
São dois lugares muito próximos, separados por poucos minutos de estrada, ambos a cerca de 200 quilómetros, para oeste de João Pessoa, ou seja, entre três a quatro horas de distância da capital paraíbana, para quem viaja de carro. Teoricamente, até se poderiam visitar os dois locais no mesmo dia, se viajar de noite no Brasil não fosse tão perigoso. Mas é claro que é melhor dormir por lá pelo menos uma noite (foi o que fizemos) ou, de preferência, duas ou três.
Uma coisa desde já recomendamos: pernoitar no Hotel Fazenda Pai Mateus. Nenhum outro alojamento será melhor; na verdade, nenhum outro se lhe compara, sequer. Para chegar a este hotel, saíndo de João Pessoa, só há um caminho: tomar a estrada 230 em direção a Campina Grande. A partir daqui pode seguir-se “por cima”, via Boa Vista, ou “por baixo”, via Cabaceiras. Embora o primeiro trajeto (por Boa Vista) seja ligeiramente mais curto, há um bom pedaço de estrada (ainda a 230) que está em obras, à saída de Campina Grande. Mas, com obras ou sem obras, a melhor opção é ir por um lado e voltar pelo outro, percorrendo um círculo — Campina Grande, Boa Vista, Lajedo de Pai Mateus, Cabaceiras, e regresso pela PB-148, até Queimadas, e depois pela PB-100 que liga de novo à 230, perto de Campina Grande. Este foi o nosso trajeto.

Saímos de Carapibus, na costa do Conde, de manhã cedo (umas 7:00h) e em Cajá, sensivelmente a meio-caminho entre João Pessoa e Campina Grande, uma hora e picos depois, tomámos o café da manhã na famosa Tapiocaria Irmão Firmino. O movimento é grande, quase do tamanho das múltiplas tapiocas que Eduardo — um dos funcionários de serviço —maneja com mestria, dentro e fora das frigideiras perfiladas em cima de fogões de dois bicos, igualmente perfilados ao longo do enorme balcão. Tem que se possuir um estômago generoso para aguentar uma tapioca destas, doce ou salgada, suficiente, à vontade, para dois manos. As tapiocas têm fama, mas olhem que delas também se faz bom proveito.
Partimos atestados e com um café forte no bucho para enfrentarmos de novo a BR 230. Subimos até Campina Grande mas não entrámos no centro da cidade. Campina Grande é boa é no São João, não nos pareceu interessante visitar agora, pelo que continuámos a nossa viagem, ultrapassando, logo de seguida, um trecho em obras e muita poeira. Mais uma camada a juntar às muitas que o nosso carro alugado já tem.

Entrámos em Boa Vista, uma cidade mais ou menos no meio do nada, para comprarmos água, e seguimos pela PB-160. Uns vinte minutos depois estávamos a fazer o desvio para uma estrada de terra batida de 10 kms, que percorremos até o Hotel Fazenda Pai Mateus. A estrada está em bom estado, é perfeitamente transitável, mesmo para um carro relativamente baixo como o nosso, o que não impediu que este ficasse com mais uma camada de pó. Esta estrada já se encontra no interior de uma fazenda particular, e ao percorrê-la passámos por casas dispersas, algumas plantações e vários animais, sobretudo cabras e bois, até nos depararmos com um enorme letreiro anunciando o hotel.
A tranquilidade, o isolamento, a beleza que se sentem à chegada são quase respiráveis, sentimo-nos de imediato num espaço quase esquecido, como se nenhum problema do mundo pudesse aqui chegar. E quando se sai do carro sente-se uma paz difícil de descrever. Por outro lado, o desenho do hotel é perfeito. As várias áreas — área do pessoal, que inclui receção, cozinha, armazém e outros espaços; área de refeições; zona das piscinas; espaços abertos, por onde circulam vários animais; e a vasta área onde se localizam os 28 apartamentos — estão bem delimitadas, mas o conjunto forma uma unidade harmoniosa, ampla e extremamente aprazível. Os tetos altos do edificado garantem uma excelente ventilação; os materiais usados na construção são de boa qualidade; e há muita sombra. Tudo isto, como é óbvio, é uma benção em qualquer lugar do sertão brasileiro.

Além disso, a decoração, simples, com peças e materiais tradicionais da própria região, não deixa de ter a sua sofisticação, constituindo-se como um complemento e uma continuidade do estilo edificado. O silêncio aqui é cósmico — e os sons que se escutam, ou simplesmente passam, fazem parte dele. Outra coisa que nos agradou sobremaneira neste hotel foi o seu horário de check-in, que é, imagine-se, a partir das 10 da manhã. Dá para guardar as malas, tomar um duche, relaxar, descansar, almoçar — e ainda se tem a tarde toda pela frente! Dado que queríamos ir no último passeio do dia ao Lajedo, para que coincidisse com o momento do pôr do sol, ainda tivemos tempo livre para fruirmos do ambiente idílico que envolve o hotel, e apreciar os espécimes de cactus e bromélias tão característicos da exótica paisagem da caatinga nordestina.
Os passeios ao Lajedo de Pai Mateus só podem ser realizados com o acompanhamento de um guia local. O último passeio do dia inicia-se às 16:00h e foi nesse que nos integrámos. Dado que estávamos alojados no hotel, o preço por pessoa ficou em 100 BRL, sendo que o preço normal é de 120 BRL. (Já agora, o preço de um apartamento standard é de 485 BRL, incluindo o pequeno-almoço que, como veremos, é excelente). O Lajedo dista uns quatro quilómetros do hotel e os visitantes só podem deslocar-se para lá de carro ou moto. No dia da nossa visita éramos 14 pessoas (só quatro estavam alojadas no hotel) mais o guia, Tiago Araújo, que partiu à frente de moto; nós seguimo-lo nos nossos carros. Depois de estacionarmos as viaturas, ainda subimos a pé uns 300 metros até chegarmos ao Lajedo propriamente dito, que, como já li algures, é uma espécie de prato gigante invertido, com os matacões (pedras graníticas enormes) em cima. Foi nesse prato gigante — com 1.500 metros de extensão — que passámos as duas horas seguintes.

As pedras que ali se encontram são magmáticas, vieram de dentro da Terra há milhões de anos, foram lapidadas pelos agentes da natureza — água, vento, temperatura e o próprio tempo — e são, de facto, exóticas e impressionantes; o pôr do sol neste local é magnífico e, quando anoitece, é com fascínio que se admiram os corpos brilhantes cravados na imensa abóboda celeste… Mas o verdadeiro tesouro deste lugar é algo que não se vê, mas se sente: o aparente equilíbrio cósmico; a paz interior; a comunhão com o Universo, quando todos nos calamos e ficamos sentados ou deitados (nós fechámos os olhos) durante alguns minutos, viajando naquela enorme pedra pelo espaço interestelar. Sim, trata-se de uma experiência única num lugar mágico!
Quando entrámos no carro para percorrermos os quatro quilómetros de volta ao hotel era já noite cerrada. Escolhemos o que queríamos para jantar e, tal como acontecera ao almoço, combinámos um horário e fomos descansar para o quarto, sem necessidade de estarmos na sala de refeições à espera que os pratos fossem confecionados. Além de todas as comodidades, a comida também é realmente boa — sem muita sofisticação, mas genuína, com produtos caseiros e locais, feita na hora. No entanto, o que mais nos impressionou foi o pequeno-almoço do dia seguinte. Antes de nos recolhermos aos quartos para dormirmos, fomos convidados a preencher com um “x” os quadradinhos referentes aos produtos e ingredientes que queríamos para o café da manhã, entre uma panóplia enorme, desde laticínios, ovos, pães diversos, doces, frutas, sucos, chás, cafés, etc. Recordamos desse pequeno-almoço, sobretudo, a tapioca com coco, queijo coalho assado e mel de cana que provámos — divinal!

Os funcionários do hotel e os guias dos passeios (há vários passeios que se podem realizar, não apenas apenas o que fizemos) são todos habitantes desta região do Cariri paraíbano, e alguns moram dentro da própria fazenda. As fazendas são grandes e muito difíceis de gerir e rentabilizar, face aos custos associados. Mas, felizmente, esta é rentável e dá emprego a muita gente — tudo graças ao Lajedo de Pai Mateus. Um dos beneficiários é o guia que nos conduziu ao Lajedo, Tiago Araújo, que nos relatou como sua vida melhorou bastante (ele viva numa casa de taipa), desde que, há um quarto de século, os primeiros visitantes começaram a chegar a esta zona, que é hoje uma APA (Área de Preservação Ambiental) de 18.000 hectares, abrangendo os municípios de Cabaceiras, Boa Vista e São João do Cariri. Ao princípio, entre 2000 e 2004, foram exclusivamente europeus, cerca de 15.000 escandinavos, face a uma parceria com a operadora de turismo Scandinavian Leasure Group, da Suécia, mas depois vieram mais, muitos mais, de todo o mundo.
A história do Lajedo enquanto destino turístico começou graças a um engenheiro da Petrobras, Eduardo Bagnoli, por quem os habitantes locais têm, mais do que admiração, uma verdadeira reverência. Bagnoli chegou a esta região para avaliar a exploração da bentonita e acabou por descobrir o Lajedo, tendo intuído que estava ali um local com um potencial turístico enorme. Ao verificar que as grandes pedras estavam sendo transformadas em brita, entrou imediatamente em contacto com o então proprietário da fazenda, o médico Crysóstomo Lucena, convencendo-o a apostar num novo tipo de negócio, o qual se iniciou em 1997.

Aos poucos, o Lajedo, que estava destinado a ser uma pedreira — única utilidade deste terreno pedregoso, impróprio para a agricultura — foi adaptado para destino turístico e cenário cinematográfico, consolidando-se como negócio rentável, sobretudo a partir do momento em que surgiram as redes sociais e a sua divulgação explodiu nos Facebook, Instagram e Tik-Tok desde 20, 15 e 10 anos atrás. O Lajedo de Pai Mateus e Cabaceiras passaram, assim, em poucos anos, de zona esquecida a destino turístico famoso, para enorme benefício da sua população.
As escavações das minas de bentonita permitiram outra descoberta. Há 23 milhões de anos (a datação foi realizada a partir do pólen fossilizado encontrado no local) havia nesta região um enorme pântano e um vulcão que começou a expelir lavas e cinzas. Ao cair na água, a lava resfriou rapidamente, formando um tipo raro de rocha vítrea, conhecida por pillow lavas. Entretanto, as cinzas soterraram o pântano, petreficaram a vegetação, e assim se iniciou a formação do minério bentonita. Esta rocha vítrea foi descoberta em dezembro de 2014, por pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil, na Bacia Terciária da Boa Vista. Está previsto criar-se aqui mais um geoparque (já são seis, neste momento, nomeados pela UNESCO no Brasil), com uma área de 12.000 hectares, aumentando para 30.000 hectares a área preservada nesta região do Cariri.

De acordo com informação disponibilizada pela administração do próprio hotel, existem apenas quatro lugares no mundo com este tipo de formações rochosas. Para além do Lajedo de Pai Mateus, Devils Marbles, na Austrália, Erongo Mountais, na Namíbia, e o maciço de Hoggar, na Argélia.
Mas, afinal, quem foi Pai Mateus? É difícil saber. Embora seja inegável — pelas gravuras e inscrições rupestres expostas não apenas aqui, mas um pouco por toda a região da caatinga nordestina — que este local foi habitado há muitas gerações, incluindo por índios cariri, não cremos que Pai Mateus tenha existido mesmo. Essa história de um curandeiro sábio que rezava e compunha mezinhas em prol do povo, e que terá vivido no século XVIII sob um matacão do Lajedo, não passará de uma lenda, passada, de geração em geração, através da tradição oral dos habitantes desta região. Afinal é o que se passa em tantos outros lugares, e não tem problema nenhum que assim seja. Só acredita quem quer.
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Após o excelente café da manhã, partimos, numa curta viagem, para Cabaceiras. À entrada da cidade, do lado esquerdo, os viajantes deparam-se com um enorme letreiro: Roliúde Nordestina. Só por aí já é fácil perceber a importância que o cinema e a televisão tiveram e têm no desenvolvimento da cidade. Cabaceiras já foi cenário de centenas de filmes, séries televisivas e anúncios publicitários, sendo talvez a rodagem mais famosa ali realizada a do filme Auto da Compadecida, baseado no romance homónimo do conhecido escritor Ariano Suassuna. E atrás da indústria do cinema vêm outras coisas: produtos regionais, restauração, pequenas indústrias, artesanato, artigos de couro, bebidas, mais empreendorismo e mais emprego e, sobretudo, mais dinheiro no bolso das pessoas para melhorarem a sua vida e a economia da região.

E quando assim é, quando surgem as oportunidades, sempre aparece a criatividade individual. É o caso de Manoel de José Preto (nome pelo qual é conhecido Manoel Batista de Lima), que percorre as ruas de Cabaceiras vestido a rigor, carregando a pesada roupa de cangaceiro e quase 80 anos de existência dura (que completará em fevereiro) no agreste sertão da Paraíba. Claro que muitos turistas querem tirar uma foto com ele, e assim Manoel Preto vai ganhando uns trocos para os gastos, talvez para algo mais, não sabemos.
Ser uma cidade turística muito visitada implica também outras coisas: Cabaceiras é das cidades mais limpas e organizadas do Brasil — algo raro. Também disto resulta a sua atratividade e, no fundo, a sua riqueza. A proximidade relativa de Cabaceiras ao Lajedo de Pai Mateus, a Campina Grande e até a João Pessoa confere-lhe um potencial de crescimento não negligenciável. Talvez tenhamos oportunidade de ver o resultado daqui a cinco ou dez anos, quem sabe?
Certo é o que temos hoje. E o que temos, ou o que os habitantes locais como Tiago Araújo e Manoel Preto têm, é uma terra que vale a pena visitar, que tem atrativos suficientes para encantar, mesmo os viajantes mais exigentes. O Lajedo de Pai Mateus, sobretudo, é a não perder. Já era noite quando chegámos a Carapibus, na Costa do Conde, um pouco cansados, mas muito satisfeitos com o(s) nosso(s) passeio(s).

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