Popper e o Liberalismo

Para evitar mal entendidos, quero deixar bem claro que emprego sempre os termos “liberal”, “liberalismo”, etc., no sentido em que ainda são geralmente usados em Inglaterra (embora, talvez, não nos Estados Unidos). Com “liberal” não me refiro a um simpatizante de um qualquer partido político, mas simplesmente a um homem que valoriza a liberdade individual e está desperto para os perigos inerentes a todas as formas de poder e autoridade.

Karl Popper, Conjeturas e Refutações

(tradução de Benedita Bettencourt)

Liberalismo e marxismo

No que se assemelham ambas as teorias?

Sobretudo por cada uma delas se arrogar ser a última palavra, a única que resolverá, realmente, os problemas da humanidade.

E, na verdade, a racionalidade subjacente a cada uma delas, o engenho e arte de seus mais ilustres representantes – Adam Smith e Karl Marx – são incontestáveis: teoricamente ambas são perfeitas. O que leva a optar por uma ou outra, já é outra questão. Como todas as verdades absolutas, como todos os paradigmas, acreditar ou não, parece-me em larga medida, uma questão de fé.

Uma análise histórica, que nem necessita ser muito aprofundada, mostra, porém, que ambas falharam. Se o marxismo já deu, em anos mais ou menos recentes, provas suficientes do enorme falhanço que constituem as suas políticas económicas, bastará olhar para o mundo de hoje para perceber o estrondoso falhanço das políticas liberais. A desregulação dos chamados mercados só poderia ter como consequência, mais tarde ou mais cedo, um enorme buraco na economia, o qual, por sua vez, seria sempre tapado pelos do costume: os mais desfavorecidos.

Mas, se sem dúvida ambas teorias são bem intencionadas e logicamente perfeitas, por que falharam e, em minha opinião, falharão sempre? Simplesmente porque não têm em conta um aspecto fundamental – a questão humana. Os humanos, considerados o “animal racional”, não se comportam racionalmente. No caso do marxismo, detendo o poder absoluto, passam a sentir-se uma espécie de deuses, com direito a trono perpétuo, mordomias e, quantas vezes, luxos que, uma vez experienciados, não querem perder mais. Quem se opuser às orientações superiores do partido será preso ou aniquilado. O liberalismo desenfreado, por seu turno, permite a especulação e a busca de lucros astronómicos, algo que sempre terá os seus protagonistas, proporcionando, para além do aumento da desigualdade social, o aparecimento de buracos negros, que a ganância humana sempre criará. É esta a situação actual do mundo “desenvolvido” – um enorme buraco – cavado a partir da desregulamentação que a lei Glass/Steagall, em 1999 (“é proibido proibir”), em pleno mandato de Bill Clinton, veio implementar. Em larga medida graças a isso, a fome e a miséria voltaram à Europa.