Tulum, México

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Tulum

Os maias chegaram à península do Yucatã vindos da Ásia. Provavelmente seriam mongóis que migraram pela Sibéria e daqui para o atual Alasca, no final da última glaciação, há cerca de 12.000 anos. Da América do Norte desceram à América Central, e por aqui se instalaram até os dias de hoje. Além da península do Yucatã[1], onde 80% da população é de origem maia, ocupam também os territórios atuais correspondentes às terras baixas e altas da Guatemala, ao Belize, à porção ocidental de Honduras e El Salvador, reunindo territórios que pertencem à região denominada Mesoamérica[2], numa área de 325.000 quilómetros quadrados. Fisicamente os maias caracterizam-se pela estatura baixa, a tez trigueira, a face redonda, a pele com poucos pêlos, e por uma mancha característica no fundo das costas – a marca mongol.

Está comprovado que os maias percorreram esta região há milhares de anos, comerciando por terra e, sobretudo, por mar. Os navios que construíam não tinham mastros, dado que não usavam velas, mas sim a energia humana para navegarem: utilizavam embarcações a remos, que manobravam junto à costa, ao longo da segunda maior barreira de coral do mundo.

Não eram, pois, um povo unificado; estavam divididos em tribos e reinos, com uma rígida estratificação social. Eram violentos e extremamente religiosos, praticando o sacrifício humano, sobretudo de crianças entre os quatro e os oito anos, para contentarem os deuses e receberem em troca a chuva necessária para que a atividade agrícola se desenvolvesse. Os deuses eram em número de vinte e três, distribuídos em três níveis: o inframundo, a terra e o céu.

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Pormenor num dos templos de Tulum

Além de extremamente religiosos, os maias desenvolveram uma cultura muito interessante do ponto de vista científico. Tiveram quatro calendários: um ritual (Tzolkín) de 260 dias, um civil (Haab) de 360 dias – formando os dois a famosa “Roda Calendárica” –, e outros dois para uso exclusivamente científico . O ciclo da vida durava 52 anos, findos os quais, tudo era renovado: novos templos eram construídos sobre os antigos e tudo que pertencia ao ciclo que findava era queimado. Grandes observadores do céus e dos movimentos dos astros, começaram uma contagem do tempo a partir do alinhamento de seis planetas, iniciando, assim, em 3114 aC, um ciclo maior que terminaria 5125 anos depois, em 21 de dezembro de 2012, quando os mesmos seis planetas se alinharam de novo no céu. Nesta altura foi referido por várias pessoas que os maias previram que o fim do mundo ocorresse nessa data, mas tal não corresponde à verdade. Os maias jamais falaram em “fim do mundo”, apenas em fim de um ciclo.

Há, pois, muita ignorância sobre a cultura dos maias. Em 1562, o bispo espanhol Diego de Landa[3] mandou destruir todos os livros maias, considerando-os bruxaria. Três livros, porém, foram roubados e escaparam à destruição. Um deles pertence a um cidadão privado e encontra-se na Alemanha; os outros dois encontram-se em museus, em França e Espanha; há quem fale num quarto livro, mas não se sabe ao certo se existe. Estes livros estão escritos na língua maia, língua que ainda hoje se fala, e que foi decifrada na década de 1950 pelo soviético Yuri Knorozov.

A cidade sagrada de Tulum[4] situa-se na costa nordeste da Península do Yucatã. Como o navio em que viajávamos aportou em Cozumel – uma ilha mexicana em pleno Mar das Caraíbas – tivemos de apanhar outra embarcação para fazer a travessia, em cerca de 25 minutos, até Playa del Carmen, no continente, e daqui um autocarro até Tulum – mais uma hora de viagem, aproximadamente. O nome original desta cidade sagrada era Zamá, que significa “manhã” ou “amanhecer”. Terá sido construída por volta do ano 1000[5] e abandonada em 1527, após a chegada dos espanhóis, que ocorrera em 1518, sob o comando de Juan de Grijalva,vindo de Cuba, em abril desse ano, na segunda expedição ao continente. Completamente coberta pela vegetação, foi redescoberta 320 anos depois por John Stephens, diplomata e advogado norte-americano, e pelo arquiteto inglês Frederick Catherwood.

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Árvore sagrada dos maias – Yaxche

Tulum era uma cidade muralhada, o que prova a existência de conflitos armados, e situa-se estrategicamente no topo de um penhasco, sobre o mar, possuindo, nos restantes três quadrantes, muralhas, ainda hoje bem preservadas. Dentro delas moravam cerca de quinhentas pessoas – sacerdotes e políticos – e fora delas cerca de dez mil. Ossadas mostram claramente que havia um diferença entre os que moravam no interior e os que viviam do lado de fora: os primeiros eram mais altos, o que demonstra terem tido uma alimentação melhor. Verificou-se, também, que os maias protegiam as crianças nascidas com algum tipo de deficiência, acreditando que as mesmas eram predestinadas. Talvez por isso provocassem a deformação do crânio em alguns bebés, fixando talas de madeira em torno de suas cabeças, durante dois anos, prática ainda hoje observável entre os incas. Descobriu-se também que um certo tipo de pedras – as quais não eram infectáveis por qualquer espécie de bactérias – foram incrustadas nos dentes de alguns indivíduos, não se sabendo ao certo com que finalidade, talvez para preservar a própria dentição.

Na cidade sagrada de Tulum podemos encontrar vários templos, alguns dos quais serviam para sacrifícios, e outros como sepulturas, sendo que estas se encontravam também no exterior das edificações. Ao contrário do que se diz por vezes, não foram os espanhóis que introduziram as cisternas nesta região, os maias já as usavam há muitos anos. Um sistema de canais, ainda visível em Tulum, conduzia a água da chuva para os reservatórios, os quais eram tampados por forma a preservar a água e utilizá-la em tempos de seca.

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Playa del Carmen

A Península de Yucatã, onde o turismo se desenvolveu exponencialmente nos últimos anos, é uma vastíssima planície, com uma ligeira elevação, precisamente onde floresceu Tulum, na costa nordeste. O solo é constituído em cerca de 90% por rochas e pedras, não existindo aqui grandes lagos ou rios, pelo que a vida dos agricultores maias não devia ser fácil. A edificação da cidade junto à costa é assim compreensível, bem como o papel da mesma enquanto entreposto marítimo. Os maias não cunhavam moeda, o “dinheiro” que usavam era o cacau, usado nas trocas comerciais e não davam o valor que depois os espanhóis atribuíram ao ouro e à prata.

Por tudo isto, vale a pena conhecer Tulum e, mais ainda, toda esta vasta região onde os maias, desde tempos remotos, se instalaram.

É de suma importância referir que as informações aqui disponibilizadas não são científicas, basearam-se no discurso de um guia local (Julian, um excelente guia maia) e em algumas consultas posteriores. O tema “civilização maia” requereria um estudo muitíssimo mais aprofundado para ter algum valor. A nossa intenção é apenas a de documentar uma visita de um único dia, e seria ridículo pretender mais do que isso. Por outro lado, os trabalhos e as investigações continuam por esse mundo fora, sendo que muita coisa há ainda a descobrir e aclarar sobre esta brilhante – e ainda muito controversa – civilização.

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Notas:

[1] Numa área correspondente aos estados de Campeche, Tabasco, Chiapas, Iucatã e Quintana Roo.

[2] Termo proposto pela primeira vez em 1943 pelo antropólogo Paul Kirchhoff.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Diego_de_Landa.

[4] Tulum não é seguramente o local mais importante para visitarmos, em termos da civilização maia. Teothihucán e Monte Alban, Palenque, Copán e Yaxchillán, na área central, Uxmal e Chichén Itza, no Yucatã, Tikal, a cidade dos Deuses, onde se encontra a maior pirâmide de toda a América, são as metrópoles mais importantes e conhecidas.

[5] Pertence, portanto, ao período pós-clássico. “Tradicionalmente, os arqueólogos dividiram a História maia em três períodos principais: Pré-Clássico (800 a.C. a 300 d.C.), Clássico (300 d.C. a 900 d.C.), Pós-Clássico (900 d.C. a 1520 d.C.). Cada um destes períodos possui estilos distintos de cerâmica e arquitetura. O período Clássico tem sido tradicionalmente visto como o auge da civilização maia, devido à imponência de seus palácios e templos, às estelas – monumentos verticais onde foram registradas inscrições hieroglíficas –, além de sua elaborada cerâmica policrômica. O período Pré-Clássico teria sido formado por vilas rurais modestas e desprovido de realizações arquitetônicas tão expressivas quanto às do Clássico. Já o Pós-Clássico foi um período de decadência cultural e artística. Este modelo, que ainda é muito difundido, apresenta muitas discrepâncias. No intuito de reformular, e não refutar, os dados apresentados pelos estudiosos ao longo da primeira metade do século XX, o esforço dos arqueólogos hoje é a reinterpretação destas informações a fim de se buscar uma periodização mais adequada”. in http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742008000100015

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Bibliografia:

“Calendário Maia, 2012 e a Nova Era”, Thiago José Bezerra Cavalcanti, ISBN, 2012, Rio de Janeiro.

Georgetown, Ilhas Caimão

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Posando para a fotografia em Georgetown.

Georgetown é uma pequena, tranquila e bela cidade debruçada sobre o Mar das Caraíbas. A praia mais próxima do centro, Seven Mile Beach, é de uma beleza deslumbrante, com águas calmas e cristalinas. Por todo o lado existem hotéis e resorts, a exemplo do que ocorre em Miami, com menos luxo e glamour, mas com muito mais tranquilidade e proximidade à natureza. É possível observar de perto vários tipos de aves, peixes e répteis; as iguanas circulam livremente pela cidade. Mergulho, snorkeling, vela e windsurf são o tipo de atividades perfeitas para se praticarem nas Ilhas Caimão, e os amantes dos desportos náuticos encontram aqui o paraíso.

MonBay, Jamaica

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Passeando no Mar das Caraíbas.

Montego Bay, ou simplesmente Monbay, para quem a conhece, é a segunda cidade jamaicana, depois de Kingston, a capital. Monbay é surpreendentemente pacífica, tranquila, ordenada e limpa, e a a sua população é maioritária e notoriamente negra.

Por todo o lado se sente o cheiro da cannabis queimando; cada pessoa pode transportar consigo três onças e ser proprietária de três pés da planta. O artesanato que se vende nas ruas e muitas manifestações culturais, como o reggae, têm a ver com o consumo de marijuana.

As praias jamaicanas são muito bonitas, com as cores características das Caraíbas, mas as águas não são tão mornas como, por exemplo, as do Nordeste brasileiro. Há belezas naturais no interior desta pequena ilha, como cachoeiras e rios, mas na nossa curta estadia ficamos mesmo pelo litoral.

Surpreendemo-nos ao ver os veículos transitarem pela esquerda, o mesmo acontecendo nas Ilhas Caimão. Na Jamaica circulam a par os dólares jamaicano e norte-americano.

O macaco cozinheiro

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Richard Wrangham, ilustre primatologista britânico.

Os outros seres que connosco partilham o planeta são, de facto, em muitos aspetos, bastante diferentes de nós. Apesar disso, algumas semelhanças são possíveis encontrar no mundo animal, incluindo emoções, linguagem e até, em escalas diferentes, algum tipo de pensamento. Mas há algo exclusivamente humano, algo que nenhum outro animal pode fazer como nós: cozinhar.

Poderíamos pensar que foram as nossas capacidades excecionais que nos levaram a usar o fogo e com ele transformarmos a comida, através do cozimento. Mas não. Foi, pelo contrário, o cozimento que nos moldou como humanos.

Há várias teorias sobre a forma como o homem pré-histórico aprendeu a gerar e guardar o fogo, não sendo possível dizer, por enquanto, qual delas é a verdadeira. O que se sabe, é que a grande mudança na evolução humana deve ter começado por volta de dois milhões de anos atrás, quando os australopitecinos deram lugar aos habilinos[1], graças, segundo se pensa, à mudança para uma dieta que passou a incluir cada vez mais carne. Mas cerca de 200 mil anos depois, há cerca de um milhão e oitocentos mil anos, portanto, o domínio do fogo e o cozimento dos alimentos fizeram com que o cérebro dos habilinos crescesse significativamente, até alcançar os 950 cm3 do homo erectus. O desenvolvimento das técnicas de cozimento continuaram a melhorar a dieta até chegarmos ao homo heidelbergensis, há 800 mil anos, com os seus substanciais 1.200 cm3 de volume cerebral, e finalmente ao homo sapiens, há cerca de 200 mil anos, e um cérebro de 1.400 cm3, com uma capacidade próxima da atual.

O cérebro é, na verdade, um grande consumidor de energia, ele nunca para de trabalhar, nem quando dormimos, e usa 20% da nossa taxa metabólica basal (o orçamento energético para um corpo em repouso), embora o seu peso corresponda apenas a 2,5% da nossa massa corporal. A princípio os investigadores pensaram que isso se devia a uma maior taxa metabólica humana, devido à alimentação mais rica, mas acabaram por descobrir que essa taxa era sensivelmente igual à esperada para um qualquer primata com o mesmo peso. Esta descoberta foi muito importante porque se os nossos grandes cérebros, ávidos de glicose, não são alimentados por uma dose de energia suplementar, então os tais 20% devem ser usados por nossos cérebros à custa de outra (ou outras) parte(s) do nosso corpo.

Que partes? Por comparação com os outros animais, sobretudo, evidentemente, com os primatas mais próximos de nós, os cientistas descobriram que esse enorme fluxo de energia consumido por nosso cérebro só é possível porque nossos intestinos são curtos, e não precisamos de despender muita energia na digestão, ao contrário de todos os outros primatas; o custo energético é muito maior nos organismos dos nossos primos, enquanto que nos humanos essa energia poupada pode alimentar um cérebro maior.  O nosso sistema digestivo é muito mais rápido a transformar os alimentos em calorias e energia, e isso só é possível porque os alimentos que comemos são altamente digeríveis e calóricos, graças ao cozimento.

De facto, várias experiências[2] demonstraram que os alimentos cozidos são mais facilmente digeridos que os alimentos crus. Isto porque o cozimento é responsável pelos processos de gelatinização e de desnaturação. A gelatinização ocorre sobre os amidos que se encontram no interior das células vegetais: “quando aquecidos na presença de água, os grânulos de amido começam a inchar porque as ligações de hidrogénio nos polímeros de glicose se enfraquecem quando expostas ao calor, e isso faz com que a sua apertada estrutura se alargue”[3]. Já a desnaturação acontece quando as ligações internas das proteínas se enfraquecem, obrigando as moléculas a se abrirem, proporcionando uma ação mais perfeita de enzimas digestivas, particularmente a tripsina. Embora o calor não seja o único fator a provocar a desnaturação das proteínas – marinadas, picles e sucos ácidos contribuem para a desnaturação quando aplicados por tempo suficiente[4] – não há dúvida de que aquele proporciona uma digestão muitíssimo menos custosa[5].

A digestibilidade dos alimentos que nos fornecem energia (através dos hidratos de carbono, gorduras e proteínas) é muito importante e não há dúvida nenhuma que esta se torna mais disponível pelo aquecimento dos alimentos. Essa melhor digestão[6] proporcionada pelo cozimento, é realmente importantíssima por duas razões. 1- há uma melhor absorção de calorias por parte do nosso sistema digestivo, transformando, assim, os alimentos cozidos em alimentos mais eficientes[7], dado que os alimentos crus não são completamente digeridos pelo organismo e, em grande parte, são desperdiçados através das fezes[8] e 2- o cozimento, ao proporcionar digestões mais fáceis e rápidas, permite que não necessitemos de consumir demasiada energia na digestão. O cozimento proporciona, pois, uma dieta mais rica, um menor custo da digestão e, consequentemente, um intestino mais curto, e tudo isto resulta em energia disponível, a qual, no nosso caso, é canalizada para o cérebro[9]. Esta é a “teoria do tecido custoso”.

O cozimento permitiu ainda que os nossos antepassados tivessem mais tempo livre. Isto, por sua vez, permitiu uma maior socialização, indo ao encontro do que muitos autores defendem: as estratégias sociais contribuíram para o aumento do volume do cérebro e o incremento da inteligência, e vice-versa – numa interação que só foi (e é) possível graças ao cozimento dos alimentos.

E este é apenas um pequeno apontamento sobre um livro delicioso[10], escrito magistralmente por Richard Wrangham e publicado em 2009, com o título original Catching Fire – How Cooking Made us Human – realmente, a não perder. Após os oito capítulos do livro, Richard Wrangham refere-se, num epílogo denominado O Cozinheiro Bem Informado, a uma questão muito interessante: quantas calorias os diversos alimentos fornecem aos nossos corpos? A convenção que ainda hoje, com ligeiras alterações, domina a estimativa de valores energéticos dos alimentos, e está na base do modelo da sua rotulação no mundo ocidental, é o sistema de Atwater[11]. Ora, Wrangham chama a nossa atenção para o facto da digestão não ser um processo puramente químico, mas igualmente físico. Como vimos, há um custo energético na digestão e, além disso, “os sistemas digestivos tratam diferentes substractos de maneiras diferentes”[12], sendo que, acresce a tudo isto, os próprios sistemas digestivos humanos operam de forma muito diversificada[13]. Vale, portanto, a pena conhecer como funciona o nosso sistema digestivo, sobretudo o intestino delgado, o nosso “segundo cérebro” (ver nota 13). O cozinheiro bem-informado terá, em tese, uma melhor qualidade de vida.

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Foto retirada de http://www.youtube.com

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Notas:

[1] Calcula-se que os habilinos pesassem entre 32 e 37 kg, e o homo erectus entre 56 e 66 kg.

[2] Particularmente as de Leslie Aiello e Peter Wheeler, em 1995.

[3] Richard Wrangham, Pegando Fogo – Por que cozinhar nos tornou humanos, Editora Zahar, 2010, p.52.

[4] Lembremo-nos, por exemplo, do ceviche, um prato de origem peruana em que o peixe cru, marinado em suco de limão, fica delicioso.

[5] Ob. cit., p. 56.

[6] Na verdade há dois tipos de digestão. Uma realizada desde a boca até o intestino delgado, onde se faz a parte principal da digestão, e outra realizada no intestino grosso, que, na verdade, é uma fermentação, realizada por mais de 400 tipos de bactérias e protozoários. A primeira produz calorias inteiramente úteis, mas a segunda dá apenas cerca de metade da energia disponível nos hidratos de carbono e absolutamente nada no caso das proteínas (ob. cit., p. 51).

[7] Pode parecer um contra-senso, mas não é. Por exemplo, pensava-se que os ovos crus eram alimento muito mais rico que ovos cozidos. Ora, isto não é verdade. Cientistas belgas, ainda nos anos 1990, verificaram que o cozimentos dos ovos aumentava o valor proteico dos ovos em cerca de 40% (ob. cit., p. 56).

[8] Algures, durante o processo evolutivo, perdemos a capacidade de extrairmos a energia necessária dos alimentos crus. Todo o nosso aparelho digestivo está adaptado à comida cozida, a começar por nossos maxilares, bocas e dentes (ob. cit., p. 36).

[9] Foi confirmado em variados espécimes (nomeadamente entre os grandes símios), que os seus  cérebros relativamente grandes deriva de uma dieta mais rica, quando comparada com outras dietas mais pobres em animais de cérebros menores. Essas dietas mais ricas permitem sempre intestinos menores. No entanto, há espécimes que não canalizam o ganho de energia, proporcionado por uma dieta rica, para o cérebro. Espécies como a nossa, que vivem em grupos sociais mais complexos, fazem-no. Mas outras espécies, como alguns tipos de aves, usam essa energia para fortalecer os músculos das asas e assim voarem mais tempo e mais longe, supostamente, porque isso é mais importante para elas que desenvolverem cérebros grandes. 

[10] O título deste artigo foi também inspirado no livro. Diz-nos Richard Wrangham (ob. cit., p. 39): “Os zoólogos sempre procuraram exprimir a essência de nossa espécie com expressões como macaco nu, bípede ou de grande cérebro. Eles poderiam igualmente chamar-nos o macaco da boca pequena”.

[11] Wilbur Olin Atwater (1844-1907) foi um químico americano, conhecido sobretudo pelos seus estudos sobre a nutrição humana e o metabolismo. Preocupado com a alimentação dos mais pobres buscou saber qual o número mínimo de calorias de que necessitavam para viver. Usando um calorímetro de bomba, registou quanto calor era libertado quando gorduras, hidratos de carbono e proteínas eram completamente queimados. Descobriu que não havia grande variação entre os diferentes tipos de cada idem. Por exemplo, todas as proteínas tendiam a produzir um pouco mais de 4 quilocalorias por grama. Depois disto, Atwater quis saber que quantidades dos principais macronutrientes referidos um alimento contém. A mais fácil de determinar foi a gordura, dado que esta, ao contrário dos outros dois, se dissolve no éter. O pesquisador picava finamente os alimentos, inseria-os no éter e pesava quanto material se dissolvia no líquido. Assim determinava a quantidade de lípidos (estes incluem tanto as gorduras sólidas, à temperatura ambiente, quer a gordura líquida contida em óleos). Este método é usado ainda hoje. A quantidade de proteína é mais díficil de detrminar, pois não há testes para identificá-la. Mas Atwater sabia que 16% do peso das proteínas médias são nitrogénio. Conseguiu um método de medir a quantidade de nitrogénio e assim a concentração de proteína. O mais difícil de medir foram os hidratos de carbono. Não havia nenhum método na época, tal como hoje ainda não há. Mas sabendo que toda a matéria orgânica dos alimentos era composta por estes três grandes grupos e conhecendo o peso dos outros dois, Atwater podia determinar o dos hidratos de carbono, por subtração. Para tal queimava o alimento completamente, deixando de lado a parte que não queimava, isto é, a parte inorgânica. Mas Atwater quis saber também quanto dos macronutrientes era digerido pelo corpo, ou seja, não era expelido pelo corpo sem ser usado. Dedicou-se então a analisar as fezes de pessoas que comiam alimentos rigorosamente medidos e pode determinar quanto de cada nutriente era efetivamente digerido. O químico conseguiu assim o que queria saber: quanta energia cada um dos três macronutrientes continha, que quantidade de cada um estava presente num alimento e quanto dela era usada no corpo.  Richard Wrangam defende, porém, que, apesar dos ajustamentos já feitos, o sistema de Atwater peca por não ter o rigor necessário, dado que o cozimento (ou não) dos alimentos altera as calorias que fornece, bem como o trabalho do sistema digestivo e o respetivo custo energético varia de indivíduo para indivíduo (ver ob. cit., pp. 151-159).

[12] ob. cit., p. 152.

[13] A forma como o aparelho digestivo trabalha é um tema fascinante que merece ser tratado num artigo específico. Os orientais já conhecem a importância da região abdominal do nosso corpo há muitos anos, mas, no Ocidente, só após Michael Gershon, professor da universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, ter publicado o excelente livro Second Brain (1998), onde defendeu a existência de uma interação entre distúrbios nervosos e mau funcionamento do sistema digestivo, se inaugurou um novo ramo da medicina denominado neurogastroenterologia. Os maiores especialistas desta disciplina, desde logo o próprio Gershon (que estudou o assunto durante mais de trinta anos), apontam para a existência de “neurónios” digestivos, dentro do sistema nervoso entérico (SNE), o nosso segundo cérebro. De acordo com Irina Matveikova, uma médica russa que vive em Espanha (e escreve no excelente livro O Intestino Feliz, Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, pp. 28/9), “o número de neurónios que se encontram na rede do intestino do intestino delgado chega aos cem milhões. Este número representa, por exemplo, um valor consideravelmente superior ao dos neurónios da espinal medula. O cérebro dos intestinos é a maior fábrica responsável pela produção e armazenamento das substâncias químicas conhecidas com neurotransmissores, a maioria dos quais são idênticos aos que se encontram no sistema nervoso central (SNC), tal como a acetilcolina, a dopamina e a sorotonina.  Estas substâncias regulam a nossa energia, bem estar emocional e psicológico, e constituem um grupo de substâncias essenciais para a correta comunicação entre os neurónios e o sistema de alerta. Representam as “palavras” no idioma neuronal. Gershon revelou que 90 por cento da serotonina (a famosa hormona da felicidade e do bem-estar físico) é produzida e armazenada no intestino. Aí regula os movimentos peristálticos e a transmissão sensorial. E apenas os 10 por cento restantes de serotonina do corpo são sintetizados pelos neurónios do sistema nervoso central, ou seja, no cérebro superior”.

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A nossa edição:

“Pegando Fogo – Por que Cozinhar nos Tornou Humanos”, Richard Wrangham, Editora Zahar, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2010.

Havana, Cuba

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O centro de Havana visto da outra margem da baía.

Normalmente, a parte mais difícil de uma viagem a Cuba passa-se no aeroporto. Vencida a burocracia paranoica, o trajeto que liga o aeroporto a Havana – através de vias bordadas por edifícios descoloridos e gastos, quase andrajosos – faz-se com relativa facilidade. Uma hora e meia após o avião tocar a pista, é-se recompensado. Chegamos à capital de um país mítico – Cuba.

A viagem de táxi entre o aeroporto e o centro de Havana custa normalmente de 20 a 25 CUC (cada CUC vale cerca de um euro), os novos pesos cubanos. É possível trocar dólares ou euros pela moeda cubana, mas pode ser um pouco demorado, pelo que o melhor é fazer levantamentos nos poucos ATM da  cidade, mas atenção porque nem todos os cartões se aceitam aqui. Os preços do alojamento em Havana são muito variáveis, desde os 25 CUC de uma casa particular aos 180, 200, ou mesmo mais, de alguns hotéis históricos. As comidas e as bebidas são relativamente baratas, embora nos locais mais turísticos se inflacionem os preços.

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Na Bodeguita del Medio.

Vale a pena visitar demoradamente o Centro da cidade: os edifícios históricos; os cafés simbólicos, como Floridita ou Bodeguita del Medio; os restaurantes variados, onde a comida vem quase sempre acompanhada por uma canción, um bolero ou um cha cha chá; as lojas onde se vendem os puros cubanos (não os comprar na rua porque são invariavelmente falsos); as ruas, onde se podem admirar as belas e coloridas carroçarias dos carros antigos; e, entre outros motivos interessantes, os diversos museus de Havana.

Uma visita imperdível é a que se pode fazer à galeria Ojo del Ciclón, situada em Esq. Villegas, 501, no Centro Histórico. Aqui trabalha o artista plástico Leo D’ Lazaro, filho de um dos escultores responsáveis pela construção do mausoléu a Che, na cidade de Santa Clara. São inúmeros e fantásticos os trabalhos de Leo – pinturas, esculturas e fotografias – as quais se podem admirar e comprar. (Há também algumas obras à venda do seu falecido pai). A própria galeria é uma obra de arte – uma casa de habitação, com as respetivas divisões, incluindo cozinha e casa de banho, decorada com as obras de Leo e materiais que denotam o bom gosto de um artista excecional. Por vezes, há agrupamentos musicais atuando e outros encontros de artistas locais. Leo D’ Lázaro quase sempre está trabalhando por lá, mas, esteja ou não, uma visita ao Ojo del Ciclón é algo que não se pode deixar de fazer em Havana.

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El Ojo del Ciclón.

Como seria de esperar, o turismo constitui uma importante fonte de receita, num país onde falta quase tudo (vimos, por exemplo, camiões-tanque no centro da cidade a fornecer água à população), mas a vida do turista não é muito facilitada. Quase todos procuram tirar alguma vantagem dos visitantes, e até os mapas da cidade são pagos. A obsessão com a segurança chega a ser incómoda: uma simples travessia de uma margem à outra da baía de Havana (que custa apenas dez centavos) implica a revista de sacos e mochilas de todos os passageiros por parte dos agentes estatais. A presença do omnipotente Estado é, aliás, visível por todo o lado: nos símbolos revolucionários; na propaganda e palavras de ordem; nas instalações militares.

A apologia da resistência, da luta armada e da revolução está espalhada pela cidade, inclusive na memória dos mais velhos, que quase sempre se referem com nostalgia aos heróis revolucionários, Che e Fidel. Tudo muda, porém, quando falamos com os mais jovens.

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A propaganda revolucionária está espalhada pela cidade.

“Gosto muito de Havana mas quero conhecer outros lugares, aqui não tenho futuro”, confidenciou-nos González Pinilla, um pintor dos seus 18 anos, a quem comprámos dois quadros belíssimos, no Empedrado, junto à Catedral, logo no nosso primeiro dia na cidade. Os lápis, pincéis e tintas com que Pinilla criou estas obras não foram produzidos em Cuba; ele consegue os materiais de trabalho através de amigos ou turistas que os trazem do exterior.

Pouco depois, numa rua próxima dali, um distinto senhor aproximou-se e perguntou-nos se tínhamos um lápis que lhe pudéssemos oferecer. Afortunadamente havia na nossa mochila um lápis, gasto de fazer anotações e sublinhados em livros e, obviamente, demos-lho, pedindo desculpa por nem sequer podermos oferecer-lhe um lápis em condições. Ele agradeceu por aquele pedacinho de madeira com um fio de grafite por dentro, disse que era para o filho pequeno que anda na escola… Ficámos estupefactos.

No dia seguinte, encontrámos Olmedo, um jovem aparentemente um pouco mais velho que Pinilla, mas seguramente sem ter chegado ainda aos trinta, que pescava no Malecón, na margem oposta aquela onde se situa o Castelo dos Três Reis do Morro, uma edificação construída no tempo de Filipe II, quando Portugal se encontrava sob domínio espanhol. Após uma breve troca de impressões sobre espécimes aquáticos daquela zona, a conversa alargou-se e Olmedo afirmou estar cansado da propaganda do Governo. “A guerra já passou, não adianta continuar a falar em guerra e revolução; nós, os mais jovens, queremos desenvolvimento; do que precisamos urgentemente é de políticos novos, com uma nova mentalidade”.

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Casablanca. Aqui nasceu Havana e neste bairro casou e morou Che Guevara. Supostamente os ares daqui minimizavam os seus problemas asmáticos.

Outro jovem, cujo nome não lográmos conhecer (e mesmo que lográssemos não o divulgaríamos aqui, pois todos os nomes das pessoas que se declararam contra o regime vigente em Cuba, citados neste artigo, foram inventados, por razões óbvias), garantiu-nos que ele e todos os seus amigos sonham com a abertura política e o fim do velho regime. Conversámos um pouco com ele numa paragem de autocarro, aquando do nosso terceiro dia na cidade.

Já León, um cubano de 45 anos, casado e pai de três crianças, trabalha num navio de cruzeiro, onde o encontrámos e onde com ele convivemos durante oito dias. Vive em Havana com a família, mas o curso que tirou na Escola Naval permitiu-lhe embarcar, sair de Cuba, conhecer outras realidades. Durante o circuito que o navio fez nas Caraíbas ficámos a conhecer o que León deseja para seu próprio país. “Os cubanos já sofreram muito e perdemos demasiado tempo; pode ainda demorar um pouco mais, mas o movimento em direção à liberdade já começou e é como uma espiral, não volta para trás”.

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Jovem cubana vai ganhando uns trocos tocando para os turistas.

Os diversos testemunhos que recolhemos em Cuba foram muito importantes para nós. Uma coisa é o que nos contam os amigos, outra coisa é o que vemos e ouvimos, diretamente, no terreno. Depois desta experiência ficámos convencidos de que Cuba será livre num futuro mais ou menos próximo. A ânsia da liberdade é quase respirável e, como diz León, uma “espiral”.

Foi com essa sensação que regressámos. A caminho do aeroporto, num táxi desconjuntado que tresandava a gasolina, o motorista, de 43 anos, confidenciou-nos, sem que lhe perguntássemos nada, que, há cinco anos, sua mãe entregara o cartão de militante ao Partido e fugira de Cuba. Ele próprio não fez o mesmo porque tem duas filhas de 13 e 14 anos, mas pensa tentá-lo em breve. “A ilha é uma prisão”.

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A Praça da Revolução.

Estes relatos chocam flagrantemente com o que está inscrito junto ao retrato gigantesco de Marx, sobre a fachada de um enorme edifício, na igualmente gigantesca Praça da Revolução: “Vas bien Fidel”. Talvez. Talvez Fidel vá bem. Mas Cuba, sobretudo para os jovens cubanos, vai muito mal.

Já no aeroporto, enquanto esperávamos nosso voo, decidimos comprar um livro, escrito por Julio Cúbria Vichot, editado em 2014 e traduzido em várias línguas, intitulado “Breve História de Cuba – De Colombo ao século XXI”. Pensáramos ter comprado um livro de História, como aliás o título indica. Puro engano. Trata-se de mais um instrumento de propaganda do Regime, exaltando a Revolução e deplorando os “contrarrevolucionários” e “imperialistas”, numa abordagem enviesada, maniqueísta e ideológica, absolutamente contrária aos padrões de rigor e verdade patenteados pela historiografia moderna.

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Entrada (ou saída) da baía de Havana.

O regime cubano vive uma mentira, que é, afinal, a sua incontestável verdade.

Deixámos a ilha. Depois da visita a Cuba ficámos a conhecer-nos um pouco melhor, pelo menos assim o pensamos. Quem somos, afinal? As tradicionais respostas das ciências, humanas ou naturais, revelam-se insuficientes. A questão colheu em nós uma nova e mais consistente resposta: o que nos distingue, enquanto espécie, é o amor à Liberdade.

 

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O senhor Domingos disse que o Mojito que nos serviu foi feito com mais amor que aquele que serviu ao Lula. A Bodeguita del Medio já foi visitada por uma legião de famosos.

ADENDA

1- Três dias depois de deixarmos Cuba, já na Cidade do Panamá, aconteceu-nos uma daquelas coincidências que por vezes ocorrem na vida de todos nós. Comprámos um jornal local, como sempre fazemos quando visitamos um país (mas que não pudemos fazer em Cuba) – La Prensa – o qual continha um artigo de opinião da autoria de Jorge Ramos (diretor de notícias da Univisión), intitulado “Cuba Libre?”. Nesse artigo, o autor critica fortemente Obama e, sobretudo, o papa Francisco, pela sua condescendência relativamente ao regime cubano, manifestando mesmo indignação pelo facto de Francisco se ter recusado a reunir com dissidentes e com jornalistas independentes cubanos, como foi o caso de Yoani Sánchez, e por não ter feito nada quando os seguranças do Governo, em frente a seus olhos, agrediram e prenderam um dissidente que pretendia falar com ele. Jorge Ramos, que está proíbido de entrar em Cuba desde 1998, quando acompanhou a visita de João Paulo II, por ter entrevistado dissidentes e jornalistas independentes, não deposita muita esperança nos esforços de Obama e do papa. Afirma, no seu artigo, que a viagem de Obama a Cuba, prevista para março, será um “momento tipo Nixon”, referindo-se à visita deste presidente americano à China, em 1972. Esse momento marca o início da atual abertura económica chinesa, mas não o início da abertura política. Assim, segundo Ramos, também a próxima visita de Obama não implicará a realização de eleições livres, a restauração da liberdade de imprensa ou a libertação dos presos políticos, em Cuba. Ramos termina o artigo com as seguintes palavras: “Cuba Libre? Em qualquer bar do mundo se sabe que isso é uma mentira”. O artigo de Jorge Ramos pode ser lido na íntegra aqui.

2- E regressados a casa ficámos a saber que os Rolling Stones vão atuar gratuitamente em Cuba, alguns dias depois de Obama chegar ao país. Aposto que Pinilla, Olmedo, León e todos os jovens cubanos estão felizes com esta notícia. Definitivamente, algo se passa na Ilha.