Alfama – uma canção

Muitas músicas foram compostas e interpretadas tendo como referência Alfama – fados, sobretudo. Um deles – “Igreja de Santo Estevão” – interpretado por Fernando Maurício, poderia ser o escolhido por muitos, se tivessem de optar por uma canção para Alfama; os Madredeus lançaram nos anos 90 uma bela canção, precisamente, “Alfama”, digna também de uma representação musical do bairro; “O Barco vai de Saída” (“adeus ó cais d’Alfama”), de Fausto Bordalo Dias, é um tema belíssimo e muito animado que se coaduna com a tradição marítima do bairro, e poderia ser escolhido, também; várias marchas populares poderiam igualmente representar (provavelmente da forma mais bairrista entre todas) a nossa querida Alfama…

Eu, porém, escolhi uma composição, uma letra e uma interpretação que me pareceram as melhores. E um local também. A composição é de Alain Oulman, a letra de Ary dos Santos, a interpretação da grande Amália e o local Tunes, na Tunísia. Não teve influência na minha opção, mas é de realçar o facto de Ary dos Santos ter vivido muitos anos na Rua da Saudade, nos arrabaldes do bairro; e a escolha de um país árabe, como palco desta fabulosa interpretação (como todas) de Amália, é  carregada de simbolismo.

Como não podia deixar de ser, o tema em questão intitula-se “Alfama” – e é arrebatador.

São Francisco do Sul, Santa Catarina, Brasil

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O acesso a São Francisco faz-se, normalmente, por Joinville, uma cidade próspera, ordenada, limpa e a maior, em número de habitantes, do estado catarinense. Um exemplo que os prefeitos de todas as cidades brasileiras deveriam seguir. A influência alemã faz-se sentir fortemente aqui, nas pessoas, nas edificações e nos costumes.

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Ao chegar ao centro de São Francisco, após uns 30 kms, tem-se aquela sensação que experimentamos em cidades como Colónia del Sacramento, Olinda, Parati ou João Pessoa – as ruas empedradas, as sacadas, os telhados, o rio ou o mar fazem lembrar Alfama (Lisboa e Portugal, também). Na verdade, São Francisco do Sul é mais um dos irmãos que Alfama tem por esse mundo fora.

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O casario colonial estende-se ao longo da baía da Babitonga e guarda um dos últimos núcleos açorianos do país (tal como Ribeirão da Ilha ou Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis). Aqui encontramos o Museu Nacional do Mar, que reúne embarcações de todo o Brasil. O acesso pode fazer-se de carro, mas é mais bonito quando se realiza pelas balsas ou lanchas que asseguram a ligação ao continente.

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São Francisco do Sul é uma vila belíssima e merece visita detalhada. Restaurantes e cafés, no centro histórico, permitem matar a fome. Um deles, São Francisco Panificadora, serve umas sopas consistentes que reconfortam o estômago e animam o espírito para a viagem de regresso. Experimentámos a sopa de costela com aipim e a de frutos do mar, já de noite, olhando, de quando em vez, pelo vidro embaciado, para vultos ondulantes e indecifráveis na baía da Babitonga.

Gravatal, Santa Catarina, Brasil

gravatal8Sai-se da BR 101, em Tubarão, correm-se 17 quilómetros para o interior, no sentido NW, e chega-se a Gravatal. Nesta cidade tudo gira em torno das águas termais, que aqui jorram a uma temperatura média de 36º, 40 litros por segundo. Dizem que a água termal de Gravatal é a segunda melhor do mundo em propriedades terapêuticas, superada apenas pela do complexo de Aux-Les-Thermes, em França.

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Mera propaganda? Não sei. O que é certo é que  a água mineral do Gravatal é captada e aproveitada por três hotéis. Nós estivemos num deles. Da rotunda central da cidade (que logo se percebe onde fica) viramos à direita e, depois de uma pequena estrada de terra batida e uma alameda verdejante, chegamos. Não tem engano possível e, se tiver, toda a gente conhece o Hotel Internacional…

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Dois conjuntos edificados desde logo se destacam: um, térreo, com cobertura ondulada, onde se encontram a receção, salas de convívio e de jogos, um bar, um amplo salão de refeições e uma sala infantil; outro, com quatro pisos e de linhas direitas, com os quartos de alojamento (118), as salas de sauna, de terapias, de banhos e de consultas.

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Água é um bem que não falta por aqui. Além de duas piscinas exteriores, o hotel possui também uma piscina interior, vários tanques de hidromassagem, salas com enormes banheiras e, nos próprios quartos, piscinas ou banheiras de imersão, tudo com água termo mineral. As torneiras são gigantes, mais parecem bocas de incêndio, e delas jorra tal quantidade de água que uma banheira grande enche-se em três minutos.

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No espaço envolvente predomina o verde, cortado por trilhas, de onde avistamos pássaros, patos e até macacos de popa! Estão disponíveis campos de ténis e de futebol. Durante a nossa estadia, um simpático galo, que apelidámos de Zeca, rondava pela porta do hotel e pelas redondezas do restaurante, debicando aqui e ali, convivendo com os hóspedes, fazendo as delícias da Rafaela.

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Aqui descansa-se e, verdadeiramente, relaxa-se; e corre-se sério risco de abalar com mais uns quilinhos; o conforto é total, tanto nos quartos como nas outras instalações; a comida é excelente; o ar estimula o apetite; e a água termal puríssima serve para nos lavarmos por fora e por dentro: dado que ela jorra a uma temperatura tépida, bebe-se com gelo feito da mesma, única e abundante água do Gravatal.

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O Hotel Internacional e sua envolvente são ideais para umas pequenas férias em família e uma boa alternativa à praia, sobretudo em dias de chuva (o que não é nada raro no sul do Brasil), como foi o caso. Alojamento, café da manhã, almoço e jantar, para um casal com filho, menor de 5 anos, ficou por 330 reais/dia (cerca de 140 euros). Valeu cada centavo!

Zappa

Todos nós somos influenciados pela música que ouvimos (com nossos amigos) na adolescência. É muito zappacomum esse ser o tipo de música que acaba por se tornar o nosso preferido pela vida fora. O mesmo se passou comigo, claro, mas não por muito tempo. Cedo percebi que, como outra qualquer expressão artística, a música, quando de qualidade, é intemporal. Hoje ouço alguma música do tempo da minha adolescência, de vez em quando, mas está longe de ser o tipo de música que ouço mais e, sobretudo, o tipo de música de que gosto mais. Na verdade, gosto de tanta coisa, que acaba por ser bastante difícil dizer do que gosto mais – depende muito do humor de cada momento. Há, porém, um músico cujos trabalhos ouvi muitas e muitas vezes durante a minha adolescência e por quem, mais do que gostar, sinto uma espécie de veneração: Francis Vincent Zappa, mais conhecido por Frank Zappa.

A carreira musical de Zappa estende-se por pouco mais de trinta anos. Infelizmente ele morreu ainda bastante novo, aos 52 anos de idade, em dezembro de 1993. O seu legado é enorme e está registado em mais de noventa álbuns gravados ao vivo ou em estúdio! Não conheço a totalidade da sua obra. A partir de 1976/77, Zappa enveredou paulatinamente por um estilo musical distinto, explorando novas sonoridades, alargando o leque instrumental, produzindo música para orquestra, formando outro tipo de banda, já sem o contributo dos músicos carismáticos que o ajudaram a construir os seus maiores êxitos como, por exemplo, George Duke, Napoleon Murphy Brock, Ruth Underwood ou Jean Luc-Ponty. O período de ouro de Frank – aquele em que, como costumo dizer, Zappa esteve em comunicação com os deuses – vai do fim dos anos sessenta até 1975. Um período de pouco mais de cinco anos em que ele produziu músicas para uma dúzia de LPs, todas elas geniais[1]. Assim, é-me difícil ouvir os trabalhos dos anos oitenta, por exemplo, quando Zappa envereda por uma caminho mais experimental ou orquestral, porque sempre os comparo com aquele período de ouro, ao qual, de uma forma ou outra, acabo sempre por regressar.

Penso, por isso, que é preciso dar alguma orientação a quem, pela primeira vez, contacta com a música de Frank Zappa. Muitas vezes as pessoas começam por ouvir precisamente as obras dos anos oitenta e não gostam, não estão preparadas, desistem. É preciso encaminhá-las para o “período de ouro”, para a produção “clássica” de Zappa. Um trabalho altamente recomendado para o efeito é, sem dúvida, “Overnite Sensation”, álbum que contém, provavelmente, o leque de canções mais conhecido e mais comercializado de Frank que, como se sabe, não é um músico comercial, embora, na minha opinião tenha tudo para (ainda) vir a sê-lo, infelizmente, apenas após a sua morte. (Nada que não tenha acontecido com outros génios da música, como ele). Um outro trabalho (este gravado ao vivo) que pode ombrear com o atrás referido, idealmente, complementá-lo, embora mais difícil de ouvir numa primeira vez, seria “Roxy & Elsewhere”, este e aquele verdadeiras obras-primas.

Obviamente, muito foi dito já sobre a música de Frank e seria difícil e até pretensioso acrescentar alguma coisa. Ficam apenas quatro pequenas notas: 1) A música de Zappa, para além de genial, é originalíssima, incatalogável, não é rock, nem jazz, nem blues, nem música clássica e, simultaneamente, é tudo isso e muito mais – o máximo que se pode dizer, para não errar, é que é “Zappa”. 2) Ele tocou com inúmeros músicos (suas bandas mudavam frequentemente ao longo do tempo), alguns ilustres desconhecidos até então; sob sua orientação, todos se revelariam músicos extraordinários, o que demonstra a grande capacidade de liderança de Frank. 3) Talvez pela influência de Edgard Varèse, a percussão tem grande destaque na música de Zappa, que muitas vezes alinha com vários percussionistas, incluindo dois bateristas; uma das características de sua música é que os percussionistas estão sempre em grande atividade. 4) Para além de criador de génio, Frank era também um exímio guitarrista, um excelente vocalista e um grande maestro, bem como um entertainer muito especial. Sem dúvida, o músico mais extraordinário da segunda metade do século XX e, quiçá, o mais inovador de todo o século.

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[1] Álbuns “clássicos” de Zappa:

  1. Uncle Meat (1969)
  2. Hot Rats (1969)
  3. Weasels Ripped My Flesh (1970)
  4. Chunga’s Revenge (1970)
  5. Filmore East (1971)
  6. 200 Motels (1971)
  7. Just Another Band from L.A. (1972)
  8. Waka/Jawaka (1972)
  9. The Grand Wazoo (1972)
  10. Over-Nite Sensation (1973)
  11. Apostrophe (1974)
  12. Roxy and Elsewhere (1974)

Alfama é a minha aldeia

No tempo da minha infância, nos anos sessenta do século XX, ainda circulavam machos e burros puxandoaguadeiro carroças com legumes e outras mercadorias pelas ruas de Alfama. Havia poucos carros. Tudo se comprava em avulso, pesado e embalado no comércio local: 500 gramas de açúcar, 250 gramas de azeitonas, um litro de feijão (sim, era um litro e não um quilo), meio-quilo de café; sete e meio de branco ou tinto na taberna do Zé Gordo, onde hoje é a Mesa de Frades. Não se usava plástico nem Tetra Pak. Sou do tempo da Fonte das Ratas e lembro-me de ver – ainda! – os vendedores de água, conhecidos por aguadeiros, apregoando “aú!”. Eu próprio vendia leite avulso de porta em porta, ajudando os meus pais, o que me custou a alcunha de Norma Leiteiro, que eu detestava. As pessoas punham os colchões nos becos e nos pátios e dormiam ao ar livre, nas noites quentes. Muitos criavam galinhas, coelhos, patos e outros animais que andavam com seus filhotes pelo empedrado do bairro. Algumas crianças tomavam banho nos chafarizes e alguns adultos também. Muitas habitações não tinham casa de banho. Aos sábados à noite ia-se ao café ver o Bonanza na televisão a preto-e-branco, como hoje se vai ao cinema; e aos domingos, sempre às três da tarde, ouviam-se no rádio os relatos do futebol. Ninguém pensava em ganhar dinheiro com os Santos Populares: as pessoas ofereciam sardinhas, pão e vinho a quem passava; cantava-se, dançava-se e saltava-se a fogueira: cada beco fazia a sua festa – e era muito, muito mais bonito que agora! Naquele tempo havia mais gente, mais atividades, mais pregões, mais cheiros. E tudo era maior porque eu era mais pequeno. Havia também as Casas da Malta, onde se amontoavam imigrantes, em geral do Norte, que vinham trabalhar para Lisboa. Muitas das profissões – estivadores, conferentes, fiéis de armazém, pescadores, armadores, manobradores, timoneiros, mestres, arrais, marinheiros, entre muitas outras – estavam ligadas ao porto e ao rio, para além de várias atividades ilícitas, em geral, complementares àquelas. Era comum encontrar-se – sobretudo de manhã, bem cedo, para o “mata-bicho” e, ao fim do dia, para o “copo-de-três” – muitos destes trabalhadores, distribuídos pelas tabernas do bairro. Trabalhadores e tabernas em vias de extinção. A ancestral relação Tejo/Alfama perdeu força nas últimas três, quatro décadas, até se extinguir, e esta foi a maior transformação, não apenas dos últimos cinquenta anos, mas desde sempre: o fim duma relação milenar. Terminou um ciclo, no qual Alfama descobriu o mundo, e inaugurou-se outro em que o mundo descobre Alfama. O turismo cresceu bastante nos últimos anos, ao mesmo tempo que o cais e o rio se esvaziaram. A Doca da minha infância, repleta de fragatas e varinos, onde tantos, como eu, aprenderam a nadar, foi aterrada; o Tejo ficou mais distante – inacessível; Alfama, sem ele, divorciada, perdeu vivacidade e alegria: entrou num processo de transformação e aos poucos foi-se adaptando e regenerando. Agora, os hábitos e a maioria dos habitantes são outros: muita gente, de muitos lugares, veio morar para Alfama: há mais diversidade profissional, social, cultural; multiplica-se o pequeno comércio de chineses, cingaleses, indianos; a vida noturna animou-se com a proliferação de casas de fado e bares diversos. Enfim, o bairro revitaliza-se, renova-se, mas não perde a identidade. Isto percebe-se melhor quando subimos a colina e alargamos a vista, primeiro em Santo Estevão e, depois, em Santa Luzia: lá está o Tejo, afinal, com sua corrente forte; o casario e o traçado árabe parecem eternos; e as andorinhas continuam a chegar no fim dos dias longos, em grande algazarra, anunciando o verão. Alfama ainda é a minha aldeia.

Ranking dos 10 políticos portugueses mais detestáveis

1º Cavaco Silva,”O Conspirador”

2º Miguel Relvas, “O Hedonista”

3º Passos Coelho, “O Liberal”

4º Nuno Crato, “O Contabilista”

5º António José Seguro “O Desastrado”

6º Alberto João Jardim, “O Troglodita”

7º Paulo Portas, “O Oportunista”

8º Vítor Gaspar, “O Apontador”

9º Marcelo Rebelo de Sousa, “O Quadrilheiro”

10º Marques Mendes, “O Concentrado”

Face à classificação de há 5 meses (29/10/2012), releva o seguinte: entradas de António José Seguro, Nuno Crato, Vítor Gaspar e Marques Mendes; manutenção incontestável do primeiro lugar, desde o início das “sondagens”, de “O Conspirador”; saída de cena de Francisco Louçã, “O Moralista”.