Problemas no Paraíso

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Slavoj, um dos maiores teóricos revolucionários da atualidade.

Trata-se de um dos últimos livros (2014) de Slavoj Zizek, o famoso filósofo esloveno[1]. Zizek (o antropónimo original tem um acento circunflexo invertido em cima de cada “z”) é um intelectual na moda, professor em várias universidades de renome, conferencista em inúmeros países de todo o mundo, inimigo acérrimo do sistema capitalista e comunista convicto.

A filosofia de Slavoj Zizek assenta numa mistura, em doses variáveis, da psicanálise de Freud com a dialética de Hegel e a luta de classes de Marx. Nisto reside (e a isto se resume) a sua originalidade. Como se, ao misturarmos três receitas diferentes, obtivéssemos um prato novo. No final (ou antes ainda), porém, verificamos que tudo é demasiado velho – o prato que Zizek nos apresenta é uma fraude.

De facto, este senhor recorre com frequência à desonestidade e à ambiguidade, a primeira tão característica do seu ídolo, Hegel, e a segunda do seu guru, Marx. (O próprio texto é largamente hegeliano, na boa tradição alemã – denso, pouco claro, mistificador). Zizek prepara, numa primeira fase da sua lengalenga, o leitor, através de belas intenções, para, de seguida, apresentar as suas ideias totalitárias e defender a violência necessária para as implantar.

O autor recorre a inúmeros filmes (nota-se que é um grande cinéfilo), livros, acontecimentos políticos contemporâneos, enfim, a inúmeros exemplos, dos quais retira invariavelmente uma conclusão: o sistema “hedonista, liberal e democrático” é miserável e só a revolução e o comunismo nos podem salvar. E, se Marx era ambíguo relativamente ao uso da violência, não a descartando mas não a apoiando abertamente, Zizek vai mais longe e apela diretamente à violência, algo que para ele, imagine-se, é um “ato de amor”! À boa maneira de Hegel, o mau é (dialeticamente) transformado em bom. Não há limites para os ilusionistas hegelianos!

Para mitigar o impacto que pode causar no leitor esse apelo à violência, Zizek puxa dos galões de psicanalista : “quanto mais brutal for a nossa violência, mais conseguiremos escapar ao círculo vicioso do superego”[2]. E, mais à frente: “a libertação revolucionária autêntica é mais diretamente identificada com a violência – é a violência em si que liberta”[3]. “Além disso, é preciso desmistificar o problema da violência, rejeitando afirmações simplistas de que o comunismo do século XX usou em demasia a violência assassina e de que deveríamos ter cuidado para não voltar a cair nessa armadilha”[4].

Enfim, Zizek dirige-se aos seus colegas e amigos, talvez os únicos que o compreendam. Mesmo assim, deveria ter um pouco de respeito pela memória dos milhões de seres humanos mortos durante o período de vigência do “comunismo do século XX”. Mas isso seria pedir muito. Zizek propõe mais do mesmo: uma nova tentativa revolucionária, com violência e muito “amor”. E tal como Platão pensava certamente nele próprio quando defendeu em “A República” a tomada do poder pelo filósofo-rei, também o filósofo esloveno pensa provavelmente em si mesmo quando se refere à necessidade de um “Mestre” para conduzir a revolução[5].

Tudo isto, além de demasiado velho, é também doentio. As ciências sociais, de facto, continuam doentes. Ao rejeitarem a metodologia das ciências naturais, proposta por Popper, os teóricos da sociologia continuam, como há milénios, a basear-se na crença e no dogma; continuam desfasados da realidade. Até quando?

Questões deste teor parecem pouco importar a Zizek, que manterá o mesmo rumo até o fim, como sempre fazem os ditadores teóricos. Há quem chame a isto “coerência”. Nós chamamos-lhe cegueira, e da pior espécie: aquela revestida com erudição.

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Notas:

[1] Slavoj Zizek, Problema no Paraíso – do fim da História ao fim do CapitalismoEditora Zahar, Rio de Janeiro, 2015.

[2] Ob. cit., p. 105.

[3] Ob. cit., p. 229.

[4] Ob. cit., p. 235.

[5] Ob. cit., pp. 206-15.

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Foto: outraspalavras.net

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A nossa edição (já referida acima):

“Problema no Paraíso – do fim da História ao fim do Capitalismo”, Slavoj Zizek, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2015.