As minhas dez praias mais belas do mundo

Cada vez mais publicações de viagens se juntam às já muitas que listam, classificam e ordenam todo o tipo de coisas. Praias é uma das mais comuns. Claro que as classificações são sempre muito, mas mesmo muito, subjetivas. Para prová-lo, decidimos também elaborar a nossa lista. Sem ranking, porque todas a praias aqui apresentadas são bonitas, cada uma à sua maneira, não sendo possível, pelo menos para nós, estabelecer uma hierarquia, pelo que a ordenação é arbitrária. Tratam-se apenas de praias que nos marcaram, praias inesquecíveis. Quem ama viajar sabe que as viagens se prolongam no tempo através das recordações que guardamos. O nosso cérebro tem ainda a capacidade de juntar pedacinhos dessas recordações e de várias viagens fazer uma só. “As minhas dez praias mais belas do mundo”, num ano em que não podemos realizar fisicamente nem sequer uma grande viagem, são, portanto, um pretexto para fazer, através da memória, o que mais gostamos: viajar.

1- Sancho

Praia do Sancho, Fernando de Noronha, Brasil.

Situada na costa norte da ilha principal do arquipélago Fernando de Noronha, é uma praia de águas claras, límpidas, com uma temperatura do mar extremamente agradável, diferente da “sopa” da maioria das praias do Nordeste brasileiro, mas, ainda assim, muito longe de ser fria. Cercada por altas escarpas, o acesso só é possível por mar ou por uma passagem escavada na rocha, onde cravaram uma escada de ferro que desce, na vertical, até à praia. Este acesso difícil torna-a ainda mais exclusiva. Nós tivemos oportunidade de visitar a praia do Sancho por terra e por mar, descendo e subindo a escada de ferro (só passa uma pessoa de cada vez) e alugando um barco, que fundeou na pequena baía, enquanto fazíamos snorkeling e nos deslumbrávamos com uma multidão de peixes coloridos sob os nossos olhos encantados. Convém dizer que o arquipélago Fernando de Noronha é um paraíso, mesmo para os mais exigentes amantes do mergulho.

2- Ponta Ruiva

Praia da Ponta Ruiva, Costa Vicentina, Portugal.

Portugal tem praias fantásticas, mormente na região onde vivemos o Algarve. Todas a praias das ilhas-barreira da Ria Formosa, no Sotavento, são belíssimas (Cacela, Ilha de Tavira, Terra Estreita, Barril, Homem Nu, Fuzeta, Ilha Deserta, etc.), bem como tantas outras no Barlavento (Garrão, Olhos d’Água, Marinha, Benagil, Carvalho, Ferragudo, Ponta da Piedade, etc.) ou, mais para norte, as muitas que podemos destacar entre Algarve e Minho, e que poderíamos considerar como “a mais bonita”. De facto, a costa ocidental também abrange o Algarve, e é aí que encontramos as praias algarvias menos frequentadas, diferentes, mas igualmente belas. Uma dessas praias, no concelho de Vila do Bispo, não tem qualquer infraestrutura ou apoio, a não ser uma estrada de terra batida, nem nenhuma indicação em qualquer ponto que nos permita localizá-la. A única forma de lá chegar, sem ser por acaso, é perguntando ou conhecendo o caminho. No entanto, mesmo sabendo que o carro vai levar um banho de pó, vale a pena. A Ponta Ruiva está rodeada por falésias de xisto negro e estende-se por uns 500 metros de areal. Pouco frequentada, mesmo no pico de Verão (a maioria das poucas pessoas são estrangeiros e surfistas), permite uma ligação mais forte ao ambiente circundante. A água é cristalina e fresca, por vezes deliciosa, e a praia é simplesmente linda.

3- Anse Soleil

Anse Soleil, Mahé, Seychelles.

Nas Seychelles, como não podia deixar de ser, encontram-se algumas das praias mais belas do Oceano Índico e do mundo. Esta fica na ilha principal, Mahé, onde a praia mais badalada é, sem dúvida, Beau Vallon. Mas Anse Soleil é incomparavelmente mais charmosa. A areia finíssima e clara parece pó-de-talco. A água tem aquela coloração típica dos trópicos, imaculada por não ter nenhum rio que a corrompa por perto, com uma temperatura perfeita, entre os 23-24 graus. Uma casinha e um pequeno bar de madeira entre a profusa vegetação tornam-a ainda mais acolhedora, apesar de não a tornarem menos natural. Chegámos a esta praia de manhã bem cedo, quando ainda não havia ninguém. Durante duas horas, antes que o sol mordesse, desfrutámos dos encantos de uma das mais belas praias do mundo, a bela Anse Soleil.

4- Cala Goloritzè

Cala Goloritzè, Sardenha, Itália.

Quando chegámos à Sardenha ficámos surpreendidos com a beleza da ilha. Enorme, a Sardenha é diversificada, com montanhas, praias e uma rica gastronomia. A praia Cala Goloritzè fica na costa leste, integrada no Parque Nacional Gennargentu, e é banhada pelo Mar Tirreno. Trata-se de uma praia pequenina, de difícil acesso, com águas de um azul-turquesa, quase surreal. Dado que as embarcações de recreio não podem chegar junto da praia, a única maneira de atingi-la é fazendo um percurso de hora e meia, a pé, mais umas duas horas para voltar. Para a praia é quase sempre a descer, mas a volta, quase sempre a subir, demora mais tempo e custa mais. Mas, mais uma vez, vale a pena. Em Cala Goloritzè sentimo-nos longe de todos os problemas do mundo.

5- Le Morne

Praia Le Morne, Maurícias.

É a melhor praia da Maurícia, situada no extremo sudoeste da ilha, sob o Monte Le Morne Brabant. Trata-se de uma praia pública, bastante frequentada pelos locais, mas também por turistas. As suas águas cálidas e calmas, e o ambiente morno convidam ao langor e ao esquecimento. Podemos perder a noção do tempo e ficar até o sol se pôr e mais além. Foi isso mesmo que fizemos, não apenas nós mas também alguns outros que fruíam daquele fim de dia, sem quebra abrupta de temperatura, mesmo quando o último raio de sol caiu no horizonte, observando os cambiantes do fogo refletido pela abóbada celeste. Le Morne é uma praia inesquecível.

6- Salines les Bains

Saline les Bains, Ilha de Reunião, França.

Não longe das Maurícias, a uns 200 quilómetros, e ainda no arquipélago de Mascarenhas, descoberto pelos portugueses, fica a ilha de Reunião, uma região de França. E na ilha de Reunião, bem maior e mais diversificada do que as Maurícias, encontra-se uma praia de sonho chamada Salines les Bains. Situada na costa oeste e protegida por uma barreira de recifes, a praia é calma, com mar tranquilo e muitas árvores que nos protegem nas horas de maior calor. A temperatura do mar é menos quente que nas Maurícias e está dentro daquele padrão excelente, entre os 23-24 graus. A areia é branca, salpicada de folhas e raminhos que caem das árvores. Visualmente a praia é muito bonita, destacando-se os azuis do mar e do céu, os verdes da vegetação e os brancos do areal.

7- Seven Miles

Seven Miles Beach, Ilhas Caimão.

Bem perto da capital das Ilhas Caimão, George Town, fica uma praia que faz lembrar Miami Beach, mas que é muito mais bonita e acolhedora. De facto, tal como Miami Beach, também esta praia sofre a influência do clima das Caraíbas e também ela tem uma orla de hotéis prontos a receber os turistas, sobretudo americanos, só que numa escala muito menor. Isso torna esta extensa praia de areia macia e branca extremamente agradável. Mais uma vez, a água do mar tem uma temperatura ótima, além de possuir, como não podia deixar de ser, aquela cor tão característica do Caribe. Pelicanos, iguanas, tartarugas, entre outros, convivem na praia com os humanos, habituados à sua presença.

8- Galápagos

Praia Galápagos, Ilha de Santa Cruz, Equador.

A praia Galápagos (não confundir com praia dos Galapos, que fica em Setúbal e também é linda) fica no sudoeste da Ilha de Santa Cruz, perto da capital, Porto Ayora, praticamente em cima da linha do Equador, no arquipélago das Galápagos, cujo nome oficial é arquipélago de Colón. As praias neste arquipélago são bastante diferentes das praias que vimos até agora, porque existe uma limitação quanto ao número de pessoas que vivem nas Galápagos e quanto aos visitantes. Por isso, é normal ver-se uma panóplia de animais, desde lobos marinhos e tartarugas, até iguanas marinhas e uma miríade de aves diversas, com grande destaque para o atobá de patas azuis, um símbolo destas ilhas do Pacífico. A praia Galápagos está dentro da Baía Tortuga e possui águas calmas e frescas (devido à corrente fria de Humboldt), mas não demasiado frias. Dentro do Parque Nacional das Galápagos, é uma praia preservada, sem grandes estruturas ou aglomerados, mas muito, muito bonita.

9- Patacho

Praia do Patacho, Alagoas, Brasil.

Entalada entre uma densa mata de coqueiros e o mar, esta praia é das visualmente mais bonitas do Brasil. Ainda por cima é uma praia pouco conhecida e pouco frequentada, pois está um pouco longe da capital de Alagoas, Maceió. As praias deste estado são das melhores do Brasil, sobretudo pela coloração das águas, mais turquesas no Verão, devido às correntes e ventos favoráveis. A melhor altura para visitar o Patacho é ao nascer-do-sol, quando o calor não aperta tanto e o banho de mar é realmente refrescante. Depois, quando o sol sobe, o melhor é procurar uma sombra. Não devemos esquecer-nos de que a água aqui é quente e o sol escaldante. Assim, o melhor é sempre visitar esta praia, situada entre Porto de Pedras e Tatuamunha, quando o sol está baixo, para se poder desfrutar na plenitude de todos os atributos que este local deslumbrante tem para nos oferecer.

10- Porto Pim

Praia de Porto Pim, Ilha do Faial, Portugal.

Porto Pim é uma praia abrigada junto à capital da Ilha do Faial, a cidade da Horta, nos Açores. Mais parece um lago ou uma piscina, mas é mesmo uma belíssima praia oceânica. Imortalizada pelo romance de Vitorino Nemésio, “Mau Tempo no Canal”, esta pequena, pacata e mimosa praia é um dos recantos mais belos e pitorescos não apenas dos Açores, mas também de Portugal e do mundo. Situada numa pequena enseada em ferradura, bastante diferente de todas as outras aqui apresentadas, Porto Pim é uma praia que prima pela originalidade, por ser um apêndice magnífico colocado por Deus no Faial para o apreciarmos com todos e em todos os sentidos.

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Santiago, Cabo Verde

Quando, ainda no século XV, os navios portugueses fundearam algures em Cabo Verde, nenhuma das dez ilhas que hoje constituem o arquipélago era habitada (nada de muito surpreendente se tivermos em consideração que estas pequenas ilhas vulcânicas se encontram a mais de 500 quilómetros da costa ocidental africana) e a primeira a ser ocupada foi, precisamente, Santiago. A atual povoação de Cidade Velha foi desde o início e durante muitos anos a localidade mais importante da ilha, mas a capital, hoje, é Praia, onde ficam a sede do governo e os principais serviços e equipamentos públicos. Santiago, dizem os historiadores, serviu como entreposto de escravos pouco tempo depois do início da colonização do arquipélago, mas, uma vez que todas as ilhas estavam desabitadas, os escravos não eram dali. Este facto tem levantado e conduzido a muitas questões, algumas apaixonadas, sobre quem são de facto os cabo-verdianos[1]. Não vamos entrar por aí, a única coisa que afirmamos sem hesitação é que em Cabo Verde existe um povo culturalmente singular. Povo e cultura que vale a pena conhecer.

Cidade da Praia (foto da Fla).

Por outro lado, os cabo-verdianos podem justamente sentir-se orgulhosos por terem construído uma sociedade democrática que, em muitos aspetos, dá cartas a países bastante mais ricos (e não, forçosamente, mais desenvolvidos). Isto não deixa de ser surpreendente, se tivermos em conta as grandes dificuldades que este povo enfrenta: além de estarem muito longe dos grandes centros económicos e de distribuição, os cabo-verdianos têm ainda de enfrentar um clima adverso, seco, com todas as graves consequências que isso acarreta. Apesar disso, do ponto de vista social, são bastante mais desenvolvidos que outros países lusófonos, como Angola e Moçambique, e do que a esmagadora maioria dos países subsarianos. Em muitos itens, são mesmo bastante mais desenvolvidos que o gigante Brasil[2]. Cabo Verde é mais livre, mais seguro e mais democrático que muitos países, apesar de incomparavelmente mais pobre que a esmagadora maioria deles. Tudo isso é obra e mérito do seu povo.

Lateral do edifício que alberga a Sala-Museu Amílcar Cabral, na Praia.

Como seria de esperar, o principal motor económico do arquipélago é o turismo, muito importante não só pelas receitas diretas, mas igualmente pela captação de investimento estrangeiro e pela criação de empregos. Nós fomos apenas mais dois a juntar aos muitos milhares de turistas que visitam Cabo Verde todos os anos. Nos quatro dias em que estivemos na ilha de Santiago, ficámos hospedados na Praia. A partir daí, visitámos todos os pontos considerados mais interessantes da ilha, e não só. Começámos pelo que estava mais perto, o centro da Praia, conhecido como Plateau, por ficar num pequeno planalto sobre a marginal, o porto e o mar: uma espécie de baixa lisboeta (embora mais pequena), mas no alto. Visitámos a interessante Sala-Museu Amílcar Cabral, plena de informações sobre a luta de libertação; entrámos no mercado municipal, algo que sempre fazemos, desde que tenhamos oportunidade, nas cidades que visitamos; almoçámos; deambulámos pelas ruas; indagámos; dialogámos; passámos pelo palácio presidencial; percorremos, como soem fazer os verdadeiros caminhantes, todo o tricotado do centro histórico da Praia.

O presidente Jorge Carlos Fonseca e o embaixador do Bangladesh, com residência em Lisboa, Ruhul Siddique.

Mas Praia não é só Plateau. Vale a pena descer ao mercado de Sucupira, misturar-se com as gentes, sentir os sons, as cores e os cheiros, e petiscar um pastel acompanhado por uma Strela geladinha, talvez, como nós fizemos, na roulote Nôs Casa. É aí, na grande praça Alexandre Albuquerque, que podemos ver as incontáveis carrinhas Toyota Hiace (as “iáces”, como lhe chamam os locais[3]) que podem transportar-nos a qualquer povoação da ilha. Foi o que fizemos para chegar à Cidade Velha: apanhámos uma iáce. Pelo caminho fomos conversando com um simpático e jovem adepto do F.C. de Porto, que nos surpreendeu ao informar-nos sobre os vários dialetos crioulos da ilha. E nós, inocentes, que pensávamos haver apenas um… Conversando com este e outros cabo-verdianos, pudemos aperceber-nos da grande ligação que existe a Portugal: a televisão que veem é portuguesa, os clubes de futebol de que são adeptos são portugueses[4], as universidades para onde vão estudar ficam maioritariamente em Portugal e até os embaixadores estrangeiros que vêm apresentar credenciais ao presidente moram em Lisboa e não aqui.

Primeira Strela, no mercado de Sucupira.

A Cidade Velha, como já dissemos, foi a localidade mais importante nos primórdios da colonização[5], e é hoje uma pequena e simpática urbe que se percorre facilmente a pé. Fica junto ao mar, na base de uma colina que no topo exibe uma fortaleza do século XVI, recuperada e em bom estado de conservação, o forte de São Filipe. Entre elas (fortaleza e cidade), socalcos onde ergueram casas precárias, com pequenos pátios ou lajes, e, aqui e ali, crianças brincando, velhos descansando, cabras cabritando, galinhas depenicando. (Difícil deve ser alimentar os animais com tanta secura). Depois da visita à fortaleza, invertemos a marcha, agora mais fácil, e iniciámos a descida da colina até ao núcleo da Cidade Velha, sobranceiros ao casario e ao mar. Já cá em baixo, passámos pelas ruínas da antiga catedral, a primeira a ser construída no ocidente africano, e finalmente sentámo-nos numa esplanada junto à praia vulcânica, descansando um pouco e tomando bebidas frescas para enganar o calor. Pouco depois, na pequena praça central, enquanto esperávamos a iáce que nos transportaria de volta à Praia, comprámos a um vendedor de rua umas mangas pequeninas, que comemos mais tarde no hotel, e se revelariam divinais. Desta vez ocupámos os dois lugares da frente da iáce, ao lado do motorista. Depois do jantar já não saímos[6], pois tínhamos planeado que no dia seguinte iríamos acordar bem cedo para conhecermos o norte da ilha.

Segunda Strela, na Cidade Velha.

Para circular em Santiago alugámos um carro com motorista, o senhor Wostelindo Carvalho, por 80 euros[7]. A ilha de Santiago é montanhosa, pelo que, para atravessá-la tivemos de subir e descer algumas estradas íngremes. Depois da localidade de Assomada, passámos pelo belo Parque Natural da Serra da Malagueta, de onde é possível vislumbrar as ilhas do Fogo e de Maio, e descemos em direção ao Tarrafal. Um pouco antes da cidade, cerca de um quilómetro, no lugar de Chão Bom, fica a antiga colónia penal, hoje transformada em Museu da Resistência. Éramos os únicos visitantes pelo que pudemos correr todo a estrutura deste antigo campo de concentração, desde a cozinha ao refeitório, passando pelas celas comuns, as disciplinares ou “solitárias”, até às casas de banho e o posto médico, sem nos cruzarmos com uma única pessoa. Quando chegámos ao campo o calor era tórrido, e não pudemos deixar de pensar no sofrimento que corresponderia a estar fechado na “Frigideira”. Houve presos que aí passaram de castigo 1, outros 20, outros ainda 60 dias, mas um deles, Gabriel Pedro, permaneceu 135 dias na “Frigideira”, cerca de quatro meses e meio. Ainda assim, não foi um dos 36 homens que pereceram às terríveis condições desta colónia penal para onde eram enviados, sobretudo, presos políticos que se opunham ao Estado Novo e ao ditador Salazar.

Ontem, Campo de Concentração do Tarrafal; hoje, Museu da Resistência.

Os primeiros anos de funcionamento do campo de concentração, que entrou em funcionamento em 1936, foram os piores. O principal problema para os presos do Tarrafal eram as doenças[8], pois o diretor da prisão alegava não ter verbas para dietas e medicamentos. Face aos muitos casos de doença, em fevereiro de 1937, o médico Esmeraldo Pais da Prata[9] foi enviado à colónia penal com o principal objetivo de verificar se os presos não fingiam estar doentes para se esquivarem ao trabalho. Este médico fascista constituiu um pesadelo permanente. Recusava-se a mandar ferver a água insalubre que provinha de uma fonte a 700 metros, aprovava o estado de deterioração das magras rações distribuídas aos presos[10], dava cobertura aos trabalhos forçados e aos castigos na “Frigideira”, negava a medicação, inclusive aquela enviada pelas famílias dos deportados, e participava diretamente, de arma na mão, na repressão aos detidos, insultando-os e lançando-lhes frequentemente palavras jocosas. Uma das suas frases famosas, que pode ler-se num dos painéis do atual museu, é: “Não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbito”.

Apesar de tudo isto, muitos presos conseguiram sobreviver graças à solidariedade existente entre eles. Ferviam a água às escondidas, com ferramentas improvisadas, construíam filtros de pedra vulcânica e porosa, organizavam a distribuição dos medicamentos enviados por familiares e organizações de caridade e de outros parcos recursos que escapavam ao controlo dos guardas. E foi a chegada de outro médico, Manuel Baptista dos Reis, desta vez um prisioneiro, que, auxiliado por um enfermeiro chamado Virgílio de Sousa, veio ajudar em muito os presos do Tarrafal, evitando que a mortandade fosse ainda maior. Mesmo assim morreram 36 presos: 32 portugueses, 2 guineenses e 2 angolanos. O campo funcionou nestas condições degradantes até 1956.

A “Holandinha” foi a cela disciplinar que veio substituir a “Frigideira”. Esta ficava isolada, fora do recinto do campo, e foi demolida. Um sobrevivente do Tarrafal, o guineense Augusto Pereira da Graça, conhecido por “Neco”, afirmou sobre a “Holandinha”: “Eu não sei dizer qual era a temperatura dentro deste cubo, mas o indivíduo entrava para lá e, depois de cinco minutos, parecia que lhe tinham dado um banho. Era um calor insuportável. Pode-se dizer um calor infernal. Passei 15 horas ali, mas parecia que tinham sido 15 anos.[11] “

Em 1962, reabriu sob a designação de Campo de Trabalho de Chão Bom, destinado a encarcerar anti-colonialistas da Guiné-Bissau, Angola e Cabo Verde. Entretanto, as autoridades portuguesas negavam a existência desta colónia penal. Em 1963, a missão permanente de Portugal nas Nações Unidas considerava “sem fundamento” as informações que circulavam sobre aquele campo de concentração. Foi Amílcar Cabral, um excelente diplomata, quem evocou as normas da Convenção de Genebra sobre a proteção de prisioneiros de guerra e conseguiu a libertação de três prisioneiros portugueses, entregando-os à Cruz Vermelha, em Dakar, no dia 15 de março de 1968. Perante as denúncias de Cabral, uma Missão da Cruz Vermelha visitou o Tarrafal em fevereiro de 1969, conseguindo que fossem libertados todos os presos considerados “recuperados”. Nessa altura as condições no campo já não eram as mesmas das dos anos 30, 40 e 50. Os presos podiam ir à praia próxima, assistir a sessões de cinema, consultar livros, jornais e revistas na biblioteca, ir a consultas ao Hospital da Praia e até estudarem e fazerem exames nesta cidade.

Praia do Tarrafal.

Após a desativação, o “Campo da Morte Lenta”, como ficou conhecido por quem lá passou, serviu como centro de instrução militar, escola e, desde o ano 2000, Museu da Resistência, tornando-se o espaço mais visitado do arquipélago. Classificado como Património Cultural Nacional de Cabo Verde desde 2006, integra a lista indicativa deste país a Património Mundial pela UNESCO. Em 27 de fevereiro do presente ano (2020), o governo cabo-verdiano adjudicou a uma empresa portuguesa sediada em Barcelos – a Vilacelos – uma empreitada[12] para reabilitar o antigo Campo de Concentração do Tarrafal, que deverá ter a duração de oito meses, e que é considerada indispensável para satisfazer os requisitos exigidos pela UNESCO para a candidatura a Património Mundial, que o governo cabo-verdiano pretende apresentar dentro de um ano. Além desta empreitada, estão previstas verbas para a instalação e funcionamento do futuro museu. O artista português Vhils será convidado para fazer um trabalho no local.

Demora-se algum tempo a recuperar o ritmo normal quando se sai do espaço onde funcionou o campo do Tarrafal. Felizmente que a praia é ali mesmo ao lado e logo, provavelmente, a mais bonita da ilha. Tomámos um daqueles longos e deliciosos banhos que tornam alguns locais inesquecíveis. À hora combinada fomos ter com o senhor Wostelindo, já a pensar no almoço que, como previsto, aconteceu no restaurante Sol & Luna: bom peixe grelhado, à moda tropical, com legumes, arroz, batata frita e vinagrete. Confirmámos que o Tarrafal é o melhor ponto da ilha de Santiago para quem gosta de praia e descanso; e é também, sem dúvida, um bom lugar para comer peixe, a avaliar pelo que comemos, mas também pelos que vimos nos alguidares das peixeiras na praia, e nas bancadas do mercado municipal.

Barcos de pesca estacionados numa praia do Tarrafal.

No regresso à cidade da Praia passámos pela Aldeia dos Rabelados, em Espinho Branco, uma pequena comunidade que viveu durante muitos anos isolada[13], desde que a igreja oficial portuguesa rejeitou, ainda no tempo do colonialismo, as suas práticas religiosas (que incluíam a poligamia e o animismo), e quis substituir os sacerdotes locais de “batina negra”[14] pelos novos sacerdotes, de “batina branca”, enviados do continente. Apesar de uma parte da população ter aceitado os novos padres, outros não os aceitaram – e a partir daí foram considerados rebelados . Passaram então a viver isolados em comunidade, nas montanhas, sem água e sem luz, dependendo da agricultura, da pesca e do artesanato. Graças a Maria Isabel Kouassi, uma artista plástica e terapeuta cabo-verdiana, que viveu na Costa do Marfim e na Suíça, internacionalmente conhecida por Misá, os rabelados têm, há mais de vinte anos, uma representante que luta pelos seus interesses e que os tornou conhecidos um pouco por todo o mundo. Misá conseguiu entrar na comunidade e cada vez que voltava levava algo novo: roupa, alimentos, água, médico ou professor. Graças ao trabalho de Misá, as crianças passaram a frequentar o jardim de infância e a escola, e pelo menos uma delas continuou os estudos e licenciou-se. Paralelamente, Misá criou uma oficina de artes – a Rabelarte – destinada a dotar os jovens dos conhecimentos técnicos necessários à criação de peças que possam vender a turistas que visitem o local. Para tal, ela própria deu formação em desenho e pintura, conseguindo também a colaboração de um voluntário japonês que durante três meses ensinou às crianças técnicas de cerâmica.

Na aldeia dos Rabelados, em Espinho Branco.

Quando visitámos a aldeia estivemos na oficina da Rabelarte e comprámos um singelo quadro a uma jovem artista local. A visita a esta aldeia foi enriquecedora e surpreendente. Com as experiências do dia ainda pulsando em nós, já com o sol baixo, continuámos a nossa descida até à Praia, primeiro junto à costa, passando por Calheta de São Miguel e Pedra Badejo, depois pelo interior, chegando ao hotel Cesária quando se punha o sol. Tínhamos planeado jantar no Quintal da Música no último dia em Santiago, mas esse restaurante estava fechado. Queríamos um restaurante onde se pudesse ouvir música local, e, em alternativa, alguém nos sugeriu o Campanas. Fomos lá. Comemos bem e, como era o último dia e a música estava boa, bebemos ainda melhor. Reparámos, sobretudo, num dos músicos, um virtuoso violinista chamado Nho Nani, natural da ilha do Fogo. Conversámos com ele e com Manuel dos Santos, um guitarrista, também do Fogo, também virtuoso. Despedimo-nos. No dia seguinte, bem cedo, o senhor Wostelindo estaria à nossa espera à porta do hotel para nos levar ao aeroporto.

Na casa de Josefa, jovem artista rabelada.

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Notas:

[1] A população cabo-verdiana é composta por 71% de mulatos, 28% de africanos e 1% de europeus.

[2] Ver o nosso artigo “Os Países-Modelo” aqui: https://ilovealfama.com/2020/04/24/paises-modelo/. Verificar-se-á que Cabo Verde está à frente do Brasil no que toca à liberdade económica, à liberdade humana, à liberdade de imprensa e à democracia. Cabo Verde é também um país incomparavelmente mais pacífico e seguro que o Brasil.

[3] Demorámos um tempo considerável até percebermos o que queriam dizer-nos com : “podem apanhar uma iáce”…

[4] É comum ver pessoas com as camisolas dos clubes portugueses, sobretudo, como seria de esperar, do Benfica, do Porto e do Sporting.

[5] Mas na altura em que foi fundada deram-lhe o nome de Ribeira Grande. Diz-se que o mudaram para evitar confusões com uma povoação homónima em Santo Antão. O Sítio Histórico da Cidade Velha, foi classificado em 2009 pela UNESCO como Património da Humanidade, pelos critérios II, III e VI. O critério II prende-se aos monumentos e vestígios ainda existentes na Cidade Velha enquanto testemunhos do seu papel nas trocas comercias. Critério III, pela sua paisagem urbana, marítima e pitoresca que remetem aos mais de 3 séculos de escravidão dos seres humanos. Já o critério VI, por ser o berço da primeira sociedade mestiça que se difunde pelo Atlântico através da gastronomia, farmacopeia, e outros saberes.

[6] Embora Cabo Verde seja um país relativamente seguro, não é de todo aconselhável circular à noite por locais desconhecidos, a não ser de táxi.

[7] O senhor Wostelindo está contactável através do facebook, no seguinte endereço: https://www.facebook.com/profile.php?id=100013451105546.

[8] O paludismo, a biliosa, a tuberculose e as infeções intestinais eram os males mais frequentes. Mas também o reumatismo, as avitaminoses, com os casos beribéri, escorbuto e xeroftalmia, anemia palustre, e doenças hepáticas e gástricas.

[9] Era conhecido entre os presos como o “Tralheira”.

[10] A comida era sempre a mesma, mal cozinhada e de péssima qualidade. Os presos tinham de tapar as narinas com bolas de pão para poderem tragá-la.

[11] https://www.dw.com/pt-002/augusto-pereira-da-gra%C3%A7a-recorda-os-dias-amargos-no-tarrafal/a-17656372.

[12] No valor de 29,5 milhões de escudos cabo-verdianos, ou seja, o equivalente a 265 mil euros. Mais 22 milhões de escudos (cerca de 200 mil euros) para a instalação e o funcionamento do futuro museu.

[13] O nome “Rabelados” (“rebelados”, ou “rebeldes” em português) deve-se à sua recusa em aceitarem os preceitos da Igreja Católica tradicional. No entanto, os integrantes da comunidade consideram-se “Revelados”.

[14] Estes “sacerdotes negros” saíram dos seminários que os franciscanos, chegados a Cabo Verde em finais do século XVII com o objetivo de evangelizar a população, criaram para formar sacerdotes. Ou seja, eram sacerdotes locais.

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Referências:

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Japão

1- Breve contexto histórico

O Japão é por variadas razões um dos mais fascinantes países do planeta. Isolado durante a maior parte da sua história, teve sempre um papel importante quando se integrou na comunidade internacional, chegando a ser, no período da Grande Guerra, a par dos Estados Unidos, um dos dois países mais poderosos do mundo. A primeira abertura do Japão deu-se no século XVI, na época em que o grande aventureiro português, Fernão Mendes Pinto, chegou ao arquipélago, mas durou pouco tempo[1]. Cansados do proselitismo europeu, os japoneses expulsariam os missionários e fechar-se-iam de novo, alcançando a estabilidade política com o domínio do xogunato Tokugawa[2], um governo dinástico militar que durou mais de 250 anos (até 1867). Em 1854, o Japão assinou com os Estados Unidos o Tratado de Kanagawa e, quatro anos depois, o Tratado de Amizade e Comércio, que marcaram o início da nova abertura japonesa, ainda que forçada[3]. Seja como for, isso permitiu ao Japão modernizar-se e industrializar-se intensivamente, tornando-o capaz de, nos finais do século XIX e inícios do século XX, derrotar militarmente a China e a Rússia. Esse período de extraordinário desenvolvimento ficou conhecido com Era Meiji (1868-1912), quando governou o imperador Mutsuhito Tenno. (Até à Restauração Meiji os imperadores não tinham poder e quem governava o Japão eram ditadores militares, cujo poder era hereditário, denominados xoguns). Sucessivamente, os japoneses ocuparam a península da Coreia, a Formosa (atual Taiwan), o sul da Ilha Sacalina[4], a Manchúria e a China. Em 1941, cometeram o erro de atacar os Estados Unidos e ocupar a maior parte dos territórios do sul e sudeste asiáticos, precipitando a entrada dos americanos na II Guerra Mundial.

A nossa visita ao Japão começou em Yokohama. Depois de um passeio pelo centro da cidade e uma entrada na Chinatown, subimos pela Landmark Tower, uma torre com 295,8 metros de altura e 73 andares, no elevador mais rápido do mundo. Demorámos apenas 40 segundos a atingir o 69º andar, aquele onde fica o Sky Garden, um piso panorâmico, com bar, livraria e uma vista incrível de 360º.

Apesar da derrota na II Guerra Mundial[5], o Japão tornou-se uma potência económica e um aliado dos Estados Unidos, registando, até aos anos noventa do século XX, três décadas de desenvolvimento económico sem precedentes. O imperador manteve-se como símbolo da unidade nacional, mas o poder executivo passou a ser exercido por políticos eleitos. O país modernizou-se, democratizou-se e manteve-se até hoje uma potência económica. Não possuindo grandes recursos naturais, sobretudo ao nível energético[6], é, no entanto, um colosso industrial, exportando produtos de altíssimo valor acrescentado para todo o mundo: a marca-Japão, embutida em itens diversificados e de grande consumo, como automóveis, máquinas fotográficas, televisores, telemóveis, entre muitos outros, faz parte do quotidiano dos cidadãos de, praticamente, todos os cantos do planeta[7].

No dia 11 de março de 2011, o maior terramoto da história japonesa, seguido de tsunami, devastou o nordeste da ilha de Honshu (a maior do Japão), matando milhares de pessoas e provocando danos irreparáveis na central nuclear de Fukushima[8]. No ano seguinte chegou ao poder o atual primeiro-ministro, Shinzo Abe, o político que se mantém há mais tempo no cargo, desde a II Guerra Mundial.

O dia seguinte foi integralmente passado em Tóquio, uma capital gigantesca. Nesta foto podemos ver o edifício da estação televisiva Fuji, uma das construções emblemáticas da cidade. Um terço da população japonesa vive na região de Tóquio.

2- O Japão natural

O Japão é um país insular que conta com cerca de 7 mil ilhas[9], das quais apenas 421 são habitadas: imagine-se as maravilhas que se podem encontrar em muitas delas, sobretudo nas mais remotas! As ilhas principais são Hocaido, Honshu (onde se situa a capital, Tóquio), Shikoku e Kiushu. No entanto, é importante o papel das pequenas ilhas exteriores na proteção do território, pois todas as fronteiras internacionais do Japão estão no mar. Apesar deste país ocupar apenas o 61º lugar do mundo em termos de território (cerca de 378 mil km2), a sua zona económica exclusiva (ZEE) atinge uma área de 4.470.000 km2, a sexta maior do planeta. O Japão é assim um país marítimo por excelência, com amplas vantagens no que toca à exploração dos seus amplos recursos marítimos (sobretudo a pesca) e ao comércio por via marítima (o Japão possui a quarta maior frota mercante do mundo), mas igualmente com alguns problemas, sobretudo as disputas com outros países da região[10] sobre a soberania de algumas ilhas e águas territoriais.

Ao fim da tarde fomos até Tsukiji, onde fica o famoso mercado de peixe de Tóquio. Na rua do mercado pudemos provar uns saborosos frutos do mar cozinhados, numa pequena loja, com maçarico… (Se estás no Japão, sê japonês).

O clima do Japão é diversificado, variando entre o tropical no extremo sul e o temperado frio nas regiões do norte. A altura média do país é de 438 metros e o ponto mais alto situa-se no monte Fuji, 3.776 metros acima do nível do mar. Como já foi dito, o país não possui grandes recursos naturais do ponto de vista energético (ou mineral), sendo o maior importador mundial de carvão e gás natural liquefeito, e o segundo maior importador de petróleo. Situado no chamado “anel de fogo do Pacífico”[11], o Japão está sujeito a uma intensa atividade sísmica e vulcânica[12], e também a tufões e tsunamis. Ao contrário do que acontece na maioria dos países temperados, no Japão chove sobretudo no início de Verão, e chove muito. Essa peculiaridade faz com que a produtividade agrícola seja muito elevada, apesar de apenas 14% do seu território ser cultivado. A elevada pluviosidade também faz com que a floresta japonesa, que cobre cerca de 70% do território, recupere rapidamente depois dos cortes.

Mesmo assim, o desmatamento das florestas tropicais tem contribuído para o esgotamento dos recursos florestais, não sendo este o único problema ambiental que o Japão enfrenta: as chuvas ácidas, provocadas pela intensa atividade de indústrias poluentes, acidificam a água de rios, lagos e mares; a poluição atmosférica é significativa[13]; a pesca intensiva constitui uma ameaça para algumas espécies; e, um assunto cada vez mais controverso, a produção de energia nuclear, pode provocar desastres catastróficos, como o de Fukushima, além de produzir resíduos cuja eliminação é muito problemática, se não impossível.

O Japão é o 11º país mais populoso do mundo, com mais de 125 milhões de habitantes, embora a taxa de natalidade atual seja muito baixa (1.43), o que o torna num dos países com maiores problemas no que toca ao envelhecimento da população.

Depois do aperitivo na rua, fomos jantar ao restaurante Sushi Zanmai Honten, ainda em Tsukiji, apenas guiados pela nossa intuição. Observámos que tinha muita gente, sobretudo japoneses, pelo que nos pareceu uma boa opção. Preferimos comer ao balcão ao lado de um casal japonês que nos foi dando algumas dicas. Provámos, muito provavelmente, o melhor atum das nossas vidas. À saída, quando tirámos esta foto, ainda não tínhamos percebido que estivéramos num dos melhores restaurantes de sushi em todo o mundo.

3- Cultura e sociedade

Como já vimos, o Japão é uma potência económica; e do ponto de vista da qualidade dos serviços que oferece aos cidadãos é, igualmente, um país extremamente desenvolvido: bons sistemas de saúde e educação, e um excelentíssimo sistema de transportes. Seria expectável, portanto, que fosse igualmente um país socialmente desenvolvido, o que efetivamente acontece, pese embora alguma desigualdade de género e de rendimentos. Isto ocorre, pelo menos em parte, porque a tradição tem um peso significativo na sociedade nipónica, cujas raízes são substancialmente diferentes das ocidentais. Os japoneses têm um grande orgulho na sua identidade e cultura. As religiões dominantes são o xintoísmo e o budismo, com muitos indivíduos a praticarem ambas[14]. Mas o que os japoneses defendem, sobretudo, é uma distinção étnica e linguística, sendo dos povos menos cosmopolitas do mundo, com poucos imigrantes e regras muito rígidas para os estrangeiros que pretendam viver no Japão. Isso sente-se (nós sentimo-lo) no contacto com as pessoas comuns, apesar da afabilidade de muitos delas.

Estas questões de identidade estão na base do longo conflito entre o Japão e a Coreia, com ambos a reivindicarem superioridade em relação ao outro. Porém, estudos recentes revelam que, à semelhança do que acontece com israelitas e palestinianos, o que os separa é muito menor do que o que os une, sendo povos geneticamente irmanados, que partilham uma longa história, apesar das desavenças.

Para regressarmos ao hotel onde estávamos hospedados, em Haneda, nos arredores de Tóquio, tínhamos de apanhar dois comboios suburbanos, o que, só por si, já é uma aventura, sobretudo para quem não sabe ler uma palavra que seja em japonês, a única língua em que estão inscritos nos painéis das gares os nomes das incontáveis estações e linhas. Não, a vida do turista não é aqui facilitada… Mas valeu a nossa persistência: viajarmos como verdadeiros japoneses foi para nós um desafio – superado. Não podemos deixar de realçar a pontualidade extrema (ao segundo!) das partidas e chegadas destes comboios, algo indispensável numa rede urbana tão densa que mais parece uma teia de aranha. Incrível.

Quando visitamos o Japão, percebemos quase imediatamente duas realidades distintas: a imagem familiar das modernas cidades ocidentais, com demonstrações por todo o lado de grande desenvolvimento tecnológico, e a cultura nacional, que consubstancia uma visão do mundo bem diferente do cosmopolitismo ocidental. Apesar disso, há uma aproximação gradual entre as culturas ocidental e nipónica, sobretudo nas artes e no desporto[15]. Se é certo que tradições artísticas, como o kabuki (o mais tradicional teatro popular japonês), ou desportivas, como o sumo (luta tradicional) continuam a atrair vastas camadas da população, é igualmente verdade que a música clássica, o rock, o futebol e o cinema ocidentais têm cada vez mais adeptos (e praticantes) no Japão. Em sentido contrário, temos a manga (banda desenhada japonesa) e o anime (desenhos animados) extremamente populares entre os jovens de muitos países ocidentais, como os Estados Unidos ou o Brasil; e também o sushi, que se tornou um tipo de comida popular em todas as grandes cidades americanas e europeias, o mesmo se podendo dizer do sashimi, ambos tendo por base o tradicional modo japonês de confecionar peixe fresco cru[16].

Gostaríamos de ter tido muito mais tempo, embora saibamos que nenhum tempo seria suficiente, para conhecermos o Japão. Quem sabe, um dia talvez possamos voltar… Por agora, resta-nos terminar este artigo reafirmando convictamente o que dissemos no início: o Japão é um país fascinante!

O topo do monte Fuji é o ponto mais alto do Japão: 3.776 metros. Esta foto, tirada do avião que nos levaria até Londres, na viagem de regresso a casa, fixa a última imagem da nossa visita ao país do sol nascente.

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Notas:

[1] A história do Japão cruza-se com a história de Portugal, porquanto os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao país do sol nascente, em 1542. (Ver nosso artigo em https://ilovealfama.com/tag/cristovao-ferreira/).

[2] Assim chamado por ter sido fundado, em 1603, por Tokugawa Ieyasu.

[3] Após a conquista da Califórnia ao México, em 1848, seguiu-se a descoberta de ouro, o que levou a uma explosão do tráfego marítimo americano na costa do Pacífico. A navegação de navios mercantes e baleeiros norte-americanos alargou-se, e muitos navios naufragaram, alguns em águas oceânicas próximas do Japão. Vários marinheiros americanos foram capturados e mortos pelos japoneses devido à política isolacionista do xogunato Tokugawa. Os americanos queriam que os marinheiros naufragados fossem ajudados e não mortos, bem como pretendiam que os navios americanos pudessem comprar carvão no Japão. Assim, o presidente americano Millard Fillmore enviou o comodoro Matthew Perry ao Japão com uma frota de quatro navios, dois deles vasos de guerra. O Japão na época não tinha navios nem máquinas a vapor. Perry deixou uma carta com as exigências americanas e disse que voltaria passado um ano para receber a resposta. Menos de um ano depois (em fevereiro de 1854) Perry regressou com nove navios de guerra. O xogum assinou o primeiro tratado japonês com um país ocidental e terminou com 215 anos de política de isolamento. Seguiu-se um período conturbado até ao fim do xogunato, que coincidiu com o início da Restauração Meiji e o enorme impulso na modernização do Japão.

[4] Recuperada em 1945 pela União Soviética.

[5] A forma como os japoneses se comportam na guerra diz muito sobre a sua cultura. São guerreiros ferozes e preferem morrer a renderem-se. E isso não acontece apenas com os militares: famílias inteiras cometeram suicídio para não se renderem aos americanos na II Guerra Mundial. Como se sabe, os japoneses continuaram a lutar mesmo depois da derrota de alemães e italianos e só após terem sido alvo de dois ataques atómicos, em Hiroshima e Nagasáqui, se renderam (2 de setembro de 1945).

[6] Foi essa falta de recursos a principal razão da política expansionista japonesa.

[7] Ainda não desembarcáramos em Yokohama e já nos deparávamos com uma amostra significativa do poderio económico japonês. Milhares e milhares de automóveis, alinhados sobre terraplenos gigantescos, aguardavam a sua vez de serem exportados, algures, para algum canto do mundo.

[8] Mais de 170 mil pessoas foram evacuadas e a radiação em indivíduos, solos e águas vai manter-se por muitos anos mais, assim como os esforços para contenção dos danos causados pelo acidente.

[9] A Guarda Costeira do Japão contabiliza as ilhas com mais de 100 metros de circunferência. De acordo com este critério, as ilhas japonesas são 6852. Quinze delas são ilhas vulcânicas ativas.

[10] Especialmente com a China.

[11] Cerca de 90% dos terramotos e 75% dos vulcões terrestres ocorrem no anel de fogo do Pacífico.

[12] Alguns vulcões no Japão constituem um elevado risco, como são, entre outros, os casos dos montes Unzen e Sakurajima (este último perto da densamente povoada cidade de Kagoshima), considerados “vulcões da década” pela Associação Internacional de Vulcanologia e Química do Interior da Terra (IAVCEI). Ver: https://www.iavceivolcano.org/

[13] O Japão é o quinto maior emissor mundial de dióxido de carbono proveniente do consumo de energia.

[14] A prática de ambas as religiões produz um dado curioso: a soma da percentagem de xintoístas (70,4%) com a de budistas (69,8%) é superior a 100%.

[15] Haverá poucos exemplos tão paradigmáticos da diversidade individual quanto uma grande orquestra ou uma equipa de futebol.

[16] Há quem se refira à “m.a.s.s. culture”: manga, anime, sushi e sashimi.

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Referências:

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Malásia

Aurora em Langkawi.

A Malásia é um país original, com algumas características muito particulares. Desde logo, a descontinuidade do território: uma parte na península da Malásia e outra parte na ilha de Bornéu (que divide com a Indonésia e o pequeno Brunei) separadas pelo Mar da China meridional. Depois, a população, constituída por três etnias distintas – malaios (62%), chineses (20,6%) e indianos (6,2%). É bastante curioso que os próprios partidos políticos representem essas etnias, e não classes ou ideologias, como é tradicional. Finalmente, a localização estratégica da Malásia, junto ao estreito de Malaca, que os navios que passam do Mar da China para o Mar de Andamão, e vice-versa, têm de percorrer. Esta zona do globo é, desde há muito, um ponto de encontro entre mercadores chineses, indianos, árabes e persas, um ponto nevrálgico, que aguçou a cobiça dos europeus: primeiro dos portugueses, depois de holandeses e britânicos.

A Sky Bridge.

Durante os séculos XVIII e XIX, a Grã-Bretanha estabeleceu colónias e protetorados na área da atual Malásia, os quais seriam ocupados pelo Japão durante a II Guerra Mundial, entre 1942-1945. Em 1948, os territórios governados pelos britânicos na península malaia, excetuando Singapura, formaram a Federação da Malásia, que se tornaria independente em 1957. Em 1963 juntaram-se à Federação as antigas colónias britânicas de Singapura, Sabah e Sarawak, estas duas na costa norte da ilha de Bornéu. Os primeiros anos da independência foram conturbados, com a retirada da Federação de Singapura (logo em 1965), reivindicações das Filipinas sobre Sabah, e confrontos com a Indonésia. Com o mandato do primeiro-ministro Mahathir Mohamad (1981-2003), a Malásia conseguiu diversificar a sua economia, passando da dependência quase exclusiva da exportação de matérias-primas para o desenvolvimento de manufacturas, serviços e turismo. Nos últimos anos, a Malásia vem tentando atrair investimentos em alta tecnologia, indústrias e serviços baseados no conhecimento.

Um percurso considerável até atingir o topo de Mat Cincang, o segundo monte mais alto de Langkawi (610 metros). Lá em cima, nos dias claros, avista-se, ao norte, a Tailândia e, a sudoeste, a ilha de Sumatra, na Indonésia.

A aposta na tecnologia permitiu um desenvolvimento enorme no campo das telecomunicações, pelo que a Malásia é, hoje, um dos países mais avançados nas tecnologias 4G e 5G, com cobertura de quase todo o território nacional. O segredo do relativo sucesso do país parece ser o de criar oportunidades para o conjunto da população, independentemente da etnia ou credo religioso[1], criando as condições de base, através de instituições democráticas, para a consolidação de uma sociedade liberal. De facto, pudemos constatar que a Malásia é uma sociedade tolerante, observando, nas ruas, tal como já acontecera na nossa visita à Tailândia, a harmonia entre as diferentes comunidades, muito diferente da que (não) ocorre, por exemplo, em alguns países do Médio Oriente.

Primeiro exemplo da arquitetura mogol[5] na Malásia: edifício Sultão Abdul Samad (1894-1897). Simétrico, possui uma torre-relógio com 41 metros de altura. Ocuparam este espaço a Federação de Estados Malaios (em 1897) e o Supremo Tribunal da Malásia (em 1972). Atualmente, está aqui instalado o Ministério do Turismo e Cultura da Malásia.

Assim, pudemos visitar tranquilamente mesquitas, pagodes, templos, igrejas, mercados tradicionais e apreciar, nos espaços públicos, a diversidade de costumes inerente a uma sociedade multicultural. Após termos estado em George Town[2], a nossa visita pela Malásia prosseguiu com uma paragem em Langkawi[3] e outra em Kuala Lumpur. Lankawi é uma pequena ilha (talvez do tamanho do Faial, nos Açores) situada no Estreito de Malaca, mas bem perto da costa continental, a uns meros 15 kms. Toda virada para o turismo, possui belas praias (sobretudo Tanjung Rhu, no norte, e Pantai Cenang, no sul), parques naturais e zonas de montanha, com profusa vegetação. Além disso, tem alguns equipamentos interessantes, como sejam um teleférico que nos conduz ao topo do monte Mat Cincang, onde encontramos uma ponte pedestre que parece suspensa no vazio. Pudemos visitar também dois museus, um etnográfico e um outro dedicado ao ciclo do arroz (museu Laman Padi); e visitámos ainda um enorme centro de artesanato[4], com vários stands de artesãos locais, alguns vendendo peças bastante interessantes. Como seria de esperar, tudo gira em torno do turismo nesta ilha, “porto livre de impostos”, desde 1987.

Twin Towers, em Kuala Lumpur. 452 metros de altura.

Kuala Lumpur, como grande capital, é mais cosmopolita. Alguns ocidentais instalaram-se aqui para aproveitarem as oportunidades de negócio que a abertura malaia vem oferecendo[6]. A parte antiga da cidade é a mais interessante. Aí encontrámos o mercado central (antiga sede do governo britânico), a Chinatown, o Palácio Nacional[7], a Praça da Independência e alguns edifícios interessantes, como o Tudor, do Royal Selangor Club, e a bonita catedral de Santa Maria a Virgem, dos finais do século XIX. Desde essa zona mais antiga da cidade, junto ao rio Kelang, seguimos a pé até à mesquita nacional da Malásia (Masjid Negara).Não longe ficam os templos Kuil Sri Maha Mariamman (hindu) e Sin Sze Si Ya (taoísta) e o Museu Nacional da Malásia (Muzium Negara). Após tomarmos uma água de coco junto ao mercado central, retemperámos forças para subirmos até à quarta torre de telecomunicações mais alta do mundo (Menara Kuala Lumpur), terminando a nossa visita à capital da Malásia nas emblemáticas Petronas Twin Towers.

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Notas:

[1] A religião oficial é o islamismo (cerca de 61%), mas budistas (20%), cristãos (9%), hindus (6%), bem como outros credos, incluindo alguns tradicionais chineses, são respeitados.

[2] Ver nosso artigo sobre George Town aqui: https://ilovealfama.com/2020/05/29/street-art-george-town-malasia/

[3] Langkawi, em malaio, significa “águia”.

[4] Complexo Cultural e Artesanal Budaya.

[5] Apesar do império Mogol ter tido uma relação direta com o império Mongol ( Babur, o fundador da dinastia Mogol, era descendente de Gengis Khan) foram realidades diferentes. O império Mogol durou de 1526 a 1857 e compreendia a maior parte dos territórios atuais da Índia, e dos Paquistão, Afeganistão e Bangladesh. Era, no seu apogeu, provavelmente o mais rico e poderoso do planeta. Profundamente islâmico, entrou em declínio nos finais do século XVIII sendo definitivamente sepultado pela expansão de um outro império, o britânico.

[6] Conversámos sobre a realidade malaia com dois ocidentais: um guia turístico espanhol, que também tem um restaurante na cidade, e um senhor inglês que já vive em Kuala Lumpur há 30 anos.

[7] Conhecido como Istana Negara.

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Phuket e Phang Nga, Tailândia

A baía de Patong, na ilha de Phuket.

A Tailândia reúne excelentes condições para a prática do turismo ligado ao mar: ilhas idílicas, clima tropical, paisagens arrebatadoras, povo acolhedor, e um destino relativamente barato para os padrões ocidentais. Na nossa curta estadia estivemos na ilha de Phuket, desembarcando na localidade de Patong, uma das mais atingidas pelo tsunami de 26 de Dezembro de 2004. Daí tomámos um autocarro em direção a Phang Nga.

Ilha de James Bond.

Chegados ao Parque Nacional, apanhámos de imediato uma lancha para a ilha Kao Ping Gun, atualmente conhecida por ilha James Bond, devido às filmagens finais do filme “O Homem da Pistola Dourada”, que ali decorreram. O percurso de lancha é feito através de uma paisagem quase surrealista, repleta de penhascos calcários. O nosso ponto de paragem seguinte foi em Koh Panyi, um povoado flutuante, com casas construídas sobre estacas e passadeiras de madeira entre elas. A povoação tem mesquita, escola, lojas e vários restaurantes. Almoçámos num deles. A população residente é muçulmana e vive quase exclusivamente do turismo.

Recinto desportivo flutuante na povoação de Koh Panyi.

Quando finalmente a lancha nos deixou em terra firme tomámos de novo o autocarro, que rumou ainda mais para Norte, até Krasom, onde visitámos o templo budista Suwan Khuha, situado dentro de uma gruta, um dos mais importantes da Tailândia. Era já noite cerrada quando regressámos a Patong, agora extremamente animada, com as ruas repletas de turistas, fumo, cheiros, sons, incontáveis bares, restaurantes, e todo o tipo de comércio, incluindo a prostituição. Ao contrário da maioria dos lugares, é quando começa a noite que Patong acorda.

No interior de Suwan Khuha.

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Street Art, George Town, Malásia

“Brother and Sister”. George Town é uma cidade fotogénica.

Provavelmente será um dos nomes mais comuns de cidades em todo o mundo. Nós próprios já estivéramos noutra Georgetown, a capital das ilhas Caimão, mas esta, em particular, apesar de igualmente situada numa ilha, é a capital da província de Penang, na Malásia, que, “em reconhecimento da preservação histórica e cultural”, passou, juntamente com Malaca, a ser considerada Património Mundial UNESCO em Julho de 2008. Estas cidades situam-se no Estreito de Malaca, uma passagem marítima estratégica, desde há muitos séculos.

“Old Motorcycle”, de Ernest Zacharevic.

Quando, em 1511, Afonso de Albuquerque conquistou Malaca, esta era o ponto mais ocidental até onde navegavam os marinheiros chineses (muitos dos quais aí se instalaram na chamada Colina Chinesa), e para onde navegavam igualmente, mas em sentido contrário, indianos, persas e árabes para comprarem sedas e porcelanas. Hoje, mais de cinco séculos depois, o Estreito de Malaca, com 800 kms de comprimento e, no ponto mais estreito, apenas 3 kms de largura, é vital para a China, pois é por lá que passam os navios oriundos do Golfo Pérsico, carregados do petróleo de que este país tanto necessita. Continua, pois, a ser uma zona nevrálgica do globo, onde muitos interesses se cruzam.

“Brother and Sister on Swing”, de Louis Gan.

Para assinalar a passagem de George Town a Património Mundial, o governo malaio decidiu promover uma competição destinada a encontrar a melhor proposta artística para as ruas da zona histórica da cidade. O vencedor foi o coletivo Sculpture at Work, que apresentou, em 2012, uma série de 52 caricaturas em ferro, intitulada Marking George Town, as quais narram, em imagens, episódios da história do burgo. Os criadores foram Tang Mun Kian, Baba Chuah, Reggie Lee e o consagrado autor de banda desenhada malaio, Julian “Lefty” Kam. Estas peças fazem parte de um roteiro que foi sendo enriquecido com obras de outros artistas, nomeadamente, do lituano Ernest Zacharevic, com o projeto Mirrors George Town.

“Kids on Bicycle”, na Lebuh Armenian, é considerado o melhor trabalho, em George Town, de Ernest Zacharevic.

Os trabalhos de Zacharevic em George Town são uma combinação de objetos com pinturas, permitindo aos visitantes interagir com as obras. Os modelos retratados, normalmente crianças, são pessoas reais da população local. Um mapa com indicação dos pontos onde se podem ver estes trabalhos está disponível em vários pontos turísticos de George Town. Foi com um exemplar na mão que percorremos toda a cidade. Nessa altura não sabíamos que Ernest Zacharevic já estivera em Lisboa, em 2015, na inauguração da sua terceira exposição individual (a primeira na Europa), The Floor is Lava, na Galeria Underdogs.

Uma das 52 caricaturas em ferro das paredes da cidade. “Para consternação dos paroquianos da Igreja Portuguesa, a rua da Igreja também abrigava a sede da sociedade secreta Ghee Hin”. Como se vê, os portugueses não foram esquecidos.

É patente em George Town um contraste harmónico entre as culturas chinesa, indiana e malaia. Existe tolerância religiosa. A população é simpática e pacífica, como simpático é o custo de vida, realmente acessível, nomeadamente no que toca à alimentação e ao alojamento. Vale seguramente a pena visitar os templos Kuan Yin (budista), Sri Mariammam (hindu) e Kapitan Keling (muçulmano), bem como o forte Cornwallis e o templo do clã chinês Khoo Kongsi, entre muitos outros locais de interesse.

“Little Boy with Pet Dinosaur”, na Ah Quee Street, ainda um trabalho de Ernest Zacharevic.

A zona histórica está concentrada junto ao porto e pode ser percorrida a pé, mas, com calor intenso, talvez seja aconselhável fazê-lo no início ou no final do dia. Outra forma interessante de circular é alugando uma bicicleta; pode também apanhar-se o Cat Bus, e fazer uma viagem grátis em torno da cidade. Quem quiser hospedar-se com estilo pode ficar no Eastern & Oriental Hotel, um palácio colonial convertido em hotel de cinco estrelas, onde se pode tomar um magnífico pequeno-almoço debruçado sobre o mar. Por tudo isto, sobretudo para os amantes da street art, vale a pena visitar George Town, uma cidade histórica, colorida e verdadeiramente fotogénica.

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Parque Natural da Ria Formosa

Cacela Velha, talvez o recanto mais charmoso do Parque.

A presença humana na Ria Formosa é muito antiga. Os romanos fundaram aqui uma das maiores cidades da Hispânia, Balsa, e antes deles já fenícios e cartagineses se haviam instalado no mesmo local. Os restos dessa cidade encontram-se debaixo de terra, na Torre d’Aires, mas há outras evidências à superfície que confirmam a posição estratégica da ria: as fortalezas dos Cavaleiros de Santiago, em Cacela, e de São João da Barra, em Cabanas, e o já muito arruinado forte de Santo António, em Tavira, foram construídos nesta zona porque os navios que contornam a costa, oriundos do Mediterrâneo, têm de passar por aqui.

As praias da Ria são uma boa alternativa às praias de mar aberto, sobretudo para quem tem crianças.

Para lá da posição estratégica, toda a zona do Parque Nacional da Ria Formosa foi, e é, igualmente importante do ponto de vista económico. As armações de atum, vitais para as populações do Sotavento durante os séculos XIX e XX, sobretudo para as famílias que, em comunidade, ocupavam os arraiais, foram também fonte de rendimento para trabalhadores e trabalhadoras da indústria conserveira. O cemitério de âncoras, no Barril, é um vestígio icónico desses tempos, quando os incríveis cães d’água (raça hoje reconhecida como “cão d´água português”) ainda ajudavam na faina.

Praia do Barril: bela e singular.

A extração de sal, com certeza muito antiga, manteve-se até hoje; e a flor de sal de Tavira, usada pelos mais afamados cozinheiros de todo o mundo, é de qualidade superior. Outro produto típico da Ria Formosa são as ostras, que beneficiam do movimento das marés e do sol algarvio para ganharem uma especial depuração. As mais famosas são as do Moinho dos Ilhéus, exportadas para vários países e disponíveis para degustação na Noélia, em Cabanas, um dos melhores restaurantes portugueses; e as mais populares são as dos viveiros da Fábrica, que se podem provar na Casa da Igreja, em Cacela (talvez na volta da praia), como manda a tradição.

Pernilongo – uma das aves mais comuns da Ria Formosa.

Daí, do magnífico miradouro de Cacela Velha, podemos distinguir, entre ria e mar, uma língua de areia fina e comprida, que se estende até o Barril – são as melhores praias da Europa! E, por todo o lado, arbustos, árvores, flores e frutos tipicamente mediterrânicos: não apenas a tríade figo, alfarroba e amêndoa, mas também citrinos, nêsperas e medronhos, entre muitos outros. Nas salinas, as aves são tão variadas que, só por elas, já vale a pena sair de casa: flamingos, mergulhões, garças, maçaricos, patos-bravos, pernilongos… E, no mar, os melhores peixes e mariscos.
Pura sorte, nestes tempos de confinamento, termos, a dois passos, esta ria tão singular. Sempre diferente, sempre formosa.

Ilha-barreira de Cacela. As melhores praias da Europa.

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Nomonde Mdalose

Muito simpática e bonita, esta sul-africana é dona de uma voz fabulosa. Que encontre em breve o palco que o seu talento merece – o mundo!

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Macau

O colégio da Madre de Deus e a igreja da Assunção de Nossa Senhora (anexa), em Macau, foram abandonados pelos jesuítas no século XVIII, após a ilegalização da Companhia de Jesus, sob forte influência do Marquês de Pombal. Em 1835, um violento incêndio deixou apenas de pé a bela fachada (“fachada retábulo”, de acordo com o gosto europeu da época) daquela que foi, em tempos, uma das maiores igrejas do Extremo Oriente. Do colégio, um importante refúgio para os jesuítas fugidos da perseguição japonesa, quase nada sobreviveu. Eis as “Ruínas de São Paulo”.
A designação (“Ruínas de São Paulo”) ficou a dever-se ao hábito que as pessoas adquiriram de chamar ao conjunto (colégio e igreja) Colégio de São Paulo porque era conhecida a particular devoção dos padres jesuítas por este santo. O nome manteve-se até hoje. Na colina adjacente, de onde tirámos esta foto, encontra-se a Fortaleza do Monte, construída no século XVII, dentro da qual foi criado recentemente o Museu de Macau. Este conjunto constitui o núcleo histórico classificado pela UNESCO, desde 15 de julho de 2005, como Património Mundial, e é a maior atração turística do território.
Apesar da presença portuguesa ser bem visível por aqui, quase não se ouve falar português em Macau. Apenas entre a pequena comunidade lusa (os números oficiais são contraditórios, mas no local disseram-nos que os portugueses são cerca de 30 mil) ou quando lemos em voz alta os nomes das ruas, alguns, de resto, bastante curiosos e interessantes. Não é crível que um viajante luso possa ficar indiferente, tão longe de casa, ao Pátio da Eterna Felicidade.
Nem pode o viajante ficar indiferente perante a Misericórdia de Macau, uma das mais antigas do mundo, com mais de 450 anos, ainda em atividade. A fachada principal está virada para o Largo do Senado (só acessível a quem circule a pé sobre a calçada portuguesa), no qual se encontra um belo fontanário circular. O edifício está incluído no Conjunto dos Monumentos Históricos de Macau, Património Mundial da UNESCO, desde 2005.
Não admira, porém, que a Misericórdia se mantenha em atividade. Macau é pobre e isso é visível a olho nu. Essa pobreza contrasta com o imenso dinheiro que circula pelos vários casinos do território. “El Chapo”, um conhecido traficante mexicano recentemente condenado a prisão perpétua, gostava de ir (no seu jacto privado) jogar a Macau e, a avaliar pela ligação que os chineses têm ao jogo, o futuro dos casinos parece longamente assegurado.

Vietname

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Imagem da cidade de Da Nang, Vietname.

O Vietname é um país ainda muito marcado pelo colonialismo e a guerra[1], mesmo que para as novas gerações esses tempos façam já parte da história . À semelhança da China (embora as comparações com a China não sejam muito bem recebidas no Vietname), o seu regime de partido único vem abrindo a economia do país à iniciativa privada. Essa abertura tem permitido o investimento estrangeiro, o incremento do turismo e a criação de infraestruturas, num país onde ainda falta quase tudo. Isto proporcionará, em princípio, a criação de empregos, o aumento do consumo e do poder de compra[2], em suma, uma melhoria significativa na vida dos (cerca de 95 milhões) de vietnamitas.

Porém, a abertura económica será sempre insuficiente, se não conduzir à abertura política. E abertura política implica um sistema educativo livre, sem condicionamento ideológico. Como em todas as sociedades, também no Vietname a batalha do bem-estar social começa na Educação.

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[1] As consequências da guerra foram terríveis e ainda se sentem hoje. Os americanos lançaram quatro vezes mais bombas sobre território vietnamita do que todas as bombas lançadas durante a II Guerra Mundial. Os efeitos são, ainda hoje, devastadores, com vastas regiões envenenadas com a dioxina TCDD presente nos milhões de litros de agente laranja lançados dos aviões norte-americanos.

[2] Do PIB per capita.