Darwin

Charles-Darwin-1880-631
Darwin dedicou a vida toda à ciência.

A autobiografia de Darwin foi editada em Portugal, pela Relógio D’Água, em 2004. Escrito seis anos antes da sua morte, e dedicado aos filhos e netos, é um livrinho interessante, sincero, um balanço de vida. Lendo-o, descobrimos que Darwin foi um homem atreito a doenças, muito metódico, persistente e viajado, agnóstico, simples e modesto. Esta característica – a modéstia – foi mesmo a principal que retirámos da leitura do texto, para lá de muitas curiosidades. De facto, os intelectuais verdadeiramente grandes – pelo menos os que mais apreciamos – são todos modestos. Escreve Darwin: A minha capacidade de seguir um raciocínio longo e abstracto é muito limitada; por esta razão nunca poderia ter sido bem sucedido em metafísica ou matemática (…) a minha memória é tão fraca sob um certo aspecto que nunca fui capaz de me lembrar de uma data ou de um verso durante mais de alguns dias[1]. Vale a pena refletir. Darwin, um homem que privou e se correspondeu com os maiores intelectuais do seu tempo, venerado por muitos deles, não se tinha em grande conta (com capacidades tão moderadas como as minhas, é na verdade surpreendente que tenha assim influenciado de modo considerável as opiniões dos homens de ciência sobre alguns pontos importantes[2]) e o seu maior orgulho era o de ter tido pela ciência natural um amor invariável e ardente[3].

Um dos aspetos interessantes desta pequena autobiografia é, precisamente, a referência a inúmeras personalidades contemporâneas do autor, o que confere a este documento uma importância histórica (sobretudo, para a história da ciência) significativa. E, como tantas vezes acontece a quem, como nós, escreve com alguma regularidade, por coincidência, hoje mesmo saiu um artigo na revista “E”, do semanário “Expresso”, da autoria de Francisco Louçã[4], onde este conhecido economista, político e comentador refere o “fascínio” que quer Marx, quer o seu amigo Engels, nutriam por Darwin, chegando Engels ao ponto de apresentar Marx como o Darwin das ciências sociais, para reforçar a sua reivindicação científica. Ainda de acordo com Louçã, Marx chegou a remeter a Darwin um exemplar do Capital (enviou, na mesma altura, outro exemplar a Spencer, acrescentamos nós), mas apenas obteve uma resposta polida, referindo que os assuntos tratados ultrapassavam o conhecimento do biólogo. Verifica-se, assim, que a admiração de Marx por Darwin não era recíproca. É isso que esta Autobiografia confirma: dos mais de cem nomes citados não consta o de Marx (nem o de Engels), apesar de “o Doutor Vermelho” ter convivido mais de 30 anos, no mesmo país (a Inglaterra), com o autor da teoria da evolução.

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Notas:

[1] P. 129.

[2] P. 134.

[3] P. 130.

[4] O título do artigo é “O Detetive que Queria Decifrar a Suprema Intriga”, edição 2367 da Revista do Expresso, de 10 de março de 2018. Na mesma edição saiu outro artigo sobre Marx e o marxismo, mais curto mas mais interessante que o de Louçã (muito mais independente e realista), da autoria de Luciano Amaral (professor-assistente da Nova School of Business & Economics), sob o título “Somos Todos Marxistas”.

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A nossa edição:

Autobiografia, Charles Darwin, Relógio D’Água, 2004.

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Foto retirada de: www.smithsonianmag.com

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Sociobiologia

Dawkins (1)
Richard Dawkins

Uma das questões mais debatidas da ciência e da filosofia é a questão do Homem. Sobre ela se debruçam biólogos, antropólogos, psicólogos, sociólogos, filósofos e, no fundo, todos os seres pensantes. O homem como sujeito e objeto de si próprio. Talvez a problemática mais atual sobre esta questão seja a de saber-se até que ponto o ser humano é realmente um animal diferente. Por outras palavras: tudo o que é especificamente humano – e podemos, talvez, substituir este “tudo” pela termo “cultura” – é suficiente para nos considerarmos uma espécie à parte, radicalmente diferente das outras, ou, pelo contrário, temos muito mais em comum com as outras espécies do que, à primeira vista, poderíamos suspeitar? No nosso comportamento, o que é “animal” e o que é humano? Os 97 % do genoma que partilhamos com os chimpazés significam que somos muito parecidos ( e na verdade com os outros animais e mesmo plantas, dado que partilhamos grande parte do genoma com eles também) ou os restantes 3% fazem toda a diferença e significam uma especificidade radical?

Quanto à primeira hipótese, a saber, a de que não diferimos assim tanto dos outros seres vivos, não conheço abordagem mais extremada do que a dos sociobiólogos. Quanto à segunda hipótese, a defendida pelos que afirmam sermos muito diferentes dos outros animais, talvez seja subscrita sobretudo por alguns filósofos e pelos antropólogos culturais mas também pelo senso comum. Dado que esta posição é a mais familiar para a grande maioria de nós, vou debruçar-me sobre a que é mais incomum – a versão sociobiológica.

Tudo começou quando um biólogo alemão, August Weismann, nos anos 80 do século XIX, reparou que, nas criaturas sexuadas, as células sexuais – óvulos e esperma – permaneciam segregadas do resto do corpo desde o nascimento[1], o que contrariava as ideias de Lamarck e do próprio Darwin, os quais pensavam que os filhos herdavam as alterações físicas que os pais haviam sofrido durante a vida. O exemplo clássico é o do filho do ferreiro, que herda os braços musculosos do pai. Ora, isto não acontece, e, apesar de Weismann ter sido ridicularizado por suas ideias, elas revelar-se-iam corretas: com a descoberta do gene, do ADN a partir do qual este é feito e do código em que a mensagem do ADN está escrita, verificou-se que a linha germinativa é mantida efetivamente separada do corpo.

As consequências mais radicais seriam retiradas apenas nos anos 70 do século XX por Richard Dawkins[2]: uma vez que os corpos não se replicam a eles próprios, apenas crescem, enquanto os genes se replicam, a conclusão que se tira é que os corpos são meros veículos evolutivos para o gene, e não vice-versa. Esta corrente desembocou, assim, numa visão peculiar, estranha, mas também extremamente sedutora, que revolucionou a teoria da evolução: pouco importa se somos humanos ou não, porque o que conta não é a espécie ou o indivíduo, o que importa são os genes. De facto, são os genes que se perpetuam no tempo, não os indivíduos e, de acordo com esta teoria, os indivíduos, os organismos, os corpos não passam de “invólucros” que os genes utilizam para passarem de geração em geração.

Assim, Richard Dawkins postulou que a unidade de seleção natural – que desde Darwin era o indivíduo – passaria a ser o gene. As características de “longevidade, fecundidade e fidelidade da cópia”[3], garantiram-lhe esse estatuto. Em consequência disto, os sociobiólogos começaram a falar em “seleção sexual” em vez de seleção natural: o objetivo de um animal não é apenas sobreviver, mas sobretudo reproduzir-se. Dado que os genes utilizam[4] os organismos e os indivíduos para passarem de geração em geração e se perpetuarem no tempo, a principal função destes só pode ser a reprodução. Os indivíduos com sucesso reprodutor passarão os seus genes às gerações seguintes, ao contrário dos genes dos indivíduos que não se reproduzem, que se extinguirão[5]. A reprodução é, pois, a característica fundamental da evolução: os genes constroem organismos para se perpetuarem e os organismos – humanos, outros animais ou plantas – agem em prol da reprodução, perpetuando os genes.

A seleção sexual é uma consequência da reprodução. Trata da forma como machos e fêmeas se relacionam para partilhar os genes e os passarem à descendência[6]. Os interesses de machos e fêmeas, homens e mulheres, são comuns mas também diferentes. Existe conflito e cooperação entre ambos. O macho procura distribuir seus genes pelo maior número de fêmeas possível e estas procuram machos capazes de as ajudar a criar os filhos, pois de nada lhes servirá terem filhos se não forem capazes de criá-los (conflito). Esta é a razão das mulheres preferirem homens poderosos e dos homens preferirem mulheres saudáveis e bonitas (cooperação).

Se a função principal dos seres vivos é reproduzirem-se para que os genes se perpetuem, todas as características dos seres vivos, incluindo as especificamente humanas, devem favorecer a reprodução. De facto, a própria inteligência humana tem como principal finalidade servir de uma forma mais adequada a reprodução[7]. Tudo, aliás, deve favorecer a reprodução – ou não existiria, pois os genes que não favorecem a reprodução (e que não são reproduzidos) acabam por se extinguir.

Assim, os argumentos sociobiológicos são do tipo circular, “pescadinha de rabo na boca”, e levam-me a pensar que talvez estejamos perante uma daquele género de teorias que Karl Popper considerou como pseudo-científicas, por seus defensores utilizarem sempre argumentos no sentido de confirmar a teoria e não de refutá-la. Popper dava os exemplos clássicos da psicanálise e do marxismo, e acredito que fizesse o mesmo com a sociobiologia, caso tivesse tido tempo para se debruçar sobre ela. Uma das características comuns a todas estas teorias é a sua extrema sedução na forma como se apresentam: definitivas, absolutas, irrefutáveis. Porém, esta sedução, que constitui aparentemente a sua força, constitui também o seu principal ponto fraco – a razão, segundo Popper, para não as considerarmos, precisamente, aquilo que seus adeptos afirmam que elas são: científicas[8].

Esta é também a razão pela qual eu próprio duvido delas. Embora a teoria da evolução sociobiológica contenha, sem dúvida, um fundo de verdade, não é, porém, a verdade toda.

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Notas:

[1] Weismann (1889).

[2] Curiosamente, Dawkins é hoje um dos mais destacados opositores do “pai” da sociobiologia, Edward O. Wilson. Este, hoje com 83 anos, em entrevista publicada por uma revista brasileira, diz o seguinte:  “Richard Dawkins não é um cientista. É um escritor de divulgação científica. Ele só escreve sobre o que os outros descobrem… ao criticar minha teoria ele mostra seu total desconhecimento da teoria evolutiva”, in “Época”, 11 de março 2013.

[3] “Gene Egoísta”, Richard Dawkins, 1976.

[4] Claro que inconscientemente: estão para isso “programados” pela natureza.

[5] Logicamente, todos nós somos descendentes de indivíduos que tiveram sucesso reprodutor; e herdámos deles os genes que os levaram a esse sucesso.

[6] Os sociobiólogos estudam a forma como várias espécies acasalam, inclusive a humana. Neste caso, existem sociedades monogâmicas e poligâmicas, quase em proporções idênticas (existe apenas uma pequena sociedade poliândrica, na região do Tibete, onde as mulheres têm dois homens, mas apenas por questões económicas). Porém, mesmo nas sociedades monogâmicas, a infidelidade é enorme, sobretudo por parte dos homens. Por outro lado, só recentemente (no Ocidente) os homens poderosos  deixaram de ter muitas mulheres; em todas as civilizações antigas o sexo estava relacionado com o poder masculino e todos os poderosos tinham haréns. Os estudos mostram, ainda, que, em geral, o homem tem mentalidade poligâmica e a mulher, monogâmica. Uma evidência deste facto são as indústrias da pornografia (quase exclusivamente dirigida aos homens) e da literatura “cor de rosa” (quase exclusivamente dirigida a mulheres).

[7] “A própria inteligência humana é produto da seleção sexual, e não da seleção natural. A maioria dos antropólogos evolutivos acredita agora que os cérebros grandes contribuíram para o sucesso reprodutor, quer porque permitiram que os homens fossem mais espertos ou enganassem outros homens (e que as mulheres fossem mais espertas ou enganassem outras mulheres), quer porque foram originalmente utilizados para cortejar e seduzir membros do sexo oposto”, in “A Rainha de Copas”, Matt Ridley, Gradiva, Lisboa, 2004.

[8] Curiosamente a posição de Popper sobre a evolução tem algumas semelhanças com a da sociobiologia. Para ele, “da amiba a Einstein vai apenas um pequeno passo”, in “Um Mundo de Propensões”, Karl Popper, Editorial Fragmentos, 1989.

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A nossa edição:

“O Gene Egoísta”, Richard Dawkins, Editora Gradiva, 1ª edição, Lisboa. 1989.