Termina hoje o segundo e último mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República de Portugal. Depois de 60 anos intervindo na vida pública, Marcelo promete remeter-se ao silêncio no que toca à ação política, algo que contraria tudo o que fez até agora.
Eu costumava detestar Marcelo. Assistia aos seus comentários políticos, aos domingos na TVI, da mesma forma que vejo hoje Agostinho Costa, Tiago André Lopes ou Carlos Branco — simplesmente para discordar de quase tudo.
No entanto, paulatinamente, comecei a gostar de Marcelo. O período de viragem definitiva foi durante o ano de 2017, em junho e outubro, quando fogos florestais devastaram áreas enormes do nosso território, provocando centenas de vítimas mortais. Os sobreviventes de familiares mortos, de bens perdidos e de traumas difíceis de avaliar, precisaram de ajuda imediata, ainda que simbólica, de alguém que pudesse confortá-los. O Presidente assumiu exemplarmente esse papel, ao contrário de muitos outros, nomeadamente o então primeiro-ministro, António Costa. O contraste foi chocante e difícil de esquecer.
Não mais esqueci essa comunhão indesmentível de Marcelo com o povo, que continuou até hoje. Entretanto surgiu o chamado “caso das gémeas”, um duro golpe, notório e indisfarçável, ultrapassado com dificuldade, e Marcelo ficou claramente abalado. Foi uma lição para ele, tal como, com ele, eu aprendi várias lições. Somos seres multifacetados, imperfeitos e falíveis, sempre; mas podemos mudar e melhorar se tivermos a humildade genuína dos corações generosos e solidários — como mostrou Marcelo. E isso, seja no Presidente ou no mais humilde cidadão, é, sem dúvida, o mais importante.
Trump e Putin são dois ditadores, amigos de conveniência, que não hesitam em derrubar chefes de estado de outros países para ampliarem o seu poder. Mas enquanto Trump acaba de fazê-lo cirurgicamente na Venezuela, sem a perda de um único soldado americano, Putin está a tentá-lo há quatro anos na Ucrânia, à custa de centenas de milhares de baixas russas (há quem fale em mais de um milhão) sem obter o resultado pretendido.
E porque Putin sacrifica estupidamente a vida de tantos jovens compatriotas (uma geração inteira) e Trump não?
Por três razões fundamentais.
Em primeiro lugar, porque pode. A Rússia é uma sociedade intoxicada, sem liberdade, onde somente a narrativa oficial conta, enquanto a América, apesar de Trump, ainda tem meios de comunicação livres.
Em segundo lugar, porque em termos económicos e tecnológicos, logo militares, a Rússia está a anos-luz dos Estados Unidos.
Em terceiro lugar, porque Putin já demonstrou que é um assassino para quem a vida humana não tem qualquer valor (ele vem da tradição em que “uma morte é uma tragédia, um milhão é uma estatística”), enquanto Trump, neste campo, é ainda um aprendiz.
Não se pode dizer que tenha sido uma notícia inesperada, mas depois de a conhecermos, o impacto não deixa de ser enorme, pois a figura era eminente também. Claro que há papas de todos os estilos, mas o de Francisco era deveras cativante, com o seu apego sincero, notório, visceral mesmo, aos marginalizados e desafortunados deste mundo — vítimas das pobreza, doença, guerra e violência de todos os tipos, incluindo os abusados sexualmente dentro da própria Igreja.
Guerra e violência de que fogem muitos dos migrantes que chegam às praias da Europa e à fronteira entre o México e os Estados Unidos, em busca de uma vida melhor, tantas vezes com risco da própria vida. Francisco, descendente de migrantes italianos que escaparam a um naufrágio, tinha pelos migrantes um carinho muito especial. Foi por isso que se deslocou, logo no início do seu pontificado, à minúscula ilha mediterrânica de Lampedusa, em cujas águas pereceram tantos seres humanos, para “despertar as nossas consciências e apelar às nossas responsabilidades”, tal como escreve na sua autobiografia. Para ele, “emigração e guerra são duas faces da mesma moeda.”
Depois, deslocar-se-ia ainda três vezes à ilha grega de Lesbos, de onde recolheu dezenas de migrantes traumatizados pela violência da guerra, incluindo famílias inteiras que trouxe consigo para Roma.
Francisco foi um defensor intransigente da paz. A sua visão da religião era diversa da de tantos líderes religiosos que ainda hoje advogam a guerra, tal como alguns líderes católicos o fizeram em tempos. Francisco pediu várias vezes perdão pelos pecados da Igreja. Esse reconhecimento foi importante, tal como o foi o seu ecumenismo, pois só com o exemplo da tolerância poderemos aspirar a que outros se tornem também tolerantes.
Alguns filósofos, como Immanuel Kant ou Karl Popper, acreditavam que a razão é a única via possível para alcançar a paz. Eles sabiam que o fervor religioso poderia facilmente transformar o amor universal em ódio aos não crentes. (Uma vez que o nosso deus nos seja revelado, é difícil aceitar que outros não o vejam). Mas Francisco provou, com o seu exemplo, que coração e razão podem coexistir harmoniosamente. A razão leva-nos a pensar, planear e sonhar, mas é o coração que nos impele a agir.
Morreu Mário Vargas Llosa, um escritor com uma clara faceta política, à semelhança de alguns colegas de profissão, seus contemporâneos, como García Márquez ou José Saramago. Não lemos muitos livros de Llosa (a lista pode ser consultada aqui), mas os que lemos são suficientes para percebermos que em todos eles, de ficção ou não-ficção, há uma defesa intransigente da liberdade. É isso que o distingue, por exemplo, de José Saramago, escritor que, do ponto de vista político, está nos antípodas de Llosa.
Estivemos há poucos meses na casa-museu José Saramago, em Lanzarote, e foi bastante interessante a visita (relatada aqui), inclusive por termos ficado a saber que, já perto do final da sua existência, Saramago recebeu, naquela bela moradia, Vargas Llosa. Não sabemos sobre o que conversaram. Mas sabemos que ambos os autores, sobretudo após receberem os respetivos prémios Nobel, percorreram o mundo dando entrevistas e conferências. Essas intervenções tinham um forte pendor político, e, sobretudo através delas, ambos se consolidaram como famosos ativistas políticos.
Dado que José Saramago era um típico pensador comunista, há uma tendência, nos seus apoiantes, de empurrar Llosa para a direita (ou mesmo para a extrema-direita), mas a verdade é que Vargas Llosa era um liberal clássico, inspirado em autores como Karl Popper, Isaiah Berlin ou Raymond Aron, amiudamente citados nas suas intervenções (por exemplo, aqui). Como temos dito, a liberdade não é de esquerda nem de direita — é a condição para que existam todas as gradações de direita e esquerda, inclusive aquelas que ameaçam a própria liberdade.
Liberdade nas suas mais variadas facetas: liberdade de expressão, liberdade de comércio, liberdade económica, liberdade de associação, reunião e manifestação, liberdade contratual, liberdade religiosa e, sobretudo, liberdade individual — a liberdade de cada um fazer da sua vida aquilo que lhe aprouver. É isto que é o liberalismo clássico, defendido por Mario Vargas Llosa: a emancipação do indivíduo relativamente a todas as formas de abuso do poder.
Desde que começou a Guerra da Ucrânia, em fevereiro de 2022, passámos a conhecer uma série de comentadores e comentadoras, supostamente especialistas em relações internacionais, geopolítica, conflitos bélicos e indústrias de defesa. E se há coisa que esta guerra veio confirmar, é que mesmo os especialistas — talvez até sobretudo estes — não estão imunes aos preconceitos e às crenças em que estão imbuídos.
A CNN é a estação televisiva onde aparecem os mais acérrimos especialistas ideologicamente pró-russos. Dois deles, o major-general Agostinho Costa e o major-general Carlos Branco, são-no inequivocamente: Agostinho Costa antevê o colapso ucraniano em cada comentário e Carlos Branco aponta frequentemente a suposta intervenção americana na Ucrânia como a causa principal da invasão russa.
Mas há um terceiro comentador que não é tão explicitamente pró-russo quanto os acima referidos — embora acene afirmativamente a cabeça quando Agostinho Costa intervem e negativamente quando o comentário é de alguém pró-ocidental. Esse comentador, sobre quem recaiu uma notícia recente e pouco abonatória de um conhecido diário nacional (aqui), é o menino Toneca.
Toneca, que usa um anel proeminente numa das mãos papudas, gosta de puxar dos galões de historiador e professor universitário, não hesitando nos argumentos de autoridade, enquanto pontapeia sem piedade a gramática e a postura dos estadistas europeus, que, em sua opinião, não consideram devidamente a representatividade dos partidos populistas que se opõem ao apoio à Ucrânia.
Quando Zelensky foi atacado na sala oval, o menino Toneca disse que Trump tinha uma personalidade fleumática, não sendo, por isso, conveniente, para Zelensky, irritá-lo. Não surpreende que alguém que diz “deiam” e “intervido” se confunda com o significado de “fleumático”. Bem como não nos deve surpreender o apoio, quando não a admiração, que algumas pessoas nutrem por personagens deste calibre. O mundo está a passar por uma daquelas fases disruptivas onde vale tudo, desde as mentiras descaradas até as posições relativistas típicas dos radicais envergonhados, ou seja, dos sonsos. Entre estes, destaca-se, domesticamente, o menino Toneca.
É o pai da geologia em Portugal, uma ciência não muito popular, mas um ramo do saber abrangente, em que os estudiosos mais competentes necessitam de substanciais noções de física, química e biologia entre outras disciplinas. Galopim de Carvalho é um desses geólogos, professor jubilado, que mantém ainda hoje, aos 93 anos, a curiosidade da juventude. E é essa curiosidade e esse gosto pela aprendizagem que procurava transmitir aos seus alunos e agora transmite aos seus leitores — sejam aqueles que leem os seus livros ou os que o seguem no facebook (espaço que usa também para apresentar receitas de pratos típicos do seu Alentejo natal). A curiosidade é o motor do conhecimento, e Galopim é um eterno curioso.
O livro que melhor caracteriza a faceta didática de Galopim de Carvalho talvez seja Como Bola Colorida, cujo título foi adotado de um célebre poema do, igualmente cientista, Rómulo de Carvalho, conhecido pelo pseudónimo de António Gedeão, a quem Galopim dedica o livro. Trata-se de uma obra para um público alargado: para os curiosos, em geral, mas também para os estudantes e professores de biologia, em particular.
Inicialmente publicado em 2007 (houve uma edição posterior, em 2024), o livro contempla resumidamente todas as áreas da geologia, sendo por isso bastante abrangente. O leitor curioso não vai lembrar-se de todos os inúmeros vocábulos que identificam minerais, pedras preciosas e semi-preciosas quando terminar o livro. Mas vai ficar a conhecer quase tudo sobre a Terra: como se formou, de que partes é constituída (como um cereja), porque os continentes se movem e existem montanhas e abismos, como se formam as rochas magmáticas, sedimentares e metamórficas, de que são constituídos os solos, e muito mais.
É tudo uma questão de tempo, muito tempo. Pouco se consegue ver à escala humana, porque o tempo geológico mede-se em milhões, centenas de milhões, milhares de milhões de anos.
António Galopim de Carvalho defende que se deve atribuir uma maior importância à disciplina de Geologia no ensino básico e no secundário. Deveriam ouvi-lo. Ele é um ilustre cidadão do mundo, e o brilho do seu olhar é o mesmo do da criança que brinca dentro dele com uma bola colorida.
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A nossa edição:
A. M. Galopim de Carvalho, Como Bola Colorida, Âncora, Lisboa, 2024.
Inicia-se hoje mais um mandato de Donald Trump. Por razões várias e evidentes, este simples facto constitui uma desgraça para o mundo e questionamo-nos sobre quantos, dos milhões que elegeram o novo presidente americano, terão alguma vez consciência disto. No entanto, há razões para admitir que não é apenas o mundo, mas também a velhinha democracia americana que corre sérios riscos. É apenas sobre esta que nos vamos debruçar neste pequeno artigo.
A liberdade (como fim) e a democracia (como meio) nunca estão garantidas. A democracia é caracterizada pela separação de poderes, pela diluição do poder entre o maior número de mãos possível, mas é precisamente o contrário disto que agora acontece na América, com a tomada de posse de Trump. O perigo para as democracia e liberdade advém de resultados eleitorais que concentraram o poder no Partido Republicano e no seu chefe, que dominam as principais instituições democráticas: Presidência, Senado, Câmara dos Representantes e, indiretamente, o Supremo Tribunal Federal.
O maior perigo vem, precisamente, do mais alto tribunal do país. Tribunais superiores independentes são vitais para as democracias liberais, garantindo os direitos das minorias e o funcionamento dos mecanismos democráticos. É por isso que os juízes dos tribunais supremos não deveriam ser nomeados e confirmados por políticos, como acontece nos Estados Unidos, no Brasil e, embora de uma forma diferente, em Portugal; deveriam, antes, ser propostos por corpos profissionais do sistema judicial e da sociedade civil, como acontece, por exemplo, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega, na Nova Zelândia ou no Reino Unido, entre outros, onde são dadas mais fortes garantias da sua independência.
Os tribunais são o último reduto da democracia, e a sua autonomia não pode ser desvalorizada. Um supremo tribunal independente teria colocado Donald Trump na prisão; um tribunal politizado colocou Trump no poder. A velhinha democracia americana corre risco de morte.
Gubad Ibadoghlu nasceu em 1971, no distrito de Fuzuli, na República Socialista Soviética do Azerbaijão. No ano 2000 concluiu o doutoramento em Economia, na Universidade Estatal do Azerbaijão. Trabalhou como investigador na Escola Superior de Economia de Varsóvia (1999), na Universidade da Europa Central, em Budapeste (2004), e na Universidade da Carolina do Norte (2008), além de ter colaborado com outras prestigiadas instituições académicas mundiais. É, desde 2021, pesquisador da London School of Economics. Em 2023, deveria tornar-se professor da Universidade de Tecnologia de Dresden, mas não conseguiu assumir o cargo, porque foi preso neste mesmo ano, no dia 23 de julho.
O Dr. Ibadoghlu já não vivia no Azerbaijão, mas nesse dia viajava de carro, clandestinamente, na companhia da mulher, para visitar a mãe doente. Foi detetado e perseguido pelas autoridades do regime, que o seguiam em vários carros, e acabaram abalroando a sua viatura pela retaguarda e pela frente. Foi detido, juntamente com a mulher, e ambos foram agredidos. A mulher foi libertada pouco depois, mas Gubad Ibadoghlu ficou preso até hoje, primeiro num centro de detenção, e depois numa residência domiciliar.
A perseguição a Ibadoghlu foi uma reação das autoridades à sua luta contra a corrupção, consubstanciada em vários artigos que escreveu e em várias organizações políticas e sociais que fundou. Em diversas ocasiões, ele denunciou esquemas que implicavam diretamente o presidente, dando exemplos de eventos internacionais, como é o caso do Grande Prémio de Fórmula 1, organizado por empresas detidas por familiares ou amigos de Aliyev. Denunciou, igualmente, a corrupção associada à exploração de gás e petróleo, cujas receitas, ou parte delas, revertem sem qualquer controlo, mais uma vez, para o presidente e indivíduos do seu círculo próximo; e mostrou como elementos dentro desse círculo e o próprio Aliyev, através de algumas empresas, se apropriaram das terras mais férteis conquistadas na segunda guerra com a Arménia, na região do Alto Karabakh.
Em 2014, Ibadoghlu criou o Movimento para a Democracia e Prosperidade do Azerbaijão, cujo registo nunca foi aceite pelas autoridades, não podendo, por isso, transformar-se num partido político e, em 2023, um mês antes da sua detenção, criou no Reino Unido uma instituição de caridade para ajudar jovens estudantes do Azerbaijão no exterior.
Gubad Ibadoghlu tem graves problemas de saúde, mas as autoridades têm-lhe negado os tratamentos médicos adequados, apesar dos apelos de vários governos e ONGs. A sua luta pela liberdade e contra a corrupção tem tido custos muito elevados não só para ele, como para a sua família. É a personalidade que destacamos — sabendo que a nossa escolha poderia recair sobre outras que continuam a sacrificar-se pelo amor à liberdade — no final deste ano de 2024.
Passam hoje 122 anos sobre o nascimento de Karl Raimund Popper, na Viena do início do século XX, em 1902. Popper viveu, por isso, tempos conturbados, tendo sobrevivido a duas guerras mundiais, que inevitavelmente influenciaram o seu pensamento. Este filósofo vienense foi um “revolucionário” das ideias e pode dizer-se, tomando de empréstimo as palavras de Bryan Magee, que a filosofia de Popper é uma “filosofia de ação” — daí que muitos a tenham aproveitado para as suas atividades profissionais. Magee, na biografia que escreveu sobre Popper, em 1973, cita políticos, artistas e cientistas (incluindo vários prémios Nobel) que afirmaram ter transformado as suas vidas profissionais e pessoais graças ao pensamento de Karl Popper1.
No meio século posterior à publicação do livro de Magee, ou seja, desde 1973 até hoje, multiplicam-se os que, de alguma forma, passaram a ver o mundo de forma diferente, após lerem e estudarem a obra do maior filósofo da ciência do século XX. Popper põe quase tudo aquilo que julgamos conhecer de pernas para o ar e ajuda-nos a ver a realidade por uma perspectiva completamente diferente. Ele aborda criticamente as ideias de Platão, Hegel, Marx, Freud, Wittgenstein, Heidegger, Chomsky (só para citar os mais famosos), que tantos consideram monstros sagrados da cultura ocidental, e desconstrói, quando não desmascara, as respetivas doutrinas. E um campo vastíssimo, que vai desde a epistemologia à política, passando pela teoria da evolução e a ética, foi reconstruído por Popper.
(A grande filosofia começa, de facto, pela demolição de castelos).
Comecemos pela epistemologia. Neste campo, Karl Popper resolveu dois problemas. O primeiro, fruto do seu encontro com o marxismo, foi o de estabelecer um claro critério de demarcação entre ciência e pseudociência: uma teoria que não seja passível de ser testada ou refutada não pode ser considerada científica; o segundo foi o problema da indução: não se pode construir uma teoria a partir de observações, não importa em que número, pois há sempre a possibilidade de uma última observação invalidá-la.
Kant já havia mostrado que o conhecimento não começa nos sentidos, mas sim no nosso intelecto (que Kant chama de entendimento), sendo independente daqueles, ou seja, a priori, mas Popper vai mais longe nas consequências: não é possível ter a certeza de que uma teoria é verdadeira, mas é sempre possível que a mesma seja falsa. Os cientistas devem, portanto, tentar falsificar as teorias em presença (daí o método popperiano ser conhecido por falsificasionismo), incluindo as próprias, para desenvolverem outras que melhor correspondam aos factos e possam, assim, ser consideradas provisoriamente verdadeiras. Desta forma se constrói o edifício científico e nos aproximamos da verdade — com a consciência de que nunca podemos ter a certeza de a encontrarmos. Por outras palavras, todo o conhecimento é conjetural.2 O matemático e cosmólogo Sir Hermann Bondi afirmou: nada mais há para a ciência do que o seu método, e nada mais há para o seu método do que o que foi dito por Popper.3
Já no que toca à teoria da evolução, Karl Popper inverte o papel tradicionalmente atribuído aos organismos, na sua relação com o ambiente. Segundo ele, os seres vivos não têm apenas uma capacidade de adaptação, não são seres passivos, pelo contrário, procuram ativamente novos nichos ecológicos, tentando e errando, sempre em busca de melhorarem a sua situação. A própria vida pode ter nascido após milénios de tentativas e erros, até ao aparecimento das primeiras células. Todos os organismos, “desde a amiba a Einstein”, procuram constantemente melhores condições de vida, explorando e transformando o meio ambiente. Os organismos vivos são seres que criam expectativas, capacitados com conhecimento inato por forma a resolverem problemas ambientais diversos. O pica-pau criou o seu bico forte na busca por uma nova fonte de alimento. E todos os organismos exploram o ambiente na busca de um mundo melhor: as formigas constroem formigueiros, os macacos usam pedras como ferramentas, os castores constroem barragens, os seres humanos saem de África para explorar o mundo. A vida toma decisões ousadas e faz escolhas criativas.
Paul Nurse, geneticista e biólogo celular britânico, vencedor do Nobel da Medicina, corrobora no livro O que é a Vida? a visão de Popper: A vida está constantemente a fazer experiências, a inovar e a adaptar-se à medida que vai mudando o mundo e o mundo muda à sua volta.4 Também Ray Noble, que escreveu, em parceira com seu irmão Denis Noble, Understanding Living Systems, publicado em 2023, considera que este livro, escrito a duas mãos, foi fortemente influenciado por Popper.5
Os organismos mais avançados na busca por um mundo melhor são os seres humanos modernos, e isto deve-se à sua linguagem específica. (Os outros seres vivos também têm linguagem, mas não aos níveis descritivo e argumentativo, exclusivo dos humanos). É a linguagem própria do sapiens que permite a criação de uma cultura particular— a religião, a arte, a filosofia e, sobretudo, a ciência — a que Popper apelidou de mundo 3. Isto conduz-nos diretamente aos três mundos de Popper. O mundo 1 é constituído pela totalidade das coisas físicas, vivas ou inanimadas, tudo o que existe, toda a matéria; o mundo 2 é o das consciências humanas individuais, o mundo da subjetividade, do pensamento, da argumentação — através do qual fazemos a ligação, nos dois sentidos, entre o mundo físico (1) e o mundo da cultura (3); e o mundo 3 é o das produções humanas, da ciência, das obras de arte e de engenharia, das ideias registadas em livros, artigos e textos filosóficos. Através do mundo 3, nós transformamos constantemente o mundo 1. Então, qual a consequência do desenvolvimento da linguagem humana e da criação do mundo 3, o mundo da cultura e da ciência? A principal consequência, em termos evolutivos, é a de que os seres que não desenvolveram a linguagem da ciência precisam arriscar as próprias vidas na sua busca por um mundo melhor; em contrapartida, nós podemos testar o mundo com as nossas teorias científicas, e deixá-las morrer por nós. A teoria da evolução de Popper está, assim, estritamente ligada à sua epistemologia.6
Já no que concerne à filosofia política, Karl Popper é o filósofo da liberdade, considerada o mais importante valor social. Popper enfatiza isso mesmo numa passagem da sua autobiografia:
Continuei a ser socialista durante vários anos, mesmo depois da minha rejeição do marxismo; e se pudesse haver um socialismo combinado com a liberdade individual, ainda seria socialista. Porque nada poderia ser melhor do que viver uma vida modesta, simples e livre numa sociedade igualitária. Levou-me algum tempo a reconhecer isto como não sendo mais do que um lindo sonho, a reconhecer que a tentativa para realizar a igualdade põe em perigo a liberdade e que, se a liberdade se perde, nem sequer entre os não livres haverá igualdade.7
Porém, a liberdade só é possível se formos capazes de impor limites ao poder. Uma sociedade saudável deve ter ao seu alcance meios pacíficos para destituir os governantes que querem abusar do poder. É por isso que Popper considera perigoso e infrutífero concentrarmo-nos sobre quem deve governar — questão central para os filósofos sociais, desde Platão a Marx — e defende que devemos antes interrogar-nos sobre qual o sistema político que devemos construir para garantir que poderemos ver-nos livres dos governantes que querem perpetuar-se no poder. A questão tradicional quem deve governar? deu origem a ideologias radicais e à violência, a questão defendida por Popper, de que forma podemos livrar-nos dos governos indesejáveis sem derramamento de sangue?, está na base da democracia liberal e do estado de direito democrático, com a sua tradicional separação de poderes. De facto, não basta ter um sistema em que governe quem foi votado pela maioria, é sobretudo indispensável que os governantes estejam limitados por regras que evitem uma ditadura.
A este propósito, o físico quântico David Deutsch escreveu em O Iníciodo Infinito:
Popper aplica o seu princípio básico “como podemos detectar e eliminar o erro?” à filosofia política sob a forma de “como podemos livrar-nos dos maus governos sem violência?” Da mesma forma que a ciência busca explicações experimentalmente verificáveis, um sistema político racional facilita o mais possível a detecção de um mau líder ou política, e a persuasão de outros de que é esse o caso, e a sua remoção sem violência. Tal como as instituições científicas estão estruturadas de forma a evitar consolidar teorias, mas antes expô-las à crítica e à verificação, também as instituições políticas não deveriam dificultar a oposição pacífica aos governantes e às medidas políticas, personificando antes uma tradição de discussão pacífica e crítica destes e das próprias instituições, e de tudo o resto. Assim, os sistemas de governo devem ser julgados não pela sua capacidade profética de escolher e instalar bons líderes e políticas, mas pela sua capacidade de remover maus líderes já instalados.8
Assim, só a democracia liberal garante a possibilidade de nos vermos livres dos governantes nefastos. E também só ela nos garante a liberdade, a limitação da violência e a esperança da paz. Se a liberdade não fosse o valor mais alto, os tiranos deste mundo não se uniriam contra ela, como sempre acontece. Independentemente dos posicionamentos ideológicos, os ditadores de todos os continentes, sejam de esquerda ou direita, unem-se em torno do companheiro Putin, pois acima das posições ideológicas relativas, está o ódio absoluto ao mundo livre. Popper considerava que a oposição dos liberais ocidentais aos totalitarismos nazi e estalinista do século XX era a continuação da luta travada pela democracia ateniense contra a tirania espartana, na Grécia Antiga. Pois bem, essa luta continua hoje entre extremistas que apoiam ditadores e os democratas que resistem. A mesma luta milenar: opressão versus liberdade.
Mas, independentemente do ramo da filosofia de Karl Popper que abordemos, há que compreender a raíz do seu pensamento filosófico. Mariano Artigas, que foi professor de filosofia na Universidade de Navarra, em Espanha, expôs o caráter humanitário do sistema popperiano — num excelente artigo (aqui), que intitulou, precisamente, As Raízes Éticas da Epistemologia de Karl Popper — raízes fundadas na luta contra a violência. Popper sublinha a urgência de anularmos ou diminuirmos drasticamente o sofrimento evitável causado pelas ideologias utópicas, os nacionalismos, a cultura romântica, o culto do herói, a pseudociência, as profecias históricas, as religiões intolerantes. Escreve Artigas:
Devemos ler Popper e interpretar os seus argumentos à luz de valores éticos, nomeadamente do seu compromisso com a dignidade humana, a liberdade, a razão e a verdade. Caso contrário, corremos o risco de não o compreendermos.9
Karl Popper não gostava de modas e não surpreende que, no mundo cada vez mais polarizado de hoje, ele esteja fora de moda, como, aliás, sempre esteve. Não sabia prever o futuro, falava e escrevia de forma clara e simples, e detestava definições. Era avesso à arrogância intelectual. O seu lema era: posso estarenganado e tu certo, mas, pelo esforço, podemos aproximar-nos daverdade.10 Considerava, ainda, que vivemos no melhor mundo de sempre — o que, de resto, corresponde aos factos11 — pelo que era considerado um otimista ou, como sinteticamente o descreveu Micchelle-Irène Brudny, um filósofo feliz.12
Convenhamos que isto não é empolgante para a maioria. Como é que um filósofo não tem uma ideia sobre o futuro? Bom, para Popper o futuro é aberto, depende de múltiplos fatores imponderáveis, e os profetas de todos os quadrantes, utópicos ou distópicos, são charlatães. A prioridade da nossa ação deve centrar-se no mundo presente, no sofrimento que nele existe, e não num qualquer futuro utópico: é nosso dever lutar pela diminuição drástica da violência e do sofrimento a ela associado. Não permitais que os vossos sonhos de um mundo maravilhoso vos alheiem das reivindicações dos homens que vivem aqui e agora13— eis o ponto de partida do pensamento político de Karl Popper.
— Popper, Karl, Pós-Escrito à Lógica da Descoberta Científica, vol. I, O Realismo e o Objectivo da Ciência, Dom Quixote, Lisboa, 1987 (ed. orig. 1956).
3 Magee, Brian, ob. cit.
4 Nurse, Paul, O que é a Vida? Editora Vogais, Amadora, 2021 (ed. orig. 2020), p. 46.
5 Noble, Raymond & Noble, Denis, Understanding Living Systems, University Press, Cambrigde, 2023.
6 Popper, Karl, Pós-Escrito à Lógica da Descoberta Científica, vol. II, O Universo Aberto, Dom Quixote, Lisboa, 1988 (ed. orig. 1956).
— Popper, Karl, Um Mundo de Propensões, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1991.
— Popper, Karl, A Vida é Aprendizagem, Edições 70, Lisboa, 2001 (ed. orig. 1999).
7 Popper, Karl, Busca Inacabada — Autobiografia Intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008, p. 57.
— Popper, Karl, Unended Quest — An Intellectual Autobiography, Open Court, Illinois, 1976, p. 36.
— Popper, Karl, In Search of a Better World — Lectures and Essays From Thirty Years, Routledge, London, 1994.
8 Deutsch, David, O Início do Infinito, Gradiva, Lisboa, 2013 (ed. orig. 2011), pp. 310-11.
Vi-o e ouvi-o várias vezes ao vivo, a primeira das quais no início dos anos 80, na Amadora, e a última no CCB, em outubro de 2018, quando já se lhe notava alguma debilidade. Em 1982, assisti, na companhia do meu querido amigo Branquinho, à peça “Fernão Mentes?”, encenada por Hélder Costa e interpretada pela companhia de teatro “A Barraca”, a qual incluía várias canções do então futuro álbum “Por Este Rio Acima”, baseado, tal como a peça, na obra de Fernão Mendes Pinto, “Peregrinação”.
Nesses anos 70 e 80, eu e alguns amigos muitas vezes cantámos as músicas de Fausto em autocarros, barcos, comboios, nas nossas viagens de fim de semana, divertindo uns e incomodando outros, fazendo jus à nossa juventude irreverente, quando a viola era uma arma que podia ferir tímpanos, mas não matava ninguém. Por todos esses anos e pelos que se seguiram continuei a ouvir Fausto. A canção “O Barco Vai de Saída” foi adotada como uma espécie de hino de Alfama, que cantávamos com vigor e calor sempre que a oportunidade surgia, geralmente em jantaradas no interior do bairro, mas também fora dele.
As letras de Fausto são fabulosas — um facto nem sempre notado. As composições, por seu turno, têm a sua marca indelével: ritmos bem sincopados, com notórias influências da música tradicional portuguesa, um extenso leque de instrumentos de percussão do folclore tradicional, arranjos requintados, interpretações rigorosas, técnica apurada e um timbre de voz único.
Sói dizer-se que os grandes artistas não morrem, mas Fausto Bordalo Dias morreu hoje, aos 75 anos. Vivos continuam os que podem apreciar as suas letras, a sua música e o seu génio.