Longe da Árvore

Andrew Solomon, ao centro, com a família mais próxima.

O título, “Longe da Árvore”, remete para um provérbio alemão que diz “a maçã nunca cai longe da árvore”, indicando que os filhos nunca se afastam muito do que os pais são. Esta ligação (ou esta continuidade) entre pais e filhos transmite aos últimos a chamada “identidade vertical”, embora haja casos em que, devido à sua excecionalidade, prevalece uma identidade diferente, partilhada por indivíduos com características e personalidades especiais, a chamada “identidade horizontal”. “Longe da árvore”, portanto, mas nem sempre: estes dois grandes tipos de identidade não são estanques, e por vezes as duas identidades podem coincidir numa só; por outro lado, todas as identidades (como o próprio conceito indica) são diferentes, pois mesmo quando são “horizontais”, dependem de múltiplos fatores, o que torna os dez grupos estudados (que correspondem a tantos outros capítulos do livro) muito heterogéneos. São eles, por ordem de entrada em cena: “Surdos”, “Anões”, “Síndrome de Down”, “Autismo”, “Esquizofrenia”, “Deficiência”, “Prodígios”, “Violação”, “Crime” e “Transgéneros”, aos quais Solomon acrescentou um primeiro capítulo sobre “Filhos” e um último intitulado “Pais”.

Podemos considerar, interligadas, três dimensões nesta obra: informativa, formativa e ética.

Na primeira, Solomon faz, digamos assim, um ponto da situação sobre os desenvolvimentos que ocorrem dentro de cada grupo – o antes, o agora e o que se pode esperar no futuro – ilustrados com casos reais (centenas deles) que o autor pesquisou, muitas vezes in loco, durante mais de uma dezena de anos. Na segunda mostra-nos como, mesmo em casos em que os pais, à partida, pensam não suportar (sobretudo nos de deficiências graves, autismo, esquizofrenia, violação e crime), o amor, quase sempre, acaba por vencer, através da aceitação da pessoa (filho ou filha) tal como é. Na terceira coloca a questão dos limites.

Passámos rapidamente (e ainda bem) de uma época, há uns meros 20 ou 30 anos atrás, em que estas pessoas excecionais eram descartadas pela sociedade (colocadas em instituições, abandonadas ou mesmo mortas) para a época atual, em que as crianças que nascem com potenciais identidades horizontais veem reconhecido o seu direito a uma vida digna por parte do Estado e das famílias, perspetivando-se já um futuro em que os filhos poderão ter essas características excecionais selecionadas pelos pais. Surdos podem querer ter filhos surdos, anões podem querer filhos anões, etc. Alguns destes grupos constituem-se já como subculturas, como é o caso das comunidades surda e gay, por exemplo, e o mesmo pode acontecer com portadores do síndrome de Down e outros, cujos pais, por razões diversas, não consideram que os filhos tenham qualquer patologia (daí não estarem interessados numa cura), mas apenas uma identidade diferente, que, em nome da diversidade, se deve perpetuar. Até que ponto isto é legítimo e saudável constitui apenas uma das muitas questões controversas que os desenvolvimentos técnicos, científicos e sociais vieram colocar na ordem do dia.

Todo o livro (com mais de mil páginas) é escrito com mestria e no último capítulo Solomon aborda a sua própria experiência enquanto progenitor, descrevendo o seu trajeto de pai homossexual, mostrando-nos o quanto o exemplo de tantos outros pais, que aceitaram as identidades horizontais dos filhos, foi importante para ele, inspirando-o e mostrando-lhe que só há um caminho justo entre a rejeição e o fundamentalismo – o do amor.

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Foto retirada e adaptada de: nytimes.com.