Viena, Budapeste e Bratislava

A construção do parlamento húngaro durou de 1885 a 1904. Aqui foram usados 40 milhões de tijolos, 500 mil pedras decorativas e 40 quilos de ouro. 242 esculturas decoram o exterior e o interior deste edifício neogótico. É o maior edifício da Hungria e o terceiro maior parlamento do mundo.

BUDAPESTE

São três capitais muito próximas[1], ligadas pelo rio Danúbio, perfeitamente visitáveis num fim de semana prolongado. Os voos diretos low cost entre Faro e Budapeste, operados pela companhia húngara Wizz, tornaram esta escapadela ao coração da Europa ainda mais irresístivel. A nossa visita começou por uma cidade monumental. Em Budapeste, somos brindados com magníficas obras de arte por todo o lado, sejam edifícios, pontes ou esculturas. A parte mais interessante da cidade é a que fica junto ao rio, na margem oeste (Buda) ou leste (Peste), onde dois edifícios, respetivamente, se destacam: o Palácio Real e o Parlamento húngaro. O Palácio alberga o Museu de História de Budapeste, a Biblioteca Nacional Széchenyi e a Galeria Nacional Húngara. Foi nesta última que tivemos o ensejo de visitar uma exposição sobre Frida Kahlo e a sua obra, patente ao público aquando da nossa visita. Seguindo a história deste imponente palácio podemos acompanhar grande parte da atribulada história de Budapeste e da própria Hungria, um país no centro da Europa, ocupado por mongóis, turcos, austríacos, russos, alemães e soviéticos. O Castelo de Buda, como agora é mais conhecido o palácio, foi inicialmente mandado construir por Sigismundo de Luxemburgo (1368-1437), rei da Hungria e das Terras Checas, à época, um dos mais poderosos soberanos europeus. Mais tarde, sob o reinado de Matias I (1458-1490), foi ampliado dentro do estilo renascentista, mas a ocupação turca, de 150 anos, e a consequente reconquista de Buda (com a ajuda dos Habsburgos), em 1686, provocaram a sua destruição.

Pátio dos Leões, no Palácio Real.

Seguiu-se um período que ficou conhecido como a “Era das Reformas”, quando muitas edificações emblemáticas, como a Academia Húngara das Ciências, o Museu Nacional e a Ponte Széchenyi (“Ponte das Correntes”), foram erguidas. Porém, um conflito armado traria de novo a destruição; desta feita, a revolução contra os Habsburgos, de 1848. Só a partir de 1867, após um acordo com o Império dos Habsburgos, Buda e Peste conheceram um novo impulso, desta vez o maior de sempre. Na viragem para o século XX uniram-se para formar Budapeste, esta lindíssima cidade que conhecemos. Data desta época a construção do Parlamento, o maior edifício da Hungria, cujo projeto foi desenhado por Imre Steindl. Mas, uma e outra vez, o processo de desenvolvimento seria interrompido, primeiro pela Grande Guerra (1914-1918) e, um quarto de século mais tarde, pela II Guerra Mundial, quando os soviéticos bombardearam e destruíram mais uma vez o Palácio Real, onde os alemães se aquartelavam. Nessa altura, já Budapeste era conhecida pelos seus belos cafés e esplanadas, pelos banhos termais, pela vida noturna e oferta cultural e, claro, pelas extraordinárias obras de arquitetura e escultura espalhadas por toda a cidade, tal como hoje.

Exposição de e sobre Frida Khalo, na Galeria Nacional Húngara, em Budapeste.

Quem visitar Budapeste poderá encontrar, antes ou já no decurso da viagem, roteiros que invariavelmente incluirão, além dos referidos Palácio Real e Parlamento, as pontes sobre o Danúbio (Ponte das Correntes, Ponte Isabel, Ponte da Liberdade e Ponte Margarida), a Colina Gellért (onde fica a Estátua da Liberdade), o Palácio Sándor, a Catedral de São Matias, o Bastião dos Pescadores, os Banhos (Király, Rác, Gellért, Rudas, Veli Bej), o Museu Etnográfico, a Basílica de Santo Estevão, o Grande Mercado de Budapeste, o Bairro Judeu e a sua monumental sinagoga , a Baixa de Peste, o Jardim Botânico, o Palácio das Artes, a Praça dos Heróis, o Passeio do Danúbio (ao longo do qual podemos encontrar belíssimas esculturas), etc., etc., etc.

Em Budapeste há muito que admirar. E quando cai a noite, a cidade não perde beleza, antes ganha cambiantes de oiro que refletem dos edifícios sabiamente iluminados. É quando um passeio de barco ao longo do Danúbio nos parece mais apropriado. Para acabar a noite, nada melhor que um drink no Szimpla Kert, um edifício perto do bairro judeu[2] que alberga bares, restaurantes, galerias, discoteca, lojas, e onde atuam músicos diversos ou DJs, todos os dias.

No interior do Szimpla Kert.

A decoração, mais ou menos caótica, as paredes interiores cobertas por uma panóplia incrível de objetos, constituem uma atração suplementar. O próprio edifício apresenta uma fachada exterior ornamentada com mísulas entre os pisos, balaustradas sob as altas janelas e a varanda central, e pequenos frontões sobre as mesmas: além de robusto e clássico, é mesmo muito bonito. A rua onde fica o Szimpla Kert tem vários restaurantes e bares e toda esta zona tem grande animação noturna. Uma visita a este espaço é algo que o recém-chegado a Budapeste não pode perder.

VIENA

Por seu lado, Viena é igualmente uma cidade monumental. Partindo de Budapeste de comboio, atingimo-la em cerca de duas horas e meia. A primeira coisa que convém fazer ao chegar à cidade é comprar um título de transporte que permite circular durante 24 horas em qualquer transporte público de Viena, pela módica quantia de oito euros. Recomenda-se vivamente a utilização do metropolitano, que é rápido, abrangente e de alta frequência.

Belvedere superior, Viena.

A nossa primeira paragem foi no Palácio Belvedere[3], um conjunto formado por dois edifícios principais e um parque histórico, desenhado no começo do século XVIII pelo prestigiado arquiteto Johann Lucas von Hildebrandt e considerado um dos conjuntos barrocos mais belos do mundo. Era residência de Verão do general austríaco Príncipe Eugénio de Saboia e é hoje parte do Património da Humanidade da UNESCO. A nossa visita incidiu sobre o Belvedere Superior, originalmente espaço de representação (o príncipe vivia no Belvedere inferior), agora espaço que alberga algumas das mais importantes pinturas do mundo, integradas numa coleção que inclui vários milhares de peças.

Desde logo, os quadros de Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, mas igualmente obras de outros autores austríacos, desde a Idade Média até aos nossos dias. E obras de Rodin, Monet, Manet, Van Gogh, Renoir, entre muitas outras. Uma manhã (ou tarde) inteira não é muito tempo para apreciar as belezas deste espaço que, nem seria necessário dizê-lo, são imperdíveis.

O famoso “Beijo”, de Klimt, a maior atração do Belvedere superior.

Depois de Belvedere[4], ocupámos o nosso tempo à procura de locais relacionados com a vida de Karl Popper, nascido nesta cidade de Viena em 1902, uma tarefa que não se afigurou muito fácil. Constatámos, com alguma surpresa, que a maioria dos vienenses com quem falámos não conhecia Karl Popper[5]. Mesmo assim, conseguimos estar na rua onde ficava a casa em que viveu grande parte da infância, no liceu que tem o seu nome e na universidade de Viena, que frequentou. Por vezes, é muito interessante conhecer uma cidade através dos locais onde uma pessoa que admiramos viveu… A Universidade de Viena é particularmente interessante, com o seu enorme átrio sob cujas arcadas figuram bustos dos proeminentes alunos que ali estudaram (e são imensos!), Popper incluído.

Da Universidade rumámos ao coração de Viena, à praça onde se ergue a magnífica catedral de Santo Estevão. Nesta praça e nas suas imediações encontram-se muitos dos charmosos cafés de Viena, onde o viajante pode retomar o fôlego para nova caminhada.

Busto de Popper na Universidade de Viena.

Assim, da Stephans-Platz seguimos a pé até ao imponente palácio Hofburg, centro do poder dos Habsburgos, soberanos do Ducado da Áustria desde o século XII até o século XX[6]. Tudo aqui é grandioso. O palácio em si mesmo, com as suas mais de 2.600 salas, a Heldenplatz, para onde fica virado, os grandes jardins, a estatuária, o trabalho arquitetónico. O Palácio Hofburg, residência oficial do Presidente da Áustria, foi, como já dissemos, ocupado durante séculos pelos Habsburgos, era a sua residência de Inverno. Quisemos conhecer também a residência de Verão e, para isso, tomámos o metro e rumámos ao Palácio de Schönbrunn. Como seria de esperar, deparámo-nos com mais um conjunto (edifícios, estátuas, jardins) imponente. O Palácio de Schönbrunn, em estilo barroco, é realmente muito belo. Com esta visita a Schönbrunn terminou também a nossa visita a Viena. O comboio que nos transportaria a Budapeste já vinha a caminho. Quem disse que num único dia não se pode ver muito de uma cidade?

Palácio de Schönbrunn. Aqui se realizam, ao ar livre, magníficos concertos de Verão.

BRATISLAVA

Da nossa “sede”[7], em Budapeste, demos um salto de 200 quilómetros, desta feita de autocarro, a outra capital europeia, Bratislava. Esta cidade não tem a monumentalidade de Budapeste ou de Viena. Isso torna-se óbvio quase de imediato. Tal não surpreende, pois a Eslováquia, um pequeno país que na sua forma atual tem apenas 27 anos, foi sempre um território integrado num país ou império maiores. Fez parte do Reino da Hungria e depois, quando este integrou o Império Austro-Húngaro, passou a ser parte também desse império. Após a dissolução deste, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, checos e eslovacos criaram a Checoslováquia, que duraria até 1993, quando os dois países se tornaram independentes, após o processo da “Revolução de Veludo”. Pelo meio, entre 1939 e 1945 (Segunda Guerra Mundial), ainda existiu uma república eslovaca supostamente independente, mas na realidade um estado fantoche controlado pelos nazis. De ascendência eslava, os eslovacos são um povo resiliente que tem desenvolvido enormemente o país desde a independência e, sobretudo, desde a sua integração na União Europeia e, posteriormente, na Zona Euro. É um dos países mais igualitários do mundo em termos salariais, apenas superado pelas Ilhas Faroé[8].

Praça do Município Velho, no centro histórico de Bratislava.

Percorremos Bratislava a pé. Do terminal rodoviário ao centro, e volta. A cidade é muito mais pequena, muito mais tranquila e muito menos turística que Viena ou Budapeste. Sendo uma capital europeia há menos de trinta anos, não pode ter a grandeza de outras que o são há séculos. Mas, mesmo assim, Bratislava tem os seus encantos. Na zona histórica sobressai a Praça do Município Velho, com os seus cafés e esplanadas. Não muito longe (tudo em Bratislava é perto), no topo de uma colina sobranceira ao Danúbio, destaca-se o Castelo de Bratislava, residência do presidente da República, cuja construção se iniciou ainda no século X. Daqui, a 85 metros de altura, pudemos desfrutar de uma bela vista sobre o centro da cidade e o Danúbio, lá em baixo. Na volta, fomos observando as esculturas que ornamentam muitas das ruas do centro histórico e são uma atração da cidade. Finalmente, entrámos no Palácio Pálffy, onde se encontra a Passagem de Matej Kren, que suscita a ilusão de um espaço infinito de livros. Um espaço infinito de livros na Terra e um espaço infinito de estrelas no Céu. Assim terminou a nossa viagem.

Passagem Matej Kren, em Bratislava.

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Notas:

[1] Viena e Bratislava são as duas capitais mais próximas do mundo, separadas por apenas 65 quilómetros de estrada.

[2] A grande Sinagoga Dohani, a segunda maior do mundo, fica no bairro judeu de Budapeste.

[3] Uma entrada no Belvedere superior custa €22,00.

[4] O palácio foi vendido pelos herdeiros do príncipe Eugénio a Maria Teresa da Áustria, que o batizou de Belvedere (“bela vista”, em italiano).

[5] Outros vienenses ilustres, cujas ideias Popper combateu, são mais populares em Viena, na Áustria e, provavelmente, no mundo. Referimo-nos sobretudo a Freud e a Wittgenstein. O primeiro tem mesmo um museu com o seu nome em Viena.

[6] A Primeira Guerra Mundial, grande destruidora de impérios, não poupou o Império Austro-Húngaro.

[7] Ficámos quatro noites hospedados no Capital Guesthouse Budapest, por €137,00. A localização é boa, muito perto da estação ferroviária e relativamente perto do Danúbio e do centro histórico, e a relação qualidade-preço é aceitável.

[8] Conferir o coeficiente de Gini ou ver nosso artigo aqui: https://ilovealfama.com/2020/04/24/paises-modelo/

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