Macau

O colégio da Madre de Deus e a igreja da Assunção de Nossa Senhora (anexa), em Macau, foram abandonados pelos jesuítas no século XVIII, após a ilegalização da Companhia de Jesus, sob forte influência do Marquês de Pombal. Em 1835, um violento incêndio deixou apenas de pé a bela fachada (“fachada retábulo”, de acordo com o gosto europeu da época) daquela que foi, em tempos, uma das maiores igrejas do Extremo Oriente. Do colégio, um importante refúgio para os jesuítas fugidos da perseguição japonesa, quase nada sobreviveu. Eis as “Ruínas de São Paulo”.
A designação (“Ruínas de São Paulo”) ficou a dever-se ao hábito que as pessoas adquiriram de chamar ao conjunto (colégio e igreja) Colégio de São Paulo porque era conhecida a particular devoção dos padres jesuítas por este santo. O nome manteve-se até hoje. Na colina adjacente, de onde tirámos esta foto, encontra-se a Fortaleza do Monte, construída no século XVII, dentro da qual foi criado recentemente o Museu de Macau. Este conjunto constitui o núcleo histórico classificado pela UNESCO, desde 15 de julho de 2005, como Património Mundial, e é a maior atração turística do território.
Apesar da presença portuguesa ser bem visível por aqui, quase não se ouve falar português em Macau. Apenas entre a pequena comunidade lusa (os números oficiais são contraditórios, mas no local disseram-nos que os portugueses são cerca de 30 mil) ou quando lemos em voz alta os nomes das ruas, alguns, de resto, bastante curiosos e interessantes. Não é crível que um viajante luso possa ficar indiferente, tão longe de casa, ao Pátio da Eterna Felicidade.
Nem pode o viajante ficar indiferente perante a Misericórdia de Macau, uma das mais antigas do mundo, com mais de 450 anos, ainda em atividade. A fachada principal está virada para o Largo do Senado (só acessível a quem circule a pé sobre a calçada portuguesa), no qual se encontra um belo fontanário circular. O edifício está incluído no Conjunto dos Monumentos Históricos de Macau, Património Mundial da UNESCO, desde 2005.
Não admira, porém, que a Misericórdia se mantenha em atividade. Macau é pobre e isso é visível a olho nu. Essa pobreza contrasta com o imenso dinheiro que circula pelos vários casinos do território. “El Chapo”, um conhecido traficante mexicano recentemente condenado a prisão perpétua, gostava de ir (no seu jacto privado) jogar a Macau e, a avaliar pela ligação que os chineses têm ao jogo, o futuro dos casinos parece longamente assegurado.

Vietname

da nang16
Imagem da cidade de Da Nang, Vietname.

O Vietname é um país ainda muito marcado pelo colonialismo e a guerra[1], mesmo que para as novas gerações esses tempos façam já parte da história . À semelhança da China (embora as comparações com a China não sejam muito bem recebidas no Vietname), o seu regime de partido único vem abrindo a economia do país à iniciativa privada. Essa abertura tem permitido o investimento estrangeiro, o incremento do turismo e a criação de infraestruturas, num país onde ainda falta quase tudo. Isto proporcionará, em princípio, a criação de empregos, o aumento do consumo e do poder de compra[2], em suma, uma melhoria significativa na vida dos (cerca de 95 milhões) de vietnamitas.

Porém, a abertura económica será sempre insuficiente, se não conduzir à abertura política. E abertura política implica um sistema educativo livre, sem condicionamento ideológico. Como em todas as sociedades, também no Vietname a batalha do bem-estar social começa na Educação.

******************************

[1] As consequências da guerra foram terríveis e ainda se sentem hoje. Os americanos lançaram quatro vezes mais bombas sobre território vietnamita do que todas as bombas lançadas durante a II Guerra Mundial. Os efeitos são, ainda hoje, devastadores, com vastas regiões envenenadas com a dioxina TCDD presente nos milhões de litros de agente laranja lançados dos aviões norte-americanos.

[2] Do PIB per capita.

Colombo, Sri Lanka

sri kailasanathar swamy devasthanam
A iconografia dos templos hindus é muito interessante, como se comprova pela fachada do Sri Kailasanathar Swamy Devasthanam, em Colombo. Hinduístas (12,6%) budistas (70,2%),  muçulmanos (9,7%) e cristãos (7,4%) convivem pacificamente. Os principais conflitos no Sri Lanka são de origem étnica e não religiosa.

O Sri Lanka é um país bastante influenciado pela proximidade à Índia, de onde devem ter vindo os primeiros habitantes da ilha. No século XIV uma dinastia do Sul da Índia formou um governo tamil no Nordeste do território, antes da chegada dos portugueses, que dominaram o comércio nas zonas costeiras, no início do XVI. Depois vieram os holandeses (XVII) e mais tarde os ingleses (XVIII), que, à época, formavam já o maior império mundial de sempre. Na altura a ilha era conhecida como Ceilão e, embora independente desde 1948, apenas lhe mudaram o nome para Sri Lanka em 1972.

Depois disso, as crescentes tensões entre a maioria singalesa e a minoria tamil culminaram numa guerra civil, que se iniciou em julho de 1983 e durou mais de um quarto de século. Negociações intermediadas pela Noruega conduziram a um cessar-fogo em 2001, mas a guerra nunca verdadeiramente terminou e ganharia nova força, em 2006, até os tamis serem derrotados, em maio de 2009. Os governantes pós-conflito, primeiro o presidente Mahinda Rajapaksa e depois o presidente Maithripala Sirisena e o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe (o Sri Lanka tem um regime semi-presidencialista), procuraram desenvolver o país, criando infraestruturas (sobretudo com financiamento chinês), e aprofundar a democracia, respeitando os direitos humanos e promovendo a reconciliação nacional.

De acordo com dados governamentais, cerca de 900.000 pessoas deslocadas devido ao conflito interno, estavam realojadas em outubro de 2017 (o total de habitantes do Sri Lanka ronda os 22 milhões e meio). A reconciliação nacional parece bem encaminhada. O desenvolvimento do país passa também pelo combate à corrupção (um dos principais problemas atuais), pelo potenciamento da excelente localização geográfica (sobretudo para o comércio marítimo) e pelo incremento do turismo, como podemos comprovar durante a nossa curta estadia.

Resta dizer que, a par da corrupção, um dos principais problemas do Sri Lanka é a degradação ambiental: as atividades de mineração provocam a erosão de zonas costeiras; e o saneamento básico é ainda incipiente, o que, em conjunto com os resíduos industriais, provoca a poluição dos recursos de água doce. Uma boa forma de conhecer Colombo, a capital, é alugando um tuk-tuk, pelo preço médio de 10 dólares/hora. O motorista levá-lo(a)-á aos locais mais interessantes (o que durará, no máximo, 4/5 horas). Isto, claro, contribuirá ainda mais para a poluição da cidade, que, como também foi notório durante a nossa estadia, é bastante elevada. Porém, passear a pé durante o dia em Colombo é pouco recomendável, pois o calor é muito difícil de suportar.

Hong Kong

hongkong2
Apesar de pertencer à China, Hong Kong mantém uma grande autonomia, devido à sua condição de ex-território britânico. A concentração de pessoas é ainda maior que em Singapura.  O único remédio é construir em altura, por isso os arranha-céus estão por todo o lado. Pontualmente, às oito da noite, milhares de pessoas assistem todos os dias ao espetáculo Symphony of Lights, nos passeios marítimos de ambos os lados do Victoria Harbour (foto). Circulando por aí podemos ouvir línguas de viajantes vindos de todas as partes do globo. Eles são a prova de que Hong Kong é, hoje mais do que nunca, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo.

Singapura

singapura5
Singapura seria um dos países mais avançados do mundo, não fora a vigência da pena de morte.

Desculpem interpolar-vos, mas é só para dizer que podem encher a vossa garrafa com água da rede as vezes que quiserem. A água canalizada é muito boa, muito melhor que a engarrafada, e é gratuita, claro. São de onde? Ah, Brasil e Portugal. Deixe-me perguntar-lhe uma coisa, qual a temperatura em Setembro? Sim, estou a pensar visitar o seu país. Em Portugal fala-se inglês? “Great”. Vocês, portugueses, são extraordinários, estiveram em Malaca há muitos anos. Gosto de estudar a história dos países que quero visitar. Espere, deixe-me ver uma coisa no telemóvel, cá está, “Formosa”, foi o nome que vocês deram à ilha de Taiwan. Quer dizer “linda”, não é verdade? Sim, sim, a língua oficial de Singapura é o malaio, mas como pode ver a que usamos realmente é o inglês, a língua do comércio e dos negócios. Repare, os países que quiseram retomar as línguas nativas, como o Sri Lanka, ficaram para trás. Eu sei, é o antigo Ceilão português. Estão gostando da cidade? Ah, ótimo, pois ainda bem que estão aqui para ver com vossos olhos. Muitos estrangeiros não entendem o nosso sistema, pura e simplesmente, não percebem. Sabe, nós não temos pensões de reforma em Singapura. Eheheh, vejo que ficou surpreendido, é normal, todos se surpreendem, mas funciona lindamente. Como? Bem, o patrão desconta 20% do seu salário para um fundo próprio e você outros 20%. Quando se reforma o dinheiro é seu. O sistema de educação? Claro, é exigente, os alunos são avaliados com rigor e os que se destacam são escolhidos para o governo e cargos públicos. A oposição? Existem seis partidos no parlamento, mas as pessoas têm escolhido sempre o mesmo desde a independência. Sabe, somos um país extremamente estável. E também pequeno, claro, é por isso que o espaço é tão valorizado. Com um espaço tão reduzido não temos terrenos agrícolas (isto não deixa de ter a sua ironia, pois os terrenos onde se ergue Singapura não são os mais adequados para a agricultura), mas isso não nos preocupa, e muito menos desde que comprámos terrenos férteis na China e na Indonésia. Mesmo assim, veja bem, nesta terra reduzida somos 5,5 milhões, sem contar com os 17 milhões que nos visitam anualmente e os 50 milhões que circulam pelo nosso aeroporto. Somos um “hub” nos transportes marítimo e aéreo, e somos um país atrativo porque os impostos são baixos. O teto dos impostos que pagamos sobre o rendimento estava em 20% mas há pouco passou para 22%. Pessoas como eu pagam 9 ou 10%. Além disso, não somos nacionalistas e o investimento estrangeiro é bem-vindo, desde que seja bom. Repare, o nosso herói nacional é um britânico, Sir Stamford Raffles. Bem sei que pode parecer um bocado estranho para um europeu, mas isto é Singapura. Sabe, tenho um amigo espanhol, bem, na verdade é amigo de um amigo meu, que me disse um dia que trabalhamos de mais e não temos qualidade de vida. Ai é, temos talvez o melhor sistema de saúde do mundo e não temos qualidade de vida? Ahahah! Como funciona? Vejo que o senhor se interessa, ainda bem que está aqui para ver com seus olhos! O sistema de saúde é universal e cada cidadão pode recorrer a hospitais públicos ou privados, que concorrem entre si, enquanto o Estado garante regras equitativas. Cada um contribui com uma percentagem do salário, de acordo com as suas possibilidades. “It works!” Gastamos com o nosso sistema de saúde menos de 5% do PIB, cobrindo todas as áreas, incluindo a saúde mental, com as melhores práticas mundiais. Sabia disso? Bom, espero que apreciem a cidade, observem, vejam como funciona. Foi um prazer conhecer-vos. Boa viagem!

Festival do Contrabando

editada2
Mesmo quando estavam no poder dois ditadores – Franco e Salazar – os habitantes de Alcoutim, em Portugal, e Sanlúcar de Guadiana, em Espanha, nunca deixaram de se relacionar, nem que fosse através do contrabando. Hoje, com as fronteiras entre os dois países totalmente abertas, as duas povoações celebram, na segunda edição do Festival do Contrabando, esses tempos em que nem as ditaduras as conseguiram separar.

editada17
Para o efeito é montada, durante os três dias do evento, uma ponte flutuante pela qual as pessoas podem atravessar, durante várias horas diurnas, de uma margem para a outra do Guadiana. Por um euro apenas, é fornecido um lenço (de cor diferente em cada um dos três dias), que as pessoas exibem, podendo assim aceder à ponte.

alcoutim20
A afluência tem sido tão grande que as pessoas são obrigadas a permanecer bastante tempo em filas intermináveis, até conseguirem aceder à ponte pedonal e, assim, atravessarem o rio e fazerem o caminho de volta. A ideia do lenço é bastante interessante, confere um colorido suplementar à paisagem, que ali é belíssima, com o rio, os veleiros, e o casario alvo em ambas as margens.

editada9
Verdade seja dita, a afluência do lado de Alcoutim foi muito maior, talvez porque Portugal é muito mais pequeno que Espanha e, por isso, as pessoas têm mais facilidade em deslocar-se dos grandes centros até ao festival. E também os artistas que animaram o evento foram maioritariamente portugueses. Por exemplo, o magnífico Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento (na foto).

editada23
E também os agentes da autoridade (da Guarda-Fiscal), cuja missão era procurar entre a multidão os contrabandistas. Quando os encontravam, uma coisa era certa: havia burburinho (a foto captou o momento em que uma contrabandista enfrentava um guarda-fiscal). O êxito da edição deste ano do Festival do Contrabando, organizado pelas edilidades de Alcoutim e Sanlúcar de Guadiana, permite-nos dizer, com alguma segurança: para o ano há mais.

Palácio de Estoi

estoi
O Algarve não é só mar e serra, não tem somente belezas naturais. Entre as inúmeros exemplos do magnífico património edificado algarvio, temos de considerar o belíssimo palácio de Estoi.

estoi3
Virado para o jardim, para o mar e para o Sul, o Palácio de Estoi é um belo edifício para fotografar ao fim do dia, em qualquer época do ano, quando as cores ficam mais puras.

estoi6
E não são apenas os materiais inertes que vale a pena fotografar. A atmosfera cinematográfica enquadra muito bem os seres vivos fotogénicos, que aqui parecem (e são) ainda mais belos.