Chomsky, o anti-iluminista

foto retirada de: https://pt.euronews.com/2015/04/17/noam-chomsky.

Muitos dos que culpam os Estados Unidos, a NATO e a União Europeia pela atual guerra na Ucrânia apoiam-se em autores antiamericanos, particularmente num bastante famoso — Noam Chomsky, suposto filósofo da linguagem e da política.

Do ponto de vista académico, as teses de Chomsky sobre a linguagem passam por algumas banalidades (tais como a afirmação de que a estrutura mental humana está adaptada ao desenvolvimento da linguagem) ou hipóteses amplamente contraditadas (como por exemplo, a pretensão de que todas as línguas têm uma estrutura comum e existe uma gramática universal), sustentadas por um ego inflado, suscetível de impressionar os mais incautos1.

Esta confiança é contrariada por inúmeros trabalhos, dos quais destacamos o artigo publicado na Frontiers in Psychology2 pela polaca Ewa Dabrowska, uma investigadora a quem foi atribuído em 2018 o mais prestigiado prémio de investigação da Alemanha (Alexander Von Humboldt), no valor de 3,5 milhões de euros, para dar continuidade à sua investigação empírica sobre a forma como a linguagem é adquirida em crianças e adultos (em contextos linguísticos e culturais específicos), e como os indivíduos diferem nas suas capacidades de linguagem.3 Tal como afirma Dabrowska: “Os argumentos a favor do inatismo de categorias ou princípios linguísticos específicos são irrelevantes (são argumentos para o inatismo geral e não para o inatismo linguístico), baseados em premissas falsas ou circulares”. Nevins, Pesetsky e Rodrigues corroboram a afirmação de Dabrowska:4 “não existe um modelo geral de gramática universal (…), apenas uma panóplia de hipóteses diversas sobre GU [Gramática Universal] e o seu conteúdo”.

Apesar das posições destes e tantos outros autores, que demonstram a vacuidade científica das propostas de Chomsky, muitos se indignarão com a nossa ousadia de colocar em causa um intelectual de alto gabarito, que escreveu dezenas de livros, supostamente científicos. Mas nada disto é inédito. Já foram escritas milhares de páginas, e mesmo milhares de livros sem qualquer interesse para o progresso da humanidade, embora os seus autores sejam todos, precisamente, da área das humanidades. Popper — que considera a gramática “escondida” de Chomsky algo que pura e simplesmente não existe, e afirma que este não poderia estar certo quanto à sua alegação de que todas as línguas têm uma estrutura comum5 — exemplifica, ao citar Hegel, como se podem juntar palavras, numa algaraviada que ninguém entende e que muitos, talvez por isso, achem interessante.6 Mas o que Chomsky e Hegel têm sobretudo em comum — juntamente com Heidegger, Sartre, Foucault, Zizek7 e tantos, tantos outros — é que são contrários ao espírito do Iluminismo, o qual se consubstancia nos ideais da razão, da ciência, do humanismo e do progresso8, e é por isso que Chomsky condena o chamado “Ocidente”, a metade do mundo que defende os ideais e valores iluministas.

Isto conduz-nos diretamente ao comportamento político de Chomsky, que usa e abusa da liberdade de expressão de que desfruta para acusar o país em que nasceu e vive de ser o pior do mundo9, desculpando outros, como a Rússia de Putin, onde a liberdade de expressão é um mito. Se vivesse nas ditaduras que apoia e falasse recorrentemente contra o regime, como faz nos Estados Unidos, Chomsky seria preso ou morto — e é por isso que, apesar de tudo, ele continua a viver na América. Chomsky — que curiosamente é filho de um ucraniano — era lido pelo terrorista mais famoso do mundo10 e continua a inspirar tantos outros antiamericanos, ilustres ou anónimos, um pouco por todo o lado, incluindo, é claro, Portugal.

Chomsky é um extremista encapotado que começou por defender a violência da anarquia, acabando a defender a violência da tirania. Tudo isto na paz do sistema democrático que o protege.

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1 Se alguém duvidar do largo amor próprio de Chomsky, convidamo-lo a revisitar a afirmação que o admiradíssimo “linguista” proferiu em 2004: “a estrutura de princípios e parâmetros foi altamente bem sucedida e foi a única mudança revolucionária real na linguística talvez nos últimos milhares de anos (Chomsky, 2004, p. 148).

2 https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2015.00852/full#B43.

3 https://www.birmingham.ac.uk/news/2018/birmingham-linguistics-expert-wins-germanys-top-research-award.

4 https://www.researchgate.net/publication/41152486_Piraha_Exceptionality_A_Reassessment/link/5c24c0b1458515a4c7fbe3ab/download.

5 http://www.tkpw.net/hk-ies/n23a/?fbclid=IwAR2Lc6lnOK-nNDzR5Gk2SOfyR3BCAoJRnvk_9-974LngVeEqHCbU9DrlH2M.

6 “O som é a mudança verificada na condição específica de segregação das partes materiais e da negação dessa condição; é meramente uma idealidade abstracta ou ideal, por assim dizer, dessa especificação. Mas esta mudança é, por consequência, em si mesma imediatamente a negação da substância material específica; o que é, portanto, a idealidade real da gravidade específica e da coesão, isto é, o calor. O aquecimento de corpos sonoros, assim como dos corpos percutidos ou friccionados, é a aparência de calor que surge conceptualmente juntamente com o som” (Popper citando Hegel em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editora Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 34).

Pode parecer estranho, mas há de facto uma tendência nefasta para admirarmos aquilo que é escrito (ou dito) de forma obscura, densa, rebuscada, muitas vezes incompreensível, pois confundimos frequentemente um estilo indigerível com erudição. É por isso que Popper realça a importância de escrever de forma simples, clara e compreensível, e considera a clareza de discurso uma obrigação que qualquer intelectual que se preze deve impor a si próprio.

7 Ver nosso artigo sobre Zizek aqui: https://ilovealfama.com/2016/02/11/problemas-no-paraiso/.

8 Valores ou ideais inscritos no subtítulo do livro de Steven Pinker O Iluminismo Agora — Em Defesa da Razão, Ciência, Humanismo e Progresso (Editorial Presença, Lisboa, 2018).

9 Em entrevista publicada no semanário “Expresso” (31/05/2022), Chomsky considera os Estados Unidos um país “mais totalitário do que a União Soviética”, o “mais beligerante” e que “comete as maiores atrocidades”: (https://expresso.pt/guerra-na-ucrania/2022-05-31-Noam-Chomsky-ao-Expresso-Dizer-vamos-continuar-a-guerra-e-dizer-vamos-destruir-o-mundo-porque-queremos-fingir-que-temos-principios-3ef80513).

10 https://www.theguardian.com/world/2015/may/20/osama-bin-laden-library-noam-chomsky-bob-woodward.

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