As ruas mais belas do mundo

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Rua Augusta, Lisboa.

A revista de viagens espanhola Condé Naste Traveler publicou esta semana um artigo sobre “As 31 ruas a percorrer antes de morrer”[1].

Duas delas ficam em Portugal e outras tantas no Brasil. Em Portugal foi eleita a Rua Augusta, em Lisboa, e o Cais da Ribeira, no Porto.

Escreve-se, na revista, sobre a Rua Augusta: “Ampla, brilhante, obrigatória para captar toda a essência da cidade… uma delícia lisboeta”.

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Rua Gonçalo de Carvalho, Porto Alegre.

Já no Brasil, as ruas contempladas foram a Rua Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre, e a Rua Manoel Carneiro, uma escadaria colorida no bairro da Lapa, Rio de Janeiro.

Sobre a Rua Gonçalo de Carvalho, escreve-se o seguinte:”Está repleta até o topo de ramos e folhas da árvore Tipuana Tipu. A própria cidade iniciou uma campanha na internet considerando, com orgulho, que esta rua era a mais bonita do mundo e pedindo a sua classificação como património ambiental. A verdade é que o merece”.

O artigo contemplou ruas de dezanove países, mas apenas a Espanha (4), os EUA (4) e a Inglaterra (3) têm um número maior de ruas (incluídas nas 31 mais bonitas) que Brasil e Portugal.

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[1] Artigo completo em:

http://www.traveler.es/viajes/rankings/galerias/las-calles-mas-bonitas-del-mundo/704/mosaico/1

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Lisboa, a cidade mais “cool” da Europa

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A jornalista Fiona Dunlop, em artigo para a CNN, considera Lisboa a cidade mais cool da Europa, elogiando a nossa capital em sete vertentes principais: vida noturna, gastronomia, ironia, praias e castelos, arquitetura, arte e arruamentos. Neste último capítulo, há uma referência a Alfama e às coloridas fachadas dos seus prédios[1].

O rescendor de Lisboa espalha-se pelo mundo.

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[1] http://edition.cnn.com/2014/01/25/travel/lisbon-coolest-city/index.html

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O exemplo galego

Enquanto alguns em Portugal desejam um idioma controlado, limitado, subjugado pela “casa-mãe”, uma região espanhola deseja integrar a sua língua num idioma verdadeiramente livre e mundial.

Generoso, este exemplo galego.

Vasco e Pacheco voltam ao ataque (ainda o Acordo Ortográfico)

pacheco & moura

Uma das características mais extraordinárias das mentes brilhantes é a sua incrível elasticidade. De tal forma, que, em alguns casos, distendem-se tanto que chegam a atingir o extremo oposto – a mais pura estupidez. Nestes casos mantêm-se fechadas, incapazes de ver o mundo à sua volta, empedernidas numa ideia fixa que lhes tolda o mais elementar raciocínio. Há vários exemplos históricos deste fenómeno. Porém, não citarei qualquer deles, porque nenhum se compara aos casos paradigmáticos de Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura, ilustres intelectuais lusos, há anos em luta contra o Acordo Ortográfico de 1990.

Há poucos dias saíram mais duas pérolas destes vanguardistas do Desacordo – a primeira do Pacheco, no “Público”[1], depois a do Vasco, no “Diário de Notícias”[2].  É difícil comentar a crónica de Pacheco. A sua estratégia de dramatização atinge a histeria, com afirmações como: o acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da memória e da história (…) ninguém que saiba escrever em português o quer usar.

E eu pergunto: que argumento objetivo, claro, encerra a primeira frase, lançada para o ar com palavras sonantes, destinadas a impressionar os mais incautos? Estarei eu, neste momento, ao escrever este artigo, a destruir a memória e a história? E a segunda – é fruto da arrogância, do desespero, ou de ambos em simultâneo?

No seu desvario, Pacheco Pereira chega mesmo a incluir o AO na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps, e a escrever que a escrita viva se  recusa a usar o acordo e que este português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos sms, nem sequer serve para aquilo que as línguas de contacto servem, comunicar.

Esta, confesso, nem eu esperava do Pacheco. É bem provável, seguindo o seu “argumento”, que ninguém entenda o que estou aqui a escrever…

Além disto, o artigo replica o habitual chorrilho de mentiras ou deturpação dos factos que muitos inimigos (sim, a ferocidade é de inimigos e não de adversários) do Acordo Ortográfico usam, por exemplo, quando se diz que os portugueses são os aplicantes solitários da ortografia do acordo ou que este obriga a escrita dos outros países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e Coimbra. Ora, como se sabe, o AO não é aplicado apenas em Portugal e o mesmo foi discutido por representantes dos outros países lusófonos. Só assim, aliás, poderia ser um acordo.

Finalmente, PP remata o seu brilhante artigo manifestando horror pela palavra “aspeto”, dizendo que tem dificuldade em conceber que quem a escreve possa incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras.

Como se vê, nada preconceituoso…

Talvez o Pacheco não saiba, mas “aspeto” está mais próximo de “aspeito”, usado por Camões, no tempo em que a língua não tinha sido alvo ainda do fervor etimológico, tal como “respeito” e “leitor”, que escaparam até hoje das referências latinas “rescpectu” e “lector”, do que o “aspecto” dele. Nada de errado, portanto, a não ser o incómodo e a estranheza da mudança, algo que a maioria dos “desacordistas” considera intolerável.

(Esses incómodo e estranheza eram já bem conhecidos de Wittgenstein, que escreveu nas suas “Investigações Filosóficas”: Pensa no mal-estar que se sente quando a ortografia de uma palavra é alterada (…) Pensa que a imagem visual da palavra nos é, num grau semelhante, tão familiar como a auditiva.)[3].

Já o artigo de Vasco Graça Moura – esse todo-poderoso capataz daquele rancho onde estão inscritas, à entrada, as iniciais CCB – é sobre O ensino do português e o Acordo Ortográfico. A primeira parte é para saudar o novo programa de português do ensino secundário, aproveitando o ensejo, como não poderia deixar de ser, para atacar, na segunda parte, o Acordo Ortográfico. Mas não diz grande coisa. Limita-se a elogiar o artigo de Pacheco Pereira e a declarar, do alto da sua sapiência, que a crítica definitiva do Acordo Ortográfico, nos planos científico, jurídico, político e sociocultural, está feita há muito, pelo que nem sequer vale a pena retomá-la. Como se vê, uma frase bonita, ampla, grandiloquente, que parece dizer tudo, mas que, na realidade, diz nada.

A isto se resumem os artigos desses ilustres colunistas, ambos extremosos patriotas. Pena é que eles não apliquem a si próprios a máxima de Weber, a que Pacheco Pereira alude no seu artigo, defendendo que a mesma deveria ser inscrita a fogo (Pacheco é assim, não faz a coisa por menos) nas cabeças de todos os políticos: a maioria das suas acções[4] tem o resultado exactamente oposto às intenções…

É que a suposta defesa da Língua Portuguesa que eles advogam, em nome de um patriotismo balofo, seria, a concretizar-se, o princípio do fim do Português internacional que nós partilhamos hoje, sim, com o Acordo Ortográfico. Nós, os que acreditamos que o nosso espaço linguístico é muito mais vasto do que aquele que Pacheco Pereira designa no seu artigo por casa-mãe. O Português saiu de casa, constituiu família e emancipou-se. Chega a ser patético que Vasco e Pacheco não queiram aceitar isto.

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[1] http://www.publico.pt/cultura/noticia/acordo-ortografico-acabar-ja-com-este-erro-antes-que-fique-muito-caro-1620079.

[2] http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3644541.

[3] Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987, p. 295.

[4] Respeitou-se a grafia usada pelo autor, como é óbvio. E com isto reparo que num texto com quase novecentas palavras, apenas uma se escreve de forma diferente, usando a nova ortografia: ações. Até por aqui se vê como é absurdo o alarido criado pelos “desacordistas”.

Quiosque do Dodô, Tramandaí, RS, Brasil

IMG_4925Aqui deixo uma dica para os porto-alegrenses que vão passar o fim de semana a Tramandaí: o Quiosque do Dodô.

Entrando em Tramandaí [1], seguem como se fossem para Imbé e, na última rua antes da ponte que cruza o rio, viram à direita. Uns 300 metros depois, verão o restaurante. Recomendo-o por três razões fundamentais.

Primeiro, a tainha grelhada, deliciosa. Depois, o ambiente – a brisa que (quase) sempre corre, o rio Tramandaí, os abius mergulhando em busca de alimento, os pescadores, enfim, um lugar natural, sem sofisticação mas muito encanto. Por fim, a música de Jorge Pereira, o entertainer de serviço: bossa nova, bolero, pop – tudo com a suavidade que o ambiente requer, sem perturbar as aves do rio, os pescadores ou a tainha.

Recomendo vivamente. Podem dizer ao Joalmir que vão da minha parte.

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[1] A cidade do litoral mais perto de Porto Alegre.

Fundação Iberê Camargo

ibere camargo 011A Fundação Iberê Camargo situa-se na margem oriental do Guaíba, em Porto Alegre, num edifício projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza Vieira, premiado com O Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2002, referência arquitetónica da capital gaúcha.

Iberê Camargo (1914-1994) foi um ilustre artista plástico rio-grandense, nascido em Restinga Seca, que produziu mais de 7000 obras, entre desenhos, guaches, gravuras e pinturas, uma grande parte das quais faz hoje parte do acervo da fundação.

ibere camargo 010Camargo é um dos grandes nomes do panorama artístico do século XX brasileiro e, embora nunca se tenha filiado em quaisquer corrente ou movimento, exerceu forte influência no meio intelectual do seu país. Resistiu às correntes modernista e concretista, mantendo um estilo próprio,  mas sempre extremamente exigente consigo próprio. Para muitos, é o maior pintor brasileiro de todos os tempos.

Tal como Caravaggio (1571-1610) um assassínio marca a sua biografia. Matou um engenheiro, a tiro, alegadamente em legítima defesa, num dia em que saiu à rua para comprar postais de Natal.

O acervo da fundação é constituído por um núcleo documental e um núcleo com a coleção Maria Coussirat Camargo (esposa de Iberê), o qual inclui obras do pintor, acumuladas pelo casal ao longo dos anos.

Para lá das obras de Iberê, o espaço reúne também exposições temporárias. Até 4 de março de 2014 é possível visitar uma exposição denominada ZERO, a qual reúne obras de seguidores (de vários países) daquele movimento, fundado em 1958, pelos alemães Heinz Mack e Otto Piene [1].

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[1] Grande parte das informações aqui divulgadas consta de folhetos disponibilizados pela própria Fundação Iberê Camargo. 

Marcha de Alfama vai desfilar em Macau

marcha“A Marcha de Alfama vai participar na parada de celebração do Novo Ano chinês, em Macau, agendada para os dias 2 e 8 de fevereiro, anunciaram os serviços de turismo da Região Administrativa Especial chinesa.

O grupo português será o único ocidental a participar no evento, que contará ainda com a presença de sete grupos de animação asiáticos, provenientes, nomeadamente, da Coreia do Sul, Hong Kong, Indonésia, Japão, Malásia, Taiwan e Tibete, além de mais de 20 locais.

A população de Macau vai poder escolher, através de uma mensagem de telemóvel, o seu grupo favorito, que irá participar nas Marchas Populares de Lisboa.

A diretora dos Serviços de Turismo, Maria Helena de Senna Fernandes, disse, em conferência de imprensa, que o “evento deste ano, ‘Celebrar a Alegria e Abundância do Ano do Cavalo’ [um dos 12 signos do zodíaco chinês], será mais atraente do que o do ano passado”, dada a participação de grupos artísticos do exterior” [1].

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[1] Fonte: Jornal de Notícias. A foto é de Julio Pimentel (Global Imagens).

La Boca, Alfama e o Lunfardo

la bocaLa Boca é um bairro portenho [1], situado na antiga zona portuária, na margem direita do rio da Prata, onde nasceram dois grandes clubes argentinos, River Plate e Boca Juniors . Não vou alongar-me sobre a história deste típico bairro, até porque isso está disponível para consulta em muitos sítios da internet. Vou apenas mostrar as semelhanças, algumas delas muito curiosas, que o mesmo tem com Alfama.

1- Situam-se na margem (direita) de um rio.

2 – Estão na origem das cidades de que fazem parte, Buenos Aires e Lisboa.

3 – Têm em frente um mar que não é mar – mar da Prata [2] e mar da Palha.

4 – Desenvolveram-se a partir das atividades portuárias.

5 – São o coração de dois tipos de música, ambos Património Cultural Imaterial da Humanidade, assim classificados pela UNESCO – o tango e o fado.

6 – São bairros extremamente populares e a sua população é, em geral, pobre [3].

7 – Em La Boca usa-se uma interlíngua que se chama “lunfardo”, a qual se deve à passagem de marinheiros estrangeiros pelo bairro, sobretudo italianos, mas também portugueses. Muitos vocábulos dessa gíria são usados também em Alfama. Aqui ficam alguns exemplos que a maioria dos alfamenses certamente reconhecerá. “Guita” (dinheiro); “cana” (prisão); “canoas” (sapatos); “engrupir” (enganar); “fachada” (cara); “fanar” (roubar); “farra” (festa); “gagá” (debilitado mentalmente); “garfos” (dedos do carteirista); “lábia” (facilidade para dialogar); “mancar” (entender, compreender); “morfar” (comer); “palpitar” (imaginar); “tanga” (fraude, engano); “untar” (subornar); “zarpar” (ir-se rápido) [4] [5].

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[1] Relativo a Buenos Aires.

[2] O rio da Prata, dada a extensão do seu enorme estuário foi confundido com um mar. Daí terem-lhe chamado Mar da Prata. Ainda hoje há quem o chame assim.

[3] Como se pode ver pelo exemplo que mostramos na foto de La Boca (registada em 2009), muitas casas foram pintadas com cores vivas e variadas. Isto teve origem no aproveitamento dos restos das tintas usadas para pintar os navios, que os locais recolhiam para pintarem suas próprias casas.

[4] Existem até dicionários de Lunfardo, como pode ver-se pelo exemplo aqui:

http://www.elportaldeltango.com.ar/lunfardo/

[5] Já agora, fica também a referência a outro tipo de interlíngua que se fala na região – o “portunhol” (ou portanhol). Uma mistura, como a termo indica, de português com espanhol, falado sobretudo na zona da tríplice fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai (ver foto no artigo deste blog sobre as Cataratas do Iguaçu) e também na zona da fronteira sul do Brasil, entre o estado do Rio Grande do Sul e o Uruguai.

Colónia del Sacramento

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A Rua da Aurora.

O rio da Prata sempre foi uma via estratégica muito cobiçada por portugueses e espanhóis, os primeiros para exportarem os produtos agrícolas do Brasil e os segundos para escoarem as riquezas mineiras peruanas. Foi na sua margem esquerda, na confluência com o rio Uruguai, praticamente em frente à atual Buenos Aires, que os portugueses edificaram, em 1680, uma praça fortificada, a que chamaram Nova Colónia do Santíssimo Sacramento. O fundador foi Manuel Lobo, governador do Rio de Janeiro, a quem o rei de Portugal incumbira tal missão.

As disputas entre portugueses e espanhóis por aquele lugar, haveriam de durar quase 100 anos. Logo após a construção da fortaleza, uma força enviada pelo governador de Buenos Aires, composta por 300 soldados espanhóis e milhares de indígenas, provocou um massacre na reduzida guarnição lusa. Porém, em 1681, a diplomacia portuguesa, com ameaças de fortes represálias, impôs ao débil rei espanhol D. Carlos II, negociações que resultaram na devolução pacífica da cidade aos portugueses. Durante 24 anos, aquela praça permaneceu sob a bandeira de Portugal. Em 1704 ascendeu ao poder, em Espanha, Felipe V, que ordenou uma ação militar para desalojar os lusitanos, ação que viria a ser executada, mais uma vez, por uma força de Buenos Aires, comandada por Baltasar García Ross. Atacados por terra, os portugueses escaparam em embarcações que acorreram em seu auxílio [1] [2].

Em 1715, na sequência do Tratado de Utrech [3], Portugal obteve o direito à posse da cidade, comprometendo-se a não a expandir para lá da distância percorrida por uma bala de canhão. Apenas em 1777, com a assinatura do Tratado de San Ildefonso, terminaram as querelas entre Espanha e Portugal, e a cidade passou definitivamente para mãos espanholas.

O bairro histórico da cidade, ou seja, precisamente o antigo burgo fundado pelos portugueses, foi declarado Património Histórico da Humanidade pela UNESCO, em 1995. A cidade está bem preservada e é notória a presença portuguesa ali. No Museu do Azulejo existe um interessantíssimo espólio e em cada canto, mesmo nas pedras das calçadas, se respira Portugal. A nossa visita foi feita a partir de Buenos Aires, do outro lado do Prata, através de um catamaran que percorre os 50 kms de distância em cerca de uma hora.

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[1]http://mas-historia.blogspot.com.br/2011/07/fundacion-de-colonia-del-sacramento.html

[2] Ver também o artigo anterior deste blog, sobre São Miguel das Missões.

[3] “O mesmo agente inglês que negociou o acordo comercial de 1703 (John Methuen) também tratou das condições que garantiriam a Portugal uma sólida posição na conferência de Utrecht. Aí conseguiu o governo lusitano que a França renunciasse a quaisquer reclamações sobre a foz do Amazonas e a quaisquer direitos de navegação nesse rio. Igualmente nessa conferência Portugal conseguiu da Espanha o reconhecimento de seus direitos sobre Colónia do Sacramento. Ambos os acordos tiveram a garantia direta da Inglaterra.” in                                     https://ilovealfama.com/2013/02/08/formacao-economica-do-brasil/

São Miguel das Missões

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O que resta da igreja de São Miguel.

São Miguel das Missões, antigo povoado de São Miguel Arcanjo, integra-se no chamado território missionário, uma vasta zona que inclui parte dos atuais Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. As aldeias, fundadas pelos jesuítas espanhóis,  chamavam-se Reduções[1] e, das trinta que foram criadas, podemos encontrar sete no Brasil: São Miguel, Santo Ângelo, São Nicolau, São João Batista, São Lourenço, São Luís Gonzaga e São Francisco de Borja – os Sete Povos das Missões, situados na margem oriental do rio Uruguai.

O que ainda resta da Igreja de São Miguel, cuja construção se iniciou em 1735, bem como o Museu das Missões, erguido na área da antiga Redução, em 1940, estão classificados como Património Mundial, pela UNESCO, desde 1983. San Ignacio Miní, na Argentina, e Trinidad, no Paraguai, são outras Missões classificadas como Património Mundial. Todas elas se situavam, no início das construções, na província jesuítica do Paraguay, território pertencente à coroa espanhola. [2]

Apesar do abandono a que foi votada durante muitos anos e aos saques de que foram alvo as Missões no decorrer da Campanha Cisplatina, a Igreja de São Miguel é a única, das três classificadas como património mundial, que mantém a fachada completamente preservada. O projeto da igreja, em estilo barroco tardio, é atribuído ao arquiteto jesuíta Gian Battista Primoli e foi, provavelmente, inspirado na igreja central da Ordem dos Jesuítas, a Igreja de Gesú, em Roma.

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Onça pintada e coruja. Os índios ganham algum dinheiro vendendo artesanato aos poucos turistas que visitam São Miguel das Missões.

No museu podemos encontrar esculturas, a maioria em madeira, reunidas pelo seu primeiro zelador, Hugo Machado, que muitas vezes se apresentou como beato, para as conseguir recolher das mãos de particulares, constituindo, este conjunto, a maior coleção pública missioneira. Há obras de escultores europeus, mas a maior parte foi executada pelos índios guarani, como se pode comprovar pelos traços dos rostos, pelos detalhes dos cabelos, pelas vestes, etc. [3]

Ainda hoje os guarani continuam esculpindo a madeira, como tivemos oportunidade de comprovar, em toda a região. A uma linda menina guarani compramos, em São Miguel da Missões, duas miniaturas – uma de onça pintada e outra de coruja.

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[1] Reduções, precisamente, por reduzirem o espaço de circulação dos índios ao território da Missão.

[2] Só em 1801 os sete Povos das Missões foram conquistados pelos luso-brasileiros e, desde então, fazem parte do Rio Grande do Sul. Os territórios da América do Sul foram sempre muito disputados pelas coroas portuguesa e espanhola e, em 1750, através do Tratado de Madrid, ficaram quase completamente definidas as fronteiras atuais do Brasil, com grande vantagem para os luso-brasileiros, que perdiam Colónia del Sacramento, no atual Uruguai, cidade fundada pelos portugueses, em1680, na margem esquerda do Rio da Prata, mas ganhavam os sete Povos das Missões e, no fundo, todo o Rio Grande do Sul, todo o atual estado se Santa Catarina e ainda a Amazónia e mais alguns territórios que estavam na parte espanhola definida pelo Tratado de Tordesilhas, revogado pelo Tratado de Madrid. O rio Uruguai seria a fronteira entre Brasil e Argentina.Tratado tão desvantajoso não foi bem aceite pelos espanhóis e novos tratados foram firmados. Em 1761, o Tratado de El Pardo, que estipulava o regresso à situação anterior a 1750, e, em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso onde foram criados os “campos neutrais”, faixa de terra onde nenhum dos impérios teria jurisdição. Era esta a situação dos sete Povos das Missões, território neutro, em 1801, quando os luso-brasileiros, a pretexto da guerra que a Espanha declarou a Portugal, por pressão dos franceses (invasões napoleónicas da Península Ibérica), decidiram conquistá-los.  José Borges do Canto, filho de pai açoriano e mãe de Colónia del Sacramento, e Gabriel Ribeiro de Almeida, filho de português e índia, que viviam na zona, falavam o idioma guarani e conheciam bem os índios, foram os homens a quem geralmente é atribuída a conquista das Missões, para o que contaram com a colaboração de um pouco número de homens e dos próprios índios guarani. Tratou-se, portanto, de uma conquista local. Sobre estes episódios pode ler-se o excelente texto de Elisa Frühauf Garcia, aqui:

[3] Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Brasil).

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