Bucareste

O ciclópico parlamento romeno — o maior do mundo.

Aproveitando os voos de low-cost disponíveis a partir do aeroporto de Faro, decidimos dar uma pequena volta de oito dias por três países europeus: Roménia (Bucareste), Grécia (ilha de Creta) e Itália (região da Lombardia). Neste artigo iremos debruçar-nos apenas por Bucareste, capital da Roménia, um país latino, com uma língua, em parte, semelhante à nossa. Isto quer dizer que, apesar de sermos os dois países latinos mais distantes na Europa, há uma certa afinidade entre Portugal e este país do Leste europeu. A nossa estadia em Bucareste foi curta (apenas dois dias) mas intensa.

Aterrámos pouco depois da meia-noite, isto é, já na madrugada do dia 6 de maio, e, apesar da hora, durante o nosso trajeto para o centro da cidade, algo se destacou perante os nossos olhos: a dimensão dos edifícios. Por Bucareste pululam edificações enormes, incluindo o maior edifício administrativo do mundo — o Parlamento romeno. Uma segunda impressão, que confirmaríamos no dia seguinte, foi a de que estávamos perante uma cidade moderna e em crescimento. Vimos muitas obras pelo caminho (incluindo a que permitirá a ligação de metro entre a cidade e o aeroporto), e uns 25 minutos depois de entrarmos num Tesla, chamado através da aplicação Uber, chegávamos a um acolhedor e charmoso apartamento, situado no 6º andar de um robusto edifício, com um elevador minúsculo, o nosso alojamento em Bucareste.

No nosso belo apartamento da Bulevardul Carol I, em Bucareste.

C hegámos à Roménia num período de agitação política. Após a dissolução da União Soviética e da revolução romena de 1989, a Roménia desenvolveu-se rapidamente, enveredando pelo caminho da democracia e acabando por integrar a OTAN, em 2004, e a União Europeia, em 2007. O rumo liberal-democrático da Roménia foi muito recentemente posto em causa (5 de Maio), quando os sociais democratas e o partido extremista de direita (Aliança para a União dos Romenos – AUR) se aliaram para derrubar o primeiro-ministro liberal e pró-europeu, Ilie Bolojan.

Alguns partidos desejam eleições antecipadas, mas o presidente romeno, Nicusor Dan, prefere uma solução governamental que inclua os partidos pró-europeus, talvez a coligação partidária anterior, mas sem Ilie Bolojan na liderança. O presidente, bem como vários líderes partidários romenos, querem manter o rumo pró-ocidental do país, temendo a ascensão da AUR, que nas sondagens já atingiu 37% dos potenciais votos, e do seu líder, George Simion, mais um líder populista europeu, notoriamente pró-russo. Veremos o que se segue.

O Teatro Nacional da Roménia, na Praça Universitária.

Depois de uma noite bem dormida, fomos a um mini-mercado, a poucos metros da nossa morada, comprar ovos, alguns legumes, fruta, água e outras pequenas coisas. Regressámos ao apartamento para guardarmos as compras e tomarmos o pequeno almoço, e logo depois iniciámos o passeio previsto no nosso programa. Não há melhor forma de conhecer as cidades do que fazê-lo caminhando e foi o que fizemos, como sempre. Entre os pontos selecionados, há sempre muita coisa para descobrir. Desta vez, também não houve exceção à regra. O nosso primeiro destino era o Ateneu Romano, mas acabámos por fazer a primeira paragem no Teatro Nacional Ion Luca Caragiale, um dos edifícios mais emblemáticos de Bucareste.

Não estava aberto ao público, pelo que nos limitámos a apreciá-lo do exterior e a admirar o seu belo átrio: as esculturas, as tapeçarias, os lustres, as escadarias, os mármores, as linhas arquitetónicas. Este teatro foi remodelado entre 2011 e 2015 e alberga sete salas de espetáculos (seis cobertas e um anfiteatro ao ar livre); está situado no quilómetro zero da capital, na Praça Universitária, um espaço emblemático onde ocorreram acontecimentos vitais que contribuiram para a transformação da Roménia numa sociedade livre e aberta. Gostaríamos de ter assistido a um espetáculo neste teatro, mas tal não foi possível. No entanto, fomos compensados pouco depois.

Alexander Gadjiev atua só para nós na magnífica sala principal do Ateneu, em Bucareste.

Seguimos para o Ateneu Romano. Situado no centro de Bucareste, muito perto do Palácio Real, o Ateneu foi inaugurado em 26 de outubro de 1888, numa cerimónia oficial. A sua construção, sobre uma antiga escola equestre, foi concluída em apenas 16 meses, entre 1886 e 1888, o que, face à magnitude dos trabalhos exigidos, não deixa de ser espantoso, mesmo se tivermos em conta que este belo espaço não é já o original, como quase sempre acontece, houve melhoramentos e reformas posteriores. Este magnífico edifício exibe uma diversidade de estilos, combinando a orientação neo-clássica, bem visível do exterior, com elementos específicos do estilo francês Belle Epoque, de finais do século XIX. A sala de concertos principal, de forma circular, tem uma capacidade de 850 lugares sentados, entre bancadas e camarotes. Por cima destes, está patente um enorme fresco do pintor romeno Costin Petrescu, inaugurado em 1939, que conta em 24 cenas a história do povo romeno. Nesta sala emblemática atuaram artistas de renome mundial, como Igor Stravinski, Herbert von Karajan e Pablo Casals, entre muitos outros.

E continuam a atuar inúmeros artistas de todo o mundo. Nós tivemos imensa sorte, pois a visita que fizemos ocorreu durante o ensaio de um pianista italiano que iria atuar no dia seguinte com a orquestra Filarmónica George Enescu, de seu nome, Alexander Gadjiev.

No interior da Carturesti Carusel.

Termos assistido ao ensaio de Alexander Gadjiev, não deixou de ser um verdadeiro privilégio. Quase sempre acontecem coisas inesperadas e belas nas viagens, por uma lado, porque as procuramos, e, por outro lado, porque os nossos sentidos estão mais despertos. Saímos satisfeitos do Ateneu. Cá fora, inúmeros estudantes participavam de uma sessão fotográfica de final de curso, enquanto nós seguíamos rumo ao nosso próximo destino, o Palácio do Parlamento. Pelo caminho passámos por dois belos espaços verdes, dois dos vários que vimos em Bucareste (alguns com quilómetros de extensão), primeiro o jardim Cismigiu e, depois, o parque Izvor. Pelo que vimos, Bucareste tem bastantes espaços verdes.

Quando chegámos ao Parlamento visitámos uma exposição de arte moderna patente no Átrio. Era possível fazermos uma visita guiada ao interior do Parlamento, mas em horário incompatível com o nosso programa (o melhor é mesmo comprar os ingressos antecipadamente pela internet), pelo que decidimos não realizar a visita, que só poderia ocorrer umas horas mais tarde. Em vez disso, seguimos, por uma bela alameda, para a Praça Unirii, a qual, infelizmente, estava encerrada para obras. Por vezes, acontece.

Gostaríamos que a nossa estadia tivesse coincidido com a presença de Garry Kasparov em Bucareste. Admiramo-lo enquanto xadrezista, mas também enquanto intransigente defensor do Mundo Livre.

Para alcançarmos o nosso próximo destino — situado na zona mais turística de Bucareste — caminhámos pela Splaiul Independentei, adjacente ao monumental edifício do Palácio de Justiça, construído em 1890, cruzámos o rio Dâmbovita e entrámos na Cidade Velha. Chegámos, enfim, à bonita livraria que procurávamos, toda pintada de branco no interior, ocupando um edifício inteiro com vários pisos — a Carturesti Carusel — que percorremos demoradamente. Não comprámos nenhum livro mas trouxemos pequenas lembranças.

Na mesma rua da livraria e em outras circundantes há vários bares com esplanadas pejadas de turistas. Haveríamos de voltar no dia seguinte a um deles. Entre os turistas em Bucareste, reparámos que há muitos italianos, talvez devido aos voos de low-cost entre os dois países, mas o turismo na Roménia, quando comparado com o de outros países europeus, ainda é incipiente. Depois da Carturesti Carusel, seguimos para a Macca Passage, que não merece o destaque que lhe atribuem, daí este breve referência — de passagem. Pareceu-nos mais interessante o café típico onde parámos depois — o Scovergaria Micai — onde provámos alguns doces e salgados de fabrico próprio e onde tivemos oportunidade de descansar. As funcionárias, vestidas com trajes típicos, foram extremamente simpáticas e prestativas.

A nossa última refeição em Bucareste foi no Grand Café Van Gogh.

Continuando o nosso caminho de volta para o apartamento, ainda passámos por outra livraria, não tão vistosa como a Carusel, mas igualmente bela, plena de livros interessantes, nas suas várias salas, e com preços bastante acessíveis. Trata-se da Antic ExLibris, uma jóia para os amantes da leitura, com muitos livros interessantes em inglês. Houve ainda tempo de passarmos, já no fim do dia, por um mercado de produtos locais, ao ar livre, bem perto do nosso alojamento, mas não comprámos nada, pois já tínhamos bolinhos de bacalhau preparados para o jantar.

No dia seguinte, após o pequeno almoço, saímos com alguma nostalgia da nossa casa emprestada por dois dias, no último minuto antes do limite para o check-out, às 11 horas. Divagámos de novo pelo centro, até que decidimos almoçar no Grand Café Van Gogh, novamente na Cidade Velha. Foi uma excelente opção. Comemos uns incríveis ovos benedict com aspargos sobre pão francês (fabrico próprio) e uma panqueca americana com xarope canadiano natural, e frutos frescos. Estava tudo delicioso, até o café. Depois deste almoço relaxante, deslocámo-nos lentamente até a praça Unirii, onde apanhámos o autocarro para o aeroporto, através de um tráfego intenso. Tivemos bastante tempo no aeroporto para recordar os melhores momentos passados em Bucareste, pois o nosso voo para Heráclio, em Creta, descolaria com duas horas de atraso.

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