“Acossado”, pode ser uma das palavras mais adequadas para caracterizar a situação em que se encontra Volodymyr Zelensky desde 24 de fevereiro de 2022. Tendo como principal objetivo do seu mandato, iniciado em maio de 2019, acabar com a guerra no Leste da Ucrânia, viu o seu país ser invadido pelos exércitos de um dos maiores assassinos da Europa pós-Hitler, Vladimir Putin. Como toda a gente sabe, Zelensky teve oportunidade de se pôr a salvo, mas manteve-se no seu posto, sabendo de antemão que procurariam eliminá-lo.
De então para cá, a ação de Zelensky desenrola-se entre dilemas terríveis. Precisa de pedir constantemente ajuda externa, que é sempre pouca, mas não pode exigi-la, sob pena de ser considerado ingrato, arrogante ou irrealista (apesar de os ucranianos estarem a dar a vida não apenas pela integridade e sobrevivência do seu país, mas também pela integridade europeia, pela sobrevivência dos valores de uma Europa livre); tem uma necessidade imperiosa de reconquistar território, mas não pode fazê-lo a todo o custo porque, para ele, — ao contrário do que acontece com o facínora do outro lado — a vida humana é valiosa; sente a dor de cada soldado morto, mas precisa a todo o transe de novos combatentes, sabendo que muitos deles morrerão; tem de manter e melhorar o sistema democrático em funcionamento, combater a corrupção interna, mas não pode desviar a atenção da frente de batalha e da estratégia de guerra; tem que levantar a moral dos combatentes e do povo e não permitir que se instale a descrença e a depressão, o que se torna cada vez mais difícil à medida que a guerra avança e o apoio ocidental tarda, sempre tarda.
Muitos consideram ridículo comparar Zelensky com Churchill; ironizam e desacreditam-no por ser um mero comediante; acusam-no de ser corrupto. Estes são na sua maioria esmagadora extremistas de esquerda ou de direita para quem a Liberdade é relativa. Mas Zelensky tem feito tudo o que é preciso e já provou ser um estadista. A sua luta não é apenas pelos seu povo e seu país; ele bate-se igualmente pela democracia, pela justiça e pela liberdade, valores que são — ou deveriam ser — inegociáveis, também, para cada um de nós.
Humberto Correia já iniciou a corrida que espera vencer em 2026.
Natural de Moncarapacho, viveu em França e viajou por vários países, até que regressou ao Algarve, onde vive atualmente. Depois de se ter candidatado à Câmara de Faro, decidiu dar um salto de gigante e, aos 62 anos, está a angariar assinaturas para se candidatar à Presidência da República, em 2026. Encontrámo-lo no coração de Faro, no Jardim Manuel Bivar, junto à banca onde expõe os seus quadros e vários exemplares do livro autobiográfico, traduzido em várias línguas, As Pulgas da Minha Infância. Foi aí que nos concedeu a pequena entrevista que se segue, entrecortada por abordagens aos transeuntes para angariação de assinaturas.
Humberto Correia (HC): Para conquistar uma assinatura eu tenho de abordar entre 30 a 50 pessoas! É a média…
ilovealfama (ila): Tanto?
HC: Ah, pois! Mas as assinaturas eu vou conseguir. E com um ano de avanço! Já alcancei os 3/4 [das 7500] mas quero chegar às 10 mil para ter margemsuficiente. Tenho de conseguir uma média de 150 assinaturas por mês. Então, no dia 15 de janeiro tenho de chegar às 6000 assinaturas.Hoje eu cheguei às 5850. Tenho que manter o objetivo de angariar 150 assinaturas por mês, no mínimo.
ila: Algumas podem ser anuladas, não é?
HC: Não é só isso. As pessoas assinam duas folhas que são a declaração de proponente e um pedido de certidão de eleitor, e eu depois tenho que fazer de cada proponente um pedido de certidão de eleitor. Tenho que entregar no Tribunal Constitucional 24 mil folhas, 3 de cada pessoa. E então o que é que se passa? Quando é um proponente aqui de Faro, vou ali à Junta, entrego o papel, e uma semana depois dão-me a certidão. Mas quando é de Bragança, por exemplo? Tenho de mandar pelo correio: só o trabalho de mandar as cartas, comprar os envelopes e os selos, está a ver?
ila: Isto parece estar mesmo feito para dificultar a vida a quem está fora do sistema. Podemos agora fazer-lhe algumas perguntas sobre o seu trajeto — o senhor é daqui do Algarve?
HC: Eu nasci na freguesia de Moncarapacho. Atualmente estou a viver em Olhão. Tenho 62 anos e só tenho a 4ª classe. Saí da escola para começar a trabalhar aos 10 anos de idade, declarado. Andei em quatro escolas. No Pereiro, que é um sítio por cima de Moncarapacho, depois andei em Olhão, depois andei em Bias (perto da Fuseta) e a última foi em Armação de Pêra.
ila: Ah, então terminou a escola já no Barlavento. E depois, imagino, começou a trabalhar.
HC: Exato. Entrei no mercado de trabalho em 1971.
ila: Muito novo…
HC: Era grume, carregava malas num hotel. Está a ver aqui esta fotografia? Sou eu a trabalhar com dez anos. Aqui já tenho 14 anos. E aqui neste cartão, 10 anos, está a ver?
ila: Qual era o hotel?
HC: Hotel Garbe, hoje chama-se Holiday, Hotel Holiday. Trabalhei de 71 a 72 no Hotel Carmo e uma parte ainda de 73, depois saí e fui mais para cima trabalhar no Hotel do Levante, que hoje é uma escola hoteleira. Trabalhei no Hotel do Levante em 73,74 e 75. Em 1976 fui para França. Comecei a trabalhar em França aos 16 anos numa fábrica de tripas: tripa natural e tripa artificial. Tive sorte porque estava na parte de tripa artificial, porque só o cheiro afastava muita gente!
ila: E ficou por França quanto tempo?
HC: 27 anos. Trabalhei em várias fábricas: essa de tripas, depois numa fábrica de armas, numa filial da Manufrance. Depois trabalhei numa extração de cascalho e areia, à beira de um rio; depois trabalhei a cortar perus à corrente, de 5 em 5 segundos fazia a mesma coisa, durante três anos: eles vinham e eu fazia 3 cortes; depois fui para a construção civil. Regressei definitivamente a Portugal em 2003, tinha eu 42 anos.
ila: Casou, tem filhos?
HC: Casei, a minha ex-mulher é portuguesa, sou divorciado, os meus filhos são franceses, mas lusodescendentes. Tive primeiro uma filha e depois um filho. Fui pai aos 19 anos e assumi.
ila: Eles vivem em França?
HC: Sim. E estão bem, felizmente.
ila: E atualmente o que é que o senhor faz?
HC: Desde que regressei definitivamente a Portugal, dediquei-me a pintar na rua. Vivo da minha pintura há 20 anos. Só faço isto.
ila: Mas entretanto escreveu um livro…
HC: Sim, é um livro sobre a minha infância. O título do livro é “As Pulgas da Minha Infância”. Termina com a minha chegada a França.
ila: São o primeiros 16 anos, digamos assim.
HC: Exatamente.
ila: Quando é que o senhor teve pela primeira vez a ideia ou sentiu vontade de se propor a concorrer à Presidência?
HC: Esta ideia já vem desde a altura em que fui candidato à Câmara de Faro, em 2017. E a seguir às eleições fiquei tão desiludido que pensei: “as próximas é a República”. Esperei quatro anos para me preparar. É preciso preparação, não é fácil…
ila: E quais foram as principais razões que o levaram a candidatar-se?
HC: Três coisas. Primeiro, a política: em relação à minha idade, é uma excelente ocupação; segundo, somos governados por pessoas que vivem fora da realidade; e terceiro, a miséria de muita gente: as pessoas, mesmo a trabalhar, não conseguem pagar uma renda de casa. Vou avançar com uma única proposta: impor o cumprimento do artigo 65 da Constituição. Atualmente este é de longe o maior problema do povo português.
ila: Para além desse problema, com certeza que existem outros, mas essa, digamos, é a sua principal bandeira, é isso?
HC: Sim, quando eu falo com as pessoas eu vejo que esse é o principal problema nacional. As pessoas não têm filhos porque não têm habitação; as pessoas emigram por causa da habitação, porque não conseguem viver aqui; os jovens ficam a morar com os pais porque não têm como pagar casa; as mulheres que sofrem violência doméstica não podem sair de casa sem terem habitação. Praticamente tudo está relacionado com a habitação, pelo menos muita coisa.
ila: Qual o seu posicionamento político-ideológico, se é que tem algum?
HC: Nunca fiz parte de qualquer partido político. Mas não sou de esquerda nem de extremos.
ila: Então considera-se, talvez, do centro-direita?
HC: Por aí.
ila: Candidata-se para ganhar ou apenas para veicular as suas ideias?
HC: “Veicular” é o que eu já faço há 31 meses. Quando eu jogo é para ganhar.
ila: Há alguém que tenha influenciado o seu pensamento político ou nem por isso?
HC: São múltiplas influências. Desde logo, a comunicação com as pessoas ao longo destes 31 meses. E depois a leitura. Eu tenho lido muito sobre a História de Portugal, começando pelo início da nacionalidade, depois os vários períodos dinásticos, e a República. Li a História de Portugal várias vezes. Li muito o Salazar. E vou lendo tudo o que me interessa sobre a História de Portugal e a política portuguesa.
ila: Então, interessa-se sobretudo pela política nacional?
HC: Sim. E sou mais conservador que liberal.
ila: Como é que avalia os mandatos do atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa?
HC: O professor Marcelo vem de uma máquina partidária. E para mim os partidos políticos são farinha do mesmo saco. É por isso que eu defendo o presidencialismo e não o parlamentarismo.
ila: Um regime do tipo francês?
HC: Exatamente.
ila: Mas você sabe que não vai ter poder para alterar a Constituição…
HC: Eu sei, eu sei.
ila: Vai ter que se cingir às regras atuais e jogar dentro do sistema vigente.
HC: Eu vou cumprir a Constituição, mas digo, desde já, que não concordo com ela. Nesse ponto.
ila: Então defenderia igualmente um sistema com duas câmaras no parlamento, à semelhança do que se passa em França e noutros países com uma câmara “alta” e uma câmara “baixa”?
HC: Isso para mim não é importante. Eu acho que há deputados a mais. A minha proposta seria de 20 deputados, não mais.
ila: Vinte!?
HC: Vinte deputados, com o direito de destituírem o presidente. Vinte deputados — um por distrito. É com essa proposta que eu vou avançar.
ila: E depois cada deputado deve ter uma série de assessores, ajudantes, não? Para o necessário trabalho legislativo, acha que vinte deputados chegam?
HC: Há deputados a mais, há políticos a mais em Portugal. Isto é a minha opinião.
ila: Portugal já teve vários presidentes, desde a primeira República. Há algum com o qual o senhor mais se identifique?
HC: Há dois.
ila: Quais?
HC: Óscar Carmona e Ramalho Eanes. Foram dois homens que governaram em épocas muito difíceis. E conseguiram manter o país. Dedicaram-se à nação e não aos partidos políticos.Isso faz toda a diferença.
ila: Em Portugal o presidente não governa, como sabemos. Mas se fosse candidato a primeiro-ministro e a governar o país, quais as 3 ou 4 medidas mais importantes que incluiria num programa eleitoral? A primeira já vimos que se dirigiria à habitação, e as outras?
HC: A segunda seria a educação. Seguiria o modelo francês. Escola obrigatória para todas as crianças a partir dos 3 anos de idade, gratuita e de qualidade. E a terceira seria plantar 500 mil hectares de floresta nativa. A destruição dos ecossistemas e as alterações climáticas vão ser o maior problema da humanidade. Na minha opinião a melhor forma de combater isso é plantando florestas. Florestas nativas, não eucaliptos e pinheiros. Seriam estas as minhas três prioridades, sendo que a habitação é, sem dúvida, a principal.
ila: Como acha que o problema da habitação poderia ser resolvido?
HC: Só há um caminho: o Estado tem que construir e arrendar a preços acessíveis. Seria possível construir em três dimensões: 30m2, 50m2 e 80 m2 , a 3 euros o metro quadrado, o que faria no caso dos 30 m2, 90 euros mensais; no caso dos 50 m2, 150 euros mensais; e quanto aos 80 m2, 240 euros mensais. É a única solução. De outra forma as pessoas, mesmo a ganhar 1000 euros por mês, não conseguem ter uma vida decente. Aqui em Faro você não encontra uma casa para alugar a menos de 700/800 euros por mês. É por isso que somos o segundo país com a taxa de natalidade mais baixa da Europa e o quinto país mais envelhecido do mundo. Morrem três portugueses, nascem dois, e um destes dois vai emigrar. Isto é gravíssimo. Para modificar esta situação é preciso resolver o problema da habitação. A habitação é fundamental para o ser humano.
ila: Sente-se preparado para debater com políticos profissionais de peso que eventualmente podem também candidatar-se às próximas eleições presidenciais, como António Costa e André Ventura?
HC: Quanto mais peso melhor. São mesmo esses que eu quero enfrentar. Quanto mais peso eles tiverem melhor para mim. A rota é para cumprir, custe o que custar.
ila: Qual considera que poderá ser a sua melhor arma para combater a experiência desses potenciais candidatos?
HC: A minha experiência de vida. Eu sou parte do povo português, conheço as suas dificuldades, o seu sofrimento, os seus problemas, por isso sinto-me otimista e muito confiante.
Capas das edições brasileiras de dois excelentes livros de Olga Tocaczurk (Nobel em 2018). É curioso atentar às traduções. “Correntes” (Todavia) foi o título que atribuíram no Brasil a “Flights” — vencedor do Man Booker Prize — que, por sua vez, foi traduzido em Portugal por “Viagens” (Cavalo de Ferro).
Além das boas recordações (praticamente correu tudo bem) trouxemos, desta viagem ao Brasil, 102 livros. Dois deles de Olga Tokaczurk, que não conhecíamos. Embora habitualmente só incluamos ensaios na categoria “livros”, desta feita abrimos uma exceção: é que esta escritora polaca (polonesa, para os amigos brasileiros) está no nível mais alto entre romancistas, ombreando na qualidade literária com autores superlativos, como Fiódor Dostoievsky, Guimarães Rosa ou Thomas Mann, cada qual com seu estilo próprio, evidentemente. Esta afirmação ousada pode ser provocada pelo efeito surpresa, ou talvez não.
Imaginação, ousadia, rasgo, estilo, rigor e conhecimento (inclusive da alma humana — Tokaczurk é psicóloga): estes ingredientes fazem parte de um vasto repertório pessoal e literário.
Já vos aconteceu lembrarem-se de sonhos incríveis quando acordam, mas que depois se desvanecem e já não conseguem recordar? Pois Olga Tokarczuk aparentemente consegue. A sua escrita é uma miríade de atalhos entre o caminho do sonho (ou o pesadelo) e o da realidade. Será esta um sonho ou serão os sonhos reais? A única coisa que é possível dizer é que tudo está interligado.
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Ps. Ainda no Brasil, lemos também um excelente livro de Camila Sosa Villada, OParque das Irmãs Magníficas, que em Portugal recebeu o título As Malditas (LasMalas, em castelhano). Camila não possui todos os recursos literários de Olga, mas sobra-lhe coragem. Na escrita e na vida.
Lúcio Flávio Pinto é um jornalista brasileiro que vive em Belém do Pará, no Brasil. Natural de Santarém (também no Pará), a sua vocação jornalística começou cedo: com 15 anos de idade apresentou um programa de rádio considerado subversivo pelas autoridades, e um ano depois trabalhou como repórter no Província do Pará. Aos 18 anos decidiu sair de Belém, acabando por fixar-se em São Paulo (após uma breve passagem pelo jornal carioca Correio da Manhã), trabalhando como repórter em vários jornais e revistas, incluindo na imprensa alternativa, entre 1971 e 1988. Em 1973 formou-se em sociologia pela Universidade de São Paulo1 . Pouco depois retornou a Belém para montar uma rede de sucursais do Estadão, na Amazónia. As suas reportagens conquistaram os leitores do jornal, permitindo o financiamento das longas incursões, quer de avião, quer de navio, que Lúcio realizava na vasta região amazónica.
A carreira de Lúcio Flávio Pinto alterou-se significativamente em 1987, quando, inconformado, rompeu definitivamente com a “grande imprensa” e criou o Jornal Pessoal — uma publicação quinzenal que perduraria por mais de 30 anos — não aceitando publicidade para não depender de ninguém e prosseguir livremente a sua missão: expor a verdade e os factos. No primeiro número deste novo jornal de 12 páginas, Lúcio implicava dois empresários na morte de um parlamentar, divulgando pelos seus próprios meios o que fora impedido de publicar n’ O Liberal, jornal de Belém, com o qual colaborava. O Jornal Pessoal, que, ao que parece, foi inspirado no periódico I.F. Stone’sWeekly, do jornalista americano Isidore Stone, inspirou por sua vez uma aluna da Universidade de São Paulo 2 como tema da sua tese de doutoramento. O JP tornou-se uma referência para muitos que, lendo-o, se interessavam pelo jornalismo independente, pelo que se passava no mundo, no Brasil e, claro, na Amazónia. Efetivamente, nesta nova e longa etapa da sua atividade jornalística, Lúcio Flávio pôde consolidar conhecimentos e ideias que desenvolvera quando fora correspondente do Estadão na Amazónia (e iniciara, pela sua extrema curiosidade, ainda antes), e tornar-se, assim, um dos maiores especialistas, se não o maior, sobre esta região tão importante do nosso planeta, sobre a qual escreveu vinte e um livros.
Hoje, com 74 anos, Lúcio Flávio Pinto já não publica o Jornal Pessoal. Diagnosticado com a doença de Parkinson desde 2018, foi aconselhado pelos médicos a diminuir a sua frenética atividade. Em 8 de julho de 2023, numa mensagem no seu blogue AAgenda Amazônica de um Jornalismode Combate, ele anunciava o fim da sua “atividade jornalística pública diária”3. Apesar disso, ainda publica no seu blogue vários artigos por dia, pois, como vincou nessa mesma mensagem, continuará “a acompanhar o dia a dia do Pará, da Amazônia, do Brasil e do mundo”.
Vivendo num país onde a profissão de jornalista não deixa de ser uma atividade perigosa, Lúcio Flávio Pinto correu vários riscos em prol da busca da verdade e da sua respetiva divulgação pública. Alvo de processos judiciais, espancamento e ameaças de morte, jamais vacilou na luta contra “o tráfego de droga, o desmatamento e a corrupção”4, e a sua resistência, quiçá obstinação, foi reconhecida por diversas organizações, sendo de destacar: os 4 prémios Esso de Jornalismo e o Prêmio Especial Vladimir Herzog, em 2012, com que foi contemplado no Brasil5; o Colombo d’Ouro para a Paz (1997)6, que lhe outorgaram em Itália; o prémio Liberdade de Imprensa Internacional (2005)7, que sua filha, Juliana Pinto, recebeu por ele em Nova Iorque; e a distinção atribuída pelos Repórteres sem Fronteiras, ao integrá-lo na lista dos 100 Heróis da Informação (que inclui também o timorense José Belo), em 2014. O secretário-geral desta organização, Christophe Deloire, disse, à época: “Estes heróis da informação são uma fonte de inspiração para todos os homens e mulheres que aspiram à liberdade”8.
A oportunidade de conhecer Lúcio surgiu quando soubemos que nos iríamos deslocar a Belém por motivos familiares. Entrámos em contacto com ele para tentarmos combinar um encontro e isto não se revelou minimamente difícil, pois Lúcio Flávio é realmente despretensioso, afável e simpático. (Há inúmeros testemunhos da sua amabilidade, sobretudo de antigos alunos9). Eu e Fla encontrámo-nos com ele num local do centro de Belém, e logo após as primeiras palavras descobrimos que temos algo em comum: uma admiração quase ilimitada por João Guimarães Rosa, o grande escritor cordisburguense. Lúcio, que possui uma enorme biblioteca (diz-se que mais de 40 mil livros)10, demonstrou ser grande conhecedor das obra e biografia de Guimarães Rosa, e, em poucos minutos, ampliou a forma como eu e Fla víamos ambas.
Quase em cima do acontecimento, pensámos que talvez Lúcio nos concedesse uma pequena entrevista e preparámos algumas perguntas. Ele acedeu de pronto. É essa pequena entrevista que aqui deixamos, buscando, quiçá, o impossível: descobrir alguma nova faceta do já multifacetado e extraordinário ser humano que é Lúcio Flávio Pinto.
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ILoveAlfama (ILA) — Lúcio, comecemos por uma curiosidade: o senhor tem origens portuguesas? Lúcio Flávio Pinto (LFP) — Sim, meu avô materno era português. ILA — Gostaríamos de falar um pouco sobre o seu percurso. Sabemos que ainda jovem foi para São Paulo e se formou lá em sociologia… LFP — Sociologia política, bacharel em sociologia política. ILA — E ficou trabalhando por lá depois, não é verdade? LFP — Eu entrei num programa de mestrado com uma tese de meu orientador, que era o Oliveiros Ferreira, que me disse “essa tese que você vai fazer é uma pós-graduação sanduiche, passa direto para ser doutor. Eu queria escrever isso mas nunca escrevi”. Eu comecei o curso, fiz alguns créditos, mas achei que se eu ficasse em São Paulo iria fazer uma carreira académica e iria me desligar da Amazónia. Então eu decidi voltar para a Amazónia no final de 1974 e larguei o curso. Você tem 8 anos para retomar o curso que você interrompeu. Todo o ano meu orientador que era também meu chefe no Estadão dizia “volte, volte, volte”, aí no último ano ele disse “você vai ser jubilado” (perda de direito à matrícula), e eu disse: “não posso fazer nada”. Acho que essa foi a grande diferença em relação a todos os meus colegas de geração. Todos eles foram embora. Quando você vai embora, você perde o elo da continuidade do processo histórico, você pode ser condicionado por estar num lugar e não ver direito, não ter distanciamento crítico para ver determinadas coisas. Mas eu sempre fazia o seguinte: ia para o exterior e voltava, ia para São Paulo e voltava, para me distanciar e ver o que eu estava fazendo. E o que me distinguiu, a minha carreira dos outros, é que eu estava aqui e tive apoio institucional do jornal e dinheiro para viajar pela Amazónia. Porque viajar pela Amazónia é muito caro. ILA — A Amazónia é muito grande, não é? LFP — É. Por exemplo, em 1976 teve uma grande cheia, a maior de todas, que até então a maior tinha sido a de 53. Eu fretei um barco e durante 8 dias andei por todos os rios da Amazónia e o barco era só para mim, um boiadeiro enorme… Hoje ninguém faria mais isso. Às vezes eu estava num lugar e fretava um teco-teco, um aviãozinho, e ia para outro lugar, o jornal pagava, sabia que eu ia dormir com uma boa matéria. ILA — Que jornal era esse? LFP — O Estado de S. Paulo. ILA — Do qual era correspondente? LFP — Sim, trabalhei lá e fui correspondente aqui. Trabalhei 18 anos nele. ILA — Quando é que o senhor sentiu vontade de ser jornalista? LFP — Eu sempre fui jornalista. Eu conto assim como folclore lá na minha família, que aos cinco anos eu comecei a estudar no jardim de infância. No primeiro dia de aula eu fui para a aula e voltei empolgado , cheguei e entrei em casa: “mamãe, mamãe, Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil por 1500 cruzeiros!” ILA — (risos…) LFP — Quer dizer, dei uma informação errada, mas já tinha uma informação. Desde então eu fiz jornal escrito à mão, jornal mimeografado, acho que hoje já ninguém mais sabe o que é um mimeógrafo, é uma máquina de imprimir. Então eu fiz dois jornais mimeografados — “O Democrata” e “O Social”. A minha preocupação já era essa. Até que aos 16 anos eu me tornei jornalista profissional. ILA — Digamos que é uma vocação desde sempre… LFP — Eu vou dizer o seguinte: o meu pai lá em Santarém, ele foi político, ele foi prefeito, deputado, e ele era uma pessoa que estudou na escola muito pouco, mas ele era muito curioso, falava inglês e era revendedor de livros. Tinha uma sala onde ninguém podia entrar que era a dos livros que ele revendia. Um dia a sala estava aberta e cheia de livros— e o mote do jornalismo é a curiosidade. Aí entrei na sala e me sentei. E foi quando vi minha mãe também entrando. Normalmente ela me ralhava, mas eu estava com o dicionário Lello Universal, em 5 volumes, numa edição de capa dura e cheia de bicos de pena, toda ela cheia de bicos de pena, além de muita abonação, um grande dicionário. Eu era pequenino, mal conseguia virar as páginas do dicionário, e minha mãe sentou e começou a ler. E a primeira coisa que me interessou foi o ábaco, que vem na letra “A” e o primeiro bico de pena era desenhando um ábaco. E eu perguntei “o que é isso?”, e a mamãe me contou que era para calcular, e eu me interessei pelo ábaco e muitos anos depois fui entender o que era o ábaco e o seu significado verdadeiro. Quando foi criado o primeiro computador no MIT, nos Estados Unidos, em 51, um operador de ábaco ficou do lado do computador e fez as operações mais rápidas que o computador, e até hoje é uma matéria de disciplina universitária na China.Há operadores de ábaco até hoje. ILA — Interessante… Por outro lado, algo que realmente impressiona é a quantidade de matéria que o senhor escreve todos os dias. Como consegue estar tão bem informado? LFP — Esse é um preço terrível. Até uma certa fase da vida, a minha ansiedade era favorável porque eu fazia muita coisa ao mesmo tempo graças à ansiedade. Hoje, olha, eu tremo, porque eu tenho Parkinson, e a ansiedade ficou terrível. Então eu estou pagando um preço alto na velhice por ter sido uma pessoa tão interessada nas coisas, que escrevia 15, 20 matérias por dia. É uma coisa que é natural em mim. ILA — E essa eficiência de escrita é desde sempre ou foi adquirida com a experiência? LFP — Bom, foi melhorando. Perguntaram: por que é que o diabo é tão inteligente? Não é porque ele é o diabo, é porque ele é velho. Aliás, de certa forma, eu tenho uma associação criativa com o diabo: às vezes eu sento na máquina e quero escrever um elogio. Aí o diabo diz “a tua função não é escrever elogio, é escrever crítica”. Aí eu escrevo a crítica. Então é difícil eu elogiar, quando elogio é porque realmente eu considero que é muito bom. E eu não distingo amigo de inimigo. Eu já perdi muitos amigos porque escrevi contra eles. Eu tenho uma máxima: “roubou dinheiro do povo, é meu inimigo”. Mas voltando à questão, eu acho que se escreve bem, lendo muito. A verdadeira atividade intelectual não é escrever, é ler. Então, quem não lê, mal sabe, mal fala e mal vê. ILA — Sabemos que na área da sua formação há muitas escolas sociológicas, mas parece-nos que hoje o Lúcio é bastante independente em relação a qualquer uma delas. Foi sempre assim? LFP — Foi sempre assim. Eu sou o típico iconoclasta — o meu objetivo é buscar a verdade. Para mim, a verdade é construída com provas de demonstração. Eu não posso dizer a verdade sem demonstrar que ela é a verdade. Então por isso eu tenho uma formação técnica muito rigorosa, não brigo com os factos. Se os factos me dizem que eu estou errado, eu digo que estou errado. Se os factos dizem que o partido tal está errado, eu digo que está errado. Então eu não penso duas vezes se o que vou escrever é bom ou ruim, favorável ou não. Eu quero demonstrar que o que estou escrevendo é verdade. Por isso é que quando comecei a escrever sobre usinas hidrelétricas, eu fui para os Estados Unidos conhecer as usinas hidrelétricas americanas, e a primeira usina que usou escada de peixe foi no rio Columbia, no estado do Oregon. Fui lá e vi com meus próprios olhos. Então eu sou uma pessoa curiosa, eu sou Tomé, eu quero que me provem que é verdade. Sempre estou exigindo e por isso eu repito sempre a frase do Millôr Fernandes: “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. ILA — A Amazónia é a sua grande luta, parece-nos. Mas para mudar as políticas para a Amazónia teriam que mudar as políticas do próprio Brasil. Como vê a política brasileira, hoje? LFP — O interessante é que quem teve o projeto mais consolidado, mais sólido sobre a Amazónia foi o estado colonial português, na época de Pombal. Pombal foi o último déspota esclarecido de Portugal. Desde então só tem déspotas, o esclarecimento foi deixado para trás. Então, o que ele fez? Ele investiu dinheiro enorme, criando uma estrutura aqui em Belém, grandes igrejas, palácio do governo, que são prédios e estruturas que não tinham nenhuma coerência com a cidade, que a cidade não tinha condições de manter. Mas ele achava que Portugal ia perder o Brasil, mas não ia perder a Amazónia. Então a Amazónia sempre foi um organismo estranho ao corpo nacional. A integração nacional que o Brasil fez da Amazónia foi a pior de todas. Porque ela negou a autonomia da Amazónia, não ouviu a população e tinha dois princípios: 1- não havia vida inteligente na Amazónia; 2- o espaço amazónico era inútil, era um espaço perdido porque não tinha ocupação humana nem atividade económica. Então se desencadeou um processo de irracionalidade, com a destruição da floresta, a destruição das populações indígenas e a imposição de um modelo de fora para dentro que fez com que a Amazónia fosse hoje uma grande colónia mundial, exportando minério de ferro, manganês, ouro, bauxita para o mundo inteiro. Então ela hoje é uma sub-colónia de um colonialismo, que é exatamente como foi na época da colónia portuguesa. O estado brasileiro não tem nenhuma capacidade de identificar e responder, reconhecer e respeitar a condição amazónica, que é ter muita água e ter muita floresta. Desde então o que tem acontecido? Menos água e menos floresta. Então o caminho da Amazónia é a destruição. Inexorável. ILA — Não vê alternativa? LFP — Haveria. Eu tenho uma proposta que eu venho apresentando há muitos anos, mas ninguém leva em consideração. Seria o seguinte: criar o kibutz científico. Você está na área da floresta, coloca lá um curso de engenharia florestal, no meio da mata. Esses estudantes, eles vão entrar para a graduação, mas eles só vão sair se se formarem doutores em engenharia florestal, por exemplo, ou silvicultura. Mas ele vai ser doutor não só pelo estudo académico teórico, ele vai ter que ter um projeto que ele vai ter de provar que o que ele pensa é verdade. Então ele implanta um projeto de regeneração natural, de reflorestamento, de espécies nativas, exatamente o contrário do que tem sido a forma de ocupação da Amazónia. E se ele conseguir provar que aquilo é viável economicamente, ele recebe o título de propriedade da terra e o título de doutor, senão ele não recebe coisa nenhuma. Então ao invés da ciência vir no rasto das frentes económicas, ela vem na frente, dizendo: “Não pode fazer isso, não pode fazer isso porque é contra a ciência”. E hoje o cientista é mero académico, não tem poder de transformação. Só acredito nisso hoje, o resto eu não acreditomais. ILA — Não tem experiência no terreno… LFP — Não, não tem. Seria inteiramente novo. Os projetos que eles realizariam seriam avaliados permanentemente pelos melhores cérebros do mundo que viriam para cá. Se é um projeto de manejo de água, chamam os australianos, chamam os canadenses, chamam os holandeses, ele vai ter que fazer um projeto coerente com aquela região onde ele está e dialogar com a população nativa, não com uma atitude paternalista, mas com a atitude de um colega de experiência, de atividade económica, e ao mesmo tempo tem de responder à ciência mais avançada do mundo. Nós temos a maior bacia hidrográfica do mundo, mas nós não conhecemos quase água. Quem conhece são os holandeses, que vivem de domar o mar. ILA — Uma última pergunta. Sabemos que tem uma grande biblioteca. Poderia indicar algum ou alguns autores que o tenham verdadeiramente influenciado? LFP — Bom, eu comecei cedo lendo Marx. E aprendi a ler o Marx sem considerar o marxismo uma teoria científica e sem o considerar também o abc da revolução. Toda a parte voluntariosa do marxismo, de fazer a revolução através da ditadura do proletariado, isso não vale nada. Isso aí é profecia que não deu certo e virou tirania em todas as partes em que foi aplicada. ILA — Uma religião… LFP — É, uma religião. Porque ela é fechada, ela é dogmática, ela tem o seu catecismo, e isso eu detesto, eu aprendi a respeitar a liberdade como o bem maior do ser humano, e não tem liberdade nesses países, tanto que eles não chamam de socialismo eles chamam de socialismo real porque nunca existiu socialismo nesses países, só tirania. Mas ele [Marx] como um grande filósofo e economista é inevitável. Só se pode entender o mundo atual passando por ele, mas não ficando nele. Marx foi uma influência boa porque não me tornou marxista, continuei a ser uma pessoa independente. Eu li também um grande historiador daqui da região chamado Domingos Antônio Raiol que escreveu sobre a cabanagem, um livrão, “Motins Políticos”. Isso me identificou. Eu também li o padre Bettendorf, que é um holandês que foi quem começou a colonização da minha terra, onde nasci, Santarém. E cada vez que eu me sinto fraco em relação à Amazónia eu releio o padre João Daniel. Padre João Daniel era um jesuíta que o Pombal expulsou, como a todos os jesuítas, naquela época. Ele ficou preso em Lisboa. Eu sou tão curioso que fui ver que livros ele leu quando estava na prisão — ele morreu na prisão — livros que foram editados em Portugal quando ele estava preso. Como é que ele leu? Aí eu fui ler a correspondência dele que fora liberada. Imagine a cena: ele na prisão escreveu o livro “O Tesouro Descoberto no Rio Amazonas”. Você tem que ler o padre João Daniel. Esse livro é uma enciclopédia sobre a Amazónia até o século XVIII. Uma enciclopédia completa: peixes, plantas, árvores, tudo, a antropologia a arqueologia, e aí cita dados precisos, e a mitologia dizia que ele escreveu isso de memória na prisão. Eu não acreditei. Então, na verdade o Pombal lia as cartas dele, e o Pombal liberava as cartas ou não, e liberava os livros para ele e se informava com ele porque tinha uma admiração intelectual de déspota esclarecido, esclarecido suficiente para saber o valor do padre e ao mesmo tempo déspota que não podia libertá-lo porque mandara prender todos os jesuítas. Então é uma coisa fantástica e nunca ninguém escreveu sobre isso. ILA — Interessante… LFP — É uma coisa interessantíssima sobre o papel da inteligência. Eu comparo mais ou menos com o Gramsci, Antonio Gramsci. Ele ficou preso 9 anos e o Mussolini de certa forma deixou que ele escrevesse as “Cartas de Cárcere”, que é um dos documentos mais importantes, que também tem uma influência enorme para mim. Eu li várias vezes todas as cartas dele. Nessas cartas, tem uma carta em que a mulher dele lhe disse: “o nosso filho Giulio já sabe escrever da direita para a esquerda e debaixo para cima”. Aí ele da prisão, sofrendo que só, deprimido, diz: “que bom, tem uma tribo no Tibete que é a única no mundo que escreve debaixo para cima e da direita para esquerda, vai ser muito útil para o nosso filho saber disso”. O princípio pedagógico que ele tinha!… Então, na verdade o Mussolini como déspota esclarecido que era, um fascista, mas um fascista com projeto, que não era um projeto de mero poder, na verdade queria ser o príncipe do fascismo, no conceito de Maquiavel. Quando estava morrendo ele disse “não vão dizer que o Gramsci vai sobreviver a mim, nem que morreu na minha prisão”. Então ele liberta-o, e o Gramsci morre fora da prisão. ILA — Lúcio, muito obrigado. LFP — Por nada, foi um prazer.
Victorino d’Almeida percorre o país a dar pequenos espetáculos em dimensão, enormes em conteúdo. Estamos a falar de um génio, felizmente ativo e disponível para nos deslumbrar, ainda, aos 83 anos. Gostávamos de o ver mais vezes, mas os que dirigem os grandes meios de comunicação social deste país não o merecem.
Compositor, maestro, pianista, escritor, realizador, autor e apresentador de programas televisivos e radiofónicos, comunicador fascinante, António Victorino d’Almeida completa hoje 83 anos.
Quem souber que ele vai estar por perto vá ao seu encontro, e não perderá o seu tempo ao escutá-lo. É daqueles seres que irradia cultura, ou seja, riqueza verdadeira. Seja qual for o lugar ou a ocasião.
O Fado do Campo Grande que aqui deixamos foi composto por Victorino d’Almeida, tem letra de Ary dos Santos, e foi cantado originalmente por Carlos do Carmo, em casa deste, onde os três se encontravam. Um trio etilista porque, ao que parece, estavam todos bêbados. Depois de criarem o fado saíram e sentaram-se no lancil da Avenida da República, onde um homem os viu, parou o carro e os conduziu, um por um, a casa. Provavelmente nunca mais viram esse senhor e, mesmo que vissem, claro, não o reconheceriam.
Muitos dos que culpam os Estados Unidos, a NATO e a União Europeia pela atual guerra na Ucrânia apoiam-se em autores antiamericanos. Um destes, particularmente famoso, é Noam Chomsky — um suposto filósofo da linguagem e da política.
Do ponto de vista académico, as teses de Chomsky sobre a linguagem passam por algumas banalidades (tais como a afirmação de que a estrutura mental humana está adaptada ao desenvolvimento da linguagem) ou hipóteses amplamente contraditadas (como por exemplo, a pretensão de que todas as línguas têm uma estrutura comum e que existe uma gramática universal), sustentadas por um ego inflado, suscetível de impressionar os mais incautos.
Esta confiança é contrariada por inúmeros trabalhos, dos quais destacamos o artigo publicado na Frontiers in Psychology1 pela polaca Ewa Dabrowska, uma investigadora a quem foi atribuído em 2018 o mais prestigiado prémio de investigação da Alemanha (Alexander Von Humboldt), no valor de 3,5 milhões de euros, para dar continuidade à sua investigação empírica sobre a forma como a linguagem é adquirida em crianças e adultos (em contextos linguísticos e culturais específicos), e como os indivíduos diferem nas suas capacidades de linguagem.2 Tal como afirma Dabrowska: “Os argumentos a favor do inatismo de categorias ou princípios linguísticos específicos são irrelevantes (são argumentos para o inatismo geral e não para o inatismo linguístico), baseados em premissas falsas ou circulares”. Os investigadores Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues corroboram a afirmação de Dabrowska: “não existe um modelo geral de gramática universal (…), apenas uma panóplia de hipóteses diversas sobre GU [Gramática Universal] e o seu conteúdo”3.
Apesar das posições destes e tantos outros autores, que demonstram a vacuidade científica das propostas de Chomsky, muitos se indignarão com a nossa ousadia de colocar em causa um intelectual de alto gabarito, que escreveu dezenas de livros, supostamente científicos. Mas nada disto é inédito. Já foram escritas milhares de páginas, e mesmo milhares de livros que em nada contribuíram para o progresso da humanidade, embora os seus autores sejam quase todos, precisamente, da área das humanidades. Popper — que considera a gramática “escondida” de Chomsky algo que pura e simplesmente não existe, e afirma que este não poderia estar certo quanto à sua alegação de que todas as línguas têm uma estrutura comum4 — exemplifica, ao citar Hegel, como se podem juntar palavras, numa algaraviada que ninguém entende e que muitos, talvez por isso, considerem interessante.5 Mas o que Chomsky e Hegel têm sobretudo em comum — juntamente com Heidegger, Sartre, Foucault, Zizek6 e tantos, tantos outros — é que são contrários ao espírito do Iluminismo, aos ideais da razão, da ciência, do humanismo e do progresso7, e é por isso que Chomsky condena o chamado “Ocidente”, o bloco mundial que defende os ideais e valores iluministas.
Isto conduz-nos diretamente ao comportamento político de Chomsky, que usa e abusa da liberdade de expressão de que desfruta para acusar o país em que nasceu e vive de ser o pior do mundo8, apoiando outros, como a Rússia de Putin, onde a liberdade de expressão é um mito. Se vivesse nas ditaduras que apoia e falasse recorrentemente contra o regime, como faz nos Estados Unidos, Chomsky seria preso ou morto — e é por isso que, apesar de tudo, ele continua a viver na América. Chomsky — que curiosamente é filho de um ucraniano — era lido pelo terrorista mais famoso do mundo9 e continua a inspirar tantos outros antiamericanos, ilustres ou anónimos, um pouco por todo o lado, incluindo, é claro, Portugal.
Chomsky é um extremista encapotado que começou por defender a violência da anarquia, acabando a defender a violência da tirania. Tudo isto na paz e segurança do sistema democrático que o protege. Chomsky declara-se um libertário e um anarquista, mas defende os regimes mais autoritários e assassinos da história humana. A sua hipocrisia é incomensurável.10, 11, 12
5 “O som é a mudança verificada na condição específica de segregação das partes materiais e da negação dessa condição; é meramente uma idealidade abstracta ou ideal, por assim dizer, dessa especificação. Mas esta mudança é, por consequência, em si mesma imediatamente a negação da substância material específica; o que é, portanto, a idealidade real da gravidade específica e da coesão, isto é, o calor. O aquecimento de corpos sonoros, assim como dos corpos percutidos ou friccionados, é a aparência de calor que surge conceptualmente juntamente com o som” (Popper citando Hegel em“A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”, Vol. II, Editora Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 34).
Pode parecer estranho, mas há de facto uma tendência nefasta para admirarmos aquilo que é escrito (ou dito) de forma obscura, densa, rebuscada, muitas vezes incompreensível, pois confundimos frequentemente um estilo indigerível com erudição. É por isso que Popper realça a importância de escrever de forma simples, clara e compreensível, e considera a clareza de discurso uma obrigação que qualquer intelectual que se preze deve impor a si próprio.
7Valores ou ideais inscritos no subtítulo do livro de Steven Pinker “O Iluminismo Agora — Em Defesa da Razão, Ciência, Humanismo e Progresso” (Editorial Presença, Lisboa, 2018).
11 Vaclav Smil, em livro recente, (“Como o Mundo Realmente Funciona”, Crítica, Lisboa, 2022, p. 235), escreve o seguinte: “Não faltam por aí celebridades, autores best-seller e meios de comunicação social a repetir, apoiar e amplificar estas afirmações, desde a Rolling Stone ao New Yorker, de Noam Chomsky (que adiciona a energia como o mais recente campo de especialização) a Jeremy Rifkin, que acredita que, sem este tipo de intervenção, a civilização à base dos combustíveis fósseis colapsará em 2028” .
12Azar Gat escreve em “Ideological Fixation” (Oxford University Press, 2022, pp. 183-4): “Chomsky lançou dúvidas e procurou ativamente desacreditar e bloquear as notícias sobre os assassinatos em massa perpretados pelo regime Khmer Vermelho comunista, no Camboja (1975-1979). Estima-se que entre 1,6 e 1,9 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população à data, tenham sido assassinadas.” (Tradução nossa).
Foto de Varela retirada do sítio esquerdaonline.com.br. Sempre rodeada de livros, procura vincar a sua faceta intelectual. Entretanto, os livros que ela própria publica baseiam-se em trabalho de pesquisa feito por jovens bolseiros1, que se queixam de um “inferno laboral”(aqui).
Raquel Varela, paga por todos nós, continua em grande forma a debitar asneiras nas rádio e televisão públicas. Como tal é possível, não sei. Mas sei que isto revela muito daquilo que somos. A última tirada de Varela — que costuma deixar os companheiros de painel meio aparvalhados com os seus dislates — foi no programa de ontem, “O Último Apaga a Luz”, quando pronunciou, com naturalidade, que a economia é “ideológica”. Varela tinha obviamente como alvo o sistema económico em que vivemos, dito capitalista, esse sistema maldito que ela tanto deplora. Nenhum dos interlocutores lhe respondeu. Mas o que algum deles lhe poderia ter dito é que, sim, o homem é um animal potencialmente ideológico e, nesse sentido, tudo o que é humano está impregnado de ideologia. Acresce, porém, que a economia é também uma ciência e, tal como em outras ciências, mais ou menos influenciadas pela ideologia, há coisas estabelecidas. Por exemplo, em astronomia, pensava-se até certa altura que o sol rodava em torno da Terra, mas hoje sabe-se que é a Terra que roda em torno do sol; em biologia, pensava-se que havia uns homúnculos dentro do sémen humano, mas hoje sabe-se que são os genes que detêm e transmitem as instruções para a construção de tudo o que é vivo; em física, pensava-se que o átomo era o último constituinte da matéria, mas hoje sabe-se que há inúmeras partículas elementares dentro do próprio átomo, não sendo este, portanto, indivisível. E por aí fora.
Ora, também em economia, se chegou a pensar que a eliminação do lucro (ou, para usar uma linguagem marxista, a eliminação da “mais valia”) traria progresso, paz, prosperidade e igualdade ao mundo, mas hoje sabe-se que as atividades económicas lucrativas é que proporcionam progresso, bem-estar, desenvolvimento e, quando combinadas com políticas sociais adequadas, as sociedades mais felizes e mais igualitárias de que temos conhecimento. Pelo contrário, as sociedades que procuraram eliminar o lucro sempre trouxeram miséria, sofrimento, um pequeno grupo de privilegiados no poder e o restante povo oprimido.
Isto é histórico, e a história é a melhor ferramenta que temos para avaliar as ideologias. Supostamente, uma “historiadora”, como Raquel Varela, deveria sabê-lo. Mas, ao contrário, ela deturpa a própria história, porque, projetando em outros a sua personalidade dogmática (a projeção é uma marcada característica psicológica dos demagogos), é ela quem está completamente condicionada pela ideologia.
Por fim, deveriam dizer-lhe ainda que sim, é bem possível, como vimos, que a nossa ideologia ou, num sentido mais lato, as nossas ideias, inclusive as económicas, nos influenciem. É por isso que devemos estar sempre vigilantes e atentos relativamente aos factos, e nos interroguemos, a cada passo, sobre em que medida a nossa perspetiva está limitada pela nossa matriz ideológica. Esta é a atitude dos moderados e tolerantes, pois sabem que são influenciáveis, cometem erros e não são infalíveis. Mas não é nada disso que se passa com a radical Varela, inflada de certezas, paga pelos contribuintes para continuar a dizer alarvidades. E são alarvidades e não meros disparates, porque a sociedade que Raquel Varela preconiza, como todas as outras onde foi tentado o socialismo radical, é um tipo de sociedade onde não existe liberdade, onde, a despeito da propaganda, homens e mulheres que se opõem ao regime sofrem as agruras costumeiras, tão costumeiras como o seu destino, que é o de raramente sobreviverem para as contarem.
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Notas:
1 A este propósito, lembrei-me, e fui rever o que escreveu Richard Dawkins no prefácio à edição de 1989 de “O Gene Egoísta”: “tomei recentemente conhecimento de um facto desagradável: existem cientistas influentes com o costume de colocarem os seus nomes em publicações em cuja composição não desempenharam qualquer papel. Aparentemente, alguns cientistas de categoria mais elevada reivindicam autoria conjunta de artigos em que a sua contribuição se resumiu ao espaço de bancada, aos fundos de investigação e à revisão do manuscrito. Pelo que sei, podem ter-se construído reputações científicas inteiramente baseadas no trabalho de estagiários e de colegas! Não sei o que se poderá fazer para combater esta desonestidade”.(Richard Dawkins, “O Gene Egoísta”, Gradiva, Lisboa, 2021, p. 29).
Eduardo Lourenço foi um brilhante pensador. Mas nem todos os pensadores, ainda que brilhantes, são filósofos.
A Filosofia pode ser encarada de duas formas. Por um lado, desde que reflitamos sobre o mundo, o comportamento e a existência, todos nós somos filósofos. Por outro lado, existem pessoas que dedicam a vida a estudar essas e outras questões filosóficas e os problemas que levantam (mesmo que, como Wittgenstein, não acreditem em genuínos problemas filosóficos), procurando resolvê-los e ligá-los numa linha de pensamento coerente, isto é, numa doutrina, numa filosofia. Voluntária ou involuntariamente, profissionais ou amadores, estes são os verdadeiros filósofos.
Kant resumiu o objeto da Filosofia em quatro perguntas.
O que posso saber? (Epistemologia ou Filosofia do Conhecimento);
O que devo fazer? (Ética);
O que me é permitido esperar? (Metafísica);
O que é o Homem? (Antropologia Filosófica).
Respondeu ou procurou responder Eduardo Lourenço, através da sua obra, a uma ou mais que uma destas perguntas? Não, Eduardo Lourenço, na linha de muitos outros pensadores portugueses – como Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva ou Teotónio Almeida, só para citar alguns – pensou sobre Portugal, os portugueses e o nosso papel na Europa e no Mundo. Para isso, Lourenço inspirou-se na literatura e nos poetas e não em qualquer filósofo português que, de resto, nunca existiu; de acordo com o próprio, por cá sempre imperou um “irrealismo prodigioso”.
Estamos de acordo com Eduardo Lourenço: a nossa tradição é literária, poética e mística; não existe em Portugal tradição filosófica. Talvez esta seja, sim, uma característica fundamental de Portugal.
Eduardo Lourenço foi, pois, um ilustre professor e ensaísta. Mas, ao contrário do que muitos dizem e escrevem nestes dias após a sua morte, não foi um filósofo. Isto não diminui em nada o brilhantismo deste intelectual português, antes é uma manifestação de apreço e respeito pela sua memória.
Há 118 anos, nascia, em Viena, Karl Raimund Popper. Filósofo, dedicou a sua vida à pesquisa sobre várias matérias, sobretudo ciência, por acreditar que o método científico é o que mais nos pode aproximar da verdade. Saber o que é a ciência foi, portanto, um dos objetivos mais importantes da sua epistemologia. Tão importante que ele próprio desenvolveu critérios de demarcação para afastar a pseudociência da ciência verdadeira, dando como exemplos de não-ciência o marxismo, a psicanálise e o adlerianismo, correntes muito em voga na sua época. Um dos critérios de demarcação científica é a testabilidade. Ao não serem testáveis, marxismo, psicanálise e adlerianismo não podem ser científicos. Claro que, ainda hoje, os defensores dessas doutrinas usam todos os subterfúgios possíveis para as justificarem, mas essa é precisamente a atitude anti-científica, pois o que o cientista deve fazer é testar por todos os meios as suas teorias e tentar falsificá-las, por forma a aquilatar da sua validade. Foi o que sempre fez Einstein, e é por isso que Popper tanto o admirava, apesar de nem sempre concordar com ele. No fundo, o que Popper mais gostava em Einstein era a sua honestidade intelectual.
No campo da sociologia, a filosofia de Popper é a uma tentativa de evitar a guerra entre as nações e a violência entre os homens. Popper abominava a violência e achava que esta, embora impossível de erradicar, podia ser largamente evitada. Isso só é possível nas sociedades livres e democráticas, aquelas em que os governantes são depostos sem derramamento de sangue. Além disso, as sociedades democráticas são as únicas em que o poder está disperso (quanto mais melhor) e não apenas nas mãos de um único homem, ou de um pequeno grupo ou da direção de um qualquer partido. Nas sociedades liberais o poder deve ser exercido e controlado, tanto quanto possível, por instituições e não por pessoas. Por fim, as sociedades livres e democráticas são igualmente as únicas passíveis de serem melhoradas e aquelas em que cada um de nós, não apenas quem detém o poder, pode efetivamente contribuir para o seu melhoramento. É, aliás, isso que vem acontecendo: são os países livres e democráticos aqueles que mais melhoram e reformam, aqueles que atingiram os mais elevados níveis de desenvolvimento social na história da humanidade. Se formos honestos, reconheceremos que, apesar dos erros cometidos, vivemos no melhor mundo de sempre. Claro que o desenvolvimento criou problemas imprevistos, alguns bastante graves, como sabemos. Mas depende inteiramente de nós, não de um qualquer iluminado, resolvê-los. É por isso que liberdade requer responsabilidade, e todos carregamos, de ambas, a nossa quota-parte. A construção de um mundo melhor continua, na parte que nos toca, nas nossas mãos.
Se fosse viva, Amália teria completado 100 anos no dia 1 de julho último, pois, dizem, ela nasceu nesse dia, no ano de 1920. Amália, porém, só foi registada uns dias mais tarde, há precisamente cem anos (23/7/1920), e o 23 de julho era o dia em que gostava de comemorar o seu aniversário (há quem diga que Amália queria ser”Leão” e não “Caranguejo”), pelo que permaneceu como data oficial. Escrevemos já dois artigos neste blogue sobre Amália — aqui e aqui — e não vamos dizer muito mais. As palavras são sempre escassas, ficam sempre aquém, e o melhor é mesmo ouvi-la. Amália Rodrigues, reconhecida no estrangeiro e não só em Portugal, cantou dentro de muitos géneros musicais, não apenas fado, embora tenha sido no fado — e dentro deste nos fados não tradicionais compostos por Alain Oulman — que encontrou a sua expressão mais alta. A cumplicidade artística entre ambos (para nosso deleite) está bem patente no vídeo que aqui deixamos, a nossa singela homenagem a Amália, no dia da evocação dos cem anos do seu nascimento.
Ensaio de “Soledad”, uma música de Alain Oulman com letra de Cecília Meireles.