Um país em guerra – Brasil

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A “presidenta”.

Não bastava a guerra efetiva nas ruas, bairros e cidades do Brasil, onde todos os anos se assassinam mais de 40.000 pessoas, chegou agora também ao país uma verdadeira guerra política. Talvez alguns considerem exagero, mas os ingredientes de uma guerra estão, de fato, presentes: a diabolização do inimigo; a propaganda; a deturpação de alguns factos e a invenção de outros; a radicalização de posições; a rejeição aos cidadãos independentes e a adoção da máxima “se não és por mim, és meu inimigo”.

Talvez este seja o aspeto mais pernicioso desta guerra efetiva. A tentativa – quase sempre coroada de êxito, face ao reduzido número de pessoas verdadeiramente livres e esclarecidas – de empurrar os independentes para o lado inimigo. Enquanto numa democracia amadurecida os independentes, sem fidelização partidária ou ideológica, vão contribuindo para uma saudável alternância de governos, nas democracias frágeis, onde a tolerância é ainda incipiente, os independentes, sempre que não consigamos convertê-los ao nosso credo, são empurrados para o extremo oposto e vistos como inimigos.

Assim, quem não é vermelho é fascista e defende a ditadura militar, e quem não é verde e amarelo é um perigoso comunista que defende a ditadura do proletariado. E vale tudo, precisamente como numa guerra, para mostrar estas supostas evidências: o recurso a notícias falsas, deturpadas, manipuladas, e à mais elementar propaganda, é recorrente e preenche um espaço assustador dos modernos meios de comunicação social, como são os casos do Twitter e do Facebook.

E o mais espantoso é ver intelectuais, professores universitários e artistas consagrados, divulgarem acriticamente todo o tipo de falsidades, cegos pela crença partidário/ideológica. Pouco importa as questões constitucionais, legais, legítimas, políticas, que sustentam ou não o impeachment da presidente. Para quem apoia o PT é um golpe, para os outros apenas interessa derrubá-la, pouco importa a forma como isso seja feito.

É verdade que a linha constituída pelos possíveis substitutos de Dilma na presidência – Temer, Cunha, Calheiros e companhia – é uma linha podre. Mas é igualmente verdade que o recurso ao impeachment só foi possível pela extraordinária incapacidade política da presidente, quer na condução da economia do país, quer no diálogo, que foi incapaz de manter, com senadores e deputados. E há que ter em conta o seguinte: o facto de Dilma ter sido uma lutadora antifascista não faz dela, por si só, uma boa governante. A política económica de Dilma foi (e é ainda) um desastre – e a ela se deve a grave crise política atual.

Mas nada disto interessa aos fundamentalistas. A única coisa que aceitam de bom grado é discutir, como fizeram nas eleições de 2014, quem é mais ou menos corrupto, quem é mais ou menos ladrão, a mesmíssima discussão que têm agora relativamente ao “golpe”. Com isto, os não-alinhados e independentes, não conseguem fazer-se ouvir, nem colocar em agenda aquilo que verdadeiramente importa – melhorar a vida dos muitos milhões de brasileiros em dificuldades e resgatar o Brasil do seu profundo atraso económico e social.

Como ponto de partida, haveria que colocar em cima da mesa uma reforma do sistema político, a qual, com os atuais intervenientes na Câmara e no Senado (grande parte deles indiciados por corrupção), se afigura bastante difícil, para não dizer impossível. Só com novas eleições – se estas trouxerem novos protagonistas – é lícito ter alguma esperança. O Brasil em guerra é um país num impasse.

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foto retirada de www.telesurtv.net.

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O salário mínimo no Brasil

inflaçao

Foi anunciado ontem o aumento de 11,7% do salário mínimo, que passará dos atuais 788,00 para 880,00 reais em 2016. Como é hábito no Brasil, trata-se de mais uma medida para agradar a gregos e troianos (leia-se população em geral – sobretudo, potenciais eleitores do PT – e governo). Os primeiros ficam satisfeitos porque acham que o seu poder de compra vai crescer e o segundo porque vê a sua imagem sair um pouco melhor desta conjuntura de final de ano.

Mas o que é mais impressionante não é a ignorância do povo e a medida populista do governo. O que impressiona mesmo é a falta de conhecimento de comentadores e economistas, pessoas (supostamente) instruídas e especializadas em assuntos económicos. É que, realmente, um aumento substancial do salário mínimo pode não ser vantajoso para ninguém. Parece um contrassenso, mas é fácil de esclarecer. O Brasil é um país com inflação elevada e crónica. Ora, esta medida irá contribuir para o aumento da inflação no país pelos seguintes motivos:

1- Os empresários, para fazerem face ao aumento dos custos vão aumentar os preços dos bens e serviços, repassando o ónus desta medida do Governo para o consumidor. Isto quer dizer que o aumento do salário vai ser “comido” pelo aumento dos preços.

2- Sendo o salário mínimo um valor de referência, outros salários vão aumentar proporcionalmente, ou, o mais provável, mais que proporcionalmente, criando o efeito de “corrida aos armamentos”, através de mais aumentos dos preços, e novos aumentos dos salários, e assim sucessivamente, continuando e reforçando o processo inflacionário.

3- Os reajustes salariais vão contribuir para o aumento dos gastos do Governo, que já está endividado, aumentando igualmente a pressão para que se mantenham os impostos altíssimos e/ou se crie mais moeda. Mais moeda implica duas coisas: desvalorização e inflação.

Estas são as três consequências básicas e previsíveis. Para que este impacte inflacionário não seja desastroso o que podem fazer o Governo e o Banco Central? Por um lado, cortar nas prestações sociais para diminuir a despesa pública e, por outro, manter altíssimas as taxas de juro, prejudicando a economia, mantendo o Brasil com taxas de investimento medíocres. Estas medidas piorarão as condições de vida dos brasileiros em geral, sobretudo dos mais pobres. Como se sabe, a inflação é sobretudo um flagelo para a população mais desfavorecida, pelo que a propaganda do Governo e medidas como o reajuste do salário mínimo são opções de “fim de linha”, agravando um problema que deveria ser evitado a montante. Com a inflação alta, os únicos beneficiários são os ricos, pelo que o dever principal de um Governo dos trabalhadores deveria ser o de controlar a inflação. Isso deveria fazer-se com aumentos progressivamente menores, que dessem um sinal de combate à inflação, e não com aumentos populistas de sinal contrário, os quais mostram que o Governo se preocupa sobretudo com ele próprio e não com as pessoas. Como pano de fundo deste cenário está o protecionismo, ou seja, o fechamento da economia brasileira ao mundo, a tentativa de proteger a sua economia que resulta, por falta de concorrência, numa ineficiência crónica. (Podem ler mais sobre o assunto aqui e aqui).

Infelizmente, o que prevalece no Brasil continua a ser a propaganda generalizada. As regras da economia são negligenciadas e o povo, desconhecendo-as, não tem como se defender, pelo contrário, luta pelo que só agrava a sua própria condição.

Mais um paradoxo num país paradoxal.

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Imagem retirada de forum.antinovaordemmundial.com

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A importância da bandeira

bandeira do Brasil

Foi quase há um ano que deixei aqui o meu artigo “Base de um Programa Eleitoral para Mudar o Brasil, em 10 Pontos Prioritários”. Entretanto, ocorreu a campanha eleitoral e o que se debateu? Tudo, menos aquilo que realmente importava discutir: os problemas gravíssimos que o país enfrenta. Um mês depois do fim da campanha para a presidência, a luta política continua nos mesmos moldes: quem é mais corrupto; se se rouba mais hoje que ontem; se este governo é mais ou menos ladrão que o anterior…

As cidades brasileiras continuam sem saneamento; as estradas e ruas e passeios do Brasil continuam esburacados; continuam a ser assassinados mais brasileiros todos os anos do que soldados em muitas guerras; nem 10% dos crimes de morte são investigados; os brasileiros continuam sem educação de qualidade e isso reflete-se em todos os setores da vida comunitária; a produtividade é confrangedoramente baixa; a inflação ameaça o rendimento dos mais desfavorecidos; a corrupção do Estado é gigantesca; o investimento é anémico; a dívida externa não pára de crescer; a burocracia tolhe o desenvolvimento económico e a paciência dos cidadãos; a Saúde Pública é deficiente; a Justiça não é independente; etc, etc, etc.

E o que se discute é quem é o maior ladrão – se o partido A ou o partido B…

Talvez fosse preferível o Brasil seguir a frase escrita em sua bandeira. “Ordem e Progresso”. Primeiro “ordem” e depois “progresso”, e não o contrário.

Se isto parecer pouco importante, talvez um economista do desenvolvimento, o britânico Paul Collier, seja mais elucidativo[1]. Diz ele que o estabelecimento do Estado de Direito num país acontece em quatro etapas:

1ª (e indispensável) – Reduzir a violência.

2ª – Proteger os direitos de propriedade.

3ª- Impor controlos institucionais sobre o governo.

4ª- Combater a corrupção no setor público.

Parece que, sob o conjunto destes critérios, o Brasil não é, de facto, um Estado de Direito. Mas pode vir a sê-lo se os brasileiros se convencerem que têm de seguir, sem inversões e sem cedências à demagogia, o que está escrito na sua bandeira.

Ontem, já era tarde…

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[1] http://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Collier

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O primeiro império marítimo mundial

Império português1

Parece haver apenas duas formas de nos posicionarmos face aos Descobrimentos Portugueses. Uma é considerada conservadora, atrasada, imperialista, de Direita. Outra, anti-patriótica, ignorante, leviana, de Esquerda. Estes sentimentos antagónicos acirram-se ainda mais em tempos de crise, como o que vivemos atualmente.

No entanto, factos são factos, e os Descobrimentos foram efetivamente um feito extraordinário, não apenas da História de Portugal, mas também da História Universal[1]. Portugal alargou o mundo para lá do Mediterrâneo que – como o nome indica – era até então o centro da Terra. África, América, Ásia e, ao que parece, a própria Austrália[2] foram alcançadas pelos navios portugueses. Tal feito é ainda mais extraordinário se considerarmos a pequena dimensão de Portugal e o seu reduzido número de habitantes. A solução para o problema populacional foi encontrada através da miscigenação, por um lado, e pelo comércio de escravos (sobretudo para o Brasil), por outro.

Portugal foi no século XVI o país mais rico do mundo. Não apenas o mais rico, mas também o mais avançado nos campos científico e tecnológico. O conhecimento era “de experiência feito”, como escreveu Camões, e essa experiência entrava pelo Tejo num número impressionante de navios, oriundos de todas as partes do mundo.

As embarcações lusas eram as melhores e as maiores que existiam e ainda hoje algumas delas são procuradas, como é o caso do galeão Flor de la Mar, afundado em 1511 nas águas costeiras de Sumatra, antes de concluir meio-dia de viagem. Em 1992, a casa de leilões de arte Sotheby’s avaliou o tesouro afundado com o Flor de la Mar, a preços desse ano, em 2,5 mil milhões de dólares[3]. Outro navio, o Madre de Deus, capturado nos Açores pelos ingleses[4], em 1592, foi conduzido a Inglaterra. Este navio era três vezes maior que qualquer navio britânico e vinha da Índia carregado de tesouros. A carga foi avaliada em meio milhão de libras esterlinas, uma soma astronómica, equivalente a quase metade de todo o tesouro inglês[5].

O império português foi um império marítimo, tal como o inglês, mas no caso português essa denominação é ainda mais verdadeira pois, como vimos, os portugueses não tinham homens em número suficiente para ocupar as terras. Estabeleceram-se várias praças nas zonas costeiras, através das quais os portugueses controlavam e faziam o comércio. Ainda assim, em todos os lugares por onde passaram, deixaram legados culturais, seja no património edificado, seja na língua[6], nas artes, na religião ou em outras manifestações, como a gastronomia.

Portugal é um país voltado para o mar. Espanha, o único país com quem tem fronteiras terrestres, constituiu sempre uma espécie de barreira que obrigou Portugal a enfrentar o desafio marítimo. Nunca se procurou a expansão continental, nem isso seria possível. Portugal abriu caminho para que outros impérios marítimos surgissem, sobretudo o holandês e, com uma implantação posterior mas também mais forte, o inglês. Portugal e Inglaterra foram velhos aliados contra espanhóis, holandeses e franceses. Claro que a Inglaterra, como país muito maior, se aproveitou muitas vezes das nossas fraquezas[7]. Mas é também verdade que mantivemos algumas colónias (sobretudo, o gigante Brasil) graças à proteção dos ingleses.

Outros países europeus, mais virados para o continente do que para o oceano, procuraram construir impérios pela via terrestre – sobretudo os casos russo e alemão[8] – e estes impérios terrestres haveriam de ser bem mais destrutivos que os marítimos, custando muito caro à Eurásia, dizimada pelos regimes nazi e estalinista. Quando no final do século XIX os europeus decidiram repartir entre si o continente africano, Portugal já ali se implantara há 500 anos. A colonização africana foi brutal, sobretudo a belga e a alemã[9] – e isso conduz por vezes à discussão sobre colonizações “suaves” (se é que existem) e “brutais”.

A colonização portuguesa, apesar das idiossincrasias locais, foi, em alguns períodos, brutal. Há relatos de atrocidades cometidas pelos portugueses, praticamente em todos os lugares onde se estabeleceram. Mas nunca praticaram o extermínio. Até porque precisavam dos habitantes locais para se multiplicarem e para conseguirem a mão-de-obra necessária à manutenção dos territórios. A escassez de mão-de-obra foi, aliás, sobretudo no Brasil, uma das razões principais da prática da escravatura – o que pode ser considerado a maior pecha da colonização portuguesa. Apesar da escravatura sempre ter existido e continuar a existir, talvez sob formas piores, tal não constitui desculpa para uma prática, sem dúvida, infame.

Hoje esse grande país chamado Brasil é o resultado da miscigenação de índios, negros e portugueses, pontuada por habitantes de outros povos – um exemplo para o mundo de uma sociedade verdadeiramente inter e intra-racial. É por isso que faz todo sentido uma expressão popularizada, não apenas em Portugal: “Deus criou o branco e o preto. Os portugueses criaram o mulato”.

O espírito português está bem retratado no livro A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto[10], um aventureiro que percorreu todo o sudeste asiático e viveu as mais incríveis peripécias até regressar a Portugal, passados 21 anos. Durante algum tempo pensou-se que esse relato fosse no mínimo exagerado e até fantasioso, mas os japoneses sempre confirmaram os episódios narrados que lhes diziam respeito e muitos historiadores – como é o caso da americana, Rebecca Catz, professora da Universidade da Califórnia, em Los Angeles – chegaram à conclusão de que o relato é verdadeiro[11]. Aliás, só poderia ser verdadeiro, dado que o que se conta na Peregrinação apenas chegou ao conhecimento dos europeus vários anos depois da morte de Fernão Mendes Pinto. Ora, este não podia ter conhecimento daqueles factos se não os tivesse presenciado[12].

Hoje o império marítimo português não passa de uma memória. Mas o fascínio pelo mar continua intacto. Nas artes, na gastronomia, no lazer, no imaginário e no horizonte de Portugal.

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Notas:

[1] Adam Smith, o célebre economista liberal escocês, considerou os Descobrimentos Portugueses como um dos maiores feitos da humanidade.

[2] Também a América do Norte tem sido reclamada como uma descoberta dos portugueses. Ver artigo deste blog sobre a Pedra de Dighton.

[3] Martin Page, “Portugal e a Revolução Global”, Nova Fronteira, Brasil, 2011. 

[4] Apesar de os ingleses terem sido quase sempre nossos aliados, isso não aconteceu durante os 60 anos em que fomos governados pela Espanha, após a crise dinástica provocada pela morte de D. Sebastião, dado que a Espanha era inimiga da Inglaterra.

[5] Nigel Cliff, “Guerra Santa”, Globo Livros, Brasil, 2013.

[6] “Obrigado”, por exemplo, deu origem, no Japão, a “arigato” e “pão” a “pan”.

[7] Ver artigo deste blog.

[8] Também o francês (com Napoleão) e outros, embora não tão devastadores.

[9] Os belgas mataram milhões de seres humanos, no Congo, e os alemães quase exterminaram o povo herero, na atual Namíbia, além de terem dizimado cerca de 300.000 maji-maji, na África Oriental Alemã. Os alemães, embora tardiamente, também quiseram ter o seu império marítimo mundial e, de certa forma, conseguiram-no, embora por um curto período que terminou na Primeira Guerra Mundial.

[10] Fernão Mendes Pinto, “A Peregrinação”, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2001.

[11] Martin Page, ob. cit.

[12] Não devemos ser ingénuos e considerar que tudo o que é relatado na “Peregrinação” é verdadeiro (no sentido de “exato”). Seria impossível Mendes Pinto recordar (a obra foi escrita vários anos após os acontecimentos narrados) tantos pormenores. A “Peregrinação” continua a ser um desafio, sobretudo no que toca às fontes a que Mendes Pinto recorreu, sendo certo que recorreu a várias, mais ou menos identificáveis, e a algumas (muitas) de impossível identificação. Sobre este assunto, ver o excelente artigo de Rui Manuel Loureiro, “Missão Impossível: em Busca das Fontes da Peregrinaçam de Fernão Mendes Pinto”, inserido no livro, organizado por Virgínia Soares Pereira, “Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no Mundo”, editado pela Universidade do Minho (2013). No entanto, tal como referimos no texto, parece que Pinto “mente cada vez menos” (“Fernão Mentes? Minto”) tal como refere, ainda na obra aqui citada, o investigador holandês, Arie Pos, através do seu artigo “Imagens da China na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”. Ver também a obra de António Rosa Mendes, “A Peregrinação e a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”, Gente Singular Editora, Olhão, 2011, onde o autor discorda de Rebecca Catz, desmontando e negando a tese de que a Peregrinação seria essencialmente uma sátira.

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Mapa: http://www.ruralea.com

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Base de um programa eleitoral para mudar o Brasil, em 10 pontos prioritários

bandeira do Brasil

Tal como para construir uma casa, a edificação de um país requer alicerces sólidos. São esses alicerces, fortes, sustentáveis, duradouros, que necessitam ser erguidos para transformar o Brasil, num lugar onde valha a pena viver. Eles consolidar-se-ão ao mesmo tempo que removerem do espaço que lhes é devido os problemas estruturais do Brasil, aqueles que identificamos na base programática que a seguir se apresenta, e que pode ser aproveitada por qualquer partido ou até por vários, ainda a tempo, pois estamos a cerca de seis meses das eleições.

É gratuita e cedida de boa vontade.

1- INFRAESTRUTURAS BÁSICAS

a) Água e Eletricidade

Um dos motivos da fraca qualidade de vida patente em vastas regiões de vários estados brasileiros são as constantes falhas no abastecimento de água e de luz. Se excetuarmos a região da caatinga, no Nordeste, a falta de água nas outras regiões brasileiras constitui, em si mesma, um absurdo. Na verdade, em todas essas zonas, em determinadas épocas do ano, chove copiosamente. Trata-se, portanto, de encontrar formas mais eficazes de armazenamento da água, para além das tradicionais barragens, por um lado, e, por outro, da reconstrução e/ou manutenção das redes de captação e distribuição (onde existe rede geral com canalização interna). Nos grandes centros urbanos, a falta de água ocorre muitas vezes por corte da energia elétrica, as máquinas que bombeiam a água deixam de funcionar. Há que, portanto, encontrar formas alternativas (redundantes) de bombear a água e distribuí-la. Para obviar a esta situação que tanto aflige largas camadas da população, assumimos o compromisso de trabalhar com nossos parceiros nos governos estaduais e municipais no sentido de 1) construir e/ou reformar as redes de captação e distribuição de água onde tal seja necessário, substituindo progressivamente os materiais caducos por outros mais modernos, que acarretem menos custos de manutenção e, sobretudo, reparação; 2) incentivar, através de benefícios fiscais e de visitas de técnicos credenciados às populações afetadas, a construção de depósitos de água da chuva, quer sejam cisternas, tanques, barragens subterrâneas, poços comunitários ou outros, particularmente na região do semiárido, mas extensível a outras regiões brasileiras, sobretudo onde não exista rede de abastecimento; 3) dotar as centrais de distribuição de geradores alternativos para que, em caso de quebra de energia, possa haver uma outra forma de bombear a água e distribuí-la. Para tal, o Estado deixará de fixar o preço da energia elétrica, assumindo-se exclusivamente como regulador do setor, não intervindo nos preços, exigindo dos operadores a eficácia do sistema, permitindo que estes giram a atividade de forma a garantirem a manutenção e melhoramento da rede (quer da luz, quer da água), fiscalizando e garantindo os procedimentos que assegurem o regular abastecimento à população. O papel da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEI) será, neste contexto, fundamental. O nosso compromisso é que, no espaço de uma legislatura, as falhas nos abastecimentos, quer da água, quer da luz, constituam precalços verdadeiramente esporádicos e não um acontecimento regular e generalizado como vem acontecendo até agora. O programa Luz para Todos deverá ser concluído com o estender da rede elétrica a todo o Brasil, sobretudo às zonas rurais do Norte e do Nordeste, as mais carenciadas.

b) Saneamento

A situação do país relativamente ao saneamento básico é catastrófica. Mais de metade da população vive em locais onde não existe rede de esgotos e, onde existe, apenas 38% é alvo de tratamento. A situação é particularmente grave na região Norte, onde menos de 10% da população vive em locais com coleta de esgotos, mas também no Nordeste. Em consequência da proliferação das fossas “negras”, sobretudo nestas áreas, a esquistossomose (vulgarmente conhecida como barriga de água) afetou em 2011, de acordo com dados do Ministério de Saúde, 63 mil brasileiros. Por outro lado, sete milhões de cidadãos não têm banheiro em casa, o que coloca o Brasil entre os dez países do mundo com maior carência deste tipo de equipamento. Membros do Comitê Olímpico em deslocação ao local das futuras olimpíadas do Rio de Janeiro, detetaram níveis de poluição por esgotos 195 vezes acima do aceitável. Vários países demonstraram já a sua preocupação, o que se reflete numa péssima imagem do Brasil, precisamente o contrário do que seria expectável com os Jogos Olímpicos.

É absolutamente prioritário reverter esta situação. O Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB), aprovado no final de 2013, é um documento onde se faz o diagnóstico correto e possível da situação brasileira, fruto do contributo de várias entidades. O problema, como é sabido, não se prende com o diagnóstico, com a elaboração de estudos e documentos bem intencionados e formalmente consensuais, nem tampouco estamos perante um custo incomportável para o Estado: entre 2013 e 2011, o gasto total com saneamento representou 0,13% do PIB. É necessário multiplicar o investimento e, sobretudo, é urgente passar à ação. A proliferação de fontes de financiamento, entidades envolvidas e programas (a decorrer ou previstos), exige, além de uma simplificação, a criação de uma única entidade supervisora, dedicada exclusivamente ao setor do saneamento, perante a qual as diversas entidades oficiais terão de responder. Assim, o grupo de trabalho, previsto no PLANSAB, e que deverá ser criado para avaliar os progressos realizados, dependerá diretamente do Ministro das Cidades, dando-se, com este passo, uma indicação clara a sobre a prioridade desta questão. O nosso compromisso eleitoral é o de, no prazo de uma legislatura, diminuir em 20% o território sem saneamento e, numa segunda legislatura, em 25%. Neste segmento, desenvolveremos também políticas prioritárias de tratamento de resíduos sólidos, bem como de reciclagem e transformação dos mesmos. Mas a prioridade vai para o saneamento e para a distribuição de água e luz. É preciso limpar o terreno e criar as condições de habitabilidade da nossa casa-comum.

2- ECONOMIA E SOCIEDADE

Como se sabe, a economia é o motor de um país. Convém mantê-lo em bom funcionamento. Nossa proposta eleitoral não se baseia em qualquer ideologia econômica, seja ela liberal, estatizante, mista ou qualquer outra. Acreditamos que todas as teorias têm vantagens e desvantagens, e a sua eficácia depende em larga medida do estádio de desenvolvimento em que um país se encontra, bem como dos problemas específicos de um determinado período histórico. Normalmente, nas sociedades mais avançadas, é onde resulta melhor um maior intervencionismo do estado, uma vez que o povo está preparado para cumprir regras. O mesmo não se pode dizer da sociedade brasileira, onde a corrupção, a carência educacional das populações  e a pobreza limitam a eficácia do intervencionismo. O nosso programa econômico não se baseia por isso em qualquer ideologia. O nosso ponto de partida são os problemas concretos do Brasil, são eles que urge resolver.

Ora, um dos principais problemas económicos no Brasil é o da produtividade, problemática relacionada com a da educação, que será tratada em capítulo próprio. De facto, é fulcral a aposta na educação e na formação profissional, se se quiser aumentar a produtividade de cada trabalhador brasileiro, que é 1/5 da de um trabalhador norte-americano, por exemplo. Só assim será possível aumentar a competitividade das empresas e a eficiência do Estado. Os resultados na educação, porém, só se atingem a médio-longo prazo – e é preciso atuar já. O Brasil possui um grande mercado interno e isso tem permitido que o governo aplique medidas protecionistas. Mas essa política, a prazo, é perniciosa para a economia, pois torna as empresas obsoletas e os produtos e serviços de baixa qualidade, além de elevar os custos, com grave prejuízo para os consumidores, sobretudo os mais carenciados.

Assim, serão tomadas medidas para que a economia brasileira se abra ao mundo, não de uma forma abrupta, mas paulatinamente, acompanhando essa abertura com medidas de desburocratização e simplificação de procedimentos (vide o capítulo sobre “Justiça e Burocracia”), e com reformas no ensino médio e superior, por um lado, e na investigação científica, por outro. O resultado traduzir-se-á  em ganhos de competitividade e produtividade, bem como num aumento do peso relativo dos produtos de maior valor acrescentado, face ao setor primário (commodities), sobretudo nas exportações.

Desta aposta tripartida – abertura econômica, produtividade e competitividade – resultará um aumento das importações, das exportações e do consumo, e um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Acompanhando este crescimento, o governo deverá diminuir gradualmente a carga fiscal e os gastos públicos com o seu próprio funcionamento, contribuindo, também por esta via, para o controlo efetivo da inflação, um dos fantasmas da economia brasileira. A contrapartida desta estratégia poderá ser, numa primeira fase, um pequeno aumento do desemprego, dado que a competitividade  e a produtividade resultarão numa diminuição do número de funcionários das empresas. Espera-se um aumento pequeno, pois outros fatores, como, por exemplo, a diminuição dos impostos, bem como a desburocratização de procedimentos e a simplificação legislativa, implicarão um crescimento do investimento privado, interno e externo. Por outro lado, a criação de novas empresas e negócios contribuirá também, a prazo, para uma diminuição do desemprego. A questão da inflação é bastante importante e para controlá-la o governo diminuirá os seus gastos, sobretudo pela contenção salarial dos funcionários públicos, mas também por uma reestruturação da administração pública, tornando-a mais eficiente, abrindo uma guerra sem tréguas contra o desperdício de recursos. Uma outra forma de conter a inflação é não permitir a proliferação de preços arbitrários, fiscalizando os mercados no sentido de assegurar uma verdadeira concorrência. Não é possível aceitar que o aeroporto de São Paulo seja o mais caro do mundo, que os preços em Copacabana sejam mais caros que em Miami Beach ou que as telecomunicações no Brasil sejam das mais caras – e das mais ineficientes – do mundo. Autoridades reguladoras fixarão preços máximos e será combatida e penalizada duramente a cartelização dos mercados. Os pontos comerciais serão obrigados a publicitar em seus estabelecimentos um “quadro de preços”, e todos os produtos, nomeadamente na restauração, terão um preço máximo que não poderá ser ultrapassado.

Espera-se, por fim, com estas medidas (e outras que constam do presente programa), um abrandamento do crescimento da dívida pública (interna e externa) nos próximos anos. Dívida que quase duplicou nos últimos nove anos, atingindo em 2013 uns astronômicos 2,12 trilhões de reais. Uma vez que a dívida é contraída pelo Tesouro Nacional para financiar o déficit do orçamento do governo federal, a redução do déficit revela-se também crucial. É isso que faremos progressivamente, e não de forma abrupta, dado que assumimos o compromisso de diminuir a carga fiscal. A taxa de câmbio é algo que requer monitorização constante, mas espera-se que o incremento das exportações e do investimento externo permitam, por um lado, uma estabilização do valor do real e, por outro, uma contração no crescimento da dívida pública, que deverá diminuir numa segunda legislatura. Com a inflação controlada, está aberto o caminho para uma efetiva redução das taxas de juro.

Quanto aos objetivos sociais, manter-se-á o combate à pobreza extrema, através do programa Bolsa Família, e incentivar-se-á o combate à desigualdade social. O acompanhamento do Bolsa Família deverá, porém, ser mais efetivo, sendo os membros dos agregados, em idade ativa, obrigados a procurar emprego e, em alternativa, a prestarem serviços úteis à comunidade, nomeadamente nas prefeituras. O objetivo, a prazo, porém, é o de reduzir significativamente o número de beneficiários, erguer uma sociedade onde cada pessoa possua as ferramentas necessárias para ter uma vida digna por si própria, sem ajuda do Estado.

A desigualdade social, para além das medidas de inclusão referidas, será também combatida através de uma mais justa distribuição da carga fiscal. Por outro lado, o Estado dará o exemplo, fazendo uma revisão salarial da tabela dos funcionários públicos, diminuindo o enorme fosso existente entre remunerações. Carreiras cruciais para o desenvolvimento do país, como é o caso da carreira docente, serão valorizadas.

Finalmente, será efetuada uma reforma da segurança social, tendo em vista a sustentabilidade do sistema, a qual, a prazo, está em causa. Para garantir que todos terão direito às suas pensões no futuro será necessário fazer alterações à idade de aposentação e às formas contributivas dos cidadãos no ativo. Estas reformas já foram feitas em todo o mundo civilizado, face, sobretudo, ao aumento médio da esperança de vida, e o Brasil não pode mais chutar para a frente este problema.

3- COMBATE À VIOLÊNCIA

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Em 2012, 10% dos assassinatos mundiais ocorreram no Brasil. Dezasseis cidades brasileiras estão incluídas entre as cinquenta mais violentas do planeta. A violência é perniciosa e corrompe toda a sociedade, contribuindo para que os pobres vivam numa espécie de selva e os ricos se acantonem em muralhas de betão. Também aqui não entraremos em debates ideológicos. Só com pragmatismo se pode resolver esta questão concreta, não com uma ideologia qualquer, necessariamente limitada no espaço e no tempo. Existem três componentes essenciais neste domínio. As forças da ordem, os criminosos e o enquadramento legal. É necessário atuar sobre cada uma delas. As polícias terão elas próprias de ser policiadas. Não pode haver o sentimento geral de que a impunidade impera dentro das instituições policiais. Para que isso não continue a acontecer, vamos envidar todos os esforços para colocar nos lugares de chefia de todas as policias, desde o topo até a base, pessoas íntegras, acima de qualquer suspeita. Será feita uma avaliação rigorosa sobre todos os responsáveis, mantendo os que tiverem perfil adequado às funções e afastando os corruptos e aqueles que não cumprem a Lei. Além disto, é indispensável dotar as forças policiais dos meios humanos e técnicos necessários à sua atividade. Não é possível compactuar mais tempo com a situação de impunidade generalizada, em que os crimes não são investigados por falta de meios. Isto é intolerável. E é igualmente indispensável levar a Justiça a todo o território e terminar com a “lei da bala” (como acontece, por exemplo, na “grilagem” de terras), estendendo o braço da Lei a todo o Brasil. Quanto aos criminosos, é preciso, é urgente transmitir-lhes um sinal de que o sistema funciona, de que serão tratados com humanidade, mas com firmeza; que o implacável braço da Lei os alcançará e efetivamente os condenará; que os crimes serão investigados, independentemente dos alvos, dos autores e dos mandantes; que ninguém ficará impune, nem aqueles que têm muito dinheiro e poder. Já quanto ao terceiro elemento, o enquadramento legal, aqui como noutras áreas, o problema não é a falha legislativa, mas a sua aplicação. Não pugnamos pela diminuição da idade penal, mas sim pela criação de condições que permitam uma integração harmoniosa dos jovens na sociedade. Não basta criar legislação formalmente adequada – como a que instituiu o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo – se depois a mesma não é aplicada. Há que fazer cumprir a Lei.

Cumprir a Lei, sim, e implacavelmente. Mas não ir além ou ficar aquém dela. Só com justiça se poderá ganhar a simpatia dos jovens, não com perseguições e arbitrariedade. E conquistar a juventude para a causa da Justiça constitui o passo certo para começarmos a diminuir significativamente a violência no país. Trabalharemos, sem demagogia, para que isso seja uma realidade. Tomaremos medidas inovadoras, como, por exemplo, convocar algumas das bandas musicais mais emblemáticas entre os jovens, bandas de hip-hop, de reggae e outras, para conversarem com o Governo – e convencê-las a alinharem em campanhas focalizadas nos jovens, campanhas na televisão, nas escolas, nas favelas, envolvendo as comunidades locais, destinadas a conquistar os adolescentes para a causa da não-violência.

Dedicaremos uma atenção especial a um tipo específico de violência – aquela cometida contra jornalistas. Não é admissível que o Brasil continue a ter índices de crimes contra jornalistas como os atuais, ao nível dos piores países do mundo. É vergonhoso que esta situação continue. Torna-se necessário e urgente perseguir e punir os responsáveis por esses crimes, cometidos a maior parte das vezes contra jornalistas de pequenos periódicos, mais vulneráveis mas não menos necessários ao desenvolvimento das pequenas comunidades espalhadas por todo o país. Os mandantes desses crimes não podem ficar impunes. É urgente resgatar a liberdade de imprensa e essa é para nós uma absoluta prioridade.

Por fim, não é possível continuar a ter prisões que são depósitos de pessoas, escolas de crime e não o que deveriam ser, espaços de reabilitação. Temos de mostrar ao mundo que somos um país que respeita os direitos humanos. Este governo disponibilizará verbas para que sejam reformadas as prisões degradadas e para que outras sejam construídas, tendo em vista restituir a dignidade aos espaços que acolhem os cidadãos que cometem crimes.

As cidades brasileiras terão mais policiamento, sobretudo à noite. A segurança será reforçada. As comunicações entre polícias e a coordenação operacional serão melhoradas. Queremos que se circule nas ruas das capitais brasileiras como se circula nas ruas das principais capitais do mundo. Queremos devolver dignidade à vida quotidiana das nossas cidades.

A sociedade reclama resultados e não intenções. O nosso compromisso é o de, numa primeira legislatura, reduzir em 25% o número de assassinatos no país. E continuar, numa segunda legislatura, num ritmo ainda mais acelerado de redução.

4- COMBATE À CORRUPÇÃO

Só há um alvo para se iniciar um verdadeiro combate à corrupção – nós próprios. O Presidente da República terá de dar o exemplo nomeando ministros incorruptos e demitindo imediatamente o primeiro que, por ação ou omissão, compactuar com a corrupção. O mesmo se passará relativamente aos ministros e seus nomeados e por aí fora, até a base da hierarquia. Todos os nomeados terão de assinar um compromisso de honra em como não pactuarão com nenhuma forma de corrupção, seja ela ativa ou passiva, ou tráfico de influências. Os nomeados que se venham a revelar corruptos e que poderem ser demitidos, sê-lo-ão imediatamente. Os restantes serão enviados à Justiça. Todos as chefias do funcionalismo público serão responsabilizadas pelos eventuais casos de corrupção que ocorram no seu setor. Inquéritos rigorosos serão instaurados.

O combate à corrupção será uma prioridade. Será estudado o enquadramento legal, por forma a agilizar os procedimentos judiciais que permitam a rápida punição dos corruptores, particularmente no que diz respeito aos crimes de “colarinho branco”. Legislação será proposta, no sentido de dotar as forças policiais dos mecanismos necessários a uma investigação célere e imparcial, nomeadamente os que permitem o acesso aos bens, declarados ou não, bem como às contas bancárias dos agentes corruptos, especialmente daqueles que sejam servidores públicos.

As obras públicas serão alvo de rigoroso controlo, quer ao nível dos concursos, quer ao nível da execução. Exemplos como o que acontece com a copa 2014 envergonham o Brasil e não podem repetir-se no futuro.

Também neste campo será importantíssimo o papel da Educação. Só com significativas melhorias na Educação será possível uma cultura desfavorável à corrupção. Disciplina de Educação Cívica será introduzida nas escolas. Campanhas informativas, pedagógicas e de sensibilização serão exaustivamente levadas a cabo.

5- ENSINO BÁSICO E MÉDIO, E FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Os resultados de um deficiente sistema de educação estão na base de todos os problemas do Brasil e ligados a todos os setores. É, por isso, a prioridade das prioridades. Embora o investimento seja fundamental, não basta atirar dinheiro para o sistema para que este melhore significativamente. Em primeiro lugar, importa que as famílias tenham consciência da importância da escola. Há que educar também os pais. Nesse sentido, o governo criará um programa nacional de voluntariado, destinado a adultos que queiram obter formação equivalente ao ensino fundamental, o qual será extensível a todas as comunidades, reformando o programa Brasil Alfabetizado, multiplicando os cerca de um milhão de inscritos. Os pais continuarão a ser responsabilizados pela ausência dos filhos na escola. O Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil (Peti) será mantido e monitorado. Em segundo lugar, há que cuidar da formação de professores e há que prestigiar a carreira docente. Se queremos que a educação seja importante, teremos de relevar a importância do professor. Daremos mais autonomia a professores e escolas, criando as condições para que as estas possam celebrar contratos com o Ministério da Educação, tendo em vista a sua autonomia  administrativo-financeira, dando-lhes a possibilidade de contratarem professores, elaborarem horários e até, em certa medida, de adotarem novos currículos, desde que mantenham as disciplinas nucleares e obrigatórias. Será também necessário remunerar adequadamente a carreira docente e valorizá-la. A contrapartida é que tanto professores quanto escolas terão de ser avaliados. Em terceiro lugar, há que estabelecer objetivos. Um deles será o aumento da oferta de cursos do ensino técnico-profissional, um nível de ensino entre o médio e o superior, de interesse crucial para o desenvolvimentos da nossa indústria. Será criado um gabinete dedicado exclusivamente ao ensino técnico-profissional. Outro será o de assegurar a segurança nas escolas, responsabilizando as direções escolares pelos casos de violência e bullying. Assumiremos também o objetivo de tirar o Brasil dos últimos lugares do ranking da assiduidade escolar, aumentando, no tempo de uma legislatura, essa assiduidade dos atuais 50% para, pelo menos, 65%. Por fim, teremos de ultrapassar outra estatística desfavorável, esta bem mais qualitativa – subir alguns lugares no apuramento realizado pelo Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa), onde o Brasil ocupa o 58º lugar entre 65 países.

Campanhas pedagógicas contínuas e inovadoras serão realizadas através da comunicação social, tendo em vista sensibilizar a Comunidade para o papel crucial da Educação na construção de um Brasil melhor para todos.

6- ENSINO SUPERIOR

É necessário criar um ambiente universitário de excelência, começando pelas cidades onde as universidades se inserem. Os campos universitários serão reequipados quando necessário, dentro das possibilidades do Estado. Serão dadas as melhores condições possíveis a professores e alunos. Será necessário recrutar os melhores professores, se for o caso, indo buscá-los ao estrangeiro, dando-lhes condições de excelência para trabalharem no Brasil. Daremos todo o apoio possível à investigação científica. Serão concedidas mais bolsas para quem queira estudar no estrangeiro e serão abertas todas as portas para os estrangeiros que queiram estudar aqui. Serão criadas nas universidades pequenas unidades de negócio através de programa de incentivo à criação de empresas de alto padrão tecnológico. As universidades terão de integrar-se no estado e na região deste onde se situem, por um lado, e, por outro, deverão especializar-se em determinadas áreas, sobretudo as científicas e tecnológicas, servindo um hinterland específico. A excelência será o objetivo número um. Um amplo estudo sobre as vocações das universidades consideradas estratégicas será levado a cabo. A monotorização será constante e este será um assunto acompanhado permanentemente, dada a sua relevância, pela mais alta hierarquia do Governo, diretamente pelo ministro da Educação.

7- SAÚDE

Talvez seja no acesso aos serviços de saúde que a desigualdade social mais se manifesta no Brasil. As opções são claras. Deixar tudo como está, com os planos de saúde privados para quem tem dinheiro e um serviço público ineficiente para os pobres, ou reformar o SUS, transformando-o  num serviço de qualidade. Esta é uma tarefa gigantesca, não isenta de riscos, mas a única opção que poderíamos tomar. Para reformar o SUS é necessário por um lado repensar na melhor forma de financiá-lo e, por outro, na melhor forma de geri-lo. Em primeiro lugar é preciso saber que “não há almoços grátis”, o que quer dizer que os utentes que possam pagar deverão pagar alguma coisa pelos serviços. Se estes forem de qualidade, os utentes não se importarão de pagar alguma coisa, ainda que bastante menos que nos hospitais privados, devendo as camadas mais pobres da população ficar isentas de qualquer pagamento. A tarefa será, pois, a de fornecer um serviço de qualidade, por forma a que os utentes que podem pagar tenham confiança no sistema público. Por outras palavras, o sistema público concorrerá com os sistemas privados. Claro que os brasileiros já pagam, e muito, através dos impostos, pelo que o Estado será o maior financiador do serviço, como até agora, mas será necessária na fase difícil em que está o país, relativamente às suas contas públicas, um contributo solidário dos cidadãos para o esforço de reconstrução. Uma grande aposta na eficiência e um combate sem tréguas ao desperdício terão de ser atitudes permanentes de uma gestão que, em certos casos, pode ser privada, num serviço que se manterá público.

Por outro lado, e uma vez mais, a questão da educação, transversal a todos os setores, é aqui muitíssimo importante, pois, na área da saúde, a prevenção é fundamental – e a base de uma boa prevenção é a educação. Comportamentos saudáveis podem prevenir um número considerável de doenças, como é o caso da diabetes, por exemplo, doenças que acarretam custos elevadíssimos. Campanhas visando a prevenção serão levadas a cabo, tendo como alvos quer o público em geral, quer, especificamente, as escolas.

8- JUSTIÇA E DESBUROCRATIZAÇÃO

Um dos principais constrangimentos ao desenvolvimento de um país é a lentidão da Justiça. Uma vertente fundamental para que o sistema funcione com mais celeridade é a sua informatização. Redes informáticas e sistemas de informação eficientes devem ser criados nos tribunais estatais e federais. A simplificação de procedimentos, a partilha da informação e a eliminação se serviços redundantes, isto é, uma verdadeira reforma que tenha em vista agilizar os processos, será posta em prática não apenas na Justiça mas em toda a administração pública, estadual ou federal. Será dada especial atenção aos processos que visem a criação de empresas e a tudo o que tenha a ver com as questões econômicas.

O suporte-papel deverá ser substituído pelo suporte digital, sempre que possível. É urgente terminar com as montanhas de processos amontoados nas repartições públicas. Serviços homólogos serão ligados em rede e a informação necessária deverá ser disponibilizada em qualquer ponto. Por exemplo, não faz sentido que os veículos particulares tenham de ser registados e vistoriados cada vez que seus proprietários mudem a sua residência para outra cidade, dentro do mesmo estado, como acontece até agora. Nosso compromisso é o de propor que das chapas de matrícula dos carros conste apenas o nome do estado, sem ser necessário o do município, evitando com isso gastos desnecessários e imenso tempo perdido pelos utentes.

Muitos outros procedimentos desnecessários serão eliminados. O combate à burocracia será, inequivocamente, uma das nossas prioridades. A legislação que tem a ver com a abertura de empresas deverá ser uniformizada e os procedimentos agilizados, tendo em vista passar dos atuais 129 dias, em média, para se abrir uma empresa para menos de um mês.

9- TURISMO E ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO

O Brasil tem condições excecionais para o desenvolvimento do turismo, particularmente no Nordeste, mas também em muitas outras zonas do litoral e do interior. O turismo pode e deve ser uma importante vertente da economia brasileira, muito mais do que é já. As receitas do turismo externo permitem a entrada de divisas estrangeiras, a dinamização de vastas zonas do território nacional, com impacto positivo nas infraestruturas, no emprego, na criação de riqueza, em geral.  No setor do turismo deve ser dada total liberdade à iniciativa privada, como é natural, mas o Estado deve ter um importante papel regulador, em várias linhas: a) identificando, delimitando e caracterizando as zonas de potencial turístico; b) promovendo essas zonas, em parceria com agentes econômicos locais, em feiras e certames ligados ao setor, bem como através de campanhas publicitárias em suportes comunicacionais áudio-visuais, seja em televisões estrangeiras, seja na internet; c) identificando, sempre em parceria com agentes econômicos locais, os mercados a quem devem ser dirigidas essas campanhas; d) garantindo as infraestruturas básicas, sejam aquelas sob tutela federal, ou trabalhando  em parceria com estados e municípios através de programas específicos, nomeadamente no que concerne ao saneamento às infraestruturas viárias, entre outras; e) concedendo incentivos (fiscais e outros) aos projetos de qualidade que venham a surgir; f) fiscalizando rigorosamente a execução desses projetos e criando normas que os definam nos seus diversos níveis – urbanístico, ambiental, econômico, social e cultural; g) reduzindo ao máximo possível o impacto ambiental, zelando, assim, pela sustentabilidade dos projetos, garantindo a sua qualidade e a sua viabilidade econômica; h) promovendo a segurança efetiva nessas zonas.

O turismo, face à sua importância econômica e à sua dimensão estratégica, será uma prioridade do Governo.

10- INFRAESTRUTURAS DE DESENVOLVIMENTO

Neste capítulo atuaremos em duas vertentes. Uma imediata e outra em termos de planejamento. A primeira prende-se com a internet. A segunda com os transportes (terrestres, marítimos, aéreos e fluviais) e respetivas plataformas logísticas de interligação e distribuição.

As implicações de uma internet lenta são incalculáveis, mas são, sem dúvida, muito importantes. Bem como, naturalmente, as de uma internet rápida. Implicações para o Estado, para as empresas e para os cidadãos, enfim, implicações para a Economia e para o país como um todo. Atualmente, O Brasil possui uma das redes mais lentas do mundo e, simultaneamente, uma das mais caras, também. Há que inverter esta situação, criando uma entidade reguladora das telecomunicações, que assegure uma efetiva concorrência entre os operadores no mercado, e exigindo o Governo as condições técnicas mínimas para que a internet, nas suas várias vertentes de distribuição, se aproxime, em termos de velocidade, da dos países mais desenvolvidos. Economicamente, as vantagens serão enormes para o Brasil.

Relativamente aos transportes, e tendo em conta a dimensão do país, o impacte ambiental, a segurança e a racionalidade de um futuro sistema, o Brasil precisaria de implementar uma rede nacional de trens, tanto para o transporte de pessoas quanto para o de mercadorias, sendo que, para o transporte de mercadorias, seria necessária também a criação de plataformas logísticas estrategicamente localizadas. Isto é muito importante, dado o enorme impacto que os camiões produzem sobre o ambiente e sobre as estradas, já para não falar nas questões da segurança. Porém, face às restrições econômicas e financeiras, e embora a longo prazo o investimento seja economicamente viável, este não é o momento de investir na ferrovia, dado as enormes somas envolvidas. Comprometemo-nos, no entanto, a fazer um estudo sobre o assunto e a apresentar as respetivas conclusões no prazo de uma primeira legislatura.

Porém, no que concerne a questões de eficiência podemos melhorar muita coisa, já, sobretudo nos portos, melhorando alguns indicadores, como sejam os tempos de espera, de movimentação, etc. Procuraremos trabalhar com as entidades privadas, criando grupos de trabalho para os portos, para os aeroportos, no sentido de melhorar o sistema de transportes, tornando-o mais eficiente e, se possível, mais barato. O Brasil tem condições ideais para ter portos que sejam hubports, ou seja, aqueles onde os grandes navios (vindos da América do Norte, da Europa ou mesmo de África) descarregam os contentores e onde navios mais pequenos, de cabotagem, os carregam para portos do Uruguai, da Argentina e mesmo da costa do Pacífico. Para isso é necessário eficiência e custos competitivos.  O mesmo se passa com o transporte aéreo – há que melhorar a eficiência e reduzir custos.

Quanto ao transporte rodoviário, é sabido que é necessário melhorar, e muito, as estradas brasileiras. Um programa nesse sentido será levado a cabo, identificando prioridades, atuando, faseada e gradualmente, na segurança das estradas. Finalmente, será preciso melhorar, o que, neste caso, significa alterar radicalmente, a sinalética (sinais e informações de trânsito) nas estradas brasileiras, federais e estaduais. Com isso se poupará imenso tempo e também muitas vidas.

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As ruas mais belas do mundo

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Rua Augusta, Lisboa.

A revista de viagens espanhola Condé Naste Traveler publicou esta semana um artigo sobre “As 31 ruas a percorrer antes de morrer”[1].

Duas delas ficam em Portugal e outras tantas no Brasil. Em Portugal foi eleita a Rua Augusta, em Lisboa, e o Cais da Ribeira, no Porto.

Escreve-se, na revista, sobre a Rua Augusta: “Ampla, brilhante, obrigatória para captar toda a essência da cidade… uma delícia lisboeta”.

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Rua Gonçalo de Carvalho, Porto Alegre.

Já no Brasil, as ruas contempladas foram a Rua Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre, e a Rua Manoel Carneiro, uma escadaria colorida no bairro da Lapa, Rio de Janeiro.

Sobre a Rua Gonçalo de Carvalho, escreve-se o seguinte:”Está repleta até o topo de ramos e folhas da árvore Tipuana Tipu. A própria cidade iniciou uma campanha na internet considerando, com orgulho, que esta rua era a mais bonita do mundo e pedindo a sua classificação como património ambiental. A verdade é que o merece”.

O artigo contemplou ruas de dezanove países, mas apenas a Espanha (4), os EUA (4) e a Inglaterra (3) têm um número maior de ruas (incluídas nas 31 mais bonitas) que Brasil e Portugal.

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[1] Artigo completo em:

http://www.traveler.es/viajes/rankings/galerias/las-calles-mas-bonitas-del-mundo/704/mosaico/1

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Quiosque do Dodô, Tramandaí, RS, Brasil

IMG_4925Aqui deixo uma dica para os porto-alegrenses que vão passar o fim de semana a Tramandaí: o Quiosque do Dodô.

Entrando em Tramandaí [1], seguem como se fossem para Imbé e, na última rua antes da ponte que cruza o rio, viram à direita. Uns 300 metros depois, verão o restaurante. Recomendo-o por três razões fundamentais.

Primeiro, a tainha grelhada, deliciosa. Depois, o ambiente – a brisa que (quase) sempre corre, o rio Tramandaí, os abius mergulhando em busca de alimento, os pescadores, enfim, um lugar natural, sem sofisticação mas muito encanto. Por fim, a música de Jorge Pereira, o entertainer de serviço: bossa nova, bolero, pop – tudo com a suavidade que o ambiente requer, sem perturbar as aves do rio, os pescadores ou a tainha.

Recomendo vivamente. Podem dizer ao Joalmir que vão da minha parte.

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[1] A cidade do litoral mais perto de Porto Alegre.

São Miguel das Missões

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O que resta da igreja de São Miguel.

São Miguel das Missões, antigo povoado de São Miguel Arcanjo, integra-se no chamado território missionário, uma vasta zona que inclui parte dos atuais Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. As aldeias, fundadas pelos jesuítas espanhóis,  chamavam-se Reduções[1] e, das trinta que foram criadas, podemos encontrar sete no Brasil: São Miguel, Santo Ângelo, São Nicolau, São João Batista, São Lourenço, São Luís Gonzaga e São Francisco de Borja – os Sete Povos das Missões, situados na margem oriental do rio Uruguai.

O que ainda resta da Igreja de São Miguel, cuja construção se iniciou em 1735, bem como o Museu das Missões, erguido na área da antiga Redução, em 1940, estão classificados como Património Mundial, pela UNESCO, desde 1983. San Ignacio Miní, na Argentina, e Trinidad, no Paraguai, são outras Missões classificadas como Património Mundial. Todas elas se situavam, no início das construções, na província jesuítica do Paraguay, território pertencente à coroa espanhola. [2]

Apesar do abandono a que foi votada durante muitos anos e aos saques de que foram alvo as Missões no decorrer da Campanha Cisplatina, a Igreja de São Miguel é a única, das três classificadas como património mundial, que mantém a fachada completamente preservada. O projeto da igreja, em estilo barroco tardio, é atribuído ao arquiteto jesuíta Gian Battista Primoli e foi, provavelmente, inspirado na igreja central da Ordem dos Jesuítas, a Igreja de Gesú, em Roma.

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Onça pintada e coruja. Os índios ganham algum dinheiro vendendo artesanato aos poucos turistas que visitam São Miguel das Missões.

No museu podemos encontrar esculturas, a maioria em madeira, reunidas pelo seu primeiro zelador, Hugo Machado, que muitas vezes se apresentou como beato, para as conseguir recolher das mãos de particulares, constituindo, este conjunto, a maior coleção pública missioneira. Há obras de escultores europeus, mas a maior parte foi executada pelos índios guarani, como se pode comprovar pelos traços dos rostos, pelos detalhes dos cabelos, pelas vestes, etc. [3]

Ainda hoje os guarani continuam esculpindo a madeira, como tivemos oportunidade de comprovar, em toda a região. A uma linda menina guarani compramos, em São Miguel da Missões, duas miniaturas – uma de onça pintada e outra de coruja.

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[1] Reduções, precisamente, por reduzirem o espaço de circulação dos índios ao território da Missão.

[2] Só em 1801 os sete Povos das Missões foram conquistados pelos luso-brasileiros e, desde então, fazem parte do Rio Grande do Sul. Os territórios da América do Sul foram sempre muito disputados pelas coroas portuguesa e espanhola e, em 1750, através do Tratado de Madrid, ficaram quase completamente definidas as fronteiras atuais do Brasil, com grande vantagem para os luso-brasileiros, que perdiam Colónia del Sacramento, no atual Uruguai, cidade fundada pelos portugueses, em1680, na margem esquerda do Rio da Prata, mas ganhavam os sete Povos das Missões e, no fundo, todo o Rio Grande do Sul, todo o atual estado se Santa Catarina e ainda a Amazónia e mais alguns territórios que estavam na parte espanhola definida pelo Tratado de Tordesilhas, revogado pelo Tratado de Madrid. O rio Uruguai seria a fronteira entre Brasil e Argentina.Tratado tão desvantajoso não foi bem aceite pelos espanhóis e novos tratados foram firmados. Em 1761, o Tratado de El Pardo, que estipulava o regresso à situação anterior a 1750, e, em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso onde foram criados os “campos neutrais”, faixa de terra onde nenhum dos impérios teria jurisdição. Era esta a situação dos sete Povos das Missões, território neutro, em 1801, quando os luso-brasileiros, a pretexto da guerra que a Espanha declarou a Portugal, por pressão dos franceses (invasões napoleónicas da Península Ibérica), decidiram conquistá-los.  José Borges do Canto, filho de pai açoriano e mãe de Colónia del Sacramento, e Gabriel Ribeiro de Almeida, filho de português e índia, que viviam na zona, falavam o idioma guarani e conheciam bem os índios, foram os homens a quem geralmente é atribuída a conquista das Missões, para o que contaram com a colaboração de um pouco número de homens e dos próprios índios guarani. Tratou-se, portanto, de uma conquista local. Sobre estes episódios pode ler-se o excelente texto de Elisa Frühauf Garcia, aqui:

[3] Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Brasil).

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Cataratas do Iguaçu/Iguazú (Brasil/Argentina)

O primeiro europeu a chegar às Cataratas do Iguaçu foi o espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca, no século XVI. Situadas na zona onde os jesuítas fundaram as missões, um território vasto, onde viviam índios dos atuais Paraguai, Brasil e Argentina, as Cataratas do Iguaçu são constituídas por mais de 250 quedas de água, o que lhes confere o título de “maiores do mundo”.

Foi precisamente aqui que foi rodado grande parte do filme, “A Missão” (1986), com realização do britânico Roland Joffé, interpretações de Jeremy Irons, Liam Neeson e Robert de Niro, e música do excelente Ennio Morricone[1].

As Cataratas de Iguaçú estão classificadas como Património da Humanidade e são uma das sete maravilhas da natureza. O som da água tombando ouve-se a grande distância e, quando chegamos suficientemente perto,  ficamos encharcados pela água que vem no vento. Para além dos passeios a pé, vale a pena fazer uma viagem de barco pelo rio Iguaçu e tomar um duche gigante debaixo de uma das quedas de água. Isso é possível fazer, tanto do lado brasileiro quanto do argentino. Os passeios pelo rio são muito idênticos e bastante divertidos. Na moeda europeia, ao câmbio atual, o preço a pagar por cada passeio rondará os 25 euros.

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Os parques naturais (argentino e brasileiro) estão muito bem organizados e estruturados, proporcionando bons serviços ao visitante. Ali bem perto podemos também visitar uma das maiores barragens do mundo, Itaipu, no rio Paraná, entre o Brasil e o Paraguai, e também o local da união entre aquele rio e o Iguaçu, onde se observam, em cada um dos lados do “T”, os três países: Brasil, Paraguai e Argentina.

3 países

As cidades de Puerto Iguazú (Argentina), Ciudad del Este (Paraguai) e Foz do Iguaçu (Brasil) distam entre si apenas alguns minutos de carro e valem também uma visita, a primeira pela boa carne argentina, a segunda pela possibilidade de fazer compras baratas, e a terceira por ser um polo de acesso a toda a região, com boas pousadas, como seja a Pousada do Alemão, onde nos hospedamos nesta segunda visita às Cataratas.

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[1] Aqui fica o registo de uma interpretação do tema principal da banda sonora de “A Missão”, dirigida pelo próprio Morricone. Belíssima.

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Lisboa a Santos, a bordo do “Preziosa” (13/26 de novembro de 2013)

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Alfama vista do Preziosa, à saída de Lisboa.

DIA 1 – LISBOA

O primeiro dia no Preziosa foi muito curto. Após as formalidades de embarque, entrei pela primeira vez a bordo por volta das 19:30. Fiquei feliz por, após ter ultrapassado o átrio de entrada, um elevador panorâmico e um corredor interminável, ter chegado finalmente à cabina 13214, sem me ter enganado no caminho. De imediato tive a agradável sensação de que a cabina era ampla, limpa, bonita, bem iluminada, com uma cama king size só para mim. Abri as cortinas e a portada para aceder à varanda, e espreitei a água escura do rio lá em baixo. Voltei para dentro, depositei a mochila em cima da cama e saí do navio para jantar com o meu amigo António, num restaurante do cais, em frente à minha casa dos próximos 14 dias. Saboreei a comida, o vinho, o momento, e regressei a bordo às 21:20, com o coração alvoroçado. Precisamente às 22:00, o navio fez meia-volta e zarpou, rumo a Sul. Despedi-me de Alfama, de Lisboa e do Tejo, pela primeira vez, do 13º deck de um gigante dos mares…

Por volta da 1:00 deixei de discernir as luzinhas em terra, lá atrás. Desliguei a tv e a luz – e adormeci.

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Gaivota sobrevoando o navio.

DIA 2 – NAVEGANDO

Acordei por volta das 8:00. O sol nascera já do lado oposto ao da minha cabina, o que queria dizer que, mais tarde, veria deste lado o pôr do sol. Mar calmo, céu limpo. Tomei a primeira refeição a bordo. Muita gente. Segundo me disseram, estão mais de 3.000 passageiros no navio. Fiz a minha primeira exploração, depois do pequeno-almoço, no 14º andar. É aqui que estão as principais áreas de lazer, sobretudo as piscinas – uma coberta e duas ao ar livre. Muita gente tomando sol. Depois de escrever estas linhas, ou talvez só à tarde (agora são 11:00), vou experimentar as piscinas e uma das inúmeras espreguiçadeiras que circundam o amplo deck. Mais tarde, talvez, o ginásio. Há muita coisa para explorar…

Afinal, acabei por ficar na varanda da cabina, após o almoço e algumas fotos no tal deck 14. Estava um sol delicioso, e acabei por me despir completamente e saborear a temperatura agradável no corpo todo, em todos os poros. À minha frente o mar a perder de vista; atrás, a cabina; e, dos lados, duas paredes que isolam esta das outras contíguas. Navegamos ao largo da costa africana e estamos precisamente, neste momento, a 32º 21.90’ N e 012º00.82’ W. Se a terra não fosse redonda e a minha vista fosse de longo alcance, observaria, à direita do navio (estibordo), as ilhas da Madeira e do Porto Santo. O espaço interior da embarcação é grande e não sinto, muitas vezes, que estou no alto mar. Precisava de um amigo, de um amor, alguém que me mostrasse que tudo isto é real.

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A cidade de Arrecife, em Lanzarote, a ilha onde viveu Saramago.

DIA 3 – LANZAROTE, ARRECIFE

Acordei ainda antes do sol nascer (07:14) para observar a aproximação a Lanzarote. Outros passageiros tiveram a mesma ideia e foi bonito ver o astro-rei subir no mar, do lado oposto à ilha… Tomei o pequeno-almoço e fui visitar a cidade de Arrecife, que é, numa primeira observação (necessariamente superficial) pequena, vulcânica, morna e limpa. O mar está sempre presente, como seria impossível não estar, numa ilha, e apresenta-se calmo, transparente e tépido, ainda que eu não o tenha provado. Visitei um local de pescadores, uma pequena feira sobre o desenvolvimento sustentável, e falei com pessoas que protestavam contra o Banco Popular. Vi gente pobre nas ruas. Notei que a cidade não é rica, com pouco comércio e turismo (tem pouquíssimos hotéis, comparativamente a locais semelhantes), mas digna e agradável, precisamente por ser simples, natural e genuína. Bem no centro, encontra-se uma bonita praia, onde encontrei bastantes banhistas, de sol e, alguns, de mar, em pleno novembro. Adoro cidades com praias à mão. Claro que perguntei por Saramago. Segundo me disseram, morava fora da cidade. Seja como for, foi mesmo só curiosidade, pois eu não fui, não sou e não me vejo ser fã do José, que me desculpem os indefectíveis…

Regressei ao navio e, como tinha dormido pouco, passei pelas brasas. Por volta das 17:00 subi ao ginásio e pratiquei 20 minutos de bicicleta e 20 minutos de corrida. Em frente, uma enorme superfície de vidro que deixa ver a imensidão do mar: o ginásio fica bem na proa do navio, lá no alto, com uma vista soberba. A sensação é a de que estamos galgando sobre as ondas, e a verdade é que estamos mesmo. Agora são quase 23:00 e ainda não decidi se vou hoje visitar a discoteca. Uma coisa é certa: subirei ao andar imediatamente superior ao meu (nem preciso de elevador) para comer qualquer coisa no Buffet Inca & Maya, antes de me recolher, definitivamente, por hoje. Agrada-me bastante este serviço pois não preciso de esperar, como nos restaurantes, e posso comer o que (e a que horas) quiser, durante 20 horas por dia, das 6:30 às 2:30 do dia seguinte. A variedade é grande e acho que estou a comer de mais.

O navio desloca-se lentamente, a uma velocidade de 12 nós. Tenerife fica apenas a 150 milhas náuticas de Lanzarote, e nós só temos de lá chegar às 8:00 horas.

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La Laguna, na ilha de Tenerife.

DIA 4 – TENERIFE, SANTA CRUZ

Ainda a alguns quilómetros da costa já dá para perceber que a ilha de Tenerife é muito maior que a de Lanzarote. Proporcionalmente, também a cidade de Santa Cruz é muito maior que a de Arrecife. Maior e, logicamente, com mais habitantes, turistas e atividades. Aportámos às 8:00, como previsto, e eu já estava no deck 14 para poder observar quer a estibordo, quer a bombordo[1]. A cidade de Santa Cruz está bem organizada e, pareceu-me, tem um bom sistema de transportes. Prova disso foi o elétrico rápido que apanhei até a cidade de La Laguna. Uns 25, 30 minutos, sempre a subir, com várias paragens pelo caminho. O preço – 1, 30 euro por percurso – é um convite à utilização do transporte público, e um exemplo para cidades portuguesas, como Lisboa.

La Laguna foi uma surpresa muito agradável. Originalmente chamada de Villa de San Cristóbal de La Laguna, foi fundada em 1497, após a conquista da ilha de Tenerife por Don Alonso Fernández de Lugo[2]. La Laguna foi capital e centro administrativo de Tenerife até o século XVIII, quando esse estatuto passou a pertencer a Santa Cruz. Mantém até hoje, no entanto, o seu caráter cultural, intelectual e artístico. É, apropriadamente, considerada Património Mundial pela UNESCO. Vagueei com prazer pelas suas ruas e encantei-me com seu património edificado. Falei com algumas pessoas, todas bastante simpáticas.

Era já tarde quando regressei para o almoço no navio. Depois disto, fiz mais uma sesta: parece que está a tornar-se um hábito, mas, se o for, é um hábito que me dá prazer. Fiquei pela cabina até a hora prevista da partida de Santa Cruz, às 18:00, mas, devido a uma avaria numa das portas do Preziosa, só saímos do cais por volta das 21:45, estava eu, de novo, no ginásio.

Agora são 23:40 (hora local e de Lisboa) e continuo a ver, à minha direita, as luzes de Tenerife. A ilha é grande, sim. O navio navega agora a mais de 21 nós, talvez para recuperar o tempo perdido, e eu reparo que quanto mais depressa se move, menos se nota a ondulação. Outra coisa que realizo também é que, à semelhança do que se passa nas orquestras ou nas equipas de futebol, também a equipa de um navio é formada por elementos de muitas nacionalidades…

Não sei o que farei, ainda, esta noite. Ontem fui ver como é a discoteca, mas acabei por me vir embora. Não quis fazer companhia ao único mirone, sentado ao balcão; nem ao pequeno grupo, de cinco ou seis pessoas, que dançava sob um som bastante duvidoso. Hoje não vou. Daqui a nada subo ao Buffet Inca & Maya para trincar qualquer coisa suave e depois regresso aos meus aposentos… Acho eu. Boa noite!

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A cabina 13214 do Preziosa.

DIA 5 – NAVEGANDO

Não me considero particularmente inteligente, mas devo dizer que eu não escolhi este cruzeiro por acaso. Havia um conjunto de coisas que eu procurava. Em primeiro lugar, queria um cruzeiro grande, onde pudesse passar despercebido no meio da multidão. Não estou interessado em conhecer pessoas nesta viagem, a não ser aqueles conhecimentos de circunstância. Vim para me encontrar a mim mesmo, para pôr as leituras em dia, para descansar, para refletir, para me reposicionar nesta nova fase da minha vida, depois da morte da minha mãe. Sempre fiz minhas introspeções junto ao mar. É muito bom, verifico agora, encontrar-me no meio do mar. Em segundo lugar, sempre quis fazer, pelo menos, uma viagem marítima transatlântica, no oceano que tanto tem a ver com os portugueses – aquele que contém no seu sal, certamente, a maior parte das “lágrimas de Portugal”. É verdade que o meu sonho é fazer uma viagem à vela, mas enquanto não se tem um sonho inteiro, é melhor que nada realizar meio sonho. Agora eu sei que o conceito é substantivo. Em terceiro lugar, eu queria um espaço de liberdade. Pode dizer-se que não existe liberdade alguma quando se está confinado num espaço de onde não se pode sair, como se se estivesse numa prisão. Mas a minha cabina é uma barca, dentro de um navio gigante, onde vivo como quero. Aqui ando completamente nu, sempre. Sinto o mar, o sol, as estrelas, quando me apetece. Leio, escrevo, observo. Como quando tenho fome. Durmo quando tenho sono. Saio, e volto, quando quero. Não dependo de ninguém a não ser de mim. Em quarto lugar, o tempo de viagem, a duração do cruzeiro, pareceram–me bem: duas semanas é um período ideal. O necessário para cumprir aquilo a que me tinha proposto. Pelo menos, é isto que me parece.

É claro que tenho as piscinas, os bares, os shows, o ginásio, o casino, etc. Tenciono usufruir um pouco de tudo isso ou, pelo menos, da maior parte de tudo isso. Mas não quero ficar escravo de qualquer obrigação. Irei quando me apetecer, se me apetecer. E a vantagem é que posso ir quando quiser. Sem correr.

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Na piscina da proa do navio.

DIA 6 – NAVEGANDO

Hoje atrasámos o relógio uma hora e, também por isso, acordei cedo. Mal acordei, abri de imediato as portadas da varanda – como faço sempre – e fui ver o mar. Hoje notava-se uma grande diferença de temperatura, estava mais quente, tudo se conjugava para uma ida à piscina, ainda de manhã. E foi o que fiz. O tempo estava excelente, quente, quase sem vento e com muito sol. Estive na piscina toda a manhã, mergulhando, tomando banhos de sol e cavaqueando com duas senhoras muito simpáticas de Ribeirão Preto, Leila e Maria Helena. Por volta do meio-dia avistámos a bombordo, a cerca de 11 milhas náuticas[3], a Ilha do Sal. Ainda estamos ao largo do arquipélago de Cabo Verde e, segundo o comandante, avistaremos pelas 16:00 a ilha de Santiago, a umas 16 milhas de distância, e, por volta das 17:00, passaremos bem perto da ilha do Fogo, apenas a duas milhas náuticas. Claro que já tenho a câmara fotográfica preparada…

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Ilha do Fogo, Cabo Verde (um ano depois aquele vulcão entraria em erupção).

Afinal, não avistámos a ilha de Santiago, mas passámos bem perto da ilha do Fogo. Entretanto, eu que várias vezes no mesmo dia perscruto o mar, avistei da balaustrada da minha cabina uns pássaros brancos, voando bem rente ao mar. Não só voavam como mergulhavam e que grande fôlego tinham, pois não os via regressar! Eram bandos que vinham voando, uns atrás dos outros e, zás, mergulhavam no mar… Comecei, em vez de seguir o seu movimento para a frente, a olhar para trás e então descobri: eles saíam do mar, voavam largos metros e regressavam ao mar. Eu via claramente as suas asas, mas não eram pássaros, eram peixes voadores! Mais tarde, entre o navio e a ilha do Fogo, avistámos um grupo de golfinhos saltando, como se estivessem nos dando as boas-vindas. Pareciam bem alegres. A ilha do Fogo é pequena mas imponente, com a sua boca vulcânica, lá no alto, apontada ao céu. Parece impossível como alguém pode viver num local aparentemente tão inóspito, mas vimos várias casas na encosta leste da ilha, aquela que estava virada para nós. Toda a gente veio para a amurada, feliz por ver aquele pedaço de terra, e eu pensei que se era assim connosco, que não víamos terra há apenas 43 horas e tendo todo o conforto a bordo, o que sentiriam, ao avistar terra firme, os marinheiros de outrora, passados 43 dias a navegar e tantas, tantas vezes muito mais tempo… Nem dá para imaginar.

Agora é precisamente meia-noite e estamos em pleno Atlântico. Não há internet, não há rede de telemóvel e, dos cerca de 30 canais de TV a que podíamos assistir no início da viagem, apenas um funciona, não me perguntem por quê[4]. É o canal alemão, ZDF. O navio ruma a Sul a uma velocidade de 20 nós[5]. Não sei se cruzaremos amanhã a linha do Equador, mas suspeito que ainda não. Pelas minhas contas, será depois de amanhã.

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Uma piscina no meio do oceano.

DIA 7 – NAVEGANDO

Desde ontem que a temperatura subiu acentuadamente. São agora 17:20 e estão 30 graus. Com um tempo destes não há como resistir – hoje fui de manhã e de tarde para a piscina. Escolhi a da popa do navio porque, além de ficar muito perto da minha cabina, tem uma vista fabulosa sobre o mar.

(Domino já na perfeição alguns trajetos que se transformaram em rotina: da cabina para a piscina, para o ginásio ou, claro, para o Buffet, e vice-versa.)

Entretanto, os mergulhos na água salgada e os banhos de sol levaram-me a recordar que, há dias, em Lanzarote, referi não ser “fã de José” (Saramago)…

Sei que esta afirmação é bastante polémica, se bem que se enquadre no perfil do visado, ele próprio reconhecidamente polémico. Sei também, por outro lado, que muitos – incluindo alguns meus bons amigos – ficarão escandalizados por alguém com estatuto irrelevante criticar uma personalidade influente e que tanto prezam. Devo dizer que os compreendo, apesar de, desde há muitos anos, eu não simpatizar com José Saramago. Já agora vou tentar, em poucas palavras, dizer por quê.

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A piscina da proa.

Sei que a maioria das pessoas – entre as que o conhecem, claro – gosta de Saramago. Imagino que não apenas pelos livros que escreveu, mas também – e sobretudo – pela sua personalidade: a relação amorosa com Pilar del Rio; as ideias políticas; a defesa dos mais desfavorecidos; a denúncia das prepotências das grandes potências, sobretudo da grande potência EUA; a indignação perante as injustiças – isto para não falar da guerra particular com a Igreja ou da militância comunista, as quais, certamente, também agradarão a muitos.

Para além disto, que penso ser o mais conhecido, em larga medida devido à grande divulgação das ideias de Saramago pela comunicação social (incluindo, ultimamente, as redes sociais), existem também os livros que escreveu.

Sobre estes, a minha opinião não é certamente a mais avalizada, embora não reconheça em José Saramago o estatuto que, para mim, alcançaram escritores como Jorge de Sena, Aquilino Ribeiro ou o seu arquirrival (dele, Saramago) António Lobo Antunes, só para falar de portugueses que foram ainda, em períodos diferentes, seus contemporâneos.

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Os meus companheiros de cabina.

Saramago teve, porém, o mérito de criar um estilo e soube desenvolvê-lo, trabalhou incansavelmente para isso. O seu virtuosismo resulta da disciplina e do trabalho árduo, não do talento inato. A isto junta-se uma boa dose de imaginação, desenvolvida a partir de temas que o autor engendraria através de um processo de busca apurada, minuciosa, inventariada, obsessiva. Saramago viveu para construir um mito. A prova disto é a sua obra tardia, fruto de toda uma maturação. Não sou eu quem vai contestar o seu mérito, o seu valor artístico. Embora a sua prosa não me seduza tanto como a de muitos outros autores, não tenho dúvida sobre a excelência da mesma, e sou o primeiro a reconhecer um certo preconceito, porventura fruto do que vou expor a seguir.

A par da obra, Saramago soube também construir uma imagem pessoal – a imagem do homem político. E tenho para mim que não foi tanto o político que serviu a obra, mas muito mais a obra que serviu o político. Notoriamente, este usou o prestígio angariado com aquela em prol da construção da imagem e do mito de lutador incansável contra a injustiça no mundo.

Do ponto de vista teórico, a luta de Saramago não foi contra uma qualquer visão da sociedade, contra uma ideologia específica. A luta de Saramago foi contra toda uma civilização, afinal, aquela na qual ele próprio nasceu, viveu e morreu. De facto, atacar a religião cristã[6], a Liberdade e a Democracia é atacar os alicerces das nossas identidades individual e coletiva, é querer romper a nossa ligação a um passado do qual fazemos parte, como somos parte – e fruto – de nossos pais e estes de nossos avós.

E do ponto de vista prático, em que baseava Saramago essa sua luta? Supostamente numa moralidade superior – a sua. José foi um moralista, sem dúvida, um dos maiores do início deste século e, como qualquer moralista, a sua moral era bastante duvidosa. Numa entrevista, justificou o despedimento de um grupo de jornalistas, quando era Diretor do “Diário de Notícias”, como uma decisão coletiva, colegial, e não apenas dele próprio. Uma atitude destas está muito mais próxima de Cavaco Silva[7][8] do que de Nelson Mandela, este sim, um exemplo moral para o mundo, não tanto por aquilo que diz, mas sobretudo por aquilo que faz[9]. E não seria preciso procurarmos Nelson Mandela para encontrarmos alguém que assumisse toda a responsabilidade, naquele caso, onde José Saramago a enjeitou. Muitos cidadãos comuns, não moralistas, seriam capazes de o fazer. A moralidade não se apregoa, pratica-se, e quanto mais se apregoa menos se pratica, e vice-versa.

Receio bem que a admiração por Saramago resida, para muito boa gente, em coisas demasiado vagas e ambíguas como, por exemplo, o amor pela humanidade[10] ou a sua luta por um mundo melhor – algo, felizmente, imensurável, subjetivo e até imprevisível na maioria dos casos.

Se pudéssemos medir, a priori, o tamanho dos corações humanos, suspeito que teríamos muitas surpresas. É que também não adianta muito apregoar o nosso amor pela humanidade – é preciso praticá-lo.

Et voilá. São 19:20, o céu encheu-se de nuvens escuras, mas ainda não chove. Estamos, neste momento, a 06º52.05’ N e 027º12.43’ W, bem entre a África e a América do Sul, e eu estou com fome.

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Já em águas brasileiras.

DIA 8 – NAVEGANDO

Choveu durante toda a última noite e hoje está um vento de sudeste bastante forte[11]. O céu mantém-se encoberto, embora não chova. Nestas condições não me apeteceu ir à piscina. São 17:30 (acabo de ver uma baleia agora mesmo – o comandante avisou e eu vi-a saltando no mar!), e estou na varanda da minha cabina. Está-se bem aqui, abrigado do vento. Olhando o mar, continuo vendo, de quando em vez, peixes voadores. Lá em baixo eles parecem muito pequenos, mas na realidade são muito maiores. É curioso como, navegando no alto-mar, não temos bem a noção da altura em que nos encontramos. Penso que isto acontece por estarmos rodeados de mar por todos os lados e por não termos os pontos de referência habituais. Assim, pensamos que os peixes voadores são mais pequenos do que na realidade são. Pelo contrário, se o navio estiver acostado e olharmos para baixo, temos uma noção mais clara da altura a que nos encontramos, pois as pessoas, os carros, etc – tudo é minúsculo em relação ao tamanho habitual[12]. Aqui, no mar alto, acontece de facto esse fenómeno estranho: parece que o mar está muito mais perto do que na realidade está.

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O amigo Jefferson Farias.

Hoje de manhã, após o pequeno-almoço, fui dar uma volta pelo navio. Descobri que no deck 7 se pode fazer caminhada ou jogging, junto da amurada, em ambos os lados do navio. Observei também muita gente trabalhando, aqui e ali. Ouvi várias versões sobre o número de tripulantes, mas é certo que são mais de 1.500. Manter um navio destes funcionando exige uma grande organização. Não deve ser fácil gerir o dia-a-dia de um monstro flutuante de 137.000 toneladas. O serviço de quartos, por exemplo, é melhor do que o da esmagadora maioria dos hotéis. A minha cabina é limpa duas vezes por dia e são mudadas todas as toalhas utilizadas. A alcatifa é aspirada diariamente. Como já sei as horas a que o simpático camareiro vem fazer a limpeza, nunca estou na cabina nesse horário. No final de cada dia ele sempre trás o Daily Program, onde podemos ler sobre tudo o que se passará a bordo no dia seguinte.

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Ilhota de São Paulo, Brasil.

Por falar em jornais, hoje conheci o rapaz que tem a seu cargo a distribuição de toda a imprensa a bordo, Jefferson Farias. Há vários jornais que são impressos a bordo e que podem ser adquiridos pelos passageiros[13]. Eu queria comprar um para saber qual fora o resultado do jogo entre a Suécia e Portugal, mas logo Jefferson me tranquilizou, dizendo que Portugal vencera a Suécia, com três golos de Cristiano Ronaldo. Perguntei-lhe se tinha a certeza e ele respondeu que sim, que estava muito feliz porque também era português e que vivera dez em Portugal, em Sintra. Para mo provar mudou rapidamente o sotaque para português de Portugal, de uma forma tão perfeita que me surpreendeu de verdade[14]. A partir dali sempre falou com aquele sotaque, excetuando quando tinha de se dirigir a brasileiros. Não pude deixar de rir. Foi uma agradável surpresa conhecer este jovem. Ele é a prova de como, de facto, somos povos irmãos e (mais) um exemplo vivo do espírito deste blogue. Fiquei realmente feliz por conhecê-lo e trocámos, com um aperto de mãos, um caloroso “até sempre”.

Agora, há cerca de meia-hora atrás, o comandante anunciou que chegáramos às ilhas de São Pedro e São Paulo[15], uns rochedos a cerca de 510 milhas de Natal, já em território brasileiro. Para nossa surpresa, veio ao encontro do navio uma pequena embarcação (é difícil não ser “pequena”, comparada com o Preziosa) e desta fizeram descer uma ainda mais pequena (um pequeno bote de borracha), onde dois homens transportaram peixe para o nosso navio – cavala e atum. O comandante do Preziosa e o capitão do rochedo são amigos, o que podemos verificar pela comunicação entre ambos, perfeitamente audível pelos altifalantes a bordo. Despediram-se, até Abril.

Este momento foi muito interessante, com toda a gente assistindo da amurada, acenando para os homens do Transmar-III, e vice-versa. Quando o Preziosa retomou a marcha, o comandante fê-lo apitar fortemente três vezes, como sempre faz nas despedidas.

(Agora é mesmo um pássaro que avisto lá em baixo, rente ao mar. Parece uma espécie de gaivota ou um corvo marinho, não sei… consegui fotografá-lo, mas a distância era grande. Isto deve querer dizer que há terra não muito longe).

Posto isto, estamos bem perto do Equador e, afinal de contas, já estamos no Brasil. Logo, pelas 22:00, passaremos o Equador. E antes de dormir temos de atrasar os relógios uma hora. O horário será a partir de hoje o do Brasil.

DIA 9 – NAVEGANDO

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A célebre e belíssima ilha Fernando de Noronha.

Acordei cedo e fui inspecionar o céu e o mar, como sempre faço. O dia prometia ser agradável, com sol e calor. Depois da rotina de todos os dias, banho, pequeno-almoço, etc, dirigi-me à piscina da proa,[16] como já referi, a minha favorita. Mal cheguei, comecei a ver umas aves muito elegantes sobrevoando o navio. São brancas, mas algumas têm as asas negras na parte interior, enquanto outras têm apenas um rebordo negro. Talvez umas sejam machos e outras fêmeas, não sei. Sei que, como disse, são muito elegantes, esguias, com o bico comprido, cónico e reto, e cada uma das asas em forma de boomerang. Algumas pairavam sobre o navio, acompanhando-o sem um movimento, só planando, enquanto outras voavam mais baixo, a uma velocidade, por vezes, estonteante. Nunca tinha visto um pássaro voar tão depressa. A cauda é bifurcada, mas, quando voa a alta velocidade, fica unida, formando um elemento só com o tronco e a cabeça, que termina naquele bico comprido e cónico – e, em cada lado, as asas em formato boomerang, de enorme envergadura. O cúmulo da aerodinâmica. Não admira que tenhamos visto estas aves tão longe de terra, pois, à velocidade a que se deslocam, percorrem rapidamente grandes distâncias. Estes simpáticos seres, que vim a descobrir serem atobás, acompanharam-nos durante todo dia, inclusive, quando passámos, cerca das 12:30, por Fernando de Noronha.

Navegámos bem perto do arquipélago, e foi possível observar um mar tranquilo e límpido, praias de areia branca, com dimensões, formas e exposições ao mar variáveis, alguma vegetação nas escarpas, um porto de abrigo para embarcações de recreio e, sobretudo, deu para perceber que ali é, para quem goste do mar, o verdadeiro paraíso. O comandante Giuliano Bossi fez o navio deslocar-se lentamente para que pudéssemos apreciar toda a costa norte da ilha, após o que, como habitualmente, obrigou o Preziosa a soltar, por três vezes, aquele ronco imenso que parece vir das suas entranhas. De uma embarcação pequenina, lá em baixo, acenavam-nos vigorosamente, dizendo adeus, e eu imagino o espetáculo que deve ser alguém observar dali a lenta passagem desta imensa montanha flutuante. O Preziosa tem mesmo que ir muito devagar, pois a ondulação que a sua passagem rápida provoca poderia virar um barquinho daqueles. Ao que parece, moram em Fernando de Noronha cerca de 3.400 pessoas. Com os turistas que estarão visitando a ilha neste momento, imagino que ali estarão, mais ou menos, tantas pessoas quanto as que seguem a bordo do nosso navio.

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O waterslide do Preziosa tem uma parte transparente que sai fora no navio.

Depois do almoço, decidi experimentar a piscina de proa, aquela que fica coberta quando está mau tempo, o que não foi o caso de hoje, claro. Esta piscina é mais comprida e, num dos lados, mais profunda, com 1,90 m. Sempre dá para umas braçadas. Hoje apetecia-me variar e, vai daí, fui experimentar um equipamento que faz a delícia do pessoal mais novo a bordo – O Vertigo Waterslide. Trata-se de um tubo com uns 80 metros de comprimento e água sempre correndo, que vem, entre curvas e contra curvas, desde o topo do Preziosa até o 15º deck[17]. O tubo é negro quando visto de fora, mas, quando fazemos o slide, vemos uma sucessão de desenhos geométricos muito coloridos, numa sequência tão rápida quanto a velocidade a que descermos. Para tornar a descida ainda mais emocionante, há uma curva do tubo que é transparente e sai fora do navio. Se der tempo para nos apercebermos, ficamos literalmente no espaço, só com o oceano por baixo de nós. A descida deve demorar uns 25 segundos, mas é pura adrenalina. Repeti três vezes, e amanhã quero mais.

Navegamos sobre um mar profundo. Como eu desejo que seja o sono em que vou mergulhar agora.

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Safari Lounge. Um dos bares e sala de espetáculos do navio.

DIA 10 – NAVEGANDO

Hoje acordei quando já nos encontrávamos bem perto da costa brasileira, ao largo de Recife/Maceió. Fiquei impressionado por navegarmos numa zona onde a profundidade do mar é muito reduzida, por volta dos 50, 60 metros, inferior à altura do Preziosa[18]. O tempo estava quente, bem quente e, claro, pensei logo num mergulho na minha piscina favorita, a Garden Pool, mas, entretanto, fui dar uma volta pelos decks inferiores para tirar umas fotos. Os espaços públicos do navio estão muito bem iluminados e decorados, sendo os tons ocre e o dourado, opções bastante utilizadas. É o que se pode observar, por exemplo, nas cabinas e no Safari Lounge[19]. Os italianos, quando se trata de design, não brincam em serviço. O Preziosa é, além de tudo o mais, uma obra de arte.

Depois do almoço regressei à piscina, mas passado pouco tempo, não sei porquê, pus-me a olhar os velhinhos dentro de água, ali há que tempos, e pensei com os meus botões que era impossível eles não mijarem dentro de água[20]. Entretanto outros entravam, estavam um pouquinho, e saíam – notoriamente tinham ido mijar. Decidi ir-me embora e fazer umas descidas no waterslide. Pelo menos ali, a água sempre corre continuamente e eu estou a tomar o gosto pelo slide, apurando a técnica, descendo mais rapidamente.

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Fim do dia em alto mar.

Por volta das 16:00 estava na minha cabina terminando de ler um livro muito especial e que, desde já, recomendo vivamente. O título é “A Mulher que Amou o Faraó”[21], um romance histórico, emotivo, belo e interessante, que prende o leitor[22]. A autora é Helena Trindade Lopes, uma historiadora que, entre muitos outros cargos e funções, é presidente da Associação Portuguesa de Egiptologia. Acontece que conheço a Helena desde os sete, oito anos de idade. Passávamos juntos as férias grandes, no povoado de Passos, perto de Viseu, no interior norte de Portugal, de onde os meus pais (e não sei se apenas um ou ambos os pais dela) eram oriundos, isto nos anos sessenta do século passado. A casa da minha avó era contígua à casa da avó dela, e a Lena conheceu muito bem a minha mãe, que nos obrigava a dormir a sesta – um hábito que, pelos vistos, estou a recuperar – num quarto da casa da minha avó. Lena gostava de mim e eu gostava dela.(Agora me lembro de que, naquela época eu tinha um padrinho americano que me mandava roupa e dólares, pelo Natal, que eu ia receber a casa dos pais dele, ali ao bairro América, a Sapadores. Os pais morreram. E o meu padrinho – será vivo ainda?)

Todos os verões eu e a Lena nos encontrávamos, brincávamos, e eu recordo com nostalgia esses tempos de infância. Nossos percursos não mais se cruzaram com aquela regularidade, mas permanecemos amigos até hoje.

E enquanto viajo no tempo para trás, o Preziosa continua em frente. Amanhã aportaremos em Salvador.

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Pelourinho, em Salvador.

DIA 11 – SALVADOR

Já tinha visitado Salvador, em março de 2006, por isso, desta vez, foquei-me em duas ou três coisas muito específicas, que quis analisar mais profundamente. Como não podia deixar de ser, fui para o Pelourinho[23], certamente a zona melhor preservada e mais interessante, o centro histórico de Salvador. Visitei a antiga igreja dos jesuítas, hoje catedral, localizada no Terreiro de Jesus, antes de cumprir o primeiro objetivo a que me havia proposto que era visitar a igreja de São Francisco. Exemplar notável do início do período barroco, o interior da igreja é todo revestido com talha dourada, e ali estão aplicados mais de 800 quilos de ouro. O resultado é uma das igrejas mais bonitas do Brasil, quiçá, do mundo. Ao lado, no convento da Ordem Terceira, podemos observar, no átrio, um conjunto notável de azulejos com cenas de Lisboa, ainda antes do terramoto de 1755.

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Início da noite em Salvador.

Após a visita, que se fez demorada, pois há muita coisa para ver, veio a hora do almoço e do segundo objetivo: comer uma boa moqueca. Quem procura sempre alcança, e eu, posso dizê-lo, procurei e alcancei, provavelmente, a melhor moqueca do Pelourinho. Ainda por cima, o restaurante é um buffet e, assim sendo, há a possibilidade de provar várias moquecas, que se revelaram todas excelentes, diga-se, mas a melhor, sem dúvida, uma que nunca tinha provado até hoje – moqueca de bacalhau. Divinal. Quem quiser experimentar só tem de dirigir-se ao Museu de Gastronomia Baiana – Senac, onde se formam cozinheiros para os melhores restaurantes de comida típica da Bahía. O almoço não é barato, rondará os 50 reais por cabeça, mas garanto que vale a pena.

Depois do almoço fui dar uma volta a pé pelo Pelourinho, gostei, está bem preservado, melhor do que há sete anos. Uma característica do “Pelô” é que sempre se houve algum tipo de música. Na volta para o navio tive que regressar pelo Lacerda e, claro, passar mais uns minutos numa fila.

Passado pouco tempo depois de ter entrado no navio, estava o sol a pôr-se, o Preziosa começou a afastar-se muito devagarinho do cais, rodou e rumou a Sul.

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Sobrevoo de inspeção.

DIA 12 – NAVEGANDO

O Brasil é um país imenso, toda a gente sabe disso, não admira que o dia de hoje fosse passado a navegar, sem paragens, pois entre Salvador e Búzios, aonde chegaremos amanhã cedo, distam 660 milhas náuticas. Durante quase todo o dia navegámos na zona costeira da Bahía, zona tradicionalmente com bom tempo, por isso não admira que as piscinas hoje estivessem cheias de gente. Eu fui para a Garden Pool bem cedo, por volta das 8:15, a fim de conseguir uma espreguiçadeira não muito longe da água, e alternei, toda a manhã, banhos na piscina com descidas no water slide. Por volta das 10:00 avistámos o arquipélago de Abrolhos, já no sul da Bahía, e também, várias baleias.

O sol estava bem forte, e às 15:00, já depois de ter almoçado, vim até a cabina tomar um banho de água doce, manter-me à sombra e reler “O que diz Molero”, de Dinis Machado, uma obra-prima da Literatura mundial. E tudo ali, numa novela que se lê em dois dias. Sem parar.

Agora, já depois do sol se pôr, temos passado por muitas plataformas petrolíferas, que o navio vai ultrapassando a uma velocidade entre 17 e 18 nós. O tempo começou progressivamente a ficar cinzento e, agora, chove.

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O Preziosa em Salvador.

Os preços a bordo, como seria de esperar, são puxadinhos. Normalmente tomo um copo de vinho tinto às refeições, um copo bem pequeno, cujo preço varia entre os 4,5 e os 6 euros, consoante a marca[24]. Mas devo dizer que o vinho é bom, aliás, o vinho italiano, em geral, é excelente.

A bordo não se movimenta dinheiro, a não ser na entrada do navio e na saída. Quando se entra no navio tem de se depositar no mínimo 150 euros, em dinheiro ou através de cartão de crédito, sendo então entregue o MSC Card, que serve para tudo a bordo, desde abrir a porta da cabina até comprar bebidas, lembranças, ir ao cabeleireiro ou, simplesmente, pedir uma toalha emprestada para estender numa espreguiçadeira da piscina. O cartão serve para tudo e, através dele, tudo está controlado. No fim do cruzeiro dirigimo-nos ao Serviço de Contabilidade para acertar as contas. Se gastarmos mais que os 150 euros, pagamos o excesso; se gastarmos menos (o que em 99% dos casos não acontece) a MSC devolve-nos o valor não utilizado. Convém dizer que são cobrados 6 euros diários por “service charge”.

Porém, se só se beber água[25], café e chá (disponíveis 24 horas por dia) e não se utilizar qualquer serviço pago, como o SPA ou o cabeleireiro, por exemplo, não se comprar qualquer artigo a bordo (roupa, perfumes, relógios, lembranças do navio, fotos que os fotógrafos de bordo tirem, etc), não se utilizar a Internet, nem se fizer qualquer excursão em terra, em princípio só será cobrada a tal taxa diária.

E agora que, como disse, o tempo está cinzento e chuvoso, vou deitar-me e ver, pelo serviço de DVD a bordo, para puxar o sono, pela enésima vez e em italiano, um dos filmes da saga “O Padrinho”.

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Búzios, no estado do Rio de Janeiro.

DIA 13 – BÚZIOS

Chegámos a Búzios por volta das 8:00, com o dia cinzento e uma chuva miudinha, persistente. Não existem infra-estruturas em terra para receber navios grandes, por isso, O Preziosa ancorou ao largo. A propósito disso, houve um momento em que o navio, depois de parar, abanou todo, num estremecimento ruidoso, que parecia um tremor de terra. Achei aquilo estranho, mas logo percebi o que estava acontecendo – estavam a lançar ferro para prender o navio ao fundo do mar… Faço uma pequena ideia do tamanho e do peso das âncoras do Preziosa!

Passado pouco tempo, já quatro ou cinco lanchas do navio desciam para o mar, e os passageiros começaram o embarque com destino a terra. Cada lancha leva 120 passageiros e, em pouco tempo, todos os que queriam pisar terra firme estavam em Búzios, município celebrizado por Brigitte Bardot, que ali viveu numa determinada época, que ali tem uma estátua, numa rua que tem o seu nome.

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Praia da Azedinha, em Búzios.

Há praias bonitas em Búzios e eu, apesar de não ter visto todas, gostei muito da praia da Azedinha, mesmo ao lado da Azeda, mas, como o nome indica, mais pequena e, também, mais graciosa. Nota-se que Búzios, no verão, fica sobrelotado. Falei com pescadores, gente afável e simpática, que, enquanto amanhavam o peixe e lançavam, para a areia da praia, os restos a gaivotas e urubus, me foram elucidando sobre as denominações das diversas espécies, desde o bonito, “sobrinho do atum”, até a anchova, o cação, a maria-mole, a corvina e a curuvinota.

Ainda fui a tempo de almoçar a bordo. Não tardou muito que levantássemos ferro e rumássemos ao destino final deste cruzeiro – Santos. O que é bom acaba depressa e, não sei se por não querer pensar nisso ou se por causa dos mar e terra e céu cinzentos, deu-me um sono tão grande que, mesmo com a porta da sacada aberta, adormeci.

DIA 14 – SANTOS

A chuva e o céu cinzento não mais nos deixaram até o fim. Hoje tivemos de nos levantar cedo, muito cedo mesmo, pois o navio chegou a Santos às 6:00 e nós tivemos de deixar as cabinas às 7:15. Pouco mais há a relatar, a não ser um desembarque caótico, com as malas espalhadas num armazém imenso, o navio longe desse armazém e o transporte realizado entre um e outro, por dezenas de autocarros, entre trabalhadores, máquinas, silos, obras, ferramentas, viaturas, poças de água, óleo e o persistente céu cinzento cobrindo tudo.

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O meu camareiro indonésio, I Gede Yudana Putra.

É tempo de recordar algumas pessoas, sobretudo da tripulação, aquelas com quem mantive mais contacto. O meu simpático e eficiente camareiro, indonésio, I Gede Yudana Putra; o já referido Jefferson Farias; e também Janio B Costa, um jovem cearense a quem auguro um grande futuro; as paulistas de Ribeirão Preto, Leila e Maria Helena; a santista que conheci na última hora, quase no último minuto, mas ainda a bordo, Sónia Parolari.

No Preziosa, a qualquer hora do dia ou da noite, há gente a trabalhar e o essencial é cada um saber o que tem de fazer. Para isso, é importante o papel dos chefes de equipas, numa função que, reconheço, nem sempre será fácil, uma vez que, como já referi atrás, trabalham a bordo pessoas de múltiplas nacionalidades. Entre aqueles que contactei, havia na tripulação do navio [26] representantes dos seguintes países: Itália (sobretudo oficiais), Brasil, Indonésia, Montenegro, Finlândia, Filipinas, Honduras, Ilhas Maurícias, Índia, Rússia, Roménia, Guatemala, Ilhas Samoa, Peru e Israel.

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[1] “Bombordo”, como a palavra indica, quer dizer “bordo bom”, ou seja, o bordo do navio de onde se avista terra. Isto deve-se às primeiras viagens dos portugueses, pois, a costa africana ficava do lado esquerdo do navio, o lado bom.

[2] Alguns historiadores compartilham a ideia de que as Canárias foram descobertas pelos portugueses ainda na primeira metade do século XIV (1336).

[3] Uma milha náutica corresponde a 1.852 metros.

[4] A MSC disponibiliza dois canais de DVD, mas os filmes são sempre os mesmos, passando em sessões contínuas.

[5] 20 nós correspondem a 23,0156 milhas/hora. E como surgiu a denominação “nó”? É devida aos portugueses. Estes jogavam ao mar um pedaço de madeira amarrado a uma corda cheia de nós. Depois contavam o número de nós que passavam por entre os dedos durante meia-hora. O tempo era medido com uma ampulheta. Até hoje, a velocidade dos navios é medida em “nós”.

[6] Repare-se que não é, restritamente, a Igreja Católica, nem, irrestritamente, qualquer religião que Saramago ataca. O seu alvo específico é o Cristianismo, base da civilização ocidental.

[7] Aquele que nunca tem dúvidas e raramente se engana. O mesmo que afirmou, recentemente, não haver alguém mais honesto do que ele.

[8] Muitos ficarão ainda mais chocados depois desta comparação entre Saramago e Cavaco, tão distantes ideologicamente. Mas a mim cada vez me interessam menos as ideologias e cada vez me interessam mais as pessoas. Deviam ser estas a criar todos os dias novas “ideologias” e não aquelas a formatarem as pessoas.

[9] Infelizmente, hoje, Mandela já pouco diz e faz. Como se sabe este homem tolerante (e extraordinário) – que sempre se considerou falível e que nunca se achou exemplo para os outros – está, desde há bastantes meses, muito doente.

[10] Ficou também célebre o amor, idealizado, entre Saramago e Pilar del Rio. O filme (documentário) “Pilar e José” mostra, porém, uma realidade diferente.

[11] Dado que o navio segue na direção Sul, é normal que o vento pareça ainda mais forte. A isto chama-se “vento aparente”. Como é evidente, se o vento vier da popa do navio (neste caso, de Norte) o vento aparente será mais fraco que o vento real.

[12] Para se ter uma ideia, a altura do Preziosa é de 67,69 metros.

[13] A minha dúvida permanece sobre como chegam os jornais ao navio, dado que não consigo aceder à Internet. Mas o facto é que hoje comprei o “Folha de São Paulo”, e na última página estava inscrito em grande destaque o nome do sítio da Internet onde supostamente se pode aceder para imprimir mais de 2.000 jornais de 95 países, em 52 línguas: www.newspaperdirect.com.

[14] Na realidade, Jefferson nasceu em Fortaleza e é filho de mãe brasileira e pai português. Nada que me não seja familiar, pois tenho uma filha em idênticas circunstâncias.

[15] Charles Darwin visitou estas ilhas em 16 de Fevereiro de 1832.

[16] The Garden Pool.

[17] O deck mais alto do navio é o 18º, mas o topo do tubo – onde começa a vertiginosa descida, e a que se acede por uma escadaria, em armação, com vários lanços, do género daquelas estruturas por onde se sobe para chegar às pranchas de salto de algumas piscinas – fica ainda um pouco mais alto.

[18] Porém, por volta da hora do almoço, já navegávamos numa zona mais profunda, em torno dos 1.700 metros.

[19] Espaço situado no 7º deck onde se realizam espetáculos e reuniões, com palco, pista de dança, bar e cabina de apoio, multimédia.

[20] Todas as piscinas são esvaziadas e lavadas, à noite, sendo, manhã cedo, de novo enchidas com água bombeada do mar. Este processo repete-se todos os dias.

[21] Helena Trindade Lopes, “A Mulher que Amou o Faraó”, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011.

[22] Uma análise mais detalhada será, provavelmente, publicada na categoria “Livros”.

[23] Ainda não percebi por que não construíram um outro acesso (têm espaço para isso), desde cá de baixo, em alternativa ao elevador Lacerda. Bem sei que o preço da subida (e descida) é praticamente insignificante (15 centavos), mas o custo das filas justifica a construção de uma escadaria – o que além de ficar bonito, incentivava as pessoas a praticarem exercício físico.

[24] A bordo tenho bebido: Regale Rosso Toscana IGT, “Tinimenti Andrenci”; Chianti Leonardo DOCG “Dalle Vigne”; Báron de Pardo Crianza DOCA “Nava-Rioja”.

[25] No Buffet Inca & Maya existem várias máquinas das quais se pode retirar água e gelo, a qualquer hora. Vi muita gente levar garrafas de plástico, enchê-las com água e levá-las para a cabina ou mesmo para fora do navio. Porém, de acordo com o meu amigo Jefferson, aquela água contém demasiado cloro e não deve ser bebida em excesso.

[26] A legislação brasileira obriga que, nos cruzeiros no Brasil, pelo menos 30% da tripulação seja nacional, razão pela qual estavam muitos tripulantes brasileiros a bordo.