Lula, de novo

É nas situações-limite da política externa que se avalia com mais propriedade a posição ideológica dos governos. Normalmente os mais extremistas são também os mais avessos a consensos internacionais. Isto acontece em situações tão diversas como a adesão à União Europeia, a assinatura de acordos internacionais sobre o clima ou a tomada de posição sobre conflitos mundiais em votações da ONU, por exemplo. Tendo isto em conta, é possível dizer-se que o governo brasileiro dos últimos quatro anos foi um desastre. Bolsonaro é um péssimo político (foi-o também interna e externamente) e a posse de Lula que hoje se realiza inaugura um novo ciclo da política brasileira, que se augura muito melhor que o anterior.

Apesar disto, é lamentável que Lula se recuse a condenar a invasão russa da Ucrânia, tal como fez o seu antecessor.

Não apenas porque a esmagadora maioria dos governos condene o despotismo de Putin, e o Brasil, juntamente com algumas ditaduras do mundo, esteja relativamente isolado no panorama mundial, mas sobretudo porque, com esta posição, o Brasil se afasta dos valores do Direito Internacional, da Justiça e da Paz. Relativamente à Guerra da Ucrânia, o Brasil tinha tudo a ganhar se Lula, com o seu carisma, condenasse inequivocamente a invasão da Ucrânia, como fazem quase todos os líderes democráticos mundiais. Para lá dos valores, o antiamericanismo tem custos mais comezinhos que afetam a vida do cidadão comum — políticos, económicos e sociais.

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De Kherson ao Seixal

Os ucranianos libertaram este fim de semana a estratégica cidade de Kherson, que estava há meses sob jugo das forças russas. Apesar das desastrosas perdas humanas que esta guerra sem sentido já provocou, a chegada dos soldados ucranianos foi saudada com júbilo em Kherson e um pouco por todo o mundo, pelo menos entre os que amam a liberdade. Para estes é incompreensível que alguém possa tolerar ou apoiar uma potência invasora que pretende pura e simplesmente varrer do mapa um estado soberano, aniquilando, se para tal for necessário, todo um povo.

Porém, o que é incompreensível para uns é perfeitamente justificável para outros: ao mesmo tempo que os ucranianos libertavam Kherson, reuniam numa conferência no Seixal largas centenas de militantes comunistas que, ao invés de condenarem Putin pela ignóbil invasão russa, condenam os americanos, a NATO e a União Europeia.

Muitos perguntarão como tal é possível, mas a razão fundamental é simples. O comunismo, mais propriamente a ideologia em que se apoia — o marxismo-leninismo — é uma religião. Não uma religião que promete o paraíso num lugar distante, mas antes uma religião que promete o paraíso na Terra. O caráter religioso do marxismo foi já dissecado por vários autores e revela-se em múltiplos aspetos. Alguns deles patentes na conferência levada a cabo pelos comunistas, este fim de semana, no Seixal.

Desde logo, (1) a despersonalização: pouco importa o que cada indivíduo pensa, os comunistas orgulham-se de que o que conta, independentemente das pessoas, é o dogma ideológico, a doutrina do partido e a autoridade do coletivo; depois, (2) o maniqueísmo: de um lado, os bons — os trabalhadores — do outro os maus — o Grande Capital e seus esbirros; finalmente, (3) a ritualização: símbolos, cânticos, palavras de ordem, toda uma velha liturgia, seguida com convicção absoluta, quando não, com o mais puro fanatismo.

A total submissão à ideologia (a unanimidade de que tanto se orgulham) é, entre todos, o aspeto mais pernicioso da doutrina comunista. Dissidências não são admitidas. Discordância implica expulsão. E uma vez no poder, seja em que lugar do planeta for, a perseguição aos hereges será efetiva e implacável. Os comunistas condenam o Ocidente porque, mais do que o capitalismo, a burguesia ou a desigualdade, o que, acima de tudo, os comunistas odeiam nas democracias liberais é a primazia que nestas é conferida à liberdade.

Liberdade celebrada em Kherson, ausente no Seixal.

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O marxismo e a guerra

O marxismo é uma religião e, tal como outras religiões, tem várias correntes – leninista, estalinista, trotskista, etc.

Quem não é da nossa religião é nosso inimigo, e é por isso que, onde vigora a religião, a perseguição aos hereges é efetiva e implacável.

As diversas seitas marxistas divergem entre si em vários pontos, mas o que as une é a convergência na identificação do principal inimigo – o maldito Ocidente e o seu modo de vida liberal e capitalista.

Assim, qualquer luta contra o Grande Satã é também a nossa luta, não importa que monstro tenhamos de engolir.

Putin? É apenas mais um.

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