Os cruzeiros de reposicionamento

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O Splendida, no Dubai, já com os caracteres apropriados à nova temporada na China.

Os cruzeiros de reposicionamento são cruzeiros mais longos (excetuando os de “volta ao mundo”) e servem para os navios se deslocarem para zonas do globo (por exemplo do Mediterrâneo para as Caraíbas ou vice-versa) onde operam durante alguns meses, normalmente em condições climatéricas (e, claro, económicas) favoráveis à sua atividade. Daí a expressão: reposicionamento. São cruzeiros com menos procura e, por isso, mais baratos (se tivermos em consideração o custo unitário/dia). O principal problema é a época em que se realizam: em geral, quando as pessoas não estão de férias. Mas, desde que se tenha disponibilidade, valem a pena. O cruzeiro que aqui resumidamente relatamos teve origem em Génova, no dia 6 de dezembro, e terminou no Dubai, 18 dias depois, contemplando sete países. Vejamos os principais lugares por onde passámos.

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Génova. Chegámos à cidade de comboio, vindos de Milão. Optámos por um voo de Lisboa para Milão, onde dormimos uma noite, por ser muitíssimo mais barato do que para Génova. Na manhã do dia seguinte visitámos Milão (deu tempo para entrar no Alla Scala e tudo) e depois do almoço partimos para a estação de Génova-Principe, que fica muito perto do porto, pelo que passámos do comboio para o navio a pé. Este partiu já de noite, às 18:00 horas.
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No dia seguinte, às sete da manhã, acostámos em Civitavecchia, onde apanhámos o comboio até Roma (e volta), numa pequena viagem de cerca de uma hora até a estação de Roma-Termini. Estivéramos em Roma há dois anos e encontráramos alguma degradação. A situação agravou-se: a cidade está suja, esburacada, cheia de mendigos e sem-abrigo, pontuada de obras por todo o lado, um tanto ou quanto caótica. Isto está relacionado com a crise dos refugiados, com a qual a Itália (país muito sobrecarregado, a par da Grécia e Turquia), sem uma efetiva política solidária europeia, dificilmente poderá lidar.
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Saímos de Civitavecchia no segundo dia do cruzeiro e chegámos a Heraklion, em Creta, quase dois dias depois, às 12:00 horas do quarto dia. Ficámos apenas seis horas em Heraklion e optámos por vaguear pela cidade. Aqui pudemos captar (pelos menos, assim nos pareceu) o pulsar económico desta mítica ilha mediterrânica: pesca, turismo e serviços. A foto mostra um aspeto curioso das montanhas de Creta, que denominámos “O Homem que Dorme”. Creta – a quinta maior ilha do Mediterrâneo, com mais de 600.000 habitantes – é muito montanhosa e avistámos do navio (que percorreu toda a costa norte da ilha) vários cumes cobertos de neve.
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Um dia depois, já à noite (19:00 horas), chegámos à entrada do Canal do Suez, que percorremos em cerca de 18 horas. No início (descendente) do canal encontra-se a cidade de Port Said e, no final, a cidade de Suez, já em pleno Mar Vermelho. Pelo caminho, vimos pescadores, barcos tradicionais, ferries de transporte entre margens, pontes, postos de patrulhamento, comboios, transeuntes e cidades inteiras, como Ismailia (na foto). Os navios passam pelo Suez em comboios alternados, descendentes ou ascendentes, acompanhados por rebocadores e pilotos egípcios, a uma velocidade reduzida para não provocarem o assoreamento do canal.
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No sétimo dia, às 08:00 horas, depois de descermos o Golfo de Suez e subirmos o de Aqaba, chegámos à cidade com este nome, na Jordânia. Cidade imortalizada pela película de David Lean, “Lawrence da Arábia”, no qual se mostra como Thomas Lawrence (22 cms mais pequeno que o igualmente genial Peter O’Toole, que o representou no filme), à frente de um  pequeno exército de tribos árabes, tomou Aqaba aos Turcos, em plena Grande Guerra, chegando pelo caminho menos esperado – o deserto.
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A viagem de Aqaba até Petra faz-se cruzando uma região semi-árida, quase desértica, com muitos quilómetros quadrados de calhaus e pó. Mas vale a pena. O turismo em Petra está a ser aproveitado para desenvolver a região e, tanto quanto pudemos ver, os locais estão a fazê-lo bem. Agradou-nos muito perceber que a Jordânia, apesar do fervor religioso, bem presente nas inúmeras mesquitas que vimos, é um país diferente de todos os outros desta conturbada região – e para melhor. É um país surpreendentemente tolerante, que privilegia a paz, em larga medida devido à orientação política dos seus monarcas – descendentes diretos do profeta Maomé – que governam o país desde 1921.
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Os cinco dias seguintes foram passados a navegar. Descemos o Mar Vermelho, até entramos no Golfo de Aden, e, pouco depois, no Mar Arábico (onde tirámos esta foto), já em pleno Oceano Índico. Apesar dos divertimentos a bordo, cinco dias no mar são de mais, pelo que há que gerir bem o tempo, aproveitando ginásio e piscinas para exercitar um pouco o corpo, não abusando dos momentos de descanso e relax, como este, em que assistimos, da nossa cabina, ao pôr-do-sol. Embora esta seja a zona de atuação dos piratas somalis, passámo-la, felizmente, sem qualquer problema.
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E assim chegámos, na manhã do 13º dia, à vila e porto de Muttrah, que se insere na província de Muscat, capital de Omã. O centro de Muttrah (na foto) e o de Muscat distam uns 3 kms um do outro. No primeiro encontra-se o comércio local (encontrámos no mercado muitos peixes nossos conhecidos, incluindo sardinhas), e no segundo os serviços administrativos, bem como alguns museus e monumentos interessantes. As pessoas são simpáticas, apesar de muito poucas falarem inglês. Como de costume, partimos às 18 horas.
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O dia seguinte foi passado entre poços de petróleo, em ambas as margens do Golfo Pérsico, à direita os xiitas do Irão e à esquerda os sunitas dos Emirados, até atingirmos, no 15º dia, Doha (na foto), capital do Qatar. São notórios os efeitos do petróleo, desde os arranha-céus aos carros de alta cilindrada, passando pelas fotos omnipresentes dos membros (masculinos) da família real e os edifícios públicos de grandes dimensões, como o magnífico e imponente Museu de Arte Islâmica, que vale, sem dúvida, uma visita.
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O Golfo Pérsico alberga, assim, alguns dos países mais ricos do mundo (Irão, Iraque, Bahrain, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos), graças ao “ouro negro”. De noite é possível ver-se, um pouco por todo o lado, a chama dos poços de petróleo. O Splendida zarpou de Doha, como de costume às 18:00 horas e navegou muito lentamente (cerca de 10 nós) para chegar à ilha de Sir Bani Yas – pertencente aos Emirados Árabes Unidos, e com uma praia privativa (na foto) para os passageiros de algumas companhias de cruzeiro, incluindo a MSC – às 8:00 horas do dia seguinte.
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E depois de um dia de praia, rumámos a uma nova grande metrópole, destino final do nosso cruzeiro: o Dubai. O “petromoney” tornou-a uma cidade de fachada. Arranha- céus (pediram-nos o equivalente a 300 euros para subirmos ao edifício mais alto do mundo!), grandes avenidas, veículos potentes, uma larga maioria de trabalhadores estrangeiros – sobretudo indianos, paquistaneses e africanos – e poucas ruas onde se possa circular naturalmente, a pé. Ao 18º dia regressámos, de avião, a casa. A melhor parte do cruzeiro foi o primeiro terço.

O navio (MSC Splendida) ficará agora cerca de três meses e meio no Golfo Pérsico até partir para o Mar da China, onde cumprirá mais uma temporada, circulando entre países como o Japão, a Coreia do Sul e, claro, a própria China. Nessa nova viagem de reposicionamento, de Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos) a Yokohama (Japão), durante 26 dias, visitará mais nove países – do Médio ao Extremo-Oriente. Mais um cruzeiro de reposicionamento muito atrativo para quem tiver disponibilidade de viajar em abril, mês em que decorrerá a viagem.

Entretanto, seria muito interessante que uma indústria tão próspera quanto o é a dos cruzeiros marítimos e fluviais, mostrasse uma maior (e efetiva) preocupação ambiental. Um grande navio de cruzeiro (e há que ter em conta que eles são cada vez maiores) polui o equivalente a mais de 100.000 automóveis, algo inconcebível numa época em que as questões ambientais constituem uma prioridade a nível mundial.

Monsanto, Portugal

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A aldeia de Monsanto é uma belíssima reorganização granítica levada a cabo pelo homem na encosta de um monte escarpado com 758 metros de altura (no atual concelho de Idanha-A-Nova no centro de Portugal) que, como a palavra indica, é, foi ou seria “santo” (Mons Sanctus): Monsanto – a Aldeia mais Portuguesa de Portugal.
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Esse título foi-lhe atribuído em 1938, por ter vencido um concurso organizado pelo Serviço Nacional de Informação, e uma réplica do troféu correspondente – um galo de prata, criado por Abel Pereira da Silva – ornamenta o topo exterior da Torre do Relógio (antiga torre sineira), visível, pelo ângulo fixado nesta foto, por trás da Igreja da Misericórdia (em primeiro plano), esta construída no século XVI.
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Mas as distinções sucedem-se ao longo do tempo. Em 2016, a Associação das Agências de Viagem do Japão – através da votação de mais de 300 agentes de viagem e profissionais do turismo – incluiu Monsanto no lote restrito das “30 aldeias mais bonitas da Europa”. Não é difícil perceber porquê quando, cercados pelos seus imponentes penedos graníticos, deambulamos por Monsanto.
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Penedos que comprimem habitações e ameaçam esmagá-las mas que, realmente, são a sua proteção natural. A singularidade deste lugar gira toda em torno do granito, cuja aspereza nos entra pelos olhos e pelos poros. Sem dúvida que estas pedras tiveram uma influência determinante sobre os indivíduos que, desde tempos ancestrais, vêm ocupando este monte, desde o sopé até o cume, primeiro, e do cume para baixo, depois.
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Indivíduos afáveis os que hoje aqui vivem e que vamos encontrando aqui e além durante a nossa escalada até ao topo deste monte santo. De vez em quando paramos para recuperar o fôlego, aspirando o ar puro, e tomar um gole da excelente água que se pode encontrar em fontes diversas, como a do Penedo ou a de São Pedro, entre outras.
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Mas vale a pena chegar ao cume, onde encontramos o castelo. O primitivo fora construído no século XII pelos Templários sobre uma anterior fortificação muçulmana. No entanto, o que vemos hoje já nada tem a ver com o castelo dos Templários. Houve várias reconstruções ao longo do tempo, sobretudo a efetuada no início do século XVI, por Duarte de Armas. Em 1815, uma violenta explosão de pólvora no paiol destruiu quase completamente o interior do castelo. A última reforma significativa (não muito feliz) foi realizada no século XX.
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No exterior do castelo encontramos uma necrópole com sepulturas, de formato antropomórfico, escavadas na pedra. Ao que parece, são anteriores ao reinado de D. Afonso Henriques e há quem diga que são até anteriores ao período medieval (a avaliar pelas dimensões, como se vê na foto, isso parece-nos plausível). Chamaram-lhe necrópole de São Miguel por se encontrar junto a uma capela com o mesmo nome, construída em finais do século XII, provavelmente, assim sugerem alguns achados, sobre um templo anterior .
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Vale a pena visitar Monsanto, um lugar que inspira. O grande escritor Fernando Namora, que aqui exerceu medicina (de 1944 a 1946), escreveu: ” Cada manhã em Monsanto nasce o mundo. Lá me apercebi que a sombra é azul”. E José Saramago: “De pedras julgava o viajante ter visto tudo. Não o diga quem nunca veio a Monsanto”. (Ilustração de Ricardo Coelho/Portugal: Todas as cores).

Belmonte, Portugal

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Belmonte é uma vila portuguesa cheia de história. No seu castelo nasceu Pedro Álvares Cabral, o comandante da armada que, a caminho da Índia, se desviou (propositada ou acidentalmente – eis a questão) até a costa oriental do Brasil. Belmonte (que recebeu foral de D. Sancho I em 1199) faz parte de um grupo de doze localidades do interior de Portugal, relativamente próximas entre si, reunidas num produto turístico chamado Aldeias Históricas de Portugal.
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Em Belmonte a bandeira do Brasil tremula ao lado da bandeira de Portugal. A vila é geminada com quatro cidades brasileiras: a sua homónima, Belmonte, e Santa Cruz de Cabrália, na Bahía; São Vicente, em São Paulo; e Ouro Preto, em Minas Gerais. Esta é, pois, uma vila que, sem dúvida, merece a visita dos nossos amigos brasileiros.
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Em Belmonte podemos visitar quatro museus: o Museu Judaico (atualmente em obras), o Museu do Azeite (num antigo lagar do século XIX), o Ecomuseu do Zêzere e o Museu dos Descobrimentos. Tantos museus num espaço reduzido, como é o desta pequena vila, é algo pouco comum em qualquer parte do mundo, e constitui uma prova da importância cultural deste belíssimo burgo.
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Mas os locais e as exposições a visitar vão além dos museus. A Casa Etnográfica de Caria, a Igreja de Santiago, o Panteão dos Cabrais e, claro, o Castelo, são locais a visitar. Neste pode apreciar-se, até maio do presente ano, uma excelente exposição sobre a conquista de Ceuta, em 1415 – da qual participou um bisavô de Pedro Álvares Cabral (Luís Álvares Cabral) – que marca o início da expansão portuguesa conhecida por Descobrimentos.
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Pode (e deve) também dar-se um salto à Serra da Estrela, via Manteigas, mesmo ali ao lado, e visitar, ainda dentro de Belmonte, igrejas, capelas, edificações romanas, e a sinagoga Bet Eliahu – face à forte tradição judaica, que remonta ao século XIII.  Há alojamento de qualidade disponível e, claro, a gastronomia é excelente. A zona de Belmonte é ideal para servir de base a quem queira visitar também as outras aldeias históricas. E isto é válido em qualquer estação do ano, cada uma com seus encantos.

Estreito de Messina, Itália

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Em primeiro plano a Villa San Giovanni, na Calabria; em segundo, a costa oriental da Sicília (entre estes dois planos encontra-se o Estreito de Messina); em terceiro plano, o Etna.
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A localidade de Torre Faro no extremo Nordeste da Sicília. Para quem vem de navio do Sul (de Malta, como foi o nosso caso), aqui é o fim do Estreito de Messina. O centro da cidade que dá nome ao estreito, fica uns oito quilómetros antes deste extremo.
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Continuando a subir chegamos ao Mar Tirreno, onde são visíveis as belas ilhas Eólias – Património Mundial da UNESCO. Uma das oito é  esta ilha de Stromboli, onde se situa um dos três vulcões ativos de Itália.

Malta

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A cruz dos Cavaleiros Hospitalários num portão de Valeta.

1- Tempos Remotos

De acordo com uma conhecida teoria científica, Malta, Gozo e Comino (as ilhas habitadas de Malta) nem sempre foram ilhas. Há uns seis milhões de anos, após um movimento das placas tectónicas ter fechado o que chamamos Estreito de Gibraltar, a água do grande lago em que se transformou então o Mediterrâneo começou a evaporar-se, a um ritmo muito mais rápido que o da fornecida pelos rios, até restar apenas um enorme deserto de sal[1]. O tempo continuou correndo até que o movimento das placas, depois do choque entre os continentes africano e europeu[2], começou a retroceder, abrindo novamente o estreito. Foi quando a água do Atlântico invadiu o leito do Mediterrâneo – qualquer coisa como 17.000 quilómetros cúbicos de água por dia, uma catarata gigantesca[3]. Ao Mar Negro terá sucedido o mesmo: aumentou significativamente de tamanho quando o Estreito de Dardanelos se formou, mas isto ocorreu muito mais tarde, quando já havia gente a habitar as margens, as quais terão submergido a um ritmo de 10 centímetros por hora. Esta é a teoria da Grande Inundação[4] e, ao que parece, ela faz sentido, face, entre outras evidências que referiremos a seguir, à descoberta de uma gruta em Malta, que ficou conhecida como Ghar Dalam, onde foram encontrados ossos de hipopótamos e de elefantes-anões, que não poderiam ter ali vivido se o local estivesse inserido numa ilha, pois estes animais necessitam de grandes áreas para se reproduzirem.

O início da ocupação humana no arquipélago deve remontar, pois, à época pré-diluviana, como comprovam as ferramentas da Idade da Pedra encontradas em Ghar Dalam. Não restam dúvidas de que esta gruta existe há centenas de milhares de anos, o que se pode provar pelas abundantes estalagmites e estalactites ali presentes. As várias camadas do solo revelam que a gruta foi ocupada consecutivamente desde tempos ancestrais. Já o complexo de Hagar Qim, situado no Sudoeste da ilha de Malta, remonta ao período Neolítico, há cerca de 10.000 anos. Aqui se encontra o que resta de um templo, que, surpreendentemente, pode ser o mais antigo do mundo. Esta longevidade está comprovada pelos cientistas, sobretudo pela análise de dois tipos de pedras calcárias que serviram às construções, particularmente o desgaste que as mesmas sofreram pela erosão, o qual pode ser calculado em anos. Este complexo foi ocupado por séculos, ou mesmo milénios, e as colinas torcidas de algumas edificações, bem como as grandes pedras atiradas para fora do seu lugar, no sentido oeste-leste, parecem dar crédito à teoria da Grande Inundação, uma vez que as águas, vindas em marés gigantescas do Atlântico, devem ter atingido grande parte da superfície do arquipélago. Mais do que isso: arrancaram grandes pedaços de terra da costa ocidental de Malta[5]. Como sabemos isto? Sabemo-lo porque em vários locais do arquipélago são visíveis linhas de sulcos paralelos que terminam abruptamente à beira de penhascos. Estes sulcos foram feitos pelas rodas de pedra dos veículos que transportavam materiais para as construções.

Os primitivos habitantes de Malta construíram templos não apenas em Hagar Qim, mas também em Mnajdra, Ggantija, Borg in-Nadur e Hal Saflieni. Eram engenhosos, adoravam vários deuses e sacrificavam animais em altares, recolhendo o seu sangue em cálices de pedra para satisfazê-los, particularmente a Deity, deusa da fertilidade. Os seus conhecimentos de astronomia eram profundos. O templo de Hagar Qim está orientado no sentido da lua e a entrada principal virada para o nascer da lua cheia no seu ponto máximo, enquanto a porta traseira enfrenta o ocaso dessa mesma lua cheia. As técnicas de construção deste povo primitivo mantiveram-se durante milénios e foram usadas ainda pelos cavaleiros hospitalários na construção de Valeta: os buracos escavados no solo para se retirarem as pedras com as quais se construíram palácios e habitações, foram transformados em estábulos, armazéns, lojas e poços. O longo hiato entre o fim desta civilização primitiva e o aparecimento de um novo povo em Malta é difícil de preencher mas, face à localização geográfica de Malta, bem no centro do Mediterrâneo, seria expectável que os novos ocupantes do arquipélago fossem comerciantes e navegadores.

2- Fenícios, Cartagineses e Romanos

Ora, os primeiros no mundo a reunir estes requisitos foram os fenícios, povo oriundo da zona onde se situa hoje o Líbano. Há quem diga que o maltês, a língua nacional de Malta, ainda deriva da língua falada pelos fenícios[6], e como tal consideram-no uma língua semítica, enquanto outros dizem tratar-se de uma língua originalmente púnica, trazida pelos cartagineses. Mas isto é muito controverso. Certo é que, após os fenícios, foram os cartagineses, enquanto principal potência do Mediterrâneo, os que se lhes seguiram como ocupantes do arquipélago. Para além de vários objetos, como moedas, amuletos, etc, estes povos deixaram em Malta a sua marca genética, comprovável na aptidão para a navegação dos malteses, a par da sua tolerância e resiliência, enquanto povo habituado a conviver com a diferença, desde logo pelo longo período da sua história em que estiveram submetidos a potências estrangeiras.

A invejável localização estratégica de Malta (bem como os excelentes portos naturais) foi aproveitada pelos romanos para se tornarem os novos grandes senhores da bacia do Mediterrâneo, após desalojarem os cartagineses de Malta e os derrotarem definitivamente na Terceira Guerra Púnica. Consolidada a vitória e depois o império, o domínio romano em Melita[7] estender-se-ia por mais de sete séculos. Face à larga comunidade romana ali estabelecida, Malta tinha um estatuto relevante dentro do Império Romano (provavelmente, uma civitas sine foedere libera), com um governador que respondia diretamente a Roma. Como seria de esperar, o legado romano é relevante no arquipélago: Edificações diversas, como o domus, em Rabat, com um peristylium de mosaico no centro para reter a agua da chuva; estátuas de mármore, como a bem preservada cabeça de Tibério; as termas em Ghajn Tufficha, com banhos quentes e frios e o seu hypocaustum (um compartimento para o aquecimento da água); poços; túmulos; estátuas de deuses e deusas; ânforas; moedas. Enfim, pelos longos anos de permanência, os romanos implantaram em Malta as suas crenças, religião, língua e cultura.

Como se sabe, só a partir do século IV os romanos se converteram oficialmente ao cristianismo, após Constantino ter dado início ao Império Bizantino. Antes disso os cristãos foram perseguidos e muitas vezes mortos[8], pois movimentavam-se dentro do espaço controlado por Roma. O apóstolo Paulo, que antes fora o judeu Saúl de Tarso, foi um desses cristãos. Após se converter ao cristianismo, ele fez várias viagens de evangelização até regressar a Jerusalém e ser preso. Levado para Roma, o navio onde seguia naufragou junto a Malta, e todos os ocupantes se salvaram, sendo bem acolhidos pelos locais. São Paulo ficou em Malta três meses, antes de retomar viagem para a capital do império. Este episódio é narrado nos Atos dos Apóstolos (capítulos 27 e 28), e os malteses baseiam-se nele para afirmar que São Paulo é o fundador do cristianismo no arquipélago. Há quem conteste a presença do apóstolo em Malta e diga que o naufrágio terá ocorrido em Creta, mas, em geral, o relato é aceite. Paulo terá praticado o seu proselitismo junto de uns dois ou três milhares de malteses, sobretudo perto da capital, (que à época se situava numa colina de Rabat), corria o ano 60 da nossa era. Posteriormente morreu em Roma, sob as ordens de Nero. A passagem de Paulo de Tarso por Malta marcou indelevelmente os malteses. De tal ordem, que estes se mantiveram até hoje, ainda que por vezes subjugados e impedidos de praticar a sua religião, crentes da Igreja Católica Apostólica Romana. Durante ainda três séculos a Igreja de Malta, supostamente criada por Paulo, teve de conviver com os pagãos que veneravam os deuses romanos. Ao que parece isto decorreu pacificamente. E Malta escaparia também à fúria de vândalos e godos, quando estes puseram fim ao grande Império Romano do Ocidente, espalhando o terror por onde passavam, algo que parece não ter acontecido em Malta, uma vez que não foram encontrados registos nesse sentido.

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Valeta

3- Bizantinos e Árabes

O que se sabe ao certo é que os bizantinos acabariam por expulsar os bárbaros e tornar-se os grandes dominadores do Mediterrâneo e, como seria de esperar, de Malta também. A capital do novo império rumara a Oriente, de Roma para Constantinopla. A era bizantina em Malta durou cerca de 400 anos, sem grandes registos dado que as pequenas ilhas de Gozo e Malta estavam administrativamente integradas na sub-divisão regional que incluía Sicília, Calábria, Basilicata e Puglia, no Sul de Itália. A sua importância estratégica deveria resumir-se às excelentes condições naturais para receber navios em escala ou necessitados de abrigo. Sabe-se também que Malta serviu como local de desterro para prisioneiros durante essa época. Certamente que o grego era a língua oficial, e isso é constatável em algumas palavras, sobretudo de caráter religioso, que ainda hoje fazem parte da língua maltesa. A principal razão para a quase completa ausência de registos desta época bizantina prende-se com os ocupantes que vieram depois – os muçulmanos. Estes devem ter destruído imagens e símbolos religiosos, além de construírem as suas mesquitas sobre os restos das igrejas bizantinas derrubadas. Como sempre, os novos senhores do Mediterrâneo passaram a ser simultaneamente os donos do pequeno arquipélago situado bem no seu centro.

Os árabes chegaram a Malta no século VIII e aqui permaneceram até o século XI, durante cerca de 300 anos. Como seria de esperar impuseram a sua língua, religião e cultura. A capital de Malta foi construída no topo de uma colina, como era costume naquela época. A cidade de Medina[9] albergava dentro das muralhas toda a população, algo bastante inteligente do ponto de vista defensivo, pois assim seria menos difícil resistir a um invasor em caso de cerco. Os muçulmanos deixaram os seus traços um pouco por toda a ilha, não apenas em Medina. Mesquitas, túmulos, vocábulos. Os exemplos são vastos, e um bastante significativo é o da palavra que significa Deus em maltês – “Alia” – obviamente derivada de “Allah”, em árabe. Muitos apelidos árabes (Abdilla, Axiaq, Cassar, Fenech, etc.) foram adotados pelos malteses e o nome próprio Mohammed, como mostram os registos, foi atribuído a um grande número de crianças masculinas. De acordo com alguns historiadores, a aderência a este nome próprio árabe não foi tanto uma aceitação dos costumes muçulmanos – e muito menos uma conversão ao islamismo – mas sobretudo uma tática adotada por questões de sobrevivência.

O fervor católico, porém, continua a sentir-se em Malta, como aliás veremos mais à frente. Muitos historiadores, eles próprios católicos, interpretaram a história de acordo com as suas crenças, ao ponto de alguns confundirem factos com lendas. Só nos últimos tempos têm surgido historiadores verdadeiramente independentes. Isto pode ver-se pela importância que atribuíram à chegada a Malta, em 1091, do normando (os normandos seguiram-se aos muçulmanos no domínio do arquipélago) Count Roger[10], que governava a Sicília. Muitos lhe atribuem a reintrodução do catolicismo como religião intrinsecamente maltesa, mas de facto as coisas não se passaram dessa maneira. É muito mais provável que várias confissões religiosas tenham convivido em Malta durante o período normando, que durou efetivamente de 1127 até 1266. Só com Count Roger II se consolidou o domínio normando. E este domínio, uma vez que se exercia muito longe do coração do reino, tinha de seguir uma estratégia tolerante para evitar conflitos e sobreviver. Foram encontrados túmulos muçulmanos que provam a prática do islamismo durante essa época. E o ritual cristão grego era tolerado, pois o mesmo era conveniente para manter a distância entre as classes mais desfavorecidas, que o praticavam, e os senhores normandos e a aristocracia mais abastada, que praticavam o rito católico. Não existiu, pois, uma generalização do catolicismo.

4- Angevinos e Aragoneses

Este foi um período muito conturbado na Europa, sobretudo em Itália, onde próprios católicos lutavam entre si. Os apoiantes do imperador germânico (ghibellines) lutavam contra os apoiantes do papa (guelphs) – e este era muito mais um chefe militar empenhado na gestão dos respetivos estados papais do que um guia espiritual e religioso. Foi nesta época que surgiu também a ideia das cruzadas, com o intuito de libertar a Terra Santa das mãos dos infiéis. Eram tempos realmente conturbados, onde a administração da justiça não existia e prevalecia a lei do mais forte. Este cenário constituiu o início de um tipo de “justiça” que mais tarde se chamaria omertà, popularmente conhecida como máfia. Não constitui surpresa que nestes tempos se tivesse desenvolvido a pirataria, com tripulações bem equipadas e exclusivamente dedicadas a essa atividade, sobretudo no Mediterrâneo. Foi neste ambiente confuso e incerto que o papa Urbano IV, em 1266, ofereceu o reino das Duas Sicílias (Nápoles e Sicília) a Carlos de Anjou[11]. Malta, considerado um apêndice, na realidade um feudo, da Sicília ficou assim sob o domínio dos angevinos[12]. Estes dominaram a região com crueldade e eram odiados pelos locais. Até que na terça-feira de Páscoa de 1282, os sicilianos se revoltaram contra os franceses – intentona que ficou conhecida como Vespri Siciliani, por ter ocorrido à hora da missa do fim de tarde. No espaço de um mês todos os angevinos franceses tiveram de fugir da Sicília e o trono foi concedido a Pedro III de Aragão. Só um ano depois, em 1283, os aragoneses ocupariam o lugar dos angevinos em Malta. Essa ocupação, porém, também não deixaria saudades, com a desvantagem de que decorreu por muito mais tempo.

Apesar de derrotados na Sicília, os angevinos mantiveram-se em Nápoles. Venezianos e genoveses eram seus aliados. Os aragoneses impuseram-se na Sicília. Pedro III entregou o reino de Aragão ao seu filho Afonso e o reino da Sicília, que incluía Malta, a outro filho – Jaime. Este jurou solenemente que jamais abandonaria seus súbditos, mas cinco anos depois, quando seu irmão Afonso morreu, tornou-se rei de Aragão, com o título de Jaime II. Logo em 1295, encetou negociações com o papa da época – Bonifácio VIII – no sentido de trocar a Sicília, o arquipélago de Malta e Pantelleria[13] pelas Córsega e Sardenha. Ao saberem desta traição, os sicilianos proclamaram como seu rei Frederico, irmão de Jaime II e terceiro filho de Pedro. Deram-lhe o título de Frederico III, em Catânia, corria o mês de janeiro de 1296, e o novo rei haveria de manter-se à frente do seu reino por mais 41 anos, perante o desagrado de Jaime II e do Papa. Este vingou-se do apoio dos malteses a Frederico e não nomeou um novo bispo para Malta quando o que estava na ilha faleceu. Mas Frederico III também não foi um bom soberano. Para manter os nobres satisfeitos acabou por lhes oferecer terras (feudos), sendo o caso de Malta e Gozo, que passaram de mão em mão ao sabor das negociatas entre as famílias nobres e ricas, incluindo a real.

Os malteses continuaram sendo explorados de uma maneira ou de outra – e as sucessivas promessas que lhes fizeram jamais foram cumpridas. A vida de muitos deles estava ligada à pirataria. De facto, a par com os gregos, genoveses e sardenhos, os malteses foram os maiores piratas do Mediterrâneo até o século XVIII. Para piratear, porém, era necessária uma licença, passada pelo vice-almirante da Sicília, e esta atividade só podia ser exercida sobre os inimigos, isto é, islamistas – turcos ou árabes. A pirataria era importante também para afugentar intrusos, sobretudo num arquipélago, e os nobres tinham obrigação de financiar a construção naval. Por isso a carpintaria era uma profissão importante, tal como as profissões de ferreiro e pedreiro, a primeira necessária para o fabrico de armas e a segunda para a construção em geral. Na época dos aragoneses, a agricultura em Malta baseava-se sobretudo na produção de azeite e de algodão. Mas havia também vinhas e culturas de cominho. Assim decorreram os anos, as décadas e os séculos nestas sociedades estritamente hierarquizadas, autocráticas e déspotas,[14]  até se cumprirem mil e quinhentos anos depois do nascimento de Cristo. Foi então que apareceu na cena europeia um dos monarcas mais poderosos de sempre – Carlos V (Carlos I de Espanha), que se tornaria o líder máximo do Sacro Império Romano-Germânico, a partir de 1519[15]. Considerado o primeiro rei de Espanha – governando sobre Castela, Aragão e Leão simultaneamente – Carlos governaria ainda a Alemanha, a Sardenha, o Reino das Duas Sicílias (do qual Malta fazia parte), bem como as novas terras de além-mar conquistadas pela Espanha. De facto, o Sacro Império Romano, criado para substituir os velhos impérios constantiniano e carolíngio, compreendia a maior parte do mundo conhecido naquela época.

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O albergue hospitalário de Castela, Leão e Portugal.

5- Hospitalários

Investido de tamanho poder, Carlos decidiu – através de um decreto, em maio de 1530 – entregar Malta à ordem religiosa, constituída por monges militares, conhecida como Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém. Fora em Jerusalém, em 1099, que um tal Gerard criara uma irmandade para acolher e tratar os peregrinos cristãos, oriundos, sobretudo, do Ocidente europeu[16]. Esta irmandade foi reconhecida em 1104 pelo rei Balduíno I de Jerusalém, e em 1113 através de bula papal de Pascoal II, foram superiormente sancionados os seus estatutos. Assim nasceu a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João de Jerusalém. Naquela época (sobretudo no glorioso período das Cruzadas, entre 1095 e 1272), foram criadas ainda outras duas importantes ordens religiosas e militares: os Cavaleiros do Santo Sepulcro (mais tarde também conhecidos como Cavaleiros Templários) e os Cavaleiros Teutónicos de Santa Maria de Jerusalém. A maior parte dos membros destas ordens era de origem nobre, e isso contribuía para o prestígio militar e a riqueza material das mesmas, para além da evidente característica religiosa que obrigava aos votos de obediência, pobreza e castidade.

Após cerca de um século em Jerusalém, os Cavaleiros Hospitalários foram expulsos da cidade pelos muçulmanos-turcos, refugiando-se em Acre[17], corria o ano de 1187. Os turcos, porém, não deixaram de os perseguir e os hospitalários foram obrigados a refugiar-se em Chipre, aonde chegaram em 1291. Mas este lugar não era ainda o adequado para as suas necessidades pelo que, em 1309-10, chegaram à ilha de Rodes – onde se fixaram até 1522. O poderio turco era então incontestável no Mediterrâneo, e os otomanos cercaram Rodes, obrigando os hospitalários a render-se, após uma longa e heróica resistência (de acordo com fontes provenientes da própria ordem) a um implacável cerco turco. Esse heroísmo terá sido reconhecido pelos próprios otomanos, que deixaram partir os cavaleiros-monges com seus bens, apesar de, de novo, sem lar e sem estado.

Foi então que, após vaguearem por alguns anos à procura de um novo refúgio, Carlos V lhes concedeu, como feudo, o arquipélago de Malta. Mas os turcos não desistiram e voltaram a cercar os hospitalários. Após meses de cerco a Borgo (cidade-vizinha a sudeste da atual Valeta), cortados todos os meios de abastecimento, já sem qualquer reserva de comida, os malteses estavam próximos da capitulação. Este episódio ficou conhecido na História de Malta como o Grande Cerco – e mais uma vez os historiadores hospitalários destacaram a extraordinária e heróica resistência da ordem, face os invasores otomanos. Há uma grande dose de romantismo sobre este período, bem patente na poesia épica maltesa, referindo a bravura dos habitantes que lutaram lado-a-lado com os hospitalários em ações de puro heroísmo. Subitamente, quando a resistência estava chegando ao seu limite e a derrota parecia iminente, miraculosamente, em 8 de setembro de 1565, os turcos levantaram o cerco e partiram. Foi um alívio não apenas para os cavaleiros e os malteses, mas para toda a Europa ocidental.

Em consequência deste grande cerco, foi considerado que Borgo não era o local ideal para sediar o quartel-general da ordem. Decidiu-se que o mesmo deveria deslocalizar-se para o Monte Sciberras, um lugar considerado muito mais seguro. Assim se erigiu a cidade de Valeta, a primeira da era moderna a ser planeada e construída em forma de rede. Grande parte das edificações da cidade datam, pois, deste período. Além do quartel-general, um deslumbrante palácio, erigiram-se os albergues das diversas langues (grupos linguísticos dentro da ordem), que eram em número de oito[18], bem como as respetivas capelas e igrejas, onde os serviços religiosos eram celebrados nas línguas nativas dos diversos monges, e a grande catedral, comum  a todos, dedicada ao santo padroeiro da ordem, João Batista. Mas, sobretudo, era preciso tornar a cidade inexpugnável. Foram chamados os melhores arquitetos europeus, os melhores pedreiros e mestres, e reunidas as melhores mentes. E assim se usaram as pedras locais para construção dos edifícios, enquanto o espaço que as mesmas anteriormente ocupavam eram utilizados como labirintos subterrâneos, que serviriam para fugir de potenciais inimigos e como passagem para mensageiros. Debaixo desses edifícios ficavam igualmente poços, estábulos e armazéns. Os Cavaleiros da Ordem Militar de São João de Jerusalém quiseram que a nova cidade fosse uma Civitas Humillima e, simultaneamente, a mais nobre da Europa, uma obra-prima do seu vigor estético e um exemplo para o mundo, não tendo poupado esforços para o conseguir. O resultado é a deslumbrante Valeta, que tivemos o privilégio de visitar e conhecer.

Os membros da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, Rodes e Malta[19] mantiveram-se durante mais de dois séculos no pequeno arquipélago, mas não foram os únicos com poder. Não podemos esquecer-nos que aquela foi uma época em que atuava a Inquisição[20]. Na verdade, em Malta existia uma sobreposição de legislação, originada por três fontes – hospitalária, inquisitorial e episcopal. No final do século XVI, Roma atribuía ao inquisidor plenos poderes, relativamente a questões morais, espirituais e materiais. Este era o representante do Santo Padre em Malta e como tal, reclamava absoluta jurisdição sobre o que se passava nas ilhas. Este poder paralelo criava grande tensão e fricção com os cavaleiros hospitalários, habituados ao poder absoluto. Estes tinham os seus tribunais próprios e, na sua perspetiva, deveria ser o seu Grão-Mestre, auxiliado pelo venerável Conselho Hospitalário, o governante máximo das ilhas, dono da palavra final sobre qualquer assunto dentro do seu território. Na prática, porém, os inquisidores não estavam sobre a tutela dos hospitalários, o que criava nestes uma grande irritação.

Com as disputas entre estas duas forças  – Inquisição e Hospitalários – tendemos a esquecer uma terceira: o Governo, sediado em Medina (a “velha capital”), conhecido como a Università dei grant, cujo Mayor e respetivos conselheiros se ocupavam sobretudo do aprovisionamento de comida. A Università, no fundo, o governo das pessoas comuns, era constituída por nobres, empenhados na cobrança de impostos – a maior parte em géneros, como, por exemplo, cereais – e no seu armazenamento; em cobrar taxas sobre os navios que demandavam os portos malteses; em defender as localidades e quintas costeiras dos ataques dos piratas; e em recrutar homens habilitados a combater nas forças armadas, na luta contra os invasores e na manutenção da lei e da ordem. Com a vinda dos monges militares hospitalários, muitas destas funções passaram a ser exercidas por eles. A presença da ordem em Malta não era bem vista pela população. Desde logo porque trouxe atrás dela a ameaça dos turcos, mas também porque a população era obrigada a realizar as mais duras tarefas sob a jurisdição hospitalária, como remadores nas galés, enfermeiros nas guerras, construtores de muralhas e palácios, entre muitas outras ocupações servis. Assim, foi com alegria que muitos viram chegar à ilha os franceses. Mas, uma vez mais, os acontecimentos mostraram que não havia qualquer motivo para regojizo.

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Placa evocativa do auxílio da esquadra portuguesa, comandada pelo Marquês de Nisa, à população de Malta, aquando da ocupação das ilhas pelos franceses, que aqui permaneceram em 1798 e 1799. Esta placa foi descerrada pelo Presidente da República de Malta, Eddie Fenesh Adami, em 2 de setembro de 2008, nos “Upper Barracks Gardens”, em Valeta.

6- Franceses

Nos últimos anos do século XVIII apareceu na cena europeia Napoleão Bonaparte, apostado em construir o maior império de sempre. Uma das primeiras incursões de Bonaparte foi ao Médio Oriente, mais propriamente ao Egito, uma tentativa (que se revelaria frustrada) de conquistar à Inglaterra o território que servia de entreposto no comércio daquele país com a Índia. Pelo caminho os franceses passaram por Malta, e conquistaram facilmente o arquipélago. Esta conquista aparentemente insignificante representou muito pois, apesar de pequeno, este território possuía uma importante localização estratégica, e Napoleão pôde destronar os nobres hospitalários do poder, e assim satisfazer um dos seus maiores desejos: perseguir e vergar os membros da aristocracia, que detestava. Em junho de 1798 o Grão-Mestre dos Hospitalários, o alemão Ferdinand von Hompesch, rendia-se aos franceses, evitando o derramamento de sangue. A Ordem de Malta – designação que deriva da presença dos hospitalários neste arquipélago – que tão heroicamente resistira aos turcos, era agora desfeiteada em apenas dois dias – e os seus membros regressavam às terras de origem, não mais voltando a ter, até hoje, um lar comum.

Não houve resistência à invasão francesa porque os malteses estavam cansados dos hospitalários. O Governo do povo, a Università, não aceitava não ser consultado em matérias como a coleta de impostos e outras que diziam respeito, afinal, ao seu país. Viam os cavaleiros como intrusos de quem queriam livrar-se quanto antes. Por outro lado, havia nas ilhas muitos elementos da maçonaria, que também detestavam os hospitalários. Não devemos esquecer-nos que originalmente os templários eram designados por Cavaleiros do Santo Sepúlcro, isto é, do templo, daí a sua designação de Templários. A sua razão de ser, mesmo se tivermos em conta os símbolos que apresentavam, devia-se à condição de construtores. Eles edificavam muralhas e fortalezas inexpugnáveis, fabulosos palácios e majestosos edifícios até a sua ordem ter sido extinta por decreto Papal. Tornaram-se então maçons (“pedreiros”) livres, sem que tivessem de obedecer a qualquer tipo de votos, e vivendo clandestinamente, com medo de serem julgados como heréticos pela Inquisição. Grande parte das riquezas dos hospitalários resultaram da dissolução dos templários[21]. Mas também agora aqueles conheceriam, e de forma definitiva, a sua diáspora.

Os franceses não deixariam um legado feliz em Malta. Determinados em demolir tudo o que fizesse recordar os hospitalários, dedicaram-se a pilhar e destruir palácios, conventos, igrejas, edifícios estatais e casas senhoriais. Deixando um subordinado como Governador-Geral do arquipélago, Napoleão continuou a viagem rumo ao Nilo, com grande parte do saque a bordo dos seus navios. Ali chegados, na boca do rio, os franceses sofreram uma tremenda derrota às mãos dos britânicos e muito do que roubaram em Malta deve estar ainda hoje, debaixo de camadas de sedimentos, no leito do Nilo. Há ainda material roubado que foi incorporar coleções públicas ou privadas, como é o caso da espada oferecida ao Grão-Mestre Jean Parisot de La Vallette pelo rei Filipe II de Espanha, exibida no Museu do Louvre como uma oferta dos malteses, quando na verdade foi roubada pelos franceses quando estiveram no arquipélago. Os franceses governaram com mão de ferro, de tal forma que os malteses se revoltaram, pois não tinham já nada a perder[22]. Muitos foram mortos em combate ou fuzilados sumariamente, mas por fim conseguiram remeter os franceses aos seus redutos fortificados. Isolados, sem possibilidades de abastecimento, estes cederam aos populares.

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A Cruz de George figura na bandeira de Malta.

7- Britânicos

Entretanto, Lord Nelson e a sua armada vieram em socorro dos malteses e ofereceram-lhes a sua proteção. Em 1800 Malta passou a fazer parte do maior império do mundo, aquele onde o sol jamais deixava de brilhar. A condição do arquipélago foi legalmente consolidada através do Tratado de Paris de 1814, quando passou a integrar o Império Britânico e a ser oficialmente um domínio subordinado, em última análise, à Coroa Inglesa. Assim, Malta passou a ter um representante local dos monarcas britânicos, ou seja, um governador. Naturalmente, este seria britânico, e os seus homens de confiança, integrantes do governo, também. Estes, por sua vez, necessitariam de auxiliares para levarem a cabo as tarefas inerentes à construção, ao abastecimento de água, ao saneamento, às reformas educacionais, ao sistema de justiça, entre outros assuntos importantes e, naturalmente, toda esta gente seria igualmente britânica. Até mesmo a moeda seria britânica, exatamente as mesmas moedas e notas que circulavam em Londres. Quem desejasse uma boa educação tinha de deslocar-se a Inglaterra e de ter dinheiro para tal. Desta forma, os malteses, uma vez mais, ver-se-iam relegados para tarefas menores. E embora fizessem agora parte de um enorme império e possuíssem um passaporte britânico, a sua situação imediata não melhorou substancialmente com a chegada dos ingleses.

Assim, em pouco mais de dois anos, os malteses estiveram sucessivamente submetidos à magnificente aristocracia dos hospitalários, ao arrogante republicanismo dos franceses e à adulação britânica da monarquia. Apesar de tudo, esta última forma parece ter sido a menos má, até chegar a melhor de todas, sem dúvida, a independência – alcançada apenas depois de 160 anos de domínio inglês. Até porque, uma vez integrados no Império Britânico, os malteses se viram envolvidos em guerras que pouco ou nada tinham a ver com eles, como foram os casos da Guerra da Crimeia, a Grande Guerra e a II Guerra Mundial. Dada a privilegiada posição estratégica do arquipélago, este foi severa e consecutivamente bombardeado no decorrer da II Guerra Mundial. Os habitantes viviam como ratos, escondidos em abrigos subterrâneos. Os navios de abastecimentos eram atacados e algumas vezes faltava tudo nas ilhas, incluindo água potável. Os mortos foram incontáveis. E as guerras vieram pôr a nu as deficiências do sistema de saúde, sobretudo a escassez de médicos e hospitais. Isto tinha o seu quê de irónico, uma vez que Malta fora  governada durante centenas de anos por uma Ordem cuja missão original era a assistência aos enfermos.

No decorrer da II Guerra Mundial os habitantes de Malta (afinal tão perto da Itália inimiga[23]) estiveram por diversas vezes à beira da capitulação. Mas, com a ajuda das forças britânicas, resistiram sempre. No dia 15 de agosto de 1942, um comboio de navios, carregados com víveres básicos e munições necessárias à defesa das ilhas, chegou miraculosamente ao Grande Porto de Malta. Alguns navios vinham semi-afundados e entraram no porto puxados e amparados por rebocadores. O facto deste acontecimento ter ocorrido no Dia da Assunção de Maria contribuiu para que a maioria dos malteses, fervorosos católicos, lhe atribuíssem um significado religioso. Culturalmente, os britânicos deixaram um legado importante em Malta – sobretudo a sua aposta no parlamentarismo – mas não mudaram o catolicismo maltês. A heróica resistência dos malteses foi reconhecida pelo rei Jorge VI de Inglaterra, que concedeu a Malta a George Cross (“Cruz de Jorge”), o símbolo que desde então figura na sua bandeira branca e vermelha.

Após a guerra e a destruição que causou, muitos malteses foram obrigados a emigrar. Não havia empregos e grassava a pobreza e mesmo a fome. A maioria dos emigrantes dirigiu-se-se à Austrália, mas outros rumaram ao Canadá e aos Estados Unidos. Foi um autêntico êxodo o que ocorreu nas ilhas nos anos quarenta do século XX. E, assim, as mais pequenas línguas de terra do Império Britânico, apenas maiores que Gibraltar, esvaziaram-se do bem mais precioso: as suas gentes. Apesar disso, os malteses conseguiram uma abertura política sem conflitos graves nem derramamento de sangue. Alguns dos habitantes com formação em Inglaterra – sobretudo médicos e advogados – começaram a fazer parte do serviço público. A transição deu-se paulatinamente, com as primeiras eleições controladas pelos britânicos, mas com passos firmes, rumo, primeiro, a uma certa autonomia e, finalmente à independência.

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As indústrias relacionadas com o mar têm um peso significativo na economia maltesa.

8- Independência

No fim dos anos quarenta já havia alguma autonomia ao nível autárquico, mas ainda com a supervisão e controlo do Governador sobre as medidas legislativas locais. Isto não era suficiente, é claro, para os malteses mais esclarecidos, sobretudo aqueles que tinham vivido em Inglaterra e reclamavam a implementação em Malta do parlamentarismo. Foram criados partidos políticos. Enfim, o movimento, com várias ramificações, rumo à independência, que se iniciara nos anos vinte, haveria de ver o seu objetivo realizado em 21 de setembro de 1964. Apesar da independência, Malta ainda dependia largamente de potências exteriores. Era ainda um espaço militar alugado à NATO e com uma presença militar em seu território – a Grã-Bretanha. Isto não era ainda a situação esperada por muitos. Mas só após quinze anos de independência, em 31 de março de 1979, foi assinado um acordo que pôs fim à presença militar britânica em Malta e Gozo. Os dois grandes partidos de Malta – Nacionalista e Trabalhista – não concordam sobre qual a verdadeira data da independência. Enquanto os nacionalistas aceitam o dia 21 de setembro de 1964, os trabalhistas afirmam que só quando o último soldado estrangeiro abandonou o país – em 31 de março de 1979 – é que este se tornou independente. Como consequência deste desacordo jamais sanado, celebram-se dois feriados nacionais distintos em Malta: 21 de setembro – o Dia da Independência – e 31 de março – o Dia da Liberdade. Finalmente, cansados de serem envolvidos em guerras, os malteses asseguraram a neutralidade na Constituição através da inclusão de um artigo que estabelecia o seu não-alinhamento.

O sistema político escolhido pelos malteses foi o da república presidencial parlamentar. O parlamento maltês é muito parecido, na sua forma, como o parlamento britânico, e é o parlamento quem elege o presidente, ou seja, tradicionalmente, este é escolhido pelo partido mais votado. Existe um debate na sociedade maltesa sobre a possibilidade de mudar a eleição do presidente da república para uma forma mais parecida com a americana (entre outras), isto é, através do voto popular. Com o destino nas próprias mãos, os malteses mobilizaram-se para a criação das condições necessárias ao desenvolvimento do país. O Partido Trabalhista e o Partido Nacionalista tiveram importantes papéis complementares. O primeiro foi responsável, nos anos imediatamente após da independência, pela laicização do país[24] e o Partido Nacionalista conduziu Malta, já no século XXI, à integração na União Europeia. Uma integração que suscitava muitas dúvidas, e mesmo a oposição, do Partido Trabalhista, mas que se revelou um sucesso, proporcionando mais investimento e desenvolvimento.

Antes disso, porém, foi preciso reconstruir as infraestruturas e criar as condições para o desenvolvimento da economia. O turismo era uma atividade natural em Malta e, ainda hoje, uma importante fonte de receitas, de criação de emprego e de diversificação de indústrias associadas a essa atividade. Depois, face à relativa mão-de-obra barata, floresceram no pós-guerra pequenas indústrias de capital estrangeiro (inglês, alemão, italiano), sobretudo nas áreas têxtil, do calçado e eletrónica. A subida do nível de vida da população fez com que a mão-de-obra deixasse de ser barata e muitas empresas deslocalizaram-se, havendo necessidade de uma readaptação do tecido empresarial. Outra indústria importante acabou por ser a da construção naval, substituindo, ou melhor, readaptando uma tradição em Malta, a da reparação, pois os cavaleiros hospitalários, mas sobretudo os britânicos, tinham uma significativa frota naval. Malta recolhe hoje os frutos de grandes investimentos: na construção de docas secas[25]; na melhoria dos cais para acostagem dos navios de cruzeiro; em instalações para limpeza dos tanques dos navios de combustíveis; na criação de uma companhia de navegação maltesa (Sea Malta); e em outras infraestruturas ligadas às indústrias do mar, como por exemplo uma importante plataforma logística e um dos maiores terminais de contentores do Mediterrâneo. Malta faz jus à sua vocação marítima, embora o mesmo conceito hub esteja a ser adotado no antigo aeroporto de passageiros – agora transformado em aeroporto de carga – depois de outro, ultramoderno e já em funcionamento, ter sido construído.

O mercado do imobiliário floresceu também, depois de uma abordagem mais liberal por parte do Governo. Os preços subiram bastante pois a escassez de terras é notória para tanta procura de terrenos onde se possam construir supermercados, edifícios de negócios e hotéis turísticos. O setor financeiro parece estar, igualmente, de boa saúde. Malta tem vindo a diversificar ainda mais a sua economia para setores dinâmicos como os serviços e as novas tecnologias. Para completar, é justo dizer que também nas artes se verifica um grande dinamismo, com uma produção jamais vista em áreas como o teatro, a música, a pintura, a escultura e a literatura. Em 1 de maio de 2004, Malta, juntamente com oito países da Europa Central e de Leste, e também Chipre, passou a fazer parte da União Europeia; em 2008 aderiu à Zona Euro; no primeiro semestre de 2017 presidirá à União Europeia. Foi pois um país amigo, membro do mesmo espaço económico, que visitámos. Um país pujante, vibrante, transbordando história; um país bonito, quer na vertente natural, quer na edificada pelo homem. Um país bem no coração do mar que desde a Antiguidade é o centro do mundo – o sempre novo Mediterrâneo.

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Pormenor do edifício do Parlamento, em Valeta.

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  • Artigo baseado no livro Malta, a Brief History, Joseph S. Abela, BDL Publishing, 2015.
  • A foto da bandeira de Malta foi retirada de yesmalta.wordpress.com.

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Notas:

[1] Foi encontrado um gigantesco depósito de sal debaixo da ilha da Sicília que parece comprovar a evaporação do Mediterrâneo. Isto é, de facto, bastante plausível – verificámos que está acontecendo algo semelhante no Mar Morto quando ali estivemos há dias e podemos sentir a sua salinidade (36% de sal) e flutuar nas suas águas a cada dia mais reduzidas.

[2] Choque que deu origem entre outras coisas às altas montanhas que se podem encontrar em ambos os continentes.

[3] Mesmo assim, foram precisos uns 250 dias até o Mediterrâneo se encher. Isto parece estar de acordo com o relato bíblico e pode ter ocorrido há uns 5.000 anos.

[4] Um dos seus mentores é o cientista espanhol Daniel Garcia-Castellanos.

[5] Um desses “pedaços” pode ser a pequeníssima e desabitada ilha de Filfla, a mais meridional do arquipélago de Malta, em tempos reivindicada pela Líbia.

[6] Há quem defenda que o próprio termo “Malta” deriva de maleth, que em fenício queria dizer “paraíso”.

[7] Este foi o nome que os romanos atribuíram ao arquipélago. Significava “terra do mel”.

[8] Sobretudo pelos imperadores Nero, Trajano, Marco Aurélio, Décio, Valeriano e Diocleciano.

[9] Ao contrário de Valleta, Medina não se situa na costa, está situada no interior da ilha a cerca de 12 quilómetros da capital.

[10] Os normandos eram um povo oriundo da Escandinávia (vikings e dinamarqueses) que se estabeleceu no Noroeste de França (onde hoje existe a Normandia), aí fundando o seu reino, e se converteu ao cristianismo. O papa Nicolau II concedeu-lhes em 1059, no Sínodo regional de Melfi o poder para combaterem os bizantinos e os muçulmanos – o que foi interpretado pelos normandos como uma espécie da carta-branca para construírem um império conquistando toda a Europa.

[11] Carlos de Anjou era irmão de Luís IX, rei de França.

[12] O Império Angevino ou Império Plantageneta é o conjunto de Estados que se estendiam dos confins anglo-escoceses aos Pirenéus e da Irlanda a Limousin, unidos a meio do século XII por Henrique II de Inglaterra. (in https://pt.wikipedia.org/wiki/Império_Angevino).

[13] Uma ilha localizada a sudoeste da Sicília, muito perto da costa africana, particularmente da Tunísia. 

[14] Estas sociedades estritamente hierarquizadas, praticamente um sistema de castas, eram típicas da época medieval, período que ficou conhecido, sob o ponto de vista político e social, como feudalismo. Em Malta existiriam umas 20 famílias cujos membros pertenciam à classe mais alta; depois vinha a classe dos artesãos e finalmente as classes mais baixas – classe média e povo.

[15] Carlos viveu entre 1500 e 1558, e foi casado com a Infanta Dona Isabel de Portugal, considerada uma das mulheres mais belas da época. Isabel, filha do rei D. Manuel e irmã de João III, era também muito culta. Morreu muito jovem, com 35 anos, na sequência de um parto. Seu filho primogénito, Filipe II de Espanha, foi educado por suas damas lusitanas na mais genuína tradição portuguesa.

[16] Estes peregrinos chegavam muitas vezes exaustos, doentes ou feridos, vítimas de ataques – não apenas dos inimigos muçulmanos, mas também dos “amigos” orientais: cristãos ortodoxos, gregos e bizantinos (não esquecer que o cisma religioso protagonizado pela Igreja Grega-Ortodoxa, sediada em Constantinopla, ocorreu em 1054). As disputas não ocorriam, porém, apenas entre ortodoxos, católicos e muçulmanos, mas igualmente entre as próprias ordens religiosas (e militares) católicas. Os Hospitalários e os Templários foram na prática e durante a maior parte do tempo inimigos.

[17] Cidade situada no Norte de Israel, perto de Haifa.

[18] Eram oito as langues, tal como as pontas da cruz de Malta: Auvergne, Provence, Itália, Castela e Portugal, França, Alemanha, Inglaterra e Aragão.

[19] Designação completa da ordem também conhecida como Ordem de Malta.

[20] Houve três grandes períodos inquisitoriais: A Inquisição Medieval; a Inquisição Ibérica e a Inquisição Romana. A primeira foi iniciada pelo Papa Lúcio III, em 1184, e reforçada no Conselho de Latrão de 1215; a segunda, a pedido dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, teve a chancela do Papa em 1478 (constituiu uma das páginas mais negras do antissemitismo europeu); e a terceira iniciou-se em 1542, através da Bula Papal de Paulo III – Licet ah Initio. Foi esta última que vigorou em Malta no período em que ali estiveram os Cavaleiros Hospitalários.

[21] A Ordem dos Templários, em Portugal, transformou-se na Ordem de Cristo e esteve na base dos Descobrimentos portugueses. Perseguidos (e muitos mortos) em França pelo rei Filipe IV e em Roma pelo papa Clemente V – que emitiu a bula Pastorali praeminentiae, dirigida a todos os monarcas da cristandade, determinando a prisão dos Templários nos diversos países e o confisco de todos os seus bens, o que,na prática ditou o fim da Ordem. No entanto, em Portugal, D. Dinis, simulando acatar a decisão papal, acabou por criar uma nova ordem – a de Cristo – que era, afinal, constituída por Templários. Os membros da ordem que tinham escapada às perseguições vieram juntar-se à Ordem de Cristo, em Portugal.

[22] A primeira revolta da população de Malta contra a ocupação francesa ocorreu a dois de Setembro de 1798. Pouco depois, em 19 de setembro, chegavam a Malta os navios portugueses da esquadra comandada pelo Marquês de Nisa, através dos quais se fez um primeiro bloqueio às ilhas. Os portugueses também desembarcaram para auxiliarem a população. Este auxílio teve grande importância psicológica, animando as forças maltesas que puseram cerco a Valeta. O Marquês recebeu representantes de Malta e de Gozo, a quem prometeu apoio, cedendo-lhes quinhentos mosquetes e vários barris de pólvora, mandando desembarcar o Capitão-tenente António Gonçalves Pereira e vinte artilheiros para ajudarem em terra os malteses. Um segundo bloqueio ocorreu em finais de agosto de 1799 e novamente os portugueses desembarcaram para auxiliarem a população. Apesar das ordens do governo português para regressar a Lisboa (recebidas em 9 de outubro), o Marquês de Nisa (Domingos Xavier de Lima) manteve-se mais dois meses em Malta, zarpando rumo a Portugal apenas após a chegada de reforços ingleses, em 13 de dezembro de 1799. Como se sabe, a esquadra portuguesa (que na época tinha uma dimensão importante) foi auxiliar os britânicos no Mediterrâneo tendo ficado sob comando do Almirante inglês Jervis e posteriormente do almirante Nelson.

[23] Na verdade, os italianos não eram vistos por todos como inimigos. Havia uma importante fação pró-Itália em Malta, antes, durante e depois da guerra. Embora em épocas diferentes, Garibaldi procurou asilo em Malta, e o mesmo fez o Papa Pio IX. Havia também o que poderíamos designar por “facção francesa”, apesar da desastrosa passagem dos gauleses pelo arquipélago.

[24] Há uma forte tradição católica em Malta baseada na narração que encontramos nos Atos dos Apóstolos sobre a chegada de São Paulo à ilha e a conversão dos nativos ao cristianismo. O Partido Trabalhista criou várias leis que ajudaram a separar o Estado da Igreja, abrindo o caminho para que surgissem outras confissões e práticas religiosas (na época da independência apenas era permitido o protestantismo anglicano, além do catolicismo, devido, claro, à presença britânica no arquipélago), e abrindo também uma guerra com a Igreja. Hoje, apesar da abertura religiosa se ter concretizado, a sociedade maltesa é ainda bastante conservadora, sob o ponto de vista religioso. Basta pensar que o divórcio apenas foi legalizado em maio de 2011, através de um referendo. Nessa altura, além de Malta, apenas as Filipinas não tinha uma lei do divórcio.

[25] Uma grande doca seca foi construída com a ajuda financeira e técnica da China comunista, durante o mandato de Dom Mintoff, oitavo primeiro-ministro de Malta, entre 1971 e 1984.

Israel

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Mar Morto ou “Vale do Sidim” (Génesis, 14), o ponto mais baixo da superfície terrestre.

1- O RELATO BÍBLICO

Israel e um país muito diferente de todos os outros. As diferenças são tantas que é praticamente impossível enumerá-las. Israel existe desde os tempos bíblicos de Abraão, Moisés e Josué; das tribos israelitas, dos reis David e Salomão. O cristianismo, a maior religião dos nossos dias[1], apareceria milhares de anos depois, com Jesus, como alternativa ao judaísmo. Só uns séculos mais tarde surgiria, em continuidade[2] mas também em rutura, a terceira grande religião monoteísta – o islamismo. Estas três confissões convivem lado a lado em Israel, sobretudo nessa cidade verdadeiramente mítica chamada Jerusalém, e as relações entre elas, como se sabe, são historicamente conflituosas. Não é possível, por muito que se queira, compreender o que se passa em Israel sem abordar as questões relativas à religião.

Talvez não seja má ideia iniciarmos essa abordagem pelo princípio, pelas origens do povo de Israel. A única fonte que temos para isso é a Bíblia[3], particularmente, os seus primeiros cinco livros, o Pentateuco[4], que para os judeus constituem a Tora, ou seja, a “Lei”. De acordo com o relato bíblico, o patriarca deste povo foi Abraão, um pastor nómada da Caldeia, no Sul da Mesopotâmia, que, rejeitando as crenças pagãs, recebeu a revelação da existência de um único Deus criador do Universo. Outras culturas, antes de Abraão, haviam concebido a existência de um só Deus, atribuindo-lhe uma essência física, mas Abraão foi o primeiro a receber a revelação de um Criador Uno e Universal, cuja essência é invisível e inconcebível para os seres humanos. Em hebraico, Abraão é designado como Ivri, que provavelmente significa “vindo do outro lado”. É de Ivri que deriva a palavra “hebreus”, primeira designação do povo judaico.

Abraão sentiu necessidade de se afastar da terra de seus pais e seguiu para a terra de Canaã, situada entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, estabelecendo-se num local que mais tarde viria a chamar-se Deserto do Neguev, região que ocupa a metade sul do Israel atual. Foi aí que Abraão teve os seus dois filhos, Ismael e Isaac. O primeiro era filho de Agar, uma escrava que Sarah, a mulher de Abraão, ofereceu ao marido para procriar, já que, segundo pensava, era infecunda. Tal, porém, não era verdade e Sarah acabou por dar à luz o segundo filho de Abraão, Isaac. Ismael é considerado o primeiro antepassado do povo árabe (por isso, também conhecido como ismaelita) e Isaac o segundo patriarca dos israelitas[5]. Isaac, por sua vez, teve dois filhos, Esaú e Jacob, a quem atribuíram posteriormente o nome de Israel. Jacob, além de algumas filhas, teve 12 filhos. Estes ficariam conhecidos até hoje como os “filhos de Israel” ou israelitas.

Os israelitas tiveram de enfrentar um período largo de seca extrema e a única hipótese de sobrevivência que tinham era abandonarem a terra de Canaã. Foi assim que deixaram a sua terra e se dirigiram ao Egito. Aqui não havia fome porque um ministro previdente tinha armazenado comida suficiente para alimentar todos. De acordo com o relato biblico, esse ministro, de nome José, era afinal um dos israelitas e naturalmente recebeu-os de braços abertos, tendo permitido que estes se fixassem e multiplicassem no fértil vale do Nilo. Passaram-se muitos anos, as primeiras gerações morreram, e novos faraós tomaram o poder no Egito. Para estes, os israelitas não passavam de um povo estrangeiro e, como era natural naquela época, foram feitos escravos. Este período de escravidão durou 430 anos, até que surgiu Moisés, um líder carismático, que convenceu o seu povo a fugir da escravidão e regressar à terra de Canaã.

No entanto, algo inesperado aconteceu durante a viagem. Em condições normais o percurso duraria cerca de uma semana, que é o tempo necessário para percorrer a pé a distância entre o delta do Nilo e Gaza, a cidade costeira que se situava no Sul de Canaã. Mas não foi por aí que Moisés conduziu o seu povo. Alegando que existiriam perigos se seguissem por aquele itinerário, Moisés convenceu os israelitas a fazer um desvio através do deserto, o qual levaria uns impressionantes quarenta anos a percorrer, o tempo suficiente para que a geração que tinha vivido a escravidão perecesse, e uma nova viesse substituí-la. Foi durante esse desvio que Moisés recebeu de Deus, no Monte Sinai[6], as duas tábuas de pedra com os “Dez Mandamentos”, pelos quais se regem também os cristãos, mas que, para os judeus, são apenas uma súmula da muito mais alargada “Lei de Moisés”, a Tora, pela qual têm de se reger.

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O Deserto da Judeia.

É muito importante realçar que, de acordo com as Escrituras, os israelitas foram o povo escolhido por Deus para cumprirem essa Lei e não, como muitas vezes se ouve, o povo “eleito”. Eles foram escolhidos para se submeterem a uma série de obrigações. (O rigor da Tora apenas obriga este povo e nenhum outro, e é por isso que não existe proselitismo na religião judaica). A tribo de Moisés tinha ainda mais obrigações que as outras. Quando a terra de Canaã foi distribuída pelas tribos, Moisés não atribuiu nenhum quinhão à sua, a tribo de Levi. Esta teria apenas uma função sacerdotal, estando os seus membros, os levitas, sujeitos a maiores obrigações que os membros das restantes tribos. Quando Moisés chegou, com 120 anos de idade, à vista da Terra Prometida, esta, naturalmente, estava ocupada e não foi ele quem ali reinstalou o povo de Israel. Isso incumbiria ao seu sucessor, Josué[7], a quem Moisés atribuiu o comando, pouco antes de morrer, no cimo do monte Nebo, avistando em baixo a Terra de Canaã.

Alguns habitantes daquela terra abandonaram-na à chegada dos israelitas, mas aqueles que escolheram ficar foram bem tratados, pois assim o exige a Tora. As tribos israelitas instalaram-se finalmente em Canaã. Os primeiros governantes do território foram juízes, mas os israelitas queriam ter um rei como os outros povos, e conseguiram-no. O primeiro rei foi eleito em 1079 a.C, e o seu nome era Saul. Seguiram-se-lhe David e, depois, Salomão, o construtor do primeiro Templo em Jerusalém. Após a morte de Salomão, devido a questiúnculas relacionadas com a sucessão, deu-se a cisão entre as doze tribos. Dez delas separaram-se e formaram um novo reino de Israel, sob o cetro de Joroboão, com capital em Samaria. Ficaram as tribos de Judá, Benjamim e a sacerdotal de Levi, sob o reinado de Roboão, que no seu conjunto constituíam o reino de Judá. Naturalmente, os cidadãos deste reino eram os judeus. A sua capital era Jerusalém, onde estava o Templo de Salomão.

Da divisão e disputas entre as tribos israelitas resultou uma maior vulnerabilidade a ataques do exterior. O rei da Assíria, Senaqueribe (705-681 a.C) subjugou os dois reinos, tendo destruído Samaria e obrigando o rei de Judá a ficar seu tributário. Levou os israelitas para o exílio, à exceção de uns quantos que se refugiaram no reino de Judá. Os restantes israelitas foram absorvidos por outras nações e constituem o que ainda hoje se chama “as dez tribos perdidas[8)”. Em 587 a.C., chegou também ao fim o reino de Judá. O rei da Babilónia, Nabucodonosor II, derrotou os judeus e destruiu Jerusalém e o Templo, levando os seus habitantes para o exílio na Babilónia. Esse exílio, porém, durou pouco mais de cinquenta anos, uma vez que a Babilónia foi conquistada em 539 pelos persas, comandados por Ciro. Este governante era generoso para os seus súbditos e incentivou os judeus a regressarem à sua terra e a  reconstruírem o Templo. Foi assim que, sob o reinado de Zerobabel, e orientação do escriba Esdras, os judeus voltaram a erguer um templo, exatamente no local onde se situava o primeiro. No entanto, se o primeiro Templo fora construído por um reino soberano, o segundo não. Desde então o povo israelita não teria um território independente até 1948, quando se formou o moderno estado de Israel.

Em 63 a.C. o general romano Pompeu conquistou a Judeia. Houve muitas revoltas até que, no ano 70 da nossa era, Tito Vespasiano subjugou os resistentes, acabando por destruir o Templo, do qual escapou apenas o seu Muro Ocidental, onde ainda hoje os judeus rezam, em memória do Templo perdido. A original Terra de Israel era agora uma pequena província do vasto Império Romano. Os judeus pagariam caro o desrespeito à Tora. Deus tinha-os avisado, através de Moisés, sobre as consequências do desrespeito da Lei. A divisão das tribos fora um grave erro que o Povo haveria de pagar com um novo exílio, após os do Egito e da Babilónia. Este novo exílio haveria de durar cerca de 2.000 anos. É preciso notar que os judeus o aceitaram, pois fora previsto por Moisés. Aceitaram o Galut como uma forma de expiar as suas culpas, até que Deus lhes outorgasse, através do Messias prometido, o direito de regressarem de novo à sua terra.

Tito Vespasiano mudou o nome a Jerusalém, que temporariamente passou a chamar-se Aélia Capitolina, e mudou o nome da Terra de Israel para Syria Palestina. “A palavra “Palestina” deriva do grego Philistia, nome dado a uma parte do território da Terra de Israel, onde se haviam fixado, no século XII a.C., os filisteus, povo não-semita, proveniente da ilha de Creta[9]”. É daí que resulta o nome de Palestina – ao qual hoje corresponde um estado reconhecido por cerca de 2/3 dos países mundiais, mas que os restantes (ainda) não reconhecem – um Estado que mantém um conflito permanente com Israel. Mas isto é matéria que abordaremos um pouco mais à frente.

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A Cruz de Jerusalém numa das portas da igreja de Santa Maria Madalena, em Jerusalém

2- A DIÁSPORA

Uma das questões com que os judeus se preocuparam desde o início da Diáspora foi com as diferentes interpretações e adaptações das normas da Tora, uma vez que a sua dispersão geográfica poderia fazer com que essas interpretações evoluíssem em diferentes sentidos, perdendo a unidade que se considerava fundamental. Houve algumas reuniões que os judeus realizaram para discutirem esta matéria e delas resultaram textos que constituíram a base para a compilação do Talmude (que quer dizer “ensino”). “Os sábios do Talmude principiaram logo por formular uma estrutura legal e religiosa que não se afastasse dos princípios da Tora”[10]. Um importante centro de estudo foi a cidade de Sura, na Babilónia, onde, no século III, o rabino Rav Abba Arika fundou uma importante academia. Outras foram abertas nas cidades vizinhas de  Nehardea e Pumbedita. Os trabalhos desenvolvidos nestas academias estão na origem do importante Talmude Babilónico[11].

Assim, os israelitas manteriam as suas referências, costumes e religião, estivessem onde estivessem, por quase dois mil anos. São conhecidas tradicionalmente as duas grandes comunidades judaicas na Europa, uma no Centro e Leste, os ashkenazi, e outra a Oeste, na Península Ibérica, os sefarditas, para onde os judeus emigraram, embora uma grande parte deles tenha ficado mesmo pelo Norte de África. A partir destas regiões os judeus expandiram-se por todo o mundo. Como é sabido, os judeus da Península Ibérica tiveram de fugir da Inquisição, no século XV[12], e a maior parte deles foi para a Holanda, os Balcãs e até para territórios otomanos do Médio Oriente. Mais tarde, levados pela colonização europeia, os judeus chegaram ao continente americano. Há também os judeus etíopes, que são conhecidos por Beta Israel e os judeus do Yémen, entre outras comunidades.

Como se sabe, a perseguição aos judeus não se limitou ao período da Inquisição. O antissemitismo é um movimento que existe em todo o mundo ainda hoje, e que recrudesceu enormemente nos séculos XIX e XX, no Centro e Leste da Europa, sobretudo em países como a Rússia e a Alemanha. Hannah Arendt reconhece dois ramos distintos do antissemitismo – um inspirado no “antagonismo de duas crenças em conflito” e outro, por assim, dizer, “leigo”[13]. O primeiro é muito mais notório no período inquisitório e o segundo (não completamente imune à influência do primeiro) nos séculos XIX e XX[14]. Curiosamente, o antissemitismo religioso volta a recrudescer no século XXI. O ódio aos judeus é, pois, quase ancestral. Considerados por muitos como usurários, os judeus viram o seu sucesso nos negócios, no comércio e na banca ser alvo da inveja e da incompreensão, inclusive, de alguns famosos intelectuais. É o caso, por exemplo do expatriado poeta americano, Ezra Pound, um apoiante de Hitler e Mussolini, que apelidou os judeus de parasitas que tomavam o dinheiro da sociedade. Além disso apelidou-os ainda de oleosos, selvagens, indolentes, imundos, vermes, piolhos, tumores, pestes, pragas, serpentes, verrugas e sífilis[15].

Este ódio insensato e absolutamente irracional está bem patente nesta frase assassina de Heinrich Himmler: O antissemitismo é exatamente a mesma coisa que catar piolhos, não é uma questão de ideologia, é uma questão de limpeza[16]. Porquê? Qual a razão de tamanho ódio? Hannah Arendt tenta compreender as causas da aversão aos judeus na sua obra Origens do Totalitarismo, particularmente no primeiro capítulo, precisamente sobre o antissemistismo, talvez o trabalho mais exaustivo ou, pelo menos, um dos mais conhecidos sobre o tema, mas nós, não esquecendo essa contribuição, resumiríamos as causas do antissemitismo a duas razões quiçá redutoras e, com certeza, primárias: a inveja, por um lado, e a necessidade, sempre latente, por outro, de se ter à mão um “bode expiatório”, quando se necessita justificar um fracasso ou uma guerra. Estas duas razões combinadas deram lugar a teorias conspiratórias, que visavam mostrar como os judeus tinham um plano secreto para dominar o mundo. Talvez o exemplo maior destas conspirações sejam os textos forjados que alegadamente comprovam o envolvimento judaico e maçon numa conspiração para destruir o mundo ocidental e governar o planeta, que ficaram conhecidos como os Protocolos dos Sábios do Sião[17]. Inventados ainda na Rússia czarista, viriam a ser usados por Hitler na sua louca campanha antijudaica[18].

Todo esse longo período que vai do fim do século XVIII até o fim da Segunda Guerra Mundial foi, assim, mais um período extremamente difícil para a comunidade hebraica, sobretudo a partir do que aconteceu, no ano de 1894, com o oficial judeu do Estado-Maior francês, Alfred Dreyfus, acusado injustamente de espionagem a favor da Alemanha, e condenado a deportação perpétua para a Ilha do Diabo. Seguiu-se uma guerra jurídica, com vários julgamentos, os quais, apesar das provas sobre a sua inocência de Dreyfus, nunca o ilibariam completamente. O caso contou com o envolvimento de Émile Zola – que escreveu uma célebre carta aberta ao Presidente francês, em defesa de Dreyfus, intitulada J’accuse! – e durante muitos anos dividiu a opinião pública em França.

Mas, como é conhecido, os principais massacres de judeus nos séculos XIX e XX foram, primeiro os pogroms[19], no Império Russo, e, posteriormente, o Holocausto. Morreram tantos judeus que os números não passam de estimativas, são impossíveis de contabilizar. Os pogroms começaram ainda na primeira metade do século XIX mas intensificaram-se muitíssimo entre 1881-84, sobretudo em Varsóvia, Kiev e Odessa, após o assassinato do Czar Alexandre II, acontecimento que, mais uma vez, foi considerado parte de uma conspiração judaica. Um outro período crítico decorreu entre 1903-06, com tumultos em mais de 60 cidades. Finalmente, surgiu o terror do Holocausto e o consequente número impressionante de judeus mortos – cerca de seis milhões – sendo que mais de um milhão foram crianças. Cerca de 2/3 dos judeus europeus desapareceram e muitos dos que não morreram passaram a ser considerados apátridas – eram como párias, sem identidade ou cidadania. Isto parece ter despertado algumas consciências para a urgência de ser-lhes atribuído um lar, embora tal já tivesse sido decidido pelos britânicos durante a Grande Guerra e a ideia fosse parte integrante e principal motivo da criação do movimento sionista, em finais do século XIX.

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Mar da Galileia, o maior reservatório de água doce de Israel.

3- REGRESSO A CASA (O SIONISMO)

O movimento sionista surgiu como resposta aos primeiros pogroms, na Rússia, que, como vimos, se intensificaram a partir de 1881, ano do assassinato do czar Alexandre II, em São Petersburgo. O seu sucessor, Alexandre III, considerava os judeus “um cancro social”, tendo promulgado leis anti-semitas e fomentado a repressão aos judeus. Fervoroso adepto da Igreja Ortodoxa, nomeou o seu irmão, o grão-duque Sergei Alexandrovich, presidente da Sociedade Imperial Ortodoxa da Palestina, com o objetivo de reforçar a presença ortodoxa na Terra Santa. Sergei dirigiu-se a Jerusalém e mandou construir no sopé do Monte das Oliveiras a Igreja de Santa Maria Madalena, que fica mesmo em frente da Porta Dourada. Naquela época era habitual saírem do porto de Odessa, no Mar Negro, muitos navios carregados com peregrinos russos, rumo à Palestina. Em 1891, Sergei foi nomeado Governador-Geral de Moscovo e imediatamente expulsou 20.000 judeus da cidade. Estes pogroms fizeram com que muitos judeus se tornassem socialistas e muitos mais abandonassem a Rússia, na primeira grande Aliyah (palavra que significa “fuga para local mais elevado”), em direção a Sião, a Montanha Sagrada de Jerusalém. Embora a maioria dos judeus fugisse para a América (mais de milhão e meio), centenas de milhar fugiram para a Palestina. Em 1890, dos  cerca de 40.000 habitantes de Jerusalém, 25.000 eram judeus.

Estes acontecimentos abalaram profundamente um crítico literário de Viena, chamado Theodor Herzl, que até então não se tinha preocupado com o sionismo. Ele não seguia a religião judaica – montava árvores de Natal em casa e não tinha mandado circuncidar o filho – estava completamente integrado na sociedade vienense. Mas quando, em 1895, foi eleito para presidente da câmara de Viena um tresloucado antissemita, Karl Lueger,     Herzl concluiu que os judeus só alcançariam a paz se um dia tivessem um lar. A partir daí não parou. Foi a França cobrir o caso Dreyfus; presidiu ao primeiro Congresso Sionista, em 1987, na cidade suíça de Basileia; intercedeu, sem sucesso, junto de Guilherme II, o soberano alemão que detestava judeus[20], para que este, por sua vez, intercedesse junto do sultão turco. Porém, após se ter convencido de que não podia contar com o kaiser nem com o sultão para o seu intuito de criar um lar para os judeus na Palestina, Herzl conjeturou sobre outros locais que lhes servissem de pátria, nomeadamente, Chipre e El Arish, no Sinai, ambos sob domínio britânico. Não conseguiu. No VI Congresso Sionista, Theodor Herzl procurou que fosse aceite a hipótese-Uganda mas isso apenas dividiu os congressistas e tudo ficou na mesma[21]. Herzl morreu com 44 anos, mas o seu esforço não foi em vão. Nessa altura, o sionismo era já um movimento imparável e um jovem judeu russo, chamado David Grün, chorava a morte do seu herói. Anos depois também ele seria um herói para muitos – como, aliás, o é ainda hoje – já depois de mudar o nome para David Ben-Gurion.

A luta sionista prosseguiu depois de Herzl, sobretudo através de outro jovem russo que, face às ligações que tinha com membros do governo britânico, acabaria por conquistá-los para a sua causa. O seu nome era Chaim Weizmann e tinha fugido da Rússia para estudar na Alemanha e na Suíça, radicando-se depois em Manchester, aonde chegou com 30 anos para dar aulas de química na universidade. Weizmann foi chamado por Churchill para ajudar os ingleses na Primeira Guerra Mundial (1914-18),[22] colocando ao serviço da Grã-Bretanha os seus conhecimentos de química. Foi nesse período (1915) que conheceu outro importante político inglês – Lloyd George, Ministro da Guerra, e a partir de dezembro de 1916, Primeiro-Ministro. Weizmann era também amigo de Arthur Balfour, autor da célebre carta que em 1917, enquanto secretário britânico dos Negócios Estrangeiros, dirigiu ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica no Reino Unido, afirmando: o governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina de um Lar Nacional para o Povo Judaico, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo[23]. A França e a Itália ratificaram de imediato a Declaração de Balfour e os Estados Unidos fizeram-no em agosto de 1918. Mais tarde, o documento seria também incluído no Tratado de Sèvres, que selou a paz com o Império Otomano. Entretanto, já França e Inglaterra tinham feito, em 1916, um acordo secreto (Sykes-Picot), o qual foi remodelado com um novo acordo (St. Jean de Maurienne), no ano seguinte, que envolveu também os italianos, para dividirem entre si os ainda territórios otomanos a Sul da Anatólia.

Mas para isso era preciso ganhar a guerra e os britânicos tiveram um primeiro desaire contra os otomanos em Gallipoli. Tentaram então o apoio dos árabes e negociaram com o xerife e emir de Meca, Hussein, as condições de uma revolta árabe contra os turcos. Evidentemente, foram prometidas compensações territoriais aos árabes, embora os ingleses procurassem ser o mais ambíguos que podiam, pois não queriam comprometer-se. T. E. Lawrence, um intrépido oficial inglês, acabaria por conduzir os árabes na revolta, acompanhado por um dos quatro filhos de Hussein, o príncipe Faisal. Praticaram vários atentados, fazendo explodir pontes e caminhos de ferro. Lawrence, após conhecer o Acordo Sykes-Picot, sentiu-se envergonhado e chegou a afirmar: estamos a pedir-lhes que combatam por nós com base numa mentira, e eu não suporto isto[24]. Ele, que admirava a pureza dos árabes do deserto, acabou por contar a verdade sobre aquele acordo a Faisal – e sugeriu um plano para o corrigir. Se fosse o exército árabe a conquistar a Síria, os franceses (que esperavam ficar com esse território) não conseguiriam depois expulsá-los… Assim, Lawrence da Arábia[25] conduziu as forças de Faisal pelo deserto da Jordânia, forçando-as a uma viagem de 450 quilómetros, até conquistarem o porto de Aqaba. A 28 de junho de 1917, sir Edmund Allenby chegou ao Cairo para assumir o comando do exército britânico e uma semana depois chegava Lawrence, que, vestido de beduíno, e após uma viagem de quatro dias – de camelo, de comboio e de barco – o vinha informar da tomada de Aqaba. Allenby nomeou-o e ao seu Corpo de Xerifianos a Camelo como ala direita do exército britânico. Estes dois ingleses, talvez os principais responsáveis, cada um em sua frente e com sua estratégia militar, pela derrota dos otomanos no Médio Oriente, chegariam juntos à cidade de Jerusalém, quando esta foi reconquistada, em dezembro de 1917.

Em 8 de março de 1820, Faisal foi proclamado rei da Síria, mas rapidamente os franceses derrotaram o seu reduzido exército, impondo-se como donos da região. A vontade de Lawrence, porém – de que os britânicos mostrassem algum respeito pelo xerife Hussein e seus filhos, depois das promessas que lhes tinham feito – também haveria de ser minimamente satisfeita. Na primavera de 1921, Lawrence da Arábia e o ministro britânico das Colónias, Winston Churchill, deslocaram-se a Jerusalém. Lawrence foi encarregado de convencer o velho Hussein a aceitar a hegemonia inglesa e francesa na região, pois de outra maneira o financiamento britânico esgotar-se-ia. Hussein protestou, mas a posição da sua dinastia ficou ainda mais fragilizada quando foi derrotado pelo saudita Ibn Saud, o mesmo acontecendo, posteriormente, aos seus filhos Ali (que lhe sucedeu) e Abdullah, tendo este escapado milagrosamente de um ataque pelas traseiras da sua tenda. Ibn Saud autoproclamou-se rei do Hejaz e da Arábia Saudita (reino que a sua família ainda governa). Como resultado destes acontecimentos, Faisal conseguiria apenas o reino do Iraque e Abdullah ficava sem nada. Só que mais uma vez Lawrence entrou em ação e compareceu com Addullah a uma reunião com Churchill. O ministro das Colónias, que admirava Lawrence da Arábia, ofereceu a Transjordânia a Abdullah, que, embora relutante (pois sonhara com um grande império hachemita onde vivessem pacificamente árabes e judeus), aceitou[26]. Lawrence tinha cumprido a missão de conduzir Faisal e Adullah, cada um a seu trono, não defraudando a confiança que ambos haviam depositado nele. E assim se dividiu a Palestina (que ficara sob mandato britânico[27] em duas partes: uma a oriente do rio Jordão, denominada Transjordânia, que se tornaria independente em 1928 (após um tratado anglo-jordano), e outra parte, do rio Jordão até o Mediterrâneo, que os britânicos administraram diretamente até 1948, cuja área correspondia aos atuais territórios de Israel, da Faixa de Gaza e a da Cisjordânia[28].

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O processo de amadurecimento – das plantas, das pessoas, de tudo em Israel – é acelerado.

A vida não foi fácil para os britânicos durante o mandato. Os árabes palestinianos estavam descontentes com a Declaração de Balfour e os conflitos eram frequentes, sobretudo em Jerusalém. Os judeus continuavam a chegar à Palestina e começaram a organizar-se política e militarmente. O chefe político máximo era Ben-Gurion, o líder flexível mas determinado da Agência Judaica, um socialista laico, que desde o início sonhara com uma Palestina unida, que integrasse os povos judeu e árabe no seu seio, até reconhecer bastante mais tarde, com pragmatismo, que tal não era possível. Tendo em conta os ataques dos árabes palestinianos, os judeus organizaram-se também militarmente. Em 1920 criaram a Haganah (palavra que quer dizer “defesa”), uma milícia que tinha por missão principal proteger os colonos rurais. Mais tarde, uma facção da Haganah separou-se desta e os seus nacionalistas militantes fundaram a Organização Militar Nacional. Entre 1936 e 1945 deu-se a chamada Revolta Árabe, comandada pelo mufti (líder espiritual dos muçulmanos) Amin al-Husseini, em Jerusalém, que os britânicos tiveram muita dificuldade em controlar. Perante os ataques aos judeus, estes responderam com vários atentados contra os árabes. Com a deflagração iminente da Segunda Guerra Mundial, os britânicos tiveram de recrutar militares destacados na Palestina, pelo que recorreram aos judeus para conterem as ofensivas dos árabes palestinianos. Um capitão inglês colocado em Jerusalém no ano de 1936 convenceu o Alto-Comissário, Arthur Wauchope, a deixá-lo treinar os judeus e a responder aos árabes com a mesma moeda. O seu nome era Charles Orde Wingate, criador dos Esquadrões da Noite, compostos por judeus, que lançaram o terror junto das hostes árabes. Os britânicos continuaram a treinar os judeus durante mais algum tempo, incluindo o período da Segunda Guerra Mundial. Os 25.000 judeus treinados foram muito importantes como base do futuro exército de Israel.

No entanto, subitamente, a política britânica para a Palestina mudou. No início de 1939, o Primeiro-Ministro inglês, Neville Chamberlain, promoveu vários encontros entre judeus e palestinianos, tendo em vista a obtenção de um acordo, que parecia impossível. Assim, no dia 17 de março desse ano, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Malcolm MacDonald, apresentou uma proposta por escrito que invertia completamente a Declaração de Balfour, proibindo a criação de um estado judeu. Incrivelmente, por manifesta incompetência política mas também por arrogância megalómana, o mufti rejeitou-a. Por seu turno, Ben-Gurion preparou a milícia Haganah para o combate contra os britânicos. Em setembro rebentou a Segunda Guerra Mundial. No decorrer da mesma, mais concretamente no segundo semestre de 1941, o mufti deslocou-se à Europa e encontrou-se com Mussolini, em setembro, e com Hitler, em Novembro. Foi a oportunidade dos três demonstrarem como os unia o ódio aos judeus. Num discurso proferido em 1943, em Berlim, Husseini afirmou que os judeus vivem como parasitas entre os povos, sugando-lhes o sangue, pervertendo-lhes a moral (…) A Alemanha decidiu muito claramente encontrar uma solução definitiva para o perigo judaico, uma solução que eliminará a calamidade que os judeus representam para o mundo. No entanto, já com Winston Churchill como primeiro-ministro, britânicos e judeus voltaram a cooperar, face à necessidade que tinham de se libertar da tenaz inimiga que ameaçava a Palestina: as forças do eixo no Norte de África e a França de Vichy na Síria. Os ingleses criaram a Palmach, uma pequena força de comandos judeus, dispostos a lutar contra os nazis. Foi numa missão da Palmach no Sul do Líbano que Moshe Dayan (que viria a ser o grande comandante da ofensiva israelita de 1967), enquanto observava a movimentação do inimigo com uns binóculos, levou um tiro e perdeu a vista esquerda.

Apesar dessa colaboração, alguns dissidentes da Irgun, desiludidos com a política britânica, nomeadamente com as restrições impostas em 1939, começaram a levar a cabo atentados contra os ingleses. Eram comandados por Menachem Begin, que se viu obrigado a passar à clandestinidade, e por quem os britânicos ofereciam uma recompensa de 10.000 libras, morto ou vivo. A Agência Judaica, pela voz do sempre moderado Ben-Gurion, condenou os ataques terroristas e colaborou com as autoridades inglesas na perseguição às milícias dissidentes, conseguindo prender cerca de 300 dos seus elementos. Os britânicos, no entanto, estavam decididos a impedir a imigração de judeus na Palestina, mesmo quando estes fugiam dos campos de extermínio nazis. Tal atitude indignou o próprio David Ben-Gurion, que se juntou aos radicais, tendo todas as organizações combatentes acordado na constituição do Comando Unido da Resistência, que visava conseguir a entrada clandestina de judeus na Palestina e o combate aos ingleses. Estes passaram um mau bocado, sendo atacados impiedosamente em todo o território. O novo primeiro-ministro inglês, Clement Attlee, procurou então o apoio político do presidente americano, mas Truman, pelo contrário, apoiou publicamente a recomendação da Comissão Anglo-Americana para que os britânicos autorizassem imediatamente a entrada na Palestina de 100.000 refugiados judeus. Os americanos eram então, como são ainda hoje, os maiores aliados da causa judaica. Os ataques aos britânicos continuaram, ainda com mais violência, acabando por levar a uma nova cisão, pois Ben-Gurion, líder da Agência Judaica, condenava atentados terroristas, como aquele em que a Irgun fez explodir a embaixada britânica em Roma, no outono de 1946.

Churchill, agora na oposição, acusava Attlee de manter uma guerra esquálida e sem sentido contra os judeus, para entregar a Palestina aos árabes, ou sabe Deus a quem. De facto, a maioria dos governantes britânicos desta época odiava os judeus – fazendo jus à História dos últimos milénios. A 14 de fevereiro de 1947, durante uma reunião do governo, um Attlee completamente desgastado pela guerra acedeu em deixar a Palestina. Em 2 de abril, pediu às Nações Unidas que criassem uma Comissão Especial para a Palestina (a UNSCOP). Quatro meses depois, a UNSCOP propunha a divisão do território em dois estados[29], ficando Jerusalém sob administração internacional, com um governador nomeado pelas Nações Unidas (ver figura abaixo).

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O crescimento de Israel desde 1947.

4- O CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO

Embora as escaramuças entre muçulmanos e judeus tivessem começado muito antes, a guerra aberta, com a participação de exércitos nacionais, ocorreria após 1948. O Plano de Partilha da ONU para a Palestina foi aprovado em 29 de novembro de 1947, com 33 votos a favor, 13 contra e 10 votos nulos. A Alta Comissão Árabe, bem como os países da Liga Árabe (Egito, líbano, Síria e Jordânia) rejeitaram o plano, alegando que os judeus ficariam com uma área maior sendo uma população menor, bem como ficariam também com a melhor parte da mesma, nomeadamente o Mar da Galileia, o maior reservatório de água doce do território. Por seu lado, apesar de algum descontentamento por não ficar com Jerusalém, a Agência Judaica acabaria por aceitar o plano. Em 14 de maio de 1948, poucas horas antes de terminar o mandato britânico, já em ambiente de guerra civil, foi declarada a independência do Estado de Israel, por David Ben-Gurion. A reação dos estados árabes foi imediata e os combates iniciaram-se[30]. A Guerra de 1948 ficaria conhecida, em Israel, como Guerra da Independência. No fim da guerra, em 1949, os israelitas tinham ampliado significativamente o seu território, ocupando agora 75% do total. O restante era a Cisjordânia, ocupada pela Jordânia e a pequena Faixa de Gaza, ocupada pelos egípcios. A guerra provocou o deslocamento de 900.000 palestinianos para campos de refugiados, os quais constituem a chamada Questão Palestiniana, sem solução até hoje.

Em 1964 foi criada a Organização de Libertação da Palestina (OLP) e, no dia 5 de junho de 1967, em resposta ao bloqueio aos navios israelitas no Canal do Suez, imposto pelo Egito, e face a movimentações junto das fronteiras com Israel dos exércitos sírio e jordano, o exército israelita, comandado pelo general Moshe Dayan, lançou uma grande ofensiva “preventiva”. Atacou as bases aéreas egípcias no Sinai, enquanto forças terrestres avançavam  na mesma zona e também pela Faixa de Gaza. Os exércitos jordano (este apesar da relutância de Hussein em aceitar o comando egípcio) e sírio intervieram, mas o resultado foi a tomada por Israel da Cisjordânia e dos Montes Golã. Ao terceiro dia do conflito todo o Sinai estava controlado. A guerra foi rápida e veio confirmar a superioridade militar incontestável dos israelitas. O setor oriental de Jerusalém, até aí ocupado pelos jordanos, foi igualmente conquistado. Como resultado da guerra, o número de refugiados palestinianos aumentou significativamente na Jordânia e no Egito.

Em outubro de 1973 ocorreu uma nova guerra, que ficou para a História como Guerra de Outubro ou Guerra do Yom Kippur (um feriado judaico), entre outras designações. Desta vez, uma coligação sírio-egípcia tentou inverter o efeito de surpresa que Israel tinha provocado na Guerra dos Seis Dias. Nas primeiras horas isso aconteceu, os israelitas pareciam surpreendidos, mas logo recuperaram. Paulatinamente, foram conquistando terreno até penetrarem nos territórios egípcio e sírio, ficando a 100 quilómetros do Cairo e a 40 de Damasco, que foi intensamente bombardeada. A guerra terminou ao fim de 20 dias com a intervenção das Nações Unidas que propôs um cessar-fogo, o qual entrou em vigor no dia 25 de outubro de 1973.

(Façamos aqui uma pequena pausa, que nos parece importante. Desde a formação de Israel, em 1948, este estado teve um governo moderado, liderado pelo Partido Trabalhista, até 1977. Foram 30 anos muito importantes, com políticos prestigiados e conciliadores, como Teddy Kollek, respeitado por todos, incluindo os árabes, eleito cinco vezes pelo Partido Trabalhista para a Câmara de Jerusalém[31]. Em 1977, o governo israelita endureceu a sua política em relação aos palestinianos com a chegada ao poder do Likud (que significa “união”), partido que ainda hoje congrega as mentes israelitas mais conservadoras, naquela época liderado por Menachem Begin. Este era um político que sabia muito pouco acerca do mundo árabe, e nunca deixara de ser o filho de um shtetl polaco, o vigoroso nacionalista que tinha uma visão maniqueísta do combate judaico, uma ligação emocional ao judaísmo e uma visão bíblica de Israel[32]. A visão que provavelmente perdura na mente do atual líder do Likud, Benjamin Netanyahu. Há pois uma diferença muito significativa na política israelita consoante estão no poder moderados ou radicais.)

Em 1978 e 1982 Israel fez incursões no Líbano de onde só se retiraria completamente no ano 2000. Em 1987 começou a Primeira Intifada que durou cerca de seis anos e provocou mais de mil mortos. Em 1993, no seguimento dos Acordos de Paz de Oslo, – que constituíram, talvez, a última grande esperança mas que, infelizmente, nunca chegaram a ser integralmente cumpridos – foi criada a Autoridade Palestiniana. Após a tentativa de mais um acordo, rejeitado por Yasser Arafat em Camp David, em 2000, começou a Segunda Intifada[33]. Esta Intifada foi mais violenta que a primeira e alastrou a Jerusalém e outras cidades israelitas e da Cisjordânia. Morreram cerca de 3.500 palestinianos e 1.000 israelitas. A partir de 2001, Ariel Sharon começou a construir muros na Cisjordânia, como resposta aos ataques terroristas. Em 2004 morreu Yasser Arafat e a Autoridade Palestiniana elegeu para o substituir Mahmud Abbas. Em 2005 os palestinianos dividem-se em dois partidos, um moderado (Fatah) e outro radical. Este último, o Hamas, que não reconhece Israel, passa a dominar a Faixa de Gaza, de onde lança mísseis para o território israelita. Em 2009 tropas israelitas entram em Gaza. Em 2012 e 2014, Israel lançou novas ofensivas sobre este território. Não é expectável que se fique por aqui.

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O muro construído por Israel em Belém, na Cisjordânia.

5- ISRAEL, HOJE

O que escrevemos acima, já era de uma forma geral do nosso conhecimento. Restava-nos ver com nossos olhos. Queríamos falar com as pessoas, saber como viviam e o que pensavam, por isso chegámos a Israel com uma enorme expectativa. E os israelitas são de facto diferentes. Algo que nos impressionou logo à chegada foi a presença de jovens em todo o tipo de tarefas de controlo. Os nossos passaportes ficaram retidos durante dois dias no navio, ainda no mar, após um controlo presencial a que todos os passageiros tiveram de se submeter. Fomos controlados por jovens funcionários à saída do navio, as nossas bolsas e mochilas passadas pelo raio-x e novamente, à saída do porto, todos os veículos foram controlados. Os jovens (rapazes e raparigas) levam a cabo estas tarefas com uma enorme naturalidade. Aos 18 anos – a idade em que os nossos miúdos praticamente deixam de usar fraldas – eles demonstram uma maturidade invulgar, como se fizessem isto há séculos. Sam, um taxista com quem viajámos e conversámos, explicou-nos que os jovens em Israel crescem mais depressa. Quando completam 18 anos eles têm pela frente três anos de serviço militar e elas dois. Muitos, ao fim dos primeiros seis meses de recruta, estão aptos para cumprirem estas tarefas de controlo. Depois de cumprirem o serviço militar obrigatório, os homens passam à reserva até aos 50 anos, podendo ser chamados a qualquer momento em caso de necessidade.

Há quem considere esta preocupação com a segurança uma verdadeira obsessão, mesmo dentro de Israel. A unanimidade não existe, apesar da segurança dos cidadãos ser uma preocupação generalizada, por razões óbvias. A pluralidade de opiniões e posicionamentos políticos existe de facto em Israel – uma verdadeira democracia – e as visões sobre a forma de lidar com os vizinhos são diversificadas. Porém, a maioria reconhece, por experiência própria, que o país tem de estar preparado para se defender. Este sentimento de sobrevivência é um forte fator de união entre os israelitas. Todas as famílias viveram já momentos de sobressalto e muitas contam mortos e feridos no seu seio, vítimas da guerra ou do terrorismo. Os israelitas penaram muito para aqui chegar. É compreensível que queiram viver em paz e é impressionante que, em condições extremamente adversas, o tenham quase conseguido. É certamente mais seguro viver aqui do que em muitos países que não têm inimigos junto às suas fronteiras, como tem Israel.

Apesar de se saber que a paz, no que se refere ao Médio Oriente, é sempre instável, Israel mantém atualmente boas relações com o seu vizinho mais a Norte, o Líbano; as relações com a Jordânia são estáveis, após um acordo de paz que vigora desde 1994, e existe também um acordo com o Egito. A Síria parece ser o país fronteiriço com o qual Israel mantém, hoje, relações mais instáveis, embora a Síria esteja envolvida num grave conflito interno[34]. Face a esta situação, não admira que a indústria militar seja a segunda maior em Israel, depois da agricultura[35]. A terceira maior indústria é a dos diamantes. Os israelitas são os maiores talhadores mundiais e os diamantes em Israel são melhores e cerca de 25% mais baratos do que os que se podem encontrar em qualquer outra parte do mundo. Israel é também muito forte nas indústrias de ponta: satélites, chips para computadores e telemóveis, instrumentos médicos de alta tecnologia[36]. Isto é perfeitamente natural, se considerarmos que mais de quarenta israelitas já conquistaram o Prémio Nobel nas áreas cientificas.

O nível de vida em Israel é alto. Face ao esforço de defesa[37], os cidadãos pagam entre 50 a 60% de impostos. Mas têm direito a educação de qualidade, gratuita, e o serviço público de saúde é igualmente gratuito e de qualidade superior. Muitos dos cirurgiões israelitas são os melhores do mundo nas respetivas áreas. Por todo o território nos deparamos com o crescimento de cidades, erguidas com meleke[38], um tipo de pedra calcária, branca, que se encontra, sobretudo, nas colinas da Judeia e na Cisjordânia. Estas novas cidades, bem como as antigas, são ligadas por uma excelente rede de transportes, apesar dos engarrafamentos frequentes nas entradas e saídas das principais cidades, face ao número elevadíssimo de veículos. Telavive é uma dessas cidades. O seu dinamismo é visível mesmo numa abordagem superficial. Trata-se certamente de uma das mais desenvolvidas metrópoles mundiais e a sua movida noturna é algo que nunca tínhamos visto em qualquer outro lado. Bares e esplanadas cheios, milhares e milhares de jovens confraternizando ao longo dos largos passeios, a perder de vista. De realçar que a temperatura do ar das noites de Telavive, mesmo no fim de outubro, é igualmente elevada. Esta é a cidade mais ocidentalizada de todo o território israelita – aberta, cosmopolita, laica – conhecida como a Bolha, muito diferente da conservadora Jerusalém.

A questão religiosa é, na verdade, o problema mais complicado de resolver. A paz é mais difícil cada vez que os ultraortodoxos conseguem representar-se no Executivo israelita. Há várias tendências dentro daquele grupo, algumas que os crentes seguem cegamente, com práticas bastante estranhas para nós. Por exemplo, é absolutamente interdito o sexo antes ou fora do casamento e não é permitido fazer seja o que for durante o sabbath[39]; as mulheres são consideradas impuras pelo simples facto de menstruarem, e os homens cobrem-nas com um pano, deixando apenas um orifício na zona do sexo, quando fazem amor com elas. Felizmente, nem todos são ultraortodoxos, havendo também crentes não-praticantes e ateus, embora cerca de 55% dos israelitas se considerem judeus. Deste equilíbrio de forças no seio de Israel dependerá, em muito, a convivência, mais ou menos pacífica, com os palestinianos. O avanço israelita na Cisjordânia[40] é muito difícil de justificar (e igualmente muito difícil de parar). A paz, nestas condições, afigura-se extremamente difícil. O problema de Jerusalém constitui também uma tarefa árdua de resolver. Os crentes judaicos mais radicais não aceitam que uma mesquita tenha sido erguida sobre as ruínas dos Templos de Salomão e de Esdras. A cidade é um autêntico barril de pólvora[41], sobretudo pelas tensões que provoca entre judeus e muçulmanos. Talvez o tempo seja o melhor amigo de uma convivência pacífica. Entretanto, a única possível parece ser a paz imposta e não uma paz acordada, mas, ainda assim, talvez esta situação seja preferível à guerra permanente. É justo, porém, dizer que essa paz imposta tem sido demasiado dura para os palestinianos, sobretudo nos últimos vinte anos – o período do pior Israel de sempre, fechado ao diálogo, apostado numa opressão quase irracional aos árabes palestinianos, vistos como eternos inimigos.

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A gente desta terra demonstra um amor inequívoco à Eretz Yisrael.

Cientes de que muitos dos que aqui vivem, judeus, cristãos ou árabes (sobretudo estes últimos), passam grande parte do seu tempo de vida entre a esperança e o desespero, deixámos Israel. Depois desta viagem podemos afirmar que a nossa perspetiva sobre os israelitas mudou, e que é preciso ir a Israel para (pelo menos tentar) compreendê-los. Uma grande parte da aversão aos judeus deriva de um preconceito cultural, mesmo que essa aversão não seja consciente e se baseie em mitos, propaganda e ignorância histórica. Quase em todo o lado nos apresentam os israelitas como opressores e os palestinianos como um povo subjugado. Mas esta história não tem 30 anos, tem mais de 3.000. Quando falamos em judeus e palestinianos há algo que, desde logo, induz a maioria de nós em erro.  A palavra –  “palestinianos” – leva-nos a concluir que aqueles a que chamamos hoje “palestinianos” são os habitantes desde sempre da Palestina, e os judeus os intrusos que lhes roubaram a terra. Mas isto não é verdade. Sempre houve israelitas na Palestina, e até antes de existir a Palestina já existiam judeus naquela terra. Os israelitas da primeira metade do século XX eram chamados de “palestinianos” ou judeus palestinianos, assim como os (únicos) que agora são apelidados de “palestinianos” eram chamados de árabes palestinianos. Havia um jornal sionista cujo título era Palestina e um jornal árabe chamado Filistina.

A situação mais difícil de resolver em Israel é a de Jerusalém, sobretudo na Cidade Velha, onde os conflitos não ocorrem apenas entre crentes das três religiões principais, mas também entre radicais e moderados, entre seitas, ramos e igrejas dentro de cada religião. Por exemplo, a Igreja do Santo Sepúlcro tem de ser dividida entre ortodoxos, católicos, coptas, etíopes e arménios, o que obriga a uma convivência que nem sempre é pacífica. Por outro lado, as três grandes religiões do Livro têm lugares sagrados na Cidade Velha – e é preciso lá ir para ver como o espaço é comprimido, sobreposto, rendilhado. Como dizia Shimon Peres, mais do que uma cidade, Jerusalém é uma chama, e uma chama não pode ser dividida[42]. Amos Oz, o grande escritor hierosolimita, perante este intrincado problema propôs uma solução divertida: devíamos pegar em cada uma das pedras dos Lugares Santos e transferi-las para a Escandinávia durante cem anos; e só as traríamos outra vez para cá quando tivéssemos aprendido a viver juntos em Jerusalém[43]. Enquanto isso não acontece, necessitar-se-ia de bom-senso; era preciso que a fé andasse lado-a-lado com a racionalidade e não se sobrepusesse a ela; era preciso que a moderação e a abertura vencessem o radicalismo. Era preciso, só para começar, um novo Teddy Kollek. Até porque as exigências de autonomia dos árabes de Jerusalém terão de ser tomadas em conta mais tarde ou mais cedo[44].

Sabemos que os israelitas cometeram e cometem atrocidades, da mesma forma que os palestinianos as cometeram e cometem. Não há inocentes neste conflito. Ainda assim, a verdade é que a palavra extermínio continua a ser atirada aos judeus; continua a haver quem ache que eles deveriam desaparecer. Estes estão conscientes disto, algo que se sente e quase se torna palpável em Israel. Talvez a ameaça externa constitua, afinal, o maior fator de união deste povo. Daqui levámos e aqui deixámos saudades. No regresso a casa, lendo Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal, um livro escrito, em 1976, por Saul Bellow, verificamos que, por um ponto de vista, talvez por muitos mais, também nós somos judeus: Os israelitas são grandes viajantes. Precisam do mundo[45].

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Notas:

[1] Como se sabe, o cristianismo divide-se em inúmeros ramos, sendo os mais importantes os ortodoxo, católico e protestante, entre muitos outros.

[2] Os muçulmanos aceitam a Bíblia (tanto o Antigo como o Novo Testamento) e consideram judeus e cristãos como seus parceiros, como “Povos do Livro”, Ahl al- Litâb.

[3] A palavra Bíblia quer dizer, simplesmente, “O Livro”. Vem do grego Byblos, que era o nome pela qual era conhecida pelos antigos a cidade fenícia de Gebal, de onde os gregos importavam o papiro do Egito para escreverem os seus livros.

[4] Os cinco livros (é isso que quer dizer, precisamente, a palavra de origem grega Pentateuco: “cinco livros”) são o Génesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronómio.

[5] Isto é muito interessante na medida em que nos mostra a origem comum de árabes e judeus.

[6] Existe uma significativa controvérsia sobre a localização do Monte Sinai, não existindo consenso entre os historiadores, embora a maioria aceite a Península do Sinai, no Egito, como a localização mais provável. 

[7] Josué (Joshua) viveu no século XIII a.C.

[8] De vez em quando surge algum tipo de informação, algures no mundo, sobre o hipotético aparecimento de um ou mais membros dessas dez tribos perdidas.

[9] Inácio Steinhardt, Raízes dos Judeus em Portugal, entre Godos e Sarracenos, Nova Vega, Lisboa, 2012, p. 29. Toda a primeira parte do presente artigo é também baseado neste obra.

[10] Ob. cit., p. 34.

[11] O Talmude é composto por duas partes. Mishná (texto base) e Guemará (comentários dos rabinos).

[12] Apesar da fuga maciça dos judeus da Península Ibérica durante a Inquisição, ali deixaram raízes profundas. Por exemplo, em Portugal, cerca de um terço da população tem origem sefardita. Sobre este assunto ver artigo deste blogue aqui.

[13] Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo, Editora Schwarcz, São Paulo, 2013, p. 17.

[14] Neste segundo período o antissemitismo católico foi sobretudo protagonizado pelos jesuítas. Não devemos esquecer-nos  de que os estatutos dos jesuítas exigiam a cada noviço a prova de que não tinham qualquer rasto de sangue judeu até a quarta geração.

[15] Diogo Mainardi, A Queda, Editora Record, São Paulo, 2012, p. 125.

[16] Himmler, num discurso aos seus líderes da S.S., em 1943, em Kharkov.

[17] Mais detalhes sobre o assunto aqui.

[18] Da mesma forma, houve quem visse no primeiro Congresso Sionista, realizado em 1897, mais uma conspiração sionista para governar o mundo, que ficou conhecida como “Judá Secreta”.

[19] O termo “pogrom” deriva da palavra russa “gromit”, que significa “destruir”.

[20] Guilherme II considerava os judeus “os parasitas do império”, e chegou a afirmar que os judeus deveriam ser exterminados nas câmaras de gás.

[21] Chegaram a ser sugeridos mais de trinta locais para a criação de um estado judaico. Localizações tão diversas como o Alasca, a Argentina, Angola, Líbia, etc. Hitler equacionou a hipótese de um campo de extermínio em Madagáscar e Estaline acreditou ser possível a criação de um estado judaico na Crimeia.

[22] Artigo deste blogue sobre a Grande Guerra pode ser visto aqui.

[23] Carta completa:O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.´Desde já, declaro-me extremamente grato a V. Sa. pela gentileza de encaminhar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista.” No entanto, parece que a verdadeira razão da adesão da Grã-Bretanha ao sionismo não se prendeu com os bons ofícios de Weizmann. Os ingleses estavam convencidos de que seriam capazes de influenciar favoravelmente a opinião pública americana se fizessem saber que um dos objetivos da sua política era o regresso dos judeus à Palestina.

[24] Jerusalém – a Biografia, Simon Sebag Montefiore, Aletheia Editores, Lisboa, 2015, p. 449.

[25] Recomenda-se o excelente filme de David Lean, Lawrence of Arabia, de 1962, que, além de ser uma obra sublime do ponto de vista artístico, é igualmente um documento fiel, do ponto de vista histórico.

[26] Abdullah, o Apressado, filho do xerife de Meca, Hussein bin Ali, da dinastia dos hashemitas (ao que parece, descendentes diretos do profeta Maomé), haveria de ser rei da Transjordânia e de parte de Jerusalém, pois a cidade ficou dividida por decisão das Nações Unidas, em 1947. O sucessor de Abdullah seria Talal, mas este desiludia o velho rei, que treinou o neto, Hussein, desde pequeno, para reinar. No dia 20 de julho de 1951, uma sexta-feira, Abdullah ordenou ao neto que envergasse o uniforme militar, com as respetivas medalhas. Ao entrarem ambos na mesquita al-Aqsa de Jerusalém, um jovem sacou de uma pistola e, encostando-a ao ouvido de Abdullah, disparou matando o rei instantaneamente. Todos se atiraram ao chão menos Hussein, que se atirou ao assassino enquanto este disparava uma segunda vez, agora sobre ele, antes de ser abatido pelos guarda-costas do rei. Milagrosamente a bala bateu numa das medalhas e Hussein nada sofreu. O avô tinha-lhe salvado a vida sem saber. Logo em 1952, depois do pai ser forçado a abdicar do trono por causa de problemas de esquizofrenia, Hussein tornou-se rei da Jordânia até morrer, em 1999. O seu maior desaire político foi ter perdido Jerusalém e a Cisjordânia para Israel na Guerra dos Seis Dias. Moderado, era amigo do Ocidente e inclusive de Yitzhak Rabin, com quem assinou em 1994 um tratado de paz entre a Jordânia e Israel, que ainda hoje vigora. Sucedeu-lhe o seu filho mais velho, Abdullah II, atual rei da Jordânia.

[27] O chamado Mandato Britânico da Palestina, que durou de 1920 até 1948.

[28]  O documento que regulava o Mandato Britânico da Palestina dizia expressamente no seu preâmbulo: “Considerando que as principais potências Aliadas também concordaram que o Mandatário deve ser responsável por colocar em prática a declaração, feita originalmente em 2 de novembro de 1917 pelo Governo de Sua Majestade Britânica e adotada pelas ditas potências, em favor do estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, sendo claramente entendido que nada deve ser feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das atuais comunidades não-judaicas na Palestina, ou os direitos e status político gozados pelos judeus em qualquer outro país”…

[29] 53% do território seriam atribuídos aos 700 mil judeus, e 47% aos 1 milhão e 400 mil árabes que ali se haviam fixado. Esta repartição foi considerada adequada uma vez que alguns milhares de judeus viviam historicamente naquele território e haviam comprado 65% daquelas terras, ainda antes da Grande Guerra, no tempo dos otomanos. 

[30] Na verdade já tinham ocorrido vários e graves conflitos entre árabes e judeus na Palestina, durante as décadas de 1920, 30 e 40.

[31] Kollek foi eleito cinco vezes como Presidente da Câmara de Jerusalém – 1969, 1973, 1978, 1983 e 1989. Nascido na Hungria, morreu em Jerusalém, em 2007, com 95 anos.

[32] Simon Sebag Montefiore, ob. cit., p. 553.

[33] Os palestinianos, em particular, e os árabes, em geral, não costumam resolver os seus problemas através de acordos. Por isso, muitas vezes recorrem à força. Isso ficou bem patente durante estes últimos anos, com os israelitas a aceitarem (veja-se a flexibilidade negocial de Ben-Kurion e da Agência Judaica) e a proporem acordos e os palestinianos a rejeitarem-nos. No ano 2000, em Camp David, quando Yasser Arafat reuniu com Ehud Barak (mais um primeiro-ministro israelita do Partido Trabalhista que, como sempre, estava disposto a negociar) sob os auspícios de Bill Clinton, foram-lhe oferecidas condições únicas, que provavelmente nunca mais se repetirão. Noventa e um por cento da Cisjordânia e uma capital palestiniana em Abu Dis; os subúrbios árabes de Jerusalém Oriental; 3/4 da Cidade Velha, em Jerusalém; finalmente, perante a intransigência de Arafat, a soberania sobre o Monte do Templo, apenas sendo permitido aos israelitas uma ligação simbólica aos Lugares Santos. Arafat chocou americanos e israelitas quando afirmou que não existira nunca um templo judaico em Jerusalém, que isso era uma invenção moderna dos israelitas. Yasser Arafat recusou a proposta. A consequência disso foi a segunda intifada e a ascensão de Sharon, que reprimiu duramente os palestinianos e os isolou mais ainda através da construção de muros de segurança. 

[34] Um facto de que poucos têm conhecimento é que muitas centenas de estropiados, que conseguiram fugir do atual conflito interno na Síria, foram tratados em hospitais de Israel.

[35] As técnicas de irrigação em Israel são as mais avançadas do planeta.

[36] A mais antiga indústria desta terra é a do azeite.

[37] Cerca de um milhão de indivíduos estão a todo o momento disponíveis para combaterem. Seiscentos mil no ativo e quatrocentos mil na reserva.

[38] O termo meleke é de origem árabe e quer dizer “pedra real” ou “pedras dos reis”, talvez porque os túmulos mais importantes de Jerusalém foram construídos com ela. A palavra entrou no jargão técnico, adotada do léxico usado pelos pedreiros, ancestralmente, no terreno.

[39] Dia semanal de descanso, rigorosamente respeitado pelos judeus, entre o anoitecer das sextas-feiras e o anoitecer dos sábados.

[40] Há três tipos de zonas na Cisjordânia – “A”, “B” e “C”, criadas após o Acordo de Oslo de 1993. A zona “A” é completamente controlada pelos palestinianos; a zona “B” é controlada por patrulhas mistas, de israelitas e palestinianos, sendo que quem detém o comando são os israelitas; e a zona “C”, a maior, com mais de 60% do território, é controlada pelos israelitas. Estes continuam a construir colonatos nesta zona (a que tens mais recursos naturais, incluindo a preciosa água) e a empurrar os palestinianos para as zonas “A” e “B”. Isto torna a vida dos palestinianos muito difícil. A água é controlada e fornecida pelos israelitas. Os palestinianos não podem construir as suas casas na zona “C” sem autorização dos israelitas e estes pura e simplesmente recusam-se a emitir as respetivas licenças. Os controlos militares atrasam, encarecem e tornam muitas vezes inviável o comércio com o exterior. O desemprego é alto e muita gente vive na pobreza. A situação em Gaza é ainda pior. Não fora a ajuda internacional – nomeadamente da União Europeia – e os palestinianos não resistiriam.

[41] A expressão foi usada, entre muitos outros, pelo rei Abdullah II da Jordânia (bisneto de Abdullah, o Apressado), em 2010: “Jerusalém é um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. Todos os caminhos desta zona do mundo, todos os conflitos,vão dar a Jerusalém”.

[42]  Jerusalém – a Biografia, Simon Sebag Montefiore, Aletheia Editores, Lisboa, 2015, p. 565.

[43] Ob. cit., p. 566.

[44] Saul Bellow, Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal, Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2016, p. 151.

[45] Saul Bellow, ob. cit., p. 147.

Rodes, Grécia

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Aspeto da cidadela medieval de Rodes.

A ilha de Rodes, a maior do chamado Dodecaneso, é um território paradisíaco, com praias lindas, de águas cristalinas – as mais apetecíveis situadas na costa oriental, entre a cidade de Rodes e Lindos, pois este lado da ilha é mais abrigado do vento – e um clima invejável, tipicamente mediterrânico, com muito sol. O espaço mais interessante da cidade que dá nome à ilha – Rodes – é o seu burgo medieval, designado Património Mundial pela UNESCO, em 1988.

Dentro das muralhas podemos observar edificações cristãs (neste caso, católicas – o que não é muito comum na Grécia ortodoxa) e islâmicas, sendo as mais emblemáticas as erigidas pelos membros da Ordem de S. João de Jerusalém (Hospitalários), vulgarmente conhecida como Ordem de Malta, por se ter estabelecido na ilha de Malta, doada à Ordem, em 1530, pelo imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico, após a sua saída de Rodes. A designação oficial da ordem é, aliás, Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, curiosamente, três locais que visitámos no decorrer desta viagem.

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Fachada de edifício do período muçulmano, em Rodes.

A cidadela medieval de Rodes está extraordinariamente bem preservada e aqui encontramos castelos, mesquitas, fontes, praças e arruamentos que nos transportam a um mundo que já não existe, tudo isto enclausurado em muralhas portentosas. Face ao turismo massivo, é também na cidadela medieval que se encontra a principal área comercial e de serviços da ilha, como restaurantes, lojas, mercados, bancos, etc. Há também vários museus importantes que se podem visitar e muita animação de rua, sobretudo no Verão, quando muitos milhares de turistas vêm juntar-se aos cerca de 10.000 habitantes da cidade.

De Rodes é possível fazer vários circuitos marítimos em torno da ilha e também apanhar um ferry para ilhas vizinhas, sendo recomendável uma visita à belíssima ilha de Symi, a pouco mais de uma hora de viagem. Não é possível falar de Rodes sem se fazer referência ao seu tão badalado Colosso, uma das sete maravilhas do Mundo Antigo, catalogadas, segundo se diz, pelo grego Antíprato de Sídon. Ao que parece, essa estátua em bronze, com 30 metros de altura, foi erguida na entrada do porto, e os navios passavam por baixo dela. O seu autor foi Carés de Lindos, que demorou mais de dez anos para concluir o monumento, no século III a.C. Cinquenta e cinco anos após a construção, o Colosso foi destruído por um violento terramoto. Há um projeto recente, da autoria do artista alemão Gert Hof, para construir um novo Colosso em Rodes, este ainda mais colossal.