MUNCH

“A câmara fotográfica não pode competir com o pincel e a paleta — não pode ser usada no céu ou no inferno.”

Edvard Munch

Depois de mais de dez anos de reformulação, abriu finalmente ao público o Munch, um dos maiores museus do mundo dedicados a um único pintor.

Bem no centro de Oslo, a dez minutos a pé da Estação Central, encontramos, muito perto da Casa da Ópera de Oslo, talvez o mais moderno, arrojado, icónico e, também, controverso1 edifício da capital norueguesa — o Museu MUNCH. Uma manhã inteira (ou uma tarde) não é de mais para uma visita a este magnífico museu de doze andares (incluindo um restaurante no terraço), onde além da exposição permanente das obras de Edvard Munch, é possível apreciar trabalhos de outros pintores, como Van Gogh, Salvador Dali, Auguste Rodin ou Pablo Picasso. Pelo menos foi o que aconteceu quando ali estivemos, em abril de 2022. Este espaço museológico é enorme, por isso não surpreende que, apesar de ser dedicado a um único artista, os seus responsáveis possam organizar, em paralelo, exposições com obras vindas do exterior.

Edvard Munch foi extremamente produtivo. Ele manteve a sua atividade artística durante mais de seis décadas — desde os anos oitenta do século dezanove até ao ano da sua morte, em 1944 — e é considerado um dos autores mais importantes do modernismo. No início do seu percurso artístico, destacou-se como membro integrante do simbolismo2 e tornar-se-ia um pioneiro da arte expressionista a partir do início do século XX. A incansável persistência na experimentação de diferentes motivos e técnicas garantiu-lhe um lugar de destaque na História da Arte norueguesa, e também mundial.

Cavalo Galopante (1910-1912), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Essa característica experimental da obra de Munch não permite que encaixemos o seu trabalho num único movimento ou estilo. Mais conhecido como simbolista e, sobretudo, expressionista, ele fez também incursões pelo universo surrealista3. Em 1930, sofreu um acidente que lhe provocou uma lesão ocular, ficando temporariamente cego de uma vista. Durante esse período, Munch produziu vários trabalhos simbólicos e abstratos, derivados das visões que o ferimento lhe tinha provocado na retina. Estes trabalhos podem ser enquadrados na ideia então contemporânea de “olho interno”, algo que o próprio Munch definiu da seguinte forma: “A natureza não é apenas aquilo que é visível pelo olho, é também o que é reproduzido pelas imagens internas da alma — imagens da parte de trás do olho”. Em 1944, o biógrafo de Munch, Rolf Stenersen, sustentou que as obras produzidas por Edvard, quando estava parcialmente cego, poderiam ser interpretadas como representações do inconsciente. Stenersen defendeu que esses trabalhos eram surrealistas, pois resultavam de impulsos do inconsciente.

O Assassino (1910), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Edvard Munch viveu em vários lugares, mas a maior parte do tempo na Noruega natal, num raio de poucos quilómetros em torno da capital, Oslo, onde também viveu e se formou, na Escola de Artes e Ofícios. Tendo nascido em Löten (em 12 de dezembro de 1863), 120 quilómetros a norte de Oslo, Munch veio estudar para a capital, onde foi bastante influenciado pelo Kristiania Bohème, um círculo cultural de escritores e artistas, particularmente por um dos seus membros mais antigos, o pintor Christian Krohg, que incentivou e orientou o jovem Edvard Munch. A estética naturalista deste movimento foi rapidamente ultrapassada por Munch quando, aos 26 anos, fez uma viagem a Paris e passou a conhecer de perto o impressionismo francês, sobretudo através dos trabalhos de Paul Gaughin e Henri de Toulouse-Lautrec.

Apesar de ter vivido em Berlim (1892-95) e Paris (1896-97), os locais onde Munch mais pintou foram na sua Noruega natal. Ele passou vários verões em Åsgårdstrand, cerca de 100 quilómetros a sul de Oslo. O primeiro verão que passou em Åsgårdstrand foi em 1889, e, em 1897, Munch comprou uma pequena cabana de pescadores, à qual passou a referir-se como o seu “lugar feliz”. As linhas costeiras desta pequena e tranquila localidade logo atraíram a atenção de Munch e ainterpretação estilizada dessas margens, muitas vezes combinada com o luar, tornou-se um elemento recorrente do seu grande projeto existencial O Friso da Vida.

Em 1909, após um longo período de doença, Munch foi viver para  Kragerø, na margem ocidental do fiorde de Oslo, onde alugou uma casa com vista para o mar. Foi nesta localidade que passou um dos períodos mais alegres e produtivos da sua vida artística.

O Sol (1910-1911) é um quadro gigante exposto no sexto andar do museu, que é consagrado às obras monumentais de Munch. Esta obra, produzida originalmente para os murais da Universidade de Oslo é especialmente importante porque é também um marco da aceitação tardia do trabalho de Munch na Noruega.

A natureza de Kragerø inspirou Munch a pintar o grande mural vitalista O Sol — o nascimento do astro-rei, símbolo mais puro da força da vida, retratado com pinceladas ousadas e vigorosas. Outros temas de Kragerø, que também aparecem na arte de Munch, são as ruas pitorescas, a alternância das estações, e cenas do dia-a-dia dos habitantes.

Em 1913, ainda dentro do Fiorde da Noruega, Munch subiu para Jeløya, nos arredores de Moss, onde morou durante três anos, até 1916. Os anos em Jeløya foram altamente produtivos e intensos, e Munch trabalhou avidamente com pinturas e xilogravuras coloridas. Uma das pinturas mais famosas de Munch, Trabalhadores a Caminho de Casa, foi produzida em Moss. Munch também representou, neste período, as belas paisagens culturais de Jeløya.

Mais tarde, já em Oslo, onde cresceu e se iniciou como jovem artista, Munch desenvolveu uma relação tensa com a cidade, tendo encontrado na capital os seus rivais mais ferozes e também os críticos mais severos da sua obra4.

Trabalhadores a Caminho de Casa (1915), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Mas os problemas de Munch já vinham de longe. Ele foi atormentado por doenças persistentes e também por uma infância difícil — com lutos e doenças mentais na família5 — as quais tiveram grande influência no seu trabalho artístico. Desde o ultrafamoso O Grito, até aos muitos milhares de esboços que produziu, a obra de Munch está repleta de emoções e traumas psicológicos. Várias versões de O Grito6 estão guardadas no MUNCH, incluindo desenhos, uma versão posterior pintada, e seis litografias.

O Grito é, sem dúvida, a obra mais famosa de Munch, um trabalho incrivelmente intemporal. Trata-se de uma narrativa aberta, em que o principal protagonista é estranhamente enigmático — não pertencendo a nenhuma classe, ou género, ou cultura, ou raça. O tema resulta de um passeio que Munch fez com amigos, num fim de tarde de 1891, quando o sol caía sobre o fiorde de Oslo. Todas as versões de O Grito são diferentes, mas igualmente poderosas. Há quem diga, provavelmente com razão, que O Grito manifesta a angústia do artista, provocada por decepções na sua vida pessoal, quer no que diz respeito ao amor, quer no que toca aos amigos. O quadro mostra-nos uma criatura enigmática em pânico — cuja forma pode sugerir, de algum modo, um feto, ou mesmo um espermatozoide (símbolos da extrema fragilidade da vida) — e cujos contornos se projetam no fundo avermelhado do horizonte; dois transeuntes seguem o seu caminho, indiferentes.

A célebre pintura O Grito (têmpera e óleo sobre cartão, provavelmente de 1910). Munch criou todas as versões desta obra em cartão ou papel, tornando-as mais frágeis do que seriam se tivessem sido produzidas em óleo sobre tela. É por isso que as três versões7 patentes na sala do museu dedicada a O Grito — uma pintura (na foto), um desenho a pastel (1893) e uma litografia (1895) — são apresentadas rotativamente, uma de cada vez, apenas por uma hora, sendo depois encerradas numa câmara escura até nova apresentação.8 Ou seja, há sempre uma das versões exposta, enquanto as outras duas permanecem no escuro.

É de notar que a estrada onde esses homens estão segue em linha reta para o infinito, o que torna ainda mais notória a distância que os separa do protagonista. Isto reforça a ideia de que a angústia e o desespero de uma pessoa pode ser completamente indiferente para outras. Embora o próprio Munch tenha escrito sobre a sua obra mais famosa9, O Grito continua, apesar de tudo, a ser um enigma, tanto no conteúdo como na forma. Não há uma interpretação única sobre a obra, antes inúmeras interpretações. Uma delas, verdadeiramente surpreendente, foi publicada em 2003, na revista Sky and Telescope por um grupo de professores de Física e Astronomia da Universidade Estadual do Texas, que se deslocaram até Oslo para perceberem onde teria sido o local exato onde Munch observara o tal céu vermelho-sangue. Depois de determinada a localização, os investigadores americanos concluíram que um céu semelhante ao descrito por Munch pode de facto ter sido observado naquela zona do globo, resultante da grande erupção do vulcão da ilha de Krakatoa, na Indonésia, em 1883 — uma das mais terríveis erupções vulcânicas registadas, que provocou o desaparecimento da ilha. Os investigadores concluíram assim que Munch estaria a olhar para sudoeste, exatamente o quadrante onde o clarão do Krakatoa apareceu, naquele inverno de 1883-1884. Isto parece vir ao encontro das próprias palavras de Munch (ver nota 9) quando este refere que sentiu um imenso grito infinito através da natureza.

Todas as versões de O Grito são diferentes. Mas todas são igualmente poderosas. Na foto, a litografia de 1895.

É, pois, impressionante como uma pequena obra pode dizer-nos tanto. E seja qual for a interpretação que tenhamos, nenhuma vai retirar o lugar que O Grito conquistou na História da Arte, um dos mais altos, senão o mais elevado, da corrente conhecida como Expressionismo.

Uma das características da arte de Munch é a atenção que dedica ao movimento, criando drama e intensidade nas suas obras: as linhas diagonais chamam a nossa atenção, puxando-nos, e provocando um movimento das figuras na nossa direção, gerando um confronto. Podemos reconhecer tais recursos desde os primeiros tempos da fotografia e do cinema — novos meios de imagem que ganharam destaque no tempo de Munch. Ele próprio experimentou a fotografia10e deslocava-se com certa frequência ao cinema, tendo além disso realizado pequenos filmes em torno de Oslo e no jardim da sua casa. Por isso se pensa que estas novas tecnologias influenciaram a sua arte. Porém, é preciso dizer que, com Munch, o movimento está sempre associado à emoção. Ele procura agarrar o espectador, imprimindo ao seu trabalho uma carga intensa e dramática. Munch pinta para criar a sensação de movimento dentro do próprio espectador.

A intensa produção de artes gráficas de Edvard Munch — gravuras, xilografias, litogravuras — começou em 1894. No MUNCH, os visitantes podem experimentar algumas técnicas utilizadas pelo pintor. Munch não tinha grande experiência gráfica, o que constituiu o principal motivo para a criação de técnicas inovadoras.

De acordo com Gray F. Watson, professor da Wimbledon School of Art, de Londres, Munch foi um líder na revolta contra os ditames naturalistas da pintura académica do século XIX e também foi além do naturalismo ainda inerente ao impressionismo. A sua concentração nos fundamentos emocionais levava-o por vezes a simplificações radicais da forma e a uma abordagem expressiva, em vez de descritiva, da cor. Estas tendências foram a dotadas por artistas mais jovens, nomeadamente os principais proponentes do expressionismo alemão. Talvez a sua influência formal mais direta na arte posterior possa ser vista na área da xilogravura. Mas o seu legado mais profundo para a arte moderna estava no seu propósito de abordar aspetos universais da experiência humana. Munch herdou o misticismo tradicional e a ansiedade da pintura do norte da Europa, que recriou numa arte altamente pessoal. O seu trabalho continua a expressar a situação tipicamente moderna do indivíduo diante da incerteza de um mundo contemporâneo em rápida mudança.11

A exposição patente no MUNCH está dividida em doze temas, que podem ser visitados pela ordem que se quiser — Só; Morrer; O Grito; Amor; Género; Outdoors; Nu; Outros; O Eu; Em Movimento; À Superfície; Variações.

Terminamos com uma frase retirada da exposição que tivemos a felicidade de visitar seis meses após a inauguração deste novo museu:

Não existe uma verdade única sobre Edvard Munch e o seu trabalho. A obra de Munch e a nossa compreensão da mesma podem ser consideradas infinitas.

No terraço do icónico e controverso edifício que acolhe e é, ele próprio, o museu MUNCH.

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Notas:

1 A fase mais recente do projeto de renovação da zona ribeirinha de Oslo, que já dura há décadas, tem sido, de facto, controversa. O projeto do Munch, de autoria do renomado estúdio de arquitetos Herreros, com sede em Madrid, foi também criticado por alguns moradores nos meios de comunicação locais, sobretudo devido à forma “vertical” incomum e à fachada cinza do edifício. Os arquitetos disseram que se inspiraram, sobretudo, nas impressionantes torres do edifício da Câmara Municipal de Oslo.

2 O termo “simbolismo” foi cunhado pela primeira vez pelo crítico francês Jean Moréas, em 1886, e rapidamente usado para caracterizar artistas e escritores que rejeitavam as representações realísticas do mundo exterior, em favor da exploração da vida interior da alma humana. O objetivo destes artistas era o de expressarem as ideias que estão por trás da realidade visível, ou, tal como o autor Knut Hamsun referiu em 1890, “mostrar a vida inconsciente da alma”. O movimento representava uma nova e radical compreensão do “eu”, que em vez de ser algo estável e constante, era visto como fluído e fragmentado. Na década de 1890, o simbolismo desenvolveu-se como um movimento cultural abrangente, que incluía Arthur Rimbaud, Paul Gauguin, Auguste Rodin, James Ensor, August Strindberg, Vincent Van Gogh e Edvard Munch.

3 O surrealismo surgiu na ressaca da Primeira Guerra Mundial, após milhões de mortos e uma Europa em ruínas. Simultaneamente, Sigmund Freud e a psicanálise aportaram uma visão inovadora sobre a mente humana. Dedicando-se às questões do inconsciente — sonhos, desejos e impulsos inconscientes — os artistas, na opinião de André Breton, deveriam liderar o caminho para uma nova ordem mundial. Durante os anos 20 e 30 do século XX, Breton atraiu um vasto conjunto de escritores, artistas plásticos e realizadores cinematográficos, disposto a desafiar a moralidade, a tradição e a própria racionalidade. Entre estes estavam Max Ernst, Dora Maar, René Magritte, Leonora Carrington, Claude Cahun, Salvador Dalí e Luis Buñuel.

4 Munch esteve várias vezes envolvido em polémicas com outros autores. Uma luta física com um pintor rival obrigou-o a ausentar-se da Noruega durante 4 anos. Vários dos seus quadros refletem estas disputas.

5 A mãe e a irmã de Munch faleceram de tuberculose quando ele tinha, respetivamente, 5 e 14 anos. O pai e o irmão também morreram quando ele era jovem. A única irmã sobrevivente desenvolveu uma doença mental pouco depois. Munch foi várias vezes hospitalizado entre 1905 e 1909 por problemas de alcoolismo, depressão e comportamento suicida.

6 Quando abordamos as obras de Munch, geralmente não falamos de uma imagem, mas de várias. Ao longo de toda a sua carreira artística, Munch regressa aos mesmos temas para abordá-los de uma nova forma. Ele produzia uma versão, depois outra, e depois outra ainda. Ao revisitar os temas, novas possibilidades se revelam. Por vezes eles capta-as com um simples desenho ou, ocasionalmente, com uma escultura. Apesar de Munch nem sempre estar contente com o resultado, ele preservava todas as tentativas. Para ele não havia uma forma certa ou errada de pintar, apenas formas novas de o fazer.

7 Edvard Munch produziu quatro versões coloridas de “O Grito” — duas pinturas com têmpera e dois desenhos com pastel e lápis de cera. Dois deles permaneceram na sua posse e estão hoje na coleção do Museu MUNCH. Das duas versões restantes do famoso motivo, uma faz parte da coleção do Museu Nacional da Noruega e a outra é de propriedade privada (foi comprada em leilão pelo investidor e colecionador de arte norte-americano Leon Black, em 2012, por 119,9 milhões de dólares). Munch também criou uma litografia de “O Grito”. Não se sabe quantas litografias foram impressas, mas estima-se que existam cerca de 30 impressões. Seis destas — incluindo uma colorida à mão por Munch — estão hoje na coleção do Museu MUNCH.

8 Além do cuidado necessário com os fatores climáticos, como os níveis de temperatura, humidade e oxigénio, a exposição à luz tem de ser evitada. A luz afeta os pigmentos coloridos e danifica o papel e a cartolina ao longo do tempo.

9 Em 1892, na Riviera francesa, mais propriamente em Nice, Munch escreveu um poema no seu diário, descrevendo uma caminhada com os seus amigos. Ele sentiu-se cativado pela visão das nuvens flamejantes e da cidade e da água azul-negras. Escreveu Munch: “Eu estava a andar por uma estrada com dois amigos quando o sol se pôs. Senti uma rajada de melancolia e de repente o céu ficou vermelho-sangue. Eu parei, encostei-me ao gradeamento, cansado de morte, enquanto os céus flamejantes pendiam sobre o fiorde azul e negro e sobre a cidade. Os meus amigos continuaram, eu permaneci ali a tremer de ansiedade e senti um imenso grito infinito através da natureza.” Nesse mesmo ano, Munch traduziu a experiência relatada no diário visualmente. Assim nascia “O Grito”.

10 Foi um dos primeiros artistas a explorar o auto-retrato fotográfico, após ter comprado uma câmara Kodak, em 1902.

11 https://www.britannica.com/biography/Edvard-Munch.

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A Casa da òpera, de Oslo, fica muito perto do MUNCH. Trata-se de outro edifício moderno, inaugurado em 2008 e projetado por arquitetos noruegueses, que ganharam vários prémios com esta obra, que é, de facto, muito bonita.

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Fontes:

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