Keynes – Uma Teoria Útil à Economia Mundial

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John Maynard Keynes.

Quando após a Primeira Guerra Mundial, França e Inglaterra impuseram à Alemanha, além de outras sanções, o pagamento do esforço de guerra que tinham realizado (incluindo os empréstimos que tinham pedido aos Estados Unidos), o mundo entrou numa gravíssima crise económica, da qual sairia apenas depois de terminada a II Guerra Mundial. Antes da Grande Guerra, no início do século XX, a Alemanha era já o país mais industrializado da Europa e o seu grande motor económico. Ao passar, no espaço de meia década, de um país rico a um país devedor, esse papel ficou comprometido. A Alemanha viu-se obrigada a valorizar a sua moeda para saldar a pesada dívida que a obrigaram a contrair, e isto provocou uma inflação crescente, que nem dois avultados empréstimos dos Estados Unidos conseguiram estancar. No final dos anos vinte, a Alemanha deparou-se com uma hiperinflação e os Estados Unidos entraram em profunda recessão. Keynes tinha avisado que isto poderia acontecer na sua obra As Consequências Económicas da Paz, onde alertava para os graves perigos do desequilíbrio mundial causado pelas sanções à Alemanha.

Keynes pensou na melhor forma de resolver o problema causado por um mundo em depressão. A solução encontrada por Keynes foi a de propor uma política expansionista, levada a cabo pelo Estado, para reanimar a economia. Isto contrariava o que acontecera logo após a Primeira Guerra Mundial (e o que acontece hoje na Europa). Grandes investimentos públicos – estradas, caminhos-de-ferro, portos, aeroportos, hospitais, escolas – para criar emprego, aumentar o consumo interno, fazer subir os preços, criar condições para o investimento privado e assim dinamizar por dentro o crescimento, até a produção começar a crescer e por essa via crescerem também as exportações, e assim se atingir um novo equilíbrio. De acordo com Keynes, fazer o ajustamento por via de cortes salariais não era solução. Isso não permitiria que os preços subissem e não contribuiria para que as empresas contratassem mais pessoas.

Por desenvolver uma resposta inovadora ao enorme desemprego resultante da Grande Depressão, Keynes inaugurou uma nova disciplina económica – a macroeconomia. O desemprego não é determinado pelo nível dos salários, mas pelo nível de produção e, em última análise, a nível mundial, resulta do Paradoxo da Poupança, da contração geral das economias. É geralmente aceite que se deve à aplicação no terreno das ideias de Keynes a retoma económica que ocorreu, sobretudo, após a II Guerra Mundial e que se prolongou por décadas. Esse período ficou conhecido como era keynesiana, um período entrecortado com algumas crises financeiras localizadas, sobretudo na década de setenta, mas sem a dimensão da anterior Grande Depressão nem da grave crise económica que afeta hoje a União Europeia, particularmente os países do Sul pertencentes à zona-euro. Estes abdicaram da prerrogativa de desvalorizarem as suas moedas, ao aderirem à moeda-única, e isto, na prática, resulta no mesmo que voltar à rigidez do padrão-ouro. Nestas condições, é muito difícil que estes países endividados consigam cumprir as suas obrigações financeiras.

De acordo com David Vines e Peter Temin, a resposta adequada está ainda em Keynes. É preciso que as economias mais fortes, nomeadamente a Alemanha, adotem políticas expansionistas, induzindo as economias mais fracas, nomeadamente a Grécia, Portugal, Espanha e Itália, a exportarem mais, investirem mais, criarem emprego e riqueza. Só assim poderão equilibrar-se. Como todos sabemos, esta visão é muito polémica. A Europa está dividida entre a visão keynesiana e a dos liberais e monetaristas que acham que os países endividados têm de emagrecer ainda mais, mesmo que esse emagrecimento implique o fim do Estado Social, tal como o conhecemos, um Estado Social que não podemos sustentar sem endividamento excessivo. Polémicas à parte, certo é que será necessário que os nossos países passem muitos anos a exportar mais do que importam para pagar à Alemanha. Mas para onde exportar o que é necessário se todos os países querem também exportar mais do que importam? Para a situação mudar é imperioso ultrapassar este Paradoxo da Poupança, mas não se vislumbra, com os atuais políticos europeus, que isso possa acontecer.

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A nossa edição:

“Keynes – Uma Teoria Útil à Economia Mundial”, Peter Temin & David Vines, D. Quixote, 1ª edição, Lisboa, 2015.

Marx e os Anarquistas

A teoria do definhamento do Estado é profundamente irrealista, e penso que poderá ter sido adotada por Marx e Engels essencialmente para obterem vantagem em relação aos seus rivais. Os rivais a que me refiro são Bakunin e os anarquistas; Marx não gostava que o radicalismo de quem quer que fosse ultrapassasse o seu próprio. Como Marx, também eles aspiravam à derrocada da ordem social existente mas dirigiam os seus ataques contra o sistema político-legal, em lugar do sistema económico. Para eles, o Estado era o inimigo que se tornava imperioso destruir. Não fossem os seus concorrentes anarquistas, e Marx, partindo das suas próprias premissas, teria chegado facilmente ao reconhecimento da possibilidade de que a instituição do Estado, sob o socialismo, desempenhasse funções novas e indispensáveis, como seja as de salvaguardar a justiça e a liberdade que lhe foram conferidas pelos grandes teóricos da democracia.

Karl Popper, A Sociedade Aberta e seus Inimigos

(Tradução de João Carlos Espada)

Sobre a História

Não há uma história da humanidade, há apenas um número indeterminado de histórias de todo o tipo de aspetos da vida humana. E um deles é a história do poder político. Esta é elevada à categoria de história universal. Mas isto, a meu ver, constitui uma ofensa contra qualquer concepção decente de humanidade. É pouco melhor do que tratar a história das fraudes, ou do roubo, ou do envenenamento como sendo a história da humanidade, porquanto a história da política do poder nada mais é do que a história do crime internacional e dos assassínios em massa (incluindo, é verdade, algumas tentativas para os eliminar). Esta história é ensinada nas escolas e alguns dos maiores criminosos são exaltados como os seus heróis.
Mas não haverá de facto uma história universal, no sentido de uma história concreta da humanidade? Não pode haver. Deve ser esta a resposta de qualquer humanitário, creio eu, e especialmente a de qualquer cristão. Uma história concreta da humanidade, se a houvesse, teria de ser a história de todos os homens. Teria de ser a história de todas as esperanças, lutas e sofrimentos humanos. Porque não há homem algum que seja mais importante do que qualquer outro. E é evidente que essa história concreta não pode ser escrita. Teríamos de fazer abstrações, de selecionar, de deixar coisas de lado. Mas, desse modo, chegamos às histórias múltiplas; e, entre elas, à história do crime internacional e do assassínio em massa que tem sido propagandeada como a história da humanidade.
Mas porque foi escolhida a história do poder e, não, por exemplo, a da religião ou a da poesia? São diversas as razões. Uma é a de que o o poder nos afeta a todos e a poesia a apenas uns poucos. Outra é que os homens estão inclinados a adorar o poder. Mas é inquestionável que a adoração do poder é uma das piores espécies de idolatria humana, uma relíquia dos tempos de prisão, de servidão humana. O culto do poder nasceu do medo, uma emoção que é desprezada com razão. Uma terceira razão pela qual o poder político se converteu no cerne da “história” é que aqueles que detinham o poder queriam ser adorados e podiam impor os seus desejos. Muitos historiadores escreveram sob a supervisão de imperadores, de generais e de ditadores.

Karl Popper, A Sociedade Aberta e seus Inimigos.

(Tradução de João Carlos Espada).