Alfama – uma canção

Muitas músicas foram compostas e interpretadas tendo como referência Alfama – fados, sobretudo. Um deles – “Igreja de Santo Estevão” – interpretado por Fernando Maurício, poderia ser o escolhido por muitos, se tivessem de optar por uma canção para Alfama; os Madredeus lançaram nos anos 90 uma bela canção, precisamente, “Alfama”, digna também de uma representação musical do bairro; “O Barco vai de Saída” (“adeus ó cais d’Alfama”), de Fausto Bordalo Dias, é um tema belíssimo e muito animado que se coaduna com a tradição marítima do bairro, e poderia ser escolhido, também; várias marchas populares poderiam igualmente representar (provavelmente da forma mais bairrista entre todas) a nossa querida Alfama…

Eu, porém, escolhi uma composição, uma letra e uma interpretação que me pareceram as melhores. E um local também. A composição é de Alain Oulman, a letra de Ary dos Santos, a interpretação da grande Amália e o local Tunes, na Tunísia. Não teve influência na minha opção, mas é de realçar o facto de Ary dos Santos ter vivido muitos anos na Rua da Saudade, nos arrabaldes do bairro; e a escolha de um país árabe, como palco desta fabulosa interpretação (como todas) de Amália, é  carregada de simbolismo.

Como não podia deixar de ser, o tema em questão intitula-se “Alfama” – e é arrebatador.

Gaivota

Alain Oulman

Dizem que o triângulo é a figura geométrica perfeita. Está na base das pirâmides, da Santíssima Trindade, do mistério das Bermudas, do fogo, da fertilidade… Mas a prova final do poder simbólico de um triunvirato, embora não necessária, foi-nos dada por Alexandre O’ Neill, Alain Oulman e Amália Rodrigues, em forma de palavras, música e voz.

Alexandre O' Neill

Não há muito mais a dizer. O poema é lindo, a composição brilhante e a voz de Amália sublime – impossível de imitar ou comparar. Eu costumo dizer que a voz de Amália é como a velocidade da luz – absoluta; e não é preciso ser português ou amante do fado para constatar este facto.

Fica o registo do poema e do fado.

Triângulo, voo, perfeição!
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“Gaivota”, de Alexandre O’ Neill

Se uma gaivota viesse 
trazer-me o céu de Lisboa 
no desenho que fizesse, 
nesse céu onde o olhar 
é uma asa que não voa, 
esmorece e cai no mar. 

Que perfeito coração 
no meu peito bateria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde cabia 
perfeito o meu coração. 

Se um português marinheiro, 
dos sete mares andarilho, 
fosse quem sabe o primeiro 
a contar-me o que inventasse, 
se um olhar de novo brilho 
no meu olhar se enlaçasse. 

Que perfeito coração 
no meu peito bateria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde cabia 
perfeito o meu coração. 

Se ao dizer adeus à vida 
as aves todas do céu, 
me dessem na despedida 
o teu olhar derradeiro, 
esse olhar que era só teu, 
amor que foste o primeiro. 

Que perfeito coração 
no meu peito morreria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde perfeito 
bateu o meu coração.

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