Jonas Vingegaard, um dinamarquês tímido e simpático, é o grande vencedor da 51ª Volta ao Algarve.
Terminou hoje a 51ª Volta ao Algarve, que contou com a participação de alguns dos melhores ciclistas mundiais de estrada, com destaque para Jonas Vingegaard, duplo vencedor da Volta à França (2022, 2023), que justificou a sua condição de favorito, arrebatando o primeiro lugar na classificação geral da Algarvia.
As provas de ciclismo dão grande colorido e animação às estradas onde se realizam. O Algarve não é exceção.
A caravana desta edição, tal como as anteriores, percorreu os principais burgos do Algarve, de Barlavento a Sotavento, com três etapas para sprinters, duas para trepadores e uma mista. A primeira etapa foi anulada, depois de um erro crasso da organização. A segunda foi ganha por Jan Christen, no Alto da Fóia. A terceira etapa, discutida ao sprint, terminou em Tavira, uma cidade com uma longa tradição no ciclismo, onde brilhou o belga, vencedor da etapa, Jordi Meeus. A quarta etapa terminou ao sprint, em Faro, e o vencedor foi o inesperado Milan Fretin.
O pequeno Vingegaard, em Loulé.
Mas a decisão da prova estava guardada para o último dia, através de um inédito contrarrelógio de 19,6 quilómetros, concluído no Alto do Malhão. Aqui destacaram-se os melhores corredores do pelotão, que pontuam entre os melhores do mundo: Vingegaard (1º na etapa), Wout van Aert (2º), João Almeida (6º) e Primoz Roglic (12º). Geraint Thomas, o britânico vencedor do Tour em 2018, mostrou estar em baixo de forma e não conseguiu melhor que o nonagésimo primeiro posto.
Primoz Roglic em pleno contrarrelógio.
Feitas as contas, o pódio final da Volta ao Algarve foi partilhado por Jonas Vingegaard, que foi o grande vencedor; João Almeida, segundo, com mais 15 segundos; e Laurens de Plus, terceiro, com mais 24 segundos que o vencedor. Roglic, tetra vencedor da Vuelta, ficou no 8º posto e Geraint Thomas não foi além do 95º lugar. Para o ano há mais.
Esta viagem foi programada com bastante antecedência, logo quando a companhia americana de navios de cruzeiro, Norwegian Sky, começou a vender os primeiros bilhetes, com 50% de desconto, há cerca de oito meses. Atendendo a essa oportunidade e também ao itinerário — apresentado na tabela incluída no final deste artigo — que seguia, grosso modo, a descida progressiva da costa ocidental de África, iniciada pelos portugueses há mais de cinco séculos, concordámos em como seria uma viagem que valeria muito a pena realizar.
Pesquisámos sobre os voos de regresso e também sobre o alojamento na Cidade do Cabo, e só depois fizemos a reserva do cruzeiro. Decidimos que ainda ficaríamos mais três dias na região da Cidade do Cabo, na África do Sul, depois de terminado o cruzeiro. No total, estaríamos fora 25 dias. Aqui fica o relatório da viagem.
16 de novembro de 2024
Entrámos no Norwegian Sky por volta das três da tarde. É o navio de cruzeiro mais pequeno entre todos em que viajámos, com uma capacidade máxima de 1944 passageiros. É também bastante antigo, digamos, mesmo velho, remontando o seu lançamento a 1996. Nitidamente, está a precisar de remodelação ou de ser reconvertido para outra atividade, talvez até de ser desmantelado, atendendo à idade útil das embarcações de cruzeiro. Como o que nos importa são as atividades fora do navio — sendo que este, para nós, apenas serve para comer e dormir — isso não nos incomoda por aí além, desde que a comida seja razoável e encontremos um espaço sossegado para ler. Veremos.
O salão Spinnaker é um local abrigado e confortável, situado à proa, no deck 11 do Norwegian Sky.
17 de novembro
Hoje vamos a navegar rumo ao Funchal, em pleno Atlântico Norte. O tempo está fresco e ventoso. Há uma ondulação moderada que faz com que o navio oscile um pouco — e há ruídos estranhos na nossa cabine, vindos não se sabe bem de onde. A comida, já deu para perceber, é pouco variada. Mas nem tudo é mau. Agrada-me a liberdade que se dá aos passageiros: ninguém anda atrás de nós para consumirmos seja o que for, ao contrário do que acontece noutras companhias; e a taxa de serviço diária é facultativa, só pagamos se quisermos. Além disso, descobrimos um salão no deck 11, à proa, onde podemos sentar-nos a ler e a escrever. É bastante agradável. Ninguém vem incomodar-nos a perguntar se queremos tomar algo — e temos chá e café à disposição.
Gosto de estar neste espaço, tranquilamente, com a pessoa que amo e me ampara. Ela torna a minha vida mais doce e mais pacífica… e la nave va!
Agora são 18:07 e já percorremos mais de dois terços do percurso entre Lisboa e Funchal. Em Portugal continental já anoiteceu, seguramente, mas no ponto onde nos encontramos — 34º 16,06’N e 014º 44,86’W — ainda é de dia. O navio segue a uma velocidade de cruzeiro de 13,7 nós.
Praia do Porto do Seixal.
18 de novembro
Tanto na Madeira como nas quatro ilhas das Canárias aonde acostará o nosso navio, reservámos carro. Na Madeira viajámos num carro da classe “B” pelo preço de 51€ (mais 16€ de combustível). A empresa é a Auto Rent a Car e situa-se na Rua da Casa Branca, 33. O serviço é decente. Quando chegámos ao Funchal não pude deixar de recordar-me das outras duas vezes em que estivera na Madeira, a primeira há uns 25 anos, e a segunda uns 4 anos depois. Nessa altura já se notava um desenvolvimento muito razoável na ilha, nomeadamente ao nível das infraestruturas, com boas estradas e uma quantidade impressionante de túneis. Tudo confirmado agora.
Dado que tínhamos poucas horas, o nosso tour foi pequeno. Começámos por ir ver a Cascata dos Anjos, uma queda de água sobre uma estrada, perto da Ponta do Sol. A estrada está cortada mas pode-se chegar perto da cascata de carro, bastando depois fazer uns 100 metros a pé. Quando chegámos estava um casal debaixo daquele imenso chuveiro, visivelmente, a divertir-se, e nós pensámos que poderíamos fazer o mesmo… se não nos tivéssemos esquecido dos fatos de banho. Sentimos uma certa inveja. E para afastar esse sentimento negativo, não nos demorámos muito por ali e rumámos a São Vicente, onde acabámos por almoçar num restaurante que o funcionário da empresa que nos alugou o carro havia indicado — Panoramic Ocean. O serviço de buffet é muito aceitável, dá para comer o que se quiser e repetir pelo preço simpático de 8€. Com bebidas, sobremesa e café pagámos, para os dois, 25€, já com gorjeta.
Câmara de Lobos, a vila de Churchil, dos pescadores e das castanholas.
Seguimos para o Porto de Seixal. A praia é fixe, abrigada, dentro de um quadrado que tem, no lado direito, uma enorme encosta verde; no lado esquerdo, um molhe de pedra e cimento; no lado da praia, por trás, sucessivamente, um paredão, a estrada e o casario da vila; e do quadrante em frente à praia, o imenso oceano. A areia é preta, vulcânica, mas a água é clara, límpida. Mas não nos banhámos.
Continuámos o nosso trajeto, em direção a Porto Moniz. As piscinas naturais são bonitinhas e perfeitamente adequadas para crianças. As vistas são espetaculares e o mar é intenso, com cambiantes que vão do azul profundo ao turquesa. Uma senhora, funcionária do parque de estacionamento, disse-nos que Porto Moniz era o melhor lugar do mundo para se viver… — e quem somos nós para duvidar? Regressámos praticamente pelas mesmas estradas, até fazermos um pequeno desvio para Câmara de Lobos, uma simpática povoação de pescadores. Os pequenos barcos amontoam-se na exígua praia de calhaus. Quando as ondas desfeitas regressam ao mar, enrolam os calhaus que emitem um som característico, semelhante a milhares de castanholas trinando em conjunto. De tanto rolarem, os calhaus mais parecem seixos, cada dia mais redondinhos.
Reparámos que há alojamentos e bares que adotaram o nome de Churchill. Só depois soubemos que Winston Churchill pintou um quadro em Câmara de Lobos, e isso bastou para que aqui lhe erguessem uma estátua, à porta de um hotel. Churchill apresenta-se sentado com um pincel numa mão, o charuto ao canto da boca e a tela em frente. Câmara de Lobos é realmente uma terra simpática onde os turistas se misturam com os pescadores locais (alguns no ativo e outros reformados). A atmosfera é amena, mesmo em novembro, e convida ao langor.
Foi uma boa maneira de nos despedirmos da Madeira — ao som das castanholas.
À chegada a Santa Cruz de la Palma.
19 de novembro
Desde o início que La Palma nos encantou. Vista do mar, ao longe, Santa Cruz de La Palma, a capital, parece prestes a ser engolida pelas eminentes montanhas que a ameaçam pelas costas. Mais de perto, porém, começamos a vislumbrar belos edifícios, com sacadas de madeira, de cores diversas. Sob uma delas, na Avenida Marítima, fica a empresa Autos Dirpalma, onde alugámos uma viatura pelo preço de 45€.
Depois de recebermos o nosso Hyundai alugado, subimos pela costa oriental rumo à praia de Nogales. Não chegámos propriamente à praia, porque da estrada onde estacionámos o carro teríamos de descer a pique por um caminho de cerca de 1 quilómetro — e depois subir, claro. Tendo em conta o tempo disponível e os lugares que ainda queríamos visitar, não era sensato metermo-nos numa aventura que nos tomaria, no mínimo dos mínimos, duas horas. Mas ficámos com pena, pois, vista cá de cima, a praia de Nogales é mesmo muito bonita. Continuámos a nossa viagem, e a paragem seguinte foi no Charco Azul, umas piscinas naturais muito atrativas, à semelhança das congéneres que visitámos meia dúzia de quilómetros depois — La Fajana. Aqui não resistimos e demos uns mergulhos. Durante o trajeto até este ponto, vimos, por todo o lado, dominando em absoluto a paisagem, uma imensidão de bananeiras. Bonitas, ordenadas, cuidadas. Toneladas e toneladas de bananas.
Nadando nas piscinas de La Fajana.
O nosso próximo destino não ficava muito longe, uns 40 quilómetros, mas demorámos quase duas horas a lá chegar. Estávamos a contornar a ilha no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, e a paisagem ia cambiando. Depois das bananeiras, pinheiros altíssimos, eretos, e, a partir de certo ponto, vinhas. Estávamos na região de Las Tricias. As folhas das videiras ainda não tinham caído e apresentavam aqueles tons ocres de outono, muito bonitos. Parámos várias vezes para fotografar.
Finalmente, quando saímos da estrada principal para descermos até Poris de Candelaria, que era o nosso destino, começámos a ficar um pouco apreensivos. Os cinco quilómetros que ainda tínhamos de percorrer não estavam à nossa frente, estavam literalmente abaixo de nós. Uma placa no local indica uma inclinação de 23%. Além disso, a estrada não é a melhor, com muita gravilha, o que não facilita a aderência. Mas lá fomos, bem devagar, um pouco receosos de tamanho declive.
Entre as vinhas de Las Tricias, no noroeste de La Palma.
Após estacionarmos o carro ainda tivemos de descer a pé mais uns 600 metros. Lá em baixo, uma minúscula enseada que o mar escavou nas rochas de lava e, sob estas, umas casinhas cravadas, algumas habitadas, ainda que ocasionalmente. Não sabemos como tudo isto começou, mas é impressionante: é difícil entender porque alguém quereria habitar num lugar tão inóspito e tão pouco acessível — por terra e por mar.
Já se sabe, o caminho que se desce tem de se subir, e lá fomos nós, vislumbrando mais céu do que estrada. O Hyundai portou-se bem, esteve à altura do desafio. Antes de completarmos o círculo que fizemos em La Palma, com o retorno a Santa Cruz, parámos ainda no mirador El Time, apenas para vermos a imensa área de lava solidificada, proveniente da erupção de 2021, e tirarmos algumas fotos.
Nas Canárias, o pessoal das empresas que alugam carros não se preocupa muito com o estado dos veículos. Não precisamos de verificar os riscos e os “toques” que os carros apresentam quando vamos recebê-los, e também ninguém vem verificar se há mais algum dano nos veículos quando os entregamos. Em Santa Cruz de La Palma há um parque de estacionamento junto à entrada para o terminal de cruzeiros, e disseram-nos para deixarmos aí o carro, metermos as chaves dentro do porta-luvas, e irmos com Deus.
Poris de Candelaria, La Palma. (Foto da Fla).
Chegámos a esse parque de estacionamento uns 20 minutos antes do horário de todos a bordo, mas o percurso a pé até ao navio é de cerca de mil metros, e parámos ainda numa loja de conveniência para comprar um souvenir, de modo que faltavam uns 5 minutos para o horário limite ser atingido e uns 300 metros para chegarmos ao navio. Nesse momento, a Fla exclamou:
— Esquecemos do seu fato de banho no carro!
E desatou a correr. Fiquei ali petrificado, sem reação, olhando alternadamente para ela a afastar-se e para o portaló do navio. A partir de certa altura, cada minuto que passava parecia uma eternidade. Já ultrapassáramos o limite de todos a bordo em cinco minutos. Um tripulante veio ter comigo para perguntar-me o que se passava. Expliquei. Através de um walkie-talkie ele comunicava com alguém no navio. Finalmente, vi a Fla lá ao fundo. Corria e andava, corria e andava. O marinheiro percebeu e informou pelo walkie-talkie:
— Ela já está no cais.
A Fla chegou quase a rebentar e lá entrámos no Sky, com mais de dez minutos de atraso. Um pequeno susto, mas correu tudo bem. Ainda comentámos que não seria tão mau assim perdermos o navio e ficarmos na Isla Bonita…
20 de novembro
Em Lanzarote a Cicar (empresa de aluguer de automóveis) atribuiu-nos um Fiat500. O escritório da empresa ainda é longe do cais onde o navio atracou, mas uma carrinha estava à nossa espera para nos conduzir até lá, o que facilitou a nossa vida. Cumpridas as formalidades, seguimos no sentido sul. O tempo estava encoberto, pelo que optámos por não nos banharmos em nenhuma das praias que visitámos, ao contrário do que prevíramos. Para chegarmos às praias mais conhecidas de Lanzarote temos de seguir até Playa Blanca e depois percorrer uns cinco ou seis quilómetros de estrada de terra batida, já dentro do Parque Natural de Los Ajaches. À entrada do parque cobraram-nos uma taxa de 3€ pela viatura.
Playa Mujeres, em Lanzarote.
Tínhamos algumas expectativas sobre as praias de Lanzarote, mas, in loco, estas não são, sob nenhum aspeto, tão interessantes como estávamos à espera. A praia do Papagaio é muito pequena, tem um areal pouco atraente, e com a maré vazia parece mais um charco… Ainda assim, a praia mais bonita é a Playa Mujeres, ocupada na sua maior parte por nudistas.
Playa Blanca, que é a localidade mais perto do parque, não apresenta nenhum motivo de interesse. Está nitidamente virada para o turismo, mas o turismo, aqui, é dos mais fracos das Canárias.
Apesar disso, Lanzarote tem, sem dúvida, os seus encantos. A paisagem, praticamente desértica, é exótica e inigualável, embora se torne bastante monótona quando comparada com a diversidade das outras ilhas canárias. O homem, porém, vai-se encarregando de transformar a paisagem e isso aconteceu não só em La Geria, uma adega que visitámos após sairmos do Parque de Los Ajaches, com suas videiras protegidas por pedras vulcânicas dispostas em círculo, mas também em Tías — onde José Saramago e Pilar del Río viveram durante 18 anos — que visitámos depois.
Vinhas de La Geria.
Para entrar na Casa-Museu José Saramago, e aí permanecer durante cerca de uma hora (o tempo que demora a visita), paga-se a quantia de 12€/pessoa. O nosso grupo fez a visita das 12:00 às 13:00 e era composto por umas 15 pessoas, incluindo um casal português que viajava connosco no navio, Jorge Camarneiro e Piedade. Depois desta visita passámos a conviver com eles durante o resto da viagem. A casa onde viveram Pilar e José é bonita, construída, equipada e decorada com muito bom gosto. Está recheada de pinturas, esculturas e outros objetos, com muitas obras de artistas renomados. Além das fotografias, onde aparece por vezes acompanhada por Saramago, a presença de Pilar del Río resume-se a um canto da biblioteca, onde se reúnem, por sua vontade, obras literárias exclusivamente femininas. Talvez o desenho da casa tenha alguma coisa a ver com ela. Não sabemos.
No exterior do edifício, no jardim, há algumas oliveiras — as árvores de que Saramago mais gostava — umas trazidas de Portugal outras da Andaluzia, um olmo, um sobreiro, marmeleiros, palmeiras, pinheiros canários e uma romãzeira; e também uma piscina coberta onde o ganhador do Nobel da Literatura de 1998 nadava para manter a forma. A biblioteca reúne cerca de 13.000 volumes de obras adquiridas por Saramago e Pilar, na sua esmagadora maioria, obras de ficção.
Na Casa-Museu José Saramago.
Goste-se ou não de Saramago, é quase impossível não sentir alguma emoção ao estar num espaço por onde passaram tantos artistas, políticos e muitas personalidades ilustres, e onde o escritor português, auto-exilado em Lanzarote, produziu várias das suas obras.
Por outro lado, não podemos deixar de refletir sobre como este grande defensor de camponeses e operários soube apreciar a vida boa — física e espiritual — que a produção literária lhe proporcionou. Na verdade, são raros os ilustres defensores dos camponeses e operários que decidem abdicar do conforto material que os detestáveis dinheiro, lucro e, em geral, o capitalismo proporcionam. E a fundação, sediada em Lisboa, bem como a casa-museu, em Pías, continuam a dar lucro, com apetecíveis benefícios fiscais, em prol de ideias velhas que supostamente trarão um mundo novo… A vida é plena de ironia.
Após a visita à Casa-Museu José Saramago, fomos almoçar ao navio. Depois, ainda houve tempo para darmos uma voltinha por algumas ruas de Arrecife, antes de deixarmos o Fiat 500. Estacionámos no local combinado, num parque mesmo à entrada do porto, deixámos as chaves do carro debaixo do banco do condutor, tal como nos haviam instruído, e percorremos tranquilamente os 400 ou 500 metros que nos separavam do Norwegian Sky.
21 de novembro
Já tínhamos estado em Tenerife (bem como em Lanzarote), mas não tínhamos ido além da capital e de La Laguna. Fora quando fizéramos o nosso primeiro cruzeiro, em 2013, entre Lisboa e Santos (no Brasil), e desde então, até hoje, há toda uma experiência acumulada. Agora, sobretudo em ilhas, sempre alugamos um carro. Desta feita escolhemos a empresa Jocar, na Rua Miraflores, e alugámos um Renault Megane, um compacto da classe “C”, pelo módico preço de 32€. Tratou-se de um veículo com alguma potência, pois subia as íngremes estradas de montanha com relativa facilidade. O aluguer de carros nas Canárias (provavelmente, em toda a Espanha) é muito facilitado e os preços são realmente competitivos. É uma excelente opção para o visitante em férias, sem stress, pois ninguém liga a pormenores, não se faz sequer, como já dissemos, qualquer inspeção ao veículo.
Vista sob o Teide, em Orotava.
E lá saímos, então, de Santa Cruz, por volta das 9:00, em direção a Puerto de La Cruz. Não encontrámos nada de especial nesta localidade, pelo que infletimos para o interior da ilha e entrámos em Orotava. Esta, sim, é sem dúvida uma cidade interessante, com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Señora de la Concepcíon), muito bonita e bem preservada, as paredes interiores ornadas com cruzes páteas dos Templários (adotadas depois pela Ordem de Cristo); casas senhoriais imponentes, com as tradicionais sacadas de madeira avançando dos edifícios; museus, praças, jardins e parques públicos bem cuidados. Percorremo-la demoradamente, tendo deixado o carro num parque subterrâneo, pois o estacionamento à superfície é simplesmente impossível. Pagámos €2,50 pelo estacionamento, mas esta é sempre a melhor opção porque poupa tempo, algo que para o visitante é sempre precioso. Antes de sairmos da cidade comprámos uvas, mirtilos e água para, juntando às sandes que trazíamos do navio, mais tarde almoçarmos.
De Orotava seguimos para Garachico, uma vila junto ao mar, com edifícios religiosos — igrejas e seminário — cercando a bela praça central, e uma excelente praia de areia vulcânica, abrigada e convidativa para banhos. O clima é, na maior parte do tempo, amigo e tudo parece decorrer dessa languidez, que cai do céu, nestas localidades junto ao mar. O nosso próximo destino era Masca, e para lá chegarmos tivemos de subir, subir, subir. A única estrada de acesso (TF-436) é estreita, e quando dois carros passam um pelo outro é preciso abrandar bastante. No entanto, tal como todas as outras em Tenerife, a rodovia está em bom estado. O principal problema prende-se com alguns condutores ou condutoras que sentem mais dificuldade em medir as distâncias. Isto é natural: a maioria das pessoas que circulam por aqui são turistas com carros alugados, tal como nós.
Masca — cravada na montanha.
Mas por falar em problemas, no que toca a Masca, o maior de todos é o estacionamento. Masca é uma aldeia cravada na montanha, que só tem a estrada referida a passar-lhe por cima. Não há mais nada, nem sequer parques de estacionamento de superfície. De modo que os carros têm de ficar em certos pontos da estrada um pouco mais largos, desenhados para algum tipo de imprevisto (estão espalhados regularmente ao longo da rodovia para facilitar a trafegabilidade), mas que ali servem de estacionamento. Assim, é preciso alguma sorte e muita paciência para conseguir um lugar para o carro. Mas lá conseguimos. Masca não tem muitos atrativos para além da envolvente natural onde se insere, o que lhe confere um certo exotismo, derivado do seu isolamento. Um lugar bom para comer ao ar livre, tal como comprovámos, degustando as sanduíches, os mirtilos e as uvas que transportávamos. O povo de Masca viveu praticamente isolado até os anos 60 do século XX, quando finalmente construíram a estrada. Antes disso, só se conseguia descer ao litoral a pé ou de burro.
De Masca seguimos para o extenso planalto central que serve de base ao Teide, em pleno Parque Nacional del Teide, Património Mundial. Vistas amplas, rochas de formatos exóticos, paisagem vulcânica, quase sem vegetação. Estávamos a mais de 2 mil metros de altura e mesmo assim o pico do Teide encontrava-se lá em cima, imponente, no alto dos seus 3715 metros — o ponto mais alto de Espanha. Seguindo pela TF-21, chegámos ao Parador de Cañadas del Teide, um hotel, com restaurante, loja comercial e instalações sanitárias. Aproveitámos para fazer algumas compras. Como não vínhamos preparados para o frio (estávamos de calções e t-shirts), não nos detivemos por muito tempo ao ar livre, apenas o suficiente para tirarmos umas fotos.
Parque Natural do Teide.
Depois de cruzarmos todo o planalto, começámos a descer para San Cristóbal de La Laguna. Aqui, estacionámos o carro num parque subterrâneo e passeámos um pouco pela cidade. Depois, descemos para Santa Cruz de Tenerife e devolvemos a viatura. Passavam poucos minutos das seis da tarde. Pelo caminho, que fizemos a pé até ao navio, vimos imensa gente. Santa Cruz, como todas as cidades espanholas, é animada e as pessoas gostam de andar na rua. Depois de jantarmos no navio voltámos a sair (o navio só partiria às 23:00 horas). Era noite já, mas a temperatura estava surpreendentemente quente, tendo em conta o período do ano. Visitámos o auditório Adán Martin, um edifício icónico situado na zona portuária; vagueámos mais um pouco pelas ruas apinhadas de gente. Finalmente, despedimo-nos de Santa Cruz e de Tenerife.
22 de novembro
Hoje chegámos a Gran Canária. Tivemos de acordar ainda mais cedo, pois tínhamos combinado que um funcionário da Auto Sansu estaria à nossa espera à saída do porto com a viatura que tínhamos reservado. Calhou-nos em sorte um Seat Ibiza novo em folha, acabado de sair do stand, marcando 5 quilómetros no contador, por €52. E lá fomos fazer a rodagem da viatura.
Partimos em direção a Teror, onde visitámos o centro histórico, muito bonito, com as sacadas de madeira a sobressaírem dos edifícios, como já observáramos em outras cidades canárias. Vagueámos um pouco pela vila, e depois tivemos de regressar à auto-estrada que liga Las Palmas ao Sul, para seguirmos rumo ao nosso próximo destino, Maspalomas.
Maspalomas, uma miniatura do que haveríamos de encontrar na Namíbia.
Aqui visitámos as dunas, visualmente belas, mas desconfortáveis, pela quantidade de areia que entra no calçado e, mesmo que se esteja descalço, pela areia que entra por todos os orifícios da roupa e do corpo, sobretudo se estiver vento. As dunas devem ser muitíssimo interessantes de visitar ao nascer do sol quando a temperatura de cor é melhor para fotografar e, normalmente, há menos vento. Por causa dele, não nos demorámos muito.
Continuámos a nossa viagem, agora em direção à praia de Mogán. O pequeno povoado em torno da praia é incrivelmente movimentado e torna-se quase impossível estacionar à superfície. Por isso tomámos aquela que é sempre a melhor opção em lugares hiper movimentados: estacionámos num parque subterrâneo. Esta zona sul-sudeste da Gran Canaria é aquela onde ficam as melhores praias de todo o arquipélago e, consequentemente, é também uma zona turística por excelência. Os alojamentos turísticos são demasiados para tão pouco espaço, por isso vão subindo as encostas, montados uns em cima dos outros como peças de lego. A praia de Mogán, como todas as outras que visitámos, estavam cheias de gente, e os restaurantes estavam igualmente apinhados. Se isto é assim em novembro, imagine-se em julho!
Praia de Anfí del Mar: fomos ao banho.
Seguimos, desta feita para Anfí del Mar. O ar estava quente, talvez uns 27, 28 graus, pelo que decidimos provar as águas da Gran Canaria. A temperatura do mar pareceu-nos um pouco fresca, mas não excessivamente: depois de todo o corpo submergir, até que estava bastante agradável. Água, diga-se, impecavelmente limpa e transparente. Demorámo-nos pouco mais de uma hora em Anfí del Mar, e depois encetámos o nosso percurso de regresso a Las Palmas. A auto-estrada, com três faixas de rodagem em cada sentido, estava incrivelmente movimentada, com alguns troços de trânsito lento. Ficámos com a clara noção de que esta é a ilha mais turística das Canárias.
O porto de Las Palmas fica um pouco afastado do centro histórico, pelo que não conseguimos visitar o casco viejo e optámos, em alternativa, por um passeio a pé até à praia de Las Canteras depois de devolvermos o carro, agora com mais de 200 quilómetros registados no contador. Las Canteras, uma praia extensa, estava igualmente repleta de gente, enquanto o sol poente a inundava com a sua luz de fogo…
Não surpreende que a Gran Canaria seja a ilha mais procurada do arquipélago. Nós também gostámos dela.
23 de novembro
Depois de quatro dias nas Ilhas Afortunadas, hoje passámos mais um dia no mar, por isso acordámos mais tarde. “Tarde”, quando se viaja num navio, quer dizer 8:30, um horário que, em terra, quando se está de férias, significa “cedo”. Após o pequeno-almoço viemos para o nosso salão da proa, no décimo primeiro deck, o Spinnaker. Aqui temos poltronas confortáveis, mesas, chá e café, música ambiente, vista privilegiada sobre o oceano — tudo o que precisamos para ler ou escrever. Nesta viagem, a Fla trouxe cinco livros, e eu três. Espero poder falar um pouco mais sobre eles à medida que vamos descendo ao longo da costa africana, “descida” que os marinheiros portugueses iniciaram há mais de 500 anos e completaram em várias viagens, e nós vamos fazer agora em uma viagem só.
Navegamos em águas calmas, apesar do vento. De acordo com informação prestada pelo comandante, que sempre acontece às 11:00 em ponto, quando estamos no mar, encontramo-nos a esta hora na posição 24º 44’N e 16º 27’W, e navegavamos a uma velocidade de 14 nós; a temperatura é de 22º C.
O dia decorreu tranquilamente. À noite, ainda durante o jantar, estivemos um longo tempo à conversa com o amigo de José Saramago, Jorge Camarneiro, e com sua mulher, Piedade.
Na cabine 9336 do Norwegian Sky.
24 de novembro
Mais um dia no mar. Depois do pequeno-almoço, fomos fazer uma caminhada no deck 6. É possível fazer jogging ou uma caminhada em torno do deck 6, sem interrupções, e uma volta completa são 460 metros. Demos apenas cinco voltas, porque havia um exercício só para a tripulação e a “pista” esteve inoperacional por alguns minutos. Entretanto, tivemos de ir à receção porque, supostamente, houve um problema com o meu cartão de crédito: o banco não autorizou a companhia a retirar da minha conta, numa primeira tentativa, 200 dólares e, numa segunda tentativa, 100 dólares. Ridículo. Hoje é domingo e estamos no mar, onde as comunicações através da MEO são proibitivas, por isso tenho de contactar o banco quando chegarmos a Dakar, amanhã, segunda-feira — vejamos o SMS que a MEO me remeterá com as tarifas aplicáveis no Senegal para ter uma ideia de quanto me custará uma chamada para o banco. Fiquei irritado com isto.
De modo que o melhor é distrair-me. Viemos até ao Spinnaker, onde escrevo este “diário de bordo” e irei ler de seguida O Manifesto Capitalista, do sueco Johan Norberg. O comandante acabou de informar (por isso já sabemos que estamos perto das 11:00) que já percorremos 562 milhas náuticas desde que deixámos Las Palmas e estamos a 320 milhas náuticas de Dakar, aonde aportaremos amanhã, segunda-feira, por volta das 7 da manhã.
A caminho de Gorée.
25 de novembro
Hoje levantámo-nos bem cedo. O relógio atrasou uma hora mas nós não tomámos a devida nota, de modo que nos levantámos às 5 da manhã. Só nos apercebemos da mudança horária quando saímos da cabine, e então, face ao muito tempo disponível, fomos à receção (aberta 24 horas por dia) para tentarmos resolver o problema com o banco. Só estava uma funcionária columbiana muito simpática a atender, e nós éramos os únicos clientes. Prontamente disponibilizou-se a partilhar o sinal de internet do telemóvel dela connosco, e assim pude entrar na aplicação do meu banco e verificar que não havia qualquer problema, pelo que fiquei descansado (muito provavelmente, o problema tem que ver com a companhia e não com o banco) e fomos tomar o pequeno-almoço satisfeitos . E assim continuámos, mesmo quando soubemos que o desembarque estava atrasado um hora e, por isso, não teríamos hipóteses de apanhar o barco das 7:30 para a ilha Gorée, tal como havíamos planeado.
A ilha de Gorée é um pedaço de terra minúsculo com cerca de 600 metros de comprimento que vive quase exclusivamente do turismo e, suplementarmente, da pesca. A curta ligação ao continente é feita por embarcações regulares, normalmente carregadas de turistas.
Apesar de termos chegado a horas, acabámos também por perder o barco das 10:00, devido ao enorme fluxo de passageiros, mas lá conseguimos apanhar o das 11:00. Havia muita gente a querer visitar Gorée, entre elas um jovem brasileiro que trabalha para a ONG Save the Children e que estava na fila mesmo à nossa frente. Agora no Senegal, ele já tinha trabalhado em vários países africanos. Explicou-nos como é difícil o seu trabalho em regiões em guerra, com governos autoritários, corruptos, e onde existe imensa pobreza. Falámos sobre vários países, entre eles Cabo Verde — que fica mesmo em frente a Dakar, praticamente à mesma latitude — uma democracia que, a par de poucas outras, é um exemplo para África e, infelizmente, pouco seguido. Maurício, assim se chamava o jovem, concordou. Cabo Verde é, de facto, um exemplo, apesar da vida ser tão difícil naquele arquipélago, com problemas naturais muito sérios, como seja a falta de água, e onde mais de 2/3 da população emigrou. E eu fiquei a pensar que talvez seja por isso mesmo — por haver tantos cabo-verdianos a viverem em democracias ocidentais — que a pressão sobre os políticos, para que ali se tivesse instituído uma verdadeira democracia liberal, tivesse sido mais efetiva.
Porta do Não Retorno na Casa dos Escravos (ilha de Gorée).
Às 11:00 lá embarcámos para Gorée. Esta pequena ilha foi descoberta em 1444 pelo português Dinis Dias, que lhe atribuiu o nome de Ilha de Palma. Trata-se de uma ilha bonitinha, rendilhada com casinhas coloniais coloridas, com a cor ocre prevalecendo nas fachadas. Mal desembarcámos, encontrámos à esquerda do pequeno terreiro, que faz de praça do povoado, o edifício da Polícia, no preciso local onde os portugueses ergueram, em 1482, uma capela. É difícil imaginar que seja preciso, num lugar tranquilo e pacato como este, um posto da Polícia.
O motivo pelo qual Gorée — Património Mundial da UNESCO desde 1978 — tem tantos visitantes, prende-se sobretudo com a Casa dos Escravos, de onde muitos partiram para as Américas. Encontramo-nos em face de uma história pesada, que contrasta com a paz que se sente no local — ou se sentiria se não soubéssemos desta triste história. É significativo que “gorée” signifique “dignidade”, algo que só foi possível alcançar após o longo e sinistro período da escravatura.
O ponto mais simbólico da Casa dos Escravos é sem dúvida a Porta do Não Retorno, o preciso local de onde os escravos partiam para uma travessia do Atlântico plena de sofrimento. É impossível não pensarmos na dor que sentiram os inúmeros escravos carregados à força para os navios negreiros quando olhamos o mar através desta porta. Cyril James, um escritor e historiador negro de Trinidade e Tobago, descreve assim a travessia, no seu livro, Os JacobinosNegros:
Fla com uma simpática habitante de Gorée.
Nos navios, os escravos eram amontoados no porão em galerias umas sobre as outras. A cada um era dado um máximo de metro e meio de arrumação de largo por menos de um metro de altura, de modo que não pudessem deitar-se nem sentar-se totalmente. Contrariamente às falsidades tão perniciosamente espalhadas acerca da docilidade dos negros, as revoltas no embarcadouro e a bordo eram intermináveis, de tal maneira que era preciso agrilhoar os escravos, mão direita com perna direita, mão esquerda com perna esquerda, acorrentando-os em falanges a grandes barras de ferro. Enfrentavam nesta posição a viagem, subindo uma vez por dia para se exercitarem e permitir aos marinheiros “limpar os baldes”. Mas, quando o carregamento se mostrava rebelde ou o estado do tempo agreste, lá em baixo permaneceriam semanas a fio. A proximidade de tantos corpos humanos despidos, a sua carne ferida e ulcerosa, faziam destes porões um inferno. Durante as tempestades, reforçavam-se as escotilhas com travessas, e nas trevas inclementes e repugnantes eram arremessados de um lado para o outro da embarcação agitada, mantidos no lugar por correntes sobre as suas feridas abertas. Nenhum lugar na terra, observou um cronista um dia, concentrava tanta miséria como o porão de um navio negreiro. (James, 1938).
Foi a única coisa que fizemos em Dakar: visitar a mimosa ilha Gorée, com a sua história trágica. Custou-nos €20, contando com os dois bilhetes de barco e as duas taxas camarárias. (As centenas de pessoas que compraram uma excursão no navio para visitarem a ilha pagaram 139 dólares, cada uma delas, e viram o mesmo que nós, ou talvez menos — e com menos liberdade). A viagem para a ilha (que está muito próxima do continente) demora cerca de 20 minutos.
Quando o nosso navio partiu, ao fim da tarde, passámos junto a Gorée e acenámos na direção da ilha, em jeito de despedida. Os próximos dois dias iriam ser, de novo, passados no mar.
Rua típica de Gorée.
26 de novembro
Hoje acordámos às 10:00. Notámos que o navio navega mais rapidamente e o comandante confirmou isso mesmo na sua comunicação habitual das 11:00. Seguimos a uma velocidade de 20 nós. Gostamos da voz tranquila deste comandante que comunica num inglês com sotaque… grego ou italiano?
Está calor. Ainda de acordo com o comandante, 28 graus. Aproximamo-nos da linha do Equador e continuamos ao longo da costa ocidental africana, seguindo muito provavelmente a rota de muitas caravelas e naus portuguesas. O nosso navio inflete agora ligeiramente para leste, cortornando a enorme curvatura da costa, e entra no Golfo da Guiné. Neste momento são 21:04 e estamos 7º 12.33N e 13º 25.31W. O navio segue a uma velocidade de 19,5 nós.
27 de novembro
Já nos encontramos em pleno Golfo da Guiné e aproximamo-nos cada vez mais de Abidjan, onde atracaremos amanhã às 7:30. Hoje acabei de ler O ManifestoCapitalista, um livro muito bem escrito, apelativo, convincente, e muito bem fundamentado. O título sugere um livro altamente ideológico, mas parece-me, acima de tudo, um livro pragmático: baseia-se na demonstração — com factos mensuráveis — de que as sociedades abertas, democráticas e liberais são mais ricas, mais felizes, mais justas e mais sustentáveis do que todas as outras. Irei compará-lo daqui a dois ou três dias com o FuturodoCapitalismo, de Paul Collier, que comecei agora a ler.
Diz-se muitas vezes que ler é importante, e eu concordo, mas tão importante ou mais do que ler, é ler os livros certos. No campo da filosofia política, podemos só comprar livros que reforcem as nossas convicções — e certamente haverá milhares que o fazem — mas essa é uma estratégia pouco produtiva, pois se queremos aprender algo temos, precisamente, de pôr em causa e de testar o nosso convencimento; para além de ler os grandes teóricos clássicos (pelo menos alguns), temos de insistir, persistir e continuar sempre testando as nossas convicções mais profundas. Ou seja, podemos e devemos ler livros que reforcem as nossas ideias, desde que conheçamos em profundidade as posições contrárias. Isto implica uma multiplicidade de leituras.
À chegada a Abidjan.
28 de novembro
Dizem que Abidjan é a Paris de África, mas, sinceramente, de Paris não vimos nada. Ainda na aproximação ao cais, pudemos observar uma água poluída, suja, cheia de lixo; e a qualidade do ar, como viemos a comprovar, não é melhor do que a da água, há demasiado fumo flutuando.
Tivemos algum tempo à espera para desembarcarmos. Começámos a ver muitos autocarros no cais, uns maiores outros mais pequenos, e percebemos que uns eram para transportar o pessoal das excursões e outros eram os shuttles para levar as pessoas até ao centro da cidade. Só não percebemos para que seriam aquelas motos da polícia, alinhadas a um canto do cais, seguramente, mais de uma dúzia. Fomos dos primeiros a sair do navio e a entrar num dos pequenos autocarros que formavam fila no cais; uns quatro ou cinco à nossa frente já estavam cheios.
Passado pouco tempo, o nosso autocarro arrancou, integrado num comboio de sete ou oito. Qual o nosso espanto quando nos demos conta de que, à frente do comboio ia um batedor da polícia desviando o trânsito. Por vezes, colocava-se em pé na moto e fazia gestos para os condutores se desviarem para a esquerda ou para a direita, ou ordenando que parassem. Finalmente constatámos que os batedores não estavam no cais ao serviço de alguma autoridade que tivesse vindo visitar o navio ou fazer qualquer outra coisa ao cais, como pensáramos, mas sim para abrir caminho aos veículos que nos transportavam. Nunca tínhamos visto nada assim!
Conferência de imprensa no estádio Félix Houphouët-Boigny, em Abidjan.
Após sairmos do autocarro, quatro brasileiros (um casal e duas amigas), ao se aperceberem que falávamos francês, e de que tínhamos o mesmo objetivo de visitarmos a pé os principais pontos da cidade, juntou-se-nos — e lá fomos os seis, caminhando, através da poluidíssima Abidjan, em direção ao Plateau, o bairro mais desenvolvido da cidade. Durante grande parte do percurso não havia passeios seguros para caminharmos, pelo que tínhamos de pisar o asfalto da estrada.
Já no Plateau, quase uma hora de caminhada depois, chegámos a um local onde se situa o estádio de futebol Félix Houphouët-Boigny. O casal de Santarém do Pará tinha ficado um pouco para trás e fez-nos sinal para seguirmos. O grupo reduziu-se para quatro pessoas: um português e três brasileiras. Entretanto, a Fla encontrou um grupo de oito miúdos e pediu para tirar uma foto com eles. Depois disto, os miúdos entraram por um portão do estádio e nós perguntámos se este estava aberto e se podíamos visitá-lo. Os miúdos foram chamar um segurança e este pediu para esperarmos um pouco. Passados uns minutos voltou, disse-nos para o acompanharmos e encaminhou-nos a um gabinete do estádio onde estavam alguns funcionários. Atrás de uma grande secretária estava o membro do staff responsável pela gestão e manutenção do estádio, de seu nome, Esmel Joel.
Fla e as meninas da escola.
Juntaram quatro cadeiras para que nos sentássemos, e o senhor Joel disse-nos que sim, era possível visitar o interior do estádio, mas isso tinha um custo. Respondi que tudo bem, mas nós não tínhamos francos costa-marfinenses, só tínhamos euros. Perguntei em quanto é que ficaria o valor da visita em euros (se eles aceitassem) para quatro pessoas. Joel pediu uma máquina de calcular que prontamente lhe trouxeram. Após uns minutos de muitos cálculos que não percebemos, disse: são 34 euros. Informei as duas amigas brasileiras e estas disseram que não estavam interessadas. Traduzi para o francês. Então perguntaram-nos quanto poderíamos pagar. Tentei um desconto de €10 que foi aceite. Dei €30 para pagar os €24 acordados e recebi o troco em francos da Costa do Marfim: 4.500.
A visita foi exaustiva e começou com uma breve introdução sobre a remodelação e ampliação do estádio, concluídas a tempo deste ser um dos palcos da Taça Africana das Nações (CAN 2023), inclusive da final, conquistada pela Costa do Marfim. E quem foi a construtora que fez as obras? A Mota Engil. Quando Joel nos deu esta informação, dissemos a brincar — “então, enquanto portugueses (generalizei abusivamente), não deveríamos pagar visita nenhuma” — ao que ele retorquiu — “vocês realizaram a reconstrução, mas nós pagámo-la até ao último cêntimo!”
A catedral de São Paulo, em Abidjan. Arrojada.
Dito isto, subimos por um elevador e saímos diretamente num salão que dá acesso ao camarote central do estádio, onde ficam os VIPs. A vista sobre o relvado é, de facto, magnífica. Tirámos várias fotos, não apenas ali, mas também nos outros pontos mais importantes que visitámos a seguir: balneários, vestiários, salas de massagens, gabinetes dos técnicos, bancos de suplentes, relvado, parque de estacionamente reservado aos jogadores e, finalmente, a sala de imprensa. Aqui foi ligada a instalação sonora e pudemos brincar fazendo de treinadores e treinadoras, respondendo às perguntas dos “jornalistas”. Foi bastante divertido e as amigas brasileiras adoraram.
Terminada a visita, agradecemos e seguimos para a Catedral de São Paulo, que tem, de facto, uma arquitetura arrojada. O bilhete de entrada custa 1000 francos por pessoa. A par da Pirâmide, um edifício projetado pelo arquiteto italiano Rinaldo Olivieri, que visitamos de seguida, são os imóveis mais atrativos de Abidjan, uma cidade sob todos os pontos de vista, e também este, bastante pobre. Após estas visitas continuámos a pé em direção ao porto, e encontrámos um arrumador de rua com uma camisola do Sporting.
Começou a cair uma chuva miúda, que em breve engrossou. As amigas brasileiras traziam uma sombrinha cada uma, mas manifestamente, para aquela carga de água, nenhuma das sombrinhas dava para uma, quanto mais para duas pessoas. Abrigámo-nos um pouco debaixo de um viaduto, mas algum tempo depois, vendo que a chuva não parava, decidimos continuar. Já estávamos bastante molhados, mas também já perto do porto, quando um shuttle, que vinha vazio em sentido contrário (certamente para ir buscar passageiros aos pontos combinados), parou, recolheu-nos, deu meia-volta e foi levar-nos ao navio. Agradecemos muito e dei mil francos ao jovem motorista. Mal chegámos à cabine tomámos um duche morno e, assim, não houve tempo para os nossos corpos arrefecerem demasiado e apanharem um resfriado. Ao fim e ao cabo, correu tudo bem.
A “Pirâmide”.
Só resta dizer que os costa-marfinenses são muito simpáticos e educados. Além disso, sentimo-nos sempre seguros. Um rapaz que envergava um colete refletor onde, nas costas, se lia “Mota Engil África”, e com quem conversámos quando passámos de novo à porta do estádio Félix Houphouët-Boigny, apontou na direção de duas mulheres que conversavam uns 20 metros à nossa frente, no passeio, e disse “aquela é a minha patroa”. Quando chegámos junto das senhoras percebemos que eram ambas portuguesas e responsáveis da Mota Engil, e tivemos uns minutos à conversa. À despedida, disse-nos a “patroa”: “Como veem, os portugueses estão em todo o lado”.
29 de novembro
Depois da Costa do Marfim passámos mais um dia a navegar. Mas ainda antes de ser dia, de madrugada, por volta das 3:30, ouvimos pelos altifalantes do navio a comunicação BRAVO e um código qualquer de que não lembramos o conteúdo. Passados poucos minutos repetiram a mensagem, e eis que ouvimos no corredor passos pesados e acelerados, e vozes agitadas. Abrimos a porta e vimos vários bombeiros e dois deles a empurrarem o que nos parecia ser uma maca com rodas, tipo aquelas que se usam para colocar os doentes nas ambulâncias, em cima da qual estava estava um volume tapado com um oleado e preso com cordas. De repente, pensámos que fosse um cadáver, mas quando passaram pela porta da nossa cabine, verificámos que o volume era demasiado pequeno e não tinha a forma de um corpo. Deveria ser material de combate a incêndio, mas não faço ideia do quê.
Havia várias pessoas, tal como nós, à porta das cabines. Perguntei a um dos bombeiros que passou se havia fogo e ele respondeu que “não”, era só fumo. Disse isto mesmo a um “vizinho” de outra cabine que me perguntou se eu sabia o que se passava e ele respondeu: “mas, onde há fumo, há fogo!” Pois. Só que parece que não houve mesmo fogo… Entretanto, apareceram várias pessoas da tripulação a tentar acalmar as pessoas, a dizer que estava tudo bem e que poderíamos ir dormir descansados. Alguns minutos depois ouvimos nos altifalantes alguém dizer que a operação BRAVO estava concluída. Tivemos dificuldade em voltar a dormir.
Na habitual comunicação das 11:00, o comandante informou que o incidente desta madrugada se devera ao sobre-aquecimento dos aparelhos que alimentam o ar condicionado, o que provocou algum fumo, fez acionar os sensores de incêndio e despoletou todo um procedimento que tem de ser cumprido. Daí o aparato, mas nada de especial, portanto. Ainda assim este era o tema de várias conversas, a par da perda do navio por parte de quatro passageiros no dia anterior, em Abidjan.
Um italiano que estava numa mesa ao lado da nossa, no Spinnaker, falava ao telefone com algum familiar ou amigo, e resumia bem a nossa vida a bordo: si dorme, si mangia, si legge.
A foto desta viagem de que mais gostamos. Meninas da aldeia piscatória do Pantufo, São Tomé.
30 de novembro
Hoje chegámos a São Tomé. É a única cidade nesta viagem onde o navio não acosta. Ficámos, portanto, ao largo e viajámos até ao cais de lancha. Este processo foi caótico, com pessoas a esperarem mais de três horas. Nós não esperámos tanto porque fomos à receção reclamar, dizendo que tínhamos reservado um carro e precisávamos de estar na cidade até às 11:00, sob o risco de, se isso não acontecesse, perdermos não apenas o carro, mas também o dinheiro que fora pago previamente. Fomos encaminhados por um atalho até uma das lanchas e esta foi a forma de sairmos ainda com possibilidade de vermos o que tínhamos planeado, em São Tomé.
À saída do porto encontrámos o responsável da empresa de aluguer de viaturas à nossa espera. Os nosso amigos Jorge e Piedade acompanharam-nos, de forma que entrámos os quatro num Suzuki Jimny preto, já com alguns anos. A primeira coisa que fizemos foi meter gasolina, e foi também a primeira estupidez do dia. O depósito do carro estava quase vazio e eu quis atestá-lo com €50 de combustível, sendo que, quando devolvemos o veículo, nem €15, muito provavelmente, teríamos consumido. Mas, tudo bem. Lá fomos com o carro atestado em direção à cascata de São Nicolau. Desde a cidade de São Tomé até lá, é sempre a subir. O Jimny era velhote, mas aguentou-se bem.
No interior da casa-museu Almada Negreiros.
Ao contrário do que pensáramos, a estrada está em boas condições, excetuando o último quilómetro e meio, já fora da estrada principal, um caminho muito esburacado. A cascata é profusa e vigorosa, mas perde um pouco do encanto devido ao elevado número de visitantes. A floresta circundante, sim, é magnífica.
Para regressarmos à cidade de São Tomé tivemos de fazer o percurso inverso. No entanto, fizemos dois pequenos desvios: o primeiro para visitarmos a Casa-Museu Almada Negreiros, e o segundo para visitarmos a roça Monte Café. Na verdade, a casa onde nasceu e viveu até aos 3 anos de idade Almada Negreiros, também está inserida numa roça — a roça da Saudade. A associação privada, sem apoio público, que gere o espaço, parece estar a fazer um bom trabalho. As instalações em madeira, assentes em pilares de betão, foram construídas com critérios estético e funcional de qualidade, e deve valer muito a pena almoçar no restaurante, cercado por uma vegetação exuberante. A Casa-Museu Almada Negreiros, que inclui terrenos à volta de mais de cinco hectares, é gerida por jovens entusiastas. O que nos recebeu e acompanhou na nossa visita, chama-se Joaquim. Eu e Jorge contribuímos com algum valor pecuniário para ajudar a associação.
Saboreando um cafezinho na roça Monte Café.
Voltando à estrada principal, descemos mais um pouco até fazermos o segundo, e igualmente curto, desvio para visitarmos a Roça Monte Café. A visita custa apenas €3 por pessoa e é deveras interessante. A nossa guia chamava-se Marlene, uma jovem tímida mas muito simpática e competente. Ela explicou-nos detalhadamente todo o processo que envolve a produção do café, ou melhor, dos cafés. No final da visita provámos o arábica e o robusta, diferentes, mas ambos bons. Três euros por tudo isto é um preço muito barato, e o meu conselho aos responsáveis do Monte Café é que estabeleçam como preço um valor mais “redondo”: pelo menos €5.
Em todos os lugares turísticos de África há sempre alguém à espera de alguma gorjeta, sobretudo os jovens e as crianças. E pelo que observámos, a taxa de natalidade em São Tomé é muito elevada, de modo que, em todo o lado, fomos rodeados por muitas crianças. Apesar de a pobreza ser evidente, sentimo-nos absolutamente seguros, e as pessoas, em geral, são muito afáveis e educadas. A esmagadora maioria dos adultos e jovens masculinos são adeptos do Benfica, seguramente muitos mais do que os do Sporting e do Porto juntos.
É pena que São Tomé e Príncipe, um país lindíssimo e com um potencial turístico enorme, seja economicamente tão pobre, com uma taxa de desemprego bastante elevada (cerca de 15%). A falta de infraestruturas é gritante: no que toca a instalações portuárias, foram construídos até agora dois pequeníssimos portos (o comércio marítimo é muito reduzido); e quanto às estradas, não chega a 500 quilómetros a extensão das rodovias asfaltadas. Isto prejudica o turismo, setor que poderia impulsionar um maior crescimento económico e aumentar o emprego, mas que padece ainda da falta de alojamentos de qualidade, bem como do elevado preço das passagens aéreas, sobrecarregado pelo aumento exponencial das taxas aeroportuárias, decretado pelo governo.
Fla e Marlene na Roça Monte Café.
Em resultado da má gestão e da falta de investimento, mais de metade da população (55%) vive abaixo da linha-padrão de pobreza e a inflação é elevada. A indústria é praticamente inexistente. E depois, claro, há a doença endémica africana chamada corrupção. A percepção da corrupção tem aumentado em São Tomé e Príncipe nos últimos anos. Entretanto, em abril de 2024, o governo fez um acordo técnico-militar com a Federação Russa, por tempo indeterminado, que prevê formação, “utilização de armas e equipamentos militar, e visitas de aviões, navios de guerra e embarcações russas ao arquipélago”.
A Rússia estende os seus tentáculos em África. Vários países africanos firmaram acordos com Moscovo — entre eles Mali, Níger e Burkina Faso, que cancelaram os acordos de defesa que tinham com a França. A Guiné-Bissau é mais um exemplo de um país lusófono com acordos militares com a Rússia, ao contrário de Cabo Verde — como referimos acima, um dos poucos países verdadeiramente democráticos em África — que tem uma posição de princípio de apoio à Ucrânia na guerra contra a Federação Russa.
Continuámos a nossa descida para a capital, após a despedida da roça Monte Café, mas, já na orla marítima, fizemos ainda um último desvio para visitarmos a aldeia piscatória do Pantufo, apenas 3 quilómetros ao lado da cidade de São Tomé. É quase impossível circular incógnito pela aldeia, pelo que não pudemos passear sem entraves, como desejaríamos. Por todo o lado, mais do que em qualquer outro lugar, havia miúdos pedindo-nos “erro, erro” (euro), o que se compreende mas se torna difícil, pois não podemos contemplar todos.
Não é preciso andar muito para dar um bom mergulho em São Tomé e Príncipe.
Voltámos à cidade de São Tomé, onde deixámos Jorge e Piedade, que queriam dar uma volta a pé. Nós continuámos em direção à praia do Tamarindo, mas a meio do caminho achámos que talvez não desse tempo, e voltámos para trás, mas por outro trajeto, mais próximo da costa. Passámos por uma pequena baía, onde fica a praia Emília e, depois, por outra baía que, afinal, tem o mesmo nome da anterior — ambas se incluem na baía Ana Chaves. Esta segunda baía já se encontra em frente ao centro da cidade. Nesta, visitámos a catedral e depois dirigimo-nos ao forte onde se situa o Museu Nacional. Aqui estacionámos o carro.
Mesmo ao lado há uma pequenina praia abrigada, conhecida simplesmente por PM, e a Fla decidiu ir ao banho. Foi a forma de nos despedirmos de São Tomé, uma ilha que nos surpreendeu positivamente. O destaque vai todo para a deslumbrante Natureza, aqui quase pura, e para a afetuosidade do Povo, que também faz parte dela.
1 de dezembro
Em que é que a ciência contrasta com a ideologia? A resposta é que, enquanto a ideologia brota do cérebro de um único homem, a ciência é o produto de um número enorme de cabeças. É por isso que muitos cérebros tentam constantemente ultrapassar a produção científica conhecida e muitas outras cabeças tentam constantemente confirmar a ideologia estabelecida.
Navegamos em direção a Luanda, aonde chegaremos amanhã.
Bailarina angolana.
2 de dezembro
Hoje chegámos a Luanda, Angola. O desembarque foi difícil devido ao reduzido número dos autocarros, já de si pequenos, que transportavam as pessoas até o exterior do porto. A espera de quase uma hora em pleno cais, ao calor, com insetos rondando, sob um cheiro desagradável (para dizer o mínimo), que provavelmente era devido à proximidade de uns silos de cereais, foi exasperante. Um grupo folclórico local e o pessoal do navio esforçavam-se por minimizar o evidente desconforto, o primeiro cantando e dançando, e o segundo distribuindo água. Desta vez, a responsabilidade não pode ser assacada à Norwegian, mas antes à resposta inadequada dos meios em terra, manifestamente ineficientes. A distância até a saída do porto era relativamente curta; se os responsáveis tivessem estabelecido um corredor pedonal controlado, poderiam ter poupado imenso tempo aos passageiros e facilitado a vida a si próprios.
Enfim, lá chegámos à cidade, propriamente dita. Quisemos levantar algum dinheiro num ATM, mas o primeiro que encontrámos tinha uma fila grande e decidimos seguir. Logo depois, perguntámos a um senhor que saía de um edifício se havia outros ATMs por perto, ao que ele respondeu sugerindo que o seguíssemos, pois ia na mesma direção que nós e poderia ajudar-nos. É sempre bom conversar com as pessoas locais e este senhor revelou-se um “guia” excelente. Explicou-nos que o tratamento por “tu” ou “você”, usado pelos portugueses, é desrespeitoso entre os angolanos. Mesmo os mais velhos devem ser tratados por “senhor” ou “mano”. Assim, passei a tratá-lo por mano Galvão e ele, por ter tido um bisavô chamado Jorge, passou a tratar-me por avô Jorge.
Luanda, um musseque.
Mano Galvão trabalha no Ministério do Interior e faz ação social nas prisões angolanas. Pertenceu às FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), onde foi oficial do exército (mostrou-nos o cartão com a sua foto, fardado). Apesar do seu cargo de alguma relevância no ministério, mano Galvão vive num musseque, e o seu vencimento mal chega para alimentar a família. Nota-se muito desencanto na avaliação política que faz sobre o seu país. Ele até compreende que haja um certo grau de corrupção dentro do poder estabelecido (as expectativas são, à partida, muito baixas), mas não consegue entender porquê tanta! Não aceita esse abismo tão grande que separa o imenso povo da pequena elite constituída por membros do Partido e das Forças Armadas.
“Então e João Lourenço, ele não veio trazer alguma esperança à sociedade?” — perguntámos. Mano Galvão considera que a vida do povo não melhorou em nada, antes pelo contrário. Algumas reformas foram realizadas, mas são manifestamente insuficientes; até porque, queiramos ou não, João Lourenço está condicionado pela pertença ao Partido, tem de manter privilégios para manter lealdades, e com isso manter a sua própria sobrevivência política e a sua liderança. A situação angolana transparece nas principais ruas e avenidas da capital. Imagine-se como será nos bairros pobres. A própria Marginal de Luanda está esburacada, com edifícios degradados, cheia de pedintes, e com um forte cheiro a urina, um pouco por todo o lado. É por isso que gostamos de circular a pé — ficamos com uma noção mais precisa dos locais que visitamos.
Fortaleza de São Miguel, Luanda.
Mano Galvão encaminhou-nos a um edifício espelhado, governamental, onde no interior havia um ATM exclusivo para os funcionários. Mal entrámos apareceu um segurança, e percebemos que não podíamos estar ali. O nosso amigo puxou da carteira e sacou um cartão com duas listras oblíquas, que era a sua identificação como funcionário do Ministério do Interior. O segurança foi irredutível, não podíamos estar ali, vestidos daquela maneira. Mano Galvão ficou desolado. Percebemos o quanto seria gratificante para ele proporcionar-nos o acesso a um ATM sem filas, num ambiente refrescante, com ar condicionado. Tentámos tranquilizá-lo: dissemos-lhe que a culpa não era dele, nem sequer do segurança que estava a cumprir a sua tarefa, e que, no fundo, o que contava era a sua boa intenção e que lhe agradecíamos por isso. Levou uns segundos a recompor-se da desilusão, mas lá seguimos caminho.
Continuámos para a Igreja da Nazaré, onde entrámos por breves minutos, e depois para o Palácio de Ferro, que observámos apenas do exterior, pois não tínhamos kuanzas (a moeda local). Mano Galvão queria pagar os mil kuanzas dos dois bilhetes (o equivalente a mais ou menos €1), mas rejeitámos, dissemos que voltaríamos mais tarde. Depois disso, dissemos-lhe delicadamente que precisávamos de nos separar; ele tinha de regressar ao trabalho e nós tínhamos de andar mais depressa, porque o nosso tempo era bastante limitado. Mano Galvão disse-nos que, se não tivesse que trabalhar, teria todo o prazer em ir connosco. Agradecemos e despedimo-nos com uma foto dos três no Largo Saydi Mingas, e trocámos números de telefone.
Praia Miami, na ilha de Luanda.
Galvão não estivera connosco por interesse. Ele não procurava nenhuma compensação pela sua ajuda, a não ser, talvez, reconhecimento, consubstanciado em simpatia e admiração. Talvez por isso esquecemo-nos completamente de lhe dar algum dinheiro em euros, que certamente lhe daria muito jeito. Recriminámo-nos por isso, quando demos conta. Em parte, isto aconteceu porque um outro funcionário público, que também nos mostrou um cartão, nos interpelou por causa da câmara fotográfica que colocáramos em cima de um pequeno muro para tirarmos a foto com o temporizador. Avisou-nos para nunca fazermos isso, nunca largarmos a câmara.
O novo funcionário foi-nos acompanhando e dando recomendações, e tivemos de pedir-lhe que nos deixasse continuar sozinhos porque queríamos andar mais depressa e já estávamos cientes de todas as precauções a tomar. Mesmo assim, ele ainda nos seguiu à distância durante alguns minutos. Seguimos pela Marginal e apercebemo-nos de alguns jovens suspeitos que observavam as nossa câmaras fotográficas e mochilas; mas já temos alguma experiência destas coisas e desenvencilhámo-nos bem. Entrámos no Centro Comercial Fortaleza, e apesar de esperarmos uns 15 minutos na fila, conseguimos levantar dinheiro num ATM situado no 4º andar. Todos os ATMs têm filas. Não há dinheiro suficiente disponível e os locais de levantamente são poucos. Levantámos apenas 15.000 kuanzas (cerca de €15).
Ilha do Cabo, mais conhecida por Ilha de Luanda.
De seguida visitámos a Fortaleza de São Miguel, onde se situa o Museu Militar. As armas não são o nosso forte, por isso dispensámos o museu. Circundámos apenas a fortaleza pelo exterior. Vários símbolos exaltam o povo angolano armado. Cá de cima tem-se uma vista privilegiada sobre a baía de Luanda. Descemos. Continuámos a pé e entrámos na Ilha do Cabo, mais conhecida por Ilha de Luanda, passando mesmo ao lado de um musseque. Estávamos preparados para darmos um mergulho, mas reparámos que a água no início da ilha continha alguns detritos — sacos, recipientes e garrafas de plástico, entre outros objetos flutuantes — pelo que decidimos mudar de estratégia.
A Fla teve a ideia de apanharmos um candongueiro (vans azuis e brancas de transporte de passageiros), apanhámos um, sentámo-nos ao lado do motorista, que se chamava Valdemar, e fomos ilha adentro até a paragem final. Valdemar era muito prestável e respondeu com disponibilidade a todas as nossas perguntas de turistas novatos ali; e quando alguém atrás de nós nos pediu dinheiro, impôs-se dizendo: “Então, que é isso!?” Poucos minutos depois parámos num local aprazível, com zonas verdes e restaurantes, muito diferente do início da ilha. Para aceder à praia tivemos de entrar num restaurante, e um funcionário disse-nos que não havia problema podíamos ir para a praia e tomarmos banho à vontade.
Palácio de Ferro, o edifício mais bonito de Luanda.
Foi precisamento o que fizemos, e em boa hora, no pico do calor, quando as nuvens se tinham dispersado, permitindo que o sol brilhasse livremente. Se não nos tivessemos banhado em Angola, não saberíamos o que tínhamos perdido! A temperatura da água é perfeita (apostaria nos 24º), o mar tem aquela textura macia e é limpo, transparente, com umas ondinhas suaves, sem correntes perigosas. Que maravilha! Depois do banho, dois simpáticos rapazes vieram informar-nos de que podíamos tomar um duche de água doce, mas nós já estávamos nos vestindo, pelo que apenas agradecemos o convite. A Fla sempre usa a sua técnica de levar uma garrafa para encher com água do mar e assim lavarmos os pés… São muitos anos disto!
De volta à paragem do candongueiro, vimos muitas pessoas à espera. Disseram-nos que, devido à visita do presidente Biden (que, no entanto, só chegaria ao aeroporto às 5:00 da tarde e ainda eram 3:00), estavam a cortar a Marginal de Luanda ao trânsito. Candongueiros, nem vê-los! Em contrapartida, havia carros particulares a fazer o transporte: carros pequenos e velhos, onde cinco pessoas viajam bastante apertadas. Deveria ser horrível com aquele calor, mas começámos a habituar-nos à ideia. O último shuttle para o navio era às 17:15… Nisto, pára um veículo completamente diferente dos anteriores, um SUV da marca Kia, de onde saem algumas pessoas. Entre os que esperavam, alguns pediram transporte ao condutor, mas este acenava que “não”, que não levava ninguém.
Despedida.
A Fla reagiu com rapidez, quando o carro já circulava, precipitou-se a correr e bateu no vidro da janela. O motorista parou o carro e eu corri também e expliquei-lhe a nossa situação; pedi, por favor, se ele não nos poderia levar até à Marginal (o nome que dão à estrada que circunda a baía de Luanda). O motorista disse para entrarmos. O carro era excelente, com ar condicionado e bancos confortáveis. Pelo caminho soubemos que o proprietário e condutor tem um emprego diferente, mas já tinha terminado a jornada de trabalho e, depois do almoço, veio fazer este biscate para ganhar mais alguma coisa. Pelos vistos não é o único, pois a vida em Angola é difícil, tal como nos confirmou. O salário mínimo em 2024 não chega a €70 e, no entanto, Luanda é, em vários itens, a cidade mais cara do mundo. Foi-nos dito que muita gente não tem que comer e cata o que pode no lixo.
A economia angolana está enormemente dependente do petróleo, embora o país também possua gás natural, diamantes, minério de ferro, fosfatos, feldspato, bauxite, urânio e ouro. Apesar das riquezas naturais, a pobreza é generalizada entre a população (mais de um terço abaixo do limiar); a inflação é alta e a moeda desvaloriza; as instituições públicas são altamente corruptas; o nível de desigualdade é o décimo maior do mundo (coeficiente de Gini) e a esperança de vida à nascença é das mais baixas do planeta — Angola ocupa a 214ª posição.
Esta realidade é dura de aceitar, mesmo para quem, como nós, é turista, mas é infelizmente uma situação comum e maioritária em África, de onde fogem 200 mil milhões de dólares em capitais todos os anos (Collier, 2019). Torna-se um pouco incompreensível como algumas pessoas podem apoiar estes regimes despóticos. (As exceções são talvez o Botswana, as Seychelles, as Maurícias e Cabo Verde). As ideologias são resquícios do tribalismo e são, a par das religiões (é por demais conhecido o caráter religioso das ideologias) as principais responsáveis pela maior tragédia da humanidade — o sofrimento evitável.
Saímos do carro no início da Marginal e fizemos o restante percurso a pé. Fomos ainda visitar o Palácio de Ferro, o edifício mais bonito de Luanda, sem margem para dúvidas, e provavelmente o imóvel antigo mais bem preservado. A tendência é fotografá-lo de todos os ângulos possíveis. Quando nos cansámos, completámos o curto percurso que nos separava da entrada do porto em poucos minutos. Ainda comprámos umas lembranças na feira de artesanato que decorria numa praça em frente ao porto, antes de apanharmos o shuttle. Chegámos ao navio por volta das 17:00. A visita a Luanda foi curta e intensa, alegre e triste, quente mas também refrescante.
A caminho de Sandwich Harbour, Namíbia.
3 de dezembro
Hoje foi mais um dia passado no mar. Às 6 da manhã o telemóvel tocou. Acordei e vi que era o mano Galvão a ligar-me pelo whatsapp. Rejeitei a chamada e tentei dormir de novo, o que me custou algum tempo. Mais tarde vi que tinha várias mensagens dele, incluindo um vídeo em que aparece com a mulher a tomar o pequeno-almoço (mata-bicho, assim lhe chamam). Há pessoas naturalmente boas, e mano Galvão é uma delas.
Hoje terminei o segundo livro desta viagem, O Futuro do Capitalismo, de Paul Collier. Antes lera o Manifesto Capitalista, de Johan Norberg. Como se pode deduzir dos títulos, ambos tratam do mesmo assunto, o capitalismo, e ambos concordam que o sistema capitalista é o único capaz de criar riqueza; no entanto, discordam quanto à melhor forma desse sistema se desenvolver e ser gerador de bem estar social para o maior número possível de indivíduos. Tudo tem que ver com maior ou menor intervenção do Estado. Face à crise política mundial e local (em muitos países), em relação à qual as respostas populistas (ideológicas e nativistas, como lhes chama Collier), atraem mais e mais pessoas. Paul Collier reclama correções estatais para as assimetrias sociais contemporâneas, enquanto Norberg deseja mais liberdade e menos Estado.
Uma imensidão de areia.
No fundo, Collier é um social-democrata e Norberg um liberal. Suspeito que nem um nem outro obterão definitivamente aquilo que querem. A democracia é como uma navegação à bolina — temos de bordejar para a esquerda e para a direita rumo ao nosso objetivo. Desde que este se enquadre dentro dos princípios do estado de direito democrático, está tudo bem. Nada a temer, portanto, das diversas visões democráticas, quando estas concordam na identificação dos principais inimigos — os populistas ideólogos e os nativistas — embora discordem na forma de os combater. O espírito crítico é parte fundamental da democracia.
4 de dezembro
Mais um dia a navegar. Estamos em pleno Atlântico Sul e, desde ontem à tarde, o tempo arrefeceu bastante. Se, por um lado, é natural, pois vamos nos afastando do Equador, por outro, não esperávamos uma descida de temperatura tão abrupta. Além disso, as temperaturas nos próximos portos que visitaremos — Walvis Bay e Cidade do Cabo — estão igualmente baixas, tendo em conta que estamos a três semanas do início do Verão no hemisfério sul.
O vento também não ajuda — frio e forte. Fazemos todas as refeições no Garden Cafe, no deck 11, e o vento gelado entra de rompante sempre que as portas automáticas se abrem, provocando correntes de ar desagradáveis. Já por mais de uma vez tivemos de vestir uma camisola mais quentinha.
“Animais” adaptados ao deserto.
Talvez por causa deste tempo, o salão Spinnaker estava hoje lotado. Em contrapartida descobrimos um cantinho confortável no Sugarcane, um bar no deck 5, de onde escrevo estas linhas, e onde vou a seguir iniciar a leitura do terceiro livro que trouxe para esta viagem, uma autobiografia de Nelson Mandela, UmLongo Caminho para a Liberdade. Amanhã chegaremos a Walvis Bay, sendo que prefazem hoje, precisamente, 537 anos, desde que Bartolomeu Dias e seus companheiros lá desembarcaram, em 1487.
5 de dezembro
Walvis Bay, cujo nome significa “baía das baleias”, é uma cidade cercada pelo deserto e o mar. Tendo em conta que a cidade em si não tem muito interesse, as principais atrações turísticas são mesmo o deserto e o mar. Nós fomos visitar um local onde, precisamente, o deserto se encontra com o mar — Sandwich Harbour. Os passeios a Sandwich Harbour, local situado a cerca de 50 quilómetros, para sul, de Walvis Bay, são provavelmente o melhor a fazer para alguém que, como aconteceu connosco e com o casal Jorge e Piedade (viajámos no mesmo 4×4), tem apenas algumas horas para passar na região. E foi o que fizemos, através da empresa Way Way Safaris and Tours.
Vários veículos Toyota, de empresas diversas, estavam à espera de passageiros que saíam do navio. Os motoristas comunicam uns com os outros por walkie–talkies. Iniciado o passeio, cedo começámos a ver grandes “montanhas” de sal, uma das principais produções locais. Passámos junto a rias e lagoas onde nos deparámos com milhares e milhares de flamingos, de duas espécies diferentes, e, pouco depois, nas praias, impróprias para banhos (devido à corrente fria de Benguela, mas também às correntes marítimas e ventos muito fortes), milhares e milhares de corvos marinhos, em formação, focas, patos bravos, gaivotas, andorinhas do mar e muitas aves migratórias. O nosso amigo Jorge Camarneiro, que trabalha na área da aquacultura, referiu que os corvos marinhos são uma verdadeira praga, devorando, só na Europa, mais de 300 mil toneladas de peixe por ano.
Descer a duna é muito mais fácil que subi-la.
Sandwich Harbour é um local único no mundo. Vimos ao longo da viagem alguns animais adaptados a este rigoroso clima desértico: chacais, órixes e uma minúscula espécie de lagarto. Os seres vivos adaptados a este deserto conseguem sobreviver graças aos nevoeiros característicos desta região, causados pelo afloramento da corrente de Benguela, que transporta as águas frias do fundo do mar para a superfície, e que são a única fonte de água disponível. Além destes seres vivos, nós andámos também num dos modernos “animais”, também eles perfeitamente adaptados a este clima e terreno peculiares — os veículos 4×4 que sobem e descem as enormes dunas com espantosa facilidade, além de as percorrerem lateralmente em ângulos incríveis, exponenciando a adrenalina dos passageiros.
Num ponto a meio do percurso, os veículos pararam e experimentámos subir a pé uma duna, que até nem parecia muito alta — uns 15,20 metros. Superámo-la com dificuldade, devido, sobretudo, à forma como os pés (descalçámo-nos para facilitar a tarefa) se enterravam na areia. Imagine-se a dificuldade de caminhar um quilómetro neste terreno arenoso!
O deserto do Namibe tem pelo menos 55 milhões de anos, sendo um dos mais antigos do mundo (se não o mais antigo — não há consenso científico sobre isso) e o único fronteiro ao mar. Com uma área de mais de 30.000 kms2 , este marde areia do Namibe foi reconhecido como Património Natural pela UNESCO, em 2013.
Almoço no deserto. Jorge e Piedade.
O nosso tour custou 110 dólares (americanos) por pessoa e incluiu um almoço-volante em pleno deserto. Valeu cada cêntimo que pagámos. Quando regressámos, o nosso motorista, Michael, percorreu ainda algumas ruas da cidade de Walvis Bay, completamente plana, e deixou-nos numa pequena zona comercial junto ao porto, onde fizemos algumas compras. Regressámos ao navio muito contentes com tudo o que passámos nesta região da Namíbia.
6 de dezembro
O livro de Mandela é muito bom e lê-se como um romance. Está escrito de uma forma clara, simples, atraente, sedutora, empolgante. É muito interessante constatar como a formação do jovem Mandela influenciou de sobremaneira o seu pensamento político: a forma democrática como se vivia no seio da sociedade xossa, com grande debate interno; e a educação formal em escolas inglesas de índole liberal. Talvez devido à sua educação, e embora seduzido pelo marxismo, Mandela nunca se reconheceu marxista. Ele acabou por aceitar e defender as regras do jogo democrático e liberal, não escondendo a sua admiração pelo parlamentarismo britânico.
A hesitação de Mandela em relação ao marxismo pode, talvez, tornar-se mais clara, através das palavras de James Baldwin, expressas num dos livros (Notasde um Filho Nativo) que trouxemos:
A relação entre Negro e Trabalhador não pode ser resumida, nem mesmo explicada, de modo suficiente dizendo-se que seus objetivos são os mesmos. Isso só é verdade na medida em que ambos desejam melhores condições de trabalho, e só é relevante na medida em que eles juntas forças como trabalhadores para alcançar esses fins. Se formos honestos, não podemos ir além disso.
Num trilho do Cabo da Boa Esperança.
A maior luta de Nelson Mandela, no entanto, foi pela libertação do povo negro sul-africano do jugo do apartheid, a qual viria a conseguir com enorme sacrifício. Tal como o título indica — Um LongoCaminho para a Liberdade — esse é o tema fundamental do livro. Hoje concluí 2/3 das 600 páginas desta magnífica obra, que conto terminar antes do final da viagem. Continuamos a aproveitar todos os locais possíveis do navio onde é possível lermos sossegados, inclusive, em última instância, a nossa cabine.
Para além dos livros que eu transportei nesta viagem, a Fla também trouxe cinco livros, e já os leu todos. Aqui fica a lista dos livros dela.
Mishima, Yukio, Confissões de uma Máscara, Companhia das Letras, S. Paulo, 2022.
Nguyen, Viet Thanh, O Simpatizante, Alfaguara, Rio de Janeiro, 2017.
Gary, Romain, As Pipas, Todavia, S. Paulo, 2021
Gurnah, Abdulrazak, Sobrevidas, Companhia das Letras, S. Paulo, 2022.
Baldwin, James, Notas de um Filho Nativo, Companhia das Letras, S. Paulo, 2020.
Depois deste dia de navegação, chegaremos amanhã à Cidade do Cabo, onde termina o nosso cruzeiro mas não, ainda, a nossa viagem.
Padrão de Vasco da Gama.
7 de dezembro
Fomos dos primeiros a sair do navio na Cidade do Cabo. Tínhamos reservado um carro a levantar no aeroporto, e apanhámos o shutlle que a Norwegian disponibilizou (37,5 dólares/pessoa) para lá chegarmos. Alugámos o carro no aeroporto para que depois, quando iniciássemos o regresso a Portugal, fosse facilitada a entrega do carro num local onde não tivéssemos, depois disso, de carregar a bagagem durante muito tempo.
O carro foi alugado por três dias: das 11:00 do dia 7 de dezembro às 11:00 do dia 10 de dezembro. Atribuíram-nos um Suzuki automático, praticamente novo, com menos de 500 kms. Uma vez instalados no seu interior, seguimos para Fish Hoek, a cerca de 40 kms, onde fica o pequeno apartamento que alugámos. Chegámos umas duas horas antes do horário do check-in, que era às 14 h., pelo que fomos dar uma volta de reconhecimento pelos arredores. Circulámos na estrada marginal ao mar, passámos por Simon’s Town, fomos à Bolders Beach e regressámos ao apartamento.
Quando David, o anfitrião, abriu a porta, e entrámos no alojamento, ficámos agradavelmente surpreendidos. Embora tivéssemos visto fotos, surpreendeu-nos a limpeza, a luminosidade e a vista espetacular sobre a baía de Fish Hoek e as montanhas, para além do cuidado da decoração e a funcionalidade dos equipamentos. Outra coisa que nos agradou foi o estacionamento para o carro, num espaço privado, com um portão automático que abríamos com um comando que nos foi atribuído. Excelente. Recomendamos vivamente este alojamento para quem passe alguns dias de férias na região do Cabo e, por isso, aqui deixamos o contacto: Room With a View for Two, 1 Marmion Avenue Clovelly, 7975 Cidade Do Cabo, África do Sul (telf: +27 83 434 4034).
Em pleno cabo.
Para aproveitarmos o tempo, fomos ainda nesse dia ao Cabo da Boa Esperança. Uns 15 kms antes do cabo, propriamente dito, fica a entrada do parque, onde tivemos de pagar os respetivos bilhetes de acesso, no valor de 455 rands/pessoa (cerca de 25€). O Parque do Cabo da Boa Esperança é, digamos assim, um parque mais pequeno integrado no Parque Nacional da Montanha da Mesa (Table Mountain National Park), que se estende por toda a península do Cabo e é Património Mundial pela UNESCO. No Parque da Boa Esperança há vários trilhos para percorrer a pé (fizemos alguns deles), dois padrões (Vasco da Gama e Bartolomeu Dias), várias praias, um centro interpretativo e vários pontos de observação. Percorremos os pontos principais e subimos ao topo do cabo através de um trilho íngreme e difícil.
Em frente ao promontório do Cabo da Boa Esperança fica o promontório do Farol do Cabo, aonde também fomos. O mar em redor é violento e não surpreende que Tormentas tenha sido o nome que os portugueses, através de Bartolomeu Dias, primeiramente atribuíram a este local: mais de 650 naufrágios foram registados ao longo dos tempos nas águas verdadeiramente tumultuosas da península do Cabo. Quando saímos do parque, o sol desaparecia no horizonte e chegámos já de noite ao Room for Two with a View, o pequeno apartamento onde estávamos alojados. Tínhamos almoçado no Dixies, em Glencairn, mas jantámos em casa, omelete de frango com batatas e cenouras, e uvas de sobremesa. Desde aí decidimos comer emcasa, pois mesmo que as refeições sejam mais simples, ainda é onde se come melhor.
V&A Waterfront.
8 de dezembro
No dia seguinte levantámo-nos cedo pois tínhamos de apanhar o barco das 8:30 que sai de um pequeno cais da V&A Waterfront para a ilha de Robben. Conseguimos dois bilhetes virtuais através da empresa Giraffe Horizons, que deram direito à viagem até à ilha (e volta) e uma visita guiada à mesma, incluindo ao estabelecimento prisional onde Nelson Mandela esteve detido durante 18 anos. (Se considerarmos todos os encarceramentos, Mandela esteve preso mais de 27 anos, em diversos locais). A única forma de conseguir os bilhetes é através da internet, e há várias empresas que os vendem, bastando, para contactá-las, fazer uma pequena pesquisa em qualquer motor de busca.
Quando chegámos à V&A Waterfront estacionámos num parque subterrâneo que nos tinham indicado e tudo decorreu perfeitamente, de modo que saímos do parque com tempo bastante para darmos uma volta pela Waterfront antes de embarcarmos para a ilha. Este pequeno bairro portuário é um exemplo de como uma cidade e o seu porto podem conviver harmoniosamente. O espaço é recente e pleno de equipamentos modernamente recuperados ou construídos: hotéis, restaurantes, centros comerciais, pontes pedonais, lojas, marinas — tudo integrado num conjunto homogéneo, extremamente atrativo e movimentado a qualquer hora do dia.
Pormenor do antigo estabelecimento prisional, onde esteve detido durante 18 anos (dos 27 em que esteve preso) Nelson Mandela.
O trajeto até a ilha de Robben faz-se percorrendo a baía da Mesa (Table Bay) durante uns 12 quilómetros. Há sempre alguma ondulação e, por vezes, devido às condições do tempo, não é possível realizar a travessia. Pelo caminho vimos muitas aves, focas (“Robben” quer dizer “foca” em neerlandês) e golfinhos que brincavam com o barco, saltando da água e cruzando a frente da embarcação com incrível agilidade. Demorámos uns 45 minutos a chegar a Robben — uma ilha que já pertenceu ao continente e é, de facto, nada mais do que o topo de uma montanha, cuja maior parte está submersa. É também um santuário para 132 espécies de aves.
À nossa espera estavam vários guias, cada qual em seu autocarro, num dos quais viajámos até aos pontos mais importantes da ilha — o cemitério dos leprosos, a pedreira de cal onde os presos eram forçados a trabalhar, os bunkers do exército e da marinha, entre outros — que são símbolos atuais de uma história longa, que contrasta com a sua dimensão tão pequena. De facto, já nos séculos XVII e XVIII, os holandeses enviaram prisioneiros políticos das ilhas orientais holandesas para a ilha de Robben; e os ingleses também enviaram prisioneiros para a ilha quando tomaram o controlo do Cabo. Na segunda metade do século XIX, a ilha tornou-se uma colónia de leprosos. De início, os leprosos habitavam aqui de forma voluntária, mas, a partir de uma lei de 1882, foram forçados a viver na ilha sem hipótese de retorno. Durante a Segunda Guerra Mundial, Robben foi usada como base militar. Voltaria a albergar prisioneiros políticos até 1991 e reclusos comuns até 1996, ano em que a prisão de alta segurança foi desativada e a ilha passou a ser um lugar de importância histórica e natural, registado na lista de Património Mundial da UNESCO.
A cela onde Nelson Mandela esteve preso.
O último e principal ponto de paragem durante a visita à ilha é junto ao antigo estabelecimento prisional de segurança máxima, onde um novo guia, desta vez um antigo prisioneiro, nos encaminhou pelo seu interior, explicando como era a vida de presos e guardas nos anos sessenta e setenta do século XX, quando Mandela ali esteve detido. (Mandela não foi o único preso político famoso da ilha de Robben. Kgalema Motlanthe e Jacob Zuma, que foram presidentes sul-africanos, também passaram por lá, entre muitos outros ilustres opositores ao apartheid). Visitámos a cela nº4 da Secção B, algo que toda a gente aguarda com expectativa, apesar desta ser rigorosamente igual a todas as outras da mesma secção. Mas dado que foi a cela de Mandela, todos querem vê-la e fotografá-la. E, claro, nós não fugimos à regra.
Devido à distância que a separa do continente (no seu ponto mais próximo, cerca de 7,4 kms), mas sobretudo devido às correntes fortes e às águas frígidas da corrente de Benguela, era quase impossível escapar a nado da ilha. Quase, mas não totalmente: o primeiro episódio de fuga a nado remonta a 1690 e o nome registado é o de Jan Rykman. Em 1909, um homem que não era prisioneiro tentou fazer a travessia: Henry Charteris Hooper nadou durante 7 horas entre a ilha de Robben e o antigo porto da Cidade do Cabo. A partir daí, vários foram os homens e as mulheres que livremente se aventuraram nesta modalidade de águas abertas, desafiando as águas geladas da baía da Mesa. Hoje em dia realizam-se anualmente várias provas entre Robben e o continente, sendo esta travessia considerada uma das mais exigentes do mundo.
Com Ntozelizwe Talakumeni, ex presidiário, em Robben Island.
O vento também é um obstáculo, e sopra quase sempre fortemente na baía da Mesa. Comprovámo-lo quando fizemos a viagem de volta, agora num barco mais rápido que saltava por cima das ondas como um cavalo. É permitido ir à proa, no exterior da embarcação, mas isso só é possível se nos agarrarmos bem. (Vimos um senhor cair, apesar dos esforços dos dois tripulantes que ajudavam as pessoas a se manterem em pé). Como tinha a máquina fotográfica numa mão, só me restava outra para me agarrar, pelo que não tive hipótese de segurar o boné que tinha na cabeça antes deste voar a alta velocidade em direção ao mar, sem felizmente atingir ninguém. Mas mantivemo-nos firmes na frente da embarcação, observando o mar e absorvendo o vento, e tudo à nossa volta, para gravarmos em nós este momento único.
Quando desembarcámos na V&A Waterfront o sol estava a pique e o número de pessoas que circulavam era muito superior ao que tínhamos visto de manhã cedo. Desta vez demos uma volta maior para explorarmos mais a fundo este bairro, fizemos umas pequenas compras (comprei um novo cap) e confirmámos a impressão que já trazíamos desde o primeiro encontro: este é, sem dúvida, um dos locais do mundo onde a cidade e o seu porto se conjugam da forma mais harmoniosa, um exemplo de recuperação de antigas instalações portuárias, colocadas ao serviço da população local e dos visitantes, nos quais nos incluíamos, e que são muitos. Um caso de sucesso. Depois disto, fomos pagar o estacionamento do carro e ficámos deveras surpreendidos: 40 rands (cerca de €2, 13) para 6 horas de estacionamento num parque com excelentes condições de segurança.
Regresso de Robben Island. Ao fundo a montanha da Mesa.
Da V&A Waterfront seguimos para o bairro Ba-Koop, onde se encontram casas coloridas e habitantes, na sua maioria, de origem muçulmana. Vimos muitas bandeiras da Palestina, palavras de ordem escritas nas paredes dos prédios, mesquitas, e pessoas com roupas típicas da religião islâmica. Por cima das nossas cabeças, a imponente Montanha da Mesa. Fotografámos algumas destas casas coloridas em diversas ruas e seguimos em direção à montanha, que pensávamos ser acessível por estrada. Enganámo-nos. A estrada estava cortada e só poderíamos atingir o topo da Table Mountain por teleférico ou a pé. Decidimos dar meia volta e dirigirmo-nos à zona costeira para ver as praias e descermos ao longo da costa até Noordhoek.
Estacionámos o carro na estrada marginal (M6), e visitámos as pequenas praias Clifton (1ª,2ª,3ª,e 4ª). O mar estava picado e as poucas pessoas que tocavam a água tentavam que esta não lhes passasse acima da cintura. No entanto, muitas outras estendiam-se nas toalhas, tomando banhos de sol. Pouco depois, em Camps Bay, uma praia bastante maior do que qualquer uma das quatro Clifton, e muito mais popular, pudemos observar muitos negros fazendo piqueniques, famílias inteiras com muitas crianças. Um nadador-salvador, também negro, apitava frequentemente para manter as pessoas longe de uma formação rochosa e de outras zonas perigosas. Notoriamente, na zona do Cabo, continua a haver uma separação, ditada por condições sócio-económicas, entre brancos e negros. Lembrámo-nos da autobiografia de Mandela, onde ele refere que, nas primeiras eleições livres, o seu partido (ANC) apenas não tinha vencido numa cidade: precisamente, a Cidade do Cabo.
Camps Bay.
A riqueza desta região está bem patente, de facto, em tudo que nos rodeia: boas infraestruturas, casas de elevado padrão, equipamentos, móveis e imóveis, de nível europeu ou norte-americano. É evidente que não é assim em toda a África do Sul, um país onde grande parte da população vive na pobreza. A principal causa do atraso sul-africano deve-se à chegada ao poder de políticos da ala esquerda do ANC, nomeadamente Jacob Zuma, que aumentaram a despesa pública, favorecendo o consumo e a corrupção em detrimento do investimento. Ao contrário do que acontecera com Nelson Mandela e o seu sucessor, Thabo Mbeki, que praticaram políticas de reconciliação, liberalizaram a economia, democratizaram o país, controlaram a inflação, reduziram para metade a dívida pública e conseguiram crescimento económico na ordem dos 5%, estima-se que Zuma e os seus comparsas tenham saqueado o equivalente a 20% do PIB; a divida pública voltou a aumentar, o PIB tornou-se negativo e a pobreza extrema também aumentou (Norberg, 2024). Além disso, a África do Sul é o país mais desigual do mundo.
Em Camps Bay fomos ao supermercado comprar sanduíches, fruta e água, e almoçámos mesmo ali, na praia, juntando-nos às muitas pessoas que ali faziam piqueniques. Continuámos para sul pela M6, sempre junto à costa, subindo, descendo, serpenteando pelas enormes escarpas sobranceiras ao mar. As vistas são magníficas em muitos pontos do percurso. Não demorámos muito a chegar a uma enorme baía — Hout Bay. Parámos, visitámos o porto de pesca, observámos a enorme praia em forma de concha e seguimos o nosso caminho, sempre para Sul. Pouco depois a estrada entra num parque natural, à entrada do qual pagámos uma taxa no valor de 64 rands (€3,40). Continuámos junto à costa e chegámos a Noordhoek, uma vila plena de belas vivendas, numa região vinícola.
Vista do nosso apartamento, junto à baía de Fish Hoek. (Foto da Fla).
A partir daqui infletimos para leste, afastando-nos da costa, rumo ao nosso alojamento. Queríamos chegar ainda a tempo de fazermos compras para o jantar e, com a inestimável ajuda do Google Maps, conseguimos. A Fla fez umas deliciosas sobrecoxas de frango fritas, acompanhadas por esparguete sem glúten, temperado com coentros; de sobremesa comemos mirtilos, uvas e morangos. Hummm — a Fla faz milagres com pouco! Nesta noite decidimos que no dia seguinte não iríamos andar a correr. Queria terminar a leitura da autobiografia do Mandela e também desfrutar do espaço onde estávamos instalados, por isso era necessário reservar algum tempo para tal. Dormimos como uns anjinhos.
9 de dezembro
Acordámos um pouco mais tarde hoje e, depois de um saudável pequeno almoço em casa, fomos até Boulders Beach para vermos os pinguins. Tínhamos passado lá no primeiro dia, apenas para fazermos tempo até o check-in no alojamento, mas não tínhamos entrado no parque. Desta vez fizemo-lo, pagando para o efeito 430 rands (cerca de €23 para duas pessoas). Os pinguins africanos estão em perigo de extinção: estima-se terem existido 1,5 milhões em 1910, e apenas 10% desse número no final do século XX. A colónia de Boulders é, por isso, muito importante na preservação desta espécie: de dois casais reprodutores em 1982, a população cresceu até os atuais 2.200 indivíduos.
Boulders Beach. A praia dos pinguins.
Dedicámos bastante tempo à observação destas curiosas aves que não voam, antes usam as asas para nadarem debaixo de água, como peixes, e fazem os seus ninhos em terra, acasalando com o mesmo parceiro para o resto da vida. A praia onde vivem está protegida, sem acesso aos humanos, havendo apenas dois varandins de madeira, elevados, e uma passadeira entre eles, por onde as pessoas podem circular. Como é óbvio, fartámo-nos de fotografar. No final, passámos pela loja de souvenirs para comprarmos algumas lembranças deste lugar tão especial.
Não queríamos sair da África do Sul sem provarmos a água do mar. Isso seria impensável! Quando saímos de Boulders íamos com a intenção de encontrarmos uma praia onde pudéssemos dar um mergulho. Encontrámo-la em Simon’s Town. Fronteira a esta pequena cidade, há uma praia chamada Long Beach, onde o mar é calmo, a água transparente e, ao contrário do que pensávamos, não tão fria assim. De modo que, apesar do vento, tomámos um banho delicioso em Long Beach.
Ainda em Boulders.
Da parte da tarde fomos para uma zona mais a leste da False Bay, até a praia de Monwabisi, e voltámos percorrendo a estrada junto à costa. As praias nesta zona são mais batidas e, logo, menos propícias a banhos, do que as da zona oeste da baía, mais abrigadas. Isso nota-se nas próprias estradas, fustigadas pela areia transportada pelo vento. Passámos pela praia de Muizenberg, frequentada sobretudo por negros, onde existem umas casinhas coloridas que pedem aos visitantes para serem fotografadas. Continuámos pela estrada costeira, vimos várias localidades bonitas, piscinas naturais, mais casinhas coloridas nas praias. Fizemos compras para o jantar — umas latas de atum e mais fruta — e voltámos ainda cedo para casa, cumprindo o nosso desejo de usufruirmos, sem pressa, do magnífico ambiente e também terminarmos a leitura da autobiografia de Mandela. A fruta nos supermercados é variada, de boa qualidade e relativamente barata. O mesmo se pode dizer da maioria dos produtos. Depois do jantar começámos a fazer as malas. No dia seguinte partiríamos da África do Sul.
10 de dezembro
Hoje acordámos com aquela sensação de despedida. Tomámos banho e o pequeno almoço, retiramos o lixo, verificámos tudo e transportámos as malas para o carro. Por volta das 9 horas despedimo-nos de David (o proprietário do alojamento) e entregámos-lhe as chaves de casa. Partimos. Fomos a uma estação de serviço para nos encherem o depósito de gasolina e lavarem o carro. Antes das onze estávamos a devolvê-lo à Woodford, empresa de aluguer de viaturas. Tinha corrido tudo bem e eles aceitaram o carro sem reparos. Estávamos à porta do aeroporto e seguimos tranquilamente a pé até ao seu interior para cumprirmos as formalidades de embarque.
Long Beach — o nosso primeiro mergulho na África do Sul.
O resto não tem muita história. Voámos pela TAAG até Luanda e depois apanhámos outro avião da mesma companhia aérea até Lisboa. Os aviões são muito fracos, os serviços a bordo também. O aeroporto de Luanda é dececionante. Mas lá chegámos à capital portuguesa, no dia seguinte, às 6:30 da manhã, onde o meu filho Gil nos esperava com o nosso carro.
Ainda nos faltava fazer uma viagem de cerca de 300 quilómetros até casa. Almoçámos em Faro, no restaurante Os Manos, cavalas e salmonetes grelhados, que estavam divinais; e depois conduzimos, muito devagar, até Conceição de Tavira. Chegara ao fim a nossa última grande viagem de 2024.
O Mar Mediterrâneo é o maior mar interior do planeta, e une três continentes: Europa, África e Ásia. A sua superfície líquida abrange uma área de 3 milhões de quilómetros quadrados, onde pululam cerca de 2000 ilhas, dentro de um perímetro costeiro de 47000 quilómetros. A influência do clima mediterrânico estende-se por 25 países, onde habitam quase 500 milhões de pessoas. Como seria de esperar, o clima influencia, através das matérias primas locais e da proximidade dos povos, uma cultura comum nesta importante região, berço das primeiras civilizações humanas e da cultura ocidental, que estão aquém das divergências políticas e religiosas. Como é evidente, uma das componentes dessa cultura é a dieta, e a mediterrânica é justamente considerada uma das melhores do mundo.
Além dos Cara de Espelho (na foto), atuaram, no palco da Lota, Júlio Pereira, Brigada Vítor Jara e José Manuel David.
Assim, a Dieta Mediterrânica foi declarada Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2013, na capital do Azerbaijão, Baku. Tavira foi a cidade representante de Portugal. E foi precisamente em Tavira que, ainda nesse ano, se realizou a primeira Feira da Dieta Mediterrânica. Desde aí, esta feira realiza-se anualmente durante quatro dias, no primeiro fim de semana de setembro, de quinta a domingo, sendo que, no presente ano, a X Feira da Dieta Mediterrânica ocorreu entre os dias 5 e 8 de setembro.
Na foto, o berbere Kel Assouf, líder do grupo marroquino Tarwa N-Tiniri. Para além destes, atuaram no palco do Castelo os andaluzes Duquenque, os italianos Kalàscima e os macedónios Kocani Orkestar.
Foram quatro dias intensos, como foram todos os dias dos certames anteriores, com uma considerável diversidade de expositores (incluindo bancas e tendas de comida), mostras, atividades desportivas, demonstrações gastronómicas com degustação, bailes tradicionais, oficinas e ateliês, atividades infantis, visitas a locais de interesse e, claro, espetáculos musicais — com destaque para os palcos da Lota, do Castelo e da Praça da República. Ao longo destes onze anos (a feira não se realizou em 2020 devido à pandemia da covid-19), temos assistido a atuações de agrupamentos de vários países mediterrânicos, algumas delas de excelente qualidade.
Fernando Daniel fechou a feira com um concerto que deliciou os muitos adolescentes presentes na Praça da República. Nos dias anteriores atuaram, no mesmo palco, Rui Veloso, Amália Hoje e Sara Correia.
A Feira da Dieta Mediterrânica é já o maior evento de Tavira, e atrai à cidade, todos os anos no final do verão, milhares de visitantes que em muito contribuem para animar a mais bela urbe algarvia.
Planear uma viagem de um mês através de 10 países não é tarefa fácil. Há que reservar voos, tratar de vistos, fazer um seguro de viagem, procurar hospedagens e transportes de vários tipos, para além de levar a cabo as sempre convenientes pesquisas sobre os locais a visitar. Esta é a primeira fase de qualquer viagem — a preparação. Como temos referido, as viagens têm sempre três fases, normalmente de duração decrescente — preparação, viagem (propriamente dita) e registo. Decorridas as duas primeiras, chegámos agora à última fase.
Saímos de Lisboa num voo da KLM que saiu muito atrasado devido ao mau tempo no aeroporto de Amsterdão, onde tínhamos escala antes de seguirmos para Seul, num segundo voo da mesma companhia aérea, que acabámos por perder. Chegámos a Amsterdão já de madrugada, com todos os balcões e escritórios fechados, e ficámos no aeroporto até de manhã, à espera que abrisse o escritório da KLM e nos reservassem um novo voo para Seul. O apoio ao cliente foi péssimo e ainda hoje estamos em litígio com a KLM, pois marcaram-nos um voo alternativo que posteriormente cancelaram, e agora não querem assumir a devida indemnização1. Só conseguimos um voo da Korean Air quase 24 horas depois de chegarmos a Amsterdão, pelo que tivemos tempo mais do que suficiente para apanharmos um comboio até à cidade e passearmos um pouco por lá. Nada de especial, o tempo estava péssimo, chovia e fazia bastante frio.
Rua de Amsterdão.
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Seul, Coreia do Sul
Três dias depois de sairmos de Lisboa, chegámos estoirados ao aeroporto de Incheon, a meio da tarde, com duas noites de sono perdidas. Os portugueses não precisam de K-ETA para entrarem na Coreia do Sul, os brasileiros, sim. De qualquer forma, é vantajoso obter o K-ETA online por apenas 7€ e não ter de preencher o formulário de entrada no aeroporto, ganhando tempo e paciência após um voo cansativo. Foi o que fizemos. Depois dos procedimentos necessários e da recolha da bagagem (se for o caso), a primeira coisa a fazer é comprar o cartão T-Money (pouco mais de 3€) e carregá-lo para se poder apanhar o comboio AREX, que segue direto para o centro da cidade de Seul. Pode comprar-se o cartão ainda no aeroporto, numa loja de conveniência dentro do terminal ou nas máquinas de venda, junto do acesso à estação dos comboios. O T-Money só se pode carregar com dinheiro, pelo que convém ter algum para o efeito. Depois é só usar o cartão no comboio, no metro, nos autocarros, no táxi e numa miríade de outros produtos e serviços. Há ATMs no aeroporto e lojas de câmbio onde se pode obter dinheiro coreano. Aconselhamos viajar munido com um cartão Revolut, ou similar.
Tínhamos reservado, estrategicamente, um apartamento muito perto da estação central de Seul, pelo que bastou uma caminhada de menos de 5 minutos até tomarmos um duche, deitarmo-nos e dormirmos umas 4 horas para recuperarmos alguma energia. Só saímos já bem de noite para comermos qualquer coisa e fazermos um pequeno passeio a pé pelo bairro de Myeongdong antes de regressarmos ao apartamento.
No dia seguinte estávamos como novos e acordámos cedo. Fizemos uma longa caminhada até ao palácio de Gyeongbokgung. (Quem nos conhece sabe que somos grandes caminhantes; é normal, quando viajamos, fazermos 20, e às vezes mais, quilómetros por dia). Pelo caminho vimos e visitámos detalhadamente uma interessante exposição de rua, na avenida Sejong Daero, sobre a Guerra da Coreia. No palácio assistimos ao render da guarda, um evento claramente dirigido aos turistas (que podem participar alugando, no local, roupas para o efeito), mas, ainda assim, coreograficamente bem realizado.
Palácio de Gyeongbokgung.
Na volta passámos por Cheongyeggeon e apanhámos o metro no City Hall até à estação de Hapjeong, a mais perto do mercado Mangwon que queríamos visitar. Aqui provámos várias comidinhas típicas, acabando por entrar num dos poucos restaurantes que se situam dentro do mercado, onde comem os feirantes e moradores locais, e aí almoçando. Optámos pelo mercado Mangwon em detrimento do mais turístico Gyeongdong, pois queríamos misturar-nos com os seulitas e comer com, e como, eles. Depois do almoço regressámos a pé até à estação de metro de Hapjeong, na linha 2, com intenção de visitarmos a livraria Starfield. Vale a pena realçar a peculiaridade da linha 2 (verde) do metro de Seul: é uma linha circular que funciona nos dois sentidos, confina em vários pontos com as outras oito linhas, e passa ou dá acesso aos principais pontos turísticos e locais de interesse da cidade. A livraria Starfield, por exemplo, fica num centro comercial onde se situa a estação de Samseong, precisamente da linha 2. Nós usámos e abusámos da linha 2. Tendo o cartão T-Money sempre carregado, torna-se extremamente fácil circular em Seul, uma cidade imensa em que a utilização do transporte público se revela necessária.
A livraria Starfield é grande, alta, imponente e fotogénica. É já um símbolo de Seul, e também um ponto de encontro entre residentes e turistas; veem-se por todo o interior pessoas fotografando e filmando com os telemóveis em punho. Perto dali, duas estações de metro depois, é possível visitar o Lotte World Tower, uma altíssima torre que observámos só por fora, preferindo circular por um parque adjacente, em torno do lago Seokchon. Muito bonito. De novo entrámos no metro desta feita para visitarmos a Torre de Seul, situada no topo do monte Namsan. Havia longas filas para apanhar o teleférico, pelo que fomos a pé, subindo largas centenas de degraus. (Quem quiser saber como pode chegar à Seoul Tower pode fazê-lo aqui.) A vista desde o topo da torre é de facto impressionante, mas na altura em que ali estivemos estava um pouco prejudicada pela sujeira das vidraças e também (sobretudo para quem gosta de fotografia) pelas luzes do interior do edifício, que se refletem nos vidros, e esta situação impediu-nos de conseguir as fotos que idealizáramos.
Livraria Starfield.
Quando descemos o Namsan, chegados ao sopé, o movimento era do tipo formigueiro, com pessoas circulando em todas as direções. Fez-nos lembrar bastante o que observámos em alguns pontos de Tóquio e de Hong Kong. Depois disto, apenas tivemos tempo de comer qualquer coisa (já estávamos com pressa), tomar um duche no apartamento, fazer as malas e apanhar o AREX rumo ao aeroporto. Ficámos com pena de não termos mais um dia ou dois para passarmos em Seul.
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Palawan, Filipinas
Chegámos a Puerto Princesa, na ilha de Palawan, por volta das 2 pm, depois de uma noite passada em aeroportos — Incheon e Ninoy Aquino. Um motorista esperava-nos para nos conduzir à Casa Belina, um pequeno hostel agradável e limpo, com um jovem funcionário muito simpático. Aproveitámos para dormir bastante, apenas saindo do quarto para comer qualquer coisa, e sem chegarmos a sair do hotel. Descanso, depois de mais uma noite perdida, foi a palavra de ordem. Este hostel foi perfeito para isso.
No dia seguinte, o sexto após a saída de Portugal, logo depois de um bom pequeno almoço na Casa Belina, chegou o pessoal do rent a car com o “nosso” carro, e pouco tempo depois já estávamos na estrada a caminho de El Nido, uma viagem que durou cerca de seis horas. A maioria das pessoas desloca-se até El Nido, a zona mais badalada, no norte da ilha. Dado que esta tem uma extensão considerável (mais de 500 kms), os turistas escolhem uma zona para passarem as férias, aí permanecendo durante todo o período — e essa zona é normalmente El Nido. Até porque Palawan não é apenas uma ilha, são muitas ilhas em torno da ilha principal que dá o nome a este deslumbrante arquipélago. É, assim, aliás, nas Filipinas como um todo. Milhares de ilhas deslumbrantes.
De modo que, uma vez em El Nido, o visitante tem mil e uma maneiras de fruir das praias da região. Claro que há inúmeros passeios de barco que se podem fazer às várias pequenas (e não assim tão pequenas) ilhas que pululam ao longo da costa — passeios exclusivos e passeios coletivos, destacando-se entre estes os já célebres tours “A”, “B”, “C”, e “D”, cada um deles com a duração de 7 a 8 horas, ou seja, praticamente um dia inteiro, com almoço incluído. O custo de cada passeio varia entre os 1100 e os 1400 pesos filipinos, ou seja, em torno de 25€/30€, por pessoa.
Mas antes de chegarmos a El Nido, que nem era o nosso destino final, embora tivéssemos de passar por lá, parámos num pequeno restaurante na estrada para almoçarmos. Um restaurante para os habitantes locais, não para turistas. Desde logo ficámos com boa impressão da comida filipina.
No caminho de volta, de Nacpan para Puerto Princesa, haveríamos de regressar a este simpático restaurante, mesmo ao lado da estrada.
Umas duas horas depois do almoço chegámos a El Nido que, como dissemos, não era o nosso destino. Por isso não parámos e seguimos para Nacpan, 15 quilómetros para norte, onde se situa a Amarav Pension, nosso alojamento durante 5 dias. Com estacionamento para o nosso carro alugado, esta pensão está muitíssimo bem localizada, a apenas 5 minutos a pé da praia de Nacpan, uma das mais bonitas da região. As funcionárias bem como a gerente foram extremamente simpáticas e prestáveis durante toda a nossa estadia. O quarto onde ficámos não era o suprassumo do conforto, mas tinha ar condicionado (embora de vez em quando a energia faltasse), era espaçoso e dava diretamente para um varandim onde podíamos sentar-nos e fruir do ar mais fresco da noite, depois de jantarmos no nosso restaurante favorito. Referimo-nos ao Combine, um pequeno bar-restaurante familiar, em plena praia de Nacpan. Ali as comidas são muito bem confecionadas: grelhados (peixe fresco, porco, frango, polvo), caranguejos e camarões confecionados de várias formas, sopas deliciosas (de porco, camarão, peixe, cogumelos e galinha) para além de diversos pratos de fritos. Também servem pequenos almoços, embora não os tivéssemos provado. Mas durante a nossa estadia jantámos sempre no Combine.
No dia seguinte ao da nossa chegada a Nacpan, fomos até El Nido para fazermos o passeio “C”, que havíamos reservado através da mesma empresa que nos alugou o carro. Queríamos fazer um desses tours para vermos se é tão interessante como se diz na internet. E valerá a pena fazer mais do que um dos quatro tours marítimos mais famosos desde El Nido? Depende. Se não se for rico e não se gostar de “excursões”, aconselhamos a fazer-se apenas um circuito como experiência. Ou pode até não se fazer nenhum e optar-se por praias igualmente paradisíacas quase vazias (ou mesmo vazias) e exclusivas. Isto consegue-se alugando um kayak, o que nós fizemos dias depois de termos integrado um dos tours “C”.
O snorkeling é uma atividade apetecível nas Filipinas.
O tour “C” e o tour “A” são considerados os melhores dos quatro, mas como queríamos em princípio fazer só um, optámos pelo”C”, que nos pareceu (pela pesquisa na internet) melhor. Este tour passa por Helicopter Island, Matinloc Shrine, Secret Beach, Talisay Beach e Hidden Beach. São todos locais maravilhosos, com águas cristalinas e mornas, paisagens deslumbrantes, mas tem sempre o inconveniente de parecer (e sê-lo efetivamente) uma excursão, com muitas pessoas, não apenas da nossa embarcação, mas de muitas outras das inúmeras empresas que realizam os mesmos passeios todos os dias. É por isso que, para nós, um tour é mais do que suficiente.
Regressados a El Nido fomos dar uma volta pela cidade. Há uma pastelaria — El Nido Bakery — bem no centro, que vende bolos e pastéis doces de qualidade a peços incrivelmente baixos. Estamos a falar de preços que equivalem, na nossa moeda, a 10, 15 cêntimos. De tal forma, que fomos várias vezes tomar o pequeno almoço a esta pastelaria situada na rua Rizal.
Nos restantes dias em Palawan não fizemos mais excursões. Num deles fomos explorar a costa imediatamente a sul de El Nido, onde topámos com magníficas praias, entre elas Vanilla Beach, realmente bonita. Por perto há a praia de Corong Corong, onde, em outro desses dias, alugámos um kayak e partimos à descoberta de outras praias belíssimas. De Corong Corong fomos até a praia de Lapus Lapus, desta seguimos até Papaya e, por sua vez, desta seguimos até Seven Commandos Beach, uma praia que faz parte do tour “A”, mas que estava pouco movimentada graças a termos lá chegado fora das horas em que as embarcações do tour “A” ali chegam. Eu e Fla nunca tínhamos andado de kayak, pelo que esta experiência foi ainda mais incrível. Pelo caminho vimos imensos peixes voadores e um deles chocou a alta velocidade com a Fla.
Fomos de kayak desde Corong Corong até Seven Commandos, e voltámos.
Em Lapus Lapus estivemos sozinhos na praia. Banhámo-nos, descansámos, secámos um pouco os corpos ao sol e recuperámos energia para nova etapa. Em Seven Commandos banhámo-nos de novo, enquanto o nosso kayak descansava na areia. A água é de uma transparência incrível. Esta é mais uma praia magnífica, desse conjunto constituído por milhares de praias magníficas que são as ilhas filipinas.
Aconselhamos vivamente um passeio de kayak na região de El Nido. Há pessoas em várias praias que alugam kayaks a preços módicos. Este passeio entre Corong Corong e Seven Commandos é um dos mais recomendados. Outro, bem interessante, é o que sai da praia de El Nido rumo à ilha em frente, Cadlao. Logo à “entrada” da ilha encontra-se a Paradise Beach — e o nome diz tudo. Embora os passeios de kayak não sejam à partida perigosos, há que ter em atenção o tempo, sobretudo o vento forte que, se soprar contra, pode dificultar muito a deslocação para o destino desejado.
Em outro dos dias em Palawan decidimos dar uma volta de carro pelo extremo norte da ilha. Passámos por locais remotos, vimos pequenas aldeias, falámos com habitantes locais e apreciámos as vistas magníficas sobre o mar e a linha de costa, desde alguns pontos montanhosos, miradouros naturais com que topámos durante o percurso. A ilha no topo norte é muito estreita, pelo que se passa da costa oeste à costa leste em poucos minutos.
Fla e o nosso kayak na praia Seven Commandos.
Noutra ocasião fizemos um passeio mais curto com intenção de conhecer as praias mais próximas a norte de Nacpan. Tivemos de circular com muito cuidado por estradas secundárias, pois o nosso carro era baixo e nada adaptado a terrenos acidentados. Mas, devagar, lá fomos e, no final, valeu a pena. Estivemos na Duli Beach, uma praia extensa, magnífica, quase deserta. Fomos de manhã e, no regresso, parámos num pequeno restaurante de comida local, que vende sobretudo para fora, bem baratinho, mas bom, o Llancel Food House, na pequena povoação de Bucana. Comprovámo-lo quando começámos a comer e, não fora termos encontrado este lugar apenas na véspera da nossa partida, teríamos ido lá comer mais vezes. Os donos quiseram, e conseguiram, surpreender-nos com uma sobremessa deliciosa: halo-halo shai, um batido de frutas gelado. Este restaurante, todo em madeira, tem a particularidade de ter sido construído em torno de uma árvore e é gerido por uma pequena família, um casal com uma filha adolescente.
Convém dizer que é perfeitamente possível passar uma temporada em Palawan comendo nos restaurantes aonde vão os habitantes locais. A comida é em geral boa e nós fomos a vários restaurantes não-turísticos e com essa opção não só comemos bem como poupámos muito dinheiro e ficámos a conhecer uma boa parte da gastronomia da ilha. É preciso estar atento, observar, cheirar, ter os sentidos despertos para se escolher os melhores locais para comer. Também ajuda ser-se simpático, falar com as pessoas, mostrar-se interessado, elogiar se a oportunidade surgir. Por vezes uma atitude positiva faz a diferença entre ser-se bem ou mal atendido.
No interior do Llancel Food House com a família proprietária. Nas Filipinas veem-se muitas crianças e jovens. A taxa de natalidade deve ser muito elevada.
Foi pois com alguma nostalgia que partimos de Nacpan, cinco dias após a nossa chegada. É um local magnífico, longe da confusão de El Nido, mas suficientemente perto para, se quisermos, irmos lá rapidamente de moto ou de carro — são apenas 15 quilómetros. As praias de Nacpan e Twin Beach são alcançáveis facilmente a pé desde a Amarav Pension, onde ficámos hospedados; o alojamento naquela zona é mais em conta; a comida é boa; e todos os dias o pôr do sol enche a praia de Nacpan daqueles relaxantes tons rosados e alaranjados, enquanto podemos desfrutar de um banho morninho…
Quando chegámos de novo a Puerto Princesa, depois de mais um almoço na estrada e de termos entregado o carro, estávamos no nosso décimo dia de viagem. Estava um calor insuportável. Era o dia 25 de abril, para nós, o Dia da Liberdade.
Jamais esqueceremos a bela Nacpan.
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Bali, Indonésia
Chegámos a Bali no dia 26 de abril, de manhã, para ficarmos seis dias e meio. À nossa espera estava o motorista de um táxi que previamente reserváramos através do Booking. Chegámos ao Bali Bobo Hostel, no bairro de Jimbaran, ainda antes do horário do check-in. Foi quando conhecemos o grande (não tanto em estatura, mas de coração) Agust Raphael. Agust é o rececionista principal do Bali Bobo (propriedade de um alemão) e um ser humano extraordinário. Dado que quando chegámos o nosso quarto ainda estava ocupado, ficámos um pouco à conversa com ele. A viagem do aeroporto para o hostel havia sido caótica, o trânsito estava infernal, o calor também, e as nossas primeiras impressões de Bali não foram as melhores. (É preciso dizer que tínhamos vindo das Filipinas, logo, com expectativas altas). Por isso estranhámos um pouco, embora depois nos tivéssemos lembrado várias vezes, como agora, quando Agust nos disse que “não somos nós que escolhemos Bali, é Bali que nos escolhe”.
Com o calor, esta cama fresca convida ao sono.
De facto, fomos gostando de Bali um pouco mais a cada dia, e isso foi ao encontro da frase de Agust. Após a pequena conversa com ele, deixámos as malas, fomos almoçar e quando finalmente regressámos e entrámos no quarto para tomarmos um banho e descansarmos um pouco, ficámos encantados. Que belíssimo quarto! Enorme, fresco, limpo, bem equipado, com ar condicionado ligado e com uma espaçosa cama com dossel, ali estava um convite implícito para o relax total. É impossível não ser feliz num quarto daqueles. Apesar disso, nós que não conseguimos estar quietos, ainda saímos… desta vez de scooter. De facto, a melhor maneira de circular em Bali é de moto. O carro pode revelar-se um pesadelo, sobretudo para quem não está habituado ao trânsito caótico. Felizmente, o aluguer de motos é comum em Bali, e no Bali Bobo havia várias para alugar.
E lá fomos nós, palpando terreno, tentando ambientar-nos àquelas condições de trânsito, o que não foi fácil. Nesse dia fomos até uma praia de surfistas, a Uluwatu Beach, sempre com um tráfico compacto, tentando, aos poucos, passar entre os carros, imitando os locais, ou tentando, não conseguindo evitar alguns sustos. Logo nesse dia aprendemos uma lição importante: não conduzir de chinelos! Com a primeira lição assimilada, aventurámo-nos, no dia seguinte, a fazer um trajeto maior. Nada mais nada menos que uma viagem até Ubud, ou seja, mais de 100 kms no total, ida e volta.
Sem moto (ou bicicleta) é uma tortura circular em Bali. Imagino que o mesmo se passe na maioria das ilhas indonésias. Este vídeo foi filmado da nossa moto, no regresso ao Bali Bobo, desde Ubud.
Em primeiro lugar visitámos um campo de arroz em Tegalalang — Ceking RiceTerrace — e depois fomos à Floresta dos Macacos (Monkey Forest). Muita vegetação em ambos os locais e também muito calor. Na Floresta dos Macacos tem de se ter cuidado com os ditos cujos que tentam roubar a nossa comida. Não nos pareceu nada de extraordinário, além do grande número de espécimes vegetais, mas valeu pelo passeio. À noite, já em Jimbaran, fomos jantar ao Gacoan, um restaurante de massas com comida muito picante. O nível de picante vai de 1 a 10 e nós pedimos o nível 1. No entanto, estava bastante picante. No dia seguinte pedimos nível zero, ou seja, sem picante, mas veio picante na mesma.
Mais tarde, na Índia, a coisa haveria de ser pior. (É incrível como os asiáticos gostam de malagueta!).
Os próximos dias aproveitámo-los para curtir as praias. Tínhamos ficado com a ideia, primeiro ainda no avião e depois pela primeira praia que visitámos, de que as praias de Bali não eram muito boas. E, de facto, se as compararmos com as praias filipinas, estas são em geral muito melhores. Mas há boas praias em Bali, algumas mesmo excelentes. Uma das melhores é a Thomas Beach, uma praia realmente bela, de acesso um pouco difícil, pois fica sob uma escarpa relativamente alta, tendo de se descer (e, na volta, subir) muitos degraus. Mas vale muito a pena visitá-la. Quando lá estivemos, de manhã cedo, havia poucas pessoas na praia.
Thomas, uma das praias mais belas não apenas de Bali, nem apenas da Indonésia, mas do mundo.
Além desta, visitámos mais duas praias que, pela pesquisa que fizemos, nos pareceram as melhores nesta zona de Bali. E de facto não desiludiram. A primeira foi a Melasti Beach e a segunda a Pandawa Beach, ambas no extremo sul da ilha. A Melasti Beach é a mais bonita das duas. Convém dizer que a Fla se encarrega sempre de baixar o google maps durante as nossas viagens, pelo que podemos deslocar-nos pelos próprios meios sem complicações de maior. Em Bali eu conduzia a moto e a Fla, com o telemóvel na mão, atrás de mim, dava as indicações sobre o caminho a seguir.
Durante a nossa estadia no Bali Bobo aconselhámo-nos várias vezes com Agust sobre locais interessantes a visitar e sobre restaurantes com boa relação qualidade-preço para comer. Foi através de uma dica de Agust que fomos na nossa motoca até o mercado de peixe de Kedonganan. Aí, após uma volta pelo interior do mercado, onde apreciámos uma variedade imensa de peixes e mariscos, escolhemos um peixinho, ou melhor, um “peixão”, que de seguida transportámos até um restaurante situado mesmo no largo anexo ao mercado, em frente ao mar. Neste restaurante, Warung Bu Wiwin, frequentado por habitantes locais, é possível mandar grelhar o peixe por um preço irrisório. As bebidas e os acompanhamentos são pagos à parte.
Comida de qualidade a preços módicos é algo que só se consegue quando interagimos com as pessoas. Esta dica deve seguir na bagagem de qualquer viajante que se preze.
O peixe prontinho para degustação depois de ter sido comprado no mercado.
Neste dia, depois do almoço, seguimos mais uma sugestão de Agust e fomos visitar o templo Pura Luhur Uluwatu, situado no topo de uma falésia e onde se realiza um espetáculo de dança tradicional. Quem quiser assistir terá de chegar pelo menos uma hora antes do espetáculo, que se realiza às seis da tarde, por forma a garantir o bilhete, uma vez que a lotação se esgota todos os dias. Foi o que fizemos, chegámos cedo. O local é muito bonito e o facto do Kecak Ramayana, assim se chama o espetáculo, constituído por cinco atos, se realizar ao pôr-do-sol, torna tudo ainda mais belo. Trata-se de uma lenda contada através da dança que culmina numa batalha final onde o exército de macacos derrota o exército de gigantes e Rama, o herói, derrota Rhawana, salvando a sua esposa Sita.
No dia seguinte decidimos ir mais longe e visitar a ilha de Nusa Penida. Foi difícil encontrar o cais de onde partem os navios para esta ilha porque pensávamos que estes partiam todos do mesmo local, mas não. As embarcações para Nusa Penida saem de um cais exclusivo. Como tínhamos acordado bem cedo, descobrimos a tempo que o cais de embarque é o de Sanur, um dos vários que existem na ilha de Bali onde acostam os ferrys que vão para as outras ilhas. Deixámos a scooter no parque de estacionamento e quando chegámos a Nusa Penida alugámos outra scooter numa loja junto ao cais. O nosso objetivo era irmos a kelingking beach e, munidos do google maps, lá fomos nós. Subidas, descidas, estradas estreitas e esburacadas, uma scooter diferente, mais pesada — tudo isto constituiu mais um desafio.
Kelingking é sem qualquer dúvida um lugar cénico. E perigoso. Já conteceram aqui muitos acidentes. Uma placa no local avisa que não há vigilância e que, portanto, os turistas estão por sua conta e risco. Os perigos são vários. As altíssimas escarpas sobre o mar não têm, em muitas zonas, proteção (vimos pessoas a tirarem fotos à beira do precipício); a descida para a praia é perigosa e demora bastante mais de uma hora para superar a curta distância que separa o topo da colina da praia, quer para subir quer para descer, e o sol não ajuda; a praia lá em baixo tem correntes perigosas, cruzadas, e o mar é forte.
A praia de Kelingking, ao fundo — nós fomos lá.
Como é que nós sabemos isto? Porque tomámos a decisão um tanto arriscada de descer até à praia. E subir, claro. É preciso estar em boa forma para fazer isso e o nosso conselho é o de que, se alguém ainda assim decidir descer, por favor não se aventure a nadar naquele mar. Claro que há sempre quem se aventure e provavelmente ver-se-ão pessoas na água. A maioria tem sorte, felizmente, mas o número de mortes que já ocorreram naquela praia é assustador. Basta ter alguma familiaridade com o mar, e observá-lo, para perceber como ele ali é perigoso. As correntes cruzadas são imprevisíveis e vimos várias pessoas (todas jovens) em dificuldades para sairem da água.
A subida desde a praia, nas horas de calor, é extenuante. Tive de descansar várias vezes pelo caminho. É imprescindível levar água para beber, e nós não levámos, o que foi um erro. Em suma, é preciso uma certa dose de loucura para ir àquela praia.
Mais de três horas depois de iniciarmos a descida, regressámos ao topo. Foi um alívio. Por um lado estávamos felizes por termos superado o desafio, mas por outro sentimo-nos desconfortáveis por termos corrido um risco, que embora calculado, tinha para todos os efeitos sido desnecessário. Mal chegámos ao topo da colina, procurámos um lugar à sombra na esplanada de um café e pedimos uma água de coco — uma benção. Pouco depois, estávamos a almoçar. Aos poucos recuperámos as forças e a energia. Estávamos prontos para mais uma etapa em Nusa Penida.
Crystal Bay tem boas condições para banhos de mar.
Rumámos a Crystal Bay, uma bela praia de águas mornas, bastante frequentada. Relaxámos, banhámo-nos e voltámos satisfeitos para o cais de embarque. Nusa Penida é sem dúvida uma ilha inesquecível. Linda, desafiante e perigosa. Após a travessia de cerca de uma hora, chegámos a Bali ao anoitecer. A nossa velhinha scooter esperava-nos no parque de estacionamento, e pouco depois voava para o Bali Bobo Hostel.
Contámos o sucedido a Agust que nos disse que ele próprio nunca tinha descido até a praia de Kelingking. Ficou surpreendido por o termos feito. Fomos tomar um duche relaxante e depois fomos jantar de novo ao Gacoan, pois este fica relativamente perto do Bali Bobo. Normalmente íamos a pé e cruzávamos um pequeno bairro onde as pessoas, que nos viam passar várias vezes, nos cumprimentavam.
No dia seguinte optámos por descansar e evitar correrias. Estivemos bastante tempo no hostel depois do pequeno almoço. E quando chegou a fome fomos almoçar ao Menega Cafe, na praia de Jimbaran, apenas a 4 quilómetros de distância. Peixe grelhado, lagosta, camarão, bivalves — não estava mau, mas o nosso marisco é melhor e a forma como o tratamos também. Depois do almoço, a Fla quis provar uma durian pancake num café chamado Durian Tanpa Ribet; realizámos esse desejo.
Era o dia de deixarmos o Bali Bobo, mas não ainda Bali. Optáramos por ficar a última noite num hotel bem perto do aeroporto para facilitar a nossa partida. Despedimo-nos de Agust, esse simpático e querido indonésio que o destino colocou no nosso caminho, e apanhámos um táxi até o Tirtasuci House, em Kuta, onde dormiríamos a nossa última noite em Bali.
A melhor parte das viagens são os amigos que fazemos. Fla e Agust à porta do Bali Bobo Hostel.
O Tirtasuci fica na zona mais movimentada e turística de Bali, bem perto do aeroporto. Passámos a tarde na praia, a Jerman Beach, tomando banho, observando os enormes e coloridos papagaios (pipas) que os miúdos lançavam no ar, passeando até depois do sol se pôr, relaxando e descansando, já em contagem decrescente para a partida de Bali e mais uma longa viagem até o próximo destino.
No dia seguinte, de manhã, fomos tranquilamente a pé até o aeroporto. Tínhamos pela frente uma viagem dupla rumo ao Nepal, com escala em Kuala Lumpur. Para trás, mas não esquecida, ficava Bali, a ilha dos deuses.
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Kathmandu, Nepal
Chegámos à capital do Nepal à noite, por volta das 21 horas. À nossa espera estava um taxista contratado pelo hotel onde iríamos ficar; o transfer estava incluído na nossa reserva. Durante o trajeto deu para perceber que estávamos numa cidade aonde a modernidade não tinha chegado ainda, uma cidade diferente de todas as que já tínhamos conhecido. O núcleo central de Kathmandu é uma zona demarcada, conhecida como Thamel, a parte mais comercial e turística da cidade. O Magnificent Hotel, onde ficámos, está localizado dentro dessa zona.
Buddha Stupa.
O budismo é a religião prevalecente no Nepal. Trata-se de uma religião tolerante e isso faz-se sentir no quotidiano das pessoas. No segundo dia em Kathmandu fomos visitar o templo Buddha Stupa, a 7 kms do nosso hotel, trajeto que fizemos a pé, como é nosso timbre, para irmos palpando o terreno e o pulsar da cidade.
Na volta apanhámos um táxi até Thamel para visitarmos o centro da cidade. Depois seguimos a pé até o templo de Swayambhunath, do outro lado (oeste) da cidade. Trata-se de um templo onde os macacos abundam, convivendo com as pessoas e tentando sempre tirar alguma vantagem; é preciso saber lidar com eles e não lhes dar muita confiança. Regressámos, descendo a longa escadaria que já tínhamos subido (o templo fica no topo de uma colina), a Thamel e ao hotel. Depois de um duche revigorante e uns momentos de descanso, fomos jantar a um restaurante típico nepalês de que gostámos muito. A comida era excelente, com várias opções vegetarianas, e a decoração é muito bonita. O restaurante fica num primeiro andar, e tem duas salinhas pequenas com janelas grandes através das quais chegam os sons do bulício e as luzes dos néons, próprios do centro da cidade.
No Paleti Bhanchha Ghar.
No terceiro dia no Nepal partimos de Kathmandu num voo curto até Nova Deli. Ficámos surpreendidos pelo tamanho do avião, um 747, e pela refeição servida num voo de hora e meia. Parabéns à Royal Nepal Airlines.
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Nova Deli, Jaipur e Agra, Índia
Tínhamos uma expectativa muito alta em relação à Índia. Planeámos visitar as três cidades constituintes do badalado triângulo dourado, de modo que pormenorizámos muito bem a nossa estadia. Mas nada podia falhar, porque estava tudo muito apertado. O nosso plano era chegar a Nova Deli, apanhar o metro para o centro da cidade, tomar um duche rápido no hotel, e voltar para o aeroporto para apanhar o avião até Jaipur. Dado que os hotéis na Índia são relativamente baratos, pensáramos em reservar um hotel em Nova Deli por forma a termos um lugar onde deixar as malas maiores e partirmos só com uma pequena bagagem para Jaipur e Agra antes de regressarmos a Nova Deli. Decidimos ir para Jaipur de avião, uma vez que os preços baratos compensam, depois seguirmos para Agra de comboio, e não tínhamos ainda decidido como voltar de Agra para Nova Deli. O plano pareceu-nos bom, mas o voo que apanhámos em Kathmandu atrasou e pensámos que provavelmente não conseguiríamos apanhar o voo para Jaipur. Começámos a pensar num plano B…
Foi uma correria. Quando deixámos as malas no hotel em Nova Deli e voltámos a correr para o aeroporto, pensámos que perderíamos o voo para Jaipur. Mas tentar não custa, e o muito suor que gastámos foi compensado: o voo para Jaipur também estava bastante atrasado, e lá apanhámos o avião. Quando chegámos, o motorista do nosso “táxi” (um tuk tuk) estava há mais de três horas à nossa espera para nos levar ao Gypsy Monkey, o hostel que havíamos previamente reservado. Comemos qualquer coisa no hostel, tomámos um duche e fomos dormir.
Fla no magnífico Palácio da Cidade, em Jaipur.
Entretanto o motorista do tuk tuk fizera uma proposta para nos levar no dia seguinte aos locais mais emblemáticos, e nós aceitámos. Assim, bem cedo na manhã seguinte saímos à descoberta de Jaipur. Nesta cidade não há hipótese de percorrer longas distâncias a pé a não ser quando o sol se esconde porque o calor é infernal, pelo que foi uma decisão sensata termos aceitado a proposta do condutor do tuk tuk.
Fomos em primeiro lugar ao Hawa Majal e de seguida ao Palácio da Cidade, onde vive o jovem rei do Estado de Jaipur, Padmanabh Singh. As entradas pagas já incluem guia e as visitas são demoradas, cerca de duas horas. O nosso guia era excelente, falando um inglês correto. Explicou-nos a história da família real, ocidentalizada e culta, e através dela a história de Jaipur. É, sem dúvida, a melhor, e a indispensável, visita que se pode fazer na cidade.
Depois fomos almoçar. A comida é um problema na Índia. Dificilmente se consegue comida sem picante, seja onde for. A seguir ao almoço num restaurante sofrível, visitámos os outros locais previstos: Forte Amber, Stepwell e Jal Mahal.
No dia seguinte, cedo, apanhámos o comboio para Agra. Fomos na terceira classe, pois quisemos ver como é. Tem ar condicionado — forte de mais — e o mais curioso é que uns lugares são sentados, outros deitados. Eu fui num dos primeiros, a Fla num dos segundos, por cima de mim.
Chegados a Agra, pouco depois do meio-dia, apanhámos um tuk tuk para o nosso alojamento, estrategicamente situado junto à entrada leste para o Taj Mahal. Foi a melhor surpresa na Índia. Uma belíssima casa transformada em alojamento local. A decoração é de muito bom gosto e o quarto é realmente mimoso. Os jardins dão um toque de frescura, o que é sempre bem vindo num país demasiado quente. Mas o problema continuou a ser a comida. Na Índia há muita comida vegetariana, mas mesmo esta é picante. Foi o que aconteceu ao jantar: mais uma dose descomunal de picante. Enfim, tentámos animar-nos com a perspetiva da visita ao Taj Mahal.
Nós e o Taj Mahal.
De manhã bem cedo, no dia seguinte, antes ainda do nascer do sol, lá fomos nós. Fomos dos primeiros a entrar. O Taj Mahal é realmente imponente mas, talvez pela nossa alta expectativa, desiludiu um pouco. Arquitetonicamente não é muito elaborado, o interior é pobre e falta qualquer coisa no entorno, talvez mais verde e mais água. Ainda assim, dado o simbolismo do local, talvez, não se consegue ficar indiferente quando o vemos pela primeira vez. Seja como for, e dado que era um objetivo de longa data, sobretudo para a Fla,”está feito”.
Regressámos ainda nesse dia a Nova Deli, de táxi. É tão barato (descobrimos isso já em Agra) que não se justifica outro meio de transporte. Descansámos um pouco no hotel, que se situa bem perto da Estação Central Ferroviária de Nova Deli, antes de sairmos para uma volta a pé pela zona mais movimentada da cidade. A confusão é grande: os pequenos negócios de rua, as lojas minúsculas, os tuk tuk, os milhares de transeuntes, os odores intensos. Ao passarmos numa rua sentimos um cheiro fortíssimo a urina: olhámos para o lado e vimos vários indivíduos, lado a lado, urinando para o chão, que era um lago.
A Índia é seguramente um país espetacular com uma história fabulosa e uma cultura grandiosa, mas aquilo que vimos e sentimos não foi nada disso. Como não somos hipócritas, temos de dizer que não gostámos daquela cultura tão influenciada pela religião. Embora não pareça haver intolerância religiosa, pois a diversidade de culto é visível nas ruas, as pessoas são extremamente preconceituosas. Se a Fla vestisse uns calções ou um vestido curto, era certo e sabido que os olhares sobre ela se tornavam tão frequentes e intensos que eram impossíveis de ignorar. As mulheres olhavam com reprovação e indignação, os homens com espanto (para não lhe chamar outra coisa).
Uma rua de Nova Deli, com o Forte Vermelho ao fundo.
As pobreza e sujidade na Índia fazem doer o coração. Vimos de facto muita pobreza, incluindo crianças a catarem lixo à procura de comida, mas também muita sujeira. Vimos pessoas a deitarem todo o tipo de coisas para o chão, inclusive nos aviões, sem qualquer necessidade. As ruas são incrivelmente sujas e mal cheirosas. Sinceramente, foi com certo alívio que deixámos a Índia. No dia 8 de maio, ao início da noite, partimos rumo a Baku, Azerbeijão.
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Baku, Azerbeijão
Era suposto estar um motorista à nossa espera no aeroporto de Baku, mas ninguém compareceu. É sempre um prejuízo (não apenas monetário) quando algo no planeamento falha. Tivemos de apanhar um táxi e o Booking não nos devolveu o valor que pagámos por esta corrida, mas o que tínhamos pago previamente ainda em Lisboa, pelo que ficámos duplamente prejudicados (monetariamente e pelo atraso de duas horas com que chegamos ao “nosso” alojamento). Não é justo, mas não há muito mais a fazer para além de denunciar estas situações.
As Flame Towers veem-se quase de todo o lado, em Baku.
Pelo caminho entre o aeroporto e o hostel já dava para perceber que Baku é uma cidade moderna; iríamos confirmar isso nos dias seguintes. Ficámos no Cth Baku Hostel, bem localizado no centro da cidade. Pela primeira vez ficámos num hostel com casa de banho partilhada, mas isso não constituiu problema. E este hostel tem algo que compensa tudo: um soberbo e variado pequeno-almoço. Depois desta refeição ficávamos com energia para várias horas. E nós usámos bastante energia ao palmilharmos dezenas e dezenas de quilómetros na surpreendente Baku — uma cidade limpa, organizada, moderna, bela, com alguns edifícios icónicos.
Entre eles, há dois que nenhum turista em Baku pode deixar de visitar.
Referimo-nos às Flame Towers e ao Centro Cultural Heydar Aliyev. As primeiras, localizadas numa colina sobre a baía de Baku, veem-se de quase todo o lado e foram, por isso, concebidas para se olharem à distância. Já o Centro Heydar Aliyev — desenhado pelo arquiteto iraquiano-britânico Zaha Hadid — é para se ver de perto, quer o exterior, quer o interior. Foi o que fizemos. Passámos uma tarde inteira, até o fecho de portas, apreciando esta magnífico edifício e as várias exposições patentes no seu seio.
Centro Cultural Heydar Aliyev. Em memória de um alto dirigente da União Soviética que se tornou Presidente do Azerbaijão e o governou com mão de ferro. Tal como acontece, hoje, com seu filho
Além do edifício propriamente dito, a envolvente é também muito interessante, pois inclui o Centro de Convenções de Baku e largos relvados onde as pessoas se reunem para fazer piqueniques, praticar desporto, descansar e conviver, em suma, um espaço simultaneamente grandioso e harmonioso, uma síntese, na verdade, de toda Baku.
Mas além da componente arquitetónica, há que realçar a vertente urbanística. As ruas são bem desenhadas, perfeitamente adaptadas para a circulação a pé, com um pormenor bastante curioso: os peões (pedrestes, para os amigos brasileiros) cruzam as grandes avenidas sempre por debaixo do chão, em segurança. O número de túneis, onde por vezes se encontra algum tipo de comércio ou um ou outro artista de rua, é impressionante. E há algo mais que também impressiona: o luxo patente em lojas, hotéis, edifícios e automóveis. É preciso não esquecer que o Azerbaijão tem petróleo e gás natural.
Apesar da riqueza e da boa organização evidentes em Baku, o mesmo não se passa seguramente no resto do país. Embora abundante em combustíveis fósseis, o PIB per capita do Azerbaijão é equivalente ao do Brasil e bastante inferior ao português. Além disso, o país é governado desde 1993 pela mesma família, os Aliyev, que se mantêm no poder através de um sistema pseudo-democrático, a que alguns chamam de Partido Dominante; isso significa que há partidos na oposição, mas nunca chegam ao poder. Por outras palavras, as eleições são fraudulentas. Além disso, o atual presidente, Ilham Aliyev, filho de Heydar Aliyev (um antigo oficial de elevada patente do KGB), pode manter-se indefinidamente no cargo graças a uma alteração à Constituição, aprovada pela Assembleia Nacional após um controverso referendo, realizado em março de 2009.
Museu de Tapeçaria do Azerbaijão.
Há duas personalidades nascidas no Azerbaijão que merecem o nosso destaque. Uma delas é Garry Kasparov, que apesar de ter nascido em Baku, viveu grande parte da sua vida na União Soviética e na Rússia, primeiro como membro do Partido Comunista, depois como opositor ao regime de terror implantado por Putin. Hoje vive no estrangeiro, exilado, tendo escrito um excelente livro — O Inimigoque Vem do Frio — onde previne o Ocidente livre sobre a necessidade de travar Putin a tempo, algo que nunca foi feito, permitindo que a ameaça russa crescesse da Geórgia para a Crimeia e depois para a Ucrânia. Kasparov mostra grande lucidez e compara o regime de Putin a uma verdadeira máfia. Além da atividade política desenvolvida, Garry Kasparov foi um exímio jogador de xadrez, um dos melhores de todos os tempos, e também por isso — nós que tanto apreciamos esse jogo — o admiramos.
A outra personalidade é Gubad Ibadoghlu, um economista que fundou o Movimento de Democracia e Prosperidade do Azerbaijão, em 2014, e que viu o seu registo como Partido da Democracia e Prosperidade, várias vezes rejeitado pelas autoridades. Na prática, a atividade política de Gubad — que denunciava a corrupção governamental e o desvio para benefício pessoal dos Aliyev das receitas do gás e do petróleo — foi ilegalizada. Perseguido, foi obrigado a sair do país. Em 2023 regressou com a mulher ao Azerbaijão para visitar a mãe doente, mas o carro em que seguiam foi albaroado e ambos foram agredidos e presos, tendo a mulher sido libertada depois. Doente, Gubad Ibadoghlu foi colocado em prisão domiciliária, mas é-lhe negado o tratamento necessário para a diabetes, pressão alta e problemas renais de que padece.
Apesar de ser um república democrática no papel, não existem eleições livres no Azerbaijão e o número de presos políticos tem vindo a crescer. A mulher do presidente do país é a atual vice-presidente.
Seja como for, e apesar da grande maioria da população azeri ser muçulmana (mais de 97%), Baku é uma cidade moderna, onde as pessoas andam à vontade e a larga maioria se veste dentro dos padrões ocidentais.
Celebrámos o 12º aniversário do nosso namoro no Dolma, em Baku.
Na última noite em Baku fomos jantar a um restaurante tradicional da cidade, o Dolma, que também é o nome de uma iguaria tradicional ali confecionada: carne moída enrolada em folhas de videira. Além disso, comemos cabrito no forno com puré de batata, frango, salada — e tudo estava realmente delicioso.
No dia seguinte fomos de autocarro para o aeroporto e despedimo-nos de Baku. Ao contrário do que acontecera com a Índia — quando as expectativas eram elevadas e de certa forma foram frustradas — em relação ao Azerbeijão as expectativas não eram elevadas, mas foram superadas no que toca à vida na capital, embora não possamos dizer o mesmo relativamente à vida das pessoas em todo o país, privadas de liberdade por mais um ditador despótico. Porque há tantos no poder e porque há tanta gente a apoiá-los — eis a questão que nos inquieta, sempre.
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Geórgia e Arménia
A nossa intenção inicial era visitar os três pequenos países entre o Mar Cáspio e o Mar Negro: Azerbaijão, Geórgia e Arménia, ficando alguns dias em cada um deles. A Geórgia teria de ser sempre o país do meio porque devido ao conflito entre a Arménia e o Azerbeijão (em Nagorno Karabakh) não é conveniente viajar (e muitas vezes nem há ligação) entre estes dois países. Mas depois descobrimos que há passeios de um dia à Arménia, desde a Geórgia, com guia. Assim, reservámos ainda em Portugal um desses tours, que incluía um almoço em casa de uma família local.
Apesar de haver autocarros do aeroporto para o centro de Tbilisi, optámos pelo táxi que nos deixou à porta do apartamento que tínhamos alugado para os nossos 6 dias na Geórgia, via Airbnb. Este apartamento está muito bem localizado e equipado, e foi uma excelente opção para a nossa estadia em Tbilisi. Assim pudemos fazer os pequenos almoços em casa e algumas outras refeições, poupando bastante dinheiro, pois a vida em Tbilisi, ao contrário do que se pensa geralmente, não é nada barata.
A caminho da Praça da Europa, na noite de 11 de maio de 2024, em Tbilisi.
Já sabíamos que havia grandes manifestações na Geórgia que, na época em que chegámos, estavam no auge. Em causa estava uma lei — que haveria de ser aprovada no parlamento durante o período em que estivemos em Tbilisi—, que ficou conhecida como “lei russa”, pois visava limitar a liberdade de imprensa, à semelhança de uma lei de 2012 vigente desde então no regime putinista. O que constatámos na Geórgia foi uma enorme vontade das gerações mais novas de se livrarem da pressão russa. Para tal, os georgianos só veem uma possibilidade: a entrada do país na União Europeia e, eventualmente, na NATO. Ora, esta “lei dos agentes estrangeiros” é um entrave às ambições dos georgianos de aderirem à UE (viola as condições de adesão), e é por isso que a presidente do país, Salome Zourabichvilli, uma europeísta convicta, tão veementemente se lhe opõe. O veto da presidente, porém, não foi suficiente para travar a lei, face à maioria dos deputados do partido Sonho Georgiano, no poder.
Tínhamos conhecimento desta situação quando chegámos à Geórgia e estávamos ansiosos por nos juntarmos às manifestações, que eram constantes. Logo no dia da nossa chegada, dia 11 de maio, sábado, assistimos a uma manifestação gigantesca que se concentrou na Praça da Europa. As pessoas empunhavam ou colocavam pelas costas bandeiras da Geórgia e da União Europeia. Estivemos horas, ali, e no dia seguinte comprámos uma bandeira da União Europeia para participar nas manifestações. Chovia bastante naquela noite, mas ninguém arredou pé.
A maioria das manifestações ocorre em frente ao Parlamento.
A nossa vida em Tbilisi foi, pois, passada nas manifestações. Claro que também deambulámos pela cidade, palminhámos o centro histórico, mas o nosso pensamento estava sempre nas manifestações que eram diárias e constantes. O nosso apartamento situava-se mesmo em frente ao parlamento, mas do outro lado do rio, numa colina. À noite ouvíamos perfeitamente os sons que vinham de lá, pois as manifestações nunca paravam, os georgianos faziam turnos para manterem os protestos durante o máximo de tempo possível.
Zezva, o guia que nos conduziu à Arménia, era também um dos manifestantes. Ele conduziu o carro sempre debaixo de chuva enquanto nos explicava — a nós e a um casal inglês, que éramos os seus clientes — a situação na Geórgia, o contexto histórico, a luta dos georgianos para se verem livres da influência russa. Recordo uma frase de Zezva que ficou gravada no meu cérebro: desde pequeno que ouço constantemente “não podemos irritar os russos, não podemos irritar os russos”, estou farto!
Ao ouvi-lo fiz interiormente uma pergunta que de vez enquanto me assalta. Como é possível termos nos nossos países livres gente que apoia ou tolera o regime de Putin? Não consigo compreender. Esses que ativa ou discretamente toleram Putin são os mesmos que deploram a União Europeia, o maior espaço de liberdade do mundo. E é a este espaço que os georgianos querem desesperadamente pertencer.
Haghpat, Arménia.
Visitámos alguns mosteiros na Arménia. Akhtala, e o complexo de Haghpat e Sanahin. No final estivemos em Sarahart, nas instalações de um teleférico, desativado há pouco tempo, que servia para transportar os trabalhadores das suas casas, cá em cima, para as minas de cobre, lá em baixo, ao lado da cidade mineira de Alaverdi. Esta região já foi georgiana, depois soviética e agora é arménia.
Junto ao mosteiro de Haghpat — uma obra-prima da arquitetura religiosa arménia, classificada como Património Mundial pela UNESCO, construído no século X —fica a casa onde almoçámos. Foi um almoço muito agradável e saboroso. Voltámos a provar o dolma, esse petisco tão difundido pela região do antigo império otomano, entre outras iguarias: um frango bem confecionado e uma salada que fez as delícias da Fla, queijos, pastéis e bom pão caseiro. Além disso pudemos conviver um pouco com uma família local e fruir de uma paisagem deslumbrante, pois esta casa situa-se ao lado do mosteiro, no topo de uma colina.
Depois do almoço em Haghpat. Nós, Zezva e o casal inglês.
Regressámos a Tbilisi e fomos diretamente para a porta do Parlamento onde ocorria mais uma manifestação. Zezva juntou-se-nos pouco depois. Ele traduziu para inglês muito do que se dizia por lá em georgiano, quer nos discursos dos oradores, quer nas palavras de ordem dos manifestantes. Os estudantes universitários estavam todos mobilizados, bem como muitos professores, e as universidades estavam fechadas. Já era bem de noite quando fomos para o apartamento. Continuámos a ouvir os sons da música, dos slogans, das ovações até adormecermos. Ainda hoje nos é impossível manter-nos indiferentes a esta luta.
É justo dizer que de vez em quando a polícia carregava sobre os manifestantes. Várias pessoas foram presas. Tivemos sorte em nunca termos estado num desses momentos, mas o grande aparato policial, com carros, carrinhas, canhões de água e centenas de elementos, deixava bem claro que os agentes do estado poderiam intervir a qualquer momento. Apesar disso ninguém desmobilizava, e muitos estavam protegidos com máscaras contra o gás lacrimogéneo.
Corte de rua pelos agentes da polícia junto ao parlamento de Tbilisi..
No dia seguinte, apesar de termos ido de novo ao Parlamento, fomos visitar a Galeria Nacional da Geórgia, que por acaso, fica muito perto, na mesma avenida. Vimos várias exposições, com destaque para as obras do mais conhecido artista plástico georgiano, Niko Pirosmani.
Fomos também à Academia de Arte de Tbilisi, na Avenida Rustaveli, mas, pelo caminho, à porta do Coliseu, tivemos uma agradável surpresa que comprova como o mundo é pequeno. Deparámos com o jornalista português, que muito admiramos, Henrique Monteiro. Conversámos um pouco e ficámos a saber que o Henrique tinha sido convidado para ir a Tbilisi dar uma palestra numa universidade. Aproveitando o ensejo, ele haveria de produzir uma belíssima reportagem, publicada no jornal Expresso do dia 24 de maio, sobre os acontecimentos que naquela altura ocorriam na cidade. Escreve Henrique nessa reportagem:
Olho pela última vez para jovens com bandeiras do seu país e da Europa, a lutar pela liberdade, e comparo-os, mentalmente, com os jovens dos EUA e da Europa a lutar pela Palestina, numa equação em que liberdade não entra, pelo contrário. Os primeiros têm esperança; os segundos apenas raiva.(aqui)
Foi um encontro feliz para nós, no qual pudemos constatar não sermos os únicos portugueses genuinamente sensibilizados com a determinação do povo georgiano na sua luta pela liberdade.
Fla e Henrique Monteiro à porta do Coliseu de Tbilisi.
À noite fomos jantar a um restaurante tradicional georgiano, o Mafshalia. Estávamos no dia da partida e quase no final da nossa viagem. Aproveitámos para provar alguns pratos típicos (carne de porco com batatas assadas, um frango com um molho um tanto ou quanto esquisito para o nosso gosto, saladas e pastéis) e um vinho branco caseiro muito agradável. Os preços são em conta, as doses bem servidas e o restaurante é típico, com uma sala comum e pequenos compartimentos privativos. Vale a pena.
De seguida fomos ao apartamento tomar um duche e pegar as malas para seguirmos, de autocarro, para o aeroporto. Despedimo-nos de Tbilisi com o desejo de que o povo georgiano alcance a liberdade. Em outubro há eleições na Geórgia e a oposição quer que estas sejam monitorizadas por observadores independentes. Mas a “lei russa”, entretanto aprovada, é um obstáculo à vinda de observadores estrangeiros. Tal como refere Henrique Monteiro, se os Estados Unidos e a União Europeia não pressionarem Putin, a Geórgia estará perdida.
Os nossos corações permanecem com Zezva e com os dois terços de georgianos que almejam a liberdade.
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Ankara, Turquia
O nosso regresso a Portugal fez-se via Turquia, e ficámos 14 horas em Ankara, aonde chegámos cerca das 5 e meia da manhã. Apanhámos um autocarro para o centro e fomos visitar alguns lugares da cidade. Pensávamos que o autocarro ia até o centro da cidade, e que aí seria a última paragem, mas a última paragem afinal era depois do centro, num terminal rodoviário fora da cidade. Tivemos, portanto, de comprar novo bilhete para apanharmos outro autocarro em sentido inverso para descermos no centro da cidade como pretendíamos. Lá chegados, o motorista abriu a porta da frente para entrarem os passageiros mas não abriu a porta de trás por onde era suposto sairmos. Pedimos para ele abrir a porta e ele começou a falar muito alto e percebemos que não queria abrir a porta; pelos gestos que fazia, entendemos que, segundo ele, teríamos de continuar a viagem até o aeroporto! Rapidamente furamos por entre as pessoas que estavam a entrar e conseguimos sair pela porta da frente, enquanto o motorista gritava enfurecido qualquer coisa para nós ininteligível. Ficámos abismados com este comportamento.
Vista sobre a cidade de Ankara.
Lá seguimos a pé até ao castelo de Ankara, de onde se avista quase toda a cidade. Ao redor fica a cidadela ou Cidade Antiga, bem preservada, com lojas de antiguidades, de artigos típicos e souvenirs, bares e restaurantes. Na volta parámos no Bogazici Lokantasi para almoçar. Trata-se de um excelente restaurante muito frequentado pelos locais mas também por alguns estrangeiros, como nós. Lá dentro tem uma montra enorme cheia de travessas de comida, e é só chegar e apontar para o que se pretende comer. A comida é mesmo muito boa. Um prato típico muito requisitado é um arroz com carne chamado Ankara Tava.
E nada mais há a registar digno de nota sobre Ankara. Apenas que aquele episódio com o motorista do autocarro nos fez pensar que a Turquia é talvez o país onde se manifesta mais abertamente o dilema muçulmano. De um lado os que hostilizam os estrangeiros ocidentais e se refugiam na tradição, na religião; e do outro os que desejam um estado laico, aberto e democrático, na linha protagonizada pelo fundador da Turquia moderna, Kemal Atatürk.
No Bogaziçi Lokantasi.
Um pouco antes da meia-noite aterrámos em Lisboa. Assim se concluía mais uma grande aventura e mais uma grande viagem. Em novembro está programada mais uma viagem de um mês, desta vez pela África.
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1 Nós perdemos a ligação para Seul porque o nosso voo que saiu de Lisboa para Amsterdão atrasou devido ao mau tempo neste aeroporto. Chegados a Amsterdão o nosso voo para Seul já tinha saído. Então a KLM enviou-nos um SMS e um e-mail a marcar novo voo que sairia às 9 da manhã. Dado que chegámos ao aeroporto de Amsterdão por volta das 2 da madrugada, ficámos pelo aeroporto mesmo. Por volta das 4 da manhã recebemos novo e-mail e SMS dizendo que o novo voo tinha sido cancelado “por motivos técnicos”. Tivemos de esperar até às 8 da manhã, hora em que abriu o balcão da KLM para que nos fosse remarcado novo voo. As filas eram enormes e tivemos horas à espera. No balcão só conseguiram marcar-nos voo para as 21 horas através da Korean Air.
Quando chegámos a Lisboa reclamámos junto da KLM mas responderam-nos que não tínhamos direito a indemnização. Primeiro disseram-nos que não tínhamos direito a receber indemnização porque o nosso voo desde Lisboa tinha atrasado devido ao mau tempo; depois, quando pacientemente voltamos a explicar que não era esse o voo em causa, mas o que eles tinham remarcado para as 9 da manhã do dia seguinte e depois cancelado, responderam-nos que ainda assim não tínhamos direito a indemnização porque os bilhetes não tinham sido emitidos. Reclamámos para a ANAC. Preenchemos o formulário indicado, enviamos os documentos solicitados, fizemos um breve descrição do ocorrido. Passadas três semanas recebemos um e-mail da KLM a dizer que iam enviar 1200,00€ para a nossa conta — e cumpriram.
Moral da história: nunca desistam de reivindicar os vossos direitos. Se a companhia aérea não concordar em indemnizar-vos, reclamem para a ANAC (Autoridade Nacional de Aviação Civil) ou para alguma congénere de outro país. Tratem diretamente com eles e não recorram a nenhuma das inúmeras empresas que existem na internet porque qualquer delas vai cobrar-vos cerca de metade do valor a que têm direito.
Em época de festas populares, 1º Triatlo de Tavira veio colorir ainda mais o centro da cidade.
Decorreu hoje de manhã o primeiro Triatlo Sprint Cidade de Tavira, organizado pelo Clube de Vela de Tavira, em colaboração com a Federação de Triatlo de Portugal, com o Município desta cidade, com o Instituto Português de Desporto e da Juventude, com a União das Freguesias de Tavira e várias entidades locais. Os participantes de vários escalões femininos, masculinos e mistos, federados e não federados, tiveram de percorrer 750 metros de natação, 20 km de bicicleta e 5 km de corrida para completarem a prova, que foi um sucesso, atendendo ao número de participantes, que quase chegou às duas centenas.
Iniciando os 750 metros de natação no rio Séqua.
A prova foi ganha por João Chagas, do Lusitano Frusoal (escalão M 20-24), com o tempo de 55m e 38 s. João Vilanova, do mesmo clube, foi o primeiro junior a cortar a meta, e o 7º da geral. A prova feminina teve como vencedora Ana Estévez do Vasco da Gama de Sines. (Resultados completos aqui).
Este evento animou bastante o centro da cidade, teve muita gente a assistir e tem tudo para ser apenas a primeira de muitas outras edições, em anos vindouros.
Wheigre Lima avança para a prova de ciclismo, após ter concluído os 750 metros de natação com o tempo de 14′ e 38″.
Os rios Séqua e Gilão têm boas condições (aproveitando as marés) para a realização de vários géneros de provas aquáticas, desportivas e de lazer, mas têm sido mal aproveitados. Esperamos que o sucesso desta prova incentive a edilidade e outras instituições a unirem esforços para a organização de eventos desportivos futuros nas belas águas destes rios, que hoje, por acaso, estavam com uma temperatura ótima — cerca de 20º C.
Praia Verde, Algarve, 19:00 horas. A temperatura do ar rondará os 25, 26 graus; a do mar, uns cinco a menos. Nada que impeça um banho revigorante. O Algarve é a região terrestre mais ocidental (se excetuarmos as ilhas) onde vigora o chamado clima mediterrânico. Se partíssemos daqui em direção a Leste, até ao Crescente Fértil, manter-nos-íamos durante toda a viagem sob a influência deste clima. Poderíamos ir por terra (contornando a costa sul da Europa) ou por mar, entrando pelo Estreito de Gibraltar e cruzando o próprio Mediterrâneo, num trajeto oposto ao que fizeram os fenícios, quando há milhares de anos chegaram pela primeira vez ao Algarve. Ao contrário do que muitos supõem, este clima é pouco comum no mundo e contempla apenas outras quatro (mas muito pequenas) zonas do globo: o sudoeste da Austrália, o sul da Califórnia, o sul da África do Sul e uma parte do Chile. Não existe em mais lado nenhum. O clima mediterrânico — genericamente caracterizado por verões muito quentes e secos, e invernos frios e chuvosos — teve uma importância decisiva na história da humanidade. Não foi por acaso que as primeiras civilizações nasceram no Crescente Fértil: devemo-lo à especificidade do clima e às espécies animais e vegetais que a ele se adaptaram, e que não existiam noutros lugares. Sem o clima mediterrânico não seria possível termos o melhor pão, o melhor azeite, o melhor vinho, as melhores e mais variadas frutas, os melhores queijos e, já agora, a luz mais pura (que o digam os pintores). Para se ter uma ideia, só em Portugal existem mais de 250 castas de uvas, um desafio aceite por cada vez mais enólogos oriundos de longínquas paragens para aqui produzirem alguns dos melhores vinhos do mundo. Mas a Natureza brinda-nos de muitas outras formas. As nossas praias estão entre as mais bonitas e aprazíveis do planeta. Nesta época do ano, quando os dias parecem não ter fim, podemos ficar na praia até mais tarde, para vermos o sol pôr-se para lá das 21:00 horas. Por vezes, na mudança de maré, o vento para, o mar para, os sons param, e temos a sensação de que o tempo e os nossos pensamentos param também. Esta experiência é mais extraordinária quando ficamos sozinhos na praia. Na última vez, que foi hoje, um passarinho de poupa ficou parado na linha d’água, olhando o mar, que era um espelho imenso. Naquele momento eu, a minha companheira e o passarinho de poupa, pareceu-me, podíamos perfeitamente trocar identidades. E pareceu-me também que esta ilusão só é possível aqui, nas praias do Sotavento, onde o tempo não corre, escorre.
Antes da partida e da esquerda para a direita: Fernanda foi de ônibus para Belém e Luan ficou em Timon. Os cinco restantes fizeram a viagem, a que se refere este artigo, de ida e volta, de carro, entre Timon e Belém.
Esta viagem enquadra-se numa mais ampla que fizemos (eu e Fla) ao Brasil, entre 22 de setembro e 24 de outubro de 2023. Estivemos em seis estados (Piauí, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Pará e Ceará) e cinco capitais (Teresina, Recife, João Pessoa, Belém e Fortaleza). O centro desta viagem foi a casa onde vive a mãe da Fla, em Timon, no Maranhão, aonde regressámos sempre, após visitarmos outros estados e cidades, até voltarmos a Portugal. Dado que Teresina fica do outro lado do rio Parnaíba, fomos também muitas vezes à capital do Piauí enquanto estivemos em Timon. A nossa viagem de carro a Belém — e volta — aconteceu entre os dias 15 e 22 de outubro.
Desde logo, uma informação aos automobilistas que queiram fazer este trajeto: excetuando uns 50 quilómetros na zona de Zé Doca e uns 30 antes de chegar (ou depois de sair) de Belém, devido a reformas, a estrada está boa e perfeitamente transitável. O nosso pequeno Hyundai i20 (na verdade, não era nosso mas sim emprestado por Fernanda, irmã de Fla) foi e voltou cheio, com três adultos e duas crianças: os nossos sobrinhos Benjamim e Frederico, a avó deles, a filha da avó que é a minha mulher, Flávia, e eu. O objetivo da nossa ida a Belém, para lá de conhecermos a cidade, era o de nos encontrarmos com Fernanda, que vive na capital do Pará, após ter iniciado funções como auditora no Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Pará. Saímos de Timon às 10:30 da manhã e só parámos para almoçar na Churrascaria do Genival, em Alto Alegre do Maranhão, seguindo de imediato para Zé Doca, aonde chegámos por volta das cinco da tarde, para pernoitarmos. No dia seguinte, após dormirmos e tomarmos o café da manhã em casa de amigos da Fernanda, regressámos à estrada. Algumas horas depois atravessámos o rio Gurupi, que separa os estados do Maranhão e do Pará, almoçámos em Santa Maria do Pará (no restaurante Bom Gosto) e chegámos a Belém às três e meia da tarde.
Porto do Ver-o-Peso.
Em Belém ficámos instalados num excelente apartamento, na Avenida Nossa Senhora da Nazaré, a uma quadra da basílica homónima. O alojamento é suficientemente espaçoso, com dois quartos, cada qual com seu banheiro, totalmente equipado, estacionamento no subsolo e, além disso, muitíssimo bem localizado. O preço por cinco dias foi de €357,85. O primeiro dia serviu para nos instalarmos, encontrar-nos com Fernanda, irmos ao supermercado, darmos uma pequena volta de carro pela cidade, e pouco mais. No dia seguinte, de manhã, cirandámos pelo bairro de Campina: visitámos demoradamente o mercado Ver-o-Peso, fomos ao mercado Francisco Bolonha, andámos pela Praça do Relógio e terminámos o nosso passeio na Praça da República, antes do regresso ao apartamento. Depois do almoço, já com Fernanda, visitámos a Basílica de Nossa Senhora da Nazaré, passeámos um pouco e fomos lanchar ao Point do Açaí, no Blvd. Castilhos França, em Campina.
Já comêramos inúmeras vezes açaí noutras partes do Brasil, e até em Portugal, ou assim o pensáramos até então, mas só em Belém comemos pela primeira vez açaí verdadeiro — puro. Tem um sabor muito forte e amargo, difícil para quem não está habituado, o que não é o caso dos paraenses que acompanham praticamente tudo com açaí, desde pratos de peixe ou carne até sobremesas.
No Point do Açaí, em Belém.
No terceiro dia em Belém, logo de manhã, antes do calor apertar, fomos com os meninos ao Parque Urbano Belém Porto Futuro. Trata-se de um parque desportivo bem equipado, onde se pode estar em lazer ou praticando exercício físico. Benjamim (9anos) e Frederico (7 anos) divertiram-se bastante percorrendo os diversos aparelhos, correndo, escalando, pulando e baloiçando. Ainda da parte da manhã, depois de deixarmos os meninos e a avó Joana em casa, eu e Fla fomos a uma visita guiada ao Teatro da Paz. (Por pura sorte era quarta-feira e a visita foi gratuita). Construído à imagem do La Scala, em Milão, este teatro situado na Praça da República é seguramente um dos mais belos do Brasil, se não o mais belo mesmo.
Fundado em 1878, o Teatro da Paz tem uma acústica perfeita, lustres em cristal, piso de madeiras nobres, frescos nas paredes e teto, além de obras de arte de indiscutível valor, pintadas ou esculpidas, entre outros elementos decorativos. A sua escadaria de entrada é de mármore italiano e a imponente fachada foi reformada em 1905 para reproduzir fielmente o estilo neoclássico, importado de Itália. Já estivemos no Teatro alla Scala e podemos assegurar que o Teatro da Paz é, de facto, muito parecido com a mítica sala milanesa, sem deixar de ser original.
Teatro da Paz, na Praça da República, em Belém.
Felizes por termos visitado o Da Paz fomos almoçar ao restaurante Avenida, que fica muito perto do apartamento onde estávamos hospedados, na mesma avenida, quase em frente à Basílica da Nazaré, pelo que podemos deixar o carro no estacionamento do “nosso” prédio. Tinham-nos dito que no Avenida — inaugurado por um português já falecido (Fernando José de Oliveira) e continuado pelos seus filhos — se comia o melhor pato no tucupi de Belém, e fomos experimentar. Não podemos dizer que adorámos, mas comemos sem reclamar. Como já ficou dito, a cozinha paraense é forte e é preciso tempo para absorvê-la. O tucupi é um molho amarelo fermentado, extraído da raiz da mandioca brava, que acompanha vários pratos tradicionais do Pará, assim como o jambu, uma erva que lembra o agrião, mas muito mais amarga, que, claro, também entra no pato no tucupi. Sinceramente, não tivemos tempo suficiente para assimilar todo o esplendor da gastronomia paraense, mas podemos dizer que topámos-lhe o potencial.
Após o almoço fomos todos (os 6) ao bosque Rodrigues Alves, no bairro do Marco, já bem afastado do centro da cidade. Trata-se de um espaço verde zoobotânico (assim referido no local), exuberante, com espécies típicas da Amazónia, onde o ar verde nos envolve em ondas de frescura. A meio da nossa visita caiu uma carga de água diluviana e tivemos de esperar que abrandasse para podermos fugir para o carro. Apesar disto, valeu muito a pena a visita interrompida a este parque.
Benjamim no Museu das Ilusões, Belém.
No quarto dia, de manhã, decidimos regressar ao mercado Ver-o-Peso para comprarmos um peixe para o almoço. Escolhemos um tambaqui, peixe de água doce que, para nossa surpresa, não tinha o sabor a terra que muitos dos que comêramos antes apresentavam. Dona Joana temperou-o a preceito e cozinhou-o na panela, em leite de coco. Comemo-lo acompanhado por arroz branco, e estava, de facto, delicioso. Depois do almoço fomos todos ao Museu das Ilusões, um espaço inserido num centro comercial, bem perto do aeroporto internacional de Belém. As crianças divertiram-se bastante com as inúmeras ilusões — e a alegria delas fez também a nossa.
Mais para o fim da tarde ainda tivemos tempo para irmos à Estação das Docas comer um sorvete na famosa Cairu, enquanto o sol pousava no horizonte. Aqui é possível encontrar sabores pouco comuns, mas deliciosos, como bacuri, murucí, cupuaçu, araçá, além, claro, do próprio açaí. A Estação das Docas é um espaço bem recuperado, onde para lá da traça original dos antigos armazéns portuários se mantêm também os vistosos guindastes amarelos, desativados no cais. Restaurantes, lojas, esplanadas, um teatro, uma fábrica de cerveja, entre outros equipamentos, são motivos de atração para habitantes e turistas, que ali se reúnem a partir do final do dia.
Fla e Pinduca, o rei do Carimbó.
Mas esta jornada bem preenchida ainda não estava completa. À noite, eu e Fla, agora acompanhados com Fernanda, voltámos ao Teatro da Paz, desta feita para assistirmos ao primeiro dia do 30º FIDA — Festival Internacional de Dança da Amazônia. Quando chegámos pudemos constatar que a iluminação externa do teatro destaca-o da envolvente e realça ainda mais a sua beleza quando é noite. O espetáculo foi interessante, com muitos intervenientes e, no final, tivemos a sorte de encontrar Pinduca, o rei do Carimbó, com quem tivemos a oportunidade de conversar um pouco.
O quinto dia em Belém, sexta-feira, 20 de outubro, foi muito importante para mim e Fla, pois foi o dia em que conhecemos Lúcio Flávio Pinto. Combinámos encontrar-nos com ele na Banca do Alvino, em plena Praça da República, às 8:30 da manhã. Assim, logo após o café da manhã seguimos para lá. Após uma agradável troca de impressões, Lúcio concedeu-nos uma entrevista, que pode ser lida em https://ilovealfama.com/2023/10/31/lucio-flavio-pinto/.
O grande Lúcio Flávio Pinto com Fla, na Praça da República, em Belém.
Depois deste inesquecível encontro, fomos ao apartamento para levarmos connosco D. Joana e os meninos a uma visita ao Parque Zoobotânico e Museu Emílio Goeldi, não muito longe do local em que estávamos alojados, no bairro de Nazaré. Infelizmente, devido às fortes chuvadas que tinham caído, o museu estava encerrado, pelo que só tivemos oportunidade de percorrer o parque. Mais uma vez, pudemos observar espécimes representativos da Amazónia, mas não só. Uma linda onça pintada — que fora confundida com um gato e adotada por um habitante que posteriormente a entregou ao IBAMA — encantou Benja e Derico. Neste dia, o último completo em Belém, decidimos ainda provar mais alguns pratos locais, tipicamente paraenses. Em frente ao Avenida — o restaurante onde provámos o pato no tucupi — há um quiosque muito frequentado que nos disseram servir as melhores comidas típicas de Belém. Fomos lá almoçar. Provámos o Tacacá, o Cururu e o Vatapá. Os sabores destes pratos são tão diferentes em relação ao que estamos habituados que não nos surpreende o título conquistado por Belém de Cidade Criativa da Gastronomia, pela UNESCO.
À tarde Fernanda veio connosco (ela só podia juntar-se-nos depois do trabalho) a outro parque, este mesmo ao lado da Cidade Velha — Mangal das Garças. Menos densificado e mais aberto do que os anteriores, este parque tem mais relvados e lagos, bem como árvores de menor porte. Destacam-se também as aves aquáticas e diversos tipos de papagaios.
No Mangal das Garças.
No centro do parque fica o Farol de Belém, uma estrutura em ferro que podemos subir de elevador (por 5 reais) e desfrutar das melhores vistas sobre a cidade. Quando saímos do Mangal das Garças continuámos o nosso passeio pela Cidade Velha, visitando a Igreja do Carmo, a Praça D. Pedro II, a Catedral Metropolitana e o Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. A nossa visita a Belém estava chegando ao seu termo. À noite percorremos, de carro, uma vez mais algumas das ruas de Belém, já em jeito de despedida. No dia seguinte, o sexto em Belém, saímos cedo para percorrermos de novo a BR 316, agora no sentido inverso, em direção a Timon. Ao fim e ao cabo, limitámos a nossa visita à cidade propriamente dita, não saímos de Belém, não visitámos nenhuma ilha, não fomos a Marajó nem a nenhuma praia, mas, dentro do tempo limitado, conhecemos locais e pessoas bastante interessantes da cidade. No entanto, queremos fazer nova visita para visitarmos os locais referidos e, eventualmente, outros, até porque, sem dúvida, há algo que podemos desde já dizer: O Pará é um estado fantástico, por isso, sim, voltaremos.
Uma das vistas do topo do Farol de Belém.
A saída de Belém por estrada está muito condicionada devido a obras. Os primeiros 30, 40 quilómetros são extremamente lentos, pelo que se recomenda sair o mais cedo possível. Não foi o nosso caso, e por isso apanhámos muito trânsito. Almoçámos em Santa Luzia do Pará num restaurante familiar, pequeno, mas com comida boa. Fica do lado esquerdo da estrada. Mais uma vez, pernoitamos em Zé Doca, na Pousada do Farol, aonde chegámos por volta das 4 da tarde. Este alojamento tem quartos razoavelmente confortáveis, com ar condicionado, serve café da manhã aceitável e não cobra caro: 260 reais para os cinco (um quarto de casal e um quarto para 3 pessoas). No domingo, 22 de outubro, completámos a nossa viagem a Belém, e volta, chegando a Timon por volta das 14 horas, depois do almoço em Peritoró, no Espetinho do Paraibano. Tínhamos percorrido, no total, cerca de 2.000 quilómetros de carro. Valeu!
Renata e Daniel interpretando uma canção tradicional.
Alte é uma aldeia inserida no concelho de Loulé, em pleno coração do Algarve. É considerada, com justiça, uma ilustre representante das aldeias tradicionais portuguesas, com casas brancas de chaminés trabalhadas, ruas floridas, uma bela igreja matriz, e o alvo casario cravado na colina ocre e verde, dentro de uma paisagem tipicamente mediterrânica.
Alte sempre teve uma atividade cultural própria, destacando-se o artesanato local, a música e dança (com os 75 anos de atividade do Rancho Folclórico da Casa do Povo), e atividades desportivas ao ar livre, como o percursos pedestres e ciclismo.
Por tudo isto, e muito mais, vale a pena visitar Alte. E o “muito mais” é mesmo muito: estamos a pensar, por exemplo, em dois ateliês na praça central da aldeia, frente-a-frente, tão bem localizados que é impossível não os encontrar. Um pertence a Daniel Vieira e o outro a Renata Pawelec. Daniel é natural de Alte, Renata é polaca, e ambos são artistas plásticos e músicos.
Renata Violetta interpretando um fado clássico.
Assim, para lá de se inteirar dos trabalhos plásticos destes artistas, o visitante pode ter a sorte de assistir a um intimista espetáculo musical dentro do próprio ateliê de Renata. Apaixonada pelo fado, após uma noite passada no Clube de Fado, em Lisboa, ela passou desde aí a cantá-lo, lutando por ultrapassar o sotaque e conseguindo chegar a várias finais de concursos dedicados à arte fadista. A voz de Renata é doce, harmoniosa e intimista e ela sabe colocá-la na perfeição, tal como tivemos a sorte de constatar aquando da nossa última passagem por esta tradicional aldeia algarvia.
Além da parceria artística, uma amizade quase tangível liga Daniel e Renata. Também isto, para lá das pinturas e das músicas, nos tocou.
Voltaremos.
Jamais esqueceremos esta passagem por Alte. Nesta foto estão, da esquerda para a direita, uma polaca, dois portugueses e três brasileiros.
Este artigo, além de servir o nosso desejo de registar a viagem que fizemos pelas Pequenas Antilhas, no Caribe Oriental, pretende ser também um guia orientador para quem queira fazer um cruzeiro naquele que é, provavelmente, o destino turístico mais popular do planeta para este modo de viajem. Ele será tanto mais útil quanto mais próximo do nosso for o conceito de viagem (em cruzeiro) do leitor. Devemos dizer que fizemos já mais de doze cruzeiros e que, naturalmente, o nosso conceito de viagem em navio de cruzeiro foi-se alterando com o tempo. Não nos interessa tanto usufruir das mordomias do navio, mas muito mais conhecer os locais onde o navio aporta com o máximo de profundidade que conseguirmos. Claro que isto depende muito do itinerário. Se o navio passar muitos dias no mar, sem paragens, então aí não teremos alternativa à fruição no navio. Já fizemos algumas viagens assim, mas esta, de 15 dias, com apenas dois deles a navegar, não se enquadrava nesse tipo. O que nós queríamos ao reservarmos este cruzeiro era prioritariamente conhecer as 10 ilhas do itinerário.
Maho Beach, em São Martinho.
Como temos disponibilidade para viajar quando quisermos, pudemos conjugar os voos com as datas de início e de fim do cruzeiro mais favoráveis, que, no caso vertente do MSC Seaside, ocorreria, de acordo com as opções disponíveis, em uma de três ilhas do itinerário: São Martinho, Guadalupe ou Martinica. Aproveitámos também para fazer a reserva num período em que a Logitravel estava a fazer um desconto de 5% nas viagens de cruzeiro. Claro que antes de optarmos por esta agência, analisámos os preços em outras agências, sobretudo as que já conhecemos por praticarem bons preços, nomeadamente a cruisedirect.com (uma companhia canadiana e americana que pratica preços muito competitivos), com a qual já contratámos outras viagens. Analisando tudo isto, chegámos à conclusão de que a melhor opção era a de viajarmos para São Martinho no dia 12 de março e regressarmos no dia 28. (Havia a opção de um cruzeiro mais curto, de apenas 7 dias, mas nós optámos pelo cruzeiro mais longo de 15 dias). O preço final do nosso cruzeiro para duas pessoas (já com todas as taxas, também as de hotelaria, incluídas) foi de €2.868,10. Os voos de ida e volta (Air France), igualmente para duas pessoas, ficaram em €1.194,30.
Depois destas despesas, calculámos gastar, durante a viagem propriamente dita, mais €800,00. Isto deveria incluir tudo: aluguer de carros, transporte de e para aeroportos, comida, bebidas, souvenirs, etc. Conseguimos cumprir o orçamento previamente estabelecido. Assim, após a compra do cruzeiro e das passagens aéreas, iniciámos a nossa pesquisa sobre aluguer de veículos. Como se verá de seguida, alugámos carro em 5 das 10 ilhas onde estivemos. Entretanto, durante este tempo todo (ainda antes de comprarmos o cruzeiro — o que fizemos com uma antecedência de mais de 3 meses do início da viagem — e depois de o termos feito) pesquisámos exaustivamente sobre as ilhas que iríamos visitar, para termos um ideia, o mais aproximada possível, dos pontos aonde queríamos ir durante a viagem propriamente dita. Tudo isto implica tempo. Como costumamos dizer, uma viagem tem três fases, todas elas importantes e, pelo menos para nós, prazerosas: a preparação da viagem, a viagem propriamente dita, o registo.
Ultrapassadas as duas primeiras fases, iniciamos agora a terceira — aquela que garante que uma viagem não acaba nunca!
Dias 1 e 2 — Saint Martin/ Sint Maarten
Mullet Bay Beach.
A nossa viagem começou bem. Saímos de casa ainda antes da meia-noite (poderíamos considerar, portanto, um dia 0), deixámos o carro com um amigo em Lisboa e apanhámos um uber para o aeroporto. Os voos de Lisboa (5:30) e de Paris (10:30) saíram a horas, apesar dos constrangimentos derivados da greve geral em França, face à nova lei do governo que passa a idade normal de reforma dos 62 para os 64 anos. Pois é. Estava a correr bem de mais, estávamos a andar depressa de mais. A nossa mala de porão não conseguiu acompanhar-nos no voo de Paris para St. Maarten, e isso atrapalhou o início do nosso cruzeiro. Só recuperámos a mala no final do 3º dia do cruzeiro, em St. Kitts e Nevis. Entretanto, tivemos de comprar alguma roupa e produtos de higiene pessoal, guardando os respetivos recibos para mais tarde sermos ressarcidos pela Air France. Esperemos.
À parte disso, e como nem tudo é mau, fomos brindados com um upgrade do camarote no navio, algo que compensou largamente o transtorno do transvio da bagagem. A nossa cabina prévia era a 9020, com vista de mar, mas sem varanda, e o novo camarote que nos atribuíram foi a 9071, não apenas com varanda, mas também com jacuzzi, um quarto enorme, com muita arrumação, e casa de banho com banheira, ou seja, um camarote da categoria Aurea. O rapaz da receção tivera razão ao dizer-nos para estarmos descansados que o novo aposento não era inferior ao previamente acordado.
Assim, os nossos dois primeiros em Saint Martin foram um pouco atribulados. Ficámos hospedados num excelente apartamento em Marigot, no lado francês da ilha, com vista para a marina, mas difícil de encontrar. Felizmente com a ajuda de alguns residentes locais lá chegámos. No primeiro dia, com a perda de tempo à espera e a reclamar (eram muitas pessoas em situação idêntica e o serviço lentíssimo) sobre a mala extraviada, só tivemos tempo para levantar o carro alugado, comer e dormir, mais nada.
Ffryes Beach, em Antígua.
No segundo dia, manhã cedo, iniciámos a nossa visita à ilha. Fomos a Oriente Beach, Mullet Bay Beach e Maho Beach — a célebre praia onde os aviões rasam as nossas cabeças. A parte da tarde foi perdida, pois fomos de novo ao aeroporto na esperança (vã) de que a mala chegasse, depois tivemos de entregar o carro e logo de seguida seguir para o navio para fazermos o check-in. O upgrade da cabina, já relatado foi a agradável surpresa do final do dia. Interrogámo-nos sobre isto, porquê nós, aventamos várias hipóteses que não vamos expor aqui porque são especulativas e o facto é que não sabemos, não procurámos saber — decidimos, tão-só, fruir.
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Dia 3 — Antígua
Em Antígua também alugámos carro. A primeira coisa que se faz quando se sai do navio é ir levantá-lo. Talvez seja importante fazer aqui um parêntesis para dizer o seguinte. Na maioria das Pequenas Antilhas (excluindo as francesas, holandesas, britânicas e americanas, mas, até certo ponto, mesmo nestas) a informação nas estradas, quanto a direções a tomar, é escassa ou nula. Assim, é absolutamente necessário gravar os mapas das ilhas no Google Maps e depois, nos locais, inscrever os nomes dos pontos aonde queremos ir — o Google Maps indicará o trajeto no telemóvel, mesmo offline. Ter os dados móveis ligados nos países fora da Europa custa os olhos da cara!
Em Antígua e Barbuda circula-se pela esquerda. É interessante constatar que conduzir pelo lado contrário da estrada só representa uma verdadeira dificuldade da primeira vez. É um pouco como nadar ou andar de bicicleta: depois da primeira vez, podem passar anos, adaptamo-nos com relativa facilidade. Dado que já tínhamos conduzido pela esquerda, foi o que aconteceu connosco.
O nosso percurso em Antígua. Com todas as paragens, fizemo-lo numas seis horas.
Saímos da capital em direção a Hermitage Bay, deixando, uns 15 minutos depois, a estrada principal para percorrermos uma estrada secundária de terra batida de vários quilómetros, até à grande baía. A praia de águas claras é bonita. Tomámos banho e usufruímos do local durante uns 45 minutos. De volta à estrada, rumámos a Ffryes Beach, mais uma (dizem que Antígua tem 365 — uma para cada dia do ano) praia lindíssima onde aproveitámos para descansar, refrescar e tirar algumas fotos. As praias seguintes foram as Turners Beach (onde banhámos) e a Morris Bay. Era nossa intenção seguirmos até Shirley Heights, e desfrutarmos da vista privilegiada para English Harbour, mas, ao subirmos a colina, deparámos com um posto de controlo onde nos disseram que estávamos a entrar num parque natural e que teríamos de pagar 15USD por pessoa. Decidimos não o fazer e voltámos para trás. Tínhamos ainda que comprar roupa e procurar um sítio com internet para ver se tínhamos notícias da Air France, pelo que entregámos o carro mais cedo que o previsto. Mesmo assim corremos um espaço geográfico que corresponde a cerca de um terço desta pequena ilha; o dia valeu a pena e gostámos imenso das praias de Antígua.
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Dia 4 — St. Kitts and Nevis
St. Kitts é, aparentemente, a ilha menos atrativa das que visitámos nesta viagem. As três praias mais conhecidas são todas a sul da capital, Basseterre. Tudo nesta cidade está virado para o turismo e não há como escapar (a menos que se queira ficar por ali sem fazer nada) aos transportadores locais que levam os cruzeiristas, em grupos que podem chegar às 20 pessoas e talvez mais, até Cockleshell Beach por 20USD cada, ida e volta (o mesmo montante é aceite em euros), marcando um horário consensual para o regresso à cidade. No nosso caso, ficámos cerca de 4 horas na praia, um tempo exagerado, mas, na verdade, também não tínhamos mais nada para fazer. Lêramos anteriormente que a Turtle Beach — muito perto da Cockleshell — era muito bonita, com areia cor-de-rosa, pelo que pedimos ao motorista para aí nos deixar, que depois seguiríamos a pé para Cockleshell. Apesar dos avisos de que a praia estava impraticável, insistimos em ficar. De facto, a praia todinha, água e areia, estava inundada por algas e limos, e era completamente impossível ir a banhos. Estávamos sós na praia.
Cockleshell Beach.
Finalmente em Cockleshell, uma bonita praia em frente à ilha de Nevis, podemos banhar-nos à vontade. A outra praia ainda não referida do trio das melhores praias do sul é Frigate Bay. O motorista do minibus, Melrose Cooper, era um personagem interessante. Disse-nos que antes de Colombo (supostamente o descobridor da ilha) já tinham estado em St. Kitts portugueses, franceses e britânicos, o que é comprovado por alguns artefatos e objetos encontrados perto de Basseterre. Cooper disse-nos que uma das suas avós era portuguesa e que na povoação onde vive, no norte da ilha, há uma pequena comunidade portuguesa. Ele também nos disse que o governo de St. Kitts and Nevis está a apostar fortemente no turismo, vendendo terrenos para grandes empreendimentos estrangeiros. Mostrou-nos várias casas que podem atingir os 5 milhões USD. St. Kitts pareceu-nos também a ilha mais pobre, pois ainda não aproveitou todo o potencial turístico, e a agricultura pareceu-nos incipiente, com terrenos mais áridos do que os das ilhas circundantes (apesar de, enquanto colónia britânica, St Kitts — até ao século XIX separada de Nevis — ter sido a mais rica per capita do Caribe, graças ao cultivo da cana-de-açúcar).
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Dia 5 — Dominica
Dominica é uma ilha fantástica. Verde, montanhosa — com uma pérola escondida: uma das praias mais bonitas do mundo — Dominica foi a última ilha das Caraíbas a ser colonizada, face à feroz resistência dos nativos caribenhos. Foi igualmente a última ilha a formar-se no Caribe, há cerca de 26 milhões de anos, e está situada a meio do arco das ilhas vulcânicas das Pequenas Antilhas, que se estende desde a ilha de Saba, no norte, até Grenada, a sul. Dos 16 vulcões incluídos neste arco, 5 estão em Dominica. Esta é, portanto, uma ilha explosiva e, a condizer com a natureza em geral, as pessoas são igualmente fantásticas. Aqui o turista é tratado como outra pessoa qualquer, com simpatia mas sem subserviência, e ninguém tenta tirar partido, aumentando preços, esperando gratificações ou aproveitando-se de alguma desatenção. Sentimo-nos completamente seguros em Dominica, tal como nas outras ilhas que visitámos.
A caminho de Calibishie.
Quisemos reservar previamente uma viatura para nos deslocarmos a Batibou Beach (a tal pérola escondida), que fica no norte da ilha, a cerca de 70 quilómetros do terminal de cruzeiros, mas isso não foi possível porque as principais agências de aluguer de automóveis ficam na zona do aeroporto, precisamente no nordeste, e as agências perto de Rouseau já não tinham viaturas disponíveis. Decidimos ir pelos meios locais, ou seja, numa das vans que saem da cidade, bem perto da saída do terminal de cruzeiros. Mas antes tivemos de ir a um banco trocar dinheiro (50 EUR deu 129XCD) pois não conseguimos levantar dólares caribenhos nos ATM, não sei porquê (o mesmo aconteceu em Santa Lúcia). Tivemos de ir para uma fila e demorou quase uma hora até que conseguíssemos cambiar os €50. Se se quiser andar sempre em lugares turísticos não vamos provavelmente precisar de cambiar euros, mas temos de fazê-lo se quisermos usar os transportes locais. De qualquer forma, estes 129XCD chegaram até ao fim da viagem: usámo-los ainda em Santa Lúcia, Grenada e São Vicente e Granadinas.
Descida para Batibou.
Já passava bastante das 10 da manhã quando saímos do banco e a nossa viagem começava a ficar em risco. Mesmo assim decidimos arriscar, e fomos. A nossa meta era Calibishie, bem no norte da ilha, a cerca de 3,5 kms da praia de Batibou. Há duas formas de chegar a Calibishie: pela costa oeste, via Portsmouth, ou pelo centro da ilha, sempre por estradas apertadas e sinuosas (Dominica é a ilha mais montanhosa das Pequenas Antilhas), e um troço final pela costa leste. Se se for pela costa oeste pode pedir-se ao motorista para parar no ponto da estrada onde fica a entrada para Batibou, pois esta praia fica antes de Calibishie quando se vai por Portsmouth: neste caso basta descer o caminho de terra batida até a praia — uns 15 minutos a pé. Se, pelo contrário, se for pela estrada do centro/leste temos de sair em Calibishie e fazer o resto do percurso a pé (dá para apanhar uma van que vá para Portsmouth, mas nós não quisemos esperar e fomos a pé) — os tais (acidentados) 3,5 kms. Somos bons caminhantes, pelo que isso não constituiu problema.
A praia de Batibou fica numa propriedade privada e existem seguranças que controlam as entradas e cobram 5 USD por cabeça. Em contrapartida oferecem instalações sanitárias, bancos e mesas de madeira à sombra, e um bar/restaurante igualmente em madeira (perfeitamente integrado no ambiente circundante) que, ouvimos dizer, tem à frente uma excelente cozinheira — mas que, infelizmente, estava fechado. Mal chegámos à praia percebemos que estávamos num lugar incomparável, de singularidade e exclusividade invulgares. Além de dois seguranças, só estavam na praia, quando chegámos, um casal e um guia que ali o tinha transportado. A praia era praticamente só para nós. Rodeada por uma imensidade de coqueiros e outras plantas e árvores, com águas transparentes e calmas, esta baía é, de facto, maravilhosa. O relógio marcava a primeira hora da tarde quando viemos embora. A nossa ideia era a de regressarmos a Rouseau via Portsmouth para não termos de fazer mais uma caminhada até Calibishie e também porque a viagem é mais rápida pela costa oeste. Por sorte, mal tínhamos acabado de chegar à estrada asfaltada passou uma van em direção a Portsmouth que parou ao nosso sinal. Chegados a Portsmouth, mal tínhamos posto os pés no chão já estava alguém a perguntar se íamos para Rouseau (e outro alguém a perguntar se queríamos weed), pelo que também não esperámos tempo nenhum para seguir viagem (embora as vans só partam quando estão cheias, nos pontos principais enchem depressa).
Já no paraíso.
As viagens são pagas no final, quando saímos pagamos ao motorista ou ao ajudante deste. Muitas vezes temos de levantar-nos para outros passageiros saírem e é comum transportar-se todo o tipo de mercadorias debaixo dos bancos e, por vezes, ter de retirá-las e voltar a colocá-las, consoante as necessidades. Alguns motoristas circulam a velocidades incríveis, tendo em conta as condições das estradas, sobretudo as frequentes curvas fechadas (apesar de tudo as estradas não estão tão más como seria de supor, após a grande devastação provocada pelo furacão Maria em setembro de 2017). Seja como for, adorámos viajar de van em Dominica. De Rouseau a Calibishie pagámos 12,5 XCD cada; de Batibou a Portsmouth, 8 XCD; e de Portsmouth a Rouseau, 10 XCD.
Uma vez que ainda chegámos cedo, fomos dar uma volta pela cidade. Comprámos duas garrafas de bebidas frescas a um vendedor de rua: uma de água de coco e outra de sumo de tamarindo. Ambas estavam deliciosas. Fomos ao navio comer qualquer coisa, mas decidimos regressar à cidade e procurar o rapaz das bebidas. Desta feita comprámos um sumo de goiaba para a Fla e outro de um fruto de que não recordo o nome (mas era vermelho), que continha também gengibre. Estavam, de novo, deliciosos. Terminámos a nossa visita a Dominica deambulando pelas ruas de Rouseau, cheias de vendedores ambulantes, música caribenha, casa típicas, fumo de maconha, gente simpática e muitos movimento e alegria.
O nosso percurso nas vans locais em Dominica — Rouseu-Calibishie-Portsmouth-Rouseau, em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.
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Dia 6 — Martinica
Quando chegámos a Fort de France o dia estava cinzento e chuvoso. Nesta ilha também alugámos um carro, pelo que a primeira coisa que fizemos foi procurar a pessoa que no-lo veio trazer à saída do terminal de cruzeiros. A agência com quem contratámos (Twenté) em Martinica trabalha bem, já tínhamos tratado das principais formalidades previamente pela internet, e assim o levantamento do carro (como posteriormente a entrega) foi rápida. Devidamente instalados na viatura, dirigimo-nos para sul, ao encontro da primeira praia que havíamos selecionado — Anse Mitan. O tempo continuava chuvoso e fechado, e talvez por isso não achámos na praia nada de especial, tirámos duas fotos, e viemos embora.
Continuámos a descer até encontrarmos o desvio para a Anse Noire, uma belíssima praia de areia negra, encravada entre duas colinas, lá no fundo, acessível após pisarmos 130 degraus. Vale a pena. Mesmo a chover a praia pareceu-nos lindíssima, pena que não estivessem as melhores condições meteorológicas para mergulharmos nas suas águas. Quando vínhamos a meio da subida dos 130 degraus começou a chover mais intensamente, pelo que tivemos de correr para o carro para nos abrigarmos.
Anse Noire.
Seguimos viagem, sempre para sul, até ao Memorial aos Escravos de Anse Cafard, um conjunto de estátuas evocando a escravatura negra, da autoria de Laurent Valère, um artista local. Gostámos bastante deste trabalho realizado em frente a um rochedo no mar que, devido à sua forma, lhe deram o nome de Le Diamand. A zona costeira em frente ao rochedo ganhou o mesmo nome.
Tendo já atingido o sul da ilha, contornámo-la para leste, em direção à nossa próxima paragem — Anse Figuier. Nesta altura já o tempo tinha melhorado bastante e o sol brilhava lá no alto, tornando tudo mais vivo, colorido e alegre: as nuvens mais brancas, o céu mais azul, as águas mais turquesas. Anse Figuier é uma praia familiar, com uma zona arborizada onde as pessoas almoçam, fazem churrascos, enquanto as crianças brincam nas águas tranquilas, quase paradas. A praia é linda de verdade e ali ficámos algum tempo a apreciá-la. Continuando viagem, passámos por Sainte Anne, uma belíssima vila marítima, até atingirmos aquela que dizem ser a praia mais badalada de Martinica — a bela Grand Anse des Salines.
Grand Anse des Salines.
Esta praia é bastante grande, no seio de uma larga baía, e é, de facto, bonita. Banhámo-nos, passeámos, comprámos umas tiras de coco e uns bolinhos de frango, para enganar a fome, a uma vendedora de rua, e viemos embora. Finalmente, fomos ainda à ponta sudeste da ilha, a uma praia chamada Anse Michel, mas foi uma desilusão. Tal como acontecera em Turtle Beach (em St. Kitts), a praia estava cheia de algas e limos, cheirava mal, pelo que demos de imediato meia-volta.
Regressámos diretamente ao terminal de cruzeiros, ainda a tempo de almoçar (há almoço até as 4 da tarde). Depois descansámos um pouco e saímos de novo com intenção de irmos a Saint Pierre, metermos gasolina e entregarmos o carro, mas, face ao trânsito, verificámos que não tínhamos tempo para isso, pelo que fomos apenas até uma praia que fica 10 quilómetros a norte de Forte de France para vermos o pôr do sol. Devolvemos o carro no terminal às 19 horas e fomos para o navio já de noite.
O nosso percurso de carro em Martinica.
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Dia 7 — Guadalupe
O primeiro dia em Guadalupe não foi nada de especial. Tínhamos planeado ir à ilha Terre de Hault, mas sabíamos que era muito apertado dado que o navio chegava às 8:00 e o ferry para Terre de Hault partia às 8:30. Às 8:00 já estávamos junto ao portaló, mas logo por azar o desembarque atrasou uns 15 minutos. Ainda corremos (o terminal do ferry dista uns 800 metros do terminal de cruzeiros) mas, claro, já não deu, faltavam 2 minutos para o barco partir e as portas já estavam fechadas. Aos domingos os transportes públicos de Guadalupe praticamente não funcionam. Na paragem de autocarros, aonde nos deslocámos na esperança de apanharmos um para a zona das praias, estava um casal francês e a mulher disse-nos que a tinham informado de que havia autocarro. Mas não passava nenhum. Esta senhora, já de certa idade, começou, expedita, a pedir boleia. E quando, quase de imediato, um carro parou, disse à motorista que ia para Goisier e que a boleia era para quatro! E lá fomos para Goisier.
Ilet Goisier.
O casal francês ficou antes, mas a condutora fez questão que nós seguíssemos mais um pouco, porque lhe dissemos que íamos apanhar o barco para a Ilet de Goisier e, segundo ela, o ponto mais próximo era mais além e ela queria deixar-nos o mais perto possível do barco. Para cúmulo quis dar-nos o seu número de telefone para lhe ligarmos quando quiséssemos regressar a Pointe-a-Pitre, que ela nos transportaria de volta. Agradecemos muito, mas dissemos que era de mais, que iríamos pelos nossos meios. E, assim, rapidamente apanhámos o barco para a Ilet Goisier, uma pequena ilha a uns 800 metros da praia de Goisier, a qual, estava bastante suja com limos.
Talvez seja altura de referir que, além das praias já mencionadas inundadas com limos ou algas, vimos outras onde ocorria o mesmo fenómeno e vimos também muitas zonas de limos ou algas no mar das Caraíbas enquanto o navio navegava. Pensando sobre isto, parece-me que este fenómeno está relacionado com a temperatura das águas, que aqui é relativamente elevada, e com as correntes que posteriormente levam a vegetação para as praias.
Painel em Pointe-a-Pitre.
No ilhéu a água estava radiante, tomámos banho e por ali ficámos cerca de hora e meia. O percurso de barco — ida e volta — custa 5 euros por pessoa. E lá fizemos mais uma grande caminhada de 7,5 quilómetros até à capital, sob um sol inclemente, para regressarmos ao navio. Já tinha dito que somos bons caminhantes.
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Dia 8 — Santa Lúcia
Em Santa Lúcia já tínhamos carro reservado. Tal como acontecera em Antígua, foi necessário pagar 20USD (ou 20EUR — é sempre possível a equivalência) para termos uma licença de condução local, uma forma clara de sacarem mais dinheiro ao turista. É sempre necessário apresentar um cartão de crédito para que as agências retirem uma caução provisória (em Santa Lúcia foram 1.150 USD) como precaução para qualquer eventualidade. Arrumada a papelada e a inspeção ao veículo — o que sempre gasta uma preciosa meia hora — lá partimos para a nossa aventura em Santa Lúcia. Rumo a sul.
Anse Chastanet.
A primeira paragem foi em Marigot Bay. Apreciámos a baía, tirámos algumas fotos e seguimos viagem por Anse La Raye e Canaries, até a pitoresca cidade de Soufrière, antecâmara da região das Pitons. Aqui fizemos um pequeno desvio para visitarmos a Anse Chastanet Beach, através de uma pequena estrada litoral muito difícil, esburacada, estreita, cheia de pedras soltas, que transpusemos, durante uns 2 quilómetros, a passo de caracol. A praia é bonita, parte dela pertence a um resort privado de luxo, mas o tempo chuvoso não ajudou. Durante todo o tempo em que permanecemos em Santa Lúcia, o tempo alternou entre chuvadas fortes, aguaceiros rápidos, e boas abertas. Percorrida a estrada difícil de volta a Soufrière, com extremo cuidado para não danificarmos o carro, seguimos viagem em direção a Sugar Beach, já na região das Pitons. Tivemos de subir uma longa colina até atingirmos um ponto em que é sempre a descer até à praia. Para aqui chegarmos temos de passar pelas instalações do hotel Viceroi (dizem que há um caminho alternativo, mas nós não o vimos) que é, em suma, todo o espaço visível desde o pórtico da entrada até à praia. A distância entre um e outra é considerável, tal como o declive.
Passámos uma primeira cancela onde o guarda nos avisa que, antes da segunda cancela, devemos virar à direita e estacionar o carro no pequeno parque que logo se encontra poucos metros à frente. Depois, tivemos de continuar a pé. O espaço está muito bem organizado, com belos relvados, arbustos, plantas e flores arranjados, estrada bem asfaltada. A praia é, de facto, bonita, mas os equipamentos para satisfação dos turistas — cadeiras, toldos, boias, pontões, kayaks, veleiros, barcos a motor, funcionários, hotel, restaurante e até uma rede, onde quem quiser se pode deitar sobre a água a ler um livro, por exemplo — roubam-lhe, sem dúvida, alguma beleza que ela, por si só, seguramente teria.
Sugar Beach.
Em compensação, a água nesta praia é de uma transparência dificilmente igualável, e não é por acaso que muitos amantes do mergulho vêm de propósito a Sugar Beach. A maioria das praias em Santa Lúcia é de areia negra, de origem vulcânica, mas Sugar Beach tem areia branca, importada da Guiana: nada mais nada menos que 7.500 toneladas.
Depois do banho da praxe não nos sobrou tempo para muito mais. Tínhamos planeado ir até ao extremo sul da ilha, mas verificámos que não dava tempo. Decidimos regressar a Castries e aí avaliar se ainda poderíamos ir até Reduit Beach, uma grande praia de 8 kms, um pouco a norte da cidade. Tivemos de fazer todo o caminho de volta subindo e descendo várias montanhas e enfrentando por vezes chuva intensa, o que nos obrigou a refrear a velocidade. Chegados a Castries, quisemos ir a Reduit Beach (ainda tínhamos duas horas até entregarmos o carro) mas uns poucos quilómetros depois apanhámos tanto trânsito, com longas filas, que decidimos voltar. Assim, não conseguimos fazer tudo o que planeáramos, por falta de tempo, mas fizemos o principal. Para compensar, ligámos o jacuzzi na varanda do nosso quarto — e saímos de Santa Lúcia relaxando, enquanto o sol pousava no Mar das Caraíbas.
O nosso percurso em Santa Lúcia.
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Dia 9 — Barbados
Eu tinha dito que somos bons caminhantes? Mentira, nós somos grandes caminhantes! Hoje fizemos, a pé, 20,890 quilómetros. De manhã fomos para sul do terminal de cruzeiros, e à tarde fomos ver o pôr-do-sol (e banhar-nos) a Brandons Beach, a norte. Começámos, então, de manhã bem cedo, a nossa caminhada até Carlisle Bay. São três, as praias (de facto, é um areal contínuo mas os habitantes locais decidiram atribuir-lhe várias designações — como acontece, por exemplo, nas praias da Costa da Caparica até à Fonte da Telha), calmas, abrigadas, contidas na larga baía: Bayshore Beach, Pebbles Beach e Brownes Beach. No entanto, não parámos por aqui. No final da Brownes Beach há um passadiço de madeira sobre a praia — The Richard Haynes Boardwalk — que segue até Accra Beach, uma linda praia já com alguma ondulação suave, ótima para “jacarés”. Foi aqui que decidimos tomar um banho revigorante, após a primeira caminhada de 6,6 quilómetros. Decorrido o merecido descanso, voltámos a percorrer, agora em sentido contrário, o Richard Haynes Boardwalk, aproveitando para apreciar as muitas obras ali expostas — pinturas e fotografias de diversos autores, todas em grandes quadrados de igual formato, portanto, altamente “instagramáveis”. Bem pensado — e, de facto, há ali obras de inegável valor!
Carlisle Bay.
Toda a costa sudoeste de Barbados está impregnada de praias, algumas pequeninas, protegidas, sem qualquer tipo de ondulação. Uma delas, inserida numa zona que é Património Mundial da Unesco, é Sugar Beach, uma praia ideal para quem gosta de estar numa enorme “piscina” de água salgada. Pouco tempo depois estávamos de novo em Carlisle Bay, e a tomar banho em Pebbles Beach. Para recuperarmos as energias necessárias ao resto da viagem, a Fla tomou uma água de coco e eu bebi uma limonada, que comprámos num quiosque pelo preço de 5 dólares de Barbados cada. A forma de conseguirmos dólares de Barbados foi a seguinte. Quando saímos do navio após a chegada a Barbados, passámos pelo terminal e deparámo-nos com várias bancas de vendedores locais (sempre há lojas e bancas de vendedores locais nos terminais de cruzeiros); dirigimo-nos a uma delas e perguntei à vendedora quanto custava um boné de Barbados, ao que ela respondeu “10 USD” (já se sabe que dólares americanos ou euros por estas bandas são a mesma coisa), eu disse-lhe que dava 20 euros e queria receber o troco em dólares de Barbados (BBD). A senhora disse que não podia fazer isso, que não estava autorizada a cambiar dinheiro, e eu calmamente retorqui que “tudo bem”, então ia comprar noutro lado. A senhora então concordou em dar-me os 10 euros de troco em moeda local. É sempre bom ter alguma moeda local para podermos andar nos transportes públicos e também para comprarmos água engarrafada que, no navio, custa uma exorbitância.
Brandons Beach.
Depois de refrescados por dentro e por fora regressámos a Bridgtown e ao navio, protegidos do sol, com toalhas finas a cobrir-nos a cabeça , o pescoço e os membros superiores, que o astro-rei, aqui, não é para brincadeiras. Almoçámos e descansámos. Ao final do dia, como já referimos, fomos banhar-nos e ver o pôr-do-sol a Brandons Beach. Ao longo da praia sentia-se o cheiro a maconha. Passámos perto de duas moças que fumavam um charro e dissemos-lhe que cheirava bem. Elas riram bastante. Quando saíamos da praia começo a chover. Abrigámo-nos debaixo das árvores e a Fla reconheceu um pé de tamarindo.
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Dia 10 — Navegando
Acordámos e tomámos o pequeno almoço.
Depois procurámos um local sossegado (para dar tempo ao camareiro de limpar o quarto) onde comecei este relato da viagem e a Fla leu o seu livro.
Viemos deixar as coisas ao quarto e fomos almoçar.
Almoçámos.
A Fla fez uma sesta e eu continuei o meu relato.
Ao fim da tarde fomos para o nosso jacuzzi privado.
Relaxando a bordo.
É de referir que as ilhas das Pequenas Antilhas ficam todas perto umas das outras. Então o navio não passa de uma ilha para outra ilha logo a seguir — o navio salta ilhas e anda para baixo e para cima a uma velocidade muito baixa, poupando muito em combustível. Para passar um dia no mar (o que convém para que as pessoas façam mais gastos a bordo) é necessário dar voltas grandes, contornando ilhas mais distantes, e andar a passo de caracol. Neste dia, para irmos de Barbados a Grenada, contornámos as ilhas de Martinica e Santa Lúcia, completamente fora de rota.
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Dia 11 — Granada
Tínhamos programado ir às duas praias mais conhecidas de Grenada, quase ao lado uma da outra: Grand Anse e BBC Beach. E assim aconteceu. Mesmo ao lado do terminal de cruzeiros (os passageiros forçosamente têm de passar por um funcionário que os encaminha para o local certo) há um pequeno pontão onde atracam os táxis marítimos que nos levam diretamente à Grand Anse. Cada bilhete — ida e volta — custa 10 euros (ou 10 USD) mas nós não queríamos voltar no “water taxi”, por isso só pagámos 5 euros cada. O pontão de desembarque na Grand Anse fica na extremidade mais próxima, mas a praia é grande e para chegar à outra ponta tem de se andar bastante. Foi o que fizemos, devagarinho, pela borda d’água. Era relativamente cedo, havia pouca gente e o sol ainda não incomodava, pelo que pudemos apreciar com calma o trajeto. A praia é, de facto, linda, merece a fama que tem de ser uma das mais bonitas do Caribe.
Saint George.
No fim da praia há uma escadaria que segue até à estrada asfaltada. Depois é só subir um pequeno troço (talvez uns 150 metros) até encontrarmos um caminho à direita, que conduz à BBC Beach. Esta praia é muito mais pequena que a Grand Anse e não é tão frequentada, mas é igualmente muito boa para banhos. Pudemos comprová-lo, nadando à-vontade na baía protegida sem que sentíssemos alguma dificuldade provocada por ondulação ou corrente. Algum tempo depois, fizemos o caminho inverso. Na Grand Anse há um espaço comercial com wifi aberto e a estrada que leva a Saint George é mesmo ali. Decidimos procurar uma paragem de van, o que foi muito fácil. Na paragem estava um senhor que nos informou logo que deveríamos pagar 2,5 XCD por pessoa, e nada mais, pela passagem até Saint George. Disse-nos que era taxista e que podíamos ir tomar uma cervejinha mais barata ao bar dos taxistas que fica à saída do terminal de cruzeiros. Era facilmente alcançável, bastava estar atento aos homens de polos azuis que sempre estavam reunidos por lá. Perguntei-lhe se ele era natural de Grenada e como era viver ali e ele respondeu “homem, isto é o paraíso!”
Grand Anse.
No meio da conversa apareceu uma van e ele próprio mandou o motorista parar e ao ajudante (o motorista tem sempre um ajudante que colabora na acomodação de pessoas e mercadorias, e também pode receber o dinheiro das passagens) que seguíamos para Saint George. Saímos uma paragem antes do centro para podermos andar mais um pouco pela cidade. As pessoas aqui — em todas as ilhas, mas notámos isso mais em Dominica, Grenada e Saint Vincent — são de uma amabilidade extraordinária. Se, por exemplo, perguntarmos a alguém onde fica determinado lugar, a pessoa vai dizer-nos, suponhamos, para virarmos mais à frente à esquerda, mas vai posicionar-se de forma a verificar se realmente viramos no sítio certo. Se não o fizermos, ela gesticulará, ou gritará, se não estivermos a olhar, até se certificar que, de facto, tomámos o caminho adequado. Se, por exemplo, desejarmos “bom dia” a uma pessoa na rua, ela não se limitará a retribuir, vai querer saber como estamos hoje, como está a ser o nosso dia, se estamos a gostar do passeio, etc.
Depois do almoço no navio, saímos de novo para mais uma volta por Saint George. No porto de pesca subi para a amurada de uma embarcação de pesca que estava acostada e pedi à Fla para me tirar uma foto. Esta demorou um pouco, pois estava a falar com uma moças que passavam por ali e, entretanto, imperceptivelmente, o barco começou a afastar-se do cais. Fiquei longe de mais para poder saltar para terra firme. A Fla puxou um dos cabos que amarrava o barco, mas este, teimosamente, não se aproximava da terra.. Pelo canto do olho eu via algumas pessoas num barco ao lado a observarem a cena. Foi quando um senhor vindo de lá veio ajudar a Fla e eu pude saltar para o cais. A Fla disse-lhe que ele era forte e ele respondeu “não, tu é que és forte!” Agradeci-lhe e ele disse, com um largo sorriso, que não havia problema, estava tudo bem. Junto ao mercado comprámos um coco; a Fla bebeu o suco e eu comi a polpa. Uma das coisas que adorámos em Dominica, Grenada e Saint Vincent foi termos andado nos transportes locais, juntos com a população. Tanto quanto nos apercebemos, mais ninguém no navio fez isto, mas para nós constituiu um enorme privilégio.
Saint George.
De acordo com a nossa experiência, é não só muito mais barato, mas também mais seguro e interessante, viajar nas vans locais do que nos táxis ou outro tipo de transporte similar. Vimos vários turistas a regatear preços com motoristas de táxis, mas isso nunca aconteceu connosco.
Grenada ficará nos nossos corações.
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Dia 12 — São Vicente e Granadinas
Já o tínhamos dito. São Vicente é outra ilha muito especial. Chegámos sob chuva intensa, tudo cinzento, mas já dera para perceber que por estas bandas nada é definitivo no que toca ao tempo: a chuva vai alternando com o tempo seco e o céu passa de cinzento a azul sem percebermos como. Foi o que aconteceu neste dia. Tomámos a van (primeiro, claro, temos sempre de conversar com as pessoas para saber onde ir, e há sempre alguém disposto a ajudar) em direção a Indian Bay sob forte chuvada e chegámos ao nosso destino com o sol a inundar tudo à nossa volta. Outro pormenor interessante sobre a amabilidade local fica patente no exemplo seguinte. Quando descemos na paragem, ficámos à espera que a van seguisse viagem para depois atravessarmos a estrada, mas o motorista não avançou, fez questão de que atravessássemos à sua frente, enquanto os motoristas dos carros em sentido contrário fizeram o mesmo. Isto aconteceu-nos mais vezes, sempre que tínhamos de atravessar a estrada: todos esperam para que sigamos em segurança.
Indian Bay.
Posto isto, descemos até Indian Bay, uma pequena baía pouco turística, quase deserta, talvez porque a praia tenha muitas rochas submersas, mas a água, essa, é de uma transparência invejável. Com algum cuidado e escolhendo um bom local é possível banharmo-nos, e foi o que fizemos. A distância desta praia até Villa Beach cobre-se com uma breve caminhada (uns 15 minutos) e esta sim, é uma praia turística, com muitos banhistas estrangeiros. Em frente, a uns 300 metros, fica uma pequena ilha — Young Island — e vários barqueiros levam e trazem turistas de volta por 5 USD/EUR. A praia da ilha é na sua maior parte privada, pertence a um resort, e ninguém nos avisa previamente, o que torna ainda mais desagradável ficar confinado a um canto da praia. Para nós isto não constituiu um problema porque não pretendíamos ficar estendidos numa toalha a estorricar, o nosso objetivo eram os banhos de mar, mais do que os de sol.
Young Island.
A água nesta praia é simplesmente deliciosa — transparente, calma, termicamente perfeita, e com uma textura sedosa, como se tivesse misturado um óleo natural hidratante. Banhámo-nos várias vezes e quando vimos os barqueiro na outra margem a embarcar mais passageiros para trazer para a ilha, preparámos as nossas coisas para irmos embora. Chegados à costa dirigimo-nos à estrada (que é logo ali) para tomarmos uma van para Kingstown, a capital de São Vicente, onde estava o navio. Por vezes há poucos lugares e temos de ficar separados nas vans, mas isso nunca foi problema nenhum. Uma das coisas em que reparei foi que a Fla podia ficar sentada apertadinha entre dois passageiros que estas jamais tentariam tirar proveito da situação. Não eram apenas a simpatia e a solidariedade que estavam presentes — o respeito também. A música é outro ingrediente sempre presente neste tipo de transporte. Música caribenha, suponho, com o volume sempre alto. A viagem custou-nos os mesmo 5 XCD da ida (para ambos).
Villa Beach.
Depois do almoço no navio — e como nós comíamos nestes almoços no navio depois das caminhadas da manhã! — voltámos a Kingstown para conhecermos melhor a cidade. Pessoal de todas as idades e géneros a enrolar e fumar charros é algo bastante comum nestas ilhas, mas mais ainda em São Vicente, onde nos pareceu particularmente generalizado. Perguntámos a um jovem polícia, que foi connosco para nos indicar o caminho para o mercado central, se o consumo da cannabis era livre e ele respondeu-nos que, fora dos edifícios públicos e dos transportes, sim, era livre. Este polícia não se limitou, afinal, a indicar-nos o caminho, ele fez questão de fazer connosco o caminho e, já com o mercado à vista, quis acompanhar-nos a uma das portas. Quando lhe agradecemos e perguntámos se podíamos tirar uma foto com ele, acedeu com um sorriso feliz e cativante.
Nestas ilhas há muitas crianças e algumas, vendo-nos com as câmaras, quiseram tirar fotos connosco. Quando havia adultos por perto perguntávamos se podíamos tirar fotos, mas nunca ninguém se opôs, ninguém tem problemas com isso. As crianças são naturalmente alegres e os adultos, que mais parecem crianças grandes, são alegres também. Não parece haver grande diferenciação social, embora haja com certeza — mas parece que ninguém liga muito a isso. As pessoa parecem viver bem com o pouco que têm e é da sua natureza serem felizes. Pelo caminho continuámos a sentir o cheiro intenso da maconha. Comprámos uma garrafa de água de coco a uma vendedora de rua (de manhã tínhamos comprado também duas garrafas de suco — uma de tamarindo e outra daquele fruto vermelho de que nunca lembro o nome — será beterraba? — com gengibre) e um pouco mais à frente, num local junto ao porto de pesca, onde há vários bares, deparámos com uma multidão — uns enrolando ou fumando charros, outros jogando às cartas ou ao dominó, outros bebendo cerveja, outros apenas observando, alguns dormitando, muitos gritando ou falando alto para se sobreporem à música — que se estendia ao longo do cais, com gente amontoada dentro e fora dos bares.
Jogo de dominó em Kingstown.
A algazarra era tanta que nos lembrámos do som das andorinhas quando chegam na primavera e se afadigam nas tarefas de arrumação das casas para mais uma temporada. Um chilrear intenso. Todos ficavam felizes quando reparavam em nós, pediam fotos, queriam que tomássemos uma cerveja, e uma moça que jogava dominó batendo com as pedras na mesa sorria-nos satisfeita por ter assistência estrangeira. E lá viemos para o navio, satisfeitos por mais uma jornada rica em calor — solar e humano. Um e outro mesclam-se em São Vicente de uma forma que nos deixou saudades ainda antes da partida.
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Dia 13 — Martinica
Já tínhamos estado em Martinica, pelo que desta feita decidimos ficar no navio durante grande parte do dia, a descansar. Saímos apenas às 4 da tarde, quando o sol descia mais veloz e o calor era mais suportável. Demos uma volta por Fort-de-France, batemos o centro da cidade, fotografámos alguns edifícios interessantes até que nos sentámos numa esplanada com wi-fi a tomar uma cerveja local e uma água.
Fla e Daniel.
Já mais para o fim da tarde fomos andando em direção ao mar, até uma zona com um parque e uma pequena praia onde os habitantes locais se reúnem aos fins de semana. Avistámos um pequeno grupo que participava de um casamento: os noivos e, provavelmente, uns 7 ou 8 convidados, Destes, dois ou três eram crianças. O mais pequeno era um rapaz dos seus 3 ou 4 anos, que se chama Daniel. Metemo-nos com ele e logo interagiu connosco, não parando de sorrir. Um dos convidados tinha uma câmara muito rudimentar, dessas pequeninas, tipo go-pro, e quando nos viu por ali pediu-me para fotografar o grupo todo. Acedi com prazer, corrigi um pouco o posicionamento por causa do sol que estava a pôr-se, e fiz várias fotografias com a pequena câmara deles. Entretanto, a Fla conversou com a mãe do Daniel e perguntou-lhe se ela queria que tirássemos fotos com as nossas câmaras e depois as remetêssemos para ela através do whatsapp. E assim tirámos várias fotos do casamento, mais um episódio inesperado que enriqueceu o nosso dia. Voltámos satisfeitos para o navio.
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Dia 14 — Guadalupe
Martinica e Guadalupe foram as duas únicas ilhas que repetimos neste cruzeiro. No primeiro dia em Guadalupe, tal como já dissemos, não conseguimos apanhar o ferry que pretendíamos, e desta feita também não. No entanto, já no primeiro dia (que também foi um domingo) tínhamos reparado que junto ao terminal de ferrys há um parque com viaturas de aluguer e vários contentores que servem de escritórios para as respetivas agências. Assim, neste dia, partimos logo para o plano B e alugámos um carro (um Kia Pikanto) por 42€. A ilha de Guadalupe, em forma de borboleta (a Fla diz que lhe lembra uns pulmões), são na realidade duas ilhas, separadas por um estreito canal: Basse-Terre e Grand-Terre. Nós andámos pelas ruas e, provavelmente, fomos às melhores praias de ambas.
La Caravelle.
De manhã fomos à bonita praia La Caravelle, em Grand-Terre, e depois, ainda nesta ilha, visitámos as praias de Souffleur, em Port-Louis (muito movimentada), onde a Fla comprou uma garrafa de água de coco muito barata, apenas 2€, e a praia de La Chapelle, na Anse-Bertrand. Da parte da tarde fomos a Basse-Terre, onde visitámos Sainte-Rose, Deshaies e a magnífica praia de Grand Anse, grande realmente, bonita e muito frequentada. Foi bastante difícil estacionar, tivemos de deixar o carro bem longe e, por causa disso, não chegámos a banhar-nos nesta praia, apenas tirámos fotos, tivemos algum receio em demorar-nos porque o carro estava mal estacionado. Isto não nos incomodou minimamente, pois banhos foi algo que nunca nos faltou durante esta viagem, portanto, mais um menos um, não teria nunca qualquer importância. Aliás, o banho relaxante de fim do dia já estava à nossa espera na varanda do nosso quarto.
No entanto, antes de entrarmos no navio, fomos a um quiosque que existe já dentro da zona reservada do porto, onde pedi um punch, uma bebida que ainda não tivera oportunidade de provar. O rapaz de serviço sacou de um bidão de plástico que estava dentro de um armário e encheu um copo alto que posou em cima do balcão à minha frente. Dispensei a palhinha, mostrando-me profissional. Logo ao primeiro gole senti que a coisa era forte, e a meio copo senti perfeitamente os “vapores” do álcool subirem ao cérebro. Quando terminei, estava com calor. Perguntei ao moço a receita daquilo e, então, é assim: rum velho, rum branco, sumo de manga, sumo de maracujá, sumo de abacaxi e xarope de limão. Poderoso. Valeu os 10€.
O nosso percurso em Guadalupe.
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Dia 15 — Navegando
Hoje, véspera do nosso desembarque em Saint Martin/Sint Maarten, foi dia de descansar. Dormir bem, aproveitar o sossego do nosso quarto e da nossa varanda, relaxar no jacuzzi, namorar: ter o dia todo só para nós. Antes do jantar foi tempo de fazer a mala, pois temos que a deixar à porta da cabina até à meia-noite.
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Dia 16 — Saint Martin/Sint Maarten
Chegados a Saint Martin, os nossos passaportes (tal como os dos outros passageiros que iam desembarcar) ainda estavam retidos pelas autoridades, pelo que aproveitámos para dar uma volta por Philipsburg. O nosso voo para Paris era só às 15:30, pelo que estávamos descansados em relação ao tempo. Assim, quando saímos do navio, não tivemos de esperar muito tempo, foi só apanhar um táxi (não há outra forma de chegar ao aeroporto, com malas grandes), fazer o check-in e, pouco tempo depois, entrar no avião. Durante o voo assistimos a um excelente filme: Elvis. Muitíssimo bem realizado.
A bela baía de Philipsburg.
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Dia 17 — Paris, Lisboa e Conceição de Tavira
Por volta das 6 e meia da manhã estávamos no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Tivemos uma espera de mais de três horas até apanharmos o avião para Lisboa (assim a mala de porão, provavelmente, não ficaria para trás) aonde chegámos às 11:30. Fomos buscar o nosso carro que tinha ficado com o nosso amigo, almoçámos e viemos para casa. Pelo caminho comprámos o necessário para fazermos uma refeição leve antes de dormirmos: uma salada com sardinhas de conserva. A nossa viagem chegara ao fim. Enquanto comia, pensava em algo inquietante: as ilhas paradisíacas que visitáramos podem num minuto transformar-se num inferno; as erupções vulcânicas e os furacões são uma ameaça permanente. Ou seja, o inferno e o paraíso podem não estar em lugares separados como por vezes pensamos, mas juntos neste planeta de incrível diversidade.
Com a maré vazia é muito fácil descer da aldeia de Cacela Velha, cruzar o pequeno canal com água pelo joelho (se a maré estiver mais cheia o nível pode subir até â cintura ou mesmo ao pescoço — mas isso não é impeditivo para os mais aventureiros) e chegar ao mar.
Este ano o Verão de São Martinho veio com tanta força, e a água do mar estava tão apetecível no Sotavento Algarvio, que, durante quatro dias seguidos (10, 11, 12, 13 de novembro) fomos à praia, banhámo-nos, ao sol e no mar, e fizemos longas caminhadas pelos areais de Manta Rota e Cacela Velha. Quatro dias consecutivos com tempo super agradável não é assim tão comum em novembro, por isso quisemos que este magnífico período ficasse registado, para mais tarde o recordarmos.
A praia de Cacela Velha é pouco frequentada. Tem de se fazer uns 500 metros a pé, a partir da bela aldeia de Cacela Velha (onde se tem vistas fantásticas sobre a ria, o mar e toda a zona costeira, incluindo o litoral fronteiriço de Espanha), descer uma longa escadaria e atravessar a Ria Formosa — o que nem sempre é fácil porque a maré pode não estar vazia — para se alcançar a praia. Também se pode aceder à praia de Cacela Velha via Manta Rota, localidade onde já não é preciso cruzar a Ria Formosa para chegar ao mar, caminhando ao longo da praia uns 20 minutos para oeste e atravessando um pequeno canal que une o mar e a ria (canal constantemente em mudança face a ventos e marés, mas que se ultrapassa facilmente sobretudo na baixa mar), e alcançando assim a praia de Cacela Velha. No verão há alguns barqueiros que levam as pessoas à praia, nomeadamente no sítio da Fábrica. Uma vez chegados, estamos no paraíso.
A pequena ondulação acontece porque o vento está de leste/sudeste, o que no sotavento significa que vem do lado do mar. Ao fundo a aldeia de Cacela Velha.
Além de pouco frequentada, a praia é enorme, a areia dourada e a água límpida. Temperaturas em torno da que consideramos ideal (23,5º) são bastante comuns no verão, estação em que a água do mar chega a atingir os 26º. As mais altas temperaturas ocorrem quando o vento está do quadrante leste, o que proporciona uma tipologia de tempo que aqui se chama levante. É quando o mar tipicamente calmo do sotavento se torna agitado com ondulação mais ou menos significativa. A temperatura do mar fica então mais alta e assim se mantém por alguns dias, mesmo depois de o levante passar. A temperatura média do mar no sotavento, ao longo do ano, ronda os 18º/19º, o que permite banhos de mar praticamente em qualquer mês do calendário. Nestes quatro dias de São Martinho a temperatura da água do mar rondou os 20º.
É muito difícil dizer qual a melhor praia do sotavento algarvio. Cabanas, Ilha de Tavira, Terra Estreita, Barril, Fuzeta, as ilhas de Armona, Farol e Faro são todas elas (sobretudo, para nós, a Terra Estreita) praias magníficas. Mas se tivéssemos de escolher uma, essa seria Cacela Velha. Sem quaisquer apoios de praia, principalmente sem gente na maior parte do ano, na praia de Cacela Velha podemos relaxar, sentir a natureza em estado puro e, se nos apetecer, tirar a roupa toda e mergulhar num mundo azul.
A capela de Cacela Velha debruçada sobre a Ria Formosa e o Oceano Atlântico.