Israel

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Mar Morto ou “Vale do Sidim” (Génesis, 14), o ponto mais baixo da superfície terrestre.

1- O RELATO BÍBLICO

Israel e um país muito diferente de todos os outros. As diferenças são tantas que é praticamente impossível enumerá-las. Israel existe desde os tempos bíblicos de Abraão, Moisés e Josué; das tribos israelitas, dos reis David e Salomão. O cristianismo, a maior religião dos nossos dias[1], apareceria milhares de anos depois, com Jesus, como alternativa ao judaísmo. Só uns séculos mais tarde surgiria, em continuidade[2] mas também em rutura, a terceira grande religião monoteísta – o islamismo. Estas três confissões convivem lado a lado em Israel, sobretudo nessa cidade verdadeiramente mítica chamada Jerusalém, e as relações entre elas, como se sabe, são historicamente conflituosas. Não é possível, por muito que se queira, compreender o que se passa em Israel sem abordar as questões relativas à religião.

Talvez não seja má ideia iniciarmos essa abordagem pelo princípio, pelas origens do povo de Israel. A única fonte que temos para isso é a Bíblia[3], particularmente, os seus primeiros cinco livros, o Pentateuco[4], que para os judeus constituem a Tora, ou seja, a “Lei”. De acordo com o relato bíblico, o patriarca deste povo foi Abraão, um pastor nómada da Caldeia, no Sul da Mesopotâmia, que, rejeitando as crenças pagãs, recebeu a revelação da existência de um único Deus criador do Universo. Outras culturas, antes de Abraão, haviam concebido a existência de um só Deus, atribuindo-lhe uma essência física, mas Abraão foi o primeiro a receber a revelação de um Criador Uno e Universal, cuja essência é invisível e inconcebível para os seres humanos. Em hebraico, Abraão é designado como Ivri, que provavelmente significa “vindo do outro lado”. É de Ivri que deriva a palavra “hebreus”, primeira designação do povo judaico.

Abraão sentiu necessidade de se afastar da terra de seus pais e seguiu para a terra de Canaã, situada entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, estabelecendo-se num local que mais tarde viria a chamar-se Deserto do Neguev, região que ocupa a metade sul do Israel atual. Foi aí que Abraão teve os seus dois filhos, Ismael e Isaac. O primeiro era filho de Agar, uma escrava que Sarah, a mulher de Abraão, ofereceu ao marido para procriar, já que, segundo pensava, era infecunda. Tal, porém, não era verdade e Sarah acabou por dar à luz o segundo filho de Abraão, Isaac. Ismael é considerado o primeiro antepassado do povo árabe (por isso, também conhecido como ismaelita) e Isaac o segundo patriarca dos israelitas[5]. Isaac, por sua vez, teve dois filhos, Esaú e Jacob, a quem atribuíram posteriormente o nome de Israel. Jacob, além de algumas filhas, teve 12 filhos. Estes ficariam conhecidos até hoje como os “filhos de Israel” ou israelitas.

Os israelitas tiveram de enfrentar um período largo de seca extrema e a única hipótese de sobrevivência que tinham era abandonarem a terra de Canaã. Foi assim que deixaram a sua terra e se dirigiram ao Egito. Aqui não havia fome porque um ministro previdente tinha armazenado comida suficiente para alimentar todos. De acordo com o relato biblico, esse ministro, de nome José, era afinal um dos israelitas e naturalmente recebeu-os de braços abertos, tendo permitido que estes se fixassem e multiplicassem no fértil vale do Nilo. Passaram-se muitos anos, as primeiras gerações morreram, e novos faraós tomaram o poder no Egito. Para estes, os israelitas não passavam de um povo estrangeiro e, como era natural naquela época, foram feitos escravos. Este período de escravidão durou 430 anos, até que surgiu Moisés, um líder carismático, que convenceu o seu povo a fugir da escravidão e regressar à terra de Canaã.

No entanto, algo inesperado aconteceu durante a viagem. Em condições normais o percurso duraria cerca de uma semana, que é o tempo necessário para percorrer a pé a distância entre o delta do Nilo e Gaza, a cidade costeira que se situava no Sul de Canaã. Mas não foi por aí que Moisés conduziu o seu povo. Alegando que existiriam perigos se seguissem por aquele itinerário, Moisés convenceu os israelitas a fazer um desvio através do deserto, o qual levaria uns impressionantes quarenta anos a percorrer, o tempo suficiente para que a geração que tinha vivido a escravidão perecesse, e uma nova viesse substituí-la. Foi durante esse desvio que Moisés recebeu de Deus, no Monte Sinai[6], as duas tábuas de pedra com os “Dez Mandamentos”, pelos quais se regem também os cristãos, mas que, para os judeus, são apenas uma súmula da muito mais alargada “Lei de Moisés”, a Tora, pela qual têm de se reger.

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O Deserto da Judeia.

É muito importante realçar que, de acordo com as Escrituras, os israelitas foram o povo escolhido por Deus para cumprirem essa Lei e não, como muitas vezes se ouve, o povo “eleito”. Eles foram escolhidos para se submeterem a uma série de obrigações. (O rigor da Tora apenas obriga este povo e nenhum outro, e é por isso que não existe proselitismo na religião judaica). A tribo de Moisés tinha ainda mais obrigações que as outras. Quando a terra de Canaã foi distribuída pelas tribos, Moisés não atribuiu nenhum quinhão à sua, a tribo de Levi. Esta teria apenas uma função sacerdotal, estando os seus membros, os levitas, sujeitos a maiores obrigações que os membros das restantes tribos. Quando Moisés chegou, com 120 anos de idade, à vista da Terra Prometida, esta, naturalmente, estava ocupada e não foi ele quem ali reinstalou o povo de Israel. Isso incumbiria ao seu sucessor, Josué[7], a quem Moisés atribuiu o comando, pouco antes de morrer, no cimo do monte Nebo, avistando em baixo a Terra de Canaã.

Alguns habitantes daquela terra abandonaram-na à chegada dos israelitas, mas aqueles que escolheram ficar foram bem tratados, pois assim o exige a Tora. As tribos israelitas instalaram-se finalmente em Canaã. Os primeiros governantes do território foram juízes, mas os israelitas queriam ter um rei como os outros povos, e conseguiram-no. O primeiro rei foi eleito em 1079 a.C, e o seu nome era Saul. Seguiram-se-lhe David e, depois, Salomão, o construtor do primeiro Templo em Jerusalém. Após a morte de Salomão, devido a questiúnculas relacionadas com a sucessão, deu-se a cisão entre as doze tribos. Dez delas separaram-se e formaram um novo reino de Israel, sob o cetro de Joroboão, com capital em Samaria. Ficaram as tribos de Judá, Benjamim e a sacerdotal de Levi, sob o reinado de Roboão, que no seu conjunto constituíam o reino de Judá. Naturalmente, os cidadãos deste reino eram os judeus. A sua capital era Jerusalém, onde estava o Templo de Salomão.

Da divisão e disputas entre as tribos israelitas resultou uma maior vulnerabilidade a ataques do exterior. O rei da Assíria, Senaqueribe (705-681 a.C) subjugou os dois reinos, tendo destruído Samaria e obrigando o rei de Judá a ficar seu tributário. Levou os israelitas para o exílio, à exceção de uns quantos que se refugiaram no reino de Judá. Os restantes israelitas foram absorvidos por outras nações e constituem o que ainda hoje se chama “as dez tribos perdidas[8)”. Em 587 a.C., chegou também ao fim o reino de Judá. O rei da Babilónia, Nabucodonosor II, derrotou os judeus e destruiu Jerusalém e o Templo, levando os seus habitantes para o exílio na Babilónia. Esse exílio, porém, durou pouco mais de cinquenta anos, uma vez que a Babilónia foi conquistada em 539 pelos persas, comandados por Ciro. Este governante era generoso para os seus súbditos e incentivou os judeus a regressarem à sua terra e a  reconstruírem o Templo. Foi assim que, sob o reinado de Zerobabel, e orientação do escriba Esdras, os judeus voltaram a erguer um templo, exatamente no local onde se situava o primeiro. No entanto, se o primeiro Templo fora construído por um reino soberano, o segundo não. Desde então o povo israelita não teria um território independente até 1948, quando se formou o moderno estado de Israel.

Em 63 a.C. o general romano Pompeu conquistou a Judeia. Houve muitas revoltas até que, no ano 70 da nossa era, Tito Vespasiano subjugou os resistentes, acabando por destruir o Templo, do qual escapou apenas o seu Muro Ocidental, onde ainda hoje os judeus rezam, em memória do Templo perdido. A original Terra de Israel era agora uma pequena província do vasto Império Romano. Os judeus pagariam caro o desrespeito à Tora. Deus tinha-os avisado, através de Moisés, sobre as consequências do desrespeito da Lei. A divisão das tribos fora um grave erro que o Povo haveria de pagar com um novo exílio, após os do Egito e da Babilónia. Este novo exílio haveria de durar cerca de 2.000 anos. É preciso notar que os judeus o aceitaram, pois fora previsto por Moisés. Aceitaram o Galut como uma forma de expiar as suas culpas, até que Deus lhes outorgasse, através do Messias prometido, o direito de regressarem de novo à sua terra.

Tito Vespasiano mudou o nome a Jerusalém, que temporariamente passou a chamar-se Aélia Capitolina, e mudou o nome da Terra de Israel para Syria Palestina. “A palavra “Palestina” deriva do grego Philistia, nome dado a uma parte do território da Terra de Israel, onde se haviam fixado, no século XII a.C., os filisteus, povo não-semita, proveniente da ilha de Creta[9]”. É daí que resulta o nome de Palestina – ao qual hoje corresponde um estado reconhecido por cerca de 2/3 dos países mundiais, mas que os restantes (ainda) não reconhecem – um Estado que mantém um conflito permanente com Israel. Mas isto é matéria que abordaremos um pouco mais à frente.

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A Cruz de Jerusalém numa das portas da igreja de Santa Maria Madalena, em Jerusalém

2- A DIÁSPORA

Uma das questões com que os judeus se preocuparam desde o início da Diáspora foi com as diferentes interpretações e adaptações das normas da Tora, uma vez que a sua dispersão geográfica poderia fazer com que essas interpretações evoluíssem em diferentes sentidos, perdendo a unidade que se considerava fundamental. Houve algumas reuniões que os judeus realizaram para discutirem esta matéria e delas resultaram textos que constituíram a base para a compilação do Talmude (que quer dizer “ensino”). “Os sábios do Talmude principiaram logo por formular uma estrutura legal e religiosa que não se afastasse dos princípios da Tora”[10]. Um importante centro de estudo foi a cidade de Sura, na Babilónia, onde, no século III, o rabino Rav Abba Arika fundou uma importante academia. Outras foram abertas nas cidades vizinhas de  Nehardea e Pumbedita. Os trabalhos desenvolvidos nestas academias estão na origem do importante Talmude Babilónico[11].

Assim, os israelitas manteriam as suas referências, costumes e religião, estivessem onde estivessem, por quase dois mil anos. São conhecidas tradicionalmente as duas grandes comunidades judaicas na Europa, uma no Centro e Leste, os ashkenazi, e outra a Oeste, na Península Ibérica, os sefarditas, para onde os judeus emigraram, embora uma grande parte deles tenha ficado mesmo pelo Norte de África. A partir destas regiões os judeus expandiram-se por todo o mundo. Como é sabido, os judeus da Península Ibérica tiveram de fugir da Inquisição, no século XV[12], e a maior parte deles foi para a Holanda, os Balcãs e até para territórios otomanos do Médio Oriente. Mais tarde, levados pela colonização europeia, os judeus chegaram ao continente americano. Há também os judeus etíopes, que são conhecidos por Beta Israel e os judeus do Yémen, entre outras comunidades.

Como se sabe, a perseguição aos judeus não se limitou ao período da Inquisição. O antissemitismo é um movimento que existe em todo o mundo ainda hoje, e que recrudesceu enormemente nos séculos XIX e XX, no Centro e Leste da Europa, sobretudo em países como a Rússia e a Alemanha. Hannah Arendt reconhece dois ramos distintos do antissemitismo – um inspirado no “antagonismo de duas crenças em conflito” e outro, por assim, dizer, “leigo”[13]. O primeiro é muito mais notório no período inquisitório e o segundo (não completamente imune à influência do primeiro) nos séculos XIX e XX[14]. Curiosamente, o antissemitismo religioso volta a recrudescer no século XXI. O ódio aos judeus é, pois, quase ancestral. Considerados por muitos como usurários, os judeus viram o seu sucesso nos negócios, no comércio e na banca ser alvo da inveja e da incompreensão, inclusive, de alguns famosos intelectuais. É o caso, por exemplo do expatriado poeta americano, Ezra Pound, um apoiante de Hitler e Mussolini, que apelidou os judeus de parasitas que tomavam o dinheiro da sociedade. Além disso apelidou-os ainda de oleosos, selvagens, indolentes, imundos, vermes, piolhos, tumores, pestes, pragas, serpentes, verrugas e sífilis[15].

Este ódio insensato e absolutamente irracional está bem patente nesta frase assassina de Heinrich Himmler: O antissemitismo é exatamente a mesma coisa que catar piolhos, não é uma questão de ideologia, é uma questão de limpeza[16]. Porquê? Qual a razão de tamanho ódio? Hannah Arendt tenta compreender as causas da aversão aos judeus na sua obra Origens do Totalitarismo, particularmente no primeiro capítulo, precisamente sobre o antissemistismo, talvez o trabalho mais exaustivo ou, pelo menos, um dos mais conhecidos sobre o tema, mas nós, não esquecendo essa contribuição, resumiríamos as causas do antissemitismo a duas razões quiçá redutoras e, com certeza, primárias: a inveja, por um lado, e a necessidade, sempre latente, por outro, de se ter à mão um “bode expiatório”, quando se necessita justificar um fracasso ou uma guerra. Estas duas razões combinadas deram lugar a teorias conspiratórias, que visavam mostrar como os judeus tinham um plano secreto para dominar o mundo. Talvez o exemplo maior destas conspirações sejam os textos forjados que alegadamente comprovam o envolvimento judaico e maçon numa conspiração para destruir o mundo ocidental e governar o planeta, que ficaram conhecidos como os Protocolos dos Sábios do Sião[17]. Inventados ainda na Rússia czarista, viriam a ser usados por Hitler na sua louca campanha antijudaica[18].

Todo esse longo período que vai do fim do século XVIII até o fim da Segunda Guerra Mundial foi, assim, mais um período extremamente difícil para a comunidade hebraica, sobretudo a partir do que aconteceu, no ano de 1894, com o oficial judeu do Estado-Maior francês, Alfred Dreyfus, acusado injustamente de espionagem a favor da Alemanha, e condenado a deportação perpétua para a Ilha do Diabo. Seguiu-se uma guerra jurídica, com vários julgamentos, os quais, apesar das provas sobre a sua inocência de Dreyfus, nunca o ilibariam completamente. O caso contou com o envolvimento de Émile Zola – que escreveu uma célebre carta aberta ao Presidente francês, em defesa de Dreyfus, intitulada J’accuse! – e durante muitos anos dividiu a opinião pública em França.

Mas, como é conhecido, os principais massacres de judeus nos séculos XIX e XX foram, primeiro os pogroms[19], no Império Russo, e, posteriormente, o Holocausto. Morreram tantos judeus que os números não passam de estimativas, são impossíveis de contabilizar. Os pogroms começaram ainda na primeira metade do século XIX mas intensificaram-se muitíssimo entre 1881-84, sobretudo em Varsóvia, Kiev e Odessa, após o assassinato do Czar Alexandre II, acontecimento que, mais uma vez, foi considerado parte de uma conspiração judaica. Um outro período crítico decorreu entre 1903-06, com tumultos em mais de 60 cidades. Finalmente, surgiu o terror do Holocausto e o consequente número impressionante de judeus mortos – cerca de seis milhões – sendo que mais de um milhão foram crianças. Cerca de 2/3 dos judeus europeus desapareceram e muitos dos que não morreram passaram a ser considerados apátridas – eram como párias, sem identidade ou cidadania. Isto parece ter despertado algumas consciências para a urgência de ser-lhes atribuído um lar, embora tal já tivesse sido decidido pelos britânicos durante a Grande Guerra e a ideia fosse parte integrante e principal motivo da criação do movimento sionista, em finais do século XIX.

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Mar da Galileia, o maior reservatório de água doce de Israel.

3- REGRESSO A CASA (O SIONISMO)

O movimento sionista surgiu como resposta aos primeiros pogroms, na Rússia, que, como vimos, se intensificaram a partir de 1881, ano do assassinato do czar Alexandre II, em São Petersburgo. O seu sucessor, Alexandre III, considerava os judeus “um cancro social”, tendo promulgado leis anti-semitas e fomentado a repressão aos judeus. Fervoroso adepto da Igreja Ortodoxa, nomeou o seu irmão, o grão-duque Sergei Alexandrovich, presidente da Sociedade Imperial Ortodoxa da Palestina, com o objetivo de reforçar a presença ortodoxa na Terra Santa. Sergei dirigiu-se a Jerusalém e mandou construir no sopé do Monte das Oliveiras a Igreja de Santa Maria Madalena, que fica mesmo em frente da Porta Dourada. Naquela época era habitual saírem do porto de Odessa, no Mar Negro, muitos navios carregados com peregrinos russos, rumo à Palestina. Em 1891, Sergei foi nomeado Governador-Geral de Moscovo e imediatamente expulsou 20.000 judeus da cidade. Estes pogroms fizeram com que muitos judeus se tornassem socialistas e muitos mais abandonassem a Rússia, na primeira grande Aliyah (palavra que significa “fuga para local mais elevado”), em direção a Sião, a Montanha Sagrada de Jerusalém. Embora a maioria dos judeus fugisse para a América (mais de milhão e meio), centenas de milhar fugiram para a Palestina. Em 1890, dos  cerca de 40.000 habitantes de Jerusalém, 25.000 eram judeus.

Estes acontecimentos abalaram profundamente um crítico literário de Viena, chamado Theodor Herzl, que até então não se tinha preocupado com o sionismo. Ele não seguia a religião judaica – montava árvores de Natal em casa e não tinha mandado circuncidar o filho – estava completamente integrado na sociedade vienense. Mas quando, em 1895, foi eleito para presidente da câmara de Viena um tresloucado antissemita, Karl Lueger,     Herzl concluiu que os judeus só alcançariam a paz se um dia tivessem um lar. A partir daí não parou. Foi a França cobrir o caso Dreyfus; presidiu ao primeiro Congresso Sionista, em 1987, na cidade suíça de Basileia; intercedeu, sem sucesso, junto de Guilherme II, o soberano alemão que detestava judeus[20], para que este, por sua vez, intercedesse junto do sultão turco. Porém, após se ter convencido de que não podia contar com o kaiser nem com o sultão para o seu intuito de criar um lar para os judeus na Palestina, Herzl conjeturou sobre outros locais que lhes servissem de pátria, nomeadamente, Chipre e El Arish, no Sinai, ambos sob domínio britânico. Não conseguiu. No VI Congresso Sionista, Theodor Herzl procurou que fosse aceite a hipótese-Uganda mas isso apenas dividiu os congressistas e tudo ficou na mesma[21]. Herzl morreu com 44 anos, mas o seu esforço não foi em vão. Nessa altura, o sionismo era já um movimento imparável e um jovem judeu russo, chamado David Grün, chorava a morte do seu herói. Anos depois também ele seria um herói para muitos – como, aliás, o é ainda hoje – já depois de mudar o nome para David Ben-Gurion.

A luta sionista prosseguiu depois de Herzl, sobretudo através de outro jovem russo que, face às ligações que tinha com membros do governo britânico, acabaria por conquistá-los para a sua causa. O seu nome era Chaim Weizmann e tinha fugido da Rússia para estudar na Alemanha e na Suíça, radicando-se depois em Manchester, aonde chegou com 30 anos para dar aulas de química na universidade. Weizmann foi chamado por Churchill para ajudar os ingleses na Primeira Guerra Mundial (1914-18),[22] colocando ao serviço da Grã-Bretanha os seus conhecimentos de química. Foi nesse período (1915) que conheceu outro importante político inglês – Lloyd George, Ministro da Guerra, e a partir de dezembro de 1916, Primeiro-Ministro. Weizmann era também amigo de Arthur Balfour, autor da célebre carta que em 1917, enquanto secretário britânico dos Negócios Estrangeiros, dirigiu ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica no Reino Unido, afirmando: o governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina de um Lar Nacional para o Povo Judaico, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo[23]. A França e a Itália ratificaram de imediato a Declaração de Balfour e os Estados Unidos fizeram-no em agosto de 1918. Mais tarde, o documento seria também incluído no Tratado de Sèvres, que selou a paz com o Império Otomano. Entretanto, já França e Inglaterra tinham feito, em 1916, um acordo secreto (Sykes-Picot), o qual foi remodelado com um novo acordo (St. Jean de Maurienne), no ano seguinte, que envolveu também os italianos, para dividirem entre si os ainda territórios otomanos a Sul da Anatólia.

Mas para isso era preciso ganhar a guerra e os britânicos tiveram um primeiro desaire contra os otomanos em Gallipoli. Tentaram então o apoio dos árabes e negociaram com o xerife e emir de Meca, Hussein, as condições de uma revolta árabe contra os turcos. Evidentemente, foram prometidas compensações territoriais aos árabes, embora os ingleses procurassem ser o mais ambíguos que podiam, pois não queriam comprometer-se. T. E. Lawrence, um intrépido oficial inglês, acabaria por conduzir os árabes na revolta, acompanhado por um dos quatro filhos de Hussein, o príncipe Faisal. Praticaram vários atentados, fazendo explodir pontes e caminhos de ferro. Lawrence, após conhecer o Acordo Sykes-Picot, sentiu-se envergonhado e chegou a afirmar: estamos a pedir-lhes que combatam por nós com base numa mentira, e eu não suporto isto[24]. Ele, que admirava a pureza dos árabes do deserto, acabou por contar a verdade sobre aquele acordo a Faisal – e sugeriu um plano para o corrigir. Se fosse o exército árabe a conquistar a Síria, os franceses (que esperavam ficar com esse território) não conseguiriam depois expulsá-los… Assim, Lawrence da Arábia[25] conduziu as forças de Faisal pelo deserto da Jordânia, forçando-as a uma viagem de 450 quilómetros, até conquistarem o porto de Aqaba. A 28 de junho de 1917, sir Edmund Allenby chegou ao Cairo para assumir o comando do exército britânico e uma semana depois chegava Lawrence, que, vestido de beduíno, e após uma viagem de quatro dias – de camelo, de comboio e de barco – o vinha informar da tomada de Aqaba. Allenby nomeou-o e ao seu Corpo de Xerifianos a Camelo como ala direita do exército britânico. Estes dois ingleses, talvez os principais responsáveis, cada um em sua frente e com sua estratégia militar, pela derrota dos otomanos no Médio Oriente, chegariam juntos à cidade de Jerusalém, quando esta foi reconquistada, em dezembro de 1917.

Em 8 de março de 1820, Faisal foi proclamado rei da Síria, mas rapidamente os franceses derrotaram o seu reduzido exército, impondo-se como donos da região. A vontade de Lawrence, porém – de que os britânicos mostrassem algum respeito pelo xerife Hussein e seus filhos, depois das promessas que lhes tinham feito – também haveria de ser minimamente satisfeita. Na primavera de 1921, Lawrence da Arábia e o ministro britânico das Colónias, Winston Churchill, deslocaram-se a Jerusalém. Lawrence foi encarregado de convencer o velho Hussein a aceitar a hegemonia inglesa e francesa na região, pois de outra maneira o financiamento britânico esgotar-se-ia. Hussein protestou, mas a posição da sua dinastia ficou ainda mais fragilizada quando foi derrotado pelo saudita Ibn Saud, o mesmo acontecendo, posteriormente, aos seus filhos Ali (que lhe sucedeu) e Abdullah, tendo este escapado milagrosamente de um ataque pelas traseiras da sua tenda. Ibn Saud autoproclamou-se rei do Hejaz e da Arábia Saudita (reino que a sua família ainda governa). Como resultado destes acontecimentos, Faisal conseguiria apenas o reino do Iraque e Abdullah ficava sem nada. Só que mais uma vez Lawrence entrou em ação e compareceu com Addullah a uma reunião com Churchill. O ministro das Colónias, que admirava Lawrence da Arábia, ofereceu a Transjordânia a Abdullah, que, embora relutante (pois sonhara com um grande império hachemita onde vivessem pacificamente árabes e judeus), aceitou[26]. Lawrence tinha cumprido a missão de conduzir Faisal e Adullah, cada um a seu trono, não defraudando a confiança que ambos haviam depositado nele. E assim se dividiu a Palestina (que ficara sob mandato britânico[27] em duas partes: uma a oriente do rio Jordão, denominada Transjordânia, que se tornaria independente em 1928 (após um tratado anglo-jordano), e outra parte, do rio Jordão até o Mediterrâneo, que os britânicos administraram diretamente até 1948, cuja área correspondia aos atuais territórios de Israel, da Faixa de Gaza e a da Cisjordânia[28].

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O processo de amadurecimento – das plantas, das pessoas, de tudo em Israel – é acelerado.

A vida não foi fácil para os britânicos durante o mandato. Os árabes palestinianos estavam descontentes com a Declaração de Balfour e os conflitos eram frequentes, sobretudo em Jerusalém. Os judeus continuavam a chegar à Palestina e começaram a organizar-se política e militarmente. O chefe político máximo era Ben-Gurion, o líder flexível mas determinado da Agência Judaica, um socialista laico, que desde o início sonhara com uma Palestina unida, que integrasse os povos judeu e árabe no seu seio, até reconhecer bastante mais tarde, com pragmatismo, que tal não era possível. Tendo em conta os ataques dos árabes palestinianos, os judeus organizaram-se também militarmente. Em 1920 criaram a Haganah (palavra que quer dizer “defesa”), uma milícia que tinha por missão principal proteger os colonos rurais. Mais tarde, uma facção da Haganah separou-se desta e os seus nacionalistas militantes fundaram a Organização Militar Nacional. Entre 1936 e 1945 deu-se a chamada Revolta Árabe, comandada pelo mufti (líder espiritual dos muçulmanos) Amin al-Husseini, em Jerusalém, que os britânicos tiveram muita dificuldade em controlar. Perante os ataques aos judeus, estes responderam com vários atentados contra os árabes. Com a deflagração iminente da Segunda Guerra Mundial, os britânicos tiveram de recrutar militares destacados na Palestina, pelo que recorreram aos judeus para conterem as ofensivas dos árabes palestinianos. Um capitão inglês colocado em Jerusalém no ano de 1936 convenceu o Alto-Comissário, Arthur Wauchope, a deixá-lo treinar os judeus e a responder aos árabes com a mesma moeda. O seu nome era Charles Orde Wingate, criador dos Esquadrões da Noite, compostos por judeus, que lançaram o terror junto das hostes árabes. Os britânicos continuaram a treinar os judeus durante mais algum tempo, incluindo o período da Segunda Guerra Mundial. Os 25.000 judeus treinados foram muito importantes como base do futuro exército de Israel.

No entanto, subitamente, a política britânica para a Palestina mudou. No início de 1939, o Primeiro-Ministro inglês, Neville Chamberlain, promoveu vários encontros entre judeus e palestinianos, tendo em vista a obtenção de um acordo, que parecia impossível. Assim, no dia 17 de março desse ano, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Malcolm MacDonald, apresentou uma proposta por escrito que invertia completamente a Declaração de Balfour, proibindo a criação de um estado judeu. Incrivelmente, por manifesta incompetência política mas também por arrogância megalómana, o mufti rejeitou-a. Por seu turno, Ben-Gurion preparou a milícia Haganah para o combate contra os britânicos. Em setembro rebentou a Segunda Guerra Mundial. No decorrer da mesma, mais concretamente no segundo semestre de 1941, o mufti deslocou-se à Europa e encontrou-se com Mussolini, em setembro, e com Hitler, em Novembro. Foi a oportunidade dos três demonstrarem como os unia o ódio aos judeus. Num discurso proferido em 1943, em Berlim, Husseini afirmou que os judeus vivem como parasitas entre os povos, sugando-lhes o sangue, pervertendo-lhes a moral (…) A Alemanha decidiu muito claramente encontrar uma solução definitiva para o perigo judaico, uma solução que eliminará a calamidade que os judeus representam para o mundo. No entanto, já com Winston Churchill como primeiro-ministro, britânicos e judeus voltaram a cooperar, face à necessidade que tinham de se libertar da tenaz inimiga que ameaçava a Palestina: as forças do eixo no Norte de África e a França de Vichy na Síria. Os ingleses criaram a Palmach, uma pequena força de comandos judeus, dispostos a lutar contra os nazis. Foi numa missão da Palmach no Sul do Líbano que Moshe Dayan (que viria a ser o grande comandante da ofensiva israelita de 1967), enquanto observava a movimentação do inimigo com uns binóculos, levou um tiro e perdeu a vista esquerda.

Apesar dessa colaboração, alguns dissidentes da Irgun, desiludidos com a política britânica, nomeadamente com as restrições impostas em 1939, começaram a levar a cabo atentados contra os ingleses. Eram comandados por Menachem Begin, que se viu obrigado a passar à clandestinidade, e por quem os britânicos ofereciam uma recompensa de 10.000 libras, morto ou vivo. A Agência Judaica, pela voz do sempre moderado Ben-Gurion, condenou os ataques terroristas e colaborou com as autoridades inglesas na perseguição às milícias dissidentes, conseguindo prender cerca de 300 dos seus elementos. Os britânicos, no entanto, estavam decididos a impedir a imigração de judeus na Palestina, mesmo quando estes fugiam dos campos de extermínio nazis. Tal atitude indignou o próprio David Ben-Gurion, que se juntou aos radicais, tendo todas as organizações combatentes acordado na constituição do Comando Unido da Resistência, que visava conseguir a entrada clandestina de judeus na Palestina e o combate aos ingleses. Estes passaram um mau bocado, sendo atacados impiedosamente em todo o território. O novo primeiro-ministro inglês, Clement Attlee, procurou então o apoio político do presidente americano, mas Truman, pelo contrário, apoiou publicamente a recomendação da Comissão Anglo-Americana para que os britânicos autorizassem imediatamente a entrada na Palestina de 100.000 refugiados judeus. Os americanos eram então, como são ainda hoje, os maiores aliados da causa judaica. Os ataques aos britânicos continuaram, ainda com mais violência, acabando por levar a uma nova cisão, pois Ben-Gurion, líder da Agência Judaica, condenava atentados terroristas, como aquele em que a Irgun fez explodir a embaixada britânica em Roma, no outono de 1946.

Churchill, agora na oposição, acusava Attlee de manter uma guerra esquálida e sem sentido contra os judeus, para entregar a Palestina aos árabes, ou sabe Deus a quem. De facto, a maioria dos governantes britânicos desta época odiava os judeus – fazendo jus à História dos últimos milénios. A 14 de fevereiro de 1947, durante uma reunião do governo, um Attlee completamente desgastado pela guerra acedeu em deixar a Palestina. Em 2 de abril, pediu às Nações Unidas que criassem uma Comissão Especial para a Palestina (a UNSCOP). Quatro meses depois, a UNSCOP propunha a divisão do território em dois estados[29], ficando Jerusalém sob administração internacional, com um governador nomeado pelas Nações Unidas (ver figura abaixo).

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O crescimento de Israel desde 1947.

4- O CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO

Embora as escaramuças entre muçulmanos e judeus tivessem começado muito antes, a guerra aberta, com a participação de exércitos nacionais, ocorreria após 1948. O Plano de Partilha da ONU para a Palestina foi aprovado em 29 de novembro de 1947, com 33 votos a favor, 13 contra e 10 votos nulos. A Alta Comissão Árabe, bem como os países da Liga Árabe (Egito, líbano, Síria e Jordânia) rejeitaram o plano, alegando que os judeus ficariam com uma área maior sendo uma população menor, bem como ficariam também com a melhor parte da mesma, nomeadamente o Mar da Galileia, o maior reservatório de água doce do território. Por seu lado, apesar de algum descontentamento por não ficar com Jerusalém, a Agência Judaica acabaria por aceitar o plano. Em 14 de maio de 1948, poucas horas antes de terminar o mandato britânico, já em ambiente de guerra civil, foi declarada a independência do Estado de Israel, por David Ben-Gurion. A reação dos estados árabes foi imediata e os combates iniciaram-se[30]. A Guerra de 1948 ficaria conhecida, em Israel, como Guerra da Independência. No fim da guerra, em 1949, os israelitas tinham ampliado significativamente o seu território, ocupando agora 75% do total. O restante era a Cisjordânia, ocupada pela Jordânia e a pequena Faixa de Gaza, ocupada pelos egípcios. A guerra provocou o deslocamento de 900.000 palestinianos para campos de refugiados, os quais constituem a chamada Questão Palestiniana, sem solução até hoje.

Em 1964 foi criada a Organização de Libertação da Palestina (OLP) e, no dia 5 de junho de 1967, em resposta ao bloqueio aos navios israelitas no Canal do Suez, imposto pelo Egito, e face a movimentações junto das fronteiras com Israel dos exércitos sírio e jordano, o exército israelita, comandado pelo general Moshe Dayan, lançou uma grande ofensiva “preventiva”. Atacou as bases aéreas egípcias no Sinai, enquanto forças terrestres avançavam  na mesma zona e também pela Faixa de Gaza. Os exércitos jordano (este apesar da relutância de Hussein em aceitar o comando egípcio) e sírio intervieram, mas o resultado foi a tomada por Israel da Cisjordânia e dos Montes Golã. Ao terceiro dia do conflito todo o Sinai estava controlado. A guerra foi rápida e veio confirmar a superioridade militar incontestável dos israelitas. O setor oriental de Jerusalém, até aí ocupado pelos jordanos, foi igualmente conquistado. Como resultado da guerra, o número de refugiados palestinianos aumentou significativamente na Jordânia e no Egito.

Em outubro de 1973 ocorreu uma nova guerra, que ficou para a História como Guerra de Outubro ou Guerra do Yom Kippur (um feriado judaico), entre outras designações. Desta vez, uma coligação sírio-egípcia tentou inverter o efeito de surpresa que Israel tinha provocado na Guerra dos Seis Dias. Nas primeiras horas isso aconteceu, os israelitas pareciam surpreendidos, mas logo recuperaram. Paulatinamente, foram conquistando terreno até penetrarem nos territórios egípcio e sírio, ficando a 100 quilómetros do Cairo e a 40 de Damasco, que foi intensamente bombardeada. A guerra terminou ao fim de 20 dias com a intervenção das Nações Unidas que propôs um cessar-fogo, o qual entrou em vigor no dia 25 de outubro de 1973.

(Façamos aqui uma pequena pausa, que nos parece importante. Desde a formação de Israel, em 1948, este estado teve um governo moderado, liderado pelo Partido Trabalhista, até 1977. Foram 30 anos muito importantes, com políticos prestigiados e conciliadores, como Teddy Kollek, respeitado por todos, incluindo os árabes, eleito cinco vezes pelo Partido Trabalhista para a Câmara de Jerusalém[31]. Em 1977, o governo israelita endureceu a sua política em relação aos palestinianos com a chegada ao poder do Likud (que significa “união”), partido que ainda hoje congrega as mentes israelitas mais conservadoras, naquela época liderado por Menachem Begin. Este era um político que sabia muito pouco acerca do mundo árabe, e nunca deixara de ser o filho de um shtetl polaco, o vigoroso nacionalista que tinha uma visão maniqueísta do combate judaico, uma ligação emocional ao judaísmo e uma visão bíblica de Israel[32]. A visão que provavelmente perdura na mente do atual líder do Likud, Benjamin Netanyahu. Há pois uma diferença muito significativa na política israelita consoante estão no poder moderados ou radicais.)

Em 1978 e 1982 Israel fez incursões no Líbano de onde só se retiraria completamente no ano 2000. Em 1987 começou a Primeira Intifada que durou cerca de seis anos e provocou mais de mil mortos. Em 1993, no seguimento dos Acordos de Paz de Oslo, – que constituíram, talvez, a última grande esperança mas que, infelizmente, nunca chegaram a ser integralmente cumpridos – foi criada a Autoridade Palestiniana. Após a tentativa de mais um acordo, rejeitado por Yasser Arafat em Camp David, em 2000, começou a Segunda Intifada[33]. Esta Intifada foi mais violenta que a primeira e alastrou a Jerusalém e outras cidades israelitas e da Cisjordânia. Morreram cerca de 3.500 palestinianos e 1.000 israelitas. A partir de 2001, Ariel Sharon começou a construir muros na Cisjordânia, como resposta aos ataques terroristas. Em 2004 morreu Yasser Arafat e a Autoridade Palestiniana elegeu para o substituir Mahmud Abbas. Em 2005 os palestinianos dividem-se em dois partidos, um moderado (Fatah) e outro radical. Este último, o Hamas, que não reconhece Israel, passa a dominar a Faixa de Gaza, de onde lança mísseis para o território israelita. Em 2009 tropas israelitas entram em Gaza. Em 2012 e 2014, Israel lançou novas ofensivas sobre este território. Não é expectável que se fique por aqui.

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O muro construído por Israel em Belém, na Cisjordânia.

5- ISRAEL, HOJE

O que escrevemos acima, já era de uma forma geral do nosso conhecimento. Restava-nos ver com nossos olhos. Queríamos falar com as pessoas, saber como viviam e o que pensavam, por isso chegámos a Israel com uma enorme expectativa. E os israelitas são de facto diferentes. Algo que nos impressionou logo à chegada foi a presença de jovens em todo o tipo de tarefas de controlo. Os nossos passaportes ficaram retidos durante dois dias no navio, ainda no mar, após um controlo presencial a que todos os passageiros tiveram de se submeter. Fomos controlados por jovens funcionários à saída do navio, as nossas bolsas e mochilas passadas pelo raio-x e novamente, à saída do porto, todos os veículos foram controlados. Os jovens (rapazes e raparigas) levam a cabo estas tarefas com uma enorme naturalidade. Aos 18 anos – a idade em que os nossos miúdos praticamente deixam de usar fraldas – eles demonstram uma maturidade invulgar, como se fizessem isto há séculos. Sam, um taxista com quem viajámos e conversámos, explicou-nos que os jovens em Israel crescem mais depressa. Quando completam 18 anos eles têm pela frente três anos de serviço militar e elas dois. Muitos, ao fim dos primeiros seis meses de recruta, estão aptos para cumprirem estas tarefas de controlo. Depois de cumprirem o serviço militar obrigatório, os homens passam à reserva até aos 50 anos, podendo ser chamados a qualquer momento em caso de necessidade.

Há quem considere esta preocupação com a segurança uma verdadeira obsessão, mesmo dentro de Israel. A unanimidade não existe, apesar da segurança dos cidadãos ser uma preocupação generalizada, por razões óbvias. A pluralidade de opiniões e posicionamentos políticos existe de facto em Israel – uma verdadeira democracia – e as visões sobre a forma de lidar com os vizinhos são diversificadas. Porém, a maioria reconhece, por experiência própria, que o país tem de estar preparado para se defender. Este sentimento de sobrevivência é um forte fator de união entre os israelitas. Todas as famílias viveram já momentos de sobressalto e muitas contam mortos e feridos no seu seio, vítimas da guerra ou do terrorismo. Os israelitas penaram muito para aqui chegar. É compreensível que queiram viver em paz e é impressionante que, em condições extremamente adversas, o tenham quase conseguido. É certamente mais seguro viver aqui do que em muitos países que não têm inimigos junto às suas fronteiras, como tem Israel.

Apesar de se saber que a paz, no que se refere ao Médio Oriente, é sempre instável, Israel mantém atualmente boas relações com o seu vizinho mais a Norte, o Líbano; as relações com a Jordânia são estáveis, após um acordo de paz que vigora desde 1994, e existe também um acordo com o Egito. A Síria parece ser o país fronteiriço com o qual Israel mantém, hoje, relações mais instáveis, embora a Síria esteja envolvida num grave conflito interno[34]. Face a esta situação, não admira que a indústria militar seja a segunda maior em Israel, depois da agricultura[35]. A terceira maior indústria é a dos diamantes. Os israelitas são os maiores talhadores mundiais e os diamantes em Israel são melhores e cerca de 25% mais baratos do que os que se podem encontrar em qualquer outra parte do mundo. Israel é também muito forte nas indústrias de ponta: satélites, chips para computadores e telemóveis, instrumentos médicos de alta tecnologia[36]. Isto é perfeitamente natural, se considerarmos que mais de quarenta israelitas já conquistaram o Prémio Nobel nas áreas cientificas.

O nível de vida em Israel é alto. Face ao esforço de defesa[37], os cidadãos pagam entre 50 a 60% de impostos. Mas têm direito a educação de qualidade, gratuita, e o serviço público de saúde é igualmente gratuito e de qualidade superior. Muitos dos cirurgiões israelitas são os melhores do mundo nas respetivas áreas. Por todo o território nos deparamos com o crescimento de cidades, erguidas com meleke[38], um tipo de pedra calcária, branca, que se encontra, sobretudo, nas colinas da Judeia e na Cisjordânia. Estas novas cidades, bem como as antigas, são ligadas por uma excelente rede de transportes, apesar dos engarrafamentos frequentes nas entradas e saídas das principais cidades, face ao número elevadíssimo de veículos. Telavive é uma dessas cidades. O seu dinamismo é visível mesmo numa abordagem superficial. Trata-se certamente de uma das mais desenvolvidas metrópoles mundiais e a sua movida noturna é algo que nunca tínhamos visto em qualquer outro lado. Bares e esplanadas cheios, milhares e milhares de jovens confraternizando ao longo dos largos passeios, a perder de vista. De realçar que a temperatura do ar das noites de Telavive, mesmo no fim de outubro, é igualmente elevada. Esta é a cidade mais ocidentalizada de todo o território israelita – aberta, cosmopolita, laica – conhecida como a Bolha, muito diferente da conservadora Jerusalém.

A questão religiosa é, na verdade, o problema mais complicado de resolver. A paz é mais difícil cada vez que os ultraortodoxos conseguem representar-se no Executivo israelita. Há várias tendências dentro daquele grupo, algumas que os crentes seguem cegamente, com práticas bastante estranhas para nós. Por exemplo, é absolutamente interdito o sexo antes ou fora do casamento e não é permitido fazer seja o que for durante o sabbath[39]; as mulheres são consideradas impuras pelo simples facto de menstruarem, e os homens cobrem-nas com um pano, deixando apenas um orifício na zona do sexo, quando fazem amor com elas. Felizmente, nem todos são ultraortodoxos, havendo também crentes não-praticantes e ateus, embora cerca de 55% dos israelitas se considerem judeus. Deste equilíbrio de forças no seio de Israel dependerá, em muito, a convivência, mais ou menos pacífica, com os palestinianos. O avanço israelita na Cisjordânia[40] é muito difícil de justificar (e igualmente muito difícil de parar). A paz, nestas condições, afigura-se extremamente difícil. O problema de Jerusalém constitui também uma tarefa árdua de resolver. Os crentes judaicos mais radicais não aceitam que uma mesquita tenha sido erguida sobre as ruínas dos Templos de Salomão e de Esdras. A cidade é um autêntico barril de pólvora[41], sobretudo pelas tensões que provoca entre judeus e muçulmanos. Talvez o tempo seja o melhor amigo de uma convivência pacífica. Entretanto, a única possível parece ser a paz imposta e não uma paz acordada, mas, ainda assim, talvez esta situação seja preferível à guerra permanente. É justo, porém, dizer que essa paz imposta tem sido demasiado dura para os palestinianos, sobretudo nos últimos vinte anos – o período do pior Israel de sempre, fechado ao diálogo, apostado numa opressão quase irracional aos árabes palestinianos, vistos como eternos inimigos.

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A gente desta terra demonstra um amor inequívoco à Eretz Yisrael.

Cientes de que muitos dos que aqui vivem, judeus, cristãos ou árabes (sobretudo estes últimos), passam grande parte do seu tempo de vida entre a esperança e o desespero, deixámos Israel. Depois desta viagem podemos afirmar que a nossa perspetiva sobre os israelitas mudou, e que é preciso ir a Israel para (pelo menos tentar) compreendê-los. Uma grande parte da aversão aos judeus deriva de um preconceito cultural, mesmo que essa aversão não seja consciente e se baseie em mitos, propaganda e ignorância histórica. Quase em todo o lado nos apresentam os israelitas como opressores e os palestinianos como um povo subjugado. Mas esta história não tem 30 anos, tem mais de 3.000. Quando falamos em judeus e palestinianos há algo que, desde logo, induz a maioria de nós em erro.  A palavra –  “palestinianos” – leva-nos a concluir que aqueles a que chamamos hoje “palestinianos” são os habitantes desde sempre da Palestina, e os judeus os intrusos que lhes roubaram a terra. Mas isto não é verdade. Sempre houve israelitas na Palestina, e até antes de existir a Palestina já existiam judeus naquela terra. Os israelitas da primeira metade do século XX eram chamados de “palestinianos” ou judeus palestinianos, assim como os (únicos) que agora são apelidados de “palestinianos” eram chamados de árabes palestinianos. Havia um jornal sionista cujo título era Palestina e um jornal árabe chamado Filistina.

A situação mais difícil de resolver em Israel é a de Jerusalém, sobretudo na Cidade Velha, onde os conflitos não ocorrem apenas entre crentes das três religiões principais, mas também entre radicais e moderados, entre seitas, ramos e igrejas dentro de cada religião. Por exemplo, a Igreja do Santo Sepúlcro tem de ser dividida entre ortodoxos, católicos, coptas, etíopes e arménios, o que obriga a uma convivência que nem sempre é pacífica. Por outro lado, as três grandes religiões do Livro têm lugares sagrados na Cidade Velha – e é preciso lá ir para ver como o espaço é comprimido, sobreposto, rendilhado. Como dizia Shimon Peres, mais do que uma cidade, Jerusalém é uma chama, e uma chama não pode ser dividida[42]. Amos Oz, o grande escritor hierosolimita, perante este intrincado problema propôs uma solução divertida: devíamos pegar em cada uma das pedras dos Lugares Santos e transferi-las para a Escandinávia durante cem anos; e só as traríamos outra vez para cá quando tivéssemos aprendido a viver juntos em Jerusalém[43]. Enquanto isso não acontece, necessitar-se-ia de bom-senso; era preciso que a fé andasse lado-a-lado com a racionalidade e não se sobrepusesse a ela; era preciso que a moderação e a abertura vencessem o radicalismo. Era preciso, só para começar, um novo Teddy Kollek. Até porque as exigências de autonomia dos árabes de Jerusalém terão de ser tomadas em conta mais tarde ou mais cedo[44].

Sabemos que os israelitas cometeram e cometem atrocidades, da mesma forma que os palestinianos as cometeram e cometem. Não há inocentes neste conflito. Ainda assim, a verdade é que a palavra extermínio continua a ser atirada aos judeus; continua a haver quem ache que eles deveriam desaparecer. Estes estão conscientes disto, algo que se sente e quase se torna palpável em Israel. Talvez a ameaça externa constitua, afinal, o maior fator de união deste povo. Daqui levámos e aqui deixámos saudades. No regresso a casa, lendo Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal, um livro escrito, em 1976, por Saul Bellow, verificamos que, por um ponto de vista, talvez por muitos mais, também nós somos judeus: Os israelitas são grandes viajantes. Precisam do mundo[45].

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Notas:

[1] Como se sabe, o cristianismo divide-se em inúmeros ramos, sendo os mais importantes os ortodoxo, católico e protestante, entre muitos outros.

[2] Os muçulmanos aceitam a Bíblia (tanto o Antigo como o Novo Testamento) e consideram judeus e cristãos como seus parceiros, como “Povos do Livro”, Ahl al- Litâb.

[3] A palavra Bíblia quer dizer, simplesmente, “O Livro”. Vem do grego Byblos, que era o nome pela qual era conhecida pelos antigos a cidade fenícia de Gebal, de onde os gregos importavam o papiro do Egito para escreverem os seus livros.

[4] Os cinco livros (é isso que quer dizer, precisamente, a palavra de origem grega Pentateuco: “cinco livros”) são o Génesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronómio.

[5] Isto é muito interessante na medida em que nos mostra a origem comum de árabes e judeus.

[6] Existe uma significativa controvérsia sobre a localização do Monte Sinai, não existindo consenso entre os historiadores, embora a maioria aceite a Península do Sinai, no Egito, como a localização mais provável. 

[7] Josué (Joshua) viveu no século XIII a.C.

[8] De vez em quando surge algum tipo de informação, algures no mundo, sobre o hipotético aparecimento de um ou mais membros dessas dez tribos perdidas.

[9] Inácio Steinhardt, Raízes dos Judeus em Portugal, entre Godos e Sarracenos, Nova Vega, Lisboa, 2012, p. 29. Toda a primeira parte do presente artigo é também baseado neste obra.

[10] Ob. cit., p. 34.

[11] O Talmude é composto por duas partes. Mishná (texto base) e Guemará (comentários dos rabinos).

[12] Apesar da fuga maciça dos judeus da Península Ibérica durante a Inquisição, ali deixaram raízes profundas. Por exemplo, em Portugal, cerca de um terço da população tem origem sefardita. Sobre este assunto ver artigo deste blogue aqui.

[13] Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo, Editora Schwarcz, São Paulo, 2013, p. 17.

[14] Neste segundo período o antissemitismo católico foi sobretudo protagonizado pelos jesuítas. Não devemos esquecer-nos  de que os estatutos dos jesuítas exigiam a cada noviço a prova de que não tinham qualquer rasto de sangue judeu até a quarta geração.

[15] Diogo Mainardi, A Queda, Editora Record, São Paulo, 2012, p. 125.

[16] Himmler, num discurso aos seus líderes da S.S., em 1943, em Kharkov.

[17] Mais detalhes sobre o assunto aqui.

[18] Da mesma forma, houve quem visse no primeiro Congresso Sionista, realizado em 1897, mais uma conspiração sionista para governar o mundo, que ficou conhecida como “Judá Secreta”.

[19] O termo “pogrom” deriva da palavra russa “gromit”, que significa “destruir”.

[20] Guilherme II considerava os judeus “os parasitas do império”, e chegou a afirmar que os judeus deveriam ser exterminados nas câmaras de gás.

[21] Chegaram a ser sugeridos mais de trinta locais para a criação de um estado judaico. Localizações tão diversas como o Alasca, a Argentina, Angola, Líbia, etc. Hitler equacionou a hipótese de um campo de extermínio em Madagáscar e Estaline acreditou ser possível a criação de um estado judaico na Crimeia.

[22] Artigo deste blogue sobre a Grande Guerra pode ser visto aqui.

[23] Carta completa:O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não-judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.´Desde já, declaro-me extremamente grato a V. Sa. pela gentileza de encaminhar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista.” No entanto, parece que a verdadeira razão da adesão da Grã-Bretanha ao sionismo não se prendeu com os bons ofícios de Weizmann. Os ingleses estavam convencidos de que seriam capazes de influenciar favoravelmente a opinião pública americana se fizessem saber que um dos objetivos da sua política era o regresso dos judeus à Palestina.

[24] Jerusalém – a Biografia, Simon Sebag Montefiore, Aletheia Editores, Lisboa, 2015, p. 449.

[25] Recomenda-se o excelente filme de David Lean, Lawrence of Arabia, de 1962, que, além de ser uma obra sublime do ponto de vista artístico, é igualmente um documento fiel, do ponto de vista histórico.

[26] Abdullah, o Apressado, filho do xerife de Meca, Hussein bin Ali, da dinastia dos hashemitas (ao que parece, descendentes diretos do profeta Maomé), haveria de ser rei da Transjordânia e de parte de Jerusalém, pois a cidade ficou dividida por decisão das Nações Unidas, em 1947. O sucessor de Abdullah seria Talal, mas este desiludia o velho rei, que treinou o neto, Hussein, desde pequeno, para reinar. No dia 20 de julho de 1951, uma sexta-feira, Abdullah ordenou ao neto que envergasse o uniforme militar, com as respetivas medalhas. Ao entrarem ambos na mesquita al-Aqsa de Jerusalém, um jovem sacou de uma pistola e, encostando-a ao ouvido de Abdullah, disparou matando o rei instantaneamente. Todos se atiraram ao chão menos Hussein, que se atirou ao assassino enquanto este disparava uma segunda vez, agora sobre ele, antes de ser abatido pelos guarda-costas do rei. Milagrosamente a bala bateu numa das medalhas e Hussein nada sofreu. O avô tinha-lhe salvado a vida sem saber. Logo em 1952, depois do pai ser forçado a abdicar do trono por causa de problemas de esquizofrenia, Hussein tornou-se rei da Jordânia até morrer, em 1999. O seu maior desaire político foi ter perdido Jerusalém e a Cisjordânia para Israel na Guerra dos Seis Dias. Moderado, era amigo do Ocidente e inclusive de Yitzhak Rabin, com quem assinou em 1994 um tratado de paz entre a Jordânia e Israel, que ainda hoje vigora. Sucedeu-lhe o seu filho mais velho, Abdullah II, atual rei da Jordânia.

[27] O chamado Mandato Britânico da Palestina, que durou de 1920 até 1948.

[28]  O documento que regulava o Mandato Britânico da Palestina dizia expressamente no seu preâmbulo: “Considerando que as principais potências Aliadas também concordaram que o Mandatário deve ser responsável por colocar em prática a declaração, feita originalmente em 2 de novembro de 1917 pelo Governo de Sua Majestade Britânica e adotada pelas ditas potências, em favor do estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, sendo claramente entendido que nada deve ser feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das atuais comunidades não-judaicas na Palestina, ou os direitos e status político gozados pelos judeus em qualquer outro país”…

[29] 53% do território seriam atribuídos aos 700 mil judeus, e 47% aos 1 milhão e 400 mil árabes que ali se haviam fixado. Esta repartição foi considerada adequada uma vez que alguns milhares de judeus viviam historicamente naquele território e haviam comprado 65% daquelas terras, ainda antes da Grande Guerra, no tempo dos otomanos. 

[30] Na verdade já tinham ocorrido vários e graves conflitos entre árabes e judeus na Palestina, durante as décadas de 1920, 30 e 40.

[31] Kollek foi eleito cinco vezes como Presidente da Câmara de Jerusalém – 1969, 1973, 1978, 1983 e 1989. Nascido na Hungria, morreu em Jerusalém, em 2007, com 95 anos.

[32] Simon Sebag Montefiore, ob. cit., p. 553.

[33] Os palestinianos, em particular, e os árabes, em geral, não costumam resolver os seus problemas através de acordos. Por isso, muitas vezes recorrem à força. Isso ficou bem patente durante estes últimos anos, com os israelitas a aceitarem (veja-se a flexibilidade negocial de Ben-Kurion e da Agência Judaica) e a proporem acordos e os palestinianos a rejeitarem-nos. No ano 2000, em Camp David, quando Yasser Arafat reuniu com Ehud Barak (mais um primeiro-ministro israelita do Partido Trabalhista que, como sempre, estava disposto a negociar) sob os auspícios de Bill Clinton, foram-lhe oferecidas condições únicas, que provavelmente nunca mais se repetirão. Noventa e um por cento da Cisjordânia e uma capital palestiniana em Abu Dis; os subúrbios árabes de Jerusalém Oriental; 3/4 da Cidade Velha, em Jerusalém; finalmente, perante a intransigência de Arafat, a soberania sobre o Monte do Templo, apenas sendo permitido aos israelitas uma ligação simbólica aos Lugares Santos. Arafat chocou americanos e israelitas quando afirmou que não existira nunca um templo judaico em Jerusalém, que isso era uma invenção moderna dos israelitas. Yasser Arafat recusou a proposta. A consequência disso foi a segunda intifada e a ascensão de Sharon, que reprimiu duramente os palestinianos e os isolou mais ainda através da construção de muros de segurança. 

[34] Um facto de que poucos têm conhecimento é que muitas centenas de estropiados, que conseguiram fugir do atual conflito interno na Síria, foram tratados em hospitais de Israel.

[35] As técnicas de irrigação em Israel são as mais avançadas do planeta.

[36] A mais antiga indústria desta terra é a do azeite.

[37] Cerca de um milhão de indivíduos estão a todo o momento disponíveis para combaterem. Seiscentos mil no ativo e quatrocentos mil na reserva.

[38] O termo meleke é de origem árabe e quer dizer “pedra real” ou “pedras dos reis”, talvez porque os túmulos mais importantes de Jerusalém foram construídos com ela. A palavra entrou no jargão técnico, adotada do léxico usado pelos pedreiros, ancestralmente, no terreno.

[39] Dia semanal de descanso, rigorosamente respeitado pelos judeus, entre o anoitecer das sextas-feiras e o anoitecer dos sábados.

[40] Há três tipos de zonas na Cisjordânia – “A”, “B” e “C”, criadas após o Acordo de Oslo de 1993. A zona “A” é completamente controlada pelos palestinianos; a zona “B” é controlada por patrulhas mistas, de israelitas e palestinianos, sendo que quem detém o comando são os israelitas; e a zona “C”, a maior, com mais de 60% do território, é controlada pelos israelitas. Estes continuam a construir colonatos nesta zona (a que tens mais recursos naturais, incluindo a preciosa água) e a empurrar os palestinianos para as zonas “A” e “B”. Isto torna a vida dos palestinianos muito difícil. A água é controlada e fornecida pelos israelitas. Os palestinianos não podem construir as suas casas na zona “C” sem autorização dos israelitas e estes pura e simplesmente recusam-se a emitir as respetivas licenças. Os controlos militares atrasam, encarecem e tornam muitas vezes inviável o comércio com o exterior. O desemprego é alto e muita gente vive na pobreza. A situação em Gaza é ainda pior. Não fora a ajuda internacional – nomeadamente da União Europeia – e os palestinianos não resistiriam.

[41] A expressão foi usada, entre muitos outros, pelo rei Abdullah II da Jordânia (bisneto de Abdullah, o Apressado), em 2010: “Jerusalém é um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento. Todos os caminhos desta zona do mundo, todos os conflitos,vão dar a Jerusalém”.

[42]  Jerusalém – a Biografia, Simon Sebag Montefiore, Aletheia Editores, Lisboa, 2015, p. 565.

[43] Ob. cit., p. 566.

[44] Saul Bellow, Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal, Edições Tinta-da-China, Lisboa, 2016, p. 151.

[45] Saul Bellow, ob. cit., p. 147.