25 de Abril (eu estive lá)

Naquele dia saí cedo de casa e corri para a Baixa. Pelo caminho, vi soldados estendidos no asfalto em posição de combate. Vi tanques de guerra. Vi gente chegando. Vi, em pouco tempo, uma multidão encher o Rossio, o Chiado, o Bairro Alto e todo o centro de Lisboa. Vi senhoras que traziam flores vermelhas, em cestos de verga, e as ofereciam aos soldados – os nossos heróis. Vi o Largo do Carmo apinhado, com jovens, como eu, empoleirados das árvores e em cima dos tanques do exército. Vi as pessoas saudarem-se, sorrirem-se, abraçarem-se – vi a felicidade estampada em seus rostos.

E também eu – que estive lá! – participei de pequenas manifestações espontâneas, que se juntavam a outras manifestações espontâneas. Vagas de júbilo que cirandavam no coração de Lisboa, na maior e mais bonita festa que já vivi. Hoje, 39 anos passados, o 25 de abril não é mais a bela festa que foi em 1974.
Muitos reclamam que não se cumpriu o “espírito de abril”. Arrogam-se seus legítimos defensores ou representantes. Acham que o país não segue o rumo que abril preconizou.
25 abril
Pois, nada disto é verdade. Abril não se fez para nos dar (ou apontar) um rumo. Abril fez-se, coisa muito diferente, para nos dar a possibilidade de nós próprios escolhermos um rumo. O 25 de abril, através dos militares e desse herói que foi o Capitão Salgueiro Maia, restituiu-nos “apenas” o valor mais elevado da vida social, o único pelo qual, alguém disse um dia, vale a pena morrer e aquele que uniu o povo no 25 de abril de 1974. Eu estive lá e posso testemunhá-lo. A palavra gritada pelo povo era: “LIBERDADE”!

Por que deixei de ser marxista

Não me recordo exatamente em qual dia, mas foi numa data importante, numa noite em que o Partido Comunista encheu o Campo Pequeno. Eu deveria ter 17 ou 18 anos, no máximo, foi em 1975 ou 1976. Um amigo, bastante mais velho, com quem conversava, regular e apaixonadamente, sobre a política efervescente da época, militante do PCP, levou-me com ele. Lembro-me de estar no meio de uma multidão enorme, com uma braçadeira vermelha no braço. Lembro-me da força daquela multidão, do som ensurdecedor que se produzia quando gritávamos as palavras de ordem em uníssono. Eu já havia experimentado aquela sensação de poder, por exemplo no 25 de abril, mas ali, além desse sensação agradável, senti também uma outra que me assustou. Na verdade, para ser sincero, aterrorizou-me. Senti-me anulado por aquela força coletiva – um átomo apenas, que se anima na mesma direção de todos os outros. Um ser diluído numa corrente, sem qualquer possibilidade de escape. (Reparo, agora que escrevo estas linhas, que “átomo”, “célula” são termos utilizados pelos partidos coletivistas, talvez influenciados por Spencer, o pensador inglês que via a sociedade como um organismo). Alguém que naquele instante se opusesse de alguma forma ao que ali se passava seria pura e simplesmente esmagado. Isso foi óbvio para mim. Naquela altura eu ainda não lera Marx, mas aquela sensação foi suficiente para que me interrogasse sobre as minhas ideias, as quais, com muitas lacunas ainda hoje, apresentavam muitas mais naquela época.

Em primeiro lugar, interroguei-me se queria ser um “coletivista”. E por mais voltas que desse, a resposta interior era sempre “não”. Era, não apenas, mas, sobretudo, intuição. Eu não sabia muito bem explicar por quê. Mas o coletivismo assustava-me.
Só mais tarde percebi que o que se opõe ao coletivismo é o individualismo. Eu era, de facto, e por natureza, um individualista. Infelizmente, esta palavra tem ainda hoje uma conotação negativa, de tal forma que muito boa gente, sendo individualista, tem quase (ou tem mesmo) vergonha de o dizer. Tal facto deriva de um equívoco: o de se confundir “individualismo” com “egoísmo”. Porém, o que se opõe ao egoísmo não é o coletivismo, é o altruísmo. Assim, uma pessoa pode perfeitamente ser coletivista e egoísta ou ser individualista e altruísta. Esta distinção, que me parece de uma lógica irrefutável, não poderia sair, obviamente, de uma cabeça pobre como a minha, fê-la um senhor chamado Karl Raimund Popper. Mas foi muito importante para me sentir melhor com a minha irritante intuição.
Depois, com o tempo, acabei por perceber que as sociedades coletivistas são também sociedades totalitárias. Não poderia, aliás, ser de outra maneira, uma vez que a ideologia coletivista sobrevaloriza o todo (chamemos-lhe sociedade, coletividade, organismo, nação, estado, as terminologias são pouco importantes) em detrimento do indivíduo – e é nisso que reside a sua “superioridade” – uma entidade infinitamente mais poderosa e perfeita que o mero indivíduo, sendo que este apenas deve servir essa organização social superior. Essa ideologia totalitária e coletivista uniu, como se sabe, causas tão diversas como o marxismo, o nazismo e seus derivados…
Outra coisa que para mim se tornou cada vez mais evidente, foi a distinção (que jamais devemos esquecer) entre teoria e prática. A doutrina marxista parece-me extraordinária, Marx foi um pensador ilustríssimo, extremamente útil no contexto histórico da sua época, e eu não sou ninguém para criticar o seu pensamento. E, no entanto, nem mesmo as teorias científicas das ciências exatas resistem ao tempo. Poderá uma teoria social, lidando com variáveis tão imprevisíveis quanto “homem” e “poder”, fazê-lo?
Essa distinção entre teoria e prática (a que não é, evidentemente, alheia a história) faz-me ficar de pé atrás ao que provavelmente muitos dirão: “mas não é verdade que não exista pluralidade de opiniões entre os marxistas!”. Pois não, na teoria. Uma vez com o poder, quem ousar criticar a posição oficial será severamente punido, preso, torturado, executado.
E, na política atual à portuguesa, sabem por que me irritam as posições de BE e PCP? Porque, se são na realidade marxistas, deveriam em consequência fazer a revolução. Marx disse, e com razão, que os capitalistas jamais cederiam o poder, mesmo através de eleições, uma vez que todo o processo é por eles controlado. Será preciso, portanto, conquistar o poder. Porém, como faltam a coragem, a força e a convicção, é muito mais fácil prometer tudo sem se comprometer com nada. O exemplo de um líder (Louçã) que faz cair um governo para dar de mão beijada o poder à Direita, que perde metade dos deputados nas eleições e continua com o mesmíssimo discurso de sempre, que não se compromete com uma única solução de poder, nem sequer o da via revolucionária, é na minha modestíssima opinião o exemplo acabado de um demagogo e de um charlatão, que vive no conforto podre da inimputabilidade.
Quer tudo isto dizer que estou contente com a situação atual, tanto no país como no mundo? Não, não estou. Não sou de forma alguma um liberal e nunca votei PSD ou CDS. Só acho que de um extremo não devemos passar a outro. Até porque já vimos que os extremos se tocam. Os fabianos em Inglaterra e os revisionistas na Alemanha, foram, no passado, movimentos que se afastaram da linha dura do marxismo. Os seus princípios consubstanciam-se numa ideologia a que podemos chamar de “social-democracia” (parece-me desnecessário referir que não tem nada a ver com o PSD português). São os exemplos históricos de Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Holanda (em alguns momentos, também Alemanha, França, Reino-Unido e até Portugal), enfim, o velho modelo social europeu: o mais avançado que se conhece no mundo, algures entre o liberalismo desenfreado americano e as ideologias coletivistas. É este modelo que urge recuperar e viabilizar. As contribuições para que isto aconteça são todas bem-vindas, mas, por serem difíceis, são também raras. Mais fácil é, sem dúvida, a demagogia.
Isto é apenas uma opinião sem valor. Outras muitíssimo melhores e, sobretudo, muito mais inovadoras são necessárias. Assim possamos preservar o essencial. E o essencial chama-se Liberdade.
Hoje tomei a liberdade de dizer por que deixei de ser marxista.