Ilha das Flores e Parque Nacional de Komodo, Indonésia

Ilha de Padar, no Parque Nacional de Komodo.

Dia 12 (continuação do artigo anterior)

Hoje foi dia de descansar. Tinham-nos dito que Kupang é uma cidade pouco interessante, e é verdade. As praias são pouco atrativas e, por isso, o turismo está pouco desenvolvido aqui. No entanto, Kupang é densamente povoada e há um enorme movimento de pessoas nas ruas, e muita atividade económica. Mas como o turista não tem muito que fazer, aproveitámos para lavar roupa numa lavandaria local. Pagámos o equivalente a 2 euros, para mais de quatro quilos de roupa lavada, secada e engomada.

Isto conduz-nos a uma dica importante: poupa-se muito dinheiro quando se viaja com apenas bagagem “de mão”, por exemplo uma pequena mochila, sobretudo se voarmos em companhias de low-cost; além disso, é muito confortável e prático: andamos mais leves e com as mãos livres, o que é mais importante do que por vezes se pensa. Para que isto aconteça, é importante reservar um dia (ou mais, se for o caso) para lavar a roupa, algo que, hoje em dia, se revela muito fácil.

No Sotis Hotel (foto de Fla).

Enquanto a roupa era lavada, fomos deambulando à procura de um lugar para almoçar. Encontrámo-lo no Sotis Hotel Boutique & Resort, e na sua esplanada sobre o mar. É um sítio tão agradável que nos deixámos ficar muito mais tempo do que seria estritamente necessário. Por falar nisso, come-se muito bem na Indonésia. Aqui usam-se vários tipos de couve parecidos com a acelga, provavelmente da mesma família, mas ligeiramente diferentes: pak choi e sawi hijau, entre outros. Nos restaurantes confecionam-se grandes panelões de caldo de carne, o qual é vertido a ferver numa tigela que já contém todo o tipo de ingredientes, incluindo alguma dessas espécies de acelgas, omnipresentes na cozinha indonésia.

Era domingo, a cidade estava tranquila, e depois de irmos buscar a roupa à lavandaria, fomos para o hotel descansar. Ao final do dia saímos e fomos a um restaurante muito bem classificado no Google, situado sobre o mar, numa zona propícia para se observar o pôr do sol. O Kapal Ikan fica a um quilómetro e meio do hotel onde estávamos (RedDoorz Krishna Homestay), e fomos, e voltámos, a pé. Mais uma vez comemos bem, gostámos do lugar, e a conta foi barata. Depois de chegarmos ao hotel, arrumámos a trouxa para a partida no dia seguinte e não demorou muito até adormecermos.

Roupa lavada, engomada e perfumada.

Dia 13

Saímos do hotel por volta das 9 horas e apanhámos um bemo (o homólogo do microlet de Timor-Leste) para o aeroporto. Foi bastante engraçado porque fomos no meio de umas senhoras que se mostraram bastante curiosas, com risos e olhares sobre nós. Mas afinal o bemo não vai mesmo até ao aeroporto, passa numa avenida que fica ainda a uma distância considerável. Um motorista de táxi que passava percebeu que íamos para o aeroporto (o que não era de todo difícil de adivinhar), parou e lá fizemos mais um quilómetro de táxi, nem me lembro quanto pagámos, foi barato como tudo na Indonésia.

No aeroporto tomámos o pequeno-almoço e ficámos à espera do nosso voo para Labuan Bajo, na ilha das Flores. Estávamos sentados no launch do aeroporto quando veio ter connosco o médico timorense que tinha viajado de Díli para Kupang no mesmo autocarro. Ia apanhar um voo para Jacarta, viu-nos e fez questão de nos falar. Rapaz simpático. Uma meia-hora depois de vê-lo desaparecer na manga do aeroporto enquanto nos acenava, foi a nossa vez de descermos à pista para apanharmos o nosso avião a hélice, o qual fez uma primeira paragem em Bajawa, bem no centro da ilha das Flores, e pouco depois seguiu para o aeroporto internacional de Komodo, em Labuan Bajo, aonde chegámos por volta das 3 da tarde.

Se todos os voos fossem como este, não custavam nada (foto de Fla).

Saímos do aeroporto e fomos a pé até ao nosso alojamento, que fica a uns meros 500 metros, se tanto, no topo de uma colina sobre o aeroporto. Ficámos no Pieter Homestay, um alojamento familiar que deve o seu nome ao chefe de família, Pieter, o próprio, um sujeito bastante esperto, sempre à espera de lucrar alguma coisa com os clientes; tirando isso, um tipo bastante simpático e prestável. As instalações não são más, mas o nosso quarto privado tinha uma característica assaz irritante: formigas. Umas formigas minúsculas que se metiam nos lençóis e nos prejudicavam o sono. O pequeno-almoço é bastante pobre e monótono: café ou chá, uma tacinha de frutas com quatro pedaços de melancia e outros tantos de abacaxi, e uma pequena panqueca de banana. Todos os dias.

Depois de deixarmos as mochilas no quarto, fomos a pé à procura de algo para comermos. Descemos a íngreme rua e encontrámos, mesmo em frente ao aeroporto, um restaurante que haveria de ser o nosso local de refeições de todos os dias. Provavelmente, o melhor restaurante de Labuan Bajo. Descobrimo-lo por sorte, mas também, verdade seja dita, pela curiosidade que nos move — o motor que nos impulsiona nas viagens. O dito restaurante — que ocupa todo o primeiro andar de um centro comercial — tem vista privilegiada sobre o aeroporto e chama-se Zodiac Bajo.

Numa rua do centro de Labuan Bajo.

Ficámos por ali bastante tempo, voltámos ao alojamento, e umas horas depois regressámos. Sopas, saladas, massas, frutos do mar, sumos maravilhosos, entre outros — o menu é variado. E tudo é confecionado com esmero, tudo é gostoso de mais. E assim se passou o dia: a comer e descansar.

Dia 14

O Pieter trata de tudo o que os hóspedes necessitarem, desde passeios turísticos a aluguer de carros e motos, sempre na mira de ganhar a sua comissão, claro. Foi a ele que comprámos o nosso passeio ao Parque Nacional de Komodo, por 1.650.000 rupias por pessoa, incluindo almoço e taxa ambiental obrigatória. Tivemos direito a recibo, assinado pelo punho do próprio Pieter.

Assim, ainda antes das 7 da manhã, um motorista foi-nos buscar ao alojamento e, já com o pequeno-almoço do costume tomado, descemos ao cais de embarque no centro de Labuan Bajo. A nossa embarcação era super rápida, com 3 potentes motores, e a lotação de 24 lugares não estava esgotada, éramos apenas 12 passageiros a bordo — um casal catalão, um casal australiano, ainda outro casal japonês, duas indonésias, um japonês que viajava sozinho, um rapaz também a solo, sobre quem não lográmos descobrir a nacionalidade, e nós.

As tradicionais embarcações de madeira conhecidas por Phinisi. A técnica de construção destes navios, outrora operando no comércio e hoje no turismo de luxo, foi reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. (Foto de Fla).

Pelo caminho, quer na ida quer na volta, passámos por imensas embarcações tradicionais de dois mastros, construídas em madeira, que fazem passeios de 2 ou 3 dias, eventualmente mais, e que são uma opção muito atrativa para quem queira fruir do ambiente a bordo, relaxar, visitar os locais com mais tempo, ter uma experiência mais profunda do Parque, por um preço que normalmente varia entre os 350 e os 450 dólares, tudo incluído (normalmente também fazem um vídeo personalizado sobre o passeio). A nossa opção não foi essa, por isso o nosso pequeno navio passava por essas embarcações a voar.

O primeiro local onde parámos, depois de uns 45 minutos a navegar a alta velocidade, foi a ilha de Padar. Chegámos ainda bastante cedo e tivemos cerca de uma hora para subir ao topo da montanha, ver a vista e descer pelo mesmo caminho, que inclui 825 degraus, fora as rampas de terra batida. É preciso estar minimamente em forma para fazer o trajeto. Lá de cima a vista é, de facto, magnífica. Quando descemos ficámos um pouco à espera que todo o pessoal do nosso grupo se reunísse, e aproveitei esse tempo para conversar com um senhor de Singapura que não tinha escalado a montanha por ter problemas num joelho. Foi interessante, pois confirmei algumas coisas que me tinham sido ditas por outro cidadão da cidade-estado de Singapura, quando lá estivéramos em 2018 (aqui).

Uma praia em tons de azul e rosa.

Depois de todos a bordo seguimos viagem para um praia, ainda na ilha de Padar: a Pink Beach. Quando nos aproximamos da praia começamos a perceber uma característica interessante: a areia tem um tom rosado, que varia consoante o ângulo, a distância, a hora do dia e a maré. Na verdade, a areia da praia não é rosada, o tom rosa advém de um coral chamado tubo-de-orgão vermelho que, quando morre, vai sendo quebrado pela ondulação e misturado à areia da praia. O barco fundeou junto à margem e logo que desembarcámos começámos a fruir das magníficas águas calmas, mornas e incrivelmente transparentes, podendo ver no leito do oceano várias espécies de peixes, pedrinhas e fragmentos do coral tubo-de-orgão. Ficámos cerca de uma hora na Pink Beach, nadámos, caminhámos, bebemos água de coco num barzinho e fotografámos cem vezes a praia antes de voltarmos ao barco.

A próxima paragem foi na ilha de Komodo, para vermos os dragões. Deu para perceber que eles estão habituados aos habitantes locais. Os turistas pagam para ver os dragões, os habitantes locais alimentam-os com o dinheiro do turismo, e os dragões ficam por ali a dormitar, à sombra de uma árvore, posando para os turistas. Tudo certo, mas demasiado artificial. Supostamente, por causa do calor, os dragões têm de descansar à sombra para autoregularem a temperatura corporal. Parecem anestesiados, raramente se movimentando, e os turistas fazem filas para tirarem fotos com eles.

Dragão de Komodo.

Mais interessante que os dragões de Komodo são as casas palafitadas e as pessoas que nelas vivem, sobretudo as incontáveis crianças a quem calhou nascer neste lugar único. Vimos dragões-bebé a passear pelas paredes exteriores das casas, sem qualquer espécie de medo dos humanos, já adaptados aos cliques constantes das câmaras fotográficas dos visitantes, tal como as nossas crianças já nascem com aptidão genética para usar o telemóvel. Mas a sensação é que as crianças aqui são mais felizes: o contacto com a natureza, com outros seres vivos, ajuda-as a uma melhor integração no cosmos. Íamos pensando nisto enquanto regressávamos à nossa embarcação rápida, onde pouco depois almoçámos. Além do almoço, havia bebidas a bordo: água, refrigerantes e cerveja. Tudo estava incluído no preço já pago.

A próxima paragem foi numa praia que aparece e desaparece consoante a maré, a Taka Makassar. Havia pessoas a fazer snorkeling, mas não foi o caso do nosso grupo. O local é lindo, apenas uma língua comprida de areia e o oceano claro todo à volta. E foi então que algo curioso aconteceu: de repente, sentimos algo a mordiscar-nos uma perna e demos um salto surpreendidos, um pouco mais à frente outra mordiscadela; foi então que desatámos a nadar até a língua de areia, evitando andar (o local tinha pé) e movimentando energicamente o corpo para não sermos mordidos. Depois de várias mordiscadelas fica-se com aquela sensação incomodativa de que uma nova mordiscadela pode acontecer a qualquer momento. E foi o que aconteceu.

Uma criança de Komodo.

Procurámos chegar rapidamente ao barco. Curiosamente, a Fla não foi mordida, mas o jovem catalão queixou-se do mesmo problema. Perguntámos ao guia indonésio que tipo de peixe (seria mesmo um peixe?) era aquele e ele disse-nos que era um peixe pequeno, vermelho, cujo nome não memorizámos. Depois da praia que desaparece e aparece, deslocámo-nos para uma primeira zona de snorkeling, vimos corais e peixes variados, mas a melhor parte estava reservada para uma segunda zona, com uma corrente forte, que verdadeiramente nos deslumbrou.

Enquanto deslizávamos rapidamente, impulsionados pela corrente, víamos em baixo uma miríade de peixes coloridos, tartarugas, corais e até mergulhadores com garrafas de oxigénio. Não demos pelo tempo passar. O barco ía-nos acompanhando, mas às vezes esquecíamo-nos de levantar a cabeça e afastávamo-nos ora do grupo ora da embarcação porque perdíamos a noção do tempo. Quando levantávamos a cabeça ouvíamos o guia a chamar-nos. No final, reunimo-nos todos e subimos para o barco, iniciando o regresso a alta velocidade até Labuan Bajo, aonde chegámos quase no final do dia. Levaram-nos ao Pieter House e, pouco depois, descemos ao Zodiac Bajo para jantarmos. Tinha sido um dia em cheio.

Dia 15

Na praia de Jalan-Ké.

Hoje dormimos até mais tarde. Depois do pequeno-almoço costumeiro, alugámos uma scooter e decidimos sair da cidade. Fomos para sul, sem rumo definido, apenas à descoberta, como tantas vezes gostamos de fazer. Tentámos ir o máximo possível junto à costa. A primeira paragem foi numa pequena e remota aldeia de pescadores chamada Warloka. Adentramo-nos pela aldeia e pelos vistos fomos alterar a rotina de seus habitantes, tornando-nos o centro das atenções — o que fariam dois desconhecidos, nitidamente estrangeiros, a circular dentro da aldeia numa scooter? Um habitante que arranhava o inglês veio ter connosco, deu-nos preciosas informações, incluindo que estávamos a poucos quilómetros de Rinca — víamo-la perfeitamente, mas não tínhamos descortinado que era uma ilha.

Despedimo-nos e continuamos para sul. Parámos numa praia deserta, que não achamos no mapa, chamada Jalan-Ké Pantai, mas não nos banhámos. Continuámos a descer, desta vez até outra pequena aldeia, onde nos deparámos com um 3 guardas florestais, na verdade estudantes universitários a estagiarem como guardas florestais, que nos disseram, face à proximidade de Rinca (menos de um quilómetro em alguns pontos), que por vezes são avistados nesta zona dragões de komodo. Daí os sinais que avistáramos na estrada. Explicaram-nos que os dragões são bons nadadores, tais como os crocodilos, e que por vezes passam para este lado.

Em Soknar.

Os habitantes destas pequenas aldeias são maioritariamente muçulmanos, numa ilha das Flores esmagadoramente católica. Independentemente disso, todos são acolhedores e simpáticos. Esta aldeia chama-se Soknar. Deambulámos por ali uns minutos, percorremos um pontão enorme com travessas de madeira (muitas quebradas), erguido sobre altas e esguias estacas, observámos umas plantas que crescem no leito do mar como estalagmites, falámos com uma menina que aparentemente vinha da escola, e voltámos a Labuan Bajo.

Pouco depois de entrarmos na cidade, numa das movimentadas ruas, vimos uma pessoa segurando uma moto parada na berma, e ao lado uma grande mancha de óleo. Tudo isto enquanto nos movimentávamos, pois só vimos a mancha de óleo um metro antes de passarmos por cima dela. Instintivamente, procurei ir sempre com a moto direita e travei muito devagar. Mesmo assim a scooter resvalou, mas como já estávamos quase parados, não caímos. Disse à Fla para desmontar e, com extremo cuidado, entrei numa travessa de terra batida onde circulei para trás e para a frente, curvei, tentei ao máximo que a terra cobrisse o óleo dos pneus. Finalmente, ainda com cuidado, disse à Fla para montar. Quando saímos da travessa e íamos a passar pela mesma rua onde estava o óleo, vimos uma moto e algumas peças quebradas no chão, enquanto um sujeito se levantava, olhando e apontando desolado para a mancha de óleo.

Partindo da aldeia de Soknar.

Seguimos, ainda com cuidado, e fomos almoçar a um bar muito conhecido da cidade, o SNIVV, frequentado tanto por locais como por turistas, e comemos muito bem, como de costume. Depois fomos até ao Pieter descansar um pouco e ao final da tarde deslocámo-nos na scooter até ao sopé de uma colina de onde se pode observar o pôr do sol. Chegámos cedo e fomos dos primeiros a subir ao topo, por um íngreme trilho. Depois começou a chegar mais gente. Faz sempre uma enorme impressão, pelo menos a nós, ver aquelas pessoas que gostam de tirar fotos e selfies à beira do precipício, por isso optamos por nos distrair e olhar para o lado. O sol fez-nos esperar mais do que o previsto, mas lá se pôs, indiferente aos olhares das dezenas de pessoas presentes naquele pequeno cume em Labuan Bajo, cujo curioso nome é Bukit Amelia.

À noite fomos jantar ao Zodiac Bajo, como de costume, já éramos conhecidos e todos nos cumprimentavam, incluindo os cozinheiros. E assim se passou mais um dia. Só que não. Quando fui para a cama comecei a sentir um desconforto e não era só das formigas. Estava a sentir a garganta a coçar, sentia ora frio ora calor, estava extremamente desconfortável e deduzi que estaria doente. A parte boa é que estávamos praticamente no final da viagem e teria sido muito pior se tivéssemos adoecido no início. Isto animou-nos. Mas havia uma parte pior pela frente: a extenuante viagem de regresso, durante a qual teríamos de passar por tempos longuíssimos de voos e esperas em aeroportos, paciente e impaciente. Aos trancos e barrancos, lá adormecemos.

Pôr do sol visto do Bukit Amelia.

Dia 16

Acordámos cedo para fotografarmos Labuan Bajo ao amanhecer. Voltámos ao alojamento e devolvemos a scooter. Tínhamos decidido percorrer o centro da cidade a pé e assim fizemos. Na igreja católica Stella Maris estava a decorrer uma missa e simultaneamente a primeira comunhão de várias crianças. Vimos o início da liturgia e ficámos surpreendidos com a entrada dos sacerdotes, acompanhada por música celestial interpretada por excelentes coro e organista, bem como por quatro meninas com trajes tradicionais, dançando à frente dos sacerdotes e do seu séquito, enquanto estes se dirigiam ao altar.

Percebemos que a missa ia durar bastante tempo, então fomos passear um pouco pelo centro da cidade, e regressámos uns 45 minutos depois. Desta vez entrámos na igreja e ficámos até ao fim da missa. A bela música ouvia-se regularmente, acompanhada de quando em vez pelas danças das graciosas meninas. Quando chegou a hora da comunhão, ficámos ainda mais surpreendidos, pois, exceto nós, toda a gente dentro da igreja, que estava cheia, comungou, num ato que demorou uma hora inteira. A fé desta gente comoveu-nos.

Com as meninas dançarinas na igreja Stella Maris.

No final da missa falámos com várias pessoas e algumas delas convidaram-nos para a festa do menino ou menina que fazia a primeira comunhão, a qual iria durar todo o dia e grande parte da noite. A festa faz-se na parte exterior das casas, que geralmente têm um pátio onde os convidados se reúnem. Há muita comida e muita bebida, e às vezes mata-se um animal de grande porte: um boi, um porco ou outro qualquer. À entrada da propriedade colocam um grande cartaz com o nome e uma foto gigante da criança. Há quem lance fogo de artifício, e a música sai de potentes colunas de som, ininterruptamente. Luzes psicadélicas rompem a escuridão da noite até altas horas.

Neste dia ainda passámos pelo SNIVV para tomarmos umas bebidas e depois almoçámos noutro restaurante no centro de Labuan Bajo, frequentado por gente local, o Bakso Flobamor. Não achámos nada de especial na comida, apesar de não ser má, mas achámos que era incrivelmente barato. À noite jantámos no sítio do costume. Quando regressámos ao Pieter passámos por duas casas onde se fazia a festa de meninos que tinham feito a primeira comunhão, e mais uma vez fomos convidados a entrar. Recusámos amavelmente.

No SNIVV.

Dias 17, 18 e 19

Já se sabe que a noite é sempre a pior parte do dia quando se está doente, por isso dormimos mal. Tomámos o costumeiro café da manhã e regressámos ao quarto para descansarmos e relaxarmos ao máximo, pois sabíamos que teríamos uma viagem extremamente cansativa pela frente. Mas não deu para descansar pois a Fla apercebeu-se que os seus óculos de sol tinham desaparecido e lembrou-se que deveriam estar no SNIVV, porque não se lembrava de os ter usado depois de termos lá estado no dia anterior. Dissemos ao Pieter o que se passava e ele ofereceu-se de imediato para nos levar ao bar de carro. Os óculos estavam lá guardados. Voltámos. No total o Pieter deve ter ocupado nesta tarefa uns 15 minutos (e meio litro de gasolina), e quando lhe perguntámos o preço do serviço, pediu-nos 100 mil rupias. Achámos um abuso mas pagámos e não dissemos nada.

Pouco tempo depois, seriam uma 11 e 30, saímos com as mochilas às costas e dirigimo-nos pela última vez ao Zodiac Bajo. Almoçámos e despedimo-nos dos nossos amigos e amigas que ali trabalham e que tão bem nos trataram. Até ao aeroporto são uns 5 minutos a pé, e lá fomos, devagarinho, pouco animados com a perspetiva dos quatro voos e os cinco aeroportos que tínhamos pela frente.

Coral tubo-de-órgão na Pink Beach.

Para quem já fez tantas viagens como nós, o mínimo que se pode dizer é que esta foi mal planeada. E é verdade que de viagem para viagem sempre aprendemos algo de novo. Não voltaremos a fazer uma viagem tão longa, de volta a casa, sem descansar em algum lugar pelo meio. De Labuan Bajo fomos para Kuala Lumpur; daqui para Nova Deli; de Nova Deli para Paris (Charles de Gaulle); e depois de apanharmos um Uber para Orly, ainda esperámos umas nove horas até o voo da Tansavia para Faro. Foram quase 48 horas de viagem, no total. Em Orly, a Fla verificou que também estava doente. Como se diz na gíria, chegámos a casa todos empenados. Dois dias depois a Fla comprou um destes testes modernos, que deu positivo para a influenza, ou seja, apanhámos gripe.

Suspeitamos que o vírus me tenha apanhado no passeio a Komodo, provavelmente quando usei a máscara de snorkeling, e depois passei-o a Fla. Felizmente que isto aconteceu no final da viagem, a maior parte da mesma correu muitíssimo bem e este episódio não apaga os grandes momentos que passámos. Moral da história: não há viagens que não valham a pena.

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Timor-Leste — 2026

A praia do Cristo-Rei vista do próprio Cristo-Rei, em Díli.

Os timorenses têm orgulho do seu país. Cozinham muito bem. São simpáticos e tímidos. Falam muito mal línguas estrangeiras, incluindo o português, que é língua oficial. São maioritariamente pobres, mas são também um povo com futuro, com uma taxa de natalidade entre as mais elevadas do mundo e uma idade média de 19 anos. O próprio país, enquanto estado independente, é jovem: 24 anos. Aqui bebe-se um dos melhores cafés do mundo — mas visitar Timor-Leste não é qualquer um.

Em primeiro lugar, chegar a esta terra remota não é tarefa fácil. Partindo de Portugal, ou da maior parte dos países do globo, têm de se apanhar vários voos — quatro, no nosso caso.

Em segundo lugar, aqui chegados, confrontamo-nos com uma série de dificuldades, e a língua não é certamente a maior delas. Em Timor-Leste, excluindo algumas lojas na zona mais chique de Díli, não se aceitam pagamentos com cartões bancários. Por isso é preciso ter sempre dinheiro disponível, em espécie. E convém que se aterre já com bastantes dólares no bolso (a única moeda aceite em Timor) porque também não é fácil sacar dinheiro nos ATMs. Os únicos que realmente funcionam para os portugueses são os que se encontram nas instalações do BNU Timor (atualmente pertença do grupo CGD), bem perto do Palácio do Governo e do Parlamento, ou na zona do Timor Plaza, pelo que é melhor fornecer-se aí se pensa viajar para fora de Díli, incluindo a deslumbrante ilha de Jaco.

A belíssima praia de Jaco.

E é aí que surge nova complicação. As estradas em torno de Díli encontram-se em bom estado (embora não seja de excluir uma outra surpresa pelo caminho), por exemplo a rodovia que vai até Lautém, passando por Baucau, é bastante aceitável, mas se quisermos continuar para Leste, como foi nosso caso, aí entramos num mundo completamente diferente e a condução torna-se verdadeiramente difícil. Este é um real problema para quem queira visitar a ilha de Jaco, sem dúvida, em termos de praias, o lugar mais bonito de todo o Timor-Leste e, pelo menos para nós, um destino imperdível.

Conhecemos várias pessoas, turistas como nós, que não foram a Jaco devido às difíceis condições de acesso. Para se chegar lá de transporte público são necessários no mínimo 4 dias para ir e voltar. Se se optar por algum tipo de passeio turístico, ou simplesmente por um veículo com motorista, poderá fazer a viagem em 2 ou 3 dias, mas isso custar-lhe-á, no mínimo dos mínimos, 500 dólares. A última opção — e a melhor —, se sentir confiante, é conduzir você mesmo.

Antes de viajarmos para Timor procurámos informar-nos sobre a melhor forma de ir a Jaco pelos próprios meios, lemos e ouvimos opiniões diversas, díspares mesmo, havia quem dissesse que poderíamos ir num carro normal ou de moto, mas a maioria das pessoas afirmava de que necessitaríamos de um 4X4. Hoje estamos em condições de dizer que as últimas e só elas têm razão. Se uma pessoa não tiver muito tempo, se não quiser suportar poeira, calor, saltos na estrada e sabe-se lá mais o quê dentro de uma van que faz o transporte público entre Díli e Los Palos, no primeiro dia, e depois entre Los Palos e Tutuala, no segundo (depois de Tutuala ainda há que arranjar forma de descer os 10 kms até a praia de Valu, passar aí a noite num dos dois alojamentos disponíveis e no dia seguinte ser transportado num pequeno barco de pescadores até Jaco), a única opção é alugar um 4X4, com ou sem motorista. Nós fomos sem motorista.

O Pajero que nos levou até Valu, a povoação em frente à ilha sagrada de Jaco.

Estas idiossincracias exigem duas condições prévias para quem quer visitar Timor-Leste: bom planeamento, primeiro, e, já no terreno, tempo suficiente. No final, vale a pena. A nossa experiência talvez possa ajudar, por isso passamos a descrevê-la detalhadamente. Como de costume, construímos o “esqueleto” do nosso planeamento nos últimos dois meses que antecederam a viagem, que ficou assim.

DATAORIDESTTEMPOESCLACIAPREÇO
9 setFAO
08:50
AMS
12:55
3:05diretoTransavia98
9 setAMS 21:00KUL 19:45+115:50AUH
(06:40)
(08:25)
Ethiad Airway 606
11 setKUL
02:15
DIL
07:30
4:15diretoBatik Air 444
11 set a 15 setDa TerraVilaverdequarto
duplo
c/ banheiro privDíli132
15 a 17 setBarry’s
Place
Atauroquarto duploc/ todasrefeições240
17 a 19 setTaibessiRua da Prisãoquarto duploc/ banheiro privDíli39
19 setDilitoKupangby busBabadok70
19 a 21 setRed DoorzPlus Plus atKrishna HomeStayKupang22,33
21 setKOE
12:10
LBJ
14:20
2:10diretoWings Air168
22 setpasseio de barcoum dia a ilhaKomodo140
21 a 25 setPieter
Home
Stay casa de banhoprivada c peq.almoço49,54
25 setLBJ
15:00
KUL
18:40
3:40diretoAir Asia216
25 setKUL
22:40
CDG
11:15+1
18:35DEL
(01:45)
(03:35)
Air India519
26 setORY
20:55
FAO
22:35
2:40diretoTransavia90
seguroviagemIATI12 seta 26 set98,28
TOTAL€2.929

A partir daqui foi a viagem propriamente dita.

Dia 1

Saímos de casa cedo para apanharmos o comboio das 5 e 52 em Conceição, à porta de casa, até Faro, aonde chegámos às 6 e 30. Daqui apanhámos um Uber para o aeroporto. O voo partiu no horário e 3 horas depois estávamos em Amsterdão, num cenário climático completamente diferente. No Algarve estava um tempo de verão, magnífico, em Amsterdão estava frio, vento e tinha chovido de manhã. Os agasalhos que trazíamos, dois casacos de meia-estação, não foram suficientes para andarmos na rua, pelo que nos abrigámos na livraria OAB por um bom par de horas, rezando para que a borrasca passasse, receosos de, logo no primeiro dia de viagem, ficarmos doentes.

A OAB, em Amsterdão.

Saímos a passo apressado da livraria rumo à estação central de comboios, havia greve, mas lá conseguimos seguir para o aeroporto após uma espera de meia-hora. O nosso voo para Abu Dhabi estava previsto para as 9 da noite mas só partimos muito depois das 10. Estávamos preocupados porque tínhamos pouco tempo para apanhar o voo seguinte para Kuala Lumpur, na Malásia.

Dia 2

Felizmente este voo também saiu atrasado, pelo que chegámos a tempo. Quando aterrámos em Kuala Lumpur já eram 9 da noite do dia seguinte, e só às duas da manhã do dia 12 apanhámos o último voo para Díli, pela Batik Air, aonde chegámos, como previsto, às 7 da manhã, quase dois dias completos depois de sairmos da nossa casa, em Conceição de Tavira.

Algo que nos vem várias vezes à cabeça, enquanto viajamos para Timor-Leste, é: o que é que os malucos dos portugueses vieram fazer a estas ilhas malucas tão distantes? Sabemos que foi pelo comércio das especiarias, mas chegar aqui velejando desde Portugal exigia certamente doses variáveis de loucura, desespero, ambição, empreendedorismo, espírito aventureiro e coragem.

O nosso local de refeições no Da Terra Vilaverde.

Dia 3

Ainda no aeroporto comprámos dois cartões da Telkomcel por 9 dólares cada, já com ativação, e validade de 30 dias, os quais nos foram muitos úteis durante toda a estadia em Timor-Leste. De seguida apanhámos um táxi para o Da Terra Vilaverde, o nosso alojamento em Díli, ocupando o único quarto duplo com casa de banho privativa deste hostel. Teríamos de esperar até depois do meio-dia, pois o quarto ainda estava ocupado, então tomámos o pequeno-almoço (pago à parte) e saímos a pé para deambularmos um pouco por Díli.

Fomos ao Museu da Resistência, muito bem documentado, e percorrêmo-lo demoradamente. Não pudemos deixar de recordar os anos de ocupação indonésia, a luta dos timorenses, o gigantesco cordão humano que fizemos em Portugal (eu estava na Calçada Ribeiro dos Santos à hora marcada), o dia em que saímos dos locais de trabalho para protestarmos na rua, em silêncio, durante um minuto, a ida do navio Lusitânia até ao Mar de Timor, o envolvimento dos americanos (Bill Clinton) e da ONU (Kofi Annan), que forçaram a Indonésia a aceitar um referendo e, finalmente, a independência plena de Timor Loro Sae.

Quando regressámos ao alojamento, seriam umas 14:30, tomámos um duche e atirámo-nos para a cama, adormecendo de imediato. O despertador tocou às 19:30 e às 20:00 estávamos a jantar. A seguir voltámos para o quarto e dormimos, de novo, até de manhã. Estávamos mesmo a precisar de dormir.

No Museu da Resistência, em Díli.

Dia 4

No dia seguinte, às 9 da manhã, depois do pequeno-almoço, vieram entregar-nos um Pajero Sport 4×4, no qual seguimos, pouco depois, em direção ao extremo leste da ilha, até a pequena povoação de Valu, com a intenção, claro, de irmos a Jaco. Todas as palavras são poucas para elogiar a empresa Timor Vehicles e particulamente o seu manager, Jefri Liong. O carro estava impecável, cheiroso, e era extremamente fiável. Graças ao seu bom estado geral, a nossa viagem pela região oriental da ilha foi menos cansativa, demorada e arriscada do que seria, à partida, expectável. Dois dias de aluguer custou-nos 240 dólares (mais 89 dólares de combustível), um valor muito aceitável face à qualidade do carro.

Convém referir, neste ponto, que em Timor-Leste se circula pela esquerda, ao contrário de Portugal (devido à ocupação indonésia), mas nós já tínhamos tido essa experiência noutros países (Seychelles, Maurícias, África do Sul, entre outros) e, curiosamente, conduzir ao contrário é algo como andar de bicicleta, não se esquece. Por isso, cada vez que voltamos a conduzir pela esquerda adaptamo-nos mais rapidamente, retirando mais prazer da condução.

Fomos passando por belas praias e por pequenas povoações e, numa destas, vimos várias bancas em ambas as bermas da estrada. Pareceu-nos que estavam a grelhar peixe. Parámos. Era efetivamente peixe grelhado na brasa com um pau espetado da boca até ao rabo. Era muito bom. A Fla comeu um que parecia (e sabia a) salmonete, chamado baraka, e eu deliciei-me com outro, para nós desconhecido, que, apesar de demasiado assado, era mesmo assim saboroso. Para acompanhar, arroz servido dentro de uma caixinha feita com palha de milho, a qual tem de se romper com uma faca. Cada peixe, com o arroz, custa 2 dólares.

A praia de Caibada, em Bacau.

Seguimos viagem e pouco depois fizemos um pequeno desvio para visitarmos Manatuto, uma pequena cidade, onde não nos demorámos. Daqui até Baucau é um pequeno salto e nesta cidade, a segunda maior de Timor-Leste, decidimos fazer um desvio maior para conhecermos uma praia (sempre esta mania das praias!), o que nos empatou mais de hora e meia. O desvio terá sido de uns 10 kms, mas face à péssima estrada — sinuosa, esburacada, estreita, declivosa — demorámos imenso tempo para ir e voltar. Mas nunca se sabe se vale a pena ir ou não, e o lema é “na dúvida, vamos”. Às vezes o google engana-nos com classificações que, na nossa ótica, não correspondem à realidade, e este foi um desses casos. A classificação de 4.9 das praias de Caibada e de Fatuk faria antever algo deslumbrante, mas, para os padrões de Timor, estas são praias banais.

O tempo escasseava, não queríamos de forma alguma conduzir de noite, pelo que decidimos não parar mais antes de chegarmos a Valu. A partir de Lautém começou o verdadeiro desafio. É difícil, para não dizer impossível, descrever a estrada que liga Lautém a Valu. Tem de tudo um pouco: troços de 500 metros com bom piso, outros com crateras que ocupam metade do que deveria ser a estrada; quilómetros e quilómetros de piso coberto por uma camada, de espessura variável, de um pó branco tão fino que forma uma nuvem imensa quando passa um veículo, não se conseguindo enxergar mais do que um espesso muro branco quando se olha pelo retrovisor (o carro tem de ir todo fechado, mas mesmo assim o pó infiltra-se e crava-se na nossa garganta); quilómetros de estrada esburacada, de piso muito duro, que parece ter sido de cimento que agora se degradou; crateras gigantes aqui e além; declives e curvas com gravilha solta, o que multiplica o risco de despiste.

Na pequena aldeia de Valu. Em frente a ilha sagrada de Jaco.

Eu e Fla interrogámo-nos sobre como será o interior daquelas casas à beira da estrada com todo aquele pó. É difícil imaginar. Espantosamente, os últimos 10 quilómetros até chegarmos a Valu, depois de Tutuala, que fica no topo de uma colina, têm um piso impecável, embora a vegetação nas margens do asfalto estejam a tornar a estrada cada vez mais estreita. Mas ainda passámos bem, e chegámos a Valu quando o sol se pôs, e quando estacionámos no parque de um dos dois únicos alojamentos no local, o Guest House Valu, já tínhamos os médios do Pajero ligados.

Este alojamento é gerido pela pequena comunidade local, que recebe 75% dos lucros (os restantes 25% são para o Parque Natural), e não oferece as melhores condições, embora se note que todos fazem o melhor que podem. O jantar é simples e custa 5 dólares por pessoa. O nosso quarto, com uma cama bem simples, custou 25 dólares. As casas de banho, com sanitas turcas, são partilhadas e há uns bidões com água de onde, com uma espécie de caneca grande de plástico, se retira água para o banho.

Dia 5

Eram 5 da manhã e ainda noite quando acordámos e decidimos partir. Tivemos de acordar um “funcionário” para pagar a estadia e o jantar, pois não quiseram receber no dia anterior. Fomos de carro até a pequena praia de Valu, onde se encontram meia dúzia de casas e uns quantos barcos onde os pescadores transportam os visitantes para a pequena ilha de Jaco, por 10 dólares. O trajeto é pequeno — uns 500 metros e uns 5 minutos de barco com motor de 8 cavalos.

Jaco: uma praia só para nós.

Enquanto atravessamos o canal, que de acordo com os pescadores é fundo e com forte corrente, o mar vai mudando de cor: esmeralda, primeiro, azul profundo, depois, e esmeralda de novo, bordeando toda a praia de Jaco. O senhor Hermínio ficou de nos vir buscar às 9:30, afastou-se com o barco e ficámos sozinhos na ilha. Alguns veados observavam-nos, de longe. Não tardou muito até mergulharmos na água, incrivelmente transparente. É boa, com uma temperatura perfeita, mesmo às 7 da manhã. Quando chegou outro barco com um grupo de turistas, já nós tínhamos percorrido a ilha de uma ponta à outra, nos banhado várias vezes, relaxado sobre a areia fina, de um branco imaculado. Esta praia é espantosamente bonita.

Lembrei-me dos tempos em que fazíamos campismo na praia. Como seria fantástico poder estar em Jaco uma semana, dormir ao som das ondas, pescar, fazer uma fogueira e assar um peixe sobre ela. Mas por vários motivos e mais um, não pode ser: esta ilha é sagrada para os timorenses e ninguém pode pernoitar aqui.

Indiscritível, a sensação de nos banharmos nesta praia absolutamente deserta (foto de Fla).

Esta região do leste de Timor-Leste está classificada como Reserva da Biosfera da UNESCO, também é conhecida por Reserva Nino Konis Santana, e fica situada dentro de duas zonas importantes — a linha de Wallace (Walacea) e o Triângulo de Coral. Esta classificação protege a maior floresta primária do país, bem como ecossistemas marinhos e o lago Iralalaro, um refúgio para magníficas aves aquáticas. O espaço mais relevante da Reserva para os habitantes locais é a ilha sagrada de Jaco, junto à qual se mantêm tradições muito antigas como a pesca, a tecelagem de tais (tecidos típicos de Timor-Leste) e o cultivo de baunilha e cacau.

Ficámos bastante surpreendidos quando percebemos, ainda na pousada em Díli, que a maioria dos turistas não vem a Jaco. Mas depois percebemos porquê. Nem todos estão dispostos a passar por tantos incómodos por causa de uma praia remota… Mas um português e uma brasileira malucos estiveram dispostos a isso. Quando a proa da pequena embarcação conduzida pelo senhor Hermínio apontou à aldeia piscatória de Valu, a praia de Jaco, nas nossas costas, já estava cravada na nossa memória para sempre.

Na zona de Bucoli, durante a viagem de regresso a Díli.

O trajeto de volta a Díli não custou tanto porque já tínhamos tido a experiência do dia anterior e sabíamos com o que contar. Além disso, a parte mais difícil surgia agora no início e não no final do percurso, pelo que foi mais fácil de superar. Em breve estávamos em Lautém, com o carro coberto de pó branco (como viemos mais depressa, levantámos ainda mais pó), mas satisfeitos por ultrapassarmos sem problemas, em cerca de duas horas, os 60 quilómetros mais difíceis do percurso.

Depois de Lautém a estrada segue junto ao mar por dezenas de quilómetros e as vistas são muito bonitas. A dada altura, parámos num restaurante de beira-da-estrada, onde os viajantes timorenses almoçam. Comemos frango assado, acompanhado por aquele arroz envolto em tiras de milho que se tem de soltar com uma facada. O frango estava bom, crocante, e é sempre uma alegria estar entre os timorenses porque há sempre muitas crianças. Como já dissemos, Timor-Leste é um dos países mais jovens do mundo, com uma média de idades de 19 anos, e o próprio país alcançou a independência apenas em 2002. A taxa de natalidade é uma das mais elevadas do mundo.

Chegámos a Díli calmamente e fomos primeiro atestar o depósito de gasóleo (89 dólares) e depois mandar limpar o carro por dentro e por fora (5 dólares), pois não tivemos coragem de entregar o carro impregnado de poeira. Depois estacionámos no Da Terra, onde jantámos, e não pegámos mais no carro. As refeições no Da Terra Vilaverde são muito boas, simples mas bem confecionadas, e a um preço muito acessível: os nossos dois jantares custaram 12 dólares, tudo incluído.

A forma mais livre de circular em Díli é de scooter.

Dia 6

Às nove da manhã, tínhamos terminado o pequeno-almoço, chegou Jefri Liong, com um motorista, para recolher o Pajero. Processo simples, sem burocracia, não houve sequer uma inspeção minuciosa ao carro, Jefri agradeceu, eu agradeci-lhe, o motorista levou o carro, ele partiu numa scooter, e nós ficámos extremamente satisfeitos e só podemos recomendar esta excelente empresa. Não esqueçam: Timor Vehicles, o melhor serviço de aluguer de viaturas em Díli.

E, por falar em scooter, nós também alugámos uma, nesse mesmo dia, no Da Terra, por 20 dólares, mas só depois do almoço, que foi num restaurante indonésio, na mesma rua do alojamento. Deu um jeitão. Fomos até o Palácio do Governo para entregar uma carta solicitando uma entrevista com Xanana Gusmão. Até hoje não obtivemos resposta de vovô Nana, ou dos seus acessores, nem de Ramos-Horta, a quem dirigimos um e-mail umas 3 semanas antes de sairmos de Portugal. Valeram as tentativas.

Depois fomos ao cemitério de Santa Cruz, onde se deu o massacre de pelo menos 250 timorenses (os números não são certos, mas há quem refira mais de 300 mortos) e centenas de feridos, no dia 12 de novembro de 1991. Nesse dia realizava-se o funeral de Sebastião Gomes, morto por um militar indonésio na noite de 27 de outubro. O massacre foi filmado pelo jornalista e repórter de guerra britânico Christopher Wenner, que adotou o nome de Max Stahl, pelo qual é mais conhecido, quando regressou a Timor em 1999, por razões de segurança.

Campa de Sebastião Gomes no cemitério de Santa Cruz.

Max Stahl correu risco de morte, mas acompanhou e filmou a marcha de homenagem a Sebastião Gomes desde a igreja de Moatel até a campa deste no cemitério de Díli, nunca parando de filmar. Sabendo que seria capturado pelos indonésios se não fosse morto, Stahl conseguiu esconder as cassetes com as imagens do massacre dentro de uma vala do cemitério, regressando à noite, depois de ter sido libertado, para as recuperar. Posteriormente, estas imagens foram difundidas pelas televisões de todo o mundo. Esta divulgação constituiu o ponto de viragem a favor da independência de Timor-Leste, cuja luta era escondida pelo ocupante, que queria mostrar ao mundo que os timorenses estavam bem integrados na Indonésia.

A partir daí, o mundo viu que não era assim e tomou consciência da luta dos timorenses. As Nações Unidas e o Presidente dos Estados Unidos (sobretudo estas entidades, mas também o papel ativo dos políticos portugueses) forçaram a Indonésia a aceitar um referendo. E o resultado foi um expressivo “sim” à independência (78,5%), com uma participação recorde de mais de 98% dos eleitores. O desejo de independência não pode ser compreendido sem a ligação histórica dos timorenses a Portugal, pois foi Portugal que introduziu a religião cristã em Timor-Leste (o maior estado cristão em percentagem da população depois do Vaticano), fator de união entre o povo, a par da língua portuguesa.

Durante o longo período de ocupação dos indonésios (de 7 de dezembro de 1975 até 31 de outubro de 1999), os guerrilheiros timorenses escondidos nas montanhas faziam questão de comunicar em português, como forma de resistência à tentativa de imposição do bahasa, a língua do ocupante, ainda hoje falado como língua de trabalho por uma parte significativa da população. Estima-se que pouco mais de 200 guerrilheiros contra mais de 20 mil soldados indonésios e 40 mil colaboracionistas. “Ridículo”, nas próprias palavras de Stahl. Curiosamente, o tétum, que foi utilizado pelos missionários para cristianização das populações e pela própria Igreja para a celebração da liturgia, era uma língua minoritária. Hoje é a língua que toda a gente fala, sendo raríssimo encontrar um timorense que fale fluentemente português.

Marco que assinala o local onde Max Stahl filmou o massacre de Santa Cruz.

Ficámos imaginando como seria Timor-Leste se Max Stahl não decidisse viajar para lá com visto de turista, à espera que algo acontecesse. Certamente muito diferente. Naquela época, ninguém no exterior do território acreditava que a ocupação indonésia fosse revertida. E a maioria dos timorenses, bem como até dos portugueses, não sabem que muito provavelmente não existiria Timor-Leste sem Max Stahl.

A história deste jornalista, que sobreviveu a vários conflitos — na América Latina, na ex-Jugoslávia e em Timor — mas que, aos 66 anos, perdeu uma longa luta contra um cancro (foi sepultado em Brisbane, Austrália, exatamente 30 anos depois de ter filmado o massacre de Santa Cruz), está intimamente ligada à própria História de Timor-Leste, sendo aqui considerado um herói nacional. Em 2000, um ano depois do regresso a Timor-Leste, Max Stahl recebeu o maior prémio mundial para repórteres de imagem freelancer, o Rory Peck Award.

Stahl viveu em Timor-Leste, foi cidadão timorense desde 2019, e fundou em Díli o Centro Audiovisual Max Stahl, onde estão guardadas mais de 5 mil horas de filmagens captadas durante 25 anos. Este arquivo foi considerado pela UNESCO como Registo da Memória do Mundo. Em 2016, a Universidade de Coimbra assinou um protocolo com o Centro Max Stahl para obter uma réplica sincronizada do arquivo original, à qual se pode aceder em http://www.uc.pt. Vale a pena fazer uma pausa. E vem-nos à memória a vida de outro britânico, também Christopher, falecido recentemente em Vila Velha, Pernambuco, Brasil.

Um dos ferrys que ligam Díli a Ataúro.

Do cemitério de Santa Cruz, seguimos na scooter em direção ao Cristo-Rei, passando pela bonita praia homónima. O esforço para ultrapassar os 500 degraus é compensado pela vista do topo da colina. Regressámos ao fim da tarde ao Da Terra, e pouco depois estávamos desfrutando do excelente jantar confecionado pela Tina, uma das simpáticas funcionárias do hostel.

Dia 7

Levantámo-nos cedo para apanharmos o ferry para Ataúro. Fomos a pé até ao cais de embarque. Tivemos de esperar bastante, o embarque estava atrasado, e depois mais de 3 horas de travessia. Passava do meio-dia quando pisámos pela primeira vez a ilha de Ataúro. Até ao nosso alojamento — Barry’s Place — foram uns meros 500 metros. Uma diária nesta pousada ecológica, incluindo 3 refeições (pequeno-almoço, almoço e jantar) custa 60 dólares. A comida é excelente, os quartos são confortáveis, a maioria em cabanas individuais com um pequeno átrio à entrada, onde se pode relaxar numa cadeira ou numa rede, no seio da natureza. O que pode provocar mais impressão são as casas de banho coletivas e ecológicas.

Entrada do Barry’s Place.

A água residual dos banheiros é utilizada para irrigar bananeiras situadas atrás de cada bloco de instalações sanitárias. Essas bananeiras prosperam graças ao nitrogénio proveniente do sabão contido nas águas residuais. O sistema utilizado na pousada baseia-se no modelo VIP — Ventilated Improved Pit (Latrina de Fossa Ventilada), que utiliza as correntes de ar naturais para dispersar odores através de uma abertura na tampa da sanita. Os tubos de ventilação pretos na parte traseira, bem como a cor preta no interior da bacia sanitária, foram projetados para impedir a entrada de moscas, aproveitando as correntes de convecção, visto que o ar quente sobe. Os dejetos vão diretamente para a fossa. O líquido é drenado para o solo enquanto o material sólido permanece. A estrutura fica bem acima do lençol freático, razão pela qual há degraus para se aceder à casa de banho.

Quando o tanque/fossa enche, é lacrado e a sanita transferida para outro lado, onde há um tanque novo e vazio. O tanque cheio permanece inactivo pelo menos 12 meses, antes de o conteúdo estar pronto para usar em jardins ornamentais, mas nunca em hortas vegetais.

Exteriormente, as casas de banho parecem cabanas normais, com duas entradas elevadas, de um lado a sanita para as necessidades fisiológicas e do outro um tanque de água com um pequeno balde com pega para retirar a água e despejá-la numa espécie de tacho com furinhos, pendurado por cima das nossas cabeças a servir de duche. A Fla estava neste lado do banheiro quando ouviu entrarem na porta ao lado, o som do tampo da sanita bater nos tubos de ventilação e alguém exclamar “Oh, meu Deus”! Era uma algarvia de Tavira que conhecemos no Barry’s, chamada Madalena Mangas, que se alarmou ao observar as baratas circulando na fossa. Ela confessou-nos, depois, que tinha horror a esses insetos. Nós também. Isso não invalida os benefícios do sistema ecológico do Barry’s Place.

Na praia de Acrema, em Ataúro.

Ainda na tarde da chegada, depois do almoço, alugámos na própria pousada uma scooter por 24 horas. O preço da diária são 25 dólares. Já montados, seguimos para Nordeste, rumo à praia de Acrema. De início a estrada é boa, mas depois piora significativamente. A dada altura, numa bifurcação, o Google Maps mandou-nos para uma estrada, ou melhor, para um caminho interior e, logo à frente, apanhámos um troço em obras (numa zona íngreme) que tivemos imensa dificuldade em transpor. A Fla teve de saltar da garupa e montar de novo uns 100 metros mais à frente. Pouco depois, verificámos que estávamos a embrenhar-nos pelo interior da ilha e voltámos para trás. Um sujeito que passava de moto confirmou que deveríamos ter optado pela direita na bifurcação, e não pela esquerda.

Excetuando uma ladeira de uns 50 metros com o mesmo problema que encontráramos no caminho errado — uma camada de areia fofa (mais pó que areia), onde a scooter perde aderência — o caminho até Acrema faz-se tranquilamente. Passámos por duas ou três aldeias de pescadores, a última das quais é a própria Acrema. Quatro meninas vieram ter connosco e ficaram sempre por perto, rindo muito, brincando com a Fla e tirando fotos com ela. Oferecemos-lhes um pacote de bolachas que trazíamos na mochila e elas ficaram entretidas a comer enquanto nos observavam mergulhando no mar.

A água é magnífica. Quando saímos perguntámos às meninas se elas costumavam entrar no mar e todas responderam que não. Para nós pode parecer estranho, mas a verdade é que quase não vimos timorenses a banhos. Encontrámos imensas praias desertas, e algumas com meia-dúzia de pessoas fazendo piqueniques à sombra das árvores, mas apenas na praia de Baucau vimos uma família timorense se divertindo no mar — que em Timor-Leste é muito mais uma fonte de rendimento do que de divertimento.

Fadista de Ataúro.

Voltámos de Acrema ao final do dia e ainda fomos à Vila Maumeta, a principal povoação de Ataúro, onde se concentra a maior parte da população desta ilha de 10 mil habitantes. Antes do regresso ao Barry’s ainda parámos para provar dois espetinhos, junto a uma casa à beira da estrada onde um rapaz grelhava frango num carrinho de mão a fazer de fogareiro. Estava divinal, com um tempero que só Deus sabe qual é — o tipo do fogareiro que é um carrinho de mão deve ter-Lhe perguntado.

À noite, depois do jantar no Barry’s já não saímos, até porque não estamos a ver o que poderíamos fazer se saíssemos, não se passa nada à noite por aquelas bandas, talvez excecionalmente nalguma ocasião especial.

Dia 8

Após o café da manhã fomos de novo à Vila, desta vez com o propósito de visitarmos o ateliê da Boneca, onde trabalham várias costureiras de Ataúro, produzindo lindos objetos, desde bonecas (o primeiro motivo a ser criado) até chapéus, carteiras, mochilas, bibelots e muito mais. O projeto iniciou-se em 2007 com a colaboração entre o padre missionário italiano Luis Fornasier e a designer suíça Ester Zücher, visando a criação de uma cooperativa de mulheres-costureiras e a produção de artigos de artesanato para venda, com o intuito de proporcionar a essas mulheres um rendimento que, face à falta de oportunidades de trabalho, dificilmente conseguiriam de outra forma nesta pequena ilha de Ataúro.

Feliz com as compras na Boneca.

Tem sido um sucesso. A cooperativa que começou com quatro mulheres tem hoje mais de 40 e, às vezes, precisa de ainda mais colaboradores para fazer face a encomendas específicas. Mais de meia centena de famílias beneficiam hoje dos rendimentos gerados pela cooperativa. Embora não se possa dizer, pelo menos por enquanto, que os produtos gerados sejam tradicionais de Ataúro ou mesmo de Timor-Leste, a maioria dos materiais usados são locais.

Várias pessoas e instituições se têm interessado por este projeto, como é o caso, entre muitos outros, do Instituto Camões e do catalão David Palazon, que realizou em 2016 o documentário animado Boneca de Ataúro: Searching for the Lost Love, vencedor nesse mesmo ano do prémio para a melhor curta-metragem asiática na 4ª edição do Festival de Cinema Asiático de Salamindanaw, nas Filipinas.

Comprámos uma linda boneca, uma mochila e dois passarinhos, despedindo-nos em seguida das costureiras presentes e particularmente da Anastácia Ximenes Saldanha, que nos recebeu quando chegámos e nos acompanhou durante a nossa visita à Cooperativa Polivalente Boneca de Ataúro, e da própria Vila Maumeta, já com saudades, mas felizes. Entregámos a scooter, fomos almoçar e ficámos o resto da tarde no Barry’s, lendo, escrevendo, relaxando, deixando-nos envolver pela languidez do lugar. E assim até ao jantar e depois até ao dia seguinte.

Na estrada entre a Vila Maumeta e Acrema.

Dia 9

No último dia em Ataúro decidimos fazer snorkeling. Barry tinha-nos dito que a maré não estava de feição, mas o senhor António, que é quem leva o barco até junto do recife, disse-nos que, sim senhor, podíamos ir, estava bom para ver os paixes e os corais, apesar da maré vazia. Fomos com a Madalena Mangas, que se juntou a nós, e até que foi bem legal. Mais tarde, nesta viagem, acabaríamos por fazer snorkeling noutros locais, e vermos não só mais peixes e corais, mas também tartarugas e até mergulhadores com garrafas de oxigénio e tudo.

Antes de apanharmos o barco de volta à ilha de Timor, ainda almoçámos no Barry’s e ficámos por ali fazendo tempo até pouco antes da hora de partida, que foi às 3 da tarde. É pouco provável que alguma vez voltemos a Ataúro, mas nunca se sabe. Chegámos a Díli por volta das 6 da tarde, quando o sol se estava quase a pôr. Tivemos um problema com o novo alojamento chamado Sunmoon Apartments, que supostamente seria numa rua junto ao Timor Plaza, mas que à última hora mudaram para um local perto do cais onde desembarcáramos. Quando lá chegámos o quarto era miserável e recusámo-lo. Tivemos de marcar um quarto no Plaza Hotel, e depois de deixarmos as mochilas no quarto fomos jantar ao Tavirense.

Este restaurante, na mesma rua do Plaza Hotel, tínha-nos sido indicado pela Madalena Mangas, em Ataúro, quando ela soube que morávamos em Tavira, e, logicamente, não podíamos deixar de lá ir. Toi, o dono, quando lhe disseram que morávamos em Tavira (mais propriamente, em Conceição), fez-nos uma festa. Durante largos minutos estivemos à conversa e ficámos a conhecer todo o percurso de Toi e da sua mulher em Timor-Leste. Foi como se nos conhecêssemos há muitos anos. Um pouco surreal, mas também bastante engraçado. Além disso, come-se muito bem no Tavirense. Quando chega o São João, o padroeiro de Tavira, Toi importa sardinhas em vácuo de Portugal, enfeita a rua onde fica o restaurante e faz uma enorme festa para celebrar o dia do seu santo.

O Tavirense, em Díli.

Saímos satisfeitos do Tavirense, andámos um pouco a pé para fazer a digestão, e fomos para o hotel.

Dia 10

Este foi o dia em que experimentámos os incríveis microlets de Díli. São bastante eficientes, pois há muitos e nunca tem de se esperar demasiado tempo para apanhar um. Além disso, há 13 rotas diferentes, o que resulta numa rede eficiente, que satisfaz, como pudemos comprovar, as necessidades dos dilienses.

Após o pequeno-almoço apanhámos a carreira 10 até ao Timor Plaza, o centro comercial mais famoso de Díli, de cujo parque de estacionamento partem os autocarros de longo curso, inclusive para a parte indonésia de Timor, nomeadamente para Kupang, para onde viajaríamos no dia seguinte. Do Timor Plaza, onde fizemos algumas compras, apanhámos a carreira 13 até o hotel onde dormiríamos a próxima noite, o Arbiru Beach Resort. Escolhemos este hotel precisamente por ficar relativamente perto do Timor Plaza, porque o autocarro para Kupang partiria às 7 da manhã. Felizmente, este hotel providencia serviço de transporte gratuito, o que se revelaria de grande utilidade no nosso caso.

No interior de um microlet: Fla com Elhy Pereira.

O hotel tem também uma boa piscina, onde demos algumas braçadas, sem nos demorarmos muito tempo. Antes disso, porém, ainda voltámos a apanhar um microlet, desta vez o nº 9, para irmos almoçar. Ficámos espreitando para ver se topávamos algum restaurante interessante, parámos no mercado municipal, mas a comida era demasiado básica para o nosso gosto, e acabámos por apanhar ainda outro microlet que passou numa avenida próximo do Timor Plaza, onde vimos um restaurante indonésio e aí almoçámos. Aproveitámos a tarde para então estarmos um pouco na piscina, mas sobretudo para descansarmos. Jantámos no Arbiru, a comida era aceitável, mas não nos entusiasmou. Fomos dormir cedo.

Dia 11

Acordámos às 5:45 da manhã, tomámos banho, arrumámos as trouxas e às 6:15 estávamos dentro da carrinha do hotel prontos para seguirmos para o parque de estacionamento do Timor Plaza e apanharmos o autocarro para Kupang, em Timor Ocidental, Indonésia. Tínhamos comprado os bilhetes com antecedência na empresa Babadok, por isso conseguimos dois bons lugares, bem na frente do autocarro, com vista privilegiada para a estrada. Partimos com algum atraso, e alguns minutos depois parámos num pequeno mercado, à saída de Díli, onde os passageiros compraram o que quiseram para comer ou beber.

Uma das últimas imagens de Díli.

A estrada até à fronteira bordeja a costa, numa primeira fase, com vistas bonitas sobre as praias, passa por pequenas localidades, até que inflete para o interior, entra em zona montanhosa, cheia de curvas e contra-curvas, transpondo os quilómetros penosamente. Depois, volta a seguir junto à costa. A bordo a música não para e os dois motoristas vão-se revezando ao volante de x em x quilómetros. Finalmente chegámos à fronteira, primeiro Timor-Leste e, uns metros depois, a Indonésia. Há filas. Para passarmos a fronteira demoramos mais de uma hora e meia, mas lá prosseguimos a viagem, agora já no interior da Indonésia, onde as estradas melhoram significativamente.

Na região de Atambua paramos para almoçar, mais propriamente no restaurante Rindu Minang, na cidade homónima. Para nosso espanto, quando íamos pagar, disseram-nos que o almoço estava pago. Perguntámos porquê, e disseram-nos que o proprietário do restaurante, de seu nome Viktor Gogo, fazia anos e que neste dia ninguém pagava nada. Ainda por cima provámos um excelente café de Timor-Leste, pelo que agradecemos ao Viktor Gogo através das funcionárias de serviço, na impossibilidade de o fazermos pessoalmente. Foi aqui que conhecemos uma jovem timorense que ia como nós para Kupang, para depois apanhar um voo para Jacarta, onde estuda numa universidade. Seu nome é Octávia Maia Rego e, como seria de esperar, fez amizade com a Fla.

Passagem de Timor-Leste para a Indonésia, em Mota’ain.

O melhor das viagens talvez sejam mesmo as pessoas. Tão diferentes de nós e simultaneamente tão próximas. Sentir e refletir sobre esse aparente antagonismo ajuda-nos a ser mais tolerantes e abertos, ou pelo menos deveria ajudar-nos. Também conhecemos nesta longa viagem de autocarro um jovem médico timorense, que está a tirar uma pós-graduação na Indonésia, e nos foi dando informações preciosas durante o percurso, num português quase perfeito. Começou a anoitecer e o motorista mais jovem conduzia o autocarro com extraordinária perícia, apitando, apitando, apitando a cada ultrapassagem. Depois de cerca de 15 horas de viagem, chegámos ao terminal rodoviário de Kupang. Timor-Leste, esse pequeno país extraordinário, nosso irmão, já nos fazia sentir saudades.

Fomos de táxi até ao nosso hotel em Kupang, saímos para comer um peixe grelhado, voltámos ao hotel, tomámos um duche e adormecemos.

A segunda parte desta viagem registar-se-á em próximo artigo.

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Lombardia

Belaggio vista da estrada.

Aterrámos no aeroporto de Bérgamo às 14:25, vindos de Creta. Chovia bastante, mas quando saímos do avião, inesperadamente, a chuva parou. No parque de estacionamento do aeroporto estava um funcionário da To-Rent com o nosso carro alugado e passados 5 minutos já estávamos na estrada a caminho do alojamento em Valbrona, uma vila perto de Bellagio (11 kms) e a uns 60 quilómetros do aeroporto. Valbrona fica a 500 metros de altitude, não no sopé das montanhas e junto ao lago, como é o caso das cidades mais conhecidas da região: Menaggio, Varenna, Bellagio, Cernobbio, Como, etc. Trata-se de uma vila pequena, com dois mil e quinhentos habitantes, com espaço para estacionamento, e onde os alojamentos são mais baratos, relativamente a essas cidades mais conhecidas.

O pequeno apartamento fica dentro de um pátio onde se localizam três ou quatro habitações, uma delas a da proprietária, as restantes para alojamento local. Um bom investimento. Está bem equipado e é acolhedor, com roupas de cama de qualidade, o que é sempre um sinal positivo, pois é aí que muitos falham. O nome do alojamento no Booking é La Corte del Pane e recomendamo-lo, sem hesitações, a quem viajar para aquelas bandas.

Depois de arrumarmos os nossos pertences fomos dar uma vista de olhos a Bellagio, embora o tempo não estivesse muito convidativo. Além de ameaçar chuva, estava ventoso e fresco, logo, desagradável. Limitámo-nos a dar uma volta pelo centro, apreciando os belos edifícios, a Basilica de San Giacomo, o Grand Hotel Villa Serbelloni, os elegantes cafés, restaurantes e gelatarias da Piazza Giuseppe Mazzini, e já começava a escurecer quando entrámos num mini-mercado para comprar as provisões de que necessitávamos. Após o regresso ao alojamento já não saímos, ficámos a delinear o programa para o dia seguinte.

Como e o seu lago vistos de Brunate.

Como sempre, ou quase, acordámos bem cedo. A Flá é a melhor co-piloto do mundo e foi-me indicando o caminho até Como, aonde chegámos ainda a tempo de estacionarmos o carro com facilidade. Parámos num ponto próximo, então não tivemos de caminhar muito até o local onde se apanha o funicular para Brunate. Lá de cima, as vistas sobre Como e o lago são fabulosas. Deambulámos um pouco pelo centro de Brunate e quando nos preparávamos para regressar reparámos num belo edifício antigo que, na realidade, é um hotel — Bellavista Boutique Hotel — com um salão, no piso inferior, a servir de restaurante. Ao lado, tem uma sala mais pequena que é um café. Entrámos e tomámos dois deliciosos machiatti, numa mesa com vista privilegiada sobre Como.

Fizemos o percurso de volta no funicular, que é extenso, 1.084 metros, sem condutor, e com o bem conhecido sistema de cabos, em que a composição que desce puxa, por gravidade, a que sobe. Todos nos lembramos do trágico acidente que aconteceu em Lisboa, há menos de um ano, quando um cabo do elevador da Glória se rompeu. Enquanto descíamos perguntei a dois italianos se tinham ouvido falar desse acidente e, para minha surpresa, disseram-me que não. Em contrapartida, olharam alternadamente para a linha e para mim (íamos na frente do funicular) com ar apreensivo. Arrependi-me de ter falado naquilo.

Em Cernobbio.

Em Como cirandámos pela cidade, vimos a Cattedrale di Santa Maria Assunta, a Basilica di San Fedele e belas construções centenárias, como o magnífico Palace Hotel. Estava muito vento e podíamos observar no lago aqueles “carneirinhos” na água que nos indicam, em todo o lado, incluindo no Algarve, onde moramos, que quando aparecem aquelas ondinhas brancas sobre a água, não é certamente dia de irmos à praia. E aquele também não foi certamente um bom dia de negócio para os barqueiros que fazem passeios privados no Lago — as pequenas embarcações pareciam cavalos indomáveis.

Partimos de Como em direção a Cernobbio, que fica muito perto, a uns meros 5 quilómetros, na margem mais ocidental do Lago di Como. Em Cernobbio tínhamos a intenção de visitar a icónica Villa Erba, mas esta não está aberta ao público, é um espaço que se aluga para eventos particulares. Então, circulámos pela cidade. Seguimos pela Via Regina, fletimos para a Piazza Castello e continuámos para a pequena Piazza Tolomeo Gallio, onde se situa a Igreja de San Vincenzo. Depois decidimos voltar ao parque de estacionamento e continuar a nossa viagem, subindo pela estada marginal ao Lago di Como, passando sucessivamente por Moltrasio, Carate Urio e Laglio, enquanto a Flá procurava no Google algum restaurante típico para almoçarmos.

Baixo relevo de Enrico Vannuccini, na zona histórica de Menaggio.

Sabíamos que seria difícil, se não impossível, encontrarmos um restaurante típico junto ao lago. Mas como estávamos de carro, não nos importávamos de fazer um desvio de alguns quilómetros para almoçarmos em um qualquer local na montanha. Ficámos contentes quando encontrámos no Google dois ou três restaurantes rurais bem classificados. Um deles tinha uma pontuação excecional e telefonámos para lá na expectativa de um almoço no campo, com vista desafogada e comida tipica da região. Uma senhora simpática informou-nos que o restaurante só abria de quinta a domingo, e era terça-feira. Tentámos outro restaurante que também estava fechado, e desistimos. Decidimos comer pelo caminho, sem local definido.

A nossa próxima paragem foi em Argegno, mas não nos demorámos. Vimos a pequena praceta, a Piazza Roma, demos uma voltinha por ali, e continuámos a nossa viagem, rumo a Menaggio. Aqui procurámos um local para comer e mais uma vez recorremos ao Google. Acabámos por nos decidir por uma café-bar bem classificado, no coração da cidade — a Pasticceria Cassera Moretti. Situada bem perto das praças mais centrais da cidade, onde os turistas se distribuem pelas esplanadas dos cafés, bares e pizzarias do Largo Cavour e da Piazza Giuseppe Garibaldi, numa ruazinha chamada Via Carlo Camozzi, esta pasticceria vale bem uma visita. Eu comi uma enorme focaccia com presunto, queijo e tomate, e a Flá pediu um croissant com alface, tomate e burrata; dividimos ainda um cannelloni com pistácio e um bolo de massa recheada com creme de ovos, os quais acompanhámos com os inevitáveis machiatti — ninguém os faz como os italianos.

Varenna vista do Lago di Como.

De seguida, fomos explorar um pouco mais de Menaggio. Por portas e travessas fomos ter à Via Castellino dal Castello, que subimos, até chegarmos ao edifício onde nasceu o padre jesuíta Gabriel Malagrida, em 1689. A história deste padre é interessante e trágica. Depois de ter trabalhado até 1754 como missionário em várias regiões do Brasil, Malagrida encontrava-se em Lisboa quando ali ocorreu o terrível terramoto de 1755, que “o padre das barbas brancas”, como era conhecido, atribuiu a um castigo divino, exortando a população à penitência. Sabendo-se da aversão do Marquês de Pombal aos jesuítas, não surpreende que o padre fosse condenado à morte pela Inquisição, já controlada pelo Marquês, acusado de ser um falso profeta e um hereje. Foi conduzido pelas ruas de Lisboa, garroteado no Rossio, sendo depois o seu corpo queimado e as cinzas atiradas ao rio. Foi a última vítima a ser assassinada pela Inquisição, em Portugal.1 Há um livro de um padre da Companhia de Jesus, Paulo Mury, traduzido e prefaciado por Camilo Castelo Branco, intitulado História de Gabriel Malagrida (disponível aqui).

Continuámos pela Via Strecium até a Ponte di Caravaggio, sobre o rio Sanagra, junto à qual se encontra a Capella Madonna di Caravaggio (que dá o nome à ponte), uma pequena cascata e um baixo relevo de autoria do artista toscano Enrico Vannuccini, mesmo em cima de um dos muretes da ponte. A escultura é dedicada a S. João Nepomuceno, padroeiro dos que passam pelas pontes. Depois desta pequena incursão sobre a zona alta e medieval da cidade, descemos para o centro turístico, com a intenção de tomarmos o ferry para Varenna. E foi o que fizemos, mas cometemos um pequeno erro: poderíamos ter levado o carro e já teríamos ficado na outra margem, sem necessidade de regressarmos a Menaggio e circundarmos o lago pelo Norte, para depois regressarmos ao alojamento. É verdade que teríamos poupado tempo, mas também não teríamos visto outras paisagens.

Foto na Passerella Innamorati Sul Lago.

Os ferrys que ligam as principais cidades do Lago di Como (que no mapa parece um “Y” invertido) fazem-no com grande regularidade. Estão sempre a partir e a chegar. Além de encurtarem distâncias, também proporcionam vistas deslumbrantes sobre as margens, as montanhas e as cidades ribeirinhas. Varenna é muito bela vista do ferry e continua muito bela quando nela entramos — é a cidade mais bonita de todo o Lago di Como. Já dentro da cidade, e junto ao lago, há um caminho que contorna a montanha, que só se pode fazer a pé, e que ninguém que visite Varenna pode deixar de percorrer. Ligeiramente elevado sobre as águas, está cercado por vegetação e flores, e tem vistas surpreendentes a cada curva. Fica à nossa direita, quando saímos do ferry, e foi por ele que seguimos até subirmos, por ruelas, escadarias e ruas, cada uma mais bonita que a outra, até a Piazza San Giorgio, onde se encontra a igreja homónima, a Câmara Municipal e vários cafés, hotéis e restaurantes. É a maior praça de Varenna.

Daqui descemos pela Contrada dei Sarti, no final da qual se encontra Il Bottaio, onde comprámos uma carteira, feita à mão, em couro italiano. Voltámos pelo mesmo caminho, a que alguns chamam Passerella Innamorati Sul Lago, não resistindo, aqui e ali, à tentação constante de abrir e fechar o obturador da câmera fotográfica, carregando insistentemente no disparador. Continuámos a tirar fotos no ferry de regresso a Menaggio, como se quiséssemos guardar todos os recantos e encantos da esplendorosa Varenna.

Pormenor da Capela de Santa Catarina, na Catedral de Bérgamo.

O ferry acostou ao pequeno cais de Menaggio seriam umas 5:00 da tarde. Ainda tivemos de caminhar bastante até ao carro, que estava estacionado na periferia da cidade. Quando ali chegámos tínhamos completado mais de 14 quilómetros de caminhada nesse dia. Era hora de regressar a Valbrona, a uns 90 quilómetros de distância. Teríamos poupado 30 quilómetros se tivéssemos optado pelo ferry. Chegámos ao alojamento ao anoitecer, jantámos bifes de vitela com spaghetti, comemos fruta, descansámos e já não saímos. Como de costume, delineámos o programa do dia seguinte, que seria o último desta viagem.

Na verdade, não foi um dia, foi apenas uma manhã, porque às 12:15 teríamos de entregar o carro no aeroporto. Saímos do alojamento às 8:00 horas em direção à cidade de Bérgamo. Apanhámos bastante trânsito, mas uma hora e meia depois estávamos a estacionar o carro num dos parques da Cidade Alta — a designação por que é conhecido o centro histórico de Bérgamo. Fomos caminhando até a Piazza Vecchia, onde se encontram o Palazzo della Ragione e a Torre Civica (Il Campanone) e seguimos para a Piazza del Duomo, onde se situam a Iglesia Santa Maria La Mayr, a Basilica di Santa Maria Maggiore e o Duomo di Sant’Alessandro Martire (a Catedral de Bérgamo).

Na Piazza Vecchia de Bérgamo.

É impressionante, tanto património cultural em tão pouco espaço, sendo que a Catedral é uma das mais bonitas que já visitámos, com as suas seis capelas (três de cada lado), as suas naves, as pinturas, os frescos, as esculturas e todo o conjunto barroco que marca o interior.

Depois de descermos da Città Alta, tivemos ainda tempo de parar numa gelataria que pesquisámos no Google, pois não tínhamos provado até então um sorvete nesta viagem a Itália. Foi também uma forma de gerirmos o tempo para chegarmos em cima da hora combinada ao aeroporto. Entregámos o carro às 12:10 e caminhámos tranquilamente até o terminal. Às 14:25 o avião descolou, precisamente dois dias depois da nossa chegada à Lombardia, e às 16:40 aterrávamos em Faro. Chegara ao fim mais uma viagem.

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Notas:

1 Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/execucao-do-padre-gabriel-malagrida-em-lisboa/

https://lisbonquake.com/blog/padre-jesuita-censor-de-livros

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Creta

A bela praia de Balos, ao romper da manhã.

Para aproveitar os voos de low-cost entrámos em Creta pelo aeroporto de Heráclio e saímos pelo de Chania. O nosso voo, vindo de Bucareste, partiu com duas horas de atraso (se fossem três teríamos direito a indemnização), pelo que chegámos a Heráclio já depois da meia-noite e, pouco depois, apanhámos um táxi para o nosso alojamento no centro da cidade. Dormimos escassas horas porque às 7:30 estávamos a apanhar o autocarro para Chania, numa viagem de mais de três horas. Aqui chegados, nem sequer saímos do terminal rodoviário, esperámos uns 45 minutos por outro autocarro que nos transportou até ao aeroporto de Chania, onde tínhamos combinado receber o nosso carro alugado. Nesta altura eram quase 13:00 h.

Já a bordo do pequeno Kia, dirigimo-nos ao nosso alojamento nos arredores de Chania, em Gálatas, onde dormiríamos as próximas três noites. Ainda demos uma voltinha pela estrada marginal, junto à costa, na zona de Agia Marina, para fazermos tempo até o horário de check-in, e aproveitando também para fazermos algumas compras. Constatámos que a carne é bastante mais barata em Creta do que em Portugal e que há muito boa fruta, embora, comparativamente, menos barata que a carne. Chegámos finalmente ao Kansoo Rooms e ficámos de imediato rendidos à qualidade do apartamento: limpo, espaçoso, elegante e funcional, equipado com tudo o que é necessário e com uma ampla varanda, sobre a piscina. O espaço envolvente também é muito agradável, tranquilo e silencioso, apenas os vários gatos, de vez em quando, se fazem notar. No resto do dia, como não tínhamos muito tempo, deambulámos mais um pouco pela região de Agia Marina, e regressando ao fim do dia ao apartamento.

No nosso apartamento da Kangoo Rooms.

Acordámos bem cedo na manhã seguinte para visitarmos a praia de Balos. Depois do pequeno-almoço saímos de Gálatas, seriam umas 7:00 da manhã. Fizemos um percurso de cerca de 50 quilómetros, primeiro pela E65, uma rodovia em muito bom estado, e depois por uma estrada de gravilha, com uns 10 quilómetros, sempre a subir, até atingirmos o parque de estacionamento no topo da colina. Aqui chegados só restavam mais uns 500 metros, sempre a descer, até a praia de Balos. A partir de certo ponto, as vistas pelo caminho são soberbas e, inevitavelmente, perde-se um tempo considerável a fixá-las com a câmera fotográfica. Como chegámos cedo, havia uma zona da praia onde os raios do sol, escondido atrás da montanha, ainda não tinham chegado e, para nosso delite, a praia estava quase deserta.

A zona ocidental de Creta (aquela por onde circulámos) é bastante montanhosa, e nessas montanhas, por todo o lado, se veem cabras, deambulando, com a sua natural destreza, pelos declives mais incríveis sobre os precipícios. Enquanto descíamos para a praia, no meio do silêncio total, ainda não perturbado pelo burburinho humano, ouvimos, de repente, um berro que ecoou na montanha. Logo de seguida, começámos a ver cabras a convergirem de todos os lados — por baixo de nós, na praia, no topo da montanha e nas encostas envolventes — em direção ao ponto de onde tinha vindo o berro que se propagou por quilómetros (só foi preciso um) e se descortinava o vulto de um pastor. Foi algo inesperado e marcante, um grito numa língua que, presumivelmente, só aquele pastor e as suas cabras entendem.

Os cabrestos pululam pelas encostas montanhosas de toda a Creta.

A praia de Balos é enorme, tem várias zonas, todas elas calmas, pois está protegida por uma cadeia rochosa e por uma ilha, em frente. Quando fomos explorar o caminho que leva à ilha, através da barreira rochosa, encontrámos várias piscinas naturais. Uma delas, é deveras atraente, com dimensões generosas e água incrivelmente cristalina, o fundo é perfeitamente visível, permitindo que se mergulhe em segurança, se se tiver um mínimo de cuidado. Foi o que fizemos. A água estava bem fresca, mas após aquela sensação imediata de choque térmico, desfrutámos com prazer de um banho revigorante. Quando terminámos, já dois turistas italianos, talvez atraídos pela única atividade naquela praia deserta, mergulhavam no mesmo local. Quando encetámos o caminho de volta já umas dezenas de pessoas tinham chegado à praia e, olhando para o trilho na montanha, viam-se inúmeros pontinhos humanos descendo lentamente a colina.

Quando subimos o trilho de volta ao parque de estacionamento, esses pontinhos eram agora do nosso tamanho e sucediam-se numa fila interminável. Muitos tinham de esperar pela sua vez, enquanto outros tiravam selfies nos melhores pontos de vista sobre a praia. Comentámos sobre as vantagens de realmente acordarmos cedo para chegarmos a estes locais fora do grande fluxo humano, e este é um conselho que deixamos a todos os que gostam de viajar — levantar cedo para chegar primeiro. Quando atingimos o parque de estacionamento, onde estavam estacionados dois carros quando chegáramos há duas horas, estavam agora parqueados centenas e centenas de carros. Tivemos de pagar o estacionamento à saída (3€), porque à entrada ainda não havia funcionários.

Chegámos a Balos quando o sol surgiu por trás da montanha.

De novo na estrada de terra batida, o nosso Kia negro virou branco com o pó levantado pelos inúmeros carros com que nos cruzámos pelo caminho. Continuava a chegar gente. No final da descida, dirigimo-nos para a estrada que faz a ligação ao Sul, rumo a Elafonissi. A paisagem é típica de montanha e o trajeto cheio de curvas, subidas e descidas, o que faz com que a progressão seja lenta. Pontualmente, encontram-se algumas tavernas, restaurantes típicos, onde se pode apreciar a comida local, com os inevitáveis pratos de cabrito, entre outras iguarias. Enquanto circulávamos, a Flá, aniversariante do dia, procurava no Google os restaurantes mais bem classificados da zona. Houve um que nos chamou a atenção, e situava-se um pouco mais à frente, poucos quilómetros antes de Elafonissi.

Em boa hora escolhemos o Aerino Restaurant-Cafe. Optámos por pratos de peixe grelhado, sardinhas e robalo, que, em ambos os casos, estava fresquíssimo. Partilhámos também uma sopa de peixe divinal. Além disso, a vista desde o restaurante é bonita, e os funcionários são extremamente simpáticos e prestáveis. Confirmámos também que, tendo em conta a qualidade, não se trata de um restaurante caro. As duas refeições completas, incluindo bebidas e café, custaram cerca de 60€. O local é tão agradável (comentámos que deve ser sensacional ali jantar ao pôr-do-sol, dado que o restaurante está virado para Oeste), e a ocasião era tão especial, que nos demorámos um pouco mais do que o habitual. No final, ainda nos ofereceram dois petits gâteaux, e queriam que provássemos o raki cretense, mas quando nos disseram que continha 42% de grau alcoólico, amavelmente recusámos.

Após o almoço no Aerino.

Depois de almoço, seriam uma 3:00 da tarde, descemos para Elafonissi. Talvez porque a expectativa era alta, foi uma desilusão. Não há forma de aceitar que esta seja uma das mais belas praias do mundo, tal como é amplamente considerada, quando a encontramos assoberbada de gente. Apercebemo-nos disso ainda antes de ver a praia, pois os vários parques de estacionamento estavam quase todos plenos de viaturas. Lá pagámos os tradicionais 3€ e descemos, sem grande convicção até à praia. Ainda por cima estava um vento muito forte, o que não impedia que cada cantinho estivesse preenchido com pessoas. Não nos banhámos. Passeámos um pouco pela beira-mar, procurámos algum ângulo para tirar uma foto em que não aparecesse o formigueiro de gente, mas isso afigurou-se impossível. Viemos embora comentando em como seria aquela praia no verão, se era assim ainda no início de maio…

Gostaríamos de ter continuado pela costa sul para depois subirmos para Gálatas, até o nosso alojamento, mas não há uma estrada paralela à costa sul, pois a zona é muito montanhosa, pelo que tivemos de voltar pela mesma estrada. Ainda parámos uma vez para visitar, logo à saída de Elafonissi, uns 3 kms depois, o mosteiro de Chrysoslalítissa, uma edificação setecentista do cristianismo ortodoxo. Ali encontramos uma capela, celas dos monges e pequenas salas, algumas minúsculas, uma das quais servia de sala de aulas secreta, aquando da ocupação turca. O ingresso custa 4€.

No mosteiro de Chrysoslalítissa.

Decidimos regressar ao alojamento sem mais delongas. Estávamos explorando o terreno há quase doze horas, tínhamos caminhado uns 14 quilómetros, e os nossos corpos já reclamavam por descanso. A Flá fez frango frito para o jantar e por ali ficámos, a recuperar energias, enquanto delineávamos o plano para o dia seguinte. Queríamos conhecer alguns pontos da Costa Sul, havia várias possibilidades, umas mais conhecidas e outras menos, e foi por as últimas que optámos, e não nos arrependemos. Embora Creta seja um destino muito procurado, sobretudo por quem gosta de praias, e no pico de verão seja certamente quase impossível encontrar locais de veraneio com pouca gente, isso é possível nos meses da chamada época baixa, e felizmente ainda os encontrámos.

Saímos no dia seguinte, após o pequeno-almoço, com intenção de cumprir o nosso plano. Este era mais um dia especial para nós, pois completávamos 14 anos de namoro. O nosso objetivo era chegar a Loutro, uma pequena localidade piscatória na costa Sul e para isso o google maps “sugeriu” que seguíssemos pela mesma estrada do dia anterior, a E-65, mas agora em sentido contrário, ou seja, para Leste, até fletirmos para Sul, uns 20 quilómetros depois, em direção a Sfakia. Aqui teríamos procedido bem se tivéssemos estacionado o carro e apanhado um ferry para Loutro, porque a melhor forma (mais cómoda, rápida e barata) de viajar entre as pequenas localidades desta zona da Costa Sul é por navio, havendo bastantes horários disponíveis. Mas nós ainda não sabíamos disso e seguimos de carro por uma estrada sinuosa que nos levou a Aradena, uma pequena localidade sobre um profundo desfiladeiro, o qual se cruza através de uma ponte de ferro. A cobrir o tabuleiro da ponte há umas travessas de madeira, cujo matraquear se propaga quando os pneus das viaturas as vão ultrapassando. Quando os carros circulam mais rápido, o som parece o de uma metralhadora.

Aradena.

Loutro não tem estrada nem tão pouco ruas, apenas algumas estreitas ruelas e escadarias, escavadas na encosta rochosa. A principal forma de lá chegar é através do porto de mar porque a estrada que desce desde Aradena fica a uns 500 metros. E que estrada! Esculpida na rocha, estreita, sem proteção, é uma das estradas mais perigosas por onde já passámos. E depois de começarmos a descer já não se pode voltar para trás. Lá fomos, cautelosamente, respirando fundo cada vez que olhávamos para o precipício, ora ao nosso lado esquerdo, ora do lado direito, serpenteado e rezando para não nos cruzarmos com nenhum carro que viesse a subir. Lá chegámos ao fundo (literalmente), um pouco tensos, sabendo que teríamos de fazer o caminho de volta mais tarde.

Após se estacionar o carro num dos poucos espaços disponíveis (não há parque de estacionamento pois o espaço para carros, incluindo a estrada, é exíguo), pode seguir-se por vários trilhos. Há um que segue para Loutro e outro que vai para Finikas. Entre estes dois pequeninos portos (Finikas é minúsculo) há ainda um trilho, mais longo, com cerca de um quilómetro, que segue junto ao mar. E, por fim, há ainda outro trilho entre Finikas e Loutro, mais curto, pela montanha. Nós fomos primeiro a Finikas, que é o mais perto da estrada. E dali fomos pelo trilho junto ao mar até Loutro.

Loutro.

Após a última curva do trilho, a pequena localidade piscatória surge como uma miragem aos nossos olhos, o seu casario branco flutuando e se refletindo nas águas cristalinas. Percorremos a pequena praia, os cafés e restaurantes, o pequeno cais e decidimos voltar a Finikas. Tínhamos planeado almoçar numa taverna de Loutro — a Taverna Stratis — mas esta só abria às 13:30 e ainda faltava uma hora, pelo que decidimos tentar o restaurante que víramos em Finikas, o Finix-Café.

Foi uma boa opção e confirmou-se a boa classificação que tínhamos visto no Google. Comemos anchovas, lulas fritas e cabrito guizado com batatas fritas — um dos pratos típicos de Creta. A baía de Finikas é mais pequena que a de Loutro, logo, a praia também é mais pequena. Embora seja uma praia de calhaus, não é preciso andar muito para chegar à água, e esta é de uma transparência incrível. (Verdade seja dita: a água é excelente em todas as praias que vimos em Creta). Estava calor e não resistimos a ir provar a água e nadar naquela pequena baía magnífica. Além de nós, estariam 3 ou 4 pessoas na praia. É engraçado que a praia de calhaus, além de não magoar os pés se os pisarmos suavemente (deve haver uma técnica que se aperfeiçoa com o tempo), tem a vantagem de não termos de retirar a areia dos pés no final…

Nadando na pequena baía de Finikas.

Após o banho revigorante sentimo-nos mais confiantes para subir com o nosso carro a estrada sinuosa até ao topo da montanha. E desta vez apanhámos dois carros em sentido contrário. Mas, com jeito e calma, correu tudo bem. Já na estrada principal, íamos regressando para Sfakia, quando passámos junto a um ponto da estrada onde se inicia um trilho, de cerca de 600 metros, que leva à praia de Glyka Nera. Parámos, e vimos alguns pequenos grupos de pessoas a percorerem o trilho. Hesitámos sobre a hipótese de também percorrermos esse mesmo trilho ou continuarmos viagem para uma praia muito referenciada na internet, a praia de Prevelli, situada ainda na Costa Sul, mas mais para Leste, a cerca de 80 kms do local onde nos encontrávamos. Optámos pela segunda hipótese, abrindo uma exceção à nossa preferência por locais menos badalados, e acabámos por concluir, depois, que errámos. Acontece. Estas crónicas servem também para que outras pessoas possam fazer opções melhores que as nossas.

Claro que sempre se vão encontrando coisas interessantes pelo caminho, seja património natural ou edificado. Mas a praia de Preveli, em si mesma, e apesar de ser muito frequentada, deixa, pelo menos para nós, muito a desejar. É uma praia muito referenciada graças a um rio, ladeado às esquerda e direita por um palmeiral, que nela desagua. Talvez por termos chegado tarde, quando o sol já não batia no rio, que fica no fundo de um desfiladeiro, não encontrámos nenhum motivo especial de interesse. Pelo contrário, o rio tem uma cor esverdeada nada atraente e contamina a própria água da praia, em cuja areia pode ver-se uma espécie de lago, na verdade uma enorme poça de água com essa água esverdeada e parada, que em nada favorece a praia, a qual seria mais bonita sem o rio. Mas a fama é o que é, e Preveli estava cheia de gente.

Na marginal de Rethimno.

Neste dia fizemos bastante exercício, pois do parque de estacionamento (como sempre, 3€) até à praia tivemos de descer 500 degraus. Claro que subimos os mesmos 500 na volta! Mas chegámos sãos e salvos, e decidimos passar ainda por Rethimno, talvez a cidade mais turística de Creta para quem gosta de praia, aonde chegámos um pouco antes do final do dia. Passeámos um pouco pela longa marginal e fomos lanchar ao Café-Kallithea (mais uma vez, após consulta ao Google). Quando saímos começava a escurecer e pudemos observar o começo da movida noturna de Rethimno, com a sua marginal plena de cafés, lojas e restaurantes virados para o turismo. A Costa Norte é sem dúvida a mais turística, com praias mais amplas e melhores infraestruturas, e é aqui que os turistas ficam hospedados, fazendo durante a estadia alguns passeios a Balos ou Elafonissi, pois estas são praias de visita, quase sem alojamentos por perto, e é na Costa Norte que tudo acontece. E além das praias, há a vida noturna, com seus bares e discotecas, para gente que gosta de beber, dançar e divertir-se.

Tudo depende, portanto, do que se pretende fazer. No nosso caso, nós viajamos para explorar os locais, não para passarmos férias. Tempo de férias passamo-lo em Portugal, nas nossas praias do Sotavento algarvio. Mas se o nosso objetivo em Creta fosse passar férias, a zona escolhida seria, sem dúvida a de Sfakia, Finikas e Loutro, longe das multidões da Costa Norte e de outros locais badalados. Essa foi a conclusão que retirámos destes dias passados em Creta e é a sugestão que deixamos a quem queira ali fazer férias de praia.

Os nossos percursos de carro, em Creta.

De Rethimno seguimos para o nosso alojamento para descansarmos de mais um dia intenso. No dia seguinte, por volta das 9:30, despedimo-nos de Vassilis, o simpático e competente gerente de Kansoo Rooms, e seguimos rumo ao aeroporto. Pelo caminho parámos numa lavadoura de automóveis e, com um euro apenas, deixámos o pequeno Kia com uma cara nova. Por volta das 11:00 entregámos o carro e às 14:00 levantávamos voo em direção ao nosso próximo destino, o aeroporto de Bérgamo, na Lombardia. Esta era a terceira vez que nos despedíamos de Creta.

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Bucareste

O ciclópico parlamento romeno — o maior do mundo.

Aproveitando os voos de low-cost disponíveis a partir do aeroporto de Faro, decidimos dar uma pequena volta de oito dias por três países europeus: Roménia (Bucareste), Grécia (ilha de Creta) e Itália (região da Lombardia). Neste artigo iremos debruçar-nos apenas por Bucareste, capital da Roménia, um país latino, com uma língua, em parte, semelhante à nossa. Isto quer dizer que, apesar de sermos os dois países latinos mais distantes na Europa, há uma certa afinidade entre Portugal e este país do Leste europeu. A nossa estadia em Bucareste foi curta (apenas dois dias) mas intensa.

Aterrámos pouco depois da meia-noite, isto é, já na madrugada do dia 6 de maio, e, apesar da hora, durante o nosso trajeto para o centro da cidade, algo se destacou perante os nossos olhos: a dimensão dos edifícios. Por Bucareste pululam edificações enormes, incluindo o maior edifício administrativo do mundo — o Parlamento romeno. Uma segunda impressão, que confirmaríamos no dia seguinte, foi a de que estávamos perante uma cidade em crescimento. Vimos muitas obras pelo caminho (incluindo a que permitirá a ligação de metro entre a cidade e o aeroporto), e uns 25 minutos depois de entrarmos num Tesla, chamado através da aplicação Uber, chegávamos a um acolhedor e charmoso apartamento, situado no 6º andar de um robusto edifício, com um elevador minúsculo onde só cabem duas pessoas, provavelmente centenário — o nosso alojamento em Bucareste.

No nosso belo apartamento da Bulevardul Carol I, em Bucareste.

Chegámos à Roménia num período de agitação política. É bom recordar que após a dissolução da União Soviética e da revolução romena de 1989, a Roménia enveredou pelo caminho da democracia e desenvolveu-se rapidamente, acabando por integrar a OTAN, em 2004, e a União Europeia, em 2007. O rumo liberal-democrático da Roménia foi muito recentemente posto em causa (5 de Maio), quando os sociais democratas e o partido extremista de direita (Aliança para a União dos Romenos – AUR) se aliaram para derrubar o primeiro-ministro liberal e pró-europeu, Ilie Bolojan, através de uma moção de censura.

Alguns partidos desejam eleições antecipadas, mas o presidente romeno, Nicusor Dan, prefere uma solução governamental que inclua os partidos pró-europeus, talvez a mesma coligação partidária anterior, mas sem Ilie Bolojan na liderança. O presidente, bem como vários líderes partidários romenos, querem manter o rumo pró-ocidental do país, temendo a ascensão da AUR, que nas sondagens já atingiu 37% dos potenciais votos, e do seu líder, George Simion, mais um líder populista europeu, notoriamente pró-russo. Veremos o que se segue.

O Teatro Nacional da Roménia, na Praça Universitária.

A situação política romena não impediu que tivéssemos uma noite bem dormida, após a qual fomos a um mini-mercado, a poucos metros da nossa nova e provisória morada, comprar ovos, alguns legumes, fruta, água e outras pequenas coisas. Regressámos ao apartamento para guardarmos as compras e tomarmos o pequeno almoço, e só depois iniciámos o passeio previsto no nosso programa. Não há melhor forma de conhecer as cidades do que fazê-lo caminhando e foi o que fizemos, como sempre. Entre os pontos selecionados, há sempre muita coisa para descobrir. Desta vez, também não houve exceção à regra. O nosso primeiro destino era o Ateneu, mas acabámos por fazer a primeira paragem no Teatro Nacional Ion Luca Caragiale, um dos edifícios mais emblemáticos de Bucareste.

Não estava aberto para visitas, mas tivemos acesso ao seu belo átrio e pudemos apreciar esculturas, tapeçarias, lustres, escadarias, mármores, linhas arquitetónicas. Este teatro foi remodelado entre 2011 e 2015, e alberga sete salas de espetáculos (seis cobertas e um anfiteatro ao ar livre). A sua localização não podia ser mais central: na Praça Universitária, onde fica o quilómetro zero da capital, um espaço emblemático onde ocorreram acontecimentos vitais para a transformação da Roménia numa sociedade livre e aberta. Gostaríamos de ter assistido a um espetáculo neste teatro, mas tal não foi possível. No entanto, seríamos recompensados pouco depois com um espetáculo privado, só para nós.

Alexander Gadjiev atua só para nós na magnífica sala principal do Ateneu, em Bucareste.

Seguimos para o Ateneu Romeno. Situado muito perto do Palácio Real, o Ateneu foi inaugurado em 26 de outubro de 1888, numa cerimónia oficial. A sua construção, sobre uma antiga escola equestre, foi concluída em apenas 16 meses, entre 1886 e 1888, o que, face à magnitude dos trabalhos exigidos, não deixa de ser espantoso, mesmo se tivermos em conta que este belo espaço não é já o original; como quase sempre acontece, houve melhoramentos e reformas posteriores. Este magnífico edifício exibe uma diversidade de estilos, combinando a orientação neo-clássica, bem visível do exterior, com elementos específicos do estilo francês Belle Epoque, de finais do século XIX. A sala de concertos principal, de forma circular, tem uma capacidade de 850 lugares sentados, entre bancadas e camarotes. Por cima destes, está patente um enorme fresco do pintor romeno Costin Petrescu, inaugurado em 1939, que conta em 24 cenas a história do povo romeno. Esta é uma sala realmente emblemática, onde atuaram artistas de renome mundial, como Igor Stravinski, Herbert von Karajan e Pablo Casals, entre muitos outros.

Entre esses muitos outros conta-se Alexander Gadjiev, que tivemos a sorte de ver e ouvir ao vivo, durante a nossa visita, pois esta ocorreu quando o pianista italiano (sim, o nome não o sugere, mas é mesmo italiano) ensaiava para o concerto do dia seguinte com a orquestra Filarmónica George Enescu.

No interior da Carturesti Carusel.

Termos assistido ao ensaio de Alexander Gadjiev, não deixou de ser um verdadeiro privilégio. E isso só prova que quase sempre acontecem coisas inesperadas e belas nas viagens, por um lado, porque as procuramos, e, por outro lado, porque os nossos sentidos estão mais despertos. Saímos satisfeitos do Ateneu. Cá fora, inúmeros estudantes participavam de uma sessão fotográfica de final de curso, enquanto nós seguíamos rumo ao nosso próximo destino, o Palácio do Parlamento. Pelo caminho passámos por dois belos espaços verdes, dois dos vários que vimos em Bucareste (alguns com quilómetros de extensão), primeiro o jardim Cismigiu e, depois, o parque Izvor. Reparámos em muitos jovens fumando, sobretudo cigarros eletrónicos.

Quando chegámos ao Parlamento visitámos uma exposição de arte moderna patente no Átrio. Teria sido possível fazermos uma visita guiada ao interior do Parlamento, mas em horário incompatível com o nosso programa, pelo que decidimos não realizar a visita, que só poderia ocorrer umas horas mais tarde. (Quem quiser visitar o Parlamento romeno, o melhor que tem a fazer é comprar antecipadamente os ingressos pela internet). Em vez disso, seguimos por uma bela alameda para a Praça Unirii, a qual, infelizmente, estava encerrada para obras.

Gostaríamos que a nossa estadia tivesse coincidido com a presença de Garry Kasparov em Bucareste. Admiramo-lo enquanto xadrezista, mas também enquanto intransigente defensor do Mundo Livre.

Continuámos então para o nosso próximo destino, caminhando pela Splaiul Independentei, adjacente ao monumental edifício do Palácio de Justiça, construído em 1890, cruzando depois o rio Dâmbovita e acabando por entrar na Cidade Velha, a zona mais turística de Bucareste. Chegámos, enfim, à bonita livraria que procurávamos, toda pintada de branco no interior, ocupando um edifício inteiro com vários pisos — a Carturesti Carusel — que percorremos demoradamente.

Na mesma rua da livraria e em outras circundantes há vários bares com esplanadas pejadas de turistas. (Haveríamos de voltar no dia seguinte a um deles). Entre os turistas em Bucareste, reparámos que há muitos italianos, talvez devido aos voos de low-cost entre os dois países, mas, de qualquer modo, o turismo na Roménia, quando comparado com o dos países europeus do quadrante ocidental, ainda é incipiente. Depois da Carturesti Carusel, seguimos para a Macca Passage, que não merece o destaque que lhe atribuem, daí este breve referência — de passagem. Pareceu-nos mais interessante o café típico onde parámos depois — o Scovergaria Micai — sobretudo pelos doces e salgados de fabrico próprio, mas também pela oportunidade que tivemos de descansar um pouco após horas de caminhada. As funcionárias deste café, vestidas com trajes típicos, são extremamente simpáticas e prestativas.

A nossa última refeição em Bucareste foi no Grand Café Van Gogh.

Continuando o nosso caminho de volta para o apartamento, ainda passámos por outra livraria, não tão vistosa como a Carusel, mas igualmente bela, plena de livros interessantes, nas suas várias salas, e com preços bastante acessíveis. Trata-se da Antic ExLibris, uma jóia para os amantes da leitura, com muitos livros interessantes em língua inglesa. Finalmente, houve ainda tempo de passarmos, já no fim do dia, por um mercado de produtos locais, ao ar livre, bem perto do nosso alojamento; não comprámos nada, pois já tínhamos bolinhos de bacalhau preparados para o jantar.

No dia seguinte, após o pequeno-almoço, saímos com alguma nostalgia da nossa casa emprestada por dois dias, no último minuto antes do limite para o check-out, às 11 horas. Divagámos de novo pelo centro da cidade, até que decidimos almoçar no Grand Café Van Gogh, novamente na Cidade Velha. Foi uma excelente opção. Comemos uns incríveis ovos benedict com aspargos sobre pão francês (fabrico próprio) e uma panqueca americana com xarope canadiano natural, e frutos frescos. Estava tudo delicioso, até o café. Depois deste almoço relaxante, deslocámo-nos lentamente até a praça Unirii, onde apanhámos o autocarro para o aeroporto, que se arrastou através do tráfego intenso. Tivemos bastante tempo no aeroporto para recordar os melhores momentos passados em Bucareste, uma vez que o nosso voo para Heráclio, em Creta, descolou com duas horas de atraso. Foi bom conhecer Bucareste.

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Um fim de semana no Piauí

Mirante do Gritador.

A nossa última viagem ao Brasil (que incluiu várias viagens pelo interior deste imenso país) durou dois meses e meio. Estivemos em cinco estados nordestinos — Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Ceará e Piauí, onde, em qualquer um deles, já tínhamos estado por várias vezes. Hoje vamos destacar uma pequena viagem que fizemos, em família, durante um fim de semana no Piauí.

Saímos da capital, Teresina, em direção a Piripiri, onde pernoitámos, no Hotel Imperial, simples em todos os aspetos, incluindo no café da manhã servido, mas limpo e com uma boa relação qualidade-preço. O melhor da noite, porém, aconteceu ainda antes de nos recolhermos. Refiro-me ao excelente jantar que fruímos no Espaço Castanhola, um restaurante de boa qualidade, em Piripiri. Esta região é famosa pela carne de sol, e a que saboreámos no Castanhola estava divinal.

No Espaço Castanhola.

No dia seguinte saímos de manhã cedo em direção ao Parque Natural de Sete Cidades, numa viagem muito curta, de uns 20 quilómetros. A entrada no parque é gratuita (tem de se preencher e assinar um pequeno formulário no portão de entrada) e a visita pode ser realizada por conta própria, mas nós tínhamos acordado com uma guia credenciada, de seu nome Janaína Sousa, o nosso passeio pelo Parque. Pagámos, na totalidade, 300 reais por um passeio com a duração de quatro horas, que incluiu todas as “cidades”, sendo que o nosso grupo era constituído por quatro adultos e duas crianças. (Há passeios com duração mais curta e, consequentemente, mais baratos).

Do portão-sul, por onde entrámos, até ao centro de visitantes, onde Janaína nos esperava, distam uns cinco quilómetros em estrada de terra batida, bem preservada. Este parque, criado em 1961, é muito grande, cobre uma área de cerca de 6.221 hectares, pelo que as distâncias maiores — entre as cidades e nas entradas e saídas do parque — são percorridas de carro (os carros dos próprios visitantes) e as distâncias menores (dentro das cidades) são percorridas a pé. Constitui um bom exercício percorrer as trilhas, subir as escadas que conduzem aos miradouros, transpor os desníveis dos caminhos, pelo que uma condição física razoável é indispensável, bem como o uso de chapéu, ténis (ou outro tipo de calçado adequado), roupas leves e muita água.

Entre pedras. Aqui qualquer sombra é bem-vinda.

O melhor deste parque é o seu ambiente bem preservado. As “cidades”, que são conjuntos de formações rochosas de formatos mais ou menos curiosos, as inscrições rupestres, que ainda não estão cientificamente datadas, mas que se presume terem até 4 mil anos, e os miradouros bem construídos, apesar de interessantes, não fazem esquecer o encanto da paisagem viva, antes se integram harmoniosamente nela. A algumas rochas, ou conjunto de rochas, foram atribuídas denominações, pelos habitantes locais (ainda antes de se ter criado o parque) ou por visitantes, mas isso não é seguramente o mais importante.

O mais importante do parque é a sua biodiversidade. Quando ali estivemos ainda praticamente não tinha chovido, pelo que as várias nascentes do parque não se prolongavam ainda em volumosos caudais. Mas deu para imaginar que deve ser ainda mais agradável visitar este parque após a época das chuvas, fruindo, num clima muito quente, da frescura da água e da sombra que a paisagem de transição entre o cerrado, caatinga e mata amazónica proporcionam. Convivem no Sete Cidades mais de 250 espécies de aves, macacos, tamanduás, preás e mocós. A flora é também muito rica, com espécimes como sambaíba, chapada, piqui, tingui-de-bola, baratimão, pororoca, entre muitas outras desconhecidas da maior parte dos portugueses e até dos brasileiros.

Num dos miradouros de Sete Cidades.

No que toca a parques naturais no Brasil e, particularmente, no Piauí, temos muita vontade de conhecer o Parque Natural da Serra da Capivara. Não foi possível nesta viagem, mas está planeada para a próxima uma visita, necessariamente, com tempo. Entretanto, queremos agradecer a Janaína Sousa por suas disponibilidade e simpatia, e pelo seu profissionalismo. Janaína é uma excelente guia e quem quiser visitar o Parque de Sete Cidades em boa companhia pode contactá-la pelo whatsapp através do número +55 86 99988-0762.

Saímos do parque e regressámos a Piripiri para almoçar. Desta feita não pudemos ir ao Espaço Castanhola, pois só abre à noite, para jantares, almoçámos numa churrascaria à entrada da cidade e de seguida infletimos para leste, pela nacional 404, em direção a Pedro II, onde estacionámos na parte antiga da cidade, na bonita Praça Domingos Mourão Filho, junto à Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Pedro II é uma cidade muito agradável, com uma temperatura relativamente amena (chamam-lhe a Suíça do Piauí), pois encontra-se situada a uma altitude de 603 metros.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Pedro II.

Junto a esta praça encontramos as principais atrações da cidade, sobretudo, claro, algumas lojas onde se podem comprar as magníficas opalas preciosas que são consideradas a principal atração da cidade. Não existem jazidas de opala nobre em nenhum outro lugar do Brasil e apenas na Austrália há uma produção maior desta pedra preciosa. É pena não existir um museu dedicado à opala na cidade, mas na joalharia Opalas Pedro II, a 20 metros da praça referida, na rua Tertuliano B. Filho, é possível observar pedras brutas e gemas lapidadas, além de ouvir as explicações da proprietária. As pedras brutas com maior potencial são as mais coloridas, conhecidas por “pedras vivas”, por as cores darem a sensação de se moverem.

Em Pedro II existem garimpeiros e lapidadores (no Brasil conhecidos por lapidários), e graças a eles podemos comprar jóias de opala de todas as cores, cada qual com a sua identidade, não apenas aqui mas também nas joalharias de todo o mundo. Mas como se formou a opala? Há 200 milhões de anos, quando o supercontinente Pangeia começou a dividir-se, grandes quantidades de magma começaram a libertar-se das entranhas da Terra. Ao que parece, nesta zona, o magma não chegou à superfície e começou a aquecer a água subterrânea que atingiu grandes temperatura e pressão acabando por rebentar as rochas em redor e dissolvendo os seus minerais. Com o passar do tempo, quando as temperaturas do magma e da água baixaram, surgiu a opala.

Centro histórico de PedroII.

Ainda na Praça Domingos Mourão Filho, descobrimos as instalações da Rádio Imperial, ouvida em três estados — Piauí, Maranhão e Ceará. Fomos convidados a entrar na sala onde um radialista, na companhia de alguns colegas, comandava a emissão, e fomos presenteados, imagine-se, com uma referência à nossa visita, talvez uma hora depois quando já nos encontrávamos no carro, rumo ao Morro dos Gritadores, e sintonizámos a Imperial em 95.5 FM, pelo radialista Ítalo Sousa. Gostaríamos de testemunhar e agradecer a gentileza dos jornalistas da FM Imperial, atitude que muito nos sensibilizou.

O Mirante do Gritador fica num ponto ainda mais alto do que Pedro II, e a vista, para Norte e Nordeste, é soberba. Após as fotos da praxe, percorremos os 12 quilómetros de regresso a Pedro II, onde lanchámos. Quando saímos da cidade era já noite cerrada. Acabámos por jantar e, depois, dormir, em Capitão de Campos, num pequeno hotel de beira da estrada, barato, sem grandes condições, mas que deu para descansar e dormir em segurança. Além disso, o pequeno almoço, no dia seguinte, foi bastante aceitável.

O Raparigueiro.

Tomámos a estrada cedo, como sempre, em direção a Campo Maior, mas poucos quilómetros antes da cidade, infletimos para a esquerda e entrámos na estadual 115, rumo ao sítio de Furnas, um conjunto de casas pertencente ao município de Sigefredo Pacheco. Este é um local muito importante para nós. Foi em Furnas que nasceram a avó e a mãe de Fla. Foi emocionante visitar o local onde a minha mulher passava as férias escolares e relembrar aquele, a milhares de quilómetros de distância, noutro país, onde eu próprio passava as férias. As comparações são inevitáveis e o que é fascinante é o tomar consciência das diferenças entre os dois lugares. A paisagem é completamente diferente, o clima idem, a vida, vegetal e animal, substancialmente diferentes também. A surpresa é genuína.

E, no entanto, há uma semelhança fundamental. Estes são espaços de liberdade, aventura e brincadeira; de sonhos, ilusões, medos e esperanças próprios da juventude; de sons, cores, sabores e cheiros que se gravam em nós para sempre; e, seguramente, de episódios, histórias e pessoas que não esqueceremos.

A casa de família é agora habitada por uma tia da Fla e duas crianças. Visitámo-la detalhadamente para a gravarmos na memória. Vimos os animais — equinos, porcos, vacas leiteiras, caprinos, galináceos e um papagaio chamado Raparigueiro — passeámos pelos espaços abertos e fomos a uma ribeira que tinha pouca água (não chovera ainda o suficiente), mas onde, mesmo assim, as crianças se rebolaram no líquido barrento. Estivemos por ali umas horas e foi uma visita que não sei se irá repetir-se, mas sei que não mais esquecerei.

Espaço de liberdade.

Seguimos para Campo Maior, a capital da carne de sol. Comprámos uns quilogramas deste produto de alta qualidade, ainda antes de almoço. As peças de carne penduradas — sobretudo de bovinos e caprinos — são uma imagem de marca de Campo Maior, e são muito fáceis de observar no centro da cidade. Nos restaurantes de Campo Maior, é claro, o prato mais pedido é de carne de sol. E no restaurante buffet onde almoçámos também havia obviamente carne de sol. Outra coisa que sempre há (ou quase sempre) é rapadura. Quadradinhos de rapadura (açúcar de cana em bruto) para acompanhar o café depois das refeições. Estávamos tão habituados a comê-los que se estava a tornar um vício.

Depois de almoço regressámos a casa. Durante as duas horas de viagem recordamos vários dos momentos passados nesta viagem ao Brasil, mais uma de muitas. Fora um fim de semana intenso. No dia seguinte voltaríamos para Portugal.

Foto de família na despedida.

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Lajedo de Pai Mateus e Cabaceiras

Lajedo de Pai Mateus — matacões em cima de um enorme prato de pedra, invertido.

São dois lugares muito próximos, separados por poucos minutos de estrada, ambos a cerca de 200 quilómetros, para oeste de João Pessoa, ou seja, entre três a quatro horas de distância da capital paraíbana, para quem viaja de carro. Teoricamente, até se poderiam visitar os dois locais no mesmo dia, se viajar de noite no Brasil não fosse tão perigoso. Mas é claro que é melhor dormir por lá pelo menos uma noite (foi o que fizemos) ou, de preferência, duas ou três.

Uma coisa desde já recomendamos: pernoitar no Hotel Fazenda Pai Mateus. Nenhum outro alojamento será melhor; na verdade, nenhum outro se lhe compara, sequer. Para chegar a este hotel, saíndo de João Pessoa, só há um caminho: tomar a estrada 230 em direção a Campina Grande. A partir daqui pode seguir-se “por cima”, via Boa Vista, ou “por baixo”, via Cabaceiras. Embora o primeiro trajeto (por Boa Vista) seja ligeiramente mais curto, há um bom pedaço de estrada (ainda a 230) que está em obras, à saída de Campina Grande. Mas, com obras ou sem obras, a melhor opção é ir por um lado e voltar pelo outro, percorrendo um círculo — Campina Grande, Boa Vista, Lajedo de Pai Mateus, Cabaceiras, e regresso pela PB-148, até Queimadas, e depois pela PB-100 que liga de novo à 230, perto de Campina Grande. Este foi o nosso trajeto.

Quantas tapiocas cabem numa mão só? O Eduardo sabe.

Saímos de Carapibus, na costa do Conde, de manhã cedo (umas 7:00h) e em Cajá, sensivelmente a meio-caminho entre João Pessoa e Campina Grande, uma hora e picos depois, tomámos o café da manhã na famosa Tapiocaria Irmão Firmino. O movimento é grande, quase do tamanho das múltiplas tapiocas que Eduardo — um dos funcionários de serviço —maneja com mestria, dentro e fora das frigideiras perfiladas em cima de fogões de dois bicos, igualmente perfilados ao longo do enorme balcão. Tem que se possuir um estômago generoso para aguentar uma tapioca destas, doce ou salgada, suficiente, à vontade, para dois manos. As tapiocas têm fama, mas olhem que delas também se faz bom proveito.

Partimos atestados e com um café forte no bucho para enfrentarmos de novo a BR 230. Subimos até Campina Grande mas não entrámos no centro da cidade. Campina Grande é boa é no São João, não nos pareceu interessante visitar agora, pelo que continuámos a nossa viagem, ultrapassando, logo de seguida, um trecho em obras e muita poeira. Mais uma camada a juntar às muitas que o nosso carro alugado já tem.

A estrada segue para o Lajedo, mas é obrigatório parar aqui, onde se iniciam os passeios, sempre conduzidos por um guia.

Entrámos em Boa Vista, uma cidade mais ou menos no meio do nada, para comprarmos água, e seguimos pela PB-160. Uns vinte minutos depois estávamos a fazer o desvio para uma estrada de terra batida de 10 kms, que percorremos até o Hotel Fazenda Pai Mateus. A estrada está em bom estado, é perfeitamente transitável, mesmo para um carro relativamente baixo como o nosso, o que não impediu que este ficasse com mais uma camada de pó. Esta estrada já se encontra no interior de uma fazenda particular, e ao percorrê-la passámos por casas dispersas, algumas plantações e vários animais, sobretudo cabras e bois, até nos depararmos com um enorme letreiro anunciando o hotel.

A tranquilidade, o isolamento, a beleza que se sentem à chegada são quase respiráveis, sentimo-nos de imediato num espaço quase esquecido, como se nenhum problema do mundo pudesse aqui chegar. E quando se sai do carro sente-se uma paz difícil de descrever. Por outro lado, o desenho do hotel é perfeito. As várias áreas — área do pessoal, que inclui receção, cozinha, armazém e outros espaços; área de refeições; zona das piscinas; espaços abertos, por onde circulam vários animais; e a vasta área onde se localizam os 28 apartamentos — estão bem delimitadas, mas o conjunto forma uma unidade harmoniosa, ampla e extremamente aprazível. Os tetos altos do edificado garantem uma excelente ventilação; os materiais usados na construção são de boa qualidade; e há muita sombra. Tudo isto, como é óbvio, é uma benção em qualquer lugar do sertão brasileiro.

Relaxando um pouco no hotel antes da visita ao Lajedo.

Além disso, a decoração, simples, com peças e materiais tradicionais da própria região, não deixa de ter a sua sofisticação, constituindo-se como um complemento e uma continuidade do estilo edificado. O silêncio aqui é cósmico — e os sons que se escutam, ou simplesmente passam, fazem parte dele. Outra coisa que nos agradou sobremaneira neste hotel foi o seu horário de check-in, que é, imagine-se, a partir das 10 da manhã. Dá para guardar as malas, tomar um duche, relaxar, descansar, almoçar — e ainda se tem a tarde toda pela frente! Dado que queríamos ir no último passeio do dia ao Lajedo, para que coincidisse com o momento do pôr do sol, ainda tivemos tempo livre para fruirmos do ambiente idílico que envolve o hotel, e apreciar os espécimes de cactus e bromélias tão característicos da exótica paisagem da caatinga nordestina.

Os passeios ao Lajedo de Pai Mateus só podem ser realizados com o acompanhamento de um guia local. O último passeio do dia inicia-se às 16:00h e foi nesse que nos integrámos. Dado que estávamos alojados no hotel, o preço por pessoa ficou em 100 BRL, sendo que o preço normal é de 120 BRL. (Já agora, o preço de um apartamento standard é de 485 BRL, incluindo o pequeno-almoço que, como veremos, é excelente). O Lajedo dista uns quatro quilómetros do hotel e os visitantes só podem deslocar-se para lá de carro ou moto. No dia da nossa visita éramos 14 pessoas (só quatro estavam alojadas no hotel) mais o guia, Tiago Araújo, que partiu à frente de moto; nós seguimo-lo nos nossos carros. Depois de estacionarmos as viaturas, ainda subimos a pé uns 300 metros até chegarmos ao Lajedo propriamente dito, que, como já li algures, é uma espécie de prato gigante invertido, com os matacões (pedras graníticas enormes) em cima. Foi nesse prato gigante — com 1.500 metros de extensão — que passámos as duas horas seguintes.

Uma das pedras mais famosas do Lajedo é o Capacete.

As pedras que ali se encontram são magmáticas, vieram de dentro da Terra há milhões de anos, foram lapidadas pelos agentes da natureza — água, vento, temperatura e o próprio tempo — e são, de facto, exóticas e impressionantes; o pôr do sol neste local é magnífico e, quando anoitece, é com fascínio que se admiram os corpos brilhantes cravados na imensa abóboda celeste… Mas o verdadeiro tesouro deste lugar é algo que não se vê, mas se sente: o aparente equilíbrio cósmico; a paz interior; a comunhão com o Universo, quando todos nos calamos e ficamos sentados ou deitados (nós fechámos os olhos) durante alguns minutos, viajando naquela enorme pedra pelo espaço interestelar. Sim, trata-se de uma experiência única num lugar mágico!

Quando entrámos no carro para percorrermos os quatro quilómetros de volta ao hotel era já noite cerrada. Escolhemos o que queríamos para jantar e, tal como acontecera ao almoço, combinámos um horário e fomos descansar para o quarto, sem necessidade de estarmos na sala de refeições à espera que os pratos fossem confecionados. Além de todas as comodidades, a comida também é realmente boa — sem muita sofisticação, mas genuína, com produtos caseiros e locais, feita na hora. No entanto, o que mais nos impressionou foi o pequeno-almoço do dia seguinte. Antes de nos recolhermos aos quartos para dormirmos, fomos convidados a preencher com um “x” os quadradinhos referentes aos produtos e ingredientes que queríamos para o café da manhã, entre uma panóplia enorme, desde laticínios, ovos, pães diversos, doces, frutas, sucos, chás, cafés, etc. Recordamos desse pequeno-almoço, sobretudo, a tapioca com coco, queijo coalho assado e mel de cana que provámos — divinal!

Fla com Tiago Araújo.

Os funcionários do hotel e os guias dos passeios (há vários passeios que se podem realizar, não apenas apenas o que fizemos) são todos habitantes desta região do Cariri paraíbano, e alguns moram dentro da própria fazenda. As fazendas são grandes e muito difíceis de gerir e rentabilizar, face aos custos associados. Mas, felizmente, esta é rentável e dá emprego a muita gente — tudo graças ao Lajedo de Pai Mateus. Um dos beneficiários é o guia que nos conduziu ao Lajedo, Tiago Araújo, que nos relatou como sua vida melhorou bastante (ele viva numa casa de taipa), desde que, há um quarto de século, os primeiros visitantes começaram a chegar a esta zona, que é hoje uma APA (Área de Preservação Ambiental) de 18.000 hectares, abrangendo os municípios de Cabaceiras, Boa Vista e São João do Cariri. Ao princípio, entre 2000 e 2004, foram exclusivamente europeus, cerca de 15.000 escandinavos, face a uma parceria com a operadora de turismo Scandinavian Leasure Group, da Suécia, mas depois vieram mais, muitos mais, de todo o mundo.

A história do Lajedo enquanto destino turístico começou graças a um engenheiro da Petrobras, Eduardo Bagnoli, por quem os habitantes locais têm, mais do que admiração, uma verdadeira reverência. Bagnoli chegou a esta região para avaliar a exploração da bentonita e acabou por descobrir o Lajedo, tendo intuído que estava ali um local com um potencial turístico enorme. Ao verificar que as grandes pedras estavam sendo transformadas em brita, entrou imediatamente em contacto com o então proprietário da fazenda, o médico Crysóstomo Lucena, convencendo-o a apostar num novo tipo de negócio, o qual se iniciou em 1997.

Pôr do sol no Lajedo. (Foto de Tiago Araújo).

Aos poucos, o Lajedo, que estava destinado a ser uma pedreira — única utilidade deste terreno pedregoso, impróprio para a agricultura — foi adaptado para destino turístico e cenário cinematográfico, consolidando-se como negócio rentável, sobretudo a partir do momento em que surgiram as redes sociais e a sua divulgação explodiu nos Facebook, Instagram e Tik-Tok desde 20, 15 e 10 anos atrás. O Lajedo de Pai Mateus e Cabaceiras passaram, assim, em poucos anos, de zona esquecida a destino turístico famoso, para enorme benefício da sua população.

As escavações das minas de bentonita permitiram outra descoberta. Há 23 milhões de anos (a datação foi realizada a partir do pólen fossilizado encontrado no local) havia nesta região um enorme pântano e um vulcão que começou a expelir lavas e cinzas. Ao cair na água, a lava resfriou rapidamente, formando um tipo raro de rocha vítrea, conhecida por pillow lavas. Entretanto, as cinzas soterraram o pântano, petreficaram a vegetação, e assim se iniciou a formação do minério bentonita. Esta rocha vítrea foi descoberta em dezembro de 2014, por pesquisadores do Serviço Geológico do Brasil, na Bacia Terciária da Boa Vista. Está previsto criar-se aqui mais um geoparque (já são seis, neste momento, nomeados pela UNESCO no Brasil), com uma área de 12.000 hectares, aumentando para 30.000 hectares a área preservada nesta região do Cariri.

Um local mágico, verdadeiramente.

De acordo com informação disponibilizada pela administração do próprio hotel, existem apenas quatro lugares no mundo com este tipo de formações rochosas. Para além do Lajedo de Pai Mateus, Devils Marbles, na Austrália, Erongo Mountais, na Namíbia, e o maciço de Hoggar, na Argélia.

Mas, afinal, quem foi Pai Mateus? É difícil saber. Embora seja inegável — pelas gravuras e inscrições rupestres expostas não apenas aqui, mas um pouco por toda a região da caatinga nordestina — que este local foi habitado há muitas gerações, incluindo por índios cariri, não cremos que Pai Mateus tenha existido mesmo. Essa história de um curandeiro sábio que rezava e compunha mezinhas em prol do povo, e que terá vivido no século XVIII sob um matacão do Lajedo, não passará de uma lenda, passada, de geração em geração, através da tradição oral dos habitantes desta região. Afinal é o que se passa em tantos outros lugares, e não tem problema nenhum que assim seja. Só acredita quem quer.

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Após o excelente café da manhã, partimos, numa curta viagem, para Cabaceiras. À entrada da cidade, do lado esquerdo, os viajantes deparam-se com um enorme letreiro: Roliúde Nordestina. Só por aí já é fácil perceber a importância que o cinema e a televisão tiveram e têm no desenvolvimento da cidade. Cabaceiras já foi cenário de centenas de filmes, séries televisivas e anúncios publicitários, sendo talvez a rodagem mais famosa ali realizada a do filme Auto da Compadecida, baseado no romance homónimo do conhecido escritor Ariano Suassuna. E atrás da indústria do cinema vêm outras coisas: produtos regionais, restauração, pequenas indústrias, artesanato, artigos de couro, bebidas, mais empreendorismo e mais emprego e, sobretudo, mais dinheiro no bolso das pessoas para melhorarem a sua vida e a economia da região.

A silhueta da Fla permite ter uma ideia mais precisa sobre o tamanho do letreiro à entrada de Cabaceiras.

E quando assim é, quando surgem as oportunidades, sempre aparece a criatividade individual. É o caso de Manoel de José Preto (nome pelo qual é conhecido Manoel Batista de Lima), que percorre as ruas de Cabaceiras vestido a rigor, carregando a pesada roupa de cangaceiro e quase 80 anos de existência dura (que completará em fevereiro) no agreste sertão da Paraíba. Claro que muitos turistas querem tirar uma foto com ele, e assim Manoel Preto vai ganhando uns trocos para os gastos, talvez para algo mais, não sabemos.

Ser uma cidade turística muito visitada implica também outras coisas: Cabaceiras é das cidades mais limpas e organizadas do Brasil — algo raro. Também disto resulta a sua atratividade e, no fundo, a sua riqueza. A proximidade relativa de Cabaceiras ao Lajedo de Pai Mateus, a Campina Grande e até a João Pessoa confere-lhe um potencial de crescimento não negligenciável. Talvez tenhamos oportunidade de ver o resultado daqui a cinco ou dez anos, quem sabe?

Certo é o que temos hoje. E o que temos, ou o que os habitantes locais como Tiago Araújo e Manoel Preto têm, é uma terra que vale a pena visitar, que tem atrativos suficientes para encantar, mesmo os viajantes mais exigentes. O Lajedo de Pai Mateus, sobretudo, é a não perder. Já era noite quando chegámos a Carapibus, na Costa do Conde, um pouco cansados, mas muito satisfeitos com o(s) nosso(s) passeio(s).

Manoel Preto “ameaça” um conterrâneo.

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Escapadela a Marrocos

Nadando em Tiguemine Sarah.

Há relativamente pouco tempo descobrimos que há voos diretos entre Faro e Marraquexe, operados pela Ryanair. Quando analisámos os preços, com voos de ida e volta a €30, decidimos de imediato fazer uma escapadela — que acabou por ser de quatro dias e meio — a Marrocos. Além dos preços, os horários dos voos eram também excelentes, o que nos permitiria otimizar o tempo de estadia em terras berberes.

O nosso voo partiu às 12:05, e às 13:20 estávamos a aterrar em Marraquexe.

Estávamos um pouco apreensivos com o aluguer do carro — tanto que fizemos um seguro contra todos os riscos. Era a única coisa que nos preocupava e, por sinal, quando saímos pelo último portão do aeroporto não vimos ninguém à nossa espera com a placa da locadora erguida, tal como estava indicado na página de reserva do booking.com, onde contratáramos o aluguer da viatura. Procurámos, circulámos, esperámos e, uns vinte minutos depois, reparámos num homem com uma placa, mas, em vez de a ter erguida, segurava-a numa mão descaída abaixo da cintura. A nossa intuição levou-nos a espreitar, e verificámos que estava inscrito na placa o nome da locadora — Green Motion — e lá fomos transportados até ao escritório, a uns 4 kms de distância, para tratar das formalidades. Surreal.

No terraço de Tiguemine Sarah.

No escritório da empresa foi-me solicitado um pagamento de 400 dirham (MAD), cerca de €37, por ser um condutor com mais de 65 anos, algo que não tinha verificado aquando da reserva online. Não adiantou reclamar, tive mesmo de desembolsar esse valor e ainda deixar uma caução de 17.000 MAD, cativos no nosso cartão de crédito.

Eram umas duas da tarde, tínhamos muito dia pela frente, e não deixámos que aquilo o estragasse.

Depois de enchermos o depósito, rumámos ao alojamento que tínhamos escolhido e sobre o qual tínhamos as melhores referências. A expectativa era alta e não foi frustrada. Tiguemine Sarah é um empreendimento lindo, um oásis entre terrenos áridos, com as montanhas do Atlas ao fundo. Tudo ali é equilíbrio e harmonia: o verde da vegetação, o ocre do edificado, o azul do céu e da piscina.

Come-se maravilhosamente em Tiguemine Sarah, e as pessoas são igualmente maravilhosas. Além delas, há quatro cães simpáticos e tranquilos, e um majestoso felino, de seu nome Winston Churchill. Os cães bebem água da piscina e o mesmo fazem os pássaros, inúmeros, que pela propriedade circulam. As árvores altas que ladeiam o poente o e o nascente do recinto retangular, talvez do tamanho de um campo de futebol, proporcionam sombra, pelo menos nalgumas espreguiçadeiras, durante a maior parte do dia. Ler um livro, ou simplesmente dormitar numa delas, é um prazer divino.

Negociando nas montanhas do Atlas.

O ambiente todo — desde o ar à água, passando pelo silêncio entrecortado pelo chilrear dos passarinhos, até ao resfolhar suave que uma leve brisa levanta — convida ao langor. O nosso quarto (o nº 1) é espaçoso, bem decorado, limpo, e tem uma enorme varanda debruçada sobre a piscina. Ao fundo, azuladas, as montanhas do Atlas. Dormimos muito bem na nossa primeira noite.

No dia seguinte esperáva-nos um pequeno-almoço soberbo. Não podemos esquecer a sopa berbere (sim, eles tomam-na ao pequeno-almoço), o mel com manteiga e o sumo de frutas, com banana, pêssego e laranja. Os doces, feitos por uma das irmãs — Gigi — são simplesmente maravilhosos. Não apetecia sair, mas já tínhamos programa e tivemos de vencer a preguiça. Saímos, ao meio-dia, na direção das montanhas do Atlas.

Para começar, o google maps mandou-nos por um atalho em terra batida de cerca de 2 kms. Nenhuma viatura se cruzou connosco, felizmente, e lá atingimos a estrada nacional N9, que liga Marraquexe a Ouarzazate. Pouco tempo depois começámos a subir. A certa altura estávamos aflitos para irmos à casa de banho e parámos em Taddarte. Entrámos num café, aliviámo-nos e pedimos um chá de menta. Todos foram simpáticos e respeitosos connosco. Seguimos viagem montanha acima.

Aït-Ben-Haddou ao nascer do sol. Grandes filmes foram rodados aqui.

Passado algum tempo e muitas curvas apertadas, chegámos ao ponto mais alto do nosso percurso — Tizi Tichka. Daqui vê-se a estrada que acabámos de subir, uma cobra pequenina, lá bem no fundo. Este é um ponto de paragem quase obrigatória e vê-se sempre gente circulando, carros e autocarros parados, bancas de vendedores de pedras coloridas, extraídas das montanhas em torno. Estávamos a 2.260 metros de altitude e, claro, a temperatura tinha descido um (ou dois) punhado de graus.

Retomámos viagem e, logo três ou quatro quilómetros depois, em vez de continuarmos pela N9, infletimos à esquerda e entrámos na P1506. Esta estrada segue sempre ao longo de um rio, nesta altura do ano quase seco, mas ainda assim com água suficiente para alimentar uma escolta de vegetação, que segue ao longo de ambas as margens durante quilómetros e contrasta fortemente com a paisagem desértica que se sobrepõe naturalmente em toda esta região. Passámos por Télouet, uma cidade de dimensão significativa, mas também por inúmeras aldeias e vilas antigas, encaixadas nas encostas adjacentes ao leito do rio, aproveitando tudo o que o líquido precioso que ele transporta pode proporcionar.

Cruzando o rio.

Continuámos ao longo do Vale de Ounila até que, finalmente, por volta das 5 da tarde, chegámos a Aït-Ben-Haddou. Fomos diretamente para o alojamento que tínhamos reservado — Dar INNÂ. Aqui iríamos ficar na próxima noite e tomar o pequeno-almoço na manhã seguinte, pelo inacreditável preço de €22,96. Achraf recebeu-nos de braços abertos e deu-nos dicas preciosas relativamente a locais onde poderíamos jantar. Dar INNÂ dista uns 700 metros do centro de Aït-Ben-Haddou, pelo que fomos de carro até lá.

Aït-Ben-Haddou é uma aldeia muito antiga, na margem esquerda do rio, mas na margem direita foi construída uma nova aldeia, onde a maioria das pessoas mora e onde os turistas encontram os serviços de que necessitam. Na aldeia antiga, que é o que toda a gente quer ver, vivem apenas meia-dúzia de famílias.

Ksar (alcácer) muito antigo, fortificado desde o período almorávida e reconstruído várias vezes com os mesmos métodos ancestrais, Aït-Ben-Haddou, por onde passavam as caravanas antigas na sua rota entre o deserto do Saara e Marraquexe, é considerado um exemplo sublime da arquitetura tradicional marroquina e, como tal, foi eleito Património Mundial, pela Unesco, em 1987. Aït-Ben-Haddou acolheu, nos últimos anos, inúmeros realizadores, atores e equipas de rodagem, cujo trabalho contribuiu para um número impressionante de séries e filmes.

O cenário é, de facto, magnífico.

Museu do Cinema em Ouarzazade.

No entanto, a melhor hora para fotografá-lo não é ao pôr do sol, mas antes ao nascer do sol, algo que descobrimos passados alguns minutos de ali chegarmos. Claro que combinámos voltar bem cedo no dia seguinte, mas, depois de hora e meia circulando pelas ruelas estreitas, já anoitecera, a fome atacara e fomos procurar um dos restaurantes que Achraf nos indicara para jantarmos. Comemos um tajine vegetariano e no final bebemos o tradicional chá de hortelã. Voltámos ao alojamento porque estava previsto levantarmo-nos bem cedo no dia seguinte.

Acordámos às 6:30, ainda durante uma noite mal dormida. Estacionámos o carro no centro da vila e atravessámos o rio em direção ao ksar. (O rio tem pouca água e é fácil cruzá-lo pisando uns sacos de areia estrategicamente colocados do lado nascente, embora haja também uma ponte de cimento construída recentemente do lado poente). Em frente ao ksar há um enorme monte de areia, semelhante a uma duna gigante, e é relativamente fácil subir até ao topo e daí desfrutar de uma vista previlegiada sobre Ait-Ben-Haddou. É o que algumas pessoas fazem, sobretudo as mais jovens, e nós fizemo-lo também. Quando o sol nasceu, inundou de luz o ocre das fachadas do ksar, conferindo-lhes um tom de ouro que nós aproveitámos para registar nos nossos cartões de memória.

Um café excelente tomado na estrada.

De seguida regressámos ao alojamento, arrumámos as coisas e preparámo-nos para o pequeno-almoço. Achraf serviu-nos uma refeição simples, mas deliciosa, com pão, queijo, mel, sumo e chá de hortelã. Despedimo-nos e fizemo-nos à estrada. Continuámos no mesmo sentido do dia anterior até apanharmos de novo a N9. Chegámos a Ouarzazate, uma cidade de dimensão considerável, onde existem vários estúdios e um museu de cinema. Demos uma pequena volta por lá, sem grande profundidade, e voltámos pela mesma N9, agora em sentido contrário e sem qualquer desvio.

Já tínhamos reparado, através dos quilómetros percorridos, em vários carros ao longo da estrada onde se serve café. Decidimos experimentar. Pensáramos que fosse café de “saco”, mas qual foi a nossa surpresa quando verificámos que, no porta-bagagens, estava instalada uma enorme máquina de café expresso. Mas não um café qualquer — um café delicioso! Estávamos mesmo a precisar. Mais à frente comprámos fruta (uvas e bananas) num mercadinho. Já tínhamos passado por Tizi Tichka e continuávamos a descer, descer… Não tínhamos muita pressa, o nosso destino era um jardim peculiar que fica muito perto de Tiguemine Sarah, a uns 3 kms, e, quase sem dar por isso, estávamos quase a chegar.

O Anima alberga obras de arte surpreendentes.

Anima é um jardim mágico criado por André Heller, um artista, poeta, cantor, realizador e ator austríaco. Os trabalhos de criação do jardim começaram em 2008 e prolongaram-se por oito anos. O espaço alberga obras de Pablo Picasso, Keith Haring, IgorMitoraj, Monika GilSing e muitos outros. Há também uma exposição permanente, com obras de Hans Werner Geerdts (1925-2013), um artista alemão que viveu em Marrocos e era amigo de André Heller. Há quem considere Anima o mais belo jardim do mundo. A nós fez-nos lembrar, em parte, o Jardim Gulbenkian, mas também o House on Fire, em Eswatini, e o jardim de Claude Monet, em Giverny. Há ainda um bar/restaurante, onde petiscámos antes do regresso a Tiguemine Sarah.

Fomos recebidos com alegria, como se nos estivéssemos ausentado durante muito tempo. Estávamos em casa de novo e aproveitámos para descansar. Às sete da tarde descemos ao jardim para apreciarmos o belo couscous que encomendáramos no dia anterior. O jantar estava delicioso. Não apetece sair deste local tão especial, onde a comida, conjugada com o ambiente, faz baixar a pressão arterial, desacelera o ritmo cardíaco e deixa corpo e espírito em paz um com o outro. Ficámos por ali mais um tempo e pouco depois de subirmos ao quarto estávamos a dormir profundamente.

Uma surpresa em cada curva.

Além de tudo o mais, é ótimo o horário de check-out em Tiguemine Sarah — meio-dia — pois permite usufruir do espaço, nomeadamente da piscina, durante toda a manhã. Laila, a proprietária, perguntou-nos quando era o nosso voo e quando soube que era apenas às 10 da noite, disse que poderíamos ficar mais tempo, tinha o quarto disponível. Recusámos educadamente, pois não queríamos abusar da simpatia daquela família e, afinal, ainda não tínhamos visitado Marraquexe. Quando soube que queríamos ir a Marraquexe, Laila deu-nos duas boas dicas. A primeira foi que deixássemos o carro no parque de estacionamento de um centro comercial (Carre Eden) e a segunda foi que fôssemos ao Grand Café de la Poste, bem pertinho do centro comercial.

Entretanto, passámos uma boa parte da manhã no jardim e na piscina. Pouco depois das onze fomos pela última vez ao quarto, arrumar as nossas coisas, tomar banho e prepararmo-nos para sairmos. Descemos, pagámos a conta (4 jantares, taxas municipais, bebidas) e despedimo-nos. No total, pagámos €87, o que, para a qualidade dos serviços, pode ser considerado uma pechincha. A reserva do quarto por quatro noites, com pequeno-almoço, custara-nos, previamente, €151,20. As três irmãs (uma cozinheira, uma doceira e uma administradora que também dá uma mão na cozinha) vieram despedir-se. Também vieram François, co-proprietário, marido de Laila, e Houcine, mais um irmão das três irmãs (Laila, Jamila e Zahra).

Gostaríamos de voltar, um dia, com mais família. Veremos.

No Grand Café de La Poste.

Fizemos o que Laila recomendou. Estacionámos no centro comercial (5 horas por 20 MAD, cerca de €1,87), e fomos beber um chá tradicional marroquino ao Grand Café de la Poste. Por feliz coincidência, o GCLP comemora este ano um século. Laila dissera-nos que Churchill, Roosevelt e o rei de Marrocos se haviam ali encontrado, mas não conseguimos confirmar essa informação. Porém, parece que Churchill esteve mesmo lá — e também Charles de Gaulle, Antoine de Saint-Exupéry, Joseph Kessel, Jacques Majorelle, Paul Bowles, Jean Genet, Yves Saint Laurent, Pierre Bergé, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Cat Stevens1, entre outras personalidades, nós incluídos.

Não tínhamos grandes planos para Marraquexe. Fomos a pé até à Medina e voltámos. Não vimos grande coisa, portanto, além de um bonito parque, o que, face ao calor intenso, acabou por ser o mais agradável. Pouco depois das 5 da tarde saímos de Marraquexe. Numa pequena estação de serviço perto da agência do aeroporto da Green Motion, mandámos lavar o carro (em Marrocos tem de se entregar o carro lavado ou paga-se uma pesada indemnização) e fomos entregá-lo. O trânsito era muito intenso àquela hora, mas desenrascámo-nos bem. Às 22:10 o avião da Ryanair levantou voo. Antes da meia-noite estávamos ao volante do nosso carro, em Faro. Pouco depois, após quatro dias fora, estávamos de novo em casa. Desta vez, na nossa própria casa.

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1 https://www.lopinion.ma/Retro-Verso-L-Histoire-emblematique-du-Cafe-de-la-Poste-de-Marrakech_a57037.html

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As minhas 40 praias mais belas do mundo

Cada vez mais publicações de viagens se juntam às já muitas que listam, classificam e ordenam todo o tipo de coisas. Praias é uma das mais comuns. Claro que as classificações são sempre muito, mas mesmo muito, subjetivas. E, para prová-lo, decidimos também elaborar a nossa lista. Sem ranking, porque todas a praias aqui apresentadas são bonitas, cada uma à sua maneira, não sendo possível, pelo menos para nós, estabelecer uma hierarquia, pelo que a ordenação é arbitrária. Tratam-se apenas de praias que nos marcaram — praias inesquecíveis — e que abrangem alguns pontos próximos, mas também mais ou menos distantes: das Caraíbas, do Pacífico, do Mediterrâneo, do Índico, dos Atlântico Norte e Atlântico Sul, e até de um mar interior. Quem ama viajar sabe que as viagens se prolongam no tempo através das recordações que guardamos. O nosso cérebro tem ainda a capacidade de juntar pedacinhos dessas recordações e de várias viagens fazer uma viagem nova. As minhas 40 praias mais belas do mundo constitui, portanto, um pretexto para fazermos, através da memória, aquilo que mais gostamos — viajar.

1- Praia do Sancho, Fernando de Noronha, Brasil

Situada na costa norte da ilha principal do arquipélago Fernando de Noronha, é uma praia de águas claras, límpidas, com uma temperatura do mar extremamente agradável, diferente da “sopa” da maioria das praias do Nordeste brasileiro, mas, ainda assim, muito longe de ser fria. Cercada por altas escarpas, o acesso só é possível por mar ou por uma passagem escavada na rocha, onde cravaram uma escada de ferro que desce, na vertical, até à praia. Este acesso difícil torna-a ainda mais exclusiva. Nós tivemos oportunidade de visitar a praia do Sancho por terra e por mar, descendo e subindo a escada de ferro (só passa uma pessoa de cada vez) e alugando um barco, que fundeou na pequena baía, enquanto fazíamos snorkeling e nos deslumbrávamos com uma multidão de peixes coloridos sob os nossos olhos encantados. Convém acrescentar que o arquipélago Fernando de Noronha é um paraíso, mesmo para os mais exigentes amantes do mergulho. Ao lado da praia do Sancho fica o Morro Dois Irmãos um dos ícones de Fernando de Noronha.

Sancho.

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2- Ponta Ruiva, Costa Vicentina, Portugal

Portugal tem praias fantásticas, mormente na região onde vivemos, o Algarve. Todas a praias das ilhas-barreira da Ria Formosa, no Sotavento, são belíssimas (Cacela, Ilha de Tavira, Terra Estreita, Barril, Homem Nu, Fuzeta, Ilha Deserta, etc.), bem como tantas outras no Barlavento (Garrão, Olhos d’Água, Marinha, Benagil, Carvalho, Ferragudo, Ponta da Piedade, etc.) ou, mais para norte, as muitas que podemos destacar entre Algarve e Minho, e que poderíamos considerar como “a mais bonita”. De facto, a costa ocidental também abrange o Algarve, e é aí que encontramos as praias algarvias menos frequentadas, diferentes, mas igualmente belas. Uma dessas praias, no concelho de Vila do Bispo, não tem qualquer infraestrutura ou apoio, a não ser uma estrada de terra batida, nem nenhuma indicação em qualquer ponto que nos permita localizá-la. A única forma de lá chegar, sem ser por acaso, é perguntando, conhecendo o caminho ou usando o GPS. No entanto, mesmo sabendo que o carro vai levar um banho de pó, vale a pena. A Ponta Ruiva está rodeada por falésias de xisto negro e estende-se por uns 500 metros de areal. Pouco frequentada, mesmo no pico de Verão (a maioria das poucas pessoas são estrangeiros e surfistas), permite uma ligação mais forte ao ambiente circundante. A água é cristalina e fresca, por vezes deliciosa, e a praia é simplesmente linda.

Ponta Ruiva.

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3- Anse Soleil, Mahé, Seychelles

Nas Seychelles, como não podia deixar de ser, encontram-se algumas das praias mais belas do Oceano Índico e do mundo. Esta fica na ilha principal, Mahé, onde a praia mais badalada é, sem dúvida, Beau Vallon. Mas Anse Soleil é incomparavelmente mais charmosa. A areia finíssima e clara parece pó de talco. O mar tem aquela coloração típica dos trópicos, imaculada, por não ter nenhum rio que o corrompa por perto, com uma temperatura perfeita, entre os 23-24 graus (assim nos pareceu). Uma casinha e um pequeno bar de madeira entre a profusa vegetação tornam-na ainda mais acolhedora, apesar de não a tornarem menos natural. Chegámos a esta praia de manhã bem cedo, quando ainda não havia ninguém, descendo no nosso carro alugado uma íngreme ladeira e estacionando numa pequenina clareira. Durante duas horas, antes que o sol mordesse, desfrutámos dos encantos da bela Anse Soleil.

Anse Soleil.

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4- Cala Goloritzè, Sardenha, Itália

Quando chegámos à Sardenha ficámos surpreendidos com a beleza da ilha. Enorme, a Sardenha é diversificada, com montanhas, praias e uma rica gastronomia. A praia Cala Goloritzè fica na costa leste, integrada no Parque Nacional Gennargentu, e é banhada pelo Mar Tirreno. Trata-se de uma praia pequenina, de difícil acesso, com águas de um azul-turquesa, quase surreal. Dado que as embarcações de recreio não podem chegar junto à praia (nós, além de termos estado na praia, no dia seguinte também alugámos um barco e mergulhámos ao largo), a única maneira de atingi-la é fazendo um percurso de hora e meia, a pé, mais umas duas horas para voltar. Para a praia é quase sempre a descer, mas a volta, quase sempre a subir, demora mais tempo e custa mais. Mas, mais uma vez, vale a pena: em Cala Goloritzè sentimo-nos longe de todos os problemas do mundo.

Cala Goloritzè.

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5- Le Morne, Maurícias

É a melhor praia da Maurícia, situada no extremo sudoeste da ilha, sob o monte Le Morne Brabant. Trata-se de uma praia pública, bastante frequentada pelos locais, mas também por turistas, embora não tão popular como a Flic en Flac, onde também estivemos. As suas águas cálidas e calmas, e o ambiente morno, convidam ao langor e ao esquecimento. Podemos perder a noção do tempo e ficar até o sol se pôr e mais além. Foi isso mesmo que nos aconteceu, não apenas a nós mas também a alguns outros que fruíam daquele fim de dia, sem quebra abrupta de temperatura, mesmo quando o último raio de sol caiu no horizonte, absortos pelos cambiantes do fogo refletido pela abóbada celeste. Por ali ficámos, esquecidos… Le Morne, porém, é mais uma praia inesquecível!

Le Morne.

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6- Saline les Bains, Reunião, França

Não longe das Maurícias, a uns 200 quilómetros, e ainda no arquipélago de Mascarenhas, descoberto pelos portugueses, fica a ilha de Reunião, uma região de França. E na ilha de Reunião, bem maior e mais diversificada do que as Maurícias, encontra-se uma praia de sonho chamada Salines les Bains. Situada na costa oeste e protegida por uma barreira de recifes, a praia é calma, com mar tranquilo e muitas árvores que nos protegem nas horas de maior calor. A temperatura do mar é menos quente que nas Maurícias e está dentro daquele padrão excelente, entre os 23-24 graus (mais uma vez: assim nos pareceu). A areia é branca, salpicada de folhas e raminhos que caem das árvores. Visualmente a praia é muito bonita, destacando-se os azuis do mar e do céu, os verdes da vegetação e os brancos do areal. Saline les Bains é uma praia de sonho.

Saline les Bains.

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7- Khao Phing Kan, Phuket, Tailândia

Khao Phing Kan é uma pequena ilha no seio da baía Phang Nga, na província de Phuket, na Tailândia. Desde 1974, é também conhecida por ilha James Bond, depois de terem sido ali filmadas cenas do filme O Homem da Pistola de Ouro. Esta ilha é constituída por duas formações rochosas, entre as quais existe uma pequena porção de areia, com pouco mais de 100 metros de largura, a qual forma uma praia simultaneamente virada a Norte e a Sul. Uma rocha calcária de 20 metros de altura, e com cerca de 4 metros de diâmetro junto à água e 8 metros de diâmetro no topo, confere uma exotismo suplementar a esta praia surpreendente. Este mar interior é sempre calmo e, claro, só se pode aceder a este lugar paradisíaco de barco: numa lancha rápida, desde Phuket ou, se se for aventureiro(a), remando num caiaque alugado. Seja de que maneira for, é certo que vale a pena.

Khao Phing Kan.

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8- Goisier, Guadalupe, Antilhas Francesas

E, por falar em ilhas, esta é uma ilha minúscula a poucos metros da costa, não muito longe da capital de Guadalupe — Pointe-a-Pitre — acessível através de pequenas lanchas que trazem os banhistas de Goisier até esta ilhota com o mesmo nome, em qualquer horário, entre as 8:00 e as 17:00, dependendo do número de passageiros a transportar. Por ter uma parte abrigada dos ventos e correntes, há uma zona da ilha em que a praia é uma autêntica piscina. A água é de uma limpidez, de uma transparência e de uma cor impressionantes. Embora bastante frequentada aos fins de semana e feriados, durante a semana não se encontra muita gente nesta mimosa ilha. Ali se encontra um farol que vale a pena visitar e há ainda a possibilidade de comer e beber no pequeno bar localizado logo à saída do pontão dos barcos. Trata-se de uma ilhota linda, com muitas árvores, proporcionando sombra quando o corpo já reclama do sol. Estivemos em praias fantásticas em Guadalupe, muitas famosas, como La Caravelle, mas, para nós, esta pequena praia é verdadeiramente inesquecível.

Goisier.

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9- Patacho, Alagoas, Brasil

Entalada entre uma densa mata de coqueiros e o mar, esta praia é das visualmente mais bonitas do Brasil. Ainda por cima é uma praia pouco conhecida e pouco frequentada, pois está um pouco longe da capital de Alagoas, Maceió. As praias deste estado são das melhores do Brasil, sobretudo pela coloração das águas, mais turquesas no Verão, devido às correntes e ventos favoráveis. A melhor altura para visitar o Patacho é ao nascer-do-sol, quando o calor não aperta tanto, e o banho de mar é realmente refrescante. Depois, quando o sol sobe, o melhor é procurar uma sombra. Não devemos esquecer-nos de que a água aqui é quente e o sol escaldante. Assim, o melhor é sempre visitar esta praia, situada entre Porto de Pedras e Tatuamunha, quando o sol está baixo, para se poder desfrutar na plenitude de todos os atributos que este local deslumbrante tem para nos oferecer.

Patacho.

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10- Batibou, Dominica

O acesso é complicado e, a menos que se tenha um 4×4, tem sempre de se descer e subir a colina de acesso à praia — de cerca de 1 km — a pé. Além disso, esta praia fica fora dos centros urbanos, nomeadamente da capital Roseau, de onde se tem de percorrer cerca de 80 quilómetros até chegar a esta bela praia, situada no extremo nordeste da não menos bela (a mais verde das Antilhas Orientais) ilha de Dominica. O mais comum para aqui chegar é alugar um carro, mas nós preferimos o transporte coletivo, viajámos nas vans com os habitantes locais, tornando assim esta experiência ainda mais inesquecível. Tudo isto faz com que a praia de Batibou pertença à categoria das praias exclusivas, com muito pouca gente em qualquer altura do ano. Quando aqui estivemos só havia outro casal na praia, além de nós e dois guardas privados, de serviço. Sim, a praia é privada e tem de se pagar 5 dólares para se ter acesso a este pedaço do paraíso. Em contrapartida, temos direito a usar as instalações sanitárias, a ouvir os conselhos e informações dos guardas, a comer e beber algo magnífico no bar de madeira — absolutamente integrado no ambiente — comandado por uma ousada chef, formada em Nova Yorque, mas que, infelizmente, no dia em que aqui estivemos, estava fechado. As vistas do caminho de terra que liga a estrada principal à praia são igualmente fabulosas.

Batibou.

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11- Coqueirinho, Paraíba, Brasil

É, sem qualquer dúvida, a melhor praia da Paraíba e uma das melhores do Brasil. Tivemos a felicidade de morar perto, em Carapibus, pelo que vínhamos com frequência a esta praia, bem como a Tambaba, Praia Bela, Jacumã, entre outras da Costa do Conde. Adorávamos fazê-lo de bicicleta. A praia do Coqueirinho tem uma particularidade: uma pequena baía virada a Norte (protegida das predominantes correntes de sul) e uma zona mais aberta ao mar, com ondas mais fortes (como se vê na foto). Isto torna-a ideal para famílias com crianças, mas também para banhistas mais ousados. Os coqueiros fornecem alguma da sombra indispensável, pois já se sabe como o sol aqui é perigoso, mas também os vários restaurantes e bares por detrás dos coqueiros. Aqui se encontra, talvez, o melhor restaurante do Brasil para se degustar uma taínha grelhada na brasa ou frutos do mar — o Canyon de Coqueirinho. Para quem gosta de praia, a Costa do Conde é, sem dúvida, uma das melhores regiões do Brasil.

Coqueirinho (foto de Fla).

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12- Barril, Algarve, Portugal

E por falar em morar perto, tal como no Brasil, também em Portugal moramos junto ao mar e, claro, isso não é por acaso. No Sotavento algarvio encontram-se as melhores praias portuguesas e da Europa. Sob vários aspetos, Cacela Velha, Cabanas, Terra Estreita, Fuseta e a praia do Barril, aqui representada, estão entre as melhores do mundo. São diferentes das praias tropicais, com menos sombra natural — pois aqui chove muito pouco — mas isso pode ser colmatado com um bom chapéu de sol. De resto, as águas são magníficas, o areal fino, e a Ria Formosa (parque natural), paralela às praias, faz com que estas se transformem em ilhas (na verdade, ilhas-barreira), conferindo-lhes uma beleza muito peculiar. A Ria Formosa, com a sua panóplia de aves que aqui nidificam e se alimentam, fornece também as magníficas ostras que se comem em casa ou nos restaurantes locais. É, por isso, natural que, no Verão, aqui cheguem turistas de todo o mundo — estas praias são encantadoras. E o Barril, com o seu pequeno comboio de acesso à praia, os seus pequenos bares instalados nos antigos e bem restaurados alojamentos do arraial dos pescadores de atum, e o seu cemitério de âncoras, tem um encanto especial.

Barril.

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13- Ffryes, Antigua e Barbuda

As praias de Antigua (não visitámos Barbuda) são excecionais. É, de facto, muito difícil, se não impossível, escolher qual a melhor delas. A Ffryes Beach, na costa ocidental da ilha, virada, portanto, para o Mar das Caraíbas, tem uma beleza particular. Mais pequena que as praias de Hermitage, Pearns ou Jolly, a Ffryes Beach é uma praia extremamente atraente do ponto de vista visual, com o seu mar tipicamente caribenho, as suas palmeiras, o seu areal branquíssimo e os seus banquinhos amarelos — uma pincelada final humana num quadro, no essencial, pintado pela Mãe Natureza. A fruição só se torna completa depois, claro, de um mergulho nas águas magníficas. A temperatura, muito provavelmente — pelo menos às 10 da manhã — deverá estar na casa dos 24º, portanto, dentro do limite considerado por nós ideal (23º/24º). Esta é sem dúvida uma das praias mais bonitas entre as muitas em que já estivemos.

Ffryes.

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14- Grande Anse, Grenada

Ainda nas Antilhas Orientais, mas 300 milhas náuticas para Sul, já muito perto do continente sul-americano, encontra-se a ilha de Granada e é aqui que podemos fruir de outra praia fabulosa — a Grand Anse. Inserida numa larga baía (Grand Anse Bay) a sul da capital, Saint George, é, como o nome indica, extensa, grande. Faz lembrar bastante a Plage des Salines, em Martinica, que, não por acaso, também é conhecida por Grande Anse des Salines (há várias praias “Grande Anse” no mundo). Trata-se de uma praia tipicamente caribenha. A zona nordeste é mais frequentada — com apoios de praia e, inclusive, uma praça, de bares e restaurantes, com wifi gratuito — enquanto a parte sudoeste (na foto) tem menos apoios e é menos frequentada. Aí podemos com relativa facilidade encontrar uma sombra natural debaixo de uma árvore. Ainda um pouco mais para sul, 10 minutos a pé, encontramos uma praia muito mais pequena, mas igualmente belíssima — a Morne Rouge Beach, também conhecida por BBC Beach.

Grande Anse.

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15- Seven Mile, Ilhas Caimão

Bem perto da capital das Ilhas Caimão, George Town, na costa Oeste da ilha principal, fica uma praia que faz lembrar Miami Beach, mas que é muito mais bonita e acolhedora. De facto, tal como Miami Beach, também esta praia sofre a influência do clima das Caraíbas e também ela tem uma orla de hotéis prontos a receber os turistas, sobretudo americanos, só que numa escala muito menor. Isso torna esta extensa praia de areia macia e branca — de uma alvura imaculada — extremamente agradável. Mais uma vez, a água do mar tem uma temperatura ótima, além de possuir, como não podia deixar de ser, aquela cor tão característica do Caribe. Pelicanos, iguanas, tartarugas, entre outros, convivem na praia com os humanos, habituados à sua presença. As ilhas Caimão, situadas ao sul da grande ilha de Cuba, são um paraíso para quem gosta de praias.

Seven Mile.

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16- Nacpan, Palawan, Filipinas

As Filipinas, compostas por milhares de ilhas, são um paraíso para quem gosta de praias e encontram-se, sem margem para dúvidas, entre o conjunto de países com as mais belas e melhores praias do mundo. De todas essas ilhas com praias magníficas, nós só estivemos numa delas — Palawan. Trata-se de uma ilha bastante grande, com pequenas ilhas-satélites, em torno. Claro que nestas ilhas mais pequenas há praias deslumbrantes, algumas das quais visitámos (em tours turísticos e também em passeios de caiaque). Mas a praia de Nacpan é muito especial para nós porque ali passámos seis dias e seis noites, vimos seis vezes o pôr do sol, jantámos seis vezes na praia, e multiplicámos por seis os mergulhos que demos todos os dias nessa calma e paradisíaca praia filipina, que jamais esqueceremos.

Nacpan.

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17- Thomas Beach, Bali, Indonésia

As praias de Bali não são em geral tão bonitas quanto as das Filipinas (esta comparação é devida a termos viajado de um país para outro), mas há igualmente algumas praias lindíssimas nas ilhas de Bali. A Thomas Beach é uma delas. Relativamente abrigada — não é totalmente calma mas também não é particularmente perigosa — proporciona banhos deliciosos numa água límpida e de temperatura agradável, no seio de uma pequena baía. Tem também a vantagem de não ser muito frequentada, pois está relativamente afastada dos principais pontos turísticos: quando aqui estivemos, num dia de manhã, não estariam na praia mais de dez pessoas. Rodeada de vegetação, esta praia é também muito bonita, uma das mais belas que tivemos o privilégio de conhecer.

Thomas Beach.

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18- Brandons, Barbados

Há tantas praias em Barbados que torna-se quase impossível eleger uma delas como a mais bonita. Quando ali estivemos visitámos belíssimas praias, a maioria delas a sul da capital, Bridgetown, tal como Brownes, Pebbles e Bayshore, inseridas na Carlisle Bay. Tal como acontece em todas as ilhas caribenhas, as praias mais calmas e próprias para banhos ficam na costa oeste — é o caso das praias referidas e também de Brandons, que é, no fundo, a praia mais perto de Bridgetown, mas desta feita a norte da capital. É por isso mais frequentada pelos locais e não tanto por turistas, mais natural e com menos infraestruturas. Tipicamente caribenha, esta praia tem a água turquesa tão característica desta região, e é calma, com uma temperatura dentro dos nossos parâmetros ideais (23º, 24º). Dada a sua tranquilidade pode ser frequentada por todo o tipo de pessoas, incluindo crianças e idosos. A areia é macia, fina, em tons de branco que variam com a hora do dia.

Brandons.

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19- Praia del Carmen, México

Nem todas as praias incluídas na nossa lista têm a característica da exclusividade. Há algumas praias lindas bastante frequentadas, como é óbvio. Uma delas é a Playa del Carmen, situada na Península de Yucatán, no México, onde turistas de todo o mundo, sobretudo norte-americanos, a procuram durante quase todo o ano. Hotéis, restaurantes, lojas diversas, bares, pululam ao longo da costa, criando as condições necessárias para o turismo de massas. Mas a praia em si não tem culpa, e, afinal, as estruturas que a rodeiam não lhe retiram beleza. A cor turquesa das suas águas parece aqui ainda mais intensa, em contraste com a alvura da areia; e as ondas médias, que normalmente ocorrem, fazem as delícias de quem, como nós, gosta de se divertir no mar.

Playa del Carmen.

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20-Balos, Creta, Grécia

A região do Mediterrâneo é, do ponto de vista natural, abençoada. Não foi por acaso que aqui floresceram as primeiras civilizações humanas e não surpreende, portanto, que este mar central albergue muitas praias belíssimas. O difícil é a escolha. Apesar disso, Balos figura quase sempre nas listas das melhores praias do mundo. E é, de facto, uma praia muito bela, situada no extremo noroeste da ilha de Creta. Para se chegar, se não se for de barco (num dos muitos passeios que se podem comprar nesta zona), é necessário percorrer uns 10 quilómetros numa estrada sinuosa de terra batida, estacionar o carro (há quem vá a pé), e caminhar uns 2 quilómetros, descendo, até a praia. Nós fomos bem cedo, quando a maioria das pessoas que apareceram depois ainda estariam dormindo, e pudemos descobrir pequenos locais magníficos. Contornando a praia pela esquerda, encontrámos uma piscina natural, com água incrivelmente transparente, ainda fresca, devido à hora do dia e à altura do ano (Maio), talvez uns 20 graus, mas bastante aceitável. A profundidade é suficiente para se mergulhar e nadar à vontade — e foi precisamente isso que fizemos.

Balos.

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21- Praia do Leão, Fernando de Noronha, Brasil

Se há paraísos na Terra, um deles é Fernando de Noronha, e não é por acaso que se considera este arquipélago um dos melhoras locais do planeta para a prática do mergulho. Em Fernando de Noronha há os chamados “mar de dentro”, mais calmo, e “mar de fora”, mais batido. Como é natural, as praias do mar de dentro são melhores para banhos, mas, do ponto de vista visual, há praias do mar de fora igualmente magníficas. Uma delas é a praia do Leão, local que as tartarugas escolheram para desovar. Quando estivemos na ilha principal de Fernando de Noronha, percorremos quase todo o seu perímetro de bicicleta elétrica. Ao depararmo-nos, depois da subida de uma colina, com a lindíssima praia do Leão, ficámos encantados. Logo ali sentimos que estávamos perante uma das mais belas praias do mundo. Quando descemos à praia, não se via vivalma, éramos os únicos (eu e Flá) no areal.

Praia do Leão.

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22- Kelingking, Nusa Penida, Indonésia

Também Kelingking não é a melhor praia para banhos. Mas ao contrário do que se passa na praia do Leão, onde não vimos ninguém sequer no areal, quanto mais na água, em Kelingking muita gente se aventura no mar. Mas basta um olhar atento e informado para perceber como ele é perigoso. Várias pessoas já pereceram em Kelingking, afogadas ou atiradas contra as rochas. Nós não nos banhámos, mas descemos até à praia, através de uma caminhada, igualmente perigosa, de duas horas, mais duas para voltar. No topo da colina há um enorme cartaz avisando quem se aventura na descida para a praia que, a partir daquele ponto, está por sua conta e risco. Mesmo assim, muitos arriscam. A praia, evidentemente, não tem culpa. Ela permanece indiferente, bela, imponente e, para desgraça de alguns e deleite de outros, extremamente atrativa. É uma das mais exóticas, desafiantes e, singularmente, bonitas praias do mundo. Por tudo isso, jamais a esqueceremos.

Kelingking.

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23- Cockleshell, São Cristóvão e Neves

Todas as ilhas caribenhas têm praias magníficas. São Cristóvão e Neves (as duas ilhas que formam o país homónimo) são talvez aquelas onde as melhores praias são mais fáceis de nomear, porque são poucas. Em São Cristóvão a melhor praia é de longe Clockleshell. Virada para Neves, está relativamente bem abrigada de ventos e correntes, o que a torna excelente para banhos. O mar é, pois, calmo, transparente, com uma temperatura típica do Caribe, normalmente com uma amplitude entre os 20/25 graus. É, sem dúvida, uma praia muito bonita. Passámos várias horas em Clockleshell. Quando nos cansámos dos banhos, tomámos uma bebida fresca num dos vários bares que se situam nesta bela praia, isolada, no extremo sul da ilha de São Cristóvão.

Cockleshell.

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24- Finikas

A ilha de Creta tem duas praias que normalmente são nomeadas em listas que elencam as melhores do mundo. Uma delas também consta da nossa lista — a praia de Balos. A outra é Elafonissi. Mas quando estivemos em Elafonissi, havia tanta gente na praia que ficámos desencantados. Balos foi diferente porque é mais inacessível e sobretudo porque fomos visitá-la muito cedo, pouco depois do sol nascer. Se tivéssemos de escolher uma zona de praias espetacular em Creta, nomearíamos várias praias muito perto uma das outras, de acesso difícil — por estradas perigosas, trilhas ou barco —, como sejam os casos de Ilingas, Glyka Nera e Loutrou. Mas aquela que elegemos é Finikas. Trata-se de uma praia inserida numa pequena baía, onde não existe areia, antes pequenas pedras rolantes (quanto a isto, lembra a praia de Câmara de Lobos, na Madeira), de dimensões reduzidas, mas muito bonita e calma, sedutora pela sua exclusividade. Sobre a praia tem um restaurante típico, onde tranquilamente almoçámos.

Finikas.

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25- Anse Noire, Martinica

Martinica é uma ilha caribenha com praias lindíssimas, mas Anse Noire é uma praia diferente, embora linda também. Inserida numa pequena e bela enseada, rodeada de vegetação, a areia desta praia é negra, de origem vulcânica — daí o seu nome. Para chegar e sair da praia (se não se for de barco) tem de se descer e subir centenas de degraus. Mas vale a pena. A água do mar é uma delícia e a praia tem muita sombra natural. Além disso, foi ali construído um pontão de onde se pode mergulhar diretamente no mar. Quando olhamos de cima, da colina de acesso, combinam-se o azul do mar, o verde da vegetação, o branco da espuma das ondas e o negro da areia ulcânica, num quadro tropical, exótico, de beleza singular. Mais uma praia inesquecível.

Anse Noire.

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26- Sugar Beach, Santa Lúcia

Sugar Beach é uma praia magnífica situada na ilha de Santa Lúcia, mais concretamente na costa sudoeste, entre as montanhas gémeas Pitons, símbolos da ilha e, desde 2004, Património Mundial, classificadas pela UNESCO. Entre as Pitons situa-se a baía homónima, onde, precisamente, se encontra Sugar Beach. A ilha é de origem vulcânica e, portanto, a areia desta praia, cujo nome mais antigo é Jalousie Plantation Beach, era negra. Mas desde que para aqui trouxeram areia branca do Gana, alteraram-lhe o nome. No entanto, a coisa mais extraordinária aqui não é a areia, que não se assemelha a um açúcar tão branco assim — é mesmo a água, incrivelmente transparente. Apesar de o acesso à praia só ser possível através do Viceroy Hotel (um alojamento de luxo que não está ao alcance de todas as bolsas), a sua fruição não é exclusiva dos hóspedes e qualquer banhista está protegido pela legislação de Santa Lúcia, que define como livres todas as praias do país.

Sugar Beach.

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27- Long Beach, África do Sul

As praias da zona da Cidade do Cabo, na África do Sul, são de água bem fria, embora na costa oeste seja ainda mais fria — devido à Corrente de Benguela — do que na costa sul, estando esta circunscrita à Baía Falsa (False Bay). Consequentemente, as praias mais próximas da Península do Cabo, dentro desta baía, estão protegidas das correntes e do vento predominantes, e são por isso mais calmas e seguras, logo, melhores para banhos. Entre elas, encontram-se a célebre Boulders Beach (praia onde existe uma colónia de pinguins, que visitámos) e também Long Beach, mesmo ao lado da cidade portuária de Simon’s Town. A água é límpida e fresca, perfeitamente aceitável quando a temperatura do ar é elevada, como foi o caso quando ali mergulhámos. Visualmente, esta praia, à semelhança da maioria na zona, é bela. Guardamos grandes recordações de Long Beach e de toda a região do Cabo.

Long Beach.

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28- Concha Perla, Isabela, Galápagos

O arquipélago das Galápagos fica mesmo em cima do Equador. Mas o que muita gente não sabe é que, apesar disso, a água que banha estas ilhas é fresquinha — embora não demasiado. Isto deve-se à corrente fria de Humboldt, que sobe desde a Antártida. Quando estivemos nas Galápagos visitámos todas as ihas habitadas, à exceção de Floriana, mas foi em Isabela, a maior de todas, que decidimos banhar-nos. Nesta ilha fica a praia de Concha Perla, a uns meros 200 metros do pequeno porto de passageiros, bastando percorrer um passadiço de madeira para aceder à praia. Esse passadiço tem umas escadas, através das quais se entra diretamente na água e se sai dela. Água límpida e quase parada, com um fundo rochoso perfeitamente visível quando nadamos nesta espécie de lagoa protegida. É normal verem-se lobos marinhos, pinguins e iguanas marítimas, em redor.

Concha Perla.

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29- Ses Illetes, Formentera, Espanha

Esta praia fica situada numa comprida e fina língua de areia, que parece, mais tarde ou mais cedo, vir a ficar submergida pelas águas do Mediterrâneo, que a cercam. Trata-se de uma praia aberta, muito exposta ao vento, como pudemos comprovar quando ali estivemos. A água é deliciosa, com cambientes de azul e turquesa — e incrivelmente transparente. A temperatura é ótima, dentro dos nossos padrões de exigência. Ses Illetes é considerada por muitos a praia mais bela da Europa, e está inserida no Parque Natural de Ses Salines, que alberga áreas terrestres e marinhas entre Ibiza e Formentera. A maior parte do parque (75%) é constituída pela área marinha, onde existe uma planta subaquática — a Posidonia oceanica — que forma vastos prados submersos, e onde se alimentam inúmeros peixes. Esta planta endémica liberta grandes quantidades de oxigénio, e é por isso responsável pela pureza da água, além de que minimiza o efeito da ondulação, contribuindo para a preservação de Ses Illetes e outras praias de Formentera.

Ses Illetes.

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30- Praia Miami, Luanda, Angola

Para chegar a esta praia tem de se percorrer grande parte da ilha do Cabo, mais conhecida por ilha de Luanda, até quase ao fim da avenida Murtala Mohammed, pois no início da ilha as praias ficam muito perto de um musseque e estão poluídas por todo o tipo de detritos. Mas no extremo norte da ilha, que na verdade é uma finíssima península, há boas praias. Uma delas é Miami Beach, cujo acesso por terra só é possível através de um restaurante com denominação homónima, e cujos funcionários não colocaram qualquer obstáculo quando ali estivemos com a intenção de fruir da praia. A água é de uma textura pouco habitual, sedosa, com uma temperatura perfeita. O mar é calmo. Os banhos, em consequência, são deliciosos.

Praia Miami.

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31- Tarrafal, Santiago, Cabo Verde

O nome Tarrafal remete-nos para uma povoação situada no norte da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e ainda para um porto de pesca, bem como para a melhor praia da maior ilha do arquipélago cabo-verdiano. Além disso, remete-nos também para uma prisão de triste memória, hoje transformada em museu. Tudo isto visitámos quando ali estivemos. A praia do Tarrafal é excelente para banhos, embora não tenha os tons turquesa de algumas outras praias que já visitámos. A temperatura da água é excelente e normalmente não possui correntes perigosas, nem ondas fortes, por ser uma praia semi-abrigada. Conviver com os pescadores e as vendedoras de peixe é um prazer extra. Bem como degustar um desses peixes, fresco, grelhado no restaurante Sol e Luna, depois do banho de mar.

Tarrafal.

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32- Doctor’s Cave, Montego Bay, Jamaica

As praias em torno de Montego Bay, a segunda maior cidade da Jamaica, no norte da ilha, são muito tranquilas e o mar praticamente não tem ondas. Surpreendentemente, quando ali estivemos, a água do mar, que apresenta a típica coloração caribenha, estava relativamente fria. Foi-nos dito que tal se devia a um tipo de corrente, pouco habitual, que em alguns períodos do inverno passa por ali. Mas, quando está calor, uma água mais fresquinha até que sabe bem… E foi isso que aconteceu na Doctor’s Cave Beach: tomámos um belo banho e pudemos apreciar o agradável contraste da água fresca e do ar morno, singularidade de uma praia caribenha, que contribuiu para a tornar ainda mais inesquecível.

Doctor’s Cave.

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33- Indian Bay, São Vicente e Granadinas

São Vicente e Granadinas é um país fantástico, com praias fantásticas e gente fantástica. Elegemos Indian Bay como poderíamos ter escolhido, por exemplo, a Young Island, uma ilhota ali perto, onde também estivemos. A eleição de Indian Bay deve-se, sobretudo, ao facto de encontrarmos a praia completamente deserta quando ali chegámos — e é uma sensação incrível, que já experimentámos várias vezes, banharmo-nos numa praia deserta. (Às vezes é preciso irmos a desoras para que tal aconteça). Quanto ao resto, já quase tudo foi dito. As praias das Caraíbas são lindíssimas e esta não foge à regra: águas em tons turquesa, temperatura ótima, natureza em estado puro e, para quem gosta do mar, banhos irresistíveis. Indian Bay está viva na nossa memória, como se de lá tivéssemos voltado ontem.

Indian Bay.

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34- Maho Beach, São Martinho

Trata-se de uma praia perpendicular à pista do aeroporto de São Martinho, na parte neerlandesa desta pequena ilha, dividida ao meio entre o norte francês e o sul neerlandês. Por estar muito perto do aeroporto, os aviões passam a baixa altitude sobre a praia, proporcionando fotos curiosas, profusamente difundidads na net, tornando esta praia famosa em todo o mundo. O maior perigo acontece quando os aviões descolam, pois a deslocação de ar provocada pelos potentes motores pode projetar as pessoas que, na praia, estão no enfiamento do túnel de vento provocado pelas descolagens. Já aconteceram acidentes fatais por este motivo. À parte disto, a praia é magnífica, com ondulação moderada, ótima para quem gosta de se divertir na água — que aqui tem as características próprias das praias caribenhas, dentro dos padrões mais exigentes.

Maho.

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35- Jaco, Timor-Leste

A ilha de Jaco é desabitada e é um lugar sagrado para os timorenses. Apenas se pode chegar a esta ilha e à sua indiscritível praia através de um dos poucos barcos de pescadores que fazem a travessia por 10 dólares/pessoa. Quando viemos a Jaco, hospedámo-nos na pequena aldeia de Valu e acordámos antes do nascer-do-sol, para chegarmos à praia cedo. Tivemos uma sorte incrível, pois um pescador que ia lançar as redes levou-nos até à ilha, onde ficámos absolutamente sozinhos durante mais de uma hora, apenas na companhia dos veados que ali vivem. Só depois de percorrermos a praia de uma ponta à outra, fruirmos da incrível paisagem, do silêncio, do sol suave do início da manhã e sobretudo da água, incrivelmente transparente e de temperatura perfeita, é que chegaram mais visitantes num segundo barco. A travessia até Jaco desde a aldeia de Valu é relativamente fácil — uns meros 5 minutos de barco — mas, antes, chegar a Valu (normalmente desde Díli) é uma aventura que desincentiva muitos, face ao péssimo estado das estradas . Só podemos dizer que, no final, vale a pena. A praia de Jaco é sob qualquer critério, uma das mais belas do mundo.

Jaco.

36- Pink beach, Ilha de Padar, Indonésia

É uma praia integrada no Parque Nacional de Komodo, na Indonésia, que só se pode atingir através de um transporte particular ou de um passeio turístico que saia da cidade de Labuan Bajo, na Ilha das Flores. Há inúmeros, para todos os gostos. Quer isto dizer que é difícil estar sozinho na praia, mas isso não lhe retira o encanto. O mar é espantosamente delicioso e bonito e a areia da praia tem uma fantástica coloração rosada, que provém de um coral conhecido por tubo-de-órgão vermelho que, quando morre, vai sendo quebrado pelas ondas e misturado à areia da praia. A coloração varia com a luz e a maré, mas é bem notória sob os nossos pés. Quando nos banhamos podemos ver nitidamente vários peixes na água, a transparência desta não pode ser superada, apenas equiparada às águas mais claras do mundo.

Pink Beach.

37- Seven Commando, Palawan, Filipinas

As Filipinas são um autêntico paraíso para os amantes de praias. Esta é uma praia que só se pode aceder de barco, normalmente através de um dos passeios que saem de El Nido. Mas nós viemos de kayak desde a praia de Corong Corong. Pelo caminho ainda parámos e nos banhámos na praia deserta de Lapus Lapus. Seven Commando deve o seu nome a um alegado desembarque de sete marinheiros japoneses durante a II Guerra Mundial, depois de o seu submarino ter sido afundado pelos americanos. Esta história não está comprovada, mas permanece a lenda, conferindo ainda mais charme a esta bela praia, cercada por imponentes penhascos de calcário, muitos coqueiros e o magnífico mar de Sulu, cujas águas azuis-turquesa convidam-nos a mergulhar, algo que um amante de praias, como nós, dificilmente esquecerá.

Seven Commando.

38- Porto Pim, Faial, Açores

Esta baía abrigada proporciona as melhores condições para fruição do mar: águas calmas, límpidas, cristalinas, completamente recomendadas para banhos. O azul marinho dos Açores é mais profundo do que o dos mares mais a Sul, sejam as águas das Caraíbas, das ilhas indonésias ou filipinas, da Austrália ou do Oceano Índico. A água é também mais refrescante. Isto não constitui uma desvantagem, bem pelo contrário, porque a diversidade torna o nosso planeta muito mais belo. Esta praia é pequenina (uns 350 metros), mimosa, mas nunca fica cheia, porque aqui não há multidões. Porto Pim é uma das praias mais belas do mundo, apesar de não ter areia absolutamente branca, pois situa-se num arquipélago vulcânico. É uma praia inesquecível e mítica, imortalizada pelo romance de Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal.

Porto Pim.

39- Cacela Velha, Algarve, Portugal.

Fica situada junto à Ria Formosa, um ecossistema em constante mudança. Para se aceder à praia temos de descer da aldeia homónima, uns bons metros acima do nível do mar, depois atravessar a ria, o que hoje se faz com facilidade devido ao assoreamento, e tudo isto demora um pouco. Mas vale muito a pena. Esta praia fica perto de nossa casa, por isso vimos cá frequentemente, em qualquer época do ano. Muitas vezes encontramo-nos sozinhos na praia. A água é magnífica, refrescante, e o areal estende-se por quilómetros. A natureza aqui está praticamente intocada e esta é uma das praias mais belas não apenas de Portugal, mas da Europa e do mundo. A vista sobre a praia desde a aldeia de Cacela Velha é simplesmente inesquecível.

Cacela Velha.

40- Lago Thun, Suíça

Para a nossa lista ficar completa só faltava uma praia de água doce. Mas não uma praia qualquer. Trata-se, mais propriamente, de uma praia distribuída por vários locais situados num lago de água doce, melhor, num mar interior, localizado no seio do continente europeu, entre as suas montanhas mais altas, em plena Suíça. E não, a água não é fria, nem suja, e muito menos imprópria para banhos — é uma água que até se pode beber! Banharmo-nos no Lago de Thun foi das melhores experiências que já tivemos. E, sinceramente, não imaginávamos, antes da viagem de carro que fizemos até à Suíça, em plena pandemia, que este magnífico país tivesse tanto para oferecer. Em praticamente todas as principais cidades da Suíça se pode ir a banhos. Nós fomos e não nos arrependemos.

Lago de Thun.

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Ibiza e Formentera

Centro histórico da Cidade de Ibiza. Eivissa, na língua catalã.

Visitar as ilhas Pitiusas (Ibiza, Formentera e outras ilhas menores) no início de abril tem algumas vantagens. Os preços das passagens aéreas e dos alojamentos são muito mais baratos porque a procura é menor. E por haver menos gente circula-se melhor nas estradas (o que é importante, para quem, como nós, aluga carro), há mais espaço nas praias, menos filas nos restaurantes, mais desafogo nos locais frequentados pelos turistas. Nas nossas viagens o principal objetivo é conhecermos a realidade local, e como tal só é possível contactando com as pessoas, isso torna-se muito mais fácil quando o fluxo turístico é menos intenso. É por isso que viajar em abril é ótimo.

Claro que o tempo, à partida, não será tão quente e tão descoberto como no verão, mas nós temos bom tempo durante quase todo o ano onde moramos e, por isso, esse factor não é essencial para nós, até porque onde houver boas praias certamente as aproveitaremos, pois estamos habituados, mesmo no inverno, a banharmo-nos nas águas do Algarve. Foi exatamente o que aconteceu nesta viagem: o tempo não esteve famoso (sobretudo por causa do muito vento), mas isso não nos impediu de fruirmos do mar, quer em Ibiza, quer em Formentera.

A nossa estadia nas ilhas Pitiusas durou três dias e meio, iniciou-se no dia 2 e terminou no dia 5 de abril.

Cala Salada, Ibiza. Cala significa “angra”.

Saímos de casa bem cedo, às 5:30, e fomos de Uber até o aeroporto de Faro, por 38€. Apanhámos um primeiro voo para Barcelona e, depois, outro para Ibiza, através da Vueling. Chegámos a Ibiza às 14:50. Levantado o carro na empresa local K-10 (78€ com seguro contra todos), seguimos viagem em direção ao alojamento. Fizemos uma paragem num bar que fica a caminho — Can Jordi Blues Station — onde há música ao vivo às quintas-feiras e sábados. Eu comi um pastel típico, com recheio de peixe, acompanhado de uma cervejinha e a Fla pediu uma empanada de frango e uma garrafa de água. Pagámos 8,30€. O ambiente é descontraído, com muitos estrangeiros e o fumo de maconha sobrevoando a esplanada, fronteira à EI-700, que liga Eivissa (a capital) a Sant Antoni, passando por Sant Josep.

É neste município que se situa o alojamento, onde nos instalámos, num empreendimento turístico (Club Aquarium), muito perto de uma bela praia abrigada, a Cala Vedella. O local é excelente, mas é imprescindível ter carro ou outro meio de transporte. Chegámos sem dificuldade, graças às boas indicações da proprietária do pequeno apartamento. Muito pequeno, de facto, mas também muitíssimo bem equipado, com tudo o que é necessário para cozinhar, o que dá sempre jeito quando o orçamento não é ilimitado. Convém referir, neste ponto, que o alojamento nas Baleares é muito caro, sobretudo na época alta. Foi preciso pesquisar bastante até encontrar este cantinho, através da airbnb, pelo custo de 309,84€, para os três dias.

Benirràs.

Uma vez tudo verificado, e arrumados os nossos pertences (só transportávamos duas pequenas mochilas, pelo que não pagámos bagagem à companhia aérea), saímos à descoberta da ilha. A primeira praia que visitámos foi Cala Salada, uma das mais badaladas de Ibiza, na região de Sant Antoni. Trata-se, de facto, de uma angra que alberga duas praias, separadas por formações rochosas — Cala Salada e Cala Saladeta. A água é límpida e pede-nos para entrarmos, mas deixáramos os fatos de banho no alojamento porque planeáramos dar apenas uma pequena volta… Mas falámos sobre isso, e muito provavelmente teríamos dado uns mergulhos se tivéssemos à mão os fatos de banho…

De Cala Salada fomos até a Cidade de Ibiza, onde comprámos os bilhetes de ferry para Formentera, a ilha gémea de Ibiza (embora muito mais pequena), que visitaríamos dois dias depois. Ambos os bilhetes, de ida e volta, custaram 70€. De seguida, viemos até Sant Josep para fazermos umas compras no supermercado. Comprámos dois meios-frangos, já temperados, três hamburgueres de cordeiro, fruta (laranjas, bananas, morangos e kiwis), ovos, batatas, cenouras, um pacote de esparguete sem glúten, coentros, manteiga, presunto (afinal, estávamos em Espanha…), pão, água e um sumo. Antes de regressarmos ao apartamento, já noite, passámos ainda por Cala Vedella. A Fla cozinhou uma das metades de frango e comêmo-la com o esparguete. De sobremesa, fruta. Estava tudo delicioso.

No restaurante Ca’s Pagès.

No dia seguinte — e já que acabámos de falar em comida — tomámos um belo pequeno almoço: ovos, presunto, pão, fruta e, no final, um belo café. Havia uma pequena máquina de fazer café no apartamento, e a proprietária tinha a despensa fornecida com alguns itens básicos, como chá, café, açúcar e azeite, entre outros. Saímos portanto cheios de energia, e dispostos a conhecer a ilha mais em profundidade. Passámos por Cala Vedella, logo à saída de casa, e seguimos para as praias de Comte. Estava sol, o que tornava as águas ainda mais cristalinas. Continuámos para Benirràs, no norte da ilha, e depois seguimos para Portinatx, ainda mais a norte, à medida que o céu se ia fechando. Mesmo assim deu para perceber que a praia de Benirràs é muito bonita, bastante mais do que a praia de Portinatx.

Entretanto, chegou a hora do almoço. Tínhamos planeado ir ao restaurante El Bigotes, mas era bem possível que estivesse fechado, o que se confirmou quando chegámos à Cala Mastella, onde se situa o restaurante, em cima da linha de água. Estavam a proceder a trabalhos de manutenção e disseram-nos que o El Bigotes abrirá ao público no dia 13 de abril. (As ondas do mar lavavam a lage onde assenta a esplanada do restaurante — deve ser giro comer ali, com os pés na água). Não desanimámos porque tínhamos uma boa alternativa (assim pensámos e depois confirmámos) e dirigimo-nos ao Ca’s Pagè, um restaurante típico especializado em carnes. Quem gosta da boa comida facilmente passa do peixe à carne, ou vice-versa, de modo que nos adaptámos rapidamente.

O percurso de carro no segundo dia em Ibiza.

E valeu a pena. Escolhemos uma especialidade da casa (arroz de matanzas) e secretos de porco, para, como se diz em Espanha, compartir. Mas antes comemos algumas entradas — pão, manteiga de alho, azeitonas e uma empanada de carne muito bem confecionada, que estava deliciosa. Eu bebi um copo de vinho tinto e a Fla bebeu água. As doses são enormes. Para fechar tomámos um típico café caleta — café, rum, conhaque, casca de limão, casca de laranja, canela e açúcar — feito por um jovem português, de Valença do Minho, que vive em Ibiza há 25 anos, de seu nome Feliciano, mais conhecido por Féli. No final, pagámos 80€ e saímos satisfeitos.

Deveríamos ter feito uma longa caminhada para ajudar a digestão, mas fomos de carro até à praia de Las Salinas — talvez a praia da ilha com a mais generosa extensão de areia — mas nem sequer saímos do carro, pois estava muito vento e o mar bastante agitado. Esta não é, seguramente, a praia mais bonita de Ibiza… Entretanto, o sol já estava baixo, mas decidimos voltar a Cala Salada e Cala Saladeta para aproveitarmos a luz, a beleza do local e tirarmos algumas fotografias. Da praia Salada para a Saladeta temos de percorrer um caminho que sobe e desce sobre as rochas. A praia Salada quase não tem areia, mas a Saladeta (que, na verdade, são duas praias pequeninas uma ao lado da outra) tem areia suficiente para se estender a toalha, pelo menos em abril — no verão deve ser extremamente difícil. Ainda fomos ao Can Jordi Blues Station, onde atuava uma banda rock, mas ouvimos só uma música, pois era quase noite, estava vento e nós estávamos de t-shirts e calções. O dia estava feito e voltámos ao alojamento.

Na dalt vila.

No nosso terceiro dia fomos visitar a ilha de Formentera. Os nossos bilhetes davam para viajar em qualquer horário, tanto na ida como na volta. Há dezenas de travessias por dia, praticamente a todas as horas, e nós tínhamos em mente apanhar o ferry das 11:30, mas por termos demorado a estacionar no parque gratuito, disponível junto ao IKEA, que estava cheio, acabámos por só embarcarmos no ferry das 12:45. Mas até que foi bom, porque nesse interim visitámos a parte velha da cidade, muito bonita e interessante. Essa parte antiga, sobranceira ao porto, está classificada como Património Mundial, pela UNESCO, e é localmente conhecida por dalt vila, que significa “cidade alta”, em catalão. De facto, o catalão é a língua local, em Ibiza e Formentera, e a maioria da sinalização tem inscrições em catalão, castelhano e inglês. Por exemplo, Eivissa é a denomização de Ibiza em catalão.

Em torno da dalt vila, na parte baixa da cidade, junto ao porto, encontrámos belas lojas de roupa de marca, restaurantes e cafés charmosos, comércio diversificado, e o teatro Pereira, com o café homónimo à entrada, ambos muito bonitos e bem decorados, com prevalência dos tons rubi, de estofos e cortinas, e o brilho dos lustres cruzando os espaços interiores. A esplanada do café é igualmente charmosa. E subindo para o interior da dalt vila, deparámos com a imponência do castelo e do seu enorme baluarte, a catedral de Santa Maria, a singularidade e a harmonia do emaranhado de pequenas ruas e praças, os edifícios bem conservados, quase todos pintados de branco, e o pequeno comércio de todo o tipo, visando, sobretudo, os incontáveis turistas que por ali circulam todos os dias.

Parque Natural de Ses Salines.

Depois disto, embarcámos para Formentera num ferry que faz a travessia em cerca de 40 minutos. Estava um dia muito ventoso, mas com sol, e a embarcação balançava bastante sobre o mar cavado. Em Formentera topámos com várias lojas onde se podem alugar scooters ou bicicletas, e nós hesitámos bastante sobre uma opção ou outra, mas chegámos à conclusão que, face ao vento, e tendo em conta que, mais uma vez, estávamos apenas de calções e t-shirts, o melhor seria mesmo irmos a pé. E pusemo-nos a caminho. Cinco quilómetros é a distância que separa o porto de La Savina (onde acostam as embarcações) e a praia de Ses Illetes, que era o nosso destino, uma distância relativamente curta para dois caminhantes como nós.

Entrámos no Parque Natural de Ses Salines, antes de chegarmos à fina língua de areia, a meio da qual se encontra a praia de Ses Illetes. A vegetação em torno, baixa e seca, é tipicamente mediterrânica. Observam-se, sobretudo, zimbros, pinheiros (daí o nome de ilhas Pitiusas), e comunidades endémicas de funcho marinho, nos sistemas dunares.

O Parque Natural de Ses Salines situa-se entre as duas Ilhas Pitiusas, abrange a parte sul de Ibiza, o norte de Formentera, e o mar entre ambas. E é precisamente na zona marítima — que preenche 75% do parque — que se encontra uma planta muito especial — a Posidonia oceanica. Esta planta, endémica do Mediterrâneo, absorve grandes quantidades de dióxido de carbono, convertendo-o em matéria vegetal, ao mesmo tempo que liberta oxigénio: diz-se que um metro quadrado de Posidonia oceanica produz tanto oxigénio como um hectare de floresta amazónica. Essa libertação limpa o oceano, conferindo às águas de Formentera o magnífico tom claro e a limpidez que as caracteriza. A Posidonia oceanica protege as praias da erosão das ondas e forma enormes tapetes (chamados prados), no fundo pouco profundo do oceano, fornecendo alimento a uma imensidão de criaturas marinhas.

Um banho excelente, apesar do vento, numa das praias mais bonitas da Europa.

O Parque Natural alberga também cerca de 210 espécies de aves, residentes e migratórias, e, graças a esta biodiversidade, foi classificado pela UNESCO, em 1999, como Património Mundial.

Em Es Cavall d’en Borràs, à entrada da tal fina língua de terreno, avistámos um belo veleiro que parecia ter encalhado há dias nas rochas, mas que, soubemos depois, está ali desde o ano passado, empurrado, tal como outras embarcações, pelo vento. E nós comentámos que o vento forte que nos brindou à chegada não deve ser algo inabitual em Formentera, pois vimos outros veleiros encalhados. Certamente, terá sido ainda vento o principal responsável pelo reduzido número de pessoas que encontrámos na praia de Ses Illetes: alguns praticantes de windsurf no mar, e meia dúzia de turistas bem protegidos com roupa de inverno contra o tempo agreste, em terra.

Nada que nos desanimasse ou intimidasse. Não seria esse sopro teimoso que nos impediria de provar aquele mar cristalino, em tons de azul e turquesa. E, claro, fomos ao banho. A água do mar estava agradabilíssima, e se estava desse modo naquele momento, imagine-se como será no pico do verão, com vento moderado ou fraco e temperatura quente… Depois de nos secarmos e vestirmos, fizemos o caminho de volta. Chegamos a La Savina com fome. Por sorte, topámos com um bar-restaurante — Art Cafè — com comida variada a preços módicos, e almoçámos mesmo ali. Eu comi uma dourada recheada no forno e a Fla comeu um hamburguer. Ambos estavam muito bons. Tomámos ainda cerveja, água, sobremesa (um excelente bolo de chocolate) e café, e pagámos 40€, um preço bem catita, atendendo às circunstâncias.

Cala Bassa.

Quando já íamos a meio caminho entre o bar e o ferry, a Fla notou que faltava o meu calção de banho. Voltei a correr para o sacar das costas da cadeira onde o deixara pendurado e esquecido, a secar. Rimo-nos bastante com a coincidência de aqueles mesmos calções terem já ficado esquecidos num carro, na ilha de La Palma, nas Canárias, quando íamos igualmente apanhar um navio (aqui)… Há coisas do arco de velha!

Finalmente apanhámos o ferry das 17:30 para Ibiza e, aqui chegados, em vez de retornarmos ao alojamento, decidimos ainda visitar duas praias que não tínhamos conhecido. Fomos até Sant Antoni e daí até Cala Bassa, uma praia abrigada e bonita, que, tal, como a maioria das praias mais conhecidas de Ibiza, deve estar super-lotada no verão; e passámos ainda por outra praia, a Cala Tarida, antes de regressarmos pela terceira vez àquela mais perto do nosso alojamento, a Cala Vedella. O sol já se tinha posto e o crepúsculo em breve daria lugar à noite cerrada.

Parámos o carro, a Fla tirou a roupa, vestiu o biquini e… foi ao banho! Nadou, saiu, voltou a entrar na água, deu mais umas braçadas e, quando pegou na toalha para se secar, declarou: “está boa!” Foi esta a forma de nos despedirmos de Ibiza. Já tínhamos atestado o carro, pelo que fomos para o alojamento para só sairmos no dia seguinte rumo ao aeroporto. Jantámos os hamburgueres de cordeiro e rematámos com fruta. Fomos deitar-nos cedo, pois no dia seguinte teríamos de acordar por volta das 5:30, entregar o carro e apanhar um voo, às 9:50, para Barcelona, e depois outro para Faro.

Fla na Cala Vedella.

Assim aconteceu. Chegámos a Faro por volta das 14:40. Tínhamos em mente almoçar no restaurante Os Manos, mas estava fechado, e acabámos por comer num restaurante em frente, A Tapita. Chegara ao fim mais uma viagem. Durante quatro dias estivéramos longe dos males do mundo — sem jornais, televisão e internet (excetuando o nosso melhor companheiro de viagens — o incrível google maps) — para voltarmos agora à triste realidade de um planeta flagelado por líderes populistas, antidemocráticos e autoritários. Não nos parece nada incomum que eles existam. O que nos surpreende é haver cada vez mais gente seduzida por estes loucos.

Temos refletido muito sobre isto — não nos interessa tanto a conjuntura atual, mas sobretudo saber (e as razões serão, certamente, variadas) o que leva algumas pessoas a amarem a liberdade enquanto outras nem por isso, ou, por outras palavras, perceber porque há tanta gente tolerante a políticos autoritários — e num futuro artigo retornaremos, com mais profundidade, a este tema intrigante.

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