Argentina, Buenos Aires e Terra do Fogo

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Casa Rosada, onde fica o gabinete presidencial.

Buenos Aires é uma das mais belas cidades da América do Sul, se não for a mais bela. Embora o rio da Prata não seja adequado para banhos, a cidade contém outros espaços de lazer bem interessantes, como esplanadas em museus, em cafés, em livrarias, em belíssimos jardins públicos. Os portenhos adoram conviver nos grandes parques da cidade, onde apanham banhos de sol, petiscam, conversam, praticam desporto.

A cidade é ampla, com bairros de luxo e populares. Destes, o mais famoso é, sem dúvida, La Boca, onde encontramos La Bambonera, o mítico estádio do Boca Juniores, assim chamado por fazer lembrar uma caixa de bombons. Neste popular bairro podemos observar as casas revestidas com chapas coloridas, pintadas com as sobras das tintas de pintar os navios estacionados no porto.

Foi também em La Boca que nasceu o tango. Por todo o lado se ouvem tangos e se veem bailarinos dispostos a tirar uma foto com os turistas para ganhar algum dinheiro. As semelhanças com Alfama são óbvias, até pela língua que aqui se fala, o lunfardo, como se pode ver num outro post, aqui: https://ilovealfama.com/2014/01/09/la-boca-e-alfama/ Só que em Alfama a música é o fado e em Buenos Aires é o tango – ambos patrimónios culturais da humanidade, pela UNESCO.

Além disto, Buenos Aires é uma cidade artística e cultural. E com muita história, como se pode observar pelos inúmeros monumentos espalhados pala cidade. Além dos museus, são famosas as suas livrarias, que estão entre as mais famosas do mundo. Nelas podemos ler um livro, enquanto tomamos um café. São os casos da El Ateneo Gran Splendid, a Walrus Books, a Eterna Cadencia e a Boutique del Libro, situada no elegante bairro de Palermo.

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Ushuaia e o Canal Beagle. Ao fundo, montanhas do Chile.

A Terra do Fogo é uma região belíssima, no extremo sul da Argentina, já depois do Estreito de Magalhães. Segundo consta, foram os próprios marinheiros da esquadra desse magnífico navegador português que, ao passarem o estreito, avistando nas montanhas fogueiras ateadas pelos índios, designaram aquela terra como do “fogo”.

A nossa visita a Ushuaia e região adjacente ocorreu em novembro, mês de plena primavera, pouco antes do início do verão e respetivo solstício. Os dias são muito grandes nesta época e as noites muito curtas. A temperatura suporta-se bem durante o dia, sobretudo se estiver sol.

Grande parte da cidade foi construída por presos, que ali viviam em condições sub-humanas. A maioria não resistia às rigorosas condições climatéricas, sobretudo, claro, no inverno. Na nossa visita circulámos por uma via férrea construída por eles. Existe também um museu na cidade, onde ficava a antiga prisão.

Os vales e montanhas da Terra do Fogo proporcionam imagens deslumbrantes. De Ushuaia podem fazer-se vários tipos de passeios para visitar esses locais e também pequenos cruzeiros marítimos a pequenas ilhas do canal Beagle, que divide a Argentina do Chile, onde se podem observar focas, leões marinhos e outras espécies animais.

De Ushuaia partem também, nesta época do ano, cruzeiros para a Antártida. São, porém, cruzeiros bastante caros, sempre acima dos 10.000 dólares.

La Boca, Alfama e o Lunfardo

la bocaLa Boca é um bairro portenho [1], situado na antiga zona portuária, na margem direita do rio da Prata, onde nasceram dois grandes clubes argentinos, River Plate e Boca Juniors . Não vou alongar-me sobre a história deste típico bairro, até porque isso está disponível para consulta em muitos sítios da internet. Vou apenas mostrar as semelhanças, algumas delas muito curiosas, que o mesmo tem com Alfama.

1- Situam-se na margem (direita) de um rio.

2 – Estão na origem das cidades de que fazem parte, Buenos Aires e Lisboa.

3 – Têm em frente um mar que não é mar – mar da Prata [2] e mar da Palha.

4 – Desenvolveram-se a partir das atividades portuárias.

5 – São o coração de dois tipos de música, ambos Património Cultural Imaterial da Humanidade, assim classificados pela UNESCO – o tango e o fado.

6 – São bairros extremamente populares e a sua população é, em geral, pobre [3].

7 – Em La Boca usa-se uma interlíngua que se chama “lunfardo”, a qual se deve à passagem de marinheiros estrangeiros pelo bairro, sobretudo italianos, mas também portugueses. Muitos vocábulos dessa gíria são usados também em Alfama. Aqui ficam alguns exemplos que a maioria dos alfamenses certamente reconhecerá. “Guita” (dinheiro); “cana” (prisão); “canoas” (sapatos); “engrupir” (enganar); “fachada” (cara); “fanar” (roubar); “farra” (festa); “gagá” (debilitado mentalmente); “garfos” (dedos do carteirista); “lábia” (facilidade para dialogar); “mancar” (entender, compreender); “morfar” (comer); “palpitar” (imaginar); “tanga” (fraude, engano); “untar” (subornar); “zarpar” (ir-se rápido) [4] [5].

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[1] Relativo a Buenos Aires.

[2] O rio da Prata, dada a extensão do seu enorme estuário foi confundido com um mar. Daí terem-lhe chamado Mar da Prata. Ainda hoje há quem o chame assim.

[3] Como se pode ver pelo exemplo que mostramos na foto de La Boca (registada em 2009), muitas casas foram pintadas com cores vivas e variadas. Isto teve origem no aproveitamento dos restos das tintas usadas para pintar os navios, que os locais recolhiam para pintarem suas próprias casas.

[4] Existem até dicionários de Lunfardo, como pode ver-se pelo exemplo aqui:

http://www.elportaldeltango.com.ar/lunfardo/

[5] Já agora, fica também a referência a outro tipo de interlíngua que se fala na região – o “portunhol” (ou portanhol). Uma mistura, como a termo indica, de português com espanhol, falado sobretudo na zona da tríplice fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai (ver foto no artigo deste blog sobre as Cataratas do Iguaçu) e também na zona da fronteira sul do Brasil, entre o estado do Rio Grande do Sul e o Uruguai.