A Ilusão da Memória

Julia Shaw
A jovem psicóloga canadiana Julia Shaw.
  1. A memória é maleável. Com o passar do tempo incorpora interesses, preferências, sonhos, experiências diversas e modifica-se, podendo transformar completamente um acontecimento passado, falseando-o, quer este tenha sido (emocionalmente) marcante ou banal. Muitas das nossas memórias são falsas, mesmo aquelas (talvez sobretudo essas) que nos parecem extremamente claras.
  2. Vários estudos confirmam amplamente que a grande maioria de nós considera-se mais inteligente (ou mais culta, ou mais sábia, ou mais talentosa) que a média, algo que, logicamente, se traduz numa impossibilidade estatística, pois não pode haver uma maioria acima (ou abaixo) da média. O que realmente acontece é que quase todos somos afetados por algo muito comum: o pretensiosismo. Os mais presunçosos são também, como seria de esperar, os mais confiantes. Porém, uma maior confiança na própria memória não significa que esta seja mais exata, antes pelo contrário.
  3. A ciência é sempre preferível à pseudociência, e os cientistas são sempre mais interessantes que os charlatães (profetas, iluminados, lunáticos, etc.). Por exemplo, a hipnose é uma treta: ninguém consegue recordar coisas de quando era pequenino ou de qualquer outra fase da vida através da hipnose.
  4. Por falar em ciência e pseudociência, o sinónimo mais aproximado para “Freud” é… “fraude”.
  5. Há muitas capacidades mnemónicas espetaculares, como indivíduos capazes de memorizar uma quantidade impressionante de dados, outros extremamente dotados para recordar rostos e outros ainda com uma excelente memória fotográfica (eidética), mas isso, ao contrário do que possa parecer, não é bom. Muitos autistas, por exemplo, não conseguem relacionar-se socialmente e, no entanto, alguns deles são hipertimésicos (savants), isto é, têm uma capacidade de memória incrivelmente superior à dos indivíduos comuns.
  6. As capacidades excecionais são, portanto, muito menos importantes que o equilíbrio. A memória funciona por associação e cada conceito ou imagem ativa um nódulo cerebral, que por sua vez ativa outro e assim sucessivamente até muitos nódulos se ligarem e formarem memórias mais complexas. Pensa-se que o hipocampo (situado, sensivelmente, no meio do cérebro) seja o responsável pela formação destas redes, em tempo real; e cada vez que recordamos criamos uma nova memória diferente da anterior, sendo influenciados de múltiplas formas quer no momento em que algo acontece, quer nos momentos em que recordamos esse acontecimento.
  7. A plasticidade do nosso cérebro, a capacidade que detém para fazer associações, não permite que as memórias sejam impermeáveis, pelo contrário, elas são suscetíveis a todo o tipo de influências. Porém, é graças a essa plasticidade que também conseguimos aprender, relacionar, criar. Jamais seríamos humanos se não tivéssemos um cérebro altamente equilibrado e relacional.
  8. O saudável equilíbrio está ligado a racionalidade e a independência. Somos seres paradoxais, dotados de uma racionalidade frágil, muitas vezes eclipsada pelas emoções e pela necessidade de pertença a grupos – turmas, escolas, clubes de futebol, bairros, partidos, nações, igrejas, etc -, o que nos leva a aceitar a irracionalidade, quase sempre sem darmos conta disso. O mundo passa a dividir-se entre nós, os bons, e os nossos rivais, os maus. (Quem quiser aprofundar este tema pode procurar um excelente livro, publicado em 2008: Previsivelmente Irracional: as forças ocultas que formam as nossas decisões, do americano Dan Ariely).
  9. É por isso que muitas vezes relutamos em contrariar alguém de um determinado grupo ou quadrante – porque temos a clara noção de que seremos imediatamente catalogados como pertencentes ao grupo ou quadrante rival. Por exemplo, se criticamos uma ideia vinda da direita é porque somos um perigoso esquerdista, e vice-versa. Ser membro fervoroso de um grupo torna-nos radicais e retira-nos a capacidade de entendermos o pensamento independente, mesmo que este constitua, como de facto acontece, a única atitude racional.
  10. Finalmente, só conseguiremos aproximar-nos de um pensamento independente se formos críticos. Mais exatamente, autocríticos. Somos seres flexíveis e influenciáveis: a racionalidade absoluta não existe e a independência completa também não. Mas mantendo-nos autocríticos poderemos ter, em momentos mais ou menos importantes, uma atitude menos irracional (e menos presunçosa, também). Isto pode parecer pouco relevante, mas talvez não seja: a racionalidade é a única forma de, no mundo, alcançarmos a paz.

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Foto retirada de: http://www.vice.com

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A nossa edição:

“A Ilusão da Memória”, Julia Shaw, Círculo de Leitores, 1ª edição, Lisboa, 2016.

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Costa do Conde, Paraíba, Brasil

Praia do Coqueirinho. Talvez a mais bonita da Paraíba.

Vivemos em quatro Estados do Brasil. Primeiro no Paraná, em Ivaiporã, depois na Bahía, em Porto Seguro, mais tarde no Rio Grande do Sul, em São Leopoldo, e por último na Paraíba, em Carapibus, 30 quilómetros a sul da capital, João Pessoa. Carapibus pertence à prefeitura do Conde, bem como a praia com o mesmo nome e todas as outras – Amor, Jacumã, Tabatinga, Coqueirinho, Arapuca, Tambaba, Graú, Bela – as melhores da Paraíba, integradas na chamada Costa do Conde. Gostámos tanto do lugar que acabámos por comprar uma casa e aqui vivemos durante dois anos. A zona é, de facto, paradisíaca, e todas as praias já referidas têm os seus encantos.

Praia Bela. Os brasileiros, sobretudo do Nordeste, não são muito dados a banhos de mar e sol. Em parte isto é compreensível, pois o sol aqui é realmente potente e perigoso: não passa pela cabeça de ninguém estar deitado na praia, ao meio-dia, a apanhar banhos de sol. Já em relação à preferência pelos banhos em rios e maceiós em detrimento do mar, colocam-se várias hipóteses, todas elas culturais, relacionadas com as tradições índia e negra. Neste aspeto, há um contraste vincado com a cultura portuguesa.

Por outro lado, além da ligação à natureza, a proximidade destas praias a João Pessoa proporciona a quem ali vive deslocar-se com facilidade à capital para suprir alguma necessidade que não possa ser satisfeita nas pequenas localidades costeiras pertencentes ao município do Conde. Costumávamos ir a João Pessoa uma vez por semana, primeiro de carro, depois de buggy, para nos abastecermos nalgum supermercado de maior dimensão e, sobretudo, para comprarmos peixe no Zé do Peixe, na Penha, uma pequena e pitoresca aldeia de pescadores junto ao mar, aproveitando, em geral, para almoçarmos no restaurante Vila do Porto na zona histórica de João Pessoa (um restaurante belíssimo que é também um espaço cultural) ou no Maré Alta, na marginal. A zona histórica vale bem uma visita demorada: a Igreja de São Francisco, do século XVI, com seus belos azulejos portugueses no pátio, é ponto de paragem obrigatório; os edifícios art nouveau são outra atração a não perder.

Brincando com a lua em Tabatinga 1.

A Praça Antenor Navarro alberga edifícios de grande interesse arquitetónico (é num deles que funciona o Centro Cultural Espaço Mundo); no topo da praça, virando à esquerda, encontra-se um pequeno largo com a Igreja de S. Frei Pedro Gonçalves e belos edifícios, como o Hotel Globo ou a Casa da Ordem dos Arquitetos; é mesmo ao lado desta que fica o restaurante-bar Vila do Porto. Descendo no mesmo sentido, encontraremos, já junto ao rio Paraíba, um bairro pobre com casas pré-fabricadas ao lado de grandes edifícios em ruínas, de antigos comerciantes portugueses. Alguns dias ficámos em João Pessoa para jantar, invariavelmente no Teimoso, um restaurante português, com alguns petiscos e pratos típicos de Portugal. À noite, a zona mais segura é mesmo a que fica junto à orla marítima, onde quase tudo acontece. Como em todas as cidades brasileiras, as zonas mais movimentadas e com mais turismo são as mais policiadas e, como tal, as mais seguras. Fora dessas zonas não é nada aconselhável andar a pé. Em João Pessoa fica também um restaurante famoso, aonde fomos duas ou três vezes, o Mangai, talvez o maior e o mais diversificado restaurante de comida genuinamente paraíbana.

Tabatinga 2. No Verão a água de mar muda de cor e fica mais transparente devido a alterações nos ventos e nas correntes marítimas.

Mas na Costa do Conde também há bons restaurantes. Dois deles, realmente excelentes, são o Turek, em Carapibus, e o Canyon, ao lado da praia do Coqueirinho. O primeiro é especializado em carne grelhada e o segundo em peixe (sobretudo moquecas) e marisco.Além da proximidade a João Pessoa, a Costa do Conde não fica muito distante do Recife. A capital do Pernambuco, onde fica o aeroporto internacional com ligações diretas (e indiretas) a Portugal, dista uns meros 120 quilómetros de Carapibus ou Jacumã. De vez em quando, para algum evento especial, como um concerto ou o carnaval (de Recife ou Olinda), ou para comprarmos livros na livraria Cultura (João Pessoa é pobre em livrarias, a mais ampla e diversificada é uma que vende livros em segunda mão, chamada Sebo Cultural) ou ainda para irmos ao aeroporto receber alguém ou nós próprios viajarmos, dávamos um salto ao Recife. Quem nos transportou muitas vezes para o aeroporto do Recife ou deste para nossa casa de Carapibus foi o senhor Ernande, já também um amigo, cujo contacto, no caso de alguém precisar, é o seguinte. (+55) 83998692749. O senhor Ernande pode (e deve) ser contactado através do whatsapp.

Ainda a praia de Tabatinga 1. Por ser mais próxima de nossa casa, é aquela aonde fomos mais vezes.

Como se sabe, o turismo no Brasil é incipiente, sobretudo o turismo externo. E, no entanto, a Costa do Conde tem um potencial turístico excecional. Tem boas praias, bom clima, bons restaurantes, boas pousadas, boa gente. Mas faltam duas coisas essenciais. Por um lado, segurança e, por outro, infraestruturas e equipamentos de todo o tipo, sobretudo boas estradas. Se houver vontade política e capacidade de investimento, a Costa do Conde poderá ser um destino atrativo para turistas de todo o mundo, nomeadamente para americanos e europeus. Isso daria um impulso à região criando riqueza e emprego. A cultura paraíbana, como acontece um pouco por todo o Brasil, é rica, e o forró pé-de-serra um produto local genuíno, é, por isso mesmo, igualmente um produto turístico por natureza. A cidade de Campina Grande, a segunda maior da Paraíba, a 130 quilómetros de João Pessoa, tem como cartão de visita as festas juninas (o equivalente aos nossos santos populares), nas quais participam as chamadas “quadrilhas”, numa manifestação popular única, que alcança na Paraíba e no Pernambuco a sua expressão mais elevada.

Passagem da praia do Amor para a praia de Jacumã.

Assim, passar uma férias na Costa do Conde durante o mês de Junho tem algumas vantagens. Em princípio, os voos são mais baratos. E, dado que no Brasil o Inverno começa precisamente nesse mês, é uma altura de “época baixa”, quando os preços, nomeadamente das pousadas, são também mais baratos. Por outro lado, há mais sossego, logo mais tranquilidade. E pode sempre dar-se um salto a Campina Grande para se assistir à atuação das quadrilhas. Quem quiser, pode alugar um carro e visitar outros locais, como Recife ou mesmo Natal, que fica a menos de 200 quilómetros de João Pessoa. Natal é, aliás, outra cidade com aeroporto internacional e uma hipótese alternativa ao Recife, caso o preço dos voos para a capital do Rio Grande do Norte seja significativamente inferior ao dos voos para o Recife. Pelo caminho até Natal há pontos interessantes, como a praia de Pipa, o cajueiro gigante de Pirangi ou o rio Catu que pode ser atravessado com o carro em cima de uma jangada (os brasileiros chamam-lhe “balsa”) em Sibaúma. A alternativa a alugar apenas o carro é alugar um carro com motorista e para isso, claro, o melhor é contactar o senhor Ernande.

Com Ismael, no seu pequeno veleiro. É preciso conhecer bem esta zona e, ainda assim, ter muito cuidado devido às rochas submersas. O mesmo acontece quando nos banhamos nas praias mais abertas, com maior ondulação, algumas não vigiadas: é preciso ser muito cuidadoso. O recomendável é procurar as praias mais abrigadas, viradas para o Norte, sobretudo se se estiver com crianças.

Quem quiser hospedar-se em Carapibus, num local com vista espetacular sobre o mar, pode optar pela Pousada Laguna, dos nossos amigos Ismael e Gládis, onde podem tomar um excelente pequeno-almoço ou um petisco típico da região (os “caldinhos” são divinos) verdadeiramente “em cima” do mar. De facto, a localização desta pousada é privilegiada, pois fica no topo de uma falésia de onde se tem uma vista arrebatadora: além de se ver o sol nascer no mar, também se pode ver o sol pôr-se , em terra. No topo da arriba há mesas e cadeiras espalhadas sob toldos e chapéus de palha: o tempo quase pára quando nos sentamos para um drink, desfrutando da brisa que sopra do oceano. O acesso à praia é feito descendo a arriba, através de uma passagem bela e exclusiva. Trata-se de uma passagem íngreme mas segura, fácil de percorrer, com banquinhos pelo meio do percurso para descansar e apreciar a paisagem durante a subida. A tranquilidade do lugar proporciona uma verdadeira comunhão com a natureza; ali é possível, realmente, relaxar.

Passagem entre a praia e a Pousada Laguna ao pôr-do-sol.

À noite, há o bar Tropicália, na rua principal de Jacumã (a avenida Ilza Ribeiro), em frente à igreja, que está aberto até ao amanhecer, desde que haja clientes. No Tropicália pode comer-se um bacalhau à Gomes de Sá e beber-se um bom vinho português, ou simplesmente tomar uma caipirinha ou uma cerveja artesanal, entre muitas outras opções, envolvido numa suave música ambiente. O bar está concebido para estimular o convívio entre os clientes e proporcionar a troca de ideias e experiências, mas, em alguns fins de semana também há música ao vivo. O proprietário, de seu nome Jorge Tavares, é português e igualmente, nosso amigo. Após o encerramento do bar, normalmente lá para as 4 da madrugada, quem quiser, e gostar de fazer nudismo, pode aproveitar a boleia do Jorge e acompanhá-lo no seu buggy, através de uma paisagem luxuriante, até à praia naturalista de Tambaba, e experimentar um reparador mergulho ao nascer-do-sol.

Sobre a praia da Arapuca.

Nessa altura não estará à entrada o rececionista, mas se forem mais tarde só terão acesso à praia, caso sejam do sexo masculino, se forem acompanhados de uma mulher. Já estas, por sua vez, podem entrar sozinhas, não nos perguntem porquê. Há uma única entrada para a praia, através de uma passagem entre as rochas, pelo que não poderão escapar ao controlo. No entanto, se forem antes das oito da manhã poderão entrar sem restrições. Na praia naturalista de Tambaba (há a praia pública de Tambaba, aliás muito bonita, ao lado da praia naturalista) existe um bar-pousada aberto desde manhã cedo, onde podem tomar o café da manhã à sombra de um coqueiro. É provável que essa seja uma forma inesquecível de começar o dia.

No nosso buggy. Em baixo, a praia do Coqueirinho.

Tudo o que possa ser dito é pouco para realçar a beleza natural desta zona costeira entre João Pessoa e a praia Bela. Conhecemos a maior parte do litoral brasileiro, de Norte a Sul. Escolhemos viver na Costa do Conde porque é, sem dúvida, pelo menos para nós, juntamente com algumas zonas de Alagoas e da Bahía, e obviamente com Fernando de Noronha (um paraíso natural), onde se encontram as melhores praias do Brasil. Fizemos bons amigos na Paraíba. Isso e o facto de ainda ali termos uma casa constitui uma garantia de que em breve, se não acontecer algum impedimento, iremos certamente voltar.

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