Sotavento

Praia Verde, Algarve, 19:00 horas. A temperatura do ar rondará os 25, 26 graus; a do mar, uns cinco a menos. Nada que impeça um banho revigorante. O Algarve é a região terrestre mais ocidental (se excetuarmos as ilhas) onde vigora o chamado clima mediterrânico. Se partíssemos daqui em direção a Leste, até ao Crescente Fértil, manter-nos-íamos durante toda a viagem sob a influência deste clima. Poderíamos ir por terra (contornando a costa sul da Europa) ou por mar, entrando pelo Estreito de Gibraltar e cruzando o próprio Mediterrâneo, num trajeto oposto ao que fizeram os fenícios, quando há milhares de anos chegaram pela primeira vez ao Algarve. Ao contrário do que muitos supõem, este clima é pouco comum no mundo e contempla apenas outras quatro (mas muito pequenas) zonas do globo: o sudoeste da Austrália, o sul da Califórnia, o sul da África do Sul e uma parte do Chile. Não existe em mais lado nenhum. O clima mediterrânico — genericamente caracterizado por verões muito quentes e secos, e invernos frios e chuvosos — teve uma importância decisiva na história da humanidade. Não foi por acaso que as primeiras civilizações nasceram no Crescente Fértil: devemo-lo à especificidade do clima e às espécies animais e vegetais que a ele se adaptaram, e que não existiam noutros lugares. Sem o clima mediterrânico não seria possível termos o melhor pão, o melhor azeite, o melhor vinho, as melhores e mais variadas frutas, os melhores queijos e, já agora, a luz mais pura (que o digam os pintores). Para se ter uma ideia, só em Portugal existem mais de 250 castas de uvas, um desafio aceite por cada vez mais enólogos oriundos de longínquas paragens para aqui produzirem alguns dos melhores vinhos do mundo. Mas a Natureza brinda-nos de muitas outras formas. As nossas praias estão entre as mais bonitas e aprazíveis do planeta. Nesta época do ano, quando os dias parecem não ter fim, podemos ficar na praia até mais tarde, para vermos o sol pôr-se para lá das 21:00 horas. Por vezes, na mudança de maré, o vento para, o mar para, os sons param, e temos a sensação de que o tempo e os nossos pensamentos param também. Esta experiência é mais extraordinária quando ficamos sozinhos na praia. Na última vez, que foi hoje, um passarinho de poupa ficou parado na linha d’água, olhando o mar, que era um espelho imenso. Naquele momento eu, a minha companheira e o passarinho de poupa, pareceu-me, podíamos perfeitamente trocar identidades. E pareceu-me também que esta ilusão só é possível aqui, nas praias do Sotavento, onde o tempo não corre, escorre.

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De Timon a Belém — e volta

Antes da partida e da esquerda para a direita: Fernanda foi de ônibus para Belém e Luan ficou em Timon. Os cinco restantes fizeram a viagem, a que se refere este artigo, de ida e volta, de carro, entre Timon e Belém.

Esta viagem enquadra-se numa mais ampla que fizemos (eu e Fla) ao Brasil, entre 22 de setembro e 24 de outubro de 2023. Estivemos em seis estados (Piauí, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Pará e Ceará) e cinco capitais (Teresina, Recife, João Pessoa, Belém e Fortaleza). O centro desta viagem foi a casa onde vive a mãe da Fla, em Timon, no Maranhão, aonde regressámos sempre, após visitarmos outros estados e cidades, até voltarmos a Portugal. Dado que Teresina fica do outro lado do rio Parnaíba, fomos também muitas vezes à capital do Piauí enquanto estivemos em Timon. A nossa viagem de carro a Belém — e volta — aconteceu entre os dias 15 e 22 de outubro.

Desde logo, uma informação aos automobilistas que queiram fazer este trajeto: excetuando uns 50 quilómetros na zona de Zé Doca e uns 30 antes de chegar (ou depois de sair) de Belém, devido a reformas, a estrada está boa e perfeitamente transitável. O nosso pequeno Hyundai i20 (na verdade, não era nosso mas sim emprestado por Fernanda, irmã de Fla) foi e voltou cheio, com três adultos e duas crianças: os nossos sobrinhos Benjamim e Frederico, a avó deles, a filha da avó que é a minha mulher, Flávia, e eu. O objetivo da nossa ida a Belém, para lá de conhecermos a cidade, era o de nos encontrarmos com Fernanda, que vive na capital do Pará, após ter iniciado funções como auditora no Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Pará. Saímos de Timon às 10:30 da manhã e só parámos para almoçar na Churrascaria do Genival, em Alto Alegre do Maranhão, seguindo de imediato para Zé Doca, aonde chegámos por volta das cinco da tarde, para pernoitarmos. No dia seguinte, após dormirmos e tomarmos o café da manhã em casa de amigos da Fernanda, regressámos à estrada. Algumas horas depois atravessámos o rio Gurupi, que separa os estados do Maranhão e do Pará, almoçámos em Santa Maria do Pará (no restaurante Bom Gosto) e chegámos a Belém às três e meia da tarde.

Porto do Ver-o-Peso.

Em Belém ficámos instalados num excelente apartamento, na Avenida Nossa Senhora da Nazaré, a uma quadra da basílica homónima. O alojamento é suficientemente espaçoso, com dois quartos, cada qual com seu banheiro, totalmente equipado, estacionamento no subsolo e, além disso, muitíssimo bem localizado. O preço por cinco dias foi de €357,85. O primeiro dia serviu para nos instalarmos, encontrar-nos com Fernanda, irmos ao supermercado, darmos uma pequena volta de carro pela cidade, e pouco mais. No dia seguinte, de manhã, cirandámos pelo bairro de Campina: visitámos demoradamente o mercado Ver-o-Peso, fomos ao mercado Francisco Bolonha, andámos pela Praça do Relógio e terminámos o nosso passeio na Praça da República, antes do regresso ao apartamento. Depois do almoço, já com Fernanda, visitámos a Basílica de Nossa Senhora da Nazaré, passeámos um pouco e fomos lanchar ao Point do Açaí, no Blvd. Castilhos França, em Campina.

Já comêramos inúmeras vezes açaí noutras partes do Brasil, e até em Portugal, ou assim o pensáramos até então, mas só em Belém comemos pela primeira vez açaí verdadeiro — puro. Tem um sabor muito forte e amargo, difícil para quem não está habituado, o que não é o caso dos paraenses que acompanham praticamente tudo com açaí, desde pratos de peixe ou carne até sobremesas.

No Point do Açaí, em Belém.

No terceiro dia em Belém, logo de manhã, antes do calor apertar, fomos com os meninos ao Parque Urbano Belém Porto Futuro. Trata-se de um parque desportivo bem equipado, onde se pode estar em lazer ou praticando exercício físico. Benjamim (9anos) e Frederico (7 anos) divertiram-se bastante percorrendo os diversos aparelhos, correndo, escalando, pulando e baloiçando. Ainda da parte da manhã, depois de deixarmos os meninos e a avó Joana em casa, eu e Fla fomos a uma visita guiada ao Teatro da Paz. (Por pura sorte era quarta-feira e a visita foi gratuita). Construído à imagem do La Scala, em Milão, este teatro situado na Praça da República é seguramente um dos mais belos do Brasil, se não o mais belo mesmo.

Fundado em 1878, o Teatro da Paz tem uma acústica perfeita, lustres em cristal, piso de madeiras nobres, frescos nas paredes e teto, além de obras de arte de indiscutível valor, pintadas ou esculpidas, entre outros elementos decorativos. A sua escadaria de entrada é de mármore italiano e a imponente fachada foi reformada em 1905 para reproduzir fielmente o estilo neoclássico, importado de Itália. Já estivemos no Teatro alla Scala e podemos assegurar que o Teatro da Paz é, de facto, muito parecido com a mítica sala milanesa, sem deixar de ser original.

Teatro da Paz, na Praça da República, em Belém.

Felizes por termos visitado o Da Paz fomos almoçar ao restaurante Avenida, que fica muito perto do apartamento onde estávamos hospedados, na mesma avenida, quase em frente à Basílica da Nazaré, pelo que podemos deixar o carro no estacionamento do “nosso” prédio. Tinham-nos dito que no Avenida — inaugurado por um português já falecido (Fernando José de Oliveira) e continuado pelos seus filhos — se comia o melhor pato no tucupi de Belém, e fomos experimentar. Não podemos dizer que adorámos, mas comemos sem reclamar. Como já ficou dito, a cozinha paraense é forte e é preciso tempo para absorvê-la. O tucupi é um molho amarelo fermentado, extraído da raiz da mandioca brava, que acompanha vários pratos tradicionais do Pará, assim como o jambu, uma erva que lembra o agrião, mas muito mais amarga, que, claro, também entra no pato no tucupi. Sinceramente, não tivemos tempo suficiente para assimilar todo o esplendor da gastronomia paraense, mas podemos dizer que topámos-lhe o potencial.

Após o almoço fomos todos (os 6) ao bosque Rodrigues Alves, no bairro do Marco, já bem afastado do centro da cidade. Trata-se de um espaço verde zoobotânico (assim referido no local), exuberante, com espécies típicas da Amazónia, onde o ar verde nos envolve em ondas de frescura. A meio da nossa visita caiu uma carga de água diluviana e tivemos de esperar que abrandasse para podermos fugir para o carro. Apesar disto, valeu muito a pena a visita interrompida a este parque.

Benjamim no Museu das Ilusões, Belém.

No quarto dia, de manhã, decidimos regressar ao mercado Ver-o-Peso para comprarmos um peixe para o almoço. Escolhemos um tambaqui, peixe de água doce que, para nossa surpresa, não tinha o sabor a terra que muitos dos que comêramos antes apresentavam. Dona Joana temperou-o a preceito e cozinhou-o na panela, em leite de coco. Comemo-lo acompanhado por arroz branco, e estava, de facto, delicioso. Depois do almoço fomos todos ao Museu das Ilusões, um espaço inserido num centro comercial, bem perto do aeroporto internacional de Belém. As crianças divertiram-se bastante com as inúmeras ilusões — e a alegria delas fez também a nossa.

Mais para o fim da tarde ainda tivemos tempo para irmos à Estação das Docas comer um sorvete na famosa Cairu, enquanto o sol pousava no horizonte. Aqui é possível encontrar sabores pouco comuns, mas deliciosos, como bacuri, murucí, cupuaçu, araçá, além, claro, do próprio açaí. A Estação das Docas é um espaço bem recuperado, onde para lá da traça original dos antigos armazéns portuários se mantêm também os vistosos guindastes amarelos, desativados no cais. Restaurantes, lojas, esplanadas, um teatro, uma fábrica de cerveja, entre outros equipamentos, são motivos de atração para habitantes e turistas, que ali se reúnem a partir do final do dia.

Fla e Pinduca, o rei do Carimbó.

Mas esta jornada bem preenchida ainda não estava completa. À noite, eu e Fla, agora acompanhados com Fernanda, voltámos ao Teatro da Paz, desta feita para assistirmos ao primeiro dia do 30º FIDA — Festival Internacional de Dança da Amazônia. Quando chegámos pudemos constatar que a iluminação externa do teatro destaca-o da envolvente e realça ainda mais a sua beleza quando é noite. O espetáculo foi interessante, com muitos intervenientes e, no final, tivemos a sorte de encontrar Pinduca, o rei do Carimbó, com quem tivemos a oportunidade de conversar um pouco.

O quinto dia em Belém, sexta-feira, 20 de outubro, foi muito importante para mim e Fla, pois foi o dia em que conhecemos Lúcio Flávio Pinto. Combinámos encontrar-nos com ele na Banca do Alvino, em plena Praça da República, às 8:30 da manhã. Assim, logo após o café da manhã seguimos para lá. Após uma agradável troca de impressões, Lúcio concedeu-nos uma entrevista, que pode ser lida em https://ilovealfama.com/2023/10/31/lucio-flavio-pinto/.

O grande Lúcio Flávio Pinto com Fla, na Praça da República, em Belém.

Depois deste inesquecível encontro, fomos ao apartamento para levarmos connosco D. Joana e os meninos a uma visita ao Parque Zoobotânico e Museu Emílio Goeldi, não muito longe do local em que estávamos alojados, no bairro de Nazaré. Infelizmente, devido às fortes chuvadas que tinham caído, o museu estava encerrado, pelo que só tivemos oportunidade de percorrer o parque. Mais uma vez, pudemos observar espécimes representativos da Amazónia, mas não só. Uma linda onça pintada — que fora confundida com um gato e adotada por um habitante que posteriormente a entregou ao IBAMA — encantou Benja e Derico. Neste dia, o último completo em Belém, decidimos ainda provar mais alguns pratos locais, tipicamente paraenses. Em frente ao Avenida — o restaurante onde provámos o pato no tucupi — há um quiosque muito frequentado que nos disseram servir as melhores comidas típicas de Belém. Fomos lá almoçar. Provámos o Tacacá, o Cururu e o Vatapá. Os sabores destes pratos são tão diferentes em relação ao que estamos habituados que não nos surpreende o título conquistado por Belém de Cidade Criativa da Gastronomia, pela UNESCO.

À tarde Fernanda veio connosco (ela só podia juntar-se-nos depois do trabalho) a outro parque, este mesmo ao lado da Cidade Velha — Mangal das Garças. Menos densificado e mais aberto do que os anteriores, este parque tem mais relvados e lagos, bem como árvores de menor porte. Destacam-se também as aves aquáticas e diversos tipos de papagaios.

No Mangal das Garças.

No centro do parque fica o Farol de Belém, uma estrutura em ferro que podemos subir de elevador (por 5 reais) e desfrutar das melhores vistas sobre a cidade. Quando saímos do Mangal das Garças continuámos o nosso passeio pela Cidade Velha, visitando a Igreja do Carmo, a Praça D. Pedro II, a Catedral Metropolitana e o Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. A nossa visita a Belém estava chegando ao seu termo. À noite percorremos, de carro, uma vez mais algumas das ruas de Belém, já em jeito de despedida. No dia seguinte, o sexto em Belém, saímos cedo para percorrermos de novo a BR 316, agora no sentido inverso, em direção a Timon. Ao fim e ao cabo, limitámos a nossa visita à cidade propriamente dita, não saímos de Belém, não visitámos nenhuma ilha, não fomos a Marajó nem a nenhuma praia, mas, dentro do tempo limitado, conhecemos locais e pessoas bastante interessantes da cidade. No entanto, queremos fazer nova visita para visitarmos os locais referidos e, eventualmente, outros, até porque, sem dúvida, há algo que podemos desde já dizer: O Pará é um estado fantástico, por isso, sim, voltaremos.

Uma das vistas do topo do Farol de Belém.

A saída de Belém por estrada está muito condicionada devido a obras. Os primeiros 30, 40 quilómetros são extremamente lentos, pelo que se recomenda sair o mais cedo possível. Não foi o nosso caso, e por isso apanhámos muito trânsito. Almoçámos em Santa Luzia do Pará num restaurante familiar, pequeno, mas com comida boa. Fica do lado esquerdo da estrada. Mais uma vez, pernoitamos em Zé Doca, na Pousada do Farol, aonde chegámos por volta das 4 da tarde. Este alojamento tem quartos razoavelmente confortáveis, com ar condicionado, serve café da manhã aceitável e não cobra caro: 260 reais para os cinco (um quarto de casal e um quarto para 3 pessoas). No domingo, 22 de outubro, completámos a nossa viagem a Belém, e volta, chegando a Timon por volta das 14 horas, depois do almoço em Peritoró, no Espetinho do Paraibano. Tínhamos percorrido, no total, cerca de 2.000 quilómetros de carro. Valeu!

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Arte em Alte

Renata e Daniel interpretando uma canção tradicional.

Alte é uma aldeia inserida no concelho de Loulé, em pleno coração do Algarve. É considerada, com justiça, uma ilustre representante das aldeias tradicionais portuguesas, com casas brancas de chaminés trabalhadas, ruas floridas, uma bela igreja matriz, e o alvo casario cravado na colina ocre e verde, dentro de uma paisagem tipicamente mediterrânica.

Alte sempre teve uma atividade cultural própria, destacando-se o artesanato local, a música e dança (com os 75 anos de atividade do Rancho Folclórico da Casa do Povo), e atividades desportivas ao ar livre, como o percursos pedestres e ciclismo.

Por tudo isto, e muito mais, vale a pena visitar Alte. E o “muito mais” é mesmo muito: estamos a pensar, por exemplo, em dois ateliês na praça central da aldeia, frente-a-frente, tão bem localizados que é impossível não os encontrar. Um pertence a Daniel Vieira e o outro a Renata Pawelec. Daniel é natural de Alte, Renata é polaca, e ambos são artistas plásticos e músicos.

Renata Violetta interpretando um fado clássico.

Assim, para lá de se inteirar dos trabalhos plásticos destes artistas, o visitante pode ter a sorte de assistir a um intimista espetáculo musical dentro do próprio ateliê de Renata. Apaixonada pelo fado, após uma noite passada no Clube de Fado, em Lisboa, ela passou desde aí a cantá-lo, lutando por ultrapassar o sotaque e conseguindo chegar a várias finais de concursos dedicados à arte fadista. A voz de Renata é doce, harmoniosa e intimista e ela sabe colocá-la na perfeição, tal como tivemos a sorte de constatar aquando da nossa última passagem por esta tradicional aldeia algarvia.

Além da parceria artística, uma amizade quase tangível liga Daniel e Renata. Também isto, para lá das pinturas e das músicas, nos tocou.

Voltaremos.

Jamais esqueceremos esta passagem por Alte. Nesta foto estão, da esquerda para a direita, uma polaca, dois portugueses e três brasileiros.

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Cruzeiro nas Caraíbas

Este artigo, além de servir o nosso desejo de registar a viagem que fizemos pelas Pequenas Antilhas, no Caribe Oriental, pretende ser também um guia orientador para quem queira fazer um cruzeiro naquele que é, provavelmente, o destino turístico mais popular do planeta para este modo de viajem. Ele será tanto mais útil quanto mais próximo do nosso for o conceito de viagem (em cruzeiro) do leitor. Devemos dizer que fizemos já mais de doze cruzeiros e que, naturalmente, o nosso conceito de viagem em navio de cruzeiro foi-se alterando com o tempo. Não nos interessa tanto usufruir das mordomias do navio, mas muito mais conhecer os locais onde o navio aporta com o máximo de profundidade que conseguirmos. Claro que isto depende muito do itinerário. Se o navio passar muitos dias no mar, sem paragens, então aí não teremos alternativa à fruição no navio. Já fizemos algumas viagens assim, mas esta, de 15 dias, com apenas dois deles a navegar, não se enquadrava nesse tipo. O que nós queríamos ao reservarmos este cruzeiro era prioritariamente conhecer as 10 ilhas do itinerário.

Maho Beach, em São Martinho.

Como temos disponibilidade para viajar quando quisermos, pudemos conjugar os voos com as datas de início e de fim do cruzeiro mais favoráveis, que, no caso vertente do MSC Seaside, ocorreria, de acordo com as opções disponíveis, em uma de três ilhas do itinerário: São Martinho, Guadalupe ou Martinica. Aproveitámos também para fazer a reserva num período em que a Logitravel estava a fazer um desconto de 5% nas viagens de cruzeiro. Claro que antes de optarmos por esta agência, analisámos os preços em outras agências, sobretudo as que já conhecemos por praticarem bons preços, nomeadamente a cruisedirect.com (uma companhia canadiana e americana que pratica preços muito competitivos), com a qual já contratámos outras viagens. Analisando tudo isto, chegámos à conclusão de que a melhor opção era a de viajarmos para São Martinho no dia 12 de março e regressarmos no dia 28. (Havia a opção de um cruzeiro mais curto, de apenas 7 dias, mas nós optámos pelo cruzeiro mais longo de 15 dias). O preço final do nosso cruzeiro para duas pessoas (já com todas as taxas, também as de hotelaria, incluídas) foi de €2.868,10. Os voos de ida e volta (Air France), igualmente para duas pessoas, ficaram em €1.194,30.

Depois destas despesas, calculámos gastar, durante a viagem propriamente dita, mais €800,00. Isto deveria incluir tudo: aluguer de carros, transporte de e para aeroportos, comida, bebidas, souvenirs, etc. Conseguimos cumprir o orçamento previamente estabelecido. Assim, após a compra do cruzeiro e das passagens aéreas, iniciámos a nossa pesquisa sobre aluguer de veículos. Como se verá de seguida, alugámos carro em 5 das 10 ilhas onde estivemos. Entretanto, durante este tempo todo (ainda antes de comprarmos o cruzeiro — o que fizemos com uma antecedência de mais de 3 meses do início da viagem — e depois de o termos feito) pesquisámos exaustivamente sobre as ilhas que iríamos visitar, para termos um ideia, o mais aproximada possível, dos pontos aonde queríamos ir durante a viagem propriamente dita. Tudo isto implica tempo. Como costumamos dizer, uma viagem tem três fases, todas elas importantes e, pelo menos para nós, prazerosas: a preparação da viagem, a viagem propriamente dita, o registo.

Ultrapassadas as duas primeiras fases, iniciamos agora a terceira — aquela que garante que uma viagem não acaba nunca!

Dias 1 e 2 — Saint Martin/ Sint Maarten

Mullet Bay Beach.

A nossa viagem começou bem. Saímos de casa ainda antes da meia-noite (poderíamos considerar, portanto, um dia 0), deixámos o carro com um amigo em Lisboa e apanhámos um uber para o aeroporto. Os voos de Lisboa (5:30) e de Paris (10:30) saíram a horas, apesar dos constrangimentos derivados da greve geral em França, face à nova lei do governo que passa a idade normal de reforma dos 62 para os 64 anos. Pois é. Estava a correr bem de mais, estávamos a andar depressa de mais. A nossa mala de porão não conseguiu acompanhar-nos no voo de Paris para St. Maarten, e isso atrapalhou o início do nosso cruzeiro. Só recuperámos a mala no final do 3º dia do cruzeiro, em St. Kitts e Nevis. Entretanto, tivemos de comprar alguma roupa e produtos de higiene pessoal, guardando os respetivos recibos para mais tarde sermos ressarcidos pela Air France. Esperemos.

À parte disso, e como nem tudo é mau, fomos brindados com um upgrade do camarote no navio, algo que compensou largamente o transtorno do transvio da bagagem. A nossa cabina prévia era a 9020, com vista de mar, mas sem varanda, e o novo camarote que nos atribuíram foi a 9071, não apenas com varanda, mas também com jacuzzi, um quarto enorme, com muita arrumação, e casa de banho com banheira, ou seja, um camarote da categoria Aurea. O rapaz da receção tivera razão ao dizer-nos para estarmos descansados que o novo aposento não era inferior ao previamente acordado.

Assim, os nossos dois primeiros em Saint Martin foram um pouco atribulados. Ficámos hospedados num excelente apartamento em Marigot, no lado francês da ilha, com vista para a marina, mas difícil de encontrar. Felizmente com a ajuda de alguns residentes locais lá chegámos. No primeiro dia, com a perda de tempo à espera e a reclamar (eram muitas pessoas em situação idêntica e o serviço lentíssimo) sobre a mala extraviada, só tivemos tempo para levantar o carro alugado, comer e dormir, mais nada.

Ffryes Beach, em Antígua.

No segundo dia, manhã cedo, iniciámos a nossa visita à ilha. Fomos a Oriente Beach, Mullet Bay Beach e Maho Beach — a célebre praia onde os aviões rasam as nossas cabeças. A parte da tarde foi perdida, pois fomos de novo ao aeroporto na esperança (vã) de que a mala chegasse, depois tivemos de entregar o carro e logo de seguida seguir para o navio para fazermos o check-in. O upgrade da cabina, já relatado foi a agradável surpresa do final do dia. Interrogámo-nos sobre isto, porquê nós, aventamos várias hipóteses que não vamos expor aqui porque são especulativas e o facto é que não sabemos, não procurámos saber — decidimos, tão-só, fruir.

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Dia 3 — Antígua

Em Antígua também alugámos carro. A primeira coisa que se faz quando se sai do navio é ir levantá-lo. Talvez seja importante fazer aqui um parêntesis para dizer o seguinte. Na maioria das Pequenas Antilhas (excluindo as francesas, holandesas, britânicas e americanas, mas, até certo ponto, mesmo nestas) a informação nas estradas, quanto a direções a tomar, é escassa ou nula. Assim, é absolutamente necessário gravar os mapas das ilhas no Google Maps e depois, nos locais, inscrever os nomes dos pontos aonde queremos ir — o Google Maps indicará o trajeto no telemóvel, mesmo offline. Ter os dados móveis ligados nos países fora da Europa custa os olhos da cara!

Em Antígua e Barbuda circula-se pela esquerda. É interessante constatar que conduzir pelo lado contrário da estrada só representa uma verdadeira dificuldade da primeira vez. É um pouco como nadar ou andar de bicicleta: depois da primeira vez, podem passar anos, adaptamo-nos com relativa facilidade. Dado que já tínhamos conduzido pela esquerda, foi o que aconteceu connosco.

O nosso percurso em Antígua. Com todas as paragens, fizemo-lo numas seis horas.

Saímos da capital em direção a Hermitage Bay, deixando, uns 15 minutos depois, a estrada principal para percorrermos uma estrada secundária de terra batida de vários quilómetros, até à grande baía. A praia de águas claras é bonita. Tomámos banho e usufruímos do local durante uns 45 minutos. De volta à estrada, rumámos a Ffryes Beach, mais uma (dizem que Antígua tem 365 — uma para cada dia do ano) praia lindíssima onde aproveitámos para descansar, refrescar e tirar algumas fotos. As praias seguintes foram as Turners Beach (onde banhámos) e a Morris Bay. Era nossa intenção seguirmos até Shirley Heights, e desfrutarmos da vista privilegiada para English Harbour, mas, ao subirmos a colina, deparámos com um posto de controlo onde nos disseram que estávamos a entrar num parque natural e que teríamos de pagar 15USD por pessoa. Decidimos não o fazer e voltámos para trás. Tínhamos ainda que comprar roupa e procurar um sítio com internet para ver se tínhamos notícias da Air France, pelo que entregámos o carro mais cedo que o previsto. Mesmo assim corremos um espaço geográfico que corresponde a cerca de um terço desta pequena ilha; o dia valeu a pena e gostámos imenso das praias de Antígua.

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Dia 4 — St. Kitts and Nevis

St. Kitts é, aparentemente, a ilha menos atrativa das que visitámos nesta viagem. As três praias mais conhecidas são todas a sul da capital, Basseterre. Tudo nesta cidade está virado para o turismo e não há como escapar (a menos que se queira ficar por ali sem fazer nada) aos transportadores locais que levam os cruzeiristas, em grupos que podem chegar às 20 pessoas e talvez mais, até Cockleshell Beach por 20USD cada, ida e volta (o mesmo montante é aceite em euros), marcando um horário consensual para o regresso à cidade. No nosso caso, ficámos cerca de 4 horas na praia, um tempo exagerado, mas, na verdade, também não tínhamos mais nada para fazer. Lêramos anteriormente que a Turtle Beach — muito perto da Cockleshell — era muito bonita, com areia cor-de-rosa, pelo que pedimos ao motorista para aí nos deixar, que depois seguiríamos a pé para Cockleshell. Apesar dos avisos de que a praia estava impraticável, insistimos em ficar. De facto, a praia todinha, água e areia, estava inundada por algas e limos, e era completamente impossível ir a banhos. Estávamos sós na praia.

Cockleshell Beach.

Finalmente em Cockleshell, uma bonita praia em frente à ilha de Nevis, podemos banhar-nos à vontade. A outra praia ainda não referida do trio das melhores praias do sul é Frigate Bay. O motorista do minibus, Melrose Cooper, era um personagem interessante. Disse-nos que antes de Colombo (supostamente o descobridor da ilha) já tinham estado em St. Kitts portugueses, franceses e britânicos, o que é comprovado por alguns artefatos e objetos encontrados perto de Basseterre. Cooper disse-nos que uma das suas avós era portuguesa e que na povoação onde vive, no norte da ilha, há uma pequena comunidade portuguesa. Ele também nos disse que o governo de St. Kitts and Nevis está a apostar fortemente no turismo, vendendo terrenos para grandes empreendimentos estrangeiros. Mostrou-nos várias casas que podem atingir os 5 milhões USD. St. Kitts pareceu-nos também a ilha mais pobre, pois ainda não aproveitou todo o potencial turístico, e a agricultura pareceu-nos incipiente, com terrenos mais áridos do que os das ilhas circundantes (apesar de, enquanto colónia britânica, St Kitts — até ao século XIX separada de Nevis — ter sido a mais rica per capita do Caribe, graças ao cultivo da cana-de-açúcar).

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Dia 5 — Dominica

Dominica é uma ilha fantástica. Verde, montanhosa — com uma pérola escondida: uma das praias mais bonitas do mundo — Dominica foi a última ilha das Caraíbas a ser colonizada, face à feroz resistência dos nativos caribenhos. Foi igualmente a última ilha a formar-se no Caribe, há cerca de 26 milhões de anos, e está situada a meio do arco das ilhas vulcânicas das Pequenas Antilhas, que se estende desde a ilha de Saba, no norte, até Grenada, a sul. Dos 16 vulcões incluídos neste arco, 5 estão em Dominica. Esta é, portanto, uma ilha explosiva e, a condizer com a natureza em geral, as pessoas são igualmente fantásticas. Aqui o turista é tratado como outra pessoa qualquer, com simpatia mas sem subserviência, e ninguém tenta tirar partido, aumentando preços, esperando gratificações ou aproveitando-se de alguma desatenção. Sentimo-nos completamente seguros em Dominica, tal como nas outras ilhas que visitámos.

A caminho de Calibishie.

Quisemos reservar previamente uma viatura para nos deslocarmos a Batibou Beach (a tal pérola escondida), que fica no norte da ilha, a cerca de 70 quilómetros do terminal de cruzeiros, mas isso não foi possível porque as principais agências de aluguer de automóveis ficam na zona do aeroporto, precisamente no nordeste, e as agências perto de Rouseau já não tinham viaturas disponíveis. Decidimos ir pelos meios locais, ou seja, numa das vans que saem da cidade, bem perto da saída do terminal de cruzeiros. Mas antes tivemos de ir a um banco trocar dinheiro (50 EUR deu 129XCD) pois não conseguimos levantar dólares caribenhos nos ATM, não sei porquê (o mesmo aconteceu em Santa Lúcia). Tivemos de ir para uma fila e demorou quase uma hora até que conseguíssemos cambiar os €50. Se se quiser andar sempre em lugares turísticos não vamos provavelmente precisar de cambiar euros, mas temos de fazê-lo se quisermos usar os transportes locais. De qualquer forma, estes 129XCD chegaram até ao fim da viagem: usámo-los ainda em Santa Lúcia, Grenada e São Vicente e Granadinas.

Descida para Batibou.

Já passava bastante das 10 da manhã quando saímos do banco e a nossa viagem começava a ficar em risco. Mesmo assim decidimos arriscar, e fomos. A nossa meta era Calibishie, bem no norte da ilha, a cerca de 3,5 kms da praia de Batibou. Há duas formas de chegar a Calibishie: pela costa oeste, via Portsmouth, ou pelo centro da ilha, sempre por estradas apertadas e sinuosas (Dominica é a ilha mais montanhosa das Pequenas Antilhas), e um troço final pela costa leste. Se se for pela costa oeste pode pedir-se ao motorista para parar no ponto da estrada onde fica a entrada para Batibou, pois esta praia fica antes de Calibishie quando se vai por Portsmouth: neste caso basta descer o caminho de terra batida até a praia — uns 15 minutos a pé. Se, pelo contrário, se for pela estrada do centro/leste temos de sair em Calibishie e fazer o resto do percurso a pé (dá para apanhar uma van que vá para Portsmouth, mas nós não quisemos esperar e fomos a pé) — os tais (acidentados) 3,5 kms. Somos bons caminhantes, pelo que isso não constituiu problema.

A praia de Batibou fica numa propriedade privada e existem seguranças que controlam as entradas e cobram 5 USD por cabeça. Em contrapartida oferecem instalações sanitárias, bancos e mesas de madeira à sombra, e um bar/restaurante igualmente em madeira (perfeitamente integrado no ambiente circundante) que, ouvimos dizer, tem à frente uma excelente cozinheira — mas que, infelizmente, estava fechado. Mal chegámos à praia percebemos que estávamos num lugar incomparável, de singularidade e exclusividade invulgares. Além de dois seguranças, só estavam na praia, quando chegámos, um casal e um guia que ali o tinha transportado. A praia era praticamente só para nós. Rodeada por uma imensidade de coqueiros e outras plantas e árvores, com águas transparentes e calmas, esta baía é, de facto, maravilhosa. O relógio marcava a primeira hora da tarde quando viemos embora. A nossa ideia era a de regressarmos a Rouseau via Portsmouth para não termos de fazer mais uma caminhada até Calibishie e também porque a viagem é mais rápida pela costa oeste. Por sorte, mal tínhamos acabado de chegar à estrada asfaltada passou uma van em direção a Portsmouth que parou ao nosso sinal. Chegados a Portsmouth, mal tínhamos posto os pés no chão já estava alguém a perguntar se íamos para Rouseau (e outro alguém a perguntar se queríamos weed), pelo que também não esperámos tempo nenhum para seguir viagem (embora as vans só partam quando estão cheias, nos pontos principais enchem depressa).

Já no paraíso.

As viagens são pagas no final, quando saímos pagamos ao motorista ou ao ajudante deste. Muitas vezes temos de levantar-nos para outros passageiros saírem e é comum transportar-se todo o tipo de mercadorias debaixo dos bancos e, por vezes, ter de retirá-las e voltar a colocá-las, consoante as necessidades. Alguns motoristas circulam a velocidades incríveis, tendo em conta as condições das estradas, sobretudo as frequentes curvas fechadas (apesar de tudo as estradas não estão tão más como seria de supor, após a grande devastação provocada pelo furacão Maria em setembro de 2017). Seja como for, adorámos viajar de van em Dominica. De Rouseau a Calibishie pagámos 12,5 XCD cada; de Batibou a Portsmouth, 8 XCD; e de Portsmouth a Rouseau, 10 XCD.

Uma vez que ainda chegámos cedo, fomos dar uma volta pela cidade. Comprámos duas garrafas de bebidas frescas a um vendedor de rua: uma de água de coco e outra de sumo de tamarindo. Ambas estavam deliciosas. Fomos ao navio comer qualquer coisa, mas decidimos regressar à cidade e procurar o rapaz das bebidas. Desta feita comprámos um sumo de goiaba para a Fla e outro de um fruto de que não recordo o nome (mas era vermelho), que continha também gengibre. Estavam, de novo, deliciosos. Terminámos a nossa visita a Dominica deambulando pelas ruas de Rouseau, cheias de vendedores ambulantes, música caribenha, casa típicas, fumo de maconha, gente simpática e muitos movimento e alegria.

O nosso percurso nas vans locais em Dominica — Rouseu-Calibishie-Portsmouth-Rouseau, em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

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Dia 6 — Martinica

Quando chegámos a Fort de France o dia estava cinzento e chuvoso. Nesta ilha também alugámos um carro, pelo que a primeira coisa que fizemos foi procurar a pessoa que no-lo veio trazer à saída do terminal de cruzeiros. A agência com quem contratámos (Twenté) em Martinica trabalha bem, já tínhamos tratado das principais formalidades previamente pela internet, e assim o levantamento do carro (como posteriormente a entrega) foi rápida. Devidamente instalados na viatura, dirigimo-nos para sul, ao encontro da primeira praia que havíamos selecionado — Anse Mitan. O tempo continuava chuvoso e fechado, e talvez por isso não achámos na praia nada de especial, tirámos duas fotos, e viemos embora.

Continuámos a descer até encontrarmos o desvio para a Anse Noire, uma belíssima praia de areia negra, encravada entre duas colinas, lá no fundo, acessível após pisarmos 130 degraus. Vale a pena. Mesmo a chover a praia pareceu-nos lindíssima, pena que não estivessem as melhores condições meteorológicas para mergulharmos nas suas águas. Quando vínhamos a meio da subida dos 130 degraus começou a chover mais intensamente, pelo que tivemos de correr para o carro para nos abrigarmos.

Anse Noire.

Seguimos viagem, sempre para sul, até ao Memorial aos Escravos de Anse Cafard, um conjunto de estátuas evocando a escravatura negra, da autoria de Laurent Valère, um artista local. Gostámos bastante deste trabalho realizado em frente a um rochedo no mar que, devido à sua forma, lhe deram o nome de Le Diamand. A zona costeira em frente ao rochedo ganhou o mesmo nome.

Tendo já atingido o sul da ilha, contornámo-la para leste, em direção à nossa próxima paragem — Anse Figuier. Nesta altura já o tempo tinha melhorado bastante e o sol brilhava lá no alto, tornando tudo mais vivo, colorido e alegre: as nuvens mais brancas, o céu mais azul, as águas mais turquesas. Anse Figuier é uma praia familiar, com uma zona arborizada onde as pessoas almoçam, fazem churrascos, enquanto as crianças brincam nas águas tranquilas, quase paradas. A praia é linda de verdade e ali ficámos algum tempo a apreciá-la. Continuando viagem, passámos por Sainte Anne, uma belíssima vila marítima, até atingirmos aquela que dizem ser a praia mais badalada de Martinica — a bela Grand Anse des Salines.

Grand Anse des Salines.

Esta praia é bastante grande, no seio de uma larga baía, e é, de facto, bonita. Banhámo-nos, passeámos, comprámos umas tiras de coco e uns bolinhos de frango, para enganar a fome, a uma vendedora de rua, e viemos embora. Finalmente, fomos ainda à ponta sudeste da ilha, a uma praia chamada Anse Michel, mas foi uma desilusão. Tal como acontecera em Turtle Beach (em St. Kitts), a praia estava cheia de algas e limos, cheirava mal, pelo que demos de imediato meia-volta.

Regressámos diretamente ao terminal de cruzeiros, ainda a tempo de almoçar (há almoço até as 4 da tarde). Depois descansámos um pouco e saímos de novo com intenção de irmos a Saint Pierre, metermos gasolina e entregarmos o carro, mas, face ao trânsito, verificámos que não tínhamos tempo para isso, pelo que fomos apenas até uma praia que fica 10 quilómetros a norte de Forte de France para vermos o pôr do sol. Devolvemos o carro no terminal às 19 horas e fomos para o navio já de noite.

O nosso percurso de carro em Martinica.

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Dia 7 — Guadalupe

O primeiro dia em Guadalupe não foi nada de especial. Tínhamos planeado ir à ilha Terre de Hault, mas sabíamos que era muito apertado dado que o navio chegava às 8:00 e o ferry para Terre de Hault partia às 8:30. Às 8:00 já estávamos junto ao portaló, mas logo por azar o desembarque atrasou uns 15 minutos. Ainda corremos (o terminal do ferry dista uns 800 metros do terminal de cruzeiros) mas, claro, já não deu, faltavam 2 minutos para o barco partir e as portas já estavam fechadas. Aos domingos os transportes públicos de Guadalupe praticamente não funcionam. Na paragem de autocarros, aonde nos deslocámos na esperança de apanharmos um para a zona das praias, estava um casal francês e a mulher disse-nos que a tinham informado de que havia autocarro. Mas não passava nenhum. Esta senhora, já de certa idade, começou, expedita, a pedir boleia. E quando, quase de imediato, um carro parou, disse à motorista que ia para Goisier e que a boleia era para quatro! E lá fomos para Goisier.

Ilet Goisier.

O casal francês ficou antes, mas a condutora fez questão que nós seguíssemos mais um pouco, porque lhe dissemos que íamos apanhar o barco para a Ilet de Goisier e, segundo ela, o ponto mais próximo era mais além e ela queria deixar-nos o mais perto possível do barco. Para cúmulo quis dar-nos o seu número de telefone para lhe ligarmos quando quiséssemos regressar a Pointe-a-Pitre, que ela nos transportaria de volta. Agradecemos muito, mas dissemos que era de mais, que iríamos pelos nossos meios. E, assim, rapidamente apanhámos o barco para a Ilet Goisier, uma pequena ilha a uns 800 metros da praia de Goisier, a qual, estava bastante suja com limos.

Talvez seja altura de referir que, além das praias já mencionadas inundadas com limos ou algas, vimos outras onde ocorria o mesmo fenómeno e vimos também muitas zonas de limos ou algas no mar das Caraíbas enquanto o navio navegava. Pensando sobre isto, parece-me que este fenómeno está relacionado com a temperatura das águas, que aqui é relativamente elevada, e com as correntes que posteriormente levam a vegetação para as praias.

Painel em Pointe-a-Pitre.

No ilhéu a água estava radiante, tomámos banho e por ali ficámos cerca de hora e meia. O percurso de barco — ida e volta — custa 5 euros por pessoa. E lá fizemos mais uma grande caminhada de 7,5 quilómetros até à capital, sob um sol inclemente, para regressarmos ao navio. Já tinha dito que somos bons caminhantes.

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Dia 8 — Santa Lúcia

Em Santa Lúcia já tínhamos carro reservado. Tal como acontecera em Antígua, foi necessário pagar 20USD (ou 20EUR — é sempre possível a equivalência) para termos uma licença de condução local, uma forma clara de sacarem mais dinheiro ao turista. É sempre necessário apresentar um cartão de crédito para que as agências retirem uma caução provisória (em Santa Lúcia foram 1.150 USD) como precaução para qualquer eventualidade. Arrumada a papelada e a inspeção ao veículo — o que sempre gasta uma preciosa meia hora — lá partimos para a nossa aventura em Santa Lúcia. Rumo a sul.

Anse Chastanet.

A primeira paragem foi em Marigot Bay. Apreciámos a baía, tirámos algumas fotos e seguimos viagem por Anse La Raye e Canaries, até a pitoresca cidade de Soufrière, antecâmara da região das Pitons. Aqui fizemos um pequeno desvio para visitarmos a Anse Chastanet Beach, através de uma pequena estrada litoral muito difícil, esburacada, estreita, cheia de pedras soltas, que transpusemos, durante uns 2 quilómetros, a passo de caracol. A praia é bonita, parte dela pertence a um resort privado de luxo, mas o tempo chuvoso não ajudou. Durante todo o tempo em que permanecemos em Santa Lúcia, o tempo alternou entre chuvadas fortes, aguaceiros rápidos, e boas abertas. Percorrida a estrada difícil de volta a Soufrière, com extremo cuidado para não danificarmos o carro, seguimos viagem em direção a Sugar Beach, já na região das Pitons. Tivemos de subir uma longa colina até atingirmos um ponto em que é sempre a descer até à praia. Para aqui chegarmos temos de passar pelas instalações do hotel Viceroi (dizem que há um caminho alternativo, mas nós não o vimos) que é, em suma, todo o espaço visível desde o pórtico da entrada até à praia. A distância entre um e outra é considerável, tal como o declive.

Passámos uma primeira cancela onde o guarda nos avisa que, antes da segunda cancela, devemos virar à direita e estacionar o carro no pequeno parque que logo se encontra poucos metros à frente. Depois, tivemos de continuar a pé. O espaço está muito bem organizado, com belos relvados, arbustos, plantas e flores arranjados, estrada bem asfaltada. A praia é, de facto, bonita, mas os equipamentos para satisfação dos turistas — cadeiras, toldos, boias, pontões, kayaks, veleiros, barcos a motor, funcionários, hotel, restaurante e até uma rede, onde quem quiser se pode deitar sobre a água a ler um livro, por exemplo — roubam-lhe, sem dúvida, alguma beleza que ela, por si só, seguramente teria.

Sugar Beach.

Em compensação, a água nesta praia é de uma transparência dificilmente igualável, e não é por acaso que muitos amantes do mergulho vêm de propósito a Sugar Beach. A maioria das praias em Santa Lúcia é de areia negra, de origem vulcânica, mas Sugar Beach tem areia branca, importada da Guiana: nada mais nada menos que 7.500 toneladas.

Depois do banho da praxe não nos sobrou tempo para muito mais. Tínhamos planeado ir até ao extremo sul da ilha, mas verificámos que não dava tempo. Decidimos regressar a Castries e aí avaliar se ainda poderíamos ir até Reduit Beach, uma grande praia de 8 kms, um pouco a norte da cidade. Tivemos de fazer todo o caminho de volta subindo e descendo várias montanhas e enfrentando por vezes chuva intensa, o que nos obrigou a refrear a velocidade. Chegados a Castries, quisemos ir a Reduit Beach (ainda tínhamos duas horas até entregarmos o carro) mas uns poucos quilómetros depois apanhámos tanto trânsito, com longas filas, que decidimos voltar. Assim, não conseguimos fazer tudo o que planeáramos, por falta de tempo, mas fizemos o principal. Para compensar, ligámos o jacuzzi na varanda do nosso quarto — e saímos de Santa Lúcia relaxando, enquanto o sol pousava no Mar das Caraíbas.

O nosso percurso em Santa Lúcia.

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Dia 9 — Barbados

Eu tinha dito que somos bons caminhantes? Mentira, nós somos grandes caminhantes! Hoje fizemos, a pé, 20,890 quilómetros. De manhã fomos para sul do terminal de cruzeiros, e à tarde fomos ver o pôr-do-sol (e banhar-nos) a Brandons Beach, a norte. Começámos, então, de manhã bem cedo, a nossa caminhada até Carlisle Bay. São três, as praias (de facto, é um areal contínuo mas os habitantes locais decidiram atribuir-lhe várias designações — como acontece, por exemplo, nas praias da Costa da Caparica até à Fonte da Telha), calmas, abrigadas, contidas na larga baía: Bayshore Beach, Pebbles Beach e Brownes Beach. No entanto, não parámos por aqui. No final da Brownes Beach há um passadiço de madeira sobre a praia — The Richard Haynes Boardwalk — que segue até Accra Beach, uma linda praia já com alguma ondulação suave, ótima para “jacarés”. Foi aqui que decidimos tomar um banho revigorante, após a primeira caminhada de 6,6 quilómetros. Decorrido o merecido descanso, voltámos a percorrer, agora em sentido contrário, o Richard Haynes Boardwalk, aproveitando para apreciar as muitas obras ali expostas — pinturas e fotografias de diversos autores, todas em grandes quadrados de igual formato, portanto, altamente “instagramáveis”. Bem pensado — e, de facto, há ali obras de inegável valor!

Carlisle Bay.

Toda a costa sudoeste de Barbados está impregnada de praias, algumas pequeninas, protegidas, sem qualquer tipo de ondulação. Uma delas, inserida numa zona que é Património Mundial da Unesco, é Sugar Beach, uma praia ideal para quem gosta de estar numa enorme “piscina” de água salgada. Pouco tempo depois estávamos de novo em Carlisle Bay, e a tomar banho em Pebbles Beach. Para recuperarmos as energias necessárias ao resto da viagem, a Fla tomou uma água de coco e eu bebi uma limonada, que comprámos num quiosque pelo preço de 5 dólares de Barbados cada. A forma de conseguirmos dólares de Barbados foi a seguinte. Quando saímos do navio após a chegada a Barbados, passámos pelo terminal e deparámo-nos com várias bancas de vendedores locais (sempre há lojas e bancas de vendedores locais nos terminais de cruzeiros); dirigimo-nos a uma delas e perguntei à vendedora quanto custava um boné de Barbados, ao que ela respondeu “10 USD” (já se sabe que dólares americanos ou euros por estas bandas são a mesma coisa), eu disse-lhe que dava 20 euros e queria receber o troco em dólares de Barbados (BBD). A senhora disse que não podia fazer isso, que não estava autorizada a cambiar dinheiro, e eu calmamente retorqui que “tudo bem”, então ia comprar noutro lado. A senhora então concordou em dar-me os 10 euros de troco em moeda local. É sempre bom ter alguma moeda local para podermos andar nos transportes públicos e também para comprarmos água engarrafada que, no navio, custa uma exorbitância.

Brandons Beach.

Depois de refrescados por dentro e por fora regressámos a Bridgtown e ao navio, protegidos do sol, com toalhas finas a cobrir-nos a cabeça , o pescoço e os membros superiores, que o astro-rei, aqui, não é para brincadeiras. Almoçámos e descansámos. Ao final do dia, como já referimos, fomos banhar-nos e ver o pôr-do-sol a Brandons Beach. Ao longo da praia sentia-se o cheiro a maconha. Passámos perto de duas moças que fumavam um charro e dissemos-lhe que cheirava bem. Elas riram bastante. Quando saíamos da praia começo a chover. Abrigámo-nos debaixo das árvores e a Fla reconheceu um pé de tamarindo.

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Dia 10 — Navegando

  • Acordámos e tomámos o pequeno almoço.
  • Depois procurámos um local sossegado (para dar tempo ao camareiro de limpar o quarto) onde comecei este relato da viagem e a Fla leu o seu livro.
  • Viemos deixar as coisas ao quarto e fomos almoçar.
  • Almoçámos.
  • A Fla fez uma sesta e eu continuei o meu relato.
  • Ao fim da tarde fomos para o nosso jacuzzi privado.
Relaxando a bordo.
  • É de referir que as ilhas das Pequenas Antilhas ficam todas perto umas das outras. Então o navio não passa de uma ilha para outra ilha logo a seguir — o navio salta ilhas e anda para baixo e para cima a uma velocidade muito baixa, poupando muito em combustível. Para passar um dia no mar (o que convém para que as pessoas façam mais gastos a bordo) é necessário dar voltas grandes, contornando ilhas mais distantes, e andar a passo de caracol. Neste dia, para irmos de Barbados a Grenada, contornámos as ilhas de Martinica e Santa Lúcia, completamente fora de rota.

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Dia 11 — Granada

Tínhamos programado ir às duas praias mais conhecidas de Grenada, quase ao lado uma da outra: Grand Anse e BBC Beach. E assim aconteceu. Mesmo ao lado do terminal de cruzeiros (os passageiros forçosamente têm de passar por um funcionário que os encaminha para o local certo) há um pequeno pontão onde atracam os táxis marítimos que nos levam diretamente à Grand Anse. Cada bilhete — ida e volta — custa 10 euros (ou 10 USD) mas nós não queríamos voltar no “water taxi”, por isso só pagámos 5 euros cada. O pontão de desembarque na Grand Anse fica na extremidade mais próxima, mas a praia é grande e para chegar à outra ponta tem de se andar bastante. Foi o que fizemos, devagarinho, pela borda d’água. Era relativamente cedo, havia pouca gente e o sol ainda não incomodava, pelo que pudemos apreciar com calma o trajeto. A praia é, de facto, linda, merece a fama que tem de ser uma das mais bonitas do Caribe.

Saint George.

No fim da praia há uma escadaria que segue até à estrada asfaltada. Depois é só subir um pequeno troço (talvez uns 150 metros) até encontrarmos um caminho à direita, que conduz à BBC Beach. Esta praia é muito mais pequena que a Grand Anse e não é tão frequentada, mas é igualmente muito boa para banhos. Pudemos comprová-lo, nadando à-vontade na baía protegida sem que sentíssemos alguma dificuldade provocada por ondulação ou corrente. Algum tempo depois, fizemos o caminho inverso. Na Grand Anse há um espaço comercial com wifi aberto e a estrada que leva a Saint George é mesmo ali. Decidimos procurar uma paragem de van, o que foi muito fácil. Na paragem estava um senhor que nos informou logo que deveríamos pagar 2,5 XCD por pessoa, e nada mais, pela passagem até Saint George. Disse-nos que era taxista e que podíamos ir tomar uma cervejinha mais barata ao bar dos taxistas que fica à saída do terminal de cruzeiros. Era facilmente alcançável, bastava estar atento aos homens de polos azuis que sempre estavam reunidos por lá. Perguntei-lhe se ele era natural de Grenada e como era viver ali e ele respondeu “homem, isto é o paraíso!”

Grand Anse.

No meio da conversa apareceu uma van e ele próprio mandou o motorista parar e ao ajudante (o motorista tem sempre um ajudante que colabora na acomodação de pessoas e mercadorias, e também pode receber o dinheiro das passagens) que seguíamos para Saint George. Saímos uma paragem antes do centro para podermos andar mais um pouco pela cidade. As pessoas aqui — em todas as ilhas, mas notámos isso mais em Dominica, Grenada e Saint Vincent — são de uma amabilidade extraordinária. Se, por exemplo, perguntarmos a alguém onde fica determinado lugar, a pessoa vai dizer-nos, suponhamos, para virarmos mais à frente à esquerda, mas vai posicionar-se de forma a verificar se realmente viramos no sítio certo. Se não o fizermos, ela gesticulará, ou gritará, se não estivermos a olhar, até se certificar que, de facto, tomámos o caminho adequado. Se, por exemplo, desejarmos “bom dia” a uma pessoa na rua, ela não se limitará a retribuir, vai querer saber como estamos hoje, como está a ser o nosso dia, se estamos a gostar do passeio, etc.

Depois do almoço no navio, saímos de novo para mais uma volta por Saint George. No porto de pesca subi para a amurada de uma embarcação de pesca que estava acostada e pedi à Fla para me tirar uma foto. Esta demorou um pouco, pois estava a falar com uma moças que passavam por ali e, entretanto, imperceptivelmente, o barco começou a afastar-se do cais. Fiquei longe de mais para poder saltar para terra firme. A Fla puxou um dos cabos que amarrava o barco, mas este, teimosamente, não se aproximava da terra.. Pelo canto do olho eu via algumas pessoas num barco ao lado a observarem a cena. Foi quando um senhor vindo de lá veio ajudar a Fla e eu pude saltar para o cais. A Fla disse-lhe que ele era forte e ele respondeu “não, tu é que és forte!” Agradeci-lhe e ele disse, com um largo sorriso, que não havia problema, estava tudo bem. Junto ao mercado comprámos um coco; a Fla bebeu o suco e eu comi a polpa. Uma das coisas que adorámos em Dominica, Grenada e Saint Vincent foi termos andado nos transportes locais, juntos com a população. Tanto quanto nos apercebemos, mais ninguém no navio fez isto, mas para nós constituiu um enorme privilégio.

Saint George.

De acordo com a nossa experiência, é não só muito mais barato, mas também mais seguro e interessante, viajar nas vans locais do que nos táxis ou outro tipo de transporte similar. Vimos vários turistas a regatear preços com motoristas de táxis, mas isso nunca aconteceu connosco.

Grenada ficará nos nossos corações.

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Dia 12 — São Vicente e Granadinas

Já o tínhamos dito. São Vicente é outra ilha muito especial. Chegámos sob chuva intensa, tudo cinzento, mas já dera para perceber que por estas bandas nada é definitivo no que toca ao tempo: a chuva vai alternando com o tempo seco e o céu passa de cinzento a azul sem percebermos como. Foi o que aconteceu neste dia. Tomámos a van (primeiro, claro, temos sempre de conversar com as pessoas para saber onde ir, e há sempre alguém disposto a ajudar) em direção a Indian Bay sob forte chuvada e chegámos ao nosso destino com o sol a inundar tudo à nossa volta. Outro pormenor interessante sobre a amabilidade local fica patente no exemplo seguinte. Quando descemos na paragem, ficámos à espera que a van seguisse viagem para depois atravessarmos a estrada, mas o motorista não avançou, fez questão de que atravessássemos à sua frente, enquanto os motoristas dos carros em sentido contrário fizeram o mesmo. Isto aconteceu-nos mais vezes, sempre que tínhamos de atravessar a estrada: todos esperam para que sigamos em segurança.

Indian Bay.

Posto isto, descemos até Indian Bay, uma pequena baía pouco turística, quase deserta, talvez porque a praia tenha muitas rochas submersas, mas a água, essa, é de uma transparência invejável. Com algum cuidado e escolhendo um bom local é possível banharmo-nos, e foi o que fizemos. A distância desta praia até Villa Beach cobre-se com uma breve caminhada (uns 15 minutos) e esta sim, é uma praia turística, com muitos banhistas estrangeiros. Em frente, a uns 300 metros, fica uma pequena ilha — Young Island — e vários barqueiros levam e trazem turistas de volta por 5 USD/EUR. A praia da ilha é na sua maior parte privada, pertence a um resort, e ninguém nos avisa previamente, o que torna ainda mais desagradável ficar confinado a um canto da praia. Para nós isto não constituiu um problema porque não pretendíamos ficar estendidos numa toalha a estorricar, o nosso objetivo eram os banhos de mar, mais do que os de sol.

Young Island.

A água nesta praia é simplesmente deliciosa — transparente, calma, termicamente perfeita, e com uma textura sedosa, como se tivesse misturado um óleo natural hidratante. Banhámo-nos várias vezes e quando vimos os barqueiro na outra margem a embarcar mais passageiros para trazer para a ilha, preparámos as nossas coisas para irmos embora. Chegados à costa dirigimo-nos à estrada (que é logo ali) para tomarmos uma van para Kingstown, a capital de São Vicente, onde estava o navio. Por vezes há poucos lugares e temos de ficar separados nas vans, mas isso nunca foi problema nenhum. Uma das coisas em que reparei foi que a Fla podia ficar sentada apertadinha entre dois passageiros que estas jamais tentariam tirar proveito da situação. Não eram apenas a simpatia e a solidariedade que estavam presentes — o respeito também. A música é outro ingrediente sempre presente neste tipo de transporte. Música caribenha, suponho, com o volume sempre alto. A viagem custou-nos os mesmo 5 XCD da ida (para ambos).

Villa Beach.

Depois do almoço no navio — e como nós comíamos nestes almoços no navio depois das caminhadas da manhã! — voltámos a Kingstown para conhecermos melhor a cidade. Pessoal de todas as idades e géneros a enrolar e fumar charros é algo bastante comum nestas ilhas, mas mais ainda em São Vicente, onde nos pareceu particularmente generalizado. Perguntámos a um jovem polícia, que foi connosco para nos indicar o caminho para o mercado central, se o consumo da cannabis era livre e ele respondeu-nos que, fora dos edifícios públicos e dos transportes, sim, era livre. Este polícia não se limitou, afinal, a indicar-nos o caminho, ele fez questão de fazer connosco o caminho e, já com o mercado à vista, quis acompanhar-nos a uma das portas. Quando lhe agradecemos e perguntámos se podíamos tirar uma foto com ele, acedeu com um sorriso feliz e cativante.

Nestas ilhas há muitas crianças e algumas, vendo-nos com as câmaras, quiseram tirar fotos connosco. Quando havia adultos por perto perguntávamos se podíamos tirar fotos, mas nunca ninguém se opôs, ninguém tem problemas com isso. As crianças são naturalmente alegres e os adultos, que mais parecem crianças grandes, são alegres também. Não parece haver grande diferenciação social, embora haja com certeza — mas parece que ninguém liga muito a isso. As pessoa parecem viver bem com o pouco que têm e é da sua natureza serem felizes. Pelo caminho continuámos a sentir o cheiro intenso da maconha. Comprámos uma garrafa de água de coco a uma vendedora de rua (de manhã tínhamos comprado também duas garrafas de suco — uma de tamarindo e outra daquele fruto vermelho de que nunca lembro o nome — será beterraba? — com gengibre) e um pouco mais à frente, num local junto ao porto de pesca, onde há vários bares, deparámos com uma multidão — uns enrolando ou fumando charros, outros jogando às cartas ou ao dominó, outros bebendo cerveja, outros apenas observando, alguns dormitando, muitos gritando ou falando alto para se sobreporem à música — que se estendia ao longo do cais, com gente amontoada dentro e fora dos bares.

Jogo de dominó em Kingstown.

A algazarra era tanta que nos lembrámos do som das andorinhas quando chegam na primavera e se afadigam nas tarefas de arrumação das casas para mais uma temporada. Um chilrear intenso. Todos ficavam felizes quando reparavam em nós, pediam fotos, queriam que tomássemos uma cerveja, e uma moça que jogava dominó batendo com as pedras na mesa sorria-nos satisfeita por ter assistência estrangeira. E lá viemos para o navio, satisfeitos por mais uma jornada rica em calor — solar e humano. Um e outro mesclam-se em São Vicente de uma forma que nos deixou saudades ainda antes da partida.

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Dia 13 — Martinica

Já tínhamos estado em Martinica, pelo que desta feita decidimos ficar no navio durante grande parte do dia, a descansar. Saímos apenas às 4 da tarde, quando o sol descia mais veloz e o calor era mais suportável. Demos uma volta por Fort-de-France, batemos o centro da cidade, fotografámos alguns edifícios interessantes até que nos sentámos numa esplanada com wi-fi a tomar uma cerveja local e uma água.

Fla e Daniel.

Já mais para o fim da tarde fomos andando em direção ao mar, até uma zona com um parque e uma pequena praia onde os habitantes locais se reúnem aos fins de semana. Avistámos um pequeno grupo que participava de um casamento: os noivos e, provavelmente, uns 7 ou 8 convidados, Destes, dois ou três eram crianças. O mais pequeno era um rapaz dos seus 3 ou 4 anos, que se chama Daniel. Metemo-nos com ele e logo interagiu connosco, não parando de sorrir. Um dos convidados tinha uma câmara muito rudimentar, dessas pequeninas, tipo go-pro, e quando nos viu por ali pediu-me para fotografar o grupo todo. Acedi com prazer, corrigi um pouco o posicionamento por causa do sol que estava a pôr-se, e fiz várias fotografias com a pequena câmara deles. Entretanto, a Fla conversou com a mãe do Daniel e perguntou-lhe se ela queria que tirássemos fotos com as nossas câmaras e depois as remetêssemos para ela através do whatsapp. E assim tirámos várias fotos do casamento, mais um episódio inesperado que enriqueceu o nosso dia. Voltámos satisfeitos para o navio.

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Dia 14 — Guadalupe

Martinica e Guadalupe foram as duas únicas ilhas que repetimos neste cruzeiro. No primeiro dia em Guadalupe, tal como já dissemos, não conseguimos apanhar o ferry que pretendíamos, e desta feita também não. No entanto, já no primeiro dia (que também foi um domingo) tínhamos reparado que junto ao terminal de ferrys há um parque com viaturas de aluguer e vários contentores que servem de escritórios para as respetivas agências. Assim, neste dia, partimos logo para o plano B e alugámos um carro (um Kia Pikanto) por 42€. A ilha de Guadalupe, em forma de borboleta (a Fla diz que lhe lembra uns pulmões), são na realidade duas ilhas, separadas por um estreito canal: Basse-Terre e Grand-Terre. Nós andámos pelas ruas e, provavelmente, fomos às melhores praias de ambas.

La Caravelle.

De manhã fomos à bonita praia La Caravelle, em Grand-Terre, e depois, ainda nesta ilha, visitámos as praias de Souffleur, em Port-Louis (muito movimentada), onde a Fla comprou uma garrafa de água de coco muito barata, apenas 2€, e a praia de La Chapelle, na Anse-Bertrand. Da parte da tarde fomos a Basse-Terre, onde visitámos Sainte-Rose, Deshaies e a magnífica praia de Grand Anse, grande realmente, bonita e muito frequentada. Foi bastante difícil estacionar, tivemos de deixar o carro bem longe e, por causa disso, não chegámos a banhar-nos nesta praia, apenas tirámos fotos, tivemos algum receio em demorar-nos porque o carro estava mal estacionado. Isto não nos incomodou minimamente, pois banhos foi algo que nunca nos faltou durante esta viagem, portanto, mais um menos um, não teria nunca qualquer importância. Aliás, o banho relaxante de fim do dia já estava à nossa espera na varanda do nosso quarto.

No entanto, antes de entrarmos no navio, fomos a um quiosque que existe já dentro da zona reservada do porto, onde pedi um punch, uma bebida que ainda não tivera oportunidade de provar. O rapaz de serviço sacou de um bidão de plástico que estava dentro de um armário e encheu um copo alto que posou em cima do balcão à minha frente. Dispensei a palhinha, mostrando-me profissional. Logo ao primeiro gole senti que a coisa era forte, e a meio copo senti perfeitamente os “vapores” do álcool subirem ao cérebro. Quando terminei, estava com calor. Perguntei ao moço a receita daquilo e, então, é assim: rum velho, rum branco, sumo de manga, sumo de maracujá, sumo de abacaxi e xarope de limão. Poderoso. Valeu os 10€.

O nosso percurso em Guadalupe.

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Dia 15 — Navegando

Hoje, véspera do nosso desembarque em Saint Martin/Sint Maarten, foi dia de descansar. Dormir bem, aproveitar o sossego do nosso quarto e da nossa varanda, relaxar no jacuzzi, namorar: ter o dia todo só para nós. Antes do jantar foi tempo de fazer a mala, pois temos que a deixar à porta da cabina até à meia-noite.

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Dia 16 — Saint Martin/Sint Maarten

Chegados a Saint Martin, os nossos passaportes (tal como os dos outros passageiros que iam desembarcar) ainda estavam retidos pelas autoridades, pelo que aproveitámos para dar uma volta por Philipsburg. O nosso voo para Paris era só às 15:30, pelo que estávamos descansados em relação ao tempo. Assim, quando saímos do navio, não tivemos de esperar muito tempo, foi só apanhar um táxi (não há outra forma de chegar ao aeroporto, com malas grandes), fazer o check-in e, pouco tempo depois, entrar no avião. Durante o voo assistimos a um excelente filme: Elvis. Muitíssimo bem realizado.

A bela baía de Philipsburg.

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Dia 17 — Paris, Lisboa e Conceição de Tavira

Por volta das 6 e meia da manhã estávamos no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Tivemos uma espera de mais de três horas até apanharmos o avião para Lisboa (assim a mala de porão, provavelmente, não ficaria para trás) aonde chegámos às 11:30. Fomos buscar o nosso carro que tinha ficado com o nosso amigo, almoçámos e viemos para casa. Pelo caminho comprámos o necessário para fazermos uma refeição leve antes de dormirmos: uma salada com sardinhas de conserva. A nossa viagem chegara ao fim. Enquanto comia, pensava em algo inquietante: as ilhas paradisíacas que visitáramos podem num minuto transformar-se num inferno; as erupções vulcânicas e os furacões são uma ameaça permanente. Ou seja, o inferno e o paraíso podem não estar em lugares separados como por vezes pensamos, mas juntos neste planeta de incrível diversidade.

No entanto, navegaria durante um ano assim…

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Cacela Velha

Este ano o Verão de São Martinho veio com tanta força, e a água do mar estava tão apetecível no Sotavento Algarvio, que, durante quatro dias seguidos (10, 11, 12, 13 de novembro) fomos à praia, banhámo-nos, ao sol e no mar, e fizemos longas caminhadas pelos areais de Manta Rota e Cacela Velha. Quatro dias consecutivos com tempo super agradável não é assim tão comum em novembro, por isso quisemos que este magnífico período ficasse registado, para mais tarde o recordarmos.

A praia de Cacela Velha é pouco frequentada. Tem de se fazer uns 500 metros a pé, a partir da bela aldeia de Cacela Velha (onde se tem vistas fantásticas sobre a ria, o mar e toda a zona costeira, incluindo o litoral fronteiriço de Espanha), descer uma longa escadaria e atravessar a Ria Formosa — o que nem sempre é fácil porque a maré pode não estar vazia — para se alcançar a praia. Também se pode aceder à praia de Cacela Velha via Manta Rota, localidade onde já não é preciso cruzar a Ria Formosa para chegar ao mar, caminhando ao longo da praia uns 20 minutos para oeste e atravessando um pequeno canal que une o mar e a ria (canal constantemente em mudança face a ventos e marés, mas que se ultrapassa facilmente sobretudo na baixa mar), e alcançando assim a praia de Cacela Velha. No verão há alguns barqueiros que levam as pessoas à praia, nomeadamente no sítio da Fábrica. Uma vez chegados, estamos no paraíso.

Além de pouco frequentada, a praia é enorme, a areia dourada e a água límpida. Temperaturas em torno da que consideramos ideal (23,5º) são bastante comuns no verão, estação em que a água do mar chega a atingir os 26º. As mais altas temperaturas ocorrem quando o vento está do quadrante leste, o que proporciona uma tipologia de tempo que aqui se chama levante. É quando o mar tipicamente calmo do sotavento se torna agitado com ondulação mais ou menos significativa. A temperatura do mar fica então mais alta e assim se mantém por alguns dias, mesmo depois de o levante passar. A temperatura média do mar no sotavento, ao longo do ano, ronda os 18º/19º, o que permite banhos de mar praticamente em qualquer mês do calendário. Nestes quatro dias de São Martinho a temperatura da água do mar rondou os 20º.

É muito difícil dizer qual a melhor praia do sotavento algarvio. Cabanas, Ilha de Tavira, Terra Estreita, Barril, Fuzeta, as ilhas de Armona, Farol e Faro são todas elas (sobretudo, para nós, a Terra Estreita) praias magníficas. Mas se tivéssemos de escolher uma, essa seria Cacela Velha. Sem quaisquer apoios de praia, principalmente sem gente na maior parte do ano, na praia de Cacela Velha podemos relaxar, sentir a natureza em estado puro e, se nos apetecer, tirar a roupa toda e mergulhar num mundo azul.

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MUNCH

A câmara fotográfica não pode competir

com o pincel e a paleta

— não pode ser usada no céu ou no inferno.

Edvard Munch

Depois de mais de dez anos de reformulação, abriu finalmente ao público o Munch, um dos maiores museus do mundo dedicados a um único pintor.

Bem no centro de Oslo, a dez minutos a pé da Estação Central, encontramos, muito perto da Casa da Ópera de Oslo, talvez o mais moderno, arrojado, icónico e, também, controverso1 edifício da capital norueguesa — o museu MUNCH. Uma manhã inteira (ou uma tarde) não é de mais para uma visita a este magnífico museu de doze andares (incluindo um restaurante no terraço), onde além da exposição permanente das obras de Edvard Munch, é possível apreciar trabalhos de outros pintores, como Van Gogh, Salvador Dali, Auguste Rodin ou Pablo Picasso. Pelo menos foi o que aconteceu quando ali estivemos, em abril de 2022. Este espaço museológico é enorme, por isso não surpreende que, apesar de ser dedicado a um único artista, os seus responsáveis possam organizar, em paralelo, exposições com obras vindas do exterior.

Edvard Munch foi extremamente produtivo. Ele manteve a sua atividade artística durante mais de seis décadas — desde os anos oitenta do século dezanove até ao ano da sua morte, em 1944 — e é considerado um dos autores mais importantes do modernismo. No início do seu percurso artístico, destacou-se como membro integrante do simbolismo2 e tornar-se-ia um pioneiro da arte expressionista a partir do início do século XX. A incansável persistência na experimentação de diferentes motivos e técnicas garantiu-lhe um lugar de destaque na História da Arte norueguesa, e também mundial.

Cavalo Galopante (1910-1912), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Essa característica experimental da obra de Munch não permite que encaixemos o seu trabalho num único movimento ou estilo. Mais conhecido como simbolista e, sobretudo, expressionista, ele fez também incursões pelo universo surrealista3. Em 1930, sofreu um acidente que lhe provocou uma lesão ocular, ficando temporariamente cego de uma vista. Durante esse período, Munch produziu vários trabalhos simbólicos e abstratos, derivados das visões que o ferimento lhe tinha provocado na retina. Estes trabalhos podem ser enquadrados na ideia então contemporânea de “olho interno”, algo que o próprio Munch definiu da seguinte forma: “A natureza não é apenas aquilo que é visível pelo olho, é também o que é reproduzido pelas imagens internas da alma — imagens da parte de trás do olho”. Em 1944, o biógrafo de Munch, Rolf Stenersen, sustentou que as obras produzidas por Edvard, quando estava parcialmente cego, poderiam ser interpretadas como representações do inconsciente. Stenersen defendeu que esses trabalhos eram surrealistas, pois resultavam de impulsos do inconsciente.

O Assassino (1910), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Edvard Munch viveu em vários lugares, mas a maior parte do tempo na Noruega natal, num raio de poucos quilómetros em torno da capital, Oslo, onde também viveu e se formou, na Escola de Artes e Ofícios. Tendo nascido em Löten (em 12 de dezembro de 1863), 120 quilómetros a norte de Oslo, Munch veio estudar para a capital, onde foi bastante influenciado pelo Kristiania Bohème, um círculo cultural de escritores e artistas, particularmente por um dos seus membros mais antigos, o pintor Christian Krohg, que incentivou e orientou o jovem Edvard Munch. A estética naturalista deste movimento foi rapidamente ultrapassada por Munch quando, aos 26 anos, fez uma viagem a Paris e passou a conhecer de perto o impressionismo francês, sobretudo através dos trabalhos de Paul Gaughin e Henri de Toulouse-Lautrec.

Apesar de ter vivido em Berlim (1892-95) e Paris (1896-97), os locais onde Munch mais pintou foram na sua Noruega natal. Ele passou vários verões em Åsgårdstrand, cerca de 100 quilómetros a sul de Oslo. O primeiro verão que passou em Åsgårdstrand foi em 1889, e, em 1897, Munch comprou uma pequena cabana de pescadores, à qual passou a referir-se como o seu “lugar feliz”. As linhas costeiras desta pequena e tranquila localidade logo atraíram a atenção de Munch e ainterpretação estilizada dessas margens, muitas vezes combinada com o luar, tornou-se um elemento recorrente do seu grande projeto existencial O Friso da Vida.

Em 1909, após um longo período de doença, Munch foi viver para  Kragerø, na margem ocidental do fiorde de Oslo, onde alugou uma casa com vista para o mar. Foi nesta localidade que passou um dos períodos mais alegres e produtivos da sua vida artística.

O Sol (1910-1911) é um quadro gigante exposto no sexto andar do museu, que é consagrado às obras monumentais de Munch. Esta obra, produzida originalmente para os murais da Universidade de Oslo é especialmente importante porque é também um marco da aceitação tardia do trabalho de Munch na Noruega.

A natureza de Kragerø inspirou Munch a pintar o grande mural vitalista O Sol — o nascimento do astro-rei, símbolo mais puro da força da vida, retratado com pinceladas ousadas e vigorosas. Outros temas de Kragerø, que também aparecem na arte de Munch, são as ruas pitorescas, a alternância das estações, e cenas do dia-a-dia dos habitantes.

Em 1913, ainda dentro do Fiorde da Noruega, Munch subiu para Jeløya, nos arredores de Moss, onde morou durante três anos, até 1916. Os anos em Jeløya foram altamente produtivos e intensos, e Munch trabalhou avidamente com pinturas e xilogravuras coloridas. Uma das pinturas mais famosas de Munch, Trabalhadores a Caminho de Casa, foi produzida em Moss. Munch também representou, neste período, as belas paisagens culturais de Jeløya.

Mais tarde, já em Oslo, onde cresceu e se iniciou como jovem artista, Munch desenvolveu uma relação tensa com a cidade, tendo encontrado na capital os seus rivais mais ferozes e também os críticos mais severos da sua obra4.

Trabalhadores a Caminho de Casa (1915), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Mas os problemas de Munch já vinham de longe. Ele foi atormentado por doenças persistentes e também por uma infância difícil — com lutos e doenças mentais na família5 — as quais tiveram grande influência no seu trabalho artístico. Desde o ultrafamoso O Grito, até aos muitos milhares de esboços que produziu, a obra de Munch está repleta de emoções e traumas psicológicos. Várias versões de O Grito6 estão guardadas no MUNCH, incluindo desenhos, uma versão posterior pintada, e seis litografias.

O Grito é, sem dúvida, a obra mais famosa de Munch, um trabalho incrivelmente intemporal. Trata-se de uma narrativa aberta, em que o principal protagonista é estranhamente enigmático — não pertencendo a nenhuma classe, ou género, ou cultura, ou raça. O tema resulta de um passeio que Munch fez com amigos, num fim de tarde de 1891, quando o sol caía sobre o fiorde de Oslo. Todas as versões de O Grito são diferentes, mas igualmente poderosas. Há quem diga, provavelmente com razão, que O Grito manifesta a angústia do artista, provocada por decepções na sua vida pessoal, quer no que diz respeito ao amor, quer no que toca aos amigos. O quadro mostra-nos uma criatura enigmática em pânico — cuja forma pode sugerir, de algum modo, um feto, ou mesmo um espermatozoide (símbolos da extrema fragilidade da vida) — e cujos contornos se projetam no fundo avermelhado do horizonte; dois transeuntes seguem o seu caminho, indiferentes.

A célebre pintura O Grito (têmpera e óleo sobre cartão, provavelmente de 1910). Munch criou todas as versões desta obra em cartão ou papel, tornando-as mais frágeis do que seriam se tivessem sido produzidas em óleo sobre tela. É por isso que as três versões7 patentes na sala do museu dedicada a O Grito — uma pintura (na foto), um desenho a pastel (1893) e uma litografia (1895) — são apresentadas rotativamente, uma de cada vez, apenas por uma hora, sendo depois encerradas numa câmara escura até nova apresentação.8 Ou seja, há sempre uma das versões exposta, enquanto as outras duas permanecem no escuro.

É de notar que a estrada onde esses homens estão segue em linha reta para o infinito, o que torna ainda mais notória a distância que os separa do protagonista. Isto reforça a ideia de que a angústia e o desespero de uma pessoa pode ser completamente indiferente para outras. Embora o próprio Munch tenha escrito sobre a sua obra mais famosa9, O Grito continua, apesar de tudo, a ser um enigma, tanto no conteúdo como na forma. Não há uma interpretação única sobre a obra, antes inúmeras interpretações. Uma delas, verdadeiramente surpreendente, foi publicada em 2003, na revista Sky and Telescope por um grupo de professores de Física e Astronomia da Universidade Estadual do Texas, que se deslocaram até Oslo para perceberem onde teria sido o local exato onde Munch observara o tal céu vermelho-sangue. Depois de determinada a localização, os investigadores americanos concluíram que um céu semelhante ao descrito por Munch pode de facto ter sido observado naquela zona do globo, resultante da grande erupção do vulcão da ilha de Krakatoa, na Indonésia, em 1883 — uma das mais terríveis erupções vulcânicas registadas, que provocou o desaparecimento da ilha. Os investigadores concluíram assim que Munch estaria a olhar para sudoeste, exatamente o quadrante onde o clarão do Krakatoa apareceu, naquele inverno de 1883-1884. Isto parece vir ao encontro das próprias palavras de Munch (ver nota 9) quando este refere que sentiu um imenso grito infinito através da natureza.

Todas as versões de O Grito são diferentes. Mas todas são igualmente poderosas. Na foto, a litografia de 1895.

É, pois, impressionante como uma pequena obra pode dizer-nos tanto. E seja qual for a interpretação que tenhamos, nenhuma vai retirar o lugar que O Grito conquistou na História da Arte, um dos mais altos, senão o mais elevado, da corrente conhecida como Expressionismo.

Uma das características da arte de Munch é a atenção que dedica ao movimento, criando drama e intensidade nas suas obras: as linhas diagonais chamam a nossa atenção, puxando-nos, e provocando um movimento das figuras na nossa direção, gerando um confronto. Podemos reconhecer tais recursos desde os primeiros tempos da fotografia e do cinema — novos meios de imagem que ganharam destaque no tempo de Munch. Ele próprio experimentou a fotografia10e deslocava-se com certa frequência ao cinema, tendo além disso realizado pequenos filmes em torno de Oslo e no jardim da sua casa. Por isso se pensa que estas novas tecnologias influenciaram a sua arte. Porém, é preciso dizer que, com Munch, o movimento está sempre associado à emoção. Ele procura agarrar o espectador, imprimindo ao seu trabalho uma carga intensa e dramática. Munch pinta para criar a sensação de movimento dentro do próprio espectador.

A intensa produção de artes gráficas de Edvard Munch — gravuras, xilografias, litogravuras — começou em 1894. No MUNCH, os visitantes podem experimentar algumas técnicas utilizadas pelo pintor. Munch não tinha grande experiência gráfica, o que constituiu o principal motivo para a criação de técnicas inovadoras.

De acordo com Gray F. Watson, professor da Wimbledon School of Art, de Londres, Munch foi um líder na revolta contra os ditames naturalistas da pintura académica do século XIX e também foi além do naturalismo ainda inerente ao impressionismo. A sua concentração nos fundamentos emocionais levava-o por vezes a simplificações radicais da forma e a uma abordagem expressiva, em vez de descritiva, da cor. Estas tendências foram a dotadas por artistas mais jovens, nomeadamente os principais proponentes do expressionismo alemão. Talvez a sua influência formal mais direta na arte posterior possa ser vista na área da xilogravura. Mas o seu legado mais profundo para a arte moderna estava no seu propósito de abordar aspetos universais da experiência humana. Munch herdou o misticismo tradicional e a ansiedade da pintura do norte da Europa, que recriou numa arte altamente pessoal. O seu trabalho continua a expressar a situação tipicamente moderna do indivíduo diante da incerteza de um mundo contemporâneo em rápida mudança.11

A exposição patente no MUNCH está dividida em doze temas, que podem ser visitados pela ordem que se quiser — Só; Morrer; O Grito; Amor; Género; Outdoors; Nu; Outros; O Eu; Em Movimento; À Superfície; Variações.

Terminamos com uma frase retirada da exposição que tivemos a felicidade de visitar seis meses após a inauguração deste novo museu:

Não existe uma verdade única sobre Edvard Munch e o seu trabalho. A obra de Munch e a nossa compreensão da mesma podem ser consideradas infinitas.

No terraço do icónico e controverso edifício que acolhe e é, ele próprio, o museu MUNCH.

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Notas:

1 A fase mais recente do projeto de renovação da zona ribeirinha de Oslo, que já dura há décadas, tem sido, de facto, controversa. O projeto do Munch, de autoria do renomado estúdio de arquitetos Herreros, com sede em Madrid, foi também criticado por alguns moradores nos meios de comunicação locais, sobretudo devido à forma “vertical” incomum e à fachada cinza do edifício. Os arquitetos disseram que se inspiraram, sobretudo, nas impressionantes torres do edifício da Câmara Municipal de Oslo.

2 O termo “simbolismo” foi cunhado pela primeira vez pelo crítico francês Jean Moréas, em 1886, e rapidamente usado para caracterizar artistas e escritores que rejeitavam as representações realísticas do mundo exterior, em favor da exploração da vida interior da alma humana. O objetivo destes artistas era o de expressarem as ideias que estão por trás da realidade visível, ou, tal como o autor Knut Hamsun referiu em 1890, “mostrar a vida inconsciente da alma”. O movimento representava uma nova e radical compreensão do “eu”, que em vez de ser algo estável e constante, era visto como fluído e fragmentado. Na década de 1890, o simbolismo desenvolveu-se como um movimento cultural abrangente, que incluía Arthur Rimbaud, Paul Gauguin, Auguste Rodin, James Ensor, August Strindberg, Vincent Van Gogh e Edvard Munch.

3 O surrealismo surgiu na ressaca da Primeira Guerra Mundial, após milhões de mortos e uma Europa em ruínas. Simultaneamente, Sigmund Freud e a psicanálise aportaram uma visão inovadora sobre a mente humana. Dedicando-se às questões do inconsciente — sonhos, desejos e impulsos inconscientes — os artistas, na opinião de André Breton, deveriam liderar o caminho para uma nova ordem mundial. Durante os anos 20 e 30 do século XX, Breton atraiu um vasto conjunto de escritores, artistas plásticos e realizadores cinematográficos, disposto a desafiar a moralidade, a tradição e a própria racionalidade. Entre estes estavam Max Ernst, Dora Maar, René Magritte, Leonora Carrington, Claude Cahun, Salvador Dalí e Luis Buñuel.

4 Munch esteve várias vezes envolvido em polémicas com outros autores. Uma luta física com um pintor rival obrigou-o a ausentar-se da Noruega durante 4 anos. Vários dos seus quadros refletem estas disputas.

5 A mãe e a irmã de Munch faleceram de tuberculose quando ele tinha, respetivamente, 5 e 14 anos. O pai e o irmão também morreram quando ele era jovem. A única irmã sobrevivente desenvolveu uma doença mental pouco depois. Munch foi várias vezes hospitalizado entre 1905 e 1909 por problemas de alcoolismo, depressão e comportamento suicida.

6 Quando abordamos as obras de Munch, geralmente não falamos de uma imagem, mas de várias. Ao longo de toda a sua carreira artística, Munch regressa aos mesmos temas para abordá-los de uma nova forma. Ele produzia uma versão, depois outra, e depois outra ainda. Ao revisitar os temas, novas possibilidades se revelam. Por vezes eles capta-as com um simples desenho ou, ocasionalmente, com uma escultura. Apesar de Munch nem sempre estar contente com o resultado, ele preservava todas as tentativas. Para ele não havia uma forma certa ou errada de pintar, apenas formas novas de o fazer.

7 Edvard Munch produziu quatro versões coloridas de “O Grito” — duas pinturas com têmpera e dois desenhos com pastel e lápis de cera. Dois deles permaneceram na sua posse e estão hoje na coleção do Museu MUNCH. Das duas versões restantes do famoso motivo, uma faz parte da coleção do Museu Nacional da Noruega e a outra é de propriedade privada (foi comprada em leilão pelo investidor e colecionador de arte norte-americano Leon Black, em 2012, por 119,9 milhões de dólares). Munch também criou uma litografia de “O Grito”. Não se sabe quantas litografias foram impressas, mas estima-se que existam cerca de 30 impressões. Seis destas — incluindo uma colorida à mão por Munch — estão hoje na coleção do Museu MUNCH.

8 Além do cuidado necessário com os fatores climáticos, como os níveis de temperatura, humidade e oxigénio, a exposição à luz tem de ser evitada. A luz afeta os pigmentos coloridos e danifica o papel e a cartolina ao longo do tempo.

9 Em 1892, na Riviera francesa, mais propriamente em Nice, Munch escreveu um poema no seu diário, descrevendo uma caminhada com os seus amigos. Ele sentiu-se cativado pela visão das nuvens flamejantes e da cidade e da água azul-negras. Escreveu Munch: “Eu estava a andar por uma estrada com dois amigos quando o sol se pôs. Senti uma rajada de melancolia e de repente o céu ficou vermelho-sangue. Eu parei, encostei-me ao gradeamento, cansado de morte, enquanto os céus flamejantes pendiam sobre o fiorde azul e negro e sobre a cidade. Os meus amigos continuaram, eu permaneci ali a tremer de ansiedade e senti um imenso grito infinito através da natureza.” Nesse mesmo ano, Munch traduziu a experiência relatada no diário visualmente. Assim nascia “O Grito”.

10 Foi um dos primeiros artistas a explorar o auto-retrato fotográfico, após ter comprado uma câmara Kodak, em 1902.

11 https://www.britannica.com/biography/Edvard-Munch.

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Luta contra a Morte (1915), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

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Fontes:

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House on Fire, Eswatini

House on Fire, em Eswatini. Um espaço magnífico, quer na parte coberta, quer nas zonas ao ar livre.

Eswatini é um pequeno reino situado no sudeste africano, um enclave sem acesso ao mar, envolvido por dois países bastante maiores, Moçambique e África do Sul. O porto mais próximo, que permite ao país importar e exportar produtos por via marítima, é o de Maputo, na capital moçambicana. Eswatini chamava-se antes de 2018 Suazilândia, mas o rei Mswati III decidiu nesse ano alterar o nome do país, que queria dizer “terra dos zwazis”, os descendentes de povos que vieram do norte, em vagas sucessivas.

Desde que começaram a praticar a agricultura até hoje, passando pela autonomia (finais do século XIX) e a independência (1968) ambas concedidas pelos britânicos, esta foi sempre a principal atividade económica dos habitantes do atual Eswatini (se a ela juntarmos a criação de gado), embora se note uma crescente aposta em algumas pequenas indústrias, sobretudo na construção (obras públicas) e no turismo. Embora Eswatini e Moçambique sejam dois dos países mais pobres do planeta, nota-se um diferença considerável entre ambos, sendo Eswatini palpavelmente mais desenvolvido que Moçambique, embora este tenha condições naturais, geográficas e dimensionais para ser mais desenvolvido do que aquele.

House on Fire é uma instalação que se enquadra numa tentativa de desenvolvimento do país, impulsionado pelo turismo, uma aposta dos responsáveis de Eswatini, embora seja uma iniciativa privada. Situada 20 kms a sudeste da capital, Mbabane, aqui se realizam eventos diversos, incluindo, anualmente, em finais de maio, o MTN Bushfire, um dos mais conceituados festivais de música africanos. (https://youtu.be/nYhCAy9xZUE).

Idealizado pelos irmãos, Jiggs Thorne e Sholto Thorne, a House of Fire foi construída numa exploração de cana-de-açúcar e inaugurada no ano 2000. As suas esculturas ao ar livre refletem influências da Owl House, em Neiu Bethesda (África do Sul), e do Rock Garden, em Chandigarh (Índia). Apesar das diferenças, fez-nos lembrar Casapueblo, de Carlos Páez Vilaró (nosso artigo aqui).

Pormenor de um ponto de iluminação no espaço interior da House on Fire. (Foto: Fla).

A primeira das construções — o teatro — foi projetada com a colaboração da arquiteta sul-africana Sarah Calburn, tendo as posteriores evoluído para um espaço multifuncional em constante evolução, onde artistas locais, com destaque para Noah Mduli, continuam a dar asas à criatividade.

A intenção é a de apresentar uma filosofia de “harmonia em contraste”, com ícones e símbolos de todo o mundo. Um exemplo, bem interessante, sobretudo para nós, é o de um pequeno mural, erguido no jardim, onde se pode observar, por cima de uma frase de Einstein, uma imagem de Fernando Pessoa.

Aldeia em Eswatini.

A prova de que a House on Fire não para, é o último grande evento organizado pela sua equipa: o Festival conhecido como Standard Bank Luju Food & Lifestyle Festival, iniciado em 2018, que dedica dois dias às comida, moda e música, apresentando os melhores chefes gastronómicos da região.

House on Fire, independentemente dos eventos que ali se realizam (http://www.house-on-fire.com), é um espetáculo por si só.

Paisagem do Eswatini profundo.

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Fontes:

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Centro Nobel da Paz, Oslo

O Centro Nobel da Paz, no coração de Oslo.

Alfred Nobel foi um empresário, inventor e cientista sueco que acumulou uma fortuna considerável ao longo da sua vida de 63 anos. Para lá dos bens materiais, como dinheiro, títulos e imóveis, Alfred possuía igualmente bens que ultrapassavam o puro valor material; o seu amor pela literatura1 compelia-o a comprar muitos livros, pelo que possuía uma biblioteca vasta e valiosa. Parece que Alfred Nobel era um indivíduo empreendedor e confiante, mas simultaneamente reservado e tímido; de acordo com as suas próprias palavras, “misantropo e idealista”. É consensual que tinha um feitio difícil e não se sabe se por isso mesmo, ou por excesso de trabalho, nunca teve vontade ou oportunidade de constituir família. Alfred não teve filhos e não deixou herdeiros diretos.

Em 27 de novembro de 1895, um ano e 13 dias antes de morrer, Alfred Nobel assinou, em Paris, o último testamento. Logo após a sua morte, um número considerável de pessoas, familiares e amigos, aguardavam ansiosamente por conhecerem o teor desse documento, uma vez que todos tinham consciência de que era possuidor de uma das maiores fortunas mundiais privadas. Para grande desapontamento de muitos deles, declarava o seguinte na sua última vontade:

A totalidade do meu património remanescente realizável será alienada da seguinte forma: o capital, investido em títulos seguros pelos meus testamenteiros, constituirá um fundo, cujos juros serão atribuídos anualmente a título de prémio àqueles que, durante o ano anterior, terão conferido o maior benefício à humanidade. Os juros serão divididos em cinco partes iguais, a serem repartidos da seguinte forma: uma parte à pessoa que tiver feito a descoberta ou invenção mais importante no campo da física; uma parte à pessoa que tiver feito a descoberta ou invenção química mais importante; uma parte para a pessoa que tiver feito a descoberta mais importante no domínio da fisiologia ou medicina; uma parte à pessoa que no campo da literatura tenha produzido a obra mais destacada de tendência idealista; e uma parte à pessoa que tiver feito mais ou melhor trabalho pela fraternidade entre as nações e pela abolição ou redução dos exércitos permanentes e pela formação e difusão de congressos de paz. Os prémios de física e química serão concedidos pela Academia Sueca de Ciências; para trabalhos fisiológicos ou médicos pelo Instituto Caroline, em Estocolmo; para a literatura pela Academia em Estocolmo, e para os defensores da paz por um comité de cinco pessoas a serem selecionadas pelo parlamento norueguês. É meu desejo expresso que na atribuição dos prémios não seja dada qualquer consideração a filiações nacionais de qualquer tipo, para que o mais digno receba o prémio, seja escandinavo ou não.2

Alguns dos familiares de Alfred Nobel solicitaram a invalidade do testamento e nessa luta conseguiram o apoio de rei Oscar II, que considerou “fantasiosas” as pretensões de Alfred. Além destes, também muitos conservadores desejavam impedir a realização do testamento, considerado “antipatriótico”, uma vez que os prémios deveriam ter sido reservados para os suecos. Só após longas e difíceis negociações, que envolveram o governo, os executores Ragnar Sohlman e Rudolf Lilljequist conseguiram desatar os nós jurídicos envolvidos. Finalmente, em 29 de junho de 1900, os estatutos da recém criada Fundação Nobel foram aprovados pelo relutante rei Oscar II; e em 10 de dezembro de 1901 foram concedidos em Estocolmo e Oslo os primeiros prémios Nobel.3

O que teria levado um cientista e inventor da dinamite a uma decisão tão altruísta em favor da espécie humana, ao expressar a sua vontade de que fossem premiados anualmente os mais destacados no benefício da humanidade, incluindo quem “fez mais ou melhor para promover a comunhão entre as nações, a abolição ou redução de exércitos permanentes e o estabelecimento e promoção de congressos de paz”? Os biógrafos indicam que por trás dos ideais pacifistas de Alfred Nobel estava uma mulher. Não uma mulher com quem ele tivesse uma relação amorosa, mas uma amiga com quem se correspondeu durante anos e que, sendo ela própria pacifista, teve uma forte influência sobre o empreendedor sueco. Essa mulher chamava-se Bertha von Sutnner4 e, curiosamente, conheceu Nobel ao responder a um anúncio de jornal de “um senhor muito culto, rico e idoso, morando em Paris, que deseja encontrar uma senhora também de idade madura, familiarizada com idiomas, como secretária”.5

Não se conhece exatamente a razão pela qual Alfred Nobel optou, no seu testamento, pela criação de um comité, designado pelo parlamento norueguês (Storting), para a atribuição do prémio da paz. Trata-se de um facto e não adianta muito especular sobre ele. No entanto, Geir Lundestad, ex-secretário do Comité Nobel Norueguês e diretor do Instituto Nobel, resume no seu artigo O Prémio Nobel da Paz, 1901-2000, as suposições mais frequentes e melhor fundamentadas: Nobel, que escreveu o testamento no Clube Sueco-Norueguês de Paris, pode ter sido influenciado pelo facto de que, até 1905, a Noruega ter estado em união com a Suécia; ele pode também ter considerado a Noruega um país mais orientado para a paz e mais democrático que a Suécia; finalmente, Nobel pode ter sido influenciado pela sua admiração pela ficção norueguesa, particularmente por Bjornstjerne Bjornson, conhecido ativista da paz na década de 1890; ou pode ter sido uma combinação destes três fatores.6

A verdade é que os noruegueses levaram essa incumbência muito a sério, e o Nobel da Paz é um prémio com significado e importância muito especiais. Em Oslo há dois locais onde podemos perceber isto, e nós visitámos ambos na nossa mais recente visita. Falamos do Instituto Nobel Norueguês e do Centro Nobel da Paz. O primeiro é onde trabalham os membros do Comité Nobel Norueguês7 e o seu secretariado; o segundo é um museu onde podemos percorrer, através da exposições ali patentes, partes das vidas e dos pensamentos quer de Alfred Nobel, quer dos muitos laureados com o Nobel da Paz, com destaque lógico para os últimos ganhadores8: uma ala do museu estava no momento da nossa visita dedicada aos laureados com o Nobel da Paz de 2021, o russo Dmitry Moratov e a filipina Maria Ressa.

Dmitry Moratov e Maria Ressa são jornalistas e ambos vivem em países onde não há liberdade de imprensa. Tal como outros colegas, arriscam a vida por exercerem uma profissão incómoda para o poder. O caso russo é mais grave que o filipino e, além disso, tem relação direta com a guerra que Vladimir Putin decidiu fazer à Ucrânia. É por isso que, nesta ala do museu, o enfoque está todo na falta de liberdade que se vive na Rússia, onde vigora um regime autocrático que piorou muito ao longo dos últimos vinte anos. Há uma relação inequívoca entre paz e liberdade, e os responsáveis pela exposição quiseram realçá-la, conduzindo o visitante a uma importante conclusão: não pode haver paz onde não há liberdade. Este é o primeiro ponto a considerar em relação à paz.

O segundo ponto, que também tem relação direta com a atual guerra iniciada por Putin, tem a ver com a grave ameaça que representam para a humanidade as armas nucleares. Cabe aqui dizer que em 2017 a ICAN – International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares), uma organização fundada em 2007 em Melbourne, na Austrália, ganhou o Prémio Nobel da Paz de 2017. A ICAN é uma organização global, composta por mais de 600 ONGs, com presença em 108 países. Por razões óbvias, é natural que o Comité Norueguês do Nobel e o Centro do Nobel da Paz dediquem uma especialíssima atenção à verdadeira espada de Dâmocles que pende sobre a cabeça de todos os seres humanos — as armas nucleares.

Em 7 de junho de 2017, após uma década de intensos trabalhos da ICAN e seus parceiros, a maioria das nações do mundo adotou um acordo global histórico para proibir as armas nucleares conhecido oficialmente como Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares9. Entrou em vigor em 22 de janeiro de 2021. No sítio da organização, numa página cujo título é Porquê um banimento?, a ICAN explica porque se bate não apenas pela proibição, mas pelo banimento completo das armas nucleares: As armas nucleares são as armas mais desumanas e indiscriminadas jamais criadas. Têm consequências humanitárias e ambientais catastróficas que se estendem por décadas e atravessam gerações; geram medo e desconfiança entre as nações, já que alguns governos podem ameaçar destruir cidades inteiras num piscar de olhos; o alto custo da sua produção, manutenção e modernização desvia fundos públicos da saúde, educação, socorro em desastres e outros serviços vitais. Proibir essas armas imorais e desumanas sob a lei internacional foi um passo crítico no caminho para exterminá-las, antes que elas acabem connosco.10

A guerra infligida à Ucrânia é uma das maiores calamidades deste século, bem como a chantagem nuclear de Putin. Trata-se de uma ameaça muito séria à paz na Europa e no mundo. Nas bibliotecas e livrarias que visitámos na Noruega, as obras destacadas são todas sobre os temas do momento: a Ucrânia, a Rússia, as relações internacionais e, sobretudo, Putin. As cores da bandeira ucraniana são visíveis nas cidades da Noruega (e da Dinamarca). O apoio do povo norueguês à Ucrânia e à liberdade sente-se não apenas no Centro Nobel da Paz e no Instituto Nobel Norueguês, mas, podemos constatá-lo, um pouco por todo o lado.

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Fontes:

  • nobelpeacecenter.org
  • nobelprize.org
  • Biblioteca do Instituto Nobel Norueguês
  • Centro Nobel da Paz
  • icanw.org

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Notas:

1 Alfred Nobel escreveu poemas durante juventude.

2 nobelpeacecenter.org.

3 Embora a maioria das pessoas pense que existem 6 diferentes prémios Nobel, a área da Economia não foi, como vimos, contemplada no testamento de Alfred Nobel. Só em 1968 o Banco da Suécia instituiu o “Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel”. A atribuição deste prémio segue todos os critérios de atribuição dos prémios Nobel, por isso é muitas vezes confundido e considerado como tal, mas é, na realidade, um prémio similar, mas diferente à sua criação e ao seu financiamento.

4 Bertha von Suttner era escritora e ela própria ganhou o Nobel da Paz em 1902.

5 nobelpeacecenter.org.

6 nobelprize.org

7 Como se disse, os cinco membros do comité são designados pelo parlamento. Embora sejam normalmente políticos, não podem estar na política ativa, isto é, não podem ser deputados ou membros do governo.

8 Podemos dividir as exposições do museu em quatro partes: o historial do Nobel da Paz; a vida de Alfred Nobel (passamos por uma réplica do interior da casa onde morreu, em San Remo, na Riviera Italiana); os laureados; os últimos contemplados com o Nobel da Paz. Há também, como em quase todos os museus, uma loja onde se podem comprar artigos alusivos ao Nobel da Paz.

9 O teor do tratado, em português, pode ser consultado em: https://d3n8a8pro7vhmx.cloudfront.net/tectodevms/pages/2417/attachments/original/1571248142/Portugues.pdf?1571248142

10 https://www.icanw.org/why_a_ban

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O Museu de Skagen

A zona a norte da cidade, onde fica a praia, foi motivo de grande parte das obras dos Pintores de Skagen, várias das quais patentes no museu. Na foto podem ver-se um bunker usado pelos alemães na Segunda Guerra Mundial e, ao fundo, a língua de areia onde convergem o Mar Báltico e o Mar do Norte.

Skagen é uma pequena cidade situada no extremo norte da Dinamarca. Acima da cidade há uma praia que apresenta uma forma muito curiosa, pois na extremidade tem o que parece um espigão de areia que entra pelo mar dentro e separa, supostamente, o Mar do Norte do Mar Báltico. Dada a sua condição geográfica, não surpreende que as principais atividades estejam ligadas à pesca e ao turismo: Skagen é o principal porto de pesca da Dinamarca e o turismo atrai à cidade cerca de dois milhões de pessoas por ano. Aqui, neste pequeno burgo, está situado um importante museu.

Na viragem do século XIX para o século XX, a região de Skagen foi uma importante zona de veraneio para os próprios dinamarqueses, atraindo artistas de todas as áreas e inclusive a família real. O rei Cristiano X e sua mulher Alexandrina mandaram aí construir uma residência de Verão, onde recebiam os amigos, incluindo membros de outras monarquias europeias. Vários pintores dinamarqueses também descobriram os encantos deste local, ainda durante os últimos anos do século XIX, seduzidos pela vida ao ar livre e motivados pela pintura naturalista.

P.S. Kroyer, Fogueira de Verão na Praia de Skagen (1906). Museu de Skagen.

Alguns deles, oriundos da Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes, em Copenhaga, estão entre os maiores pintores modernos da Dinamarca. No século XIX, aquela escola foi o local onde pintores masculinos estudavam e expunham os seus trabalhos. As mulheres não tinham acesso à academia, até 1908, e só em 1925 lhes foi permitido estudarem em conjunto com os homens. Em alternativa, podiam recorrer às escolas privadas de Copenhaga, ou ir para o estrangeiro, para aprenderem a desenhar com modelos vivos. Foi assim que desde os anos de 1880 muitas mulheres dinamarquesas intervieram em colónias artísticas de outros países, onde puderam trabalhar e participar nos debates sobre arte e cultura em pé de igualdade com os homens.

Michael Ancher, Anna, Helga e Michael Ancher no Pântano (1905). Museu de Skagen.

Mas já na década de 1870 fermentava uma rebelião entre os jovens artistas masculinos que se encontravam na fase final de graduação na Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes. Insatisfeitos com o ensino antiquado e fora de moda desta escola, aspiravam por novas vias no estrangeiro. As viagens de estudo a França tornaram-se, por isso, cada vez mais populares. Muitos pintores escandinavos e dinamarqueses tiveram acesso ao Atelier Bonnat, em Paris, onde pintaram desenfreadamente, enquanto nos tempos livres se deslocavam para fixar em tela as paisagens francesas, experimentando o prazer da moderna pintura ao ar livre. Colónias artísticas foram estabelecidas fora das grandes cidades, não só em França, mas também noutros países mediterrânicos, como Espanha e Itália. Skagen transformou-se numa réplica desses modelos europeus.

Michael Ancher, O Pescador Afogado (1886). Museu de Skagen.

Foi então que os jovens pintores começaram a romper com os ensinamentos da academia, focando-se em novos e diversos motivos. Este era o tempo de captar a vida do dia-a-dia e retratar a realidade nua e crua, sem embelezamentos. Entre estes artistas encontravam-se dois grandes pintores: Michael Ancher (que não chegou a completar o curso na Real Academia) e P.S. Kroyer. Ambos viveram largos períodos de suas vidas nesta cidade. Michael visitou Skagen pela primeira vez em 1874, acabando por casar em 1880 com a pintora Anna Brondum, cujo pai era o dono do hotel Bromdums, onde normalmente se hospedavam os apelidados Pintores de Skagen, que ali passavam todos os verões. O casal de pintores passou a viver em Skagen num local que hoje se situa no jardim do museu.

P.S. Kroyer, Barco Branco na Praia (1895). Museu de Skagen.

Por seu turno, P. S. Kroyer (que nasceu em Stavanger na Noruega) veio pela primeira vez a Skagen em 1882 e, durante outros 22 anos, passou temporadas na cidade, quase sempre no verão, incluindo todo o ano de 1908, vindo a falecer, aqui, em 1909. Não surpreende, por isso, que o Museu de Skagen possua no seu acervo significativas obras, quer dos Ancher (Michael e Anna), quer de Kroyer, sobretudo pinturas realistas cujos motivos se relacionam com a praia e a sua envolvente natural. As nuances de luz nos vários períodos do dia e nas diversas condições do tempo, inspiraram estes e outros pintores a mostrarem as atividades que decorriam na praia, fossem de trabalho (pescadores, pintores, transportadores) ou de lazer (crianças banhistas, pessoas passeando na praia, festividades), entre outros motivos.

Quem for a Skagen tem de visitar o seu magnífico museu. É obrigatório!

Carl Locher, A Carruagem do Correio (1885). Museu de Skagen.

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Fontes:

  • Exposição patente no Museu de Skagen.
  • “Kroyer – An International Perspective”, The Hirschsprung Collection & Skagens Museum, 2011.

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ARoS Aarhus Art Museum

A fachada Sul do ARoS Aarhus Art Museum.

Na nossa visita à cidade dinamarquesa de Aarhus houve dois locais que nos surpreenderam: a parte antiga, conhecida como Den Gamle By, e sobretudo o Museu de Arte ARoS. E para a surpresa ser completa, mal transpusemos a porta deste, deparámo-nos com uma peça monumental de Joana Vasconcelos (Valkyrie Rán), que ali permanecerá até novembro do presente ano, abrangendo totalmente o comprimento do átrio do museu.

“Boy”, de Ron Mueck.

Depois fomos subindo os andares do ARoS e apreciando as diversas exposições. Destas destacamos os trabalhos do artista hiper-realista australiano, Ron Mueck, sobretudo uma escultura gigante intitulada “Boy”, com 4,5 metros de altura e 500 quilos de peso, que é uma das imagens de marca deste espaço cultural, presente em pins, sacos, cadernos, canecas e todo o tipo de souvenirs que se podem comprar na loja do museu.

Your Rainbow Panorama. Magnífico.

Até que finalmente chegamos ao terraço e deparamos com a estrela permanente deste magnífico edifício. Trata-se de uma passarela circular, com 150 metros de comprimento, 3 de largura e 52 de diâmetro – Your Rainbow Panorama – situada no topo do edifício, 50 metros acima do solo. O seu autor é o criador dinamarquês e islandês, Olafur Eliasson. Com paredes de vidro das cores do arco-íris, esta estrutura proporciona vistas espetaculares sobre a cidade e a baía de Aarhus e é, desde maio de 2011, um dos ícones da cidade.

É irresistível passear nesta passarela.

O ARoS vê-se praticamente de toda a cidade e, mesmo que não se goste de museus, é quase impossível ir a Aarhus e não reservar algum tempo para visitá-lo. Não há qualquer dúvida de que vale a pena.

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