Ideologia/Religião versus Ciência/Filosofia

filosofiaHá quem pense que pode perfilhar uma filosofia segundo os mesmos critérios com que adota uma ideologia. Mas há aqui uma diferença radical. Como o termo indica, “ideologia” vem de “ideia”, e as nossas ideias são subjetivas, dependem das influências naturais e culturais que se exercem em cada um de nós, bem como dos nossos sonhos, das nossas esperanças e aspirações. Já a Filosofia, no que toca ao conhecimento, parte sempre da realidade e a ela sempre regressa, pois só no real pode haver uma aproximação objetiva à verdade, e em mais lado nenhum. É por isso que não pode haver uma Filosofia, digna desse nome, sem Ciência, pois uma e outra colaboram na busca da verdade, ainda que esta, na sua plenitude, seja inatingível: as ciências experimentais laborando nas suas quase infinitas ramificações e especializações, e as teóricas buscando a sistematização, a unidade, a teoria, a fórmula matemática ideal; a Filosofia investigando como evolui a Ciência, quais os seus limites, qual o seu método, que validade tem, como é ela possível, que consequências acarreta. Essa relação ocorre entre a Teoria da Gravitação de Newton e a filosofia de Kant ou entre a Relatividade de Einstein e a filosofia de Popper. Filosofia e Ciência são indissociáveis.

As ideologias, pelo contrário (e embora alguns as queiram elevar ao estatuto de “científicas”), têm pouco a ver com ciência e muito mais com religião. O seu caráter absoluto e profético retira-lhes a componente de incompletude inerente a qualquer ciência, e aproxima-as das crenças religiosas. Mais: como a verdade da ideologia (e da religião) é ou evidente ou revelada ou “científica”, ela contrasta com a verdade da Ciência, que é aproximativa, provisória e incerta. Cientistas e filósofos têm consciência da sua ignorância. Ideólogos e profetas, não. Claro que há muitos ideólogos com estatuto de “filósofos” (Platão, Hegel e Marx, por exemplo), e isso só tem contribuído para aumentar quer a confusão entre Ideologia e Filosofia, quer o número de crentes (os discípulos) e de oportunistas (os profetas).

“Filosofia”, como todos sabem, quer dizer “amizade à sabedoria”. Ora, não há sabedoria sem racionalidade; e não há nenhuma área do conhecimento humano mais racional que a Ciência, pois esta baseia-se na objetividade do mundo e não na subjetividade das mentes, embora uma e outra sejam necessárias para haver conhecimento. E o (pouco ou muito, é difícil de dizer) que o mundo nos revela é o seguinte: quanto mais descobrimos sobre ele, muito mais há para descobrir. Daí, termos de reconhecer que, apesar de nossos imensos esforços e extraordinárias conquistas científicas e técnicas, somos, relativamente às questões fundamentais, absolutamente ignorantes. Eis a razão da impopularidade dos filósofos em contraste com profetas e ideólogos: sacrificarem as boas intenções em prol da realidade.

E não deixa de ser verdade que personalidades como Platão, Maomé e Marx estão mais próximos da categoria de “profetas” e outras como Kant, Einstein e Popper mais próximos da de “cientistas-filósofos”. Os primeiros mostram-nos o caminho da verdade e os segundos incitam-nos a procurar esse caminho, advertindo-nos que (mesmo que o encontremos) provavelmente não chegaremos ao seu termo, mas mostrando-nos a razão pela qual, ainda assim, valerá a pena.

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Foto retirada de iainews.iai.tv

Para lá da crise

Temos necessidade de respostas. A dúvida, a incerteza e a imparcialidade contrariam a tendência natural do ser humano para a afirmação. Agarramo-nos ora a crenças ora a modelos altamente racionais, irrefutáveis, criados por pensadores que têm a ousadia de os validarem para lá da experiência. Mesmo depois de milhões de mortes, há ideologias que continuam acima de qualquer experiência.

Em contraste absoluto, uma teoria amplamente comprovada experimentalmente – a Relatividade – foi considerada por Einstein como falsificável, como provisoriamente verdadeira. Einstein, o criador da fórmula, espantosamente real, e=mc2, não pensava ter a verdade no bolso.

Evidentemente, muitos observarão que não é possível comparar Marx, por exemplo, com Einstein. Abordam campos diferentes. O primeiro lida com seres vivos, no caso, humanos; o segundo com matéria inanimada, tanto ao nível do universo (macro) quanto ao nível do mundo elementar, sub-atómico (micro). O erro de Marx e dos marxistas foi precisamente o de pensarem que os homens podem ter um comportamento previsível, racional, mesmo que não nos refiramos ao comportamento individual, mas ao comportamento “médio” (estatístico), social, de classe ou outro qualquer. De facto, ao contrário do que supunha Rousseau, o homem não nasce puro, sendo mais tarde corrompido pela sociedade. Como qualquer pessoa comum sabe, os homens (e as mulheres) nascem cheios de defeitos. E de virtudes, também. O ser humano, apesar de ser considerado um “animal racional”, é, na verdade, o ser vivo mais imprevisível e surpreendente do universo: o único que tem sonhos, ambições, inveja, sede de poder, ganância, soberba, ódio, ciúme, enfim, todos os pecados mortais e mais alguns, que podemos encontrar magistralmente explanados nos dramas de Shakespeare.

Daí que a frase “o poder absoluto corrompe absolutamente”, faça todo o sentido. Essa coisa chamada “o poder do povo” não existe nem nunca existiu em épocas históricas. O poder do povo só seria possível na anarquia, que por definição é a ausência de poder, e isso, ainda e sempre, não passa de uma bela (ou horrível) utopia. A prazo, não há vazios de poder. As utopias partem da nossa necessidade natural de darmos respostas aos problemas graves – no contexto atual, gravíssimos – que nos afligem. Temos dificuldade em compreender que algo péssimo possa ficar ainda pior. Temos dificuldade em compreender, por exemplo, que ter pouco dinheiro (ou menos do que estávamos habituados) pode ser melhor do que ter muito. E, no entanto, isto é verdade. As políticas da extrema esquerda, a serem aplicadas, conduzir-nos-iam, inevitavelmente, a uma situação de hiperinflação, fenómeno que ocorreu várias vezes ao longo da história e não há tanto tempo quanto isso. Tal como a esmagadora maioria das pessoas não estava preparada para prever a atual crise, também não está preparada para prever a inflação. Quando ocorre uma hiperinflação não adianta ter muito dinheiro, porque o dinheiro não chega para coisa alguma. Em situações extremas de inflação volta-se ao regime de trocas diretas: eu dou-te um coelho e tu dás-me um saco de batatas.

Apesar das críticas, reconheço a bondade da maioria das ideologias. É curioso notar até como teorias opostas se tocam, num ponto comum que impede a realização plena dessas mesmas ideologias: os homens. Não fora a ambição humana, as teorias funcionariam em pleno. Hayek, por exemplo, queixava-se de que os governos permitiam a excessiva concentração de empresas não garantindo, como deviam, a perfeita concorrência. A concorrência perfeita, para os liberais, ocorreria num espaço onde uma miríade de empresas procurando o interesse próprio, garantiriam, necessariamente, a satisfação dos interesses gerais da sociedade. Já os marxistas, confrontados com factos que não podem negar (e que, como se sabe, foram escondidos durante muito tempo) – mortes, torturas, prisões, desastres económicos e ambientais levados a cabo por regimes comunistas – se queixam de problema semelhante: são os homens que aplicam de forma distorcida a ideologia, muitas vezes por não estarem reunidas as “condições objectivas” para o efeito.

Recentemente, em 2008, a crença cega numa ideologia (a ideologia do mercado) provocou o descalabro que nos conduziu à crise atual. De facto, os quants  – jovens formados nas melhores universidades americanas em cursos de ciências exatas, que comandaram a partir dos anos 1990 as aplicações e engenharias financeiras das principais empresas de Wall Street, desde bancos a fundos de hedge, ao acreditarem que os mercados são completamente aleatórios (logo, previsíveis) cometeram o erro clássico já referido: descuraram o fator humano. Essa crença cega levara os quants e os que neles acreditavam a alavancagens colossais (investimentos com dinheiro emprestado). Quando começaram os primeiros incumprimentos e o medo dos investidores se começou a sentir, as ações caíram, as pessoas  quiseram desfazer-se delas em massa, instalou-se o pânico (a racionalidade era impossível) e o crash foi inevitável. O incrível disto tudo é que, passada a ressaca, os quants continuam a acreditar nas suas ideias. Para eles o que aconteceu foi algo que pode acontecer, talvez, de um milhão em um milhão de anos, e isto quer dizer que não voltará a ocorrer tão depressa. Os quants já têm novas engenharias em mãos e continuam bastante ativos em Wall Street.

Este é um contraste absoluto, como vimos, com a postura de Einstein, que fazia questão de refutar as suas próprias teorias, testando-as, tendo a humildade de considerá-las, caso fossem validadas, provisoriamente verdadeiras. As teorias de Einstein foram amplamente comprovadas, por vezes, e ainda que contra a vontade do próprio, de forma absolutamente brutal, como foi o caso do fabrico da bomba atómica e a sua utilização em Hiroshima e Nagasaki. Einstein, porém, continuou a negar que a última palavra fosse sua.

Em contraste com os autores que apresentam soluções acabadas, completas, finais,  científicas, outros existem que se manifestam ignorantes quanto a uma solução institucional para a sociedade, não se coibindo, apesar disso, de darem o seu contributo na busca de um mundo melhor. Recentemente, Amartya Sen, através de seu último livro (2011), “A Ideia de Justiça”, chamou a atenção para duas dimensões dessa ideia. Uma institucional (modelo de sociedade) e outra pessoal (comportamental). A primeira mais formal e abstrata (teórica) e a segunda mais pragmática. Sen afirma que a abordagem comportamental é aquela mais útil para minimizar as injustiças no mundo. Por outras palavras, em vez de querermos um modelo perfeito de sociedade, deveríamos agir por forma a tornar a sociedade o menos injusta possível. E cada um deve fazer o que estiver ao seu alcance para atingir esse objetivo. Os exemplos históricos apresentados no livro de Amartya Sen de pessoas que mudaram o mundo são abundantes e significativos. E não temos forçosamente de falar em políticos.

O fulcro da questão está, portanto, muito mais no comportamento de cada um de nós, nos comportamentos individuais, do que nas regras e nos modelos das instituições. Naturalmente, estas também são importantes. E são-no, sobretudo, porque é preciso preservar a liberdade de ação de cada indivíduo. Logicamente, isso só se consegue em democracia, pois só em liberdade um indivíduo é responsável por seus atos. Os países mais desenvolvidos do mundo (e falamos aqui de desenvolvimento humano) são países democráticos. Esta é a primeira característica. A segunda é o excelente nível educacional de seus povos.

A educação e a responsabilidade fazem com que o indivíduo respeite a sociedade e não se transforme num mero egoísta, consciente de que uma sociedade melhor para todos será, consequentemente, uma sociedade melhor para ele próprio, e vice versa. Uma sociedade como esta baseia-se em valores que estão para além do dinheiro e do poder. Ali, as pessoas com cargos públicos de responsabilidade não se distinguem da maioria da população; não se rasgam as medidas do governo anterior quando um novo atinge o poder; as pessoas respeitam-se. Os exemplos são conhecidos. Holanda, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Canadá, Nova Zelândia são países dos mais avançados  do mundo. Tão avançados que poucas vezes se ouve falar deles. Isso não deveria impedir-nos de procurar inspiração nas suas políticas públicas, sobretudo no que toca à Educação, que é como se sabe a área mais importante para o desenvolvimento humano sustentável em qualquer sociedade.