Os Países-modelo

1Suíça7.12Dinamarca8.1
3Islândia8.34Suécia8.5
5Finlândia8.86Noruega8.9
7Holanda10.38Austrália12.1
9Irlanda13.110Canadá13.4
11Nova Zelândia15.112Alemanha15.3
Os doze países-modelo: confiança nas instituições, baixa corrupção, sistemas de justiça eficazes, proteção social e liberdade.

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Introdução

É um facto mais ou menos conhecido: os países do norte da Europa são os socialmente mais desenvolvidos do mundo. Mas serão os únicos, ou outros, de outras zonas do globo, terão níveis de desenvolvimento idênticos? Que sistema político e, mais importante, que políticas serão prevalecentes nestes países mais desenvolvidos? Ou, ao invés, será sobretudo uma questão cultural e não tanto política? Quais as principais diferenças, se as há, entre eles? Esses países são conhecidos pela proteção social que oferecem aos cidadãos, mas isso é compatível com a liberdade individual e a liberdade económica? E quanto à igualdade, incluindo a igualdade de género? E, já agora, qual entre todos os países do mundo desenvolvido, é mesmo o mais avançado[1]?

Esta artigo é uma tentativa de resposta a estas e outras perguntas. Para isso analisámos vários rankings e índices – elaborados por instituições prestigiadas e credíveis – e acabámos por elaborar o nosso próprio índice dos doze países-modelo, uma síntese de todos os outros. Como a expressão sugere, a ideia é apontar a um farol, que nos indique a terra das boas práticas: porque acreditamos que o benchmarking é mais eficaz que as ideologias. Como veremos, além de tudo o resto, os países mais desenvolvidos são também os mais felizes. (E nem sequer têm o sol magnífico que brilha no Sul!). Então, no mínimo, deve valer a pena tentar perceber porquê.

Começámos por juntar dez estudos, a que correspondem dez rankings ou índices. A saber:

  • Índice de Desenvolvimento Humano
  • Índice da Desigualdade de Género
  • Índice de Liberdade Económica
  • Índice da Qualidade dos Cuidados de Saúde
  • Índice de Liberdade Humana
  • Coeficiente de Gini
  • Índice da Liberdade de Imprensa
  • Índice da Democracia
  • Índice da Paz Global
  • Relatório da Felicidade Mundial

Iremos debruçar-nos sobre cada um deles, de forma sumária, indicando a classificação dos 30 primeiros países e também como se classificaram os seguintes, quando não se encontrem entre os 30 primeiros: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo-Verde, S. Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Rússia, China, Cuba e Venezuela. Incidiremos uma atenção particular sobre estes países porque alguns deles pertencem à lusofonia e outros porque são governados por ditadores, mas ainda assim atraem muitos simpatizantes[2]. Sempre que acharmos motivo relevante, poderemos, pontualmente, fazer referência a qualquer outro país, sobretudo sobre aqueles que pertencem à União Europeia, por serem os que mais diretamente comparam com Portugal. O último país, que fecha cada ranking, será sempre indicado. No final deste artigo, num último bloco, elaboraremos então o nosso índice dos doze países-modelo (para tal bastará somar os dígitos que correspondem aos lugares que ocupam em cada um dos índices ou rankings aqui abordados; é óbvio que quanto mais baixa for a pontuação, melhor será a sua posição no nosso índice); e buscaremos as razões para o seu bom desempenho. Vamos a isso.

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Índice de Desenvolvimento Humano

O IDH começou por ser desenvolvido em 1990 por Amartya Sen e Mahbub al Haq e foi adaptado, em 1993, pelo PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Os critérios de avaliação foram modificados em 2010, passando a incluir as três seguintes áreas: expectativa de vida ao nascer; anos médios de estudo e anos esperados de escolaridade; e PIB per capita. Notoriamente, estes critérios não contemplam todas as áreas que contribuem para o “desenvolvimento humano” das populações de um país. Não contemplam questões importantes para a qualidade de vida, como as ambientais, a desigualdade, a pobreza, entre outras. Mas são indicadores. Conjugados com os de outros estudos dar-nos-ão, como dissemos acima, uma noção mais clara sobre o desenvolvimento de cada país. A pontuação vai de 0 a 1, sendo que quanto maior for a aproximação a 1, maior será o desenvolvimento humano de um país. Vejamos a classificação.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Noruega0.9542Suíça0.946
3Irlanda0.9424Alemanha0.939
4Hong Kong0.9396Austrália0.938
6Islândia0.9388Suécia0.937
9Singapura0.93510Holanda0.933
11Dinamarca0.93012Finlândia0.925
13Canadá0.92214Nova Zelândia0.921
15Reino Unido0.92015Estados Unidos0.920
17Bélgica0.91918Liechtenstein0.917
19Japão0.91520Áustria0.914
21-Luxemburgo (0.909); 22-Israel (0.906); 22-Coreia do Sul (0.906); 24-Eslovénia (0.902); 25-Espanha (0.893); 26-República Checa (0.891); 26-França (0.891); 28-Malta (0.885); 29-Itália (0.883); 30-Estónia (0.882); 31-Chipre (0.873); 32-Grécia (0.872); 32-Polónia (0.872); 34-Lituânia (0.869); 36-Eslováquia (0.857); 39-Letónia (0.854); 40-Portugal (0.850); 43-Hungria (0.845); 46-Croácia (0.837); 49-Rússia (0.824); 72-Cuba (0.778); 79-Brasil (0.761); 85-China (0.758); 96-Venezuela (0.726); 126-Cabo Verde (0.651); 131-Timor-Leste (0.626); 149-Angola (0.574); 178-Guiné-Bissau (0.461); 180-Moçambique (0.446); 189-Níger (0.377). Fonte: www.hdr.undp.org

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Como já deixámos claro, o Índice de Desenvolvimento Humano é demasiado básico, precisa de ser complementado com outros dados, o que é, aliás, referido no próprio relatório. No entanto é um indicador; mostra-nos, desde logo, uma tendência: os países economicamente mais ricos partem em vantagem. Mas isso, por si só, não é tudo. O Qatar, por exemplo, tem o PIB per Capita mais alto do mundo[3], mas está muito longe de ser um país socialmente desenvolvido… Os autores deste estudo remetem-nos, por isso, para outros relatórios, um dos quais analisaremos já de seguida. Apesar de tudo, não podemos deixar de reparar na posição de Portugal (40º), relativamente aos outros 27 estados-membros da União Europeia, posicionando-se à frente, apenas, da Hungria (42º), da Croácia (46º) e da Bulgária (52º).

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Índice da Desigualdade de Género

Igualmente promovido pelas Nações Unidas (PNUD- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), tem por objetivo avaliar a desigualdade entre homens e mulheres. Sabendo-se que são as raparigas e mulheres quem mais sofre com a desigualdade, são elas o principal objeto do estudo, que utiliza os seguintes parâmetros: taxa de mortalidade materna (mortes por 100.000 nascimentos); taxa de nascimentos entre mães adolescentes (entre os 15 e os 19 anos); percentagem de assentos femininos no parlamento; diferença entre a escolaridade de homens e mulheres; e taxa de participação das mulheres no mundo laboral. A classificação que se segue começa no país onde existe maior igualdade de género e termina no país com mais desigualdade de género.

Rank PaísScoreRankPaísScore
1Suiça0.0372Dinamarca0.040
2Suécia 0.0404Holanda0.041
5Noruega0.0446Bélgica0.045
7Finlândia0.0508França0.051
9Islândia0.05710Coreia do Sul0.058
11Singapura0.06512Eslovénia0.069
12Itália0.06914Áustria0.073
15Espanha0.07416Luxemburgo0.078
17Portugal0.08118Canadá0.083
19Alemanha0.08420Chipre0.086
21-Estónia (0.091); 22-Irlanda (0.093); 23-Japão (0.099); 24-Israel (0.100); 25-Austrália (0.103); 26-Emirados A. Unidos (0.113); 27-Reino Unido (0.119); 27-Montenegro (0.119); 27-Bielorrússia (0.119); 28-Malta (0.195); 30-Polónia (0.120); 31-Grécia (0.122); 31-Croácia (0.122); 33-Lituânia (0.124); 34-Nova Zelândia (0.133); 35-República Checa (0.137); 39-China (0.163); 40-Letónia (0.169); 42-Estados-Unidos(0.182); 43-Eslováquia (0.190); 48-Bulgária (0.218); 54-Rússia (0.255); 56-Hungria (0.258); 67-Cuba (0.312); 69-Roménia (0.316); 83-Cabo Verde (0.372); 89-Brasil (0.386); 106-Venezuela (0.458); 142-Moçamb. (0.569); 144-Angola (0.578); 162- Yémen (0.834).
Fonte: http://hdr.undp.org/en/content/gender-inequality-index-gii

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Como se pode verificar, são os países da Europa os campeões da igualdade de género, excetuando os mais a leste. Africanos, sul-americanos e asiáticos (excetuando a Coreia do Sul e o Japão) são aqueles onde a desigualdade de género (gênero, para os amigos brasileiros) é maior. A relativamente boa classificação de Portugal talvez seja desconhecida da maioria dos próprios portugueses. O Brasil, como de costume, é o último dos melhores, mas um dos menos maus dos piores. Os países menos democráticos são aqueles onde, sem surpresa, há maior desigualdade de género. Notoriamente, esta desigualdade prende-se sobretudo com questões culturais, em muitos casos com a religião, como no caso evidente do islamismo, mas não só.

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Índice de Liberdade Económica

Para este índice, criado em 1995, numa parceria entre o Wall Street Journal e a Heritage Foundation, são utilizados quatro critérios: Estado de Direito (direitos de propriedade, integridade do governo, eficiência judicial); Dimensão do Governo (gastos, carga tributária, saúde fiscal); Eficiência Regulatória (liberdade comercial, liberdade de trabalho, liberdade monetária); Mercados Abertos (liberdade de comércio exterior, liberdade de investimento, liberdade financeira). Cada um destes 12 parâmetros é classificado, com o mesmo peso, numa escala de 0 a 100, correspondendo, a média dos 12, à pontuação final obtida por cada país. Os países que obtenham uma pontuação entre 80 e 100 são considerados “livres”; os que obtenham uma pontuação entre 70 e 79.9 são considerados “sobretudo livres”; entre 60 e 69.9, “moderadamente livres”; entre 50 e 59.9, “sobretudo não-livres”; e de 0 a 49.9, “reprimidos”. A classificação do Índice de Liberdade Económica de 2020[4] é a seguinte.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Singapura89.42Hong Kong89.1
3Nova Zelândia84.14Austrália82.6
5Suíça82.06Irlanda80.9
7Reino Unido79.38Dinamarca78.3
9Canadá78.210Estónia77.7
11Taiwan77.112Geórgia77.1
13Islândia77.114Holanda77.0
15Chile76.816Lituânia76.7
17Estados Unidos76.618Emirados A. Unidos76.2
19Luxemburgo75.820Finlândia75.7
21-Suécia (74.9); 22-Maurícias (74.9); 23-República Checa (74.8); 24-Malásia (74.7); 25-Coreia do Sul (74.0); 26-Israel (74.0); 27-Alemanha (73.5); 28-Noruega (73.4); 29-Áustria (73.3); 30-Japão (73.3); 32-Letónia (71.9); 36-Bulgária (70.2); 37-Chipre (70.1); 38-Roménia (69.7); 42-Malta (69.5); 46-Polónia (69.1); 48-Bélgica (68.9); 52-Eslovénia (67.8); 56-Portugal (67.0); 58-Espanha (66.9); 60-Eslováquia (66.8); 64-França (66.0); 74-Itália (63.8); 76-Cabo Verde (63.6); 94-Rússia (61.0); 100-Grécia (59.9); 103-China (59.5); 125-São Tomé e Príncipe (56.2); 144-Brasil (53.7); 148-Guiné-Bissau (53.3); 154-Angola (52.2); 160-Moçambique (50.5); 178-Cuba (26.9); 179-Venezuela (25.2); 180-Coreia do Norte (4.2).
Fonte: https://www.heritage.org/index/ranking

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Ressalta desta classificação, desde logo, as péssimas posições dos países latinos, excetuando o Chile (num surpreendente décimo quinto lugar). Portugal, apesar de tudo, mantém-se à frente de Espanha, França, Itália e Grécia (esta no 100º lugar e no grupo dos países “sobretudo não-livres”!), o que não deixa de ser igualmente surpreendente. O que talvez já não constitua surpresa é estarem neste grupo de países os que estão com maiores dificuldades dentro da União Europeia. A posição do Brasil (144º) no grupo dos mostly unfree (“sobretudo não-livres”), é muito má. A da Argentina (149), para referirmos outro grande país latino, é ainda pior. As ditaduras de inspiração marxista (Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, que ocupam os três últimos lugares, e também a China, no 103º lugar) têm os piores resultados, o que prova que a falta de liberdade, em geral, e da liberdade económica, em particular, provocam, além de opressão e iniquidade, uma miséria generalizada. Singapura, um país que já visitámos e nos impressionou pelas organização, limpeza, modernidade e qualidade dos serviços, é o país mais livre economicamente, mas estranhamente, como veremos abaixo, deita tudo a perder quando o que está em causa é a liberdade de imprensa, a democracia e a igualdade de género. Lamentamos estas oscilações e contrastes de Singapura, um país que, se “limasse algumas arestas”, poderia bater-se com os melhores do mundo.

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Índice da Qualidade dos Cuidados de Saúde

Este estudo, financiado pela Fundação Bill & Mellissa Gates, abrange os anos entre 1990 e 2016, e foi publicado pela revista Lancet em Junho de 2018. Foi avaliada a qualidade e o acesso a cuidados de saúde (HAQ Index: Healthcare Access and Quality Index) de 195 países, tendo em conta várias patologias de todos os tipos. O objetivo deste estudo foi o de avaliar quais os países que mais melhoraram na prestação de cuidados de saúde aos cidadãos e aqueles que regrediram, tendo em vista orientar decisões estratégicas para melhorias futuras. A pontuação vai de 0 a 100 e o “score” final de cada país é arredondado: por exemplo a Islândia está no primeiro lugar porque obteve a pontuação de 97.1 e a Noruega no segundo porque obteve 96.6; no entanto ambas aparecem no ranking final com a média arredondada de 97, sem décimas. Passemos à classificação, que foi a seguinte.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Islândia972Noruega97
3Holanda964Luxemburgo96
5Austrália966Finlândia96
7Suíça968Suécia95
9Itália9510Andorra95
11Irlanda9512Japão94
13Áustria9414Canadá94
15Bélgica9316Nova Zelândia92
17Dinamarca9218Alemanha92
19Espanha9220França92
21-Eslovénia (91); 22-Singapura (91); 23-Reino Unido (90); 24-Grécia (90); 25-Coreia do Sul (90); 26-Chipre (90); 27-Malta (90); 28.República Checa (89); 29-Estados Unidos (89); 30-Croácia (87); 31-Estónia (86); 32-Portugal (86); 36-Eslováquia (83); 39-Polónia (82); 40-Hungria (82); 43-Letónia (81); 45-Lituânia (80); 47-Roménia (78); 48-China (78); 51-Bulgária (77); 55-Cuba (76); 58-Rússia (75); 85-Venezuela (68); 96-Brasil (64); 117-Cabo Verde (55); 139-Timor-Leste (43); 152-São Tomé e Príncipe (39); 162-Angola (33); 179-Moçambique (30); 193-Guiné-Bissau (23); 195-República Centro Africana (19). Fonte: www.thelancet.com

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É notório o destaque dos países europeus quando se fala de bons sistemas de saúde. Nos 20 primeiros lugares apenas quatro países não são europeus: Austrália, Japão, Canadá e Nova Zelândia. Em oposição, nos últimos 20 lugares, apenas o Afeganistão e o Kiribati não são africanos. Portugal consegue uma posição aceitável (32ª), embora não particularmente satisfatória, à frente de seis países da União Europeia, mas atrás de vinte, ou seja, bastante abaixo da média da UE. O Brasil alcança uma má posição e todos os restantes países lusófonos posições ainda piores. Os autores do estudo esclarecem que as discrepâncias entre as ofertas de serviços de saúde não se encontram só entre países, mas igualmente no seu seio. Os casos mais evidentes, com enormes discrepâncias, são os da China e da Índia. Destaque para a posição de Andorra – para nós uma surpresa – no décimo lugar.

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Índice de Liberdade Humana

Estudo publicado e desenvolvido por três instituições: Cato Institute (Estados Unidos), Fraser Institute (Canadá) e Friedrich Naumann Foundation for Freedom (Alemanha). Este índice é publicado de cinco em cinco anos e utiliza 76 indicadores sobre liberdade pessoal e liberdade económica nas seguintes áreas: estado de direito; segurança e proteção; circulação; religião; associação; reunião e sociedade civil; expressão e informação; identidade e relacionamento; tamanho do governo; sistema legal e direitos de propriedade; acesso a crédito; liberdade de comércio internacional; e regulação sobre crédito, trabalho e negócios. Segue a classificação de 2019.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Nova Zelândia8.882Suíça8.82
3Hong Kong8.814Canadá8.65
5Austrália8.626Dinamarca8.56
6Luxemburgo8.568Finlândia8.53
8Alemanha8.5310Irlanda8.52
11Suécia8.5012Holanda8.50
13Áustria8.4814Reino Unido8.47
15Estónia8.4615Estados Unidos8.46
17Noruega8.4418Islândia8.41
19Taiwan8.4020Malta8.37
21-República Checa (8.34); 22-Lituânia (8.32); 23-Letónia (8.29); 24-Bélgica (8.29); 25-Japão (8.28); 26- Portugal (8.27); 27-Coreia do Sul (8.20); 28-Chile (8.15); 29-Espanha (8.12); 30-Roménia (8.11); 30-Singapura (8.11); 32-Itália (8.04); 33-Eslováquia (8.02); 33-França (8.02); 35-Eslovénia (7.97); 36-Chipre (7.93); 37-Croácia (7.86); 39-Bulgária (7.79); 40-Polónia (7.78); 45-Hungria (7.65); 52-Cabo Verde (7.45); 57-Grécia (7.33); 86-Timor-Leste (6.76); 109-Brasil (6.48); 114-Rússia (6.34); 120-Moçambique (6.24); 126-China (6.17); 130-Guiné-Bissau (6.07); 151-Angola (5.40); 161-Venezuela (3.80); 162-Síria (3.79).
Fonte: https://www.cato.org/human-freedom-index-new

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Sempre soubemos que a Nova Zelândia é um dos melhores países do mundo, uma democracia consolidada, bastante afastado geograficamente dos centros de conflito mundiais, um país pacífico, e, além de tudo isso, um território de grande beleza, com zonas quase intocadas. Não causa por isso surpresa a sua classificação como país mais livre do mundo,algo de que os neozelandeses se devem orgulhar. Dos países nórdicos, habituados aos primeiros lugares, quem se destaca é a Dinamarca, no 6º lugar, seguida da Finlândia (8º) e Suécia (11º). Noruega (17º) e Islândia (18º) também estão nos vinte primeiros lugares. Não há grandes surpresas neste ranking, portanto, mas há algo que salta à vista e que queremos realçar – a classificação de Hong Kong. Ao olharmos para a distância que separa o 3º lugar de Hong Kong e o 126º da China não podemos deixar de pensar nos cidadãos daquele território e na sua luta, precisamente pela liberdade, contra a perda de autonomia relativamente à China. É revoltante pensar nesse povo ameaçado por um gigante imensamente maior, sem que ninguém lhe queira valer. Portugal tem uma classificação mediana. Brasil fica abaixo de Cabo Verde e Timor-Leste e obtém uma classificação muito má.

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Coeficiente de Gini

Desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini, em 1912, mede a diferença de rendimentos dentro de um país. O coeficiente 0 corresponde a uma igualdade perfeita (quando todos os indivíduos têm igual rendimento) e 1 a uma desigualdade perfeita (quando todo o rendimento está concentrado num único indivíduo). Assim, quanto maior for o coeficiente mais desigual é o país. Vejamos quais os países mais igualitários em termos de distribuição de rendimentos, de acordo com este estudo da World Population Review, publicado em 2020.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Ilhas Faroé22.72Eslováquia23.7
3Eslovénia24.44Suécia24.9
5República Checa256Ucrânia25.5
7Bélgica25.98Cazaquistão26.3
9Bielorrússia26.510Moldávia26.8
11Noruega26.812Alemanha27
13Finlândia27.214Roménia27.3
15Islândia2816Malta28.1
17Hungria28.218Dinamarca29
19Albânia2920França29.3
21-Suíça (29.5); 22-Austrália (30.3); 23-Holanda (30.3); 24-Luxemburgo (30.4); 25-Áustria (30.5); 26-Paquistão (30.7); 27-Croácia (30.8); 28-Polónia (30.8); 29-São Tomé e Príncipe (30.8); 30-Irlanda (31.3); 33-Itália (31.9); 36-Canadá (32.1); 38-Reino Unido (32.4); 43-Taiwan (33.6); 47-Portugal (33.9); 51-Letónia (34.5); 52-Chipre (34.8); 53-Estónia (34.8); 60-Espanha (35.9); 62-Nova Zelândia (36.2); 64-Grécia (36.7); 71-Japão (37.9); 72-Lituânia (37.9); 77-Venezuela (39); 86-Bulgária (40.2); 93-Rússia (41.2); 99-Angola (42.7); 109-Estados Unidos (45); 111-Moçambique (45.6); 114-Singapura (45.9); 119-China (46.5); 128-Brasil (49); 137-Hong Kong (53.9); Lesoto (63.9).
Fonte: https://worldpopulationreview.com/countries/gini-coefficient-by-country/

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O coeficiente de Gini é um pouco controverso, uma vez que mede apenas a concentração de rendimento, o que só por si é curto para medir o nível de desenvolvimento social de um país, como, aliás, o ranking mostra (a Moldávia não é socialmente mais desenvolvida que o Canadá; ou a Ucrânia mais desenvolvida que a Nova Zelândia, apesar de terem um menor coeficiente de Gini). No entanto, um baixo coeficiente de Gini (uma menor desigualdade de rendimento) não é, em si mesmo, negativo, desde que não impeça o desenvolvimento de outras variáveis (como o crescimento económico, por exemplo), e isto também é controverso. Mais uma vez, trata-se de um indicador que tem de ser conjugado com outros. De qualquer forma, duas coisas são claras. 1- Dentro dos países mais ricos, os que têm um menor índice de Gini, ou seja, os mais igualitários, distribuídos entre os primeiros dezoito lugares são, mais uma vez, os países nórdicos (Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia e Dinamarca), desta vez acompanhados pelos países de Leste (a Alemanha também se sai bem); 2- Os estados cujos regimes fazem da igualdade a sua bandeira encontram-se na metade mais desigual do mundo: A Venezuela na posição 77 e a China na 119. Não há informação sobre Cuba ou a Coreia do Norte. Realce ainda para São Tomé e Príncipe, num surpreendente 29º lugar, e para o Brasil, na 128ª e péssima posição, um dos vinte países mais desiguais do mundo, no que diz respeito à distribuição do rendimento. De acordo com o relatório da World Population Review, os Estados Unidos têm um coeficiente de Gini de 0.485, o maior dos últimos 50 anos. Em 2015, 1% da população americana com maiores rendimentos recebeu em média 40 vezes mais que os 90% com rendimentos menores. Como em outros países com coeficientes de Gini muito elevados, a pobreza é um problema crescente. Nos Estados Unidos, cerca de 30 milhões de trabalhadores ganham menos de 10 dólares/hora, o que coloca uma família de quatro pessoas, nessas condições, abaixo do limiar de pobreza.

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Índice Mundial de Liberdade de Imprensa

O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa é publicado anualmente, desde 2002, pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Tem por base um inquérito feito a jornalistas de todo o mundo e relatórios sobre a violência exercida contra os profissionais dos diversos órgãos de comunicação social. Os parâmetros são os seguintes: pluralismo; independência mediática; ambiente e auto-censura; enquadramento legal; transparência; infraestrutura; abusos. A pontuação final é definida numa escala de 0 a 100, onde 0 representa a melhor pontuação possível e 100 a pior. A situação de cada país pode ser classificada como “boa”, “satisfatória”, “problemática”, “difícil” ou “muito grave”. O ranking que se segue é referente a 2019 e foi publicado em 2020.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Noruega7.822Finlândia7.90
3Suécia8.314Holanda8.63
5Dinamarca9.876Suíça10.52
7Nova Zelândia10.758Jamaica11.13
9Bélgica12.0710Costa Rica12.24
11Estónia12.2712Portugal12.63
13Alemanha14.6014Islândia14.71
15Irlanda15.0016Áustria15.33
17Luxemburgo15.6618Canadá15.69
19Uruguai16.0620Suriname16.38
21-Austrália (16.55); 22-Samoa (18.25); 23-Namíbia (18.95); 24-Letónia (19.53); 25-Cabo Verde (19.81); 26-Liechtenstein (20.49); 27-Gana (20.81); 28-Chipre (21.74); 29-Espanha (21.99); 30-Lituânia (22.06); 32-França (22.21); 33-Reino Unido (22.23); 34-Eslovénia (22.31); 35-Eslováquia (23.58); 40-República Checa (24.89); 42-Taiwan (24.98); 43-Itália (24.98); 47-Roménia (25.67); 48-Estados Unidos (25.69); 59-Polónia (28.89); 64-Croácia (29.03); 65-Grécia (29.08); 67-Japão (29.36); 73-Hong Kong (29.65); 77-Malta (29.74); 84-Timor-Leste (29.93); 87-Hungria (30.44); 89-Guiné-Bissau (30.95); 103-Moçambique (32.66); 105-Brasil (32.79); 109-Angola (34.96); 111-Bulgária (35.11); 148-Venezuela (49.10); 149-Rússia (50.31); 151-Singapura (51.41); 169-Cuba (63.81); 177-China (78.92); 180-Turquemenistão (84.44). Fonte: https://rsf.org/

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Mais uma vez os países nórdicos nos lugares cimeiros. Os três estados que no mapa ficam lado-a-lado, também se juntam no pódio dos países onde a imprensa é mais livre: Noruega, Finlândia, Suécia. Interessante a posição da Jamaica, em 8º lugar (em 2018 era o 6º!), e da Costa Rica, no 10º, o país com a classificação mais alta em toda a América Latina. Boa classificação de Portugal, “apesar da crescente precariedade e falta de recursos”. Muito preocupante a situação na União Europeia, sobretudo a Leste, com países com problemas graves ou gravíssimos, entre os quais, Roménia, Polónia, Croácia, Grécia, Malta, Hungria e Bulgária. Mas, surpreendentemente, também Espanha, Lituânia, França, Reino Unido, Eslovénia, Eslováquia, República Checa e Itália têm problemas. Uma situação assaz grave quanto à liberdade de imprensa dentro da União Europeia! De referir ainda a posição dos Estados Unidos, supostos paladinos da liberdade, num modesto 48º lugar (desceu 3 lugares), em grande parte devido à perseguição que Trump e a sua administração fazem aos jornalistas. Quanto ao Brasil, as “ameaças, ataques, assassinatos” fazem deste país “um dos mais violentos da América Latina para a prática do jornalismo”. Singapura, que noutros rankings ocupa lugares cimeiros, neste ocupa uma vergonhosa 151ª posição. Apesar de tantos problemas, um pouco por todo o mundo, as ditaduras são, como de costume, ainda piores: os governantes dos regimes de Venezuela, Rússia, Cuba, Vietname, China, Coreia do Norte e Turquemenistão[5] odeiam a liberdade. Em relação ao ano de 2018, o país mais subiu no ranking foi a Etiópia (40 lugares) e o que mais desceu foi a República Centro-Africana (-33 lugares).

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Índice da Democracia

Começou a ser publicado pela Economist em 2006. Os países são classificados como “Full Democracies” (Democracias Plenas); “Flawed Democracies” (Democracias Imperfeitas); “Hybrid Regimes” (Regimes Híbridos); ou “Authoritarian Regimes” (Regimes Autoritários). Estes últimos não são considerados democracias, mas sim ditaduras. A pontuação atribuída vai de zero a dez, em cada um dos seguintes cinco parâmetros: Processo Eleitoral e Pluralismo; Funcionamento do Governo; Participação Política; Cultura Política; e Liberdades Civis. Com a média resultante destas pontuações obtém-se a pontuação final que conta para atribuir as diferentes posições no Índice da Democracia. Vejamos o ranking.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Noruega9.872Islândia9.58
3Suécia9.394Nova Zelândia9.26
5Finlândia9.256Irlanda9.24
7Dinamarca7.227Canadá7.22
9Austrália9.0910Suíça9.03
11Holanda9.0112Luxemburgo8.81
13Alemanha8.6814Reino Unido8.52
15Uruguai8.3816Áustria8.29
16Espanha8.2918Maurícias8.22
19Costa Rica8.1320França8.12
21-Chile (8.08); 22-Portugal (8.03); 23-Coreia do Sul (8.00); 24-Japão (7.99); 25-Estados Unidos (7.96); 26-Malta (7.95); 27-Estónia (7.90); 28-Israel (7.86); 29-Botswana (7.81); 30-Cabo Verde (7.78); 31-Taiwan (7.73); 32- República Checa (7.69); 33-Bélgica (7.64); 34-Chipre (7.59); 35-Itália (7.52); 36-Eslovénia (7.50); 36-Lituânia (7.50); 38-Letónia (7.49); 39-Grécia (7.43); 41-Timor-Leste (7.19); 42-Eslováquia (7.17); 47-Bulgária (7.03); 52-Brasil (6.86); 55-Hungria (6.63); 57-Polónia (6.62); 59-Croácia (6.57); 63-Roménia (6.49); 75-Hong Kong (6.02); 75-Singapura (6.02); 119-Angola (3.72); 120-Moçambique (3.65); 134-Rússia (3.11); 140-Venezuela (2.88); 143-Cuba (2.84); 148-Guiné-Bissau (2.63); 153-China (2.26); 167-Coreia do Norte (1.08). Fonte: https://www.eiu.com/public/topical_report.aspx?campaignid=democracyindex2019

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O Índice de Democracia 2019 (publicado em 2020) obteve os resultados globais mais baixos desde 2006. Relativamente ao ano anterior (2018), a Tailândia registou a maior subida (está agora na posição 68) e a China a maior queda (desceu 23 lugares): embora já fosse um regime autoritário, tornou-se ainda pior. Três países – França, Chile e Portugal – passaram de “democracias imperfeitas” a “democracias plenas”. A Noruega obteve a pontuação máxima (10,00) em três das cinco categorias e atingiu a média de 9,87, destacando-se no primeiro lugar. A pontuação mais baixa de Portugal foi na “participação política” (6,11), mas na média dos cinco parâmetros subiu para 8,03. Destaque para Cabo Verde, o trigésimo país mais democrático do mundo! O Brasil ficou melhor classificado do que noutros rankings e poderia ainda subir uns lugares, não fosse a sua pontuação na “cultura política” (5,00) e no “funcionamento do governo” (5,36). A China, como já vimos, provou em 2019 ser uma ditadura das piores, abaixo de Angola, Moçambique, Rússia, Venezuela, Cuba, Guiné-Bissau e muitos outros “regimes autoritários”.

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Índice de Paz Global

O relatório sobre o Índice de Paz Global-2019 é o décimo terceiro publicado pelo Institute for Economics and Peace, com sede em Sydney, na Austrália, e escritórios em Nova Iorque, Haia, Cidade do México e Bruxelas. Este índice cobre 99,7% da população mundial, 163 estados e territórios independentes, e utiliza 23 indicadores qualitativos e quantitativos (com pesos diferentes), de fontes altamente respeitáveis, de acordo com três critérios de base: nível de segurança e proteção da sociedade; extensão dos conflitos domésticos e internacionais em curso; e grau de militarização.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Islândia1.0722Nova Zelândia1.221
3Portugal1.2744Áustria1.291
5Dinamarca1.3166Canadá1.327
7Singapura1.3478Eslovénia1.355
9Japão1.36910República Checa1.375
11Suíça1.38312Irlanda1.390
13Austrália1.41914Finlândia1.488
15Butão1.50616Malásia1.529
17Holanda1.53018Bélgica1.533
18Suécia1.53320Noruega1.536
21-Hungria (1.540); 22-Alemanha (1.547); 23-Eslováquia (1.550); 24-Maurícias (1.562); 25-Roménia (1.606); 26-Bulgária (1.607); 27-Chile (1.634); 28-Croácia (1.645); 29-Polónia (1.654); 30-Botswana (1.676); 32-Espanha (1.699); 35-Letónia (1.718); 36-Taiwan (1.725); 37-Estónia (1.727); 38-Lituânia (1.728); 39-Itália (1.754); 45-Reino Unido (1.801); 48-Timor-Leste (1.805); 60-França (1.892); 63-Chipre (1.914); 65-Grécia (1.933); 77-Angola (2.012); 91-Cuba (2.073); 94-Moçambique (2.099); 110-China (2.217); 112-Guiné-Bissau (2.237); 116-Brasil (2.271); 128-Estados Unidos (2.401); 144-Venezuela (2.671); 154-Rússia (3.093); 163-Afeganistão (3.574). Fonte: http://visionofhumanity.org/app/uploads/2019/06/GPI-2019-web003.pdf

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Destaque para a posição honrosa de Portugal, apesar da sua integração na NATO. É mesmo o primeiro país da União Europeia, atrás apenas da Islândia e da Nova Zelândia. Depois, nada de surpreendente, a não ser, talvez, o aparecimento do Butão entre os vinte primeiros, no 15º lugar. O Brasil fica de novo muito mal classificado (116º lugar) atrás de outros países lusófonos e, inclusive, de algumas ditaduras. Péssima posição dos Estados Unidos. Estranhamente, o Luxemburgo não faz parte do ranking, não sabemos porquê.

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Relatório da Felicidade Mundial

O Relatório da Felicidade Mundial-2019 é o sétimo publicado, desde 2012, e foi elaborado por um grupo de especialistas independentes de vários países. O relatório tem sete capítulos: “Felicidade e Comunidade: uma Visão Geral”; “Mudando a Felicidade Mundial”; “Felicidade e Comportamento Eleitoral”; “Felicidade e Comportamento Pró-Social: uma Avaliação da Evidência”; “O Triste Estado da Felicidade nos Estados Unidos e o Papel dos Meios Digitais”; “Big Data e Bem-Estar”; e “Dependência e Infelicidade na América”. Este ano o relatório foca-se sobretudo no ambiente: natural, social e urbano. Vejamos as pontuações.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Finlândia7.7692Dinamarca7.600
3Noruega7.5544Islândia7.494
5Holanda7.4886Suíça7.480
7Suécia7.3438Nova Zelândia7.307
9Canadá7.27810Áustria7.246
11Austrália7.22812Costa Rica7.167
13Israel7.13914Luxemburgo7.090
15Reino Unido7.05416Irlanda7.021
17Alemanha6.98518Bélgica6.923
19Estados Unidos6.89220República Checa6.852
22-Malta (6.726); 24-França (6592); 25-Taiwan (6.446); 30-Espanha (6.354); 32-Brasil (6.300); 34-Singapura (6.262); 36-Itália (6.223); 38-Eslováquia (6.186); 40-Polónia (6.182); 42-Lituânia (6.149); 44-Eslovénia (6.118); 48-Roménia (6.070); 49-Chipre (6.046); 53-Letónia (5.940); 55-Estónia (5.893); 58-Japão (5.886); 62-Hungria (5.758); 66-Portugal (5.693); 68-Rússia (5.648); 75-Croácia (5.432); 76-Hong Kong (5.430); 82-Grécia (5.287); 93-China (5.191); 97-Bulgária (5.011); 108-Venezuela (4.707); 123-Moçambique (4.466); 156-Sudão do Sul (2.853).
Fonte: https://happiness-report.s3.amazonaws.com/2020/WHR20.pdf

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Oito dos dez países mais felizes do mundo são da Europa Central e do Norte. Por outro lado, este é o único ranking em que o Brasil fica à frente de Portugal, e com grande vantagem. Alguns países que vínhamos monitorizando não fazem parte deste ranking: São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Cuba. Dos países da União Europeia, há três com uma classificação ainda pior que a portuguesa – Croácia, Grécia e Bulgária. O que torna a população de alguns países mais felizes que outras? De acordo com o relatório, a felicidade nórdica reside em fatores relacionados com a qualidade das instituições – benefícios sociais alargados e confiáveis, baixo nível de corrupção, bom funcionamento da democracia e das instituições estatais – com um elevado sentimento de autonomia e liberdade, e um alto nível de confiança nos outros (incluindo imigrantes) cidadãos do país[6]. Estes fatores interagem entre si e têm um efeito positivo uns sobre os outros[7].

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Os 12 Países-Modelo

O relatório do ranking anterior, sobre os países mais felizes, já nos deu algumas indicações quanto aos motivos porque certos países são, de facto, melhores que outros. Não, evidentemente, porque seus territórios ou habitantes sejam melhores, mas porque o seu grau de desenvolvimento atingiu um estádio mais racional, logo, mais humano. Gostaríamos de salientar algo que pode parecer pueril, mas que é importante: todos esses países são democráticos[8]. E isto não é pueril pelo seguinte. Mais de metade dos países do mundo são ditaduras, e é sempre melhor um país democrático, seja qual for, que uma ditadura. Os Estados Unidos, por exemplo, têm bastantes problemas e a sua democracia está longe de atingir, por razões que não vamos discutir agora, o desenvolvimento dos estados membros do nosso ranking dos países-modelo. O mesmo poderíamos dizer de Israel. Mas mesmo assim são democracias e, portanto, melhores que qualquer ditadura. Esta é a regra de ouro: a democracia, o estado de direito, a separação de poderes são a base da nossa civilização. Tudo o que viole a regra de ouro atrapalha o desenvolvimento social. E vamos ao nosso ranking.

RankPaísScoreRankPaísScore
1Suíça7.12Dinamarca8.1
3Islândia8.34Suécia8.5
5Finlândia8.86Noruega8.9
7Holanda10.38Austrália12.1
9Irlanda13.110Canadá13.4
11Nova Zelândia15.112Alemanha15.3
13-Áustria (16.0); 14-Bélgica (19.5); 15-Reino Unido (23.1); 16-Eslovénia (26.9); 17-Estónia (29,0); 18-República Checa (30.1); 19-França (30.7); 20-Espanha (31.3). O Luxemburgo poderia figurar entre os vinte primeiros deste ranking, mas por não ter sido avaliado no relatório sobre a Paz Mundial, não podemos incluí-lo, pois não seria lícito atribuir-lhe uma pontuação aleatória nesse ranking da paz mundial. Também Taiwan e Hong Kong, considerados como territórios autónomos nalguns relatórios, não constam de outros, certamente por influência da China; por isso, não podem, também, figurar do nosso ranking, embora, provavelmente, nos seus casos, não conseguissem atingir os vinte primeiros lugares. Cumpre ainda esclarecer que estados muito pequenos, como San Marino, Ilhas Faroé, Andorra, Liechtenstein e mesmo Malta, entre outros, também não são avaliados em todos os relatórios, pelo que também não podem ser contemplados no nosso ranking dos países-modelo.

Conclusões

O que este ranking mostra é, desde logo, a consistência de alguns países, sobretudo os nórdicos, excelentíssimos nas diferentes áreas. É essa consistência que faz a diferença – uma grande diferença. Se repararmos bem, ao 20º lugar da Espanha corresponde, praticamente, o dobro da pontuação do 12º da Alemanha. Daí, ter-nos parecido interessante não alargar demasiado o número de países-modelo. Se são “modelos”, não deve haver muitas discrepâncias entre eles. A Suíça, um país surpreendente, talvez o mais descentralizado do mundo com os seus vinte e seis cantões, superou os cinco países nórdicos que a seguem e ocupa o primeiro lugar do nosso ranking. Tentemos ver o que têm os países-modelo que os faz serem os melhores do mundo.

À partida, uma grande confiança nas instituições. Esta confiança advém, em larga medida, de um baixo nível de corrupção. Um relatório da Transparency International e o seu respetivo Índice de Perceção da Corrupção-2019, ainda não abordado neste artigo[9], confirma que os nossos países-modelo são os menos corruptos. Os vinte países menos corruptos são, de acordo com esse relatório: Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Singapura, Suécia, Suíça, Noruega, Holanda, Alemanha, Luxemburgo, Islândia, Austrália, Áustria, Canadá, Reino Unido, Hong Kong, Bélgica, Estónia, Irlanda e Japão. Podemos verificar que os nossos 12 países-modelo estão todos incluídos nestes vinte. Já os países com as piores classificações no nosso ranking são, como seria de esperar, os países mais corruptos[10]. O reduzido nível de corrupção tem um efeito positivo sobre os cidadãos: há um incentivo para cumprir com as obrigações fiscais porque se sabe que o dinheiro coletado vai ser bem aplicado. Por outro lado, essa confiança nas instituições, ou seja, no país, tende a generalizar-se: os indivíduos passam a confiar mais uns nos outros, a aceitarem-se nas suas diferenças, e a sociedade torna-se cada vez mais inclusiva e coesa. Tudo isto é um incentivo à participação. E a participação reflete-se, claro, na qualidade da democracia[11].

Outra característica importante destes países é a liberdade. São estados verdadeiramente livres e democráticos, respeitadores dos direitos humanos e das liberdades individuais. De acordo com o relatório sobre a felicidade mundial (o último que analisámos), a sensação de liberdade depende de três fatores principais que interagem entre si: o bem-estar material, que liberta as pessoas da escassez; as instituições políticas democráticas, que libertam as pessoas da opressão política; e os valores tolerantes e liberais, que dão mais espaço às pessoas para expressarem as suas identidades únicas. Este sentimento de autonomia e liberdade reflete-se numa imprensa verdadeiramente livre, imune a pressões políticas e económicas, na linha da frente do jornalismo independente, como mostra o relatório que abordámos sobre liberdade de imprensa.

E há ainda a considerar, como fator importante, os benefícios sociais do Estado, aquilo que os ingleses designam por welfare state. Falamos de pensões de reforma, subsídios de desemprego e de doença, serviços de educação e saúde (incluindo saúde mental), lares de idosos, prisões e até transportes públicos de qualidade. E, ao contrário do que por vezes se pensa, embora estes benefícios ou serviços sejam garantidos pelo Estado, não quer dizer que sejam sempre prestados pelo Estado[12]. Este estado social de grande qualidade implica necessariamente um financiamento e gestão eficazes e, como já vimos, um baixo nível de corrupção. Apesar disso, e embora os impostos sobre o rendimento das famílias seja relativamente elevado nos países nórdicos, a carga fiscal não é excessivamente alta, pois a composição dos impostos é feita de forma inteligente e de maneira a não dificultar a atividade económica nem a criatividade das empresas. Como seria de esperar, os nossos 12 países-modelo estão entre os 24 países do mundo mais competitivos no que diz respeito à tributação[13]. Este não é o caso de Portugal, onde os impostos sobre as empresas são dos mais altos entre os países desenvolvidos (o nosso IRC, com sobretaxas, é o segundo mais elevado da Europa), fazendo com que muitas empresas não queiram investir no nosso país[14]. Porém, os nossos países-modelo não são apenas competitivos ao nível tributário. As suas economias estão também entre as mais pujantes do mundo, de acordo com o Relatório da Competitividade Global 2017-2018, do Fórum Económico Mundial[15]. Analisámos, ainda, o ranking (elaborado pelo World Bank) sobre a ineficiência burocrática mundial, entre 2008 e 2017, e pudemos verificar que os países nórdicos estão entre os menos burocráticos do planeta [16].

Finalmente, sistemas de justiça eficazes, credíveis e céleres[17]. Estudos diversos levam a concluir que sistemas judiciais eficazes e defensores do Estado de Direito produzem efeitos económicos benéficos: o crédito é facilitado; as empresas são dissuadidas de comportamentos oportunistas e tornam-se mais propensas a inovar e investir; os custos de transação são diminuídos. Está igualmente provado que as empresas analisam a eficácia e a independência dos sistemas de justiça dos países onde pretendem investir; um inquérito a pequenas e médias empresas revela que mais de metade considera o custo e a duração dos processos judiciais como o principal motivo para não interpor uma ação por violação dos direitos de propriedade intelectual. Estas conclusões constam do relatório de 2019 do Painel de Avaliação de Justiça da União Europeia sobre os sistemas judiciais dos países da União, baseado em três critérios: 1-a duração dos processos (tempo médio de dias para resolver um caso), 2- a taxa de resolução (o rácio entre casos resolvidos/recebidos) e 3- o número de processos pendentes (que ainda precisam ser tratados no final do ano). De acordo com esse relatório, os países do Sul da Europa têm os sistemas de justiça mais lentos e os do Norte os sistemas mais céleres e eficazes. No que toca ao tempo de resolução de processos civis, comerciais, administrativos e outros em tribunais de primeira instância, por exemplo, apenas o Chipre está pior que Portugal. Grécia, Itália, Malta, França e Espanha acompanham-nos nos últimos lugares. O sistema mais eficaz dentro da União Europeia (e do mundo) é o dinamarquês. Talvez Portugal pudesse aprender algo estudando os sistemas judiciais estoniano (2º melhor da UE neste quesito) e esloveno (6º) que conseguiram, nos últimos anos, grandes melhorias[18].

A longa tradição democrática dos nossos países-modelo é mais importante do que as políticas de quem provisoriamente ocupa o poder. As instituições são igualmente mais importantes que as personalidades ou as ideologias. Por isso, o bom rumo vai-se mantendo, apesar das cores políticas se irem alternando. Nunca é de mais realçar a importância da alternância no poder, uma das grandes vantagens da democracia. Isto deveria fazer-nos atentar no seguinte: nenhuma ideologia é sempre melhor que todas as outras, nem nenhum partido político é sempre melhor que todos os outros. Há momentos em que, pelas mais variadas razões, é necessário mudar de rumo; e essa necessidade é uma coisa boa, pois evita que pessoas, partidos e ideologias se eternizem no poder[19]. Atualmente, nestes doze países, há governos conservadores, liberais, democratas-cristãos, sociais-democratas, populares e verdes. E, metade deles (Noruega, Islândia, Finlândia, Dinamarca, Nova Zelândia e Alemanha) são chefiados por mulheres. Ao contrário dos países sub-desenvolvidos, nas democracias socialmente mais avançadas, o extremismo e as ideologias radicais esbarram nas sólidas cultura democrática e tradição liberal. A diferença faz-se por mais pragmatismo, mais racionalismo, mais tolerância e mais liberdade.

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Notas:

[1] Em outro artigo do nosso blogue afirmamos o seguinte. “Os melhores medidores do desenvolvimento social de um Estado são as prisões, os hospitais psiquiátricos e os lares de idosos”. https://ilovealfama.com/2016/08/28/alfama-a-solta-2/

[2] A divisão entre países lusófonos e países governados por ditadores não é clara uma vez que também há países lusófonos com graves problemas no que diz respeito aos valores democráticos.

[3] Países com o maior PIB per capita: 1- Qatar (110,489); 2- Liechtenstein (99,732); 3- Singapura (83,793); 4- Brunei (76,389); 5- Kuwait (71,164); 6- Noruega (68,095); 7- Emirados Árabes Unidos (66,912); 8- Luxemburgo (65,543); 9- Hong Kong (60,221); 10- Suíça (59,375); 11- Estados Unidos (56,140); 12- Irlanda (55,660). Por curiosidade: Portugal (27,935); Brasil (14,068). Dados referentes ao ano de 2011.

[4] Para o índice de 2020, a maioria dos dados abrange o segundo semestre de 2018 e o primeiro semestre de 2019. No entanto, os autores do estudo alertam para o facto de alguns fatores se basearem em informações históricas. Um exemplo é o fator de política monetária, que é uma taxa média ponderada de inflação de três anos: de 1 de Janeiro de 2016 a 31 de Dezembro de 2018.

[5] Recentemente, o Presidente desta ex-república soviética, Gurbanguly Berdymukhammedov, proibiu os cidadãos seus compatriotas de falarem sobre o corona vírus, sob pena de serem detidos. As máscaras também são proibidas no país, onde, oficialmente, não existe ninguém doente com Covid-19. https://observador.pt/2020/04/02/presidente-do-turquemenistao-bane-a-palavra-coronavirus/

[6] Deixamos, como curiosidade, um mapa publicado pelo Washington Post sobre a recetividade a estrangeiros nos diferentes países do mundo, que pode ser consultado no seguinte artigo do nosso blogue: https://ilovealfama.com/2013/08/16/alfama-anfitria/

[7] É comum encontrarmos quem pense que a taxa de suicídios nos países nórdicos é muito elevada. Isto não corresponde à verdade, embora haja uma maior taxa de suicídios nos países ricos em relação com os países mais pobres. Nas últimas décadas do século passado houve, sim, altas taxas de suicídio nos países nórdicos, mas medidas muito incisivas no âmbito da saúde mental (que é levada a sério nesses países), fizeram cair drasticamente essas taxas. As autoridades escandinavas tomaram consciência da desordem afetiva sazonal (SAD-seasonal affective disorder) que afeta as populações nas longas noites de inverno (20 horas sem luz natural), e atuaram em conformidade. Para saber mais ver: https://worldpopulationreview.com/countries/suicide-rate-by-country/

[8] Não vamos entrar aqui numa discussão estéril sobre o conceito de democracia, muito útil a demagogos. É muito fácil perceber que a democracia é sinónimo de liberdade. Liberdade de criticar e de ser criticado. Liberdade de reunião e associação. Liberdade de escolha. Liberdade de eleger e, consequentemente, demitir os políticos que nos representam. Só com estas liberdades poderemos garantir os direitos humanos e a separação de poderes. E só com liberdade poderemos reformar e melhorar.

[9] Mesmo que incluíssemos este índice na avaliação dos nosso países-modelo, as posições destes não seriam alteradas.

[10] O relatório e ranking podem ser vistos em: https://www.transparency.org/files/content/pages/2019_CPI_Report_EN.pdf

[11] Apesar das eleições não serem o único meio de participação democrática, devemos esclarecer que a taxa de participação nas últimas eleições gerais na Suíça, o primeiro país do nosso ranking, se quedou pelos 45,1%. Isto, porém, não é surpreendente pois a Suíça, como já foi dito, é talvez o país mais descentralizado do mundo, um país onde as políticas dos cantões são mais diretamente sentidas pelos cidadãos do que a política geral.

[12] Ver nosso artigo sobre as transformações na educação e saúde da Suécia aqui: https://ilovealfama.com/2018/08/21/reinventar-o-estado-social-a-experiencia-sueca/

[13] Para analisar a competitividade internacional relativamente aos impostos, ver: https://taxfoundation.org/publications/international-tax-competitiveness-index/

[14] Ver: https://www.dinheirovivo.pt/economia/temos-o-segundo-irc-mais-alto-da-europa/

[15] http://www3.weforum.org/docs/GCR2017-2018/05FullReport/TheGlobalCompetitivenessReport2017%E2%80%932018.pdf

[16] Os resultados deste ranking são muito díspares quanto às posições dos nossos países-modelo, com alguns deles com um relativamente baixo nível burocrático (Suécia, Alemanha, Finlândia, Noruega, Dinamarca) e outros com um nível relativamente elevado (Suíça, Canadá, Holanda, Nova Zelândia). O ranking pode ser visto aqui: https://tcdata360.worldbank.org/indicators/mpf.gov.bur?country=BRA&indicator=3279&viz=line_chart&years=2008,2017#table-link

[17] https://worldjusticeproject.org/sites/default/files/documents/WJP-ROLI-2020-Online_0.pdf. De acordo com este relatório (que não inclui a Suíça), os doze melhores Estados de Direito são: 1- Dinamarca; 2- Noruega; 3- Finlândia; 4- Suécia; 5- Holanda; 6- Alemanha; 7- Nova Zelândia; 8- Áustria; 9- Canadá; 10- Estónia; 11- Austrália; 12- Singapura. Como se vê, no topo, os “suspeitos” do costume…

[18] https://ec.europa.eu/info/sites/info/files/justice_scoreboard_2019_en.pdf

[19] Noutro local deste blogue comparámos a governação de um país com uma navegação à bolina (contra o vento). Para manter o bom rumo é necessário bolinar, ora para a esquerda, ora para a direita. Num país, quem decide essas mudanças de direção, são os eleitores. https://ilovealfama.com/2016/08/28/alfama-a-solta-2/

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