

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Pequenos Lençóis.

Barreirinhas é banhada pelo rio Preguiças, que é lindo de verdade. O nome advém do serpentear calmo e lânguido do rio. Dado que o seu curso é praticamente plano, as correntes são fracas, facto que pude testemunhar ao atravessá-lo a nado, nos dois sentidos, em Barreirinhas. A água é morna, deliciosa, e a praia é sobretudo frequentada pela população local; os turistas ficam espalhados pelas pousadas da periferia, cada qual com seu espaço privativo. Face à qualidade da água e às tranquilidade e beleza desses lugares ao longo do Preguiças, é altamente recomendável pagar um pouco mais e ficar numa dessas pousadas à beira-rio, em vez de ficar alojado no centro da cidade.

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Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Em Barreirinhas existem agências especializadas nos diversos passeios possíveis, entre os quais se destacam o dos Grandes lençóis Maranhenses, feito de jipe e depois a pé, e o da descida do Preguiças até Caburé (margem direita) ou Atins (margem esquerda), povoados que se situam na foz do rio, junto ao mar. A melhor época para visitar os Lençóis é em julho (mês da “Vaquejada”) e agosto, quando já não chove e as lagoas estão cheias pelas chuvas de inverno (janeiro a junho). Uma vez que 2012 foi um ano pouco chuvoso, agora apenas uma lagoa tem água (Lagoa do Peixe), todas as outras estão secas por força da evaporação. Mesmo assim, vale a pena caminhar naquele meio desértico, sentir a imensidão do espaço de areia branca e fina, ver o pôr do sol por trás das dunas, viajar aos solavancos nos potentes veículos “todo terreno”, cruzar o Preguiças de balsa e comer uma deliciosa tapioca, feita por uma das vendedoras do outro lado do rio.

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Rio Preguiças.

Já os passeios no Preguiças não dependem da chuva e são, em qualquer época, muito interessantes. Desde logo, pela beleza do próprio rio, mas também pela interessante fauna e flora, pela vida das populações semi-isoladas, pelas já referidas tranquilidade e beleza dos lugares, e pelo seu exotismo. De Barreirinhas a Atins demoramos cerca de quatro horas de lancha rápida. Isto porque paramos em vários povoados pelo caminho: Vassouras, uma localidade minúscula, que dá acesso aos Pequenos Lençóis, na margem direita do Preguiças, e onde alguns macacos vêm ter com os visitantes, em busca de comida; em Mandacarú, na margem esquerda, onde se situa o Farol Preguiças, com os seus 160 degraus e 35 metros de altura, e uma vista magnífica sobre a região; e, finalmente, em Caburé, situado numa língua de areia entre o rio e o mar, na margem direita, onde podemos desfrutar de um delicioso banho e almoçar um belo robalo no restaurante Península de Caburé.

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Vista que se observa do Farol das Preguiças.

A paisagem onde quer que estejamos e para onde quer que olhemos é deslumbrante. Palmeiras de buriti, açaí e carnaúba; manguezais, como os mangue-vermelho, mangue-branco e mangue-siriúba; o capim-de-areia, o alecrim-da-praia, a pimenteira e o carrapicho-da-praia, que crescem perto do mar, onde, nas praias quase desertas, podemos observar tartarugas marinhas e várias espécies de caranguejos; e, na restinga (terreno arenoso e salino), a erva-de-cascavel, a orquídea da restinga e o cipó-de-leite, entre outros. Nos manguezais podemos encontrar o jacaré-tingá, a paca e o veado-mateiro; e também aves migratórias, como o maçarico-rasteirinho, as marrecas-de-asa-azul e o trinta-réis-boreal.

Um dado muito curioso sobre o Parque Nacional do Lençóis Maranhenses (fundado em 1981) é que, para além dos 155.000 hectares de dunas e mais dunas de areia branca e fina, e dos oásis de lagoas coloridas, ali existe um povo nómada, cuja vida é regida pelo regime das chuvas e das areias. Dentro do parque vivem diversas famílias, em alguns pequenos povoados de pescadores, como são os casos de Canto de Atins, Baixa Grande ou Queimada dos Britos. A mobilidade das dunas, provocada pelo vento, provoca muitas vezes o soterramento de casas e utensílios, obrigando ao deslocamento dos pescadores.

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Mandacaru.

Na costa do Maranhão o vento predominante é de leste, como pude comprová-lo, literalmente, na pele. Este vento está na origem da criação de uma colónia, independente do Brasil, em 1621, dado que o vento de leste dificultava a navegação entre a costa norte do território e as demais capitanias. Assim, foi decidido criar uma colónia diretamente ligada a Lisboa, compreendida entre o Ceará e o Amazonas, precisamente, o Estado do Maranhão. Isto (e também as informações sobre o mercado de algodão a que aludi no início do texto) eu pude saber através do clássico “Formação Econômica do Brasil”, de Celso Furtado, que afortunadamente transportei na mochila. Apesar disto, não se pense que o clima aqui é agreste, bem pelo contrário: é generoso, suave, doce, e isso reflete-se nas pessoas.

Os Lençóis Maranhenses, mais que São Luís, são um destino que vale a pena. Lá cada um pode optar, todos os dias, por fazer algo diferente. Ou, simplesmente, não  fazer.

É bom (es)preguiçar no Preguiças.