A radical Varela

Foto de Varela retirada do sítio esquerdaonline.com.br. Sempre rodeada de livros, procura vincar a sua faceta intelectual. Entretanto, os livros que publica baseiam-se em trabalho de pesquisa feito por jovens bolseiros1, que se queixam do “inferno laboral de Raquel Varela”. 2

Raquel Varela, paga por todos nós, continua em grande forma a debitar asneiras nas rádio e televisão públicas. Como tal é possível, não sei. Mas sei que isto revela muito daquilo que somos. A última tirada de Varela – que costuma deixar os companheiros de painel meio aparvalhados com os seus dislates – foi no programa de ontem, “O Último Apaga a Luz”, quando pronunciou, com naturalidade, que a economia é “ideológica”. Varela tinha obviamente como alvo o sistema económico em que vivemos, dito capitalista, esse sistema maldito que ela tanto deplora. Nenhum dos interlocutores lhe respondeu. Mas o que algum dos seus interlocutores lhe poderia ter dito é que, sim, o homem é um animal potencialmente ideológico e, nesse sentido, tudo o que é humano está impregnado de ideologia. Mas a economia é também uma ciência e, tal como em outras ciências, também, mais ou menos influenciadas pela ideologia, há coisas estabelecidas. Por exemplo, em astronomia, pensava-se até certa altura que o sol rodava em torno da Terra, mas hoje sabe-se que é a Terra que roda em torno do sol. Em biologia, pensava-se que havia uns homúnculos minúsculos dentro do sémen humano, mas hoje sabe-se que são os genes que detêm e transmitem as instruções para a construção dos corpos (na verdade, de tudo o que é vivo). Em física, pensava-se que o átomo era o último constituinte da matéria, mas hoje sabe-se que há inúmeras partículas elementares dentro do próprio átomo, não sendo este, portanto, indivisível. E por aí fora.

Ora, também em economia, se chegou a pensar que a eliminação do lucro (ou, para usar uma linguagem marxista, a “mais valia”) traria progresso, paz, prosperidade e igualdade ao mundo, mas hoje sabe-se que as atividades económicas lucrativas é que proporcionam progresso, bem-estar, desenvolvimento e, quando combinadas com políticas sociais adequadas, as sociedades mais felizes de que temos conhecimento. Pelo contrário, as sociedades que procuraram eliminar o lucro sempre trouxeram miséria, escravidão e sofrimento.

Isto é histórico, e a história é a melhor ferramenta que temos para avaliar as ideologias. Supostamente, uma “historiadora”, como Raquel Varela, deveria sabê-lo. Mas, ao contrário, ela deturpa a própria história, porque, projetando em outros a sua personalidade dogmática (a projeção é uma marcada característica psicológica dos demagogos), é ela quem está totalmente condicionada pela ideologia.

Por fim, deveriam dizer-lhe ainda, que sim, é bem possível que a nossa ideologia ou, num sentido mais lato, as nossas ideias, inclusive as económicas, nos influenciem. É por isso que devemos estar sempre vigilantes e atentos relativamente aos factos e à realidade, e nos interroguemos, a cada passo, sobre em que medida a nossa perspetiva está limitada pela nossa ideologia. Esta é a atitude dos moderados e tolerantes, pois sabem que são influenciáveis, cometem erros e não são infalíveis. Mas não é nada disso que se passa com a radical Varela, inflada de certezas, paga por todos nós para continuar a dizer alarvidades. E são alarvidades e não meros disparates, porque a sociedade que Raquel Varela preconiza, como todas as outras onde foi tentado o socialismo radical, é um tipo de sociedade onde não existe liberdade, onde, a despeito da propaganda, homens e mulheres sofrem as agruras da prisão, da tortura e, amiúde, a agonia da própria morte, apenas porque ousaram pensar diferente.

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Notas:

1 A este propósito, lembrei-me do que escreveu Richard Dawkins no prefácio à edição de 1989 de “O Gene Egoísta”: “tomei recentemente conhecimento de um facto desagradável: existem cientistas influentes com o costume de colocarem os seus nomes em publicações em cuja composição não desempenharam qualquer papel. Aparentemente, alguns cientistas de categoria mais elevada reivindicam autoria conjunta de artigos em que a sua contribuição se resumiu ao espaço de bancada, aos fundos de investigação e à revisão do manuscrito. Pelo que sei, podem ter-se construído reputações científicas inteiramente baseadas no trabalho de estagiários e de colegas! Não sei o que se poderá fazer para combater esta desonestidade”. (Richard Dawkins, “O Gene Egoísta”, Gradiva, Lisboa, 2021, p. 29).

2 https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/bolseiros-queixam-se-de-inferno-laboral-de-raquel-varela.

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