Dois livros recentes onde se realça a perigosidade das ideologias.
As ideologias e as religiões são duas faces da mesma moeda. Ambas torcem e distorcem a realidade para que esta caiba nas suas narrativas. E o pior é que o cérebro humano adora narrativas ideológicas e religiosas. Pode parecer estranho, mas as pessoas com espírito científico, que amam a verdade, constituem-se como uma minoria entre os indivíduos predispostos a acolher todo o tipo de profecias, muito mais apelativas para o nosso cérebro tribal habituado a mitos, realidades paralelas e rituais iniciáticos.
Temos uma razão etimológica, desenvolvida em alguns de nós, mas a razão social — aquela que faz com que desejemos ser aceites pelos outros e integrar-nos no grupo — prevalece na esmagadora maioria dos casos. É por isso que é preciso ser resiliente para se apegar à verdade, tantas vezes incómoda. É muito mais fácil acreditar em promessas de prosperidade, fecilidade e, até, imortalidade.
Mas as promessas são levadas pelo vento, e o que resta dos dogmas ideológicos são guerras, miséria e sofrimento. Será impossível acabar com as ideologias, pois o homem é (ainda?) um animal idelógico, mas há uma questão que se impõe: seremos capazes de as controlarmos?
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As nossas edições:
Leor Zmigrod, O Cérebro Ideológico, D. Quixote, Lisboa, 2025.
Samuel Fitoussi, Porque se Enganam os Intelectuais, Bertrand, Lisboa, 2025. ******************************
Há quem pense que pode perfilhar uma filosofia segundo os mesmos critérios com que adota uma ideologia qualquer. Mas há aqui uma diferença radical. Como o termo indica, “ideologia” vem de “ideia”, e as nossas ideias são subjetivas, dependem das influências genéticas, ambientais e culturais que se exercem em cada um de nós, bem como dos nossos sonhos, das nossas esperanças e aspirações. Mas a filosofia, no que toca ao conhecimento, parte sempre da realidade e a ela sempre regressa, pois só no real pode haver uma aproximação objetiva à verdade, e em mais lado nenhum. É por isso que não pode haver uma filosofia digna desse nome sem ciência, pois uma e outra colaboram na busca da verdade, ainda que esta (a verdade), na sua plenitude, seja inatingível.
As ciências experimentais laboram nas suas quase infinitas ramificações e especializações, e as ciências teóricas buscam a sistematização, a unidade, a teoria, a fórmula matemática ideal; por seu turno, a filosofia investiga como evolui a ciência, quais os seus limites, qual o seu método, que validade tem, como é ela possível, que consequências acarreta. Essa relação ocorre entre a teoria da gravitação de Newton e a filosofia de Kant ou entre a relatividade de Einstein e a filosofia de Popper. Filosofia e ciência são indissociáveis.
As ideologias, pelo contrário (e embora alguns as queiram elevar ao estatuto de “científicas”), têm pouco a ver com ciência e muito mais que ver com religião. O seu caráter profético retira-lhes a componente de incompletude inerente a qualquer ciência, e aproxima-as das crenças religiosas. Mais: como a verdade da ideologia (e da religião) é ou evidente ou revelada ou “científica”, ela contrasta com a verdade da ciência, que é aproximativa, provisória e incerta (porque sempre passível de alteração). Cientistas e filósofos têm consciência da sua ignorância. Ideólogos e profetas, não. Claro que há muitos ideólogos com estatuto de “filósofos”, e isso só tem contribuído para aumentar quer a confusão entre ideologia e filosofia, quer o número de crentes (os discípulos) e de oportunistas (os profetas).
“Filosofia”, como todos sabem, quer dizer “amizade à sabedoria”. Ora, não há sabedoria sem racionalidade; e não há nenhuma área do conhecimento humano mais racional que a ciência, pois esta baseia-se na objetividade do mundo e não na subjetividade das mentes, embora uma e outra sejam necessárias para haver conhecimento. E o (pouco ou muito, é difícil de dizer) que o mundo nos revela é o seguinte: quanto mais problemas vamos solucionando, muitos mais problemas novos se nos deparam. Daí, termos de reconhecer que, apesar de nossos imensos esforços e extraordinárias conquistas científicas e técnicas, somos, relativamente às questões fundamentais, absolutamente ignorantes. Eis a razão da impopularidade dos filósofos em contraste com profetas e ideólogos: o sacrifício das boas intenções em prol da realidade.
E não deixa de ser verdade que personalidades como Platão, Maomé e Marx estão mais próximos da categoria de “ideólogos-profetas” enquanto outras como Kant, Einstein e Popper estão mais próximos da de “cientistas-filósofos”. Os primeiros mostram-nos o suposto caminho da verdade e os segundos incitam-nos a procurar esse caminho, advertindo-nos que (mesmo que o encontremos) provavelmente não chegaremos ao seu termo, mas mostrando-nos a razão pela qual, ainda assim, vale a pena continuar caminhando.