Viena, Budapeste e Bratislava

A construção do parlamento húngaro durou de 1885 a 1904. Aqui foram usados 40 milhões de tijolos, 500 mil pedras decorativas e 40 quilos de ouro. 242 esculturas decoram o exterior e o interior deste edifício neogótico. É o maior edifício da Hungria e o terceiro maior parlamento do mundo.

BUDAPESTE

São três capitais muito próximas[1], ligadas pelo rio Danúbio, perfeitamente visitáveis num fim de semana prolongado. Os voos diretos low cost entre Faro e Budapeste, operados pela companhia húngara Wizz, tornaram esta escapadela ao coração da Europa ainda mais irresistível. A nossa visita começou por uma cidade monumental. Em Budapeste, somos brindados com magníficas obras de arte por todo o lado, sejam edifícios, pontes ou esculturas. A parte mais interessante da cidade é a que fica junto ao rio, na margem oeste (Buda) ou leste (Peste), onde dois edifícios, respetivamente, se destacam: o Palácio Real e o Parlamento húngaro. O Palácio alberga o Museu de História de Budapeste, a Biblioteca Nacional Széchenyi e a Galeria Nacional Húngara. Foi nesta última que tivemos o ensejo de visitar uma exposição sobre Frida Kahlo e a sua obra, patente ao público aquando da nossa visita. Seguindo a história deste imponente palácio podemos acompanhar grande parte da atribulada história de Budapeste e da própria Hungria, um país no centro da Europa, ocupado por mongóis, turcos, austríacos, russos, alemães e soviéticos. O Castelo de Buda, como agora é mais conhecido o palácio, foi inicialmente mandado construir por Sigismundo de Luxemburgo (1368-1437), rei da Hungria e das Terras Checas, à época, um dos mais poderosos soberanos europeus. Mais tarde, sob o reinado de Matias I (1458-1490), foi ampliado dentro do estilo renascentista, mas a ocupação turca, de 150 anos, e a consequente reconquista de Buda (com a ajuda dos Habsburgos), em 1686, provocaram a sua destruição.

Pátio dos Leões, no Palácio Real.

Seguiu-se um período que ficou conhecido como a “Era das Reformas”, quando muitas edificações emblemáticas, como a Academia Húngara das Ciências, o Museu Nacional e a Ponte Széchenyi (“Ponte das Correntes”), foram erguidas. Porém, um conflito armado traria de novo a destruição; desta feita, a revolução contra os Habsburgos, de 1848. Só a partir de 1867, após um acordo com o Império dos Habsburgos, Buda e Peste conheceram um novo impulso, desta vez o maior de sempre. Na viragem para o século XX uniram-se para formar Budapeste, esta lindíssima cidade que conhecemos. Data desta época a construção do Parlamento, o maior edifício da Hungria, cujo projeto foi desenhado por Imre Steindl. Mas, uma e outra vez, o processo de desenvolvimento seria interrompido, primeiro pela Grande Guerra (1914-1918) e, um quarto de século mais tarde, pela II Guerra Mundial, quando os soviéticos bombardearam e destruíram mais uma vez o Palácio Real, onde os alemães se aquartelavam. Nessa altura, já Budapeste era conhecida pelos seus belos cafés e esplanadas, pelos banhos termais, pela vida noturna e oferta cultural e, claro, pelas extraordinárias obras de arquitetura e escultura espalhadas por toda a cidade, tal como hoje.

Exposição de e sobre Frida Khalo, na Galeria Nacional Húngara, em Budapeste.

Quem visitar Budapeste poderá encontrar, antes ou já no decurso da viagem, roteiros que invariavelmente incluirão, além dos referidos Palácio Real e Parlamento, as pontes sobre o Danúbio (Ponte das Correntes, Ponte Isabel, Ponte da Liberdade e Ponte Margarida), a Colina Gellért (onde fica a Estátua da Liberdade), o Palácio Sándor, a Catedral de São Matias, o Bastião dos Pescadores, os Banhos (Király, Rác, Gellért, Rudas, Veli Bej), o Museu Etnográfico, a Basílica de Santo Estevão, o Grande Mercado de Budapeste, o Bairro Judeu e a sua monumental sinagoga , a Baixa de Peste, o Jardim Botânico, o Palácio das Artes, a Praça dos Heróis, o Passeio do Danúbio (ao longo do qual podemos encontrar belíssimas esculturas), etc., etc., etc.

Em Budapeste há muito que admirar. E quando cai a noite, a cidade não perde beleza, antes ganha cambiantes de oiro que refletem dos edifícios sabiamente iluminados. É quando um passeio de barco ao longo do Danúbio nos parece mais apropriado. Para acabar a noite, nada melhor que um drink no Szimpla Kert, um edifício perto do bairro judeu[2] que alberga bares, restaurantes, galerias, discoteca, lojas, e onde atuam músicos diversos ou DJs, todos os dias.

No interior do Szimpla Kert.

A decoração, mais ou menos caótica, as paredes interiores cobertas por uma panóplia incrível de objetos, constituem uma atração suplementar. O próprio edifício apresenta uma fachada exterior ornamentada com mísulas entre os pisos, balaustradas sob as altas janelas e a varanda central, e pequenos frontões sobre as mesmas: além de robusto e clássico, é mesmo muito bonito. A rua onde fica o Szimpla Kert tem vários restaurantes e bares e toda esta zona tem grande animação noturna. Uma visita a este espaço é algo que o recém-chegado a Budapeste não pode perder.

VIENA

Por seu lado, Viena é igualmente uma cidade monumental. Partindo de Budapeste de comboio, atingimo-la em cerca de duas horas e meia. A primeira coisa que convém fazer ao chegar à cidade é comprar um título de transporte que permite circular durante 24 horas em qualquer transporte público de Viena, pela módica quantia de oito euros. Recomenda-se vivamente a utilização do metropolitano, que é rápido, abrangente e de alta frequência.

Belvedere superior, Viena.

A nossa primeira paragem foi no Palácio Belvedere[3], um conjunto formado por dois edifícios principais e um parque histórico, desenhado no começo do século XVIII pelo prestigiado arquiteto Johann Lucas von Hildebrandt e considerado um dos conjuntos barrocos mais belos do mundo. Era residência de Verão do general austríaco Príncipe Eugénio de Saboia e é hoje parte do Património da Humanidade da UNESCO. A nossa visita incidiu sobre o Belvedere Superior, originalmente espaço de representação (o príncipe vivia no Belvedere inferior), agora espaço que alberga algumas das mais importantes pinturas do mundo, integradas numa coleção que inclui vários milhares de peças.

Desde logo, os quadros de Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, mas igualmente obras de outros autores austríacos, desde a Idade Média até aos nossos dias. E obras de Rodin, Monet, Manet, Van Gogh, Renoir, entre muitas outras. Uma manhã (ou tarde) inteira não é muito tempo para apreciar as belezas deste espaço que, nem seria necessário dizê-lo, são imperdíveis.

O famoso “Beijo”, de Klimt, a maior atração do Belvedere Superior.

Depois de Belvedere[4], ocupámos o nosso tempo à procura de locais relacionados com a vida de Karl Popper, nascido nesta cidade de Viena em 1902, uma tarefa que não se afigurou muito fácil. Constatámos, com alguma surpresa, que a maioria dos vienenses com quem falámos não conhecia Karl Popper[5]. Mesmo assim, conseguimos estar na rua onde ficava a casa em que viveu grande parte da infância, no liceu que tem o seu nome e na universidade de Viena, que frequentou. Por vezes, é muito interessante conhecer uma cidade através dos locais onde uma pessoa que admiramos viveu… A Universidade de Viena é particularmente interessante, com o seu enorme átrio sob cujas arcadas figuram bustos dos proeminentes alunos que ali estudaram (e são imensos!), Popper incluído.

Da Universidade rumámos ao coração de Viena, à praça onde se ergue a magnífica catedral de Santo Estevão. Nesta praça e nas suas imediações encontram-se muitos dos charmosos cafés de Viena, onde o viajante pode retomar o fôlego para nova caminhada.

Busto de Popper na Universidade de Viena.

Assim, da Stephans-Platz seguimos a pé até ao imponente palácio Hofburg, centro do poder dos Habsburgos, soberanos do Ducado da Áustria desde o século XII até o século XX[6]. Tudo aqui é grandioso. O palácio em si mesmo, com as suas mais de 2.600 salas, a Heldenplatz, para onde fica virado, os grandes jardins, a estatuária, o trabalho arquitetónico. O Palácio Hofburg, residência oficial do Presidente da Áustria, foi, como já dissemos, ocupado durante séculos pelos Habsburgos, era a sua residência de Inverno. Quisemos conhecer também a residência de Verão e, para isso, tomámos o metro e rumámos ao Palácio de Schönbrunn. Como seria de esperar, deparámo-nos com mais um conjunto (edifícios, estátuas, jardins) imponente. O Palácio de Schönbrunn, em estilo barroco, é realmente muito belo. Com esta visita a Schönbrunn terminou também a nossa visita a Viena. O comboio que nos transportaria a Budapeste já vinha a caminho. Quem disse que num único dia não se pode ver muito de uma cidade?

Palácio de Schönbrunn. Aqui se realizam, ao ar livre, magníficos concertos de Verão.

BRATISLAVA

Da nossa “sede”[7], em Budapeste, demos um salto de 200 quilómetros, desta feita de autocarro, a outra capital europeia, Bratislava. Esta cidade não tem a monumentalidade de Budapeste ou de Viena. Isso torna-se óbvio quase de imediato. Tal não surpreende, pois a Eslováquia, um pequeno país que na sua forma atual tem apenas 27 anos, foi sempre um território integrado num país ou império maiores. Fez parte do Reino da Hungria e depois, quando este integrou o Império Austro-Húngaro, passou a ser parte também desse império. Após a dissolução deste, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, checos e eslovacos criaram a Checoslováquia, que duraria até 1993, quando os dois países se tornaram independentes, após o processo da “Revolução de Veludo”. Pelo meio, entre 1939 e 1945 (Segunda Guerra Mundial), ainda existiu uma república eslovaca supostamente independente, mas na realidade um estado fantoche controlado pelos nazis. De ascendência eslava, os eslovacos são um povo resiliente que tem desenvolvido enormemente o país desde a independência e, sobretudo, desde a sua integração na União Europeia e, posteriormente, na Zona Euro. É um dos países mais igualitários do mundo em termos salariais, apenas superado pelas Ilhas Faroé[8].

Praça do Município Velho, no centro histórico de Bratislava.

Percorremos Bratislava a pé. Do terminal rodoviário ao centro, e volta. A cidade é muito mais pequena, muito mais tranquila e muito menos turística que Viena ou Budapeste. Sendo uma capital europeia há menos de trinta anos, não pode ter a grandeza de outras que o são há séculos. Mas, mesmo assim, Bratislava tem os seus encantos. Na zona histórica sobressai a Praça do Município Velho, com os seus cafés e esplanadas. Não muito longe (tudo em Bratislava é perto), no topo de uma colina sobranceira ao Danúbio, destaca-se o Castelo de Bratislava, residência do presidente da República, cuja construção se iniciou ainda no século X. Daqui, a 85 metros de altura, pudemos desfrutar de uma bela vista sobre o centro da cidade e o Danúbio, lá em baixo. Na volta, fomos observando as esculturas que ornamentam muitas das ruas do centro histórico e são uma atração da cidade. Finalmente, entrámos no Palácio Pálffy, onde se encontra a Passagem de Matej Kren, que suscita a ilusão de um espaço infinito de livros. Um espaço infinito de livros na Terra e um espaço infinito de estrelas no Céu. Assim terminou a nossa viagem.

Passagem Matej Kren, em Bratislava.

******************************

Notas:

[1] Viena e Bratislava são as duas capitais mais próximas do mundo, separadas por apenas 65 quilómetros de estrada.

[2] A grande Sinagoga Dohani, a segunda maior do mundo, fica no bairro judeu de Budapeste.

[3] Uma entrada no Belvedere superior custa €22,00.

[4] O palácio foi vendido pelos herdeiros do príncipe Eugénio a Maria Teresa da Áustria, que o batizou de Belvedere (“bela vista”, em italiano).

[5] Outros vienenses ilustres, cujas ideias Popper combateu, são mais populares em Viena, na Áustria e, provavelmente, no mundo. Referimo-nos sobretudo a Freud e a Wittgenstein. O primeiro tem mesmo um museu com o seu nome em Viena.

[6] A Primeira Guerra Mundial, grande destruidora de impérios, não poupou o Império Austro-Húngaro.

[7] Ficámos quatro noites hospedados no Capital Guesthouse Budapest, por €137,00. A localização é boa, muito perto da estação ferroviária e relativamente perto do Danúbio e do centro histórico, e a relação qualidade-preço é bastante aceitável.

[8] Conferir o coeficiente de Gini ou ver nosso artigo aqui: https://ilovealfama.com/2020/04/24/paises-modelo/

******************************

A última entrevista

Popper, o filósofo que detestava modas.

No dia 29 de julho de 1994, um dia depois de completar 92 anos, Karl Popper concedeu a entrevista que se segue ao filósofo polaco Adam Chmielewski, na sua casa (de Popper), em Inglaterra1. Tanto quanto se sabe, esta foi a sua última entrevista. Karl Popper viria a falecer seis semanas depois, em 17 de setembro. Aqui fica o registo, traduzido por nós com base no documento, publicado em inglês, de Chmielewski (aqui).

******************************

O Futuro é Aberto

Uma Conversa com Sir Karl Popper

Adam Chmielewski (AC): Sir Karl, por favor aceite os meus melhores votos na passagem do seu nonagésimo segundo aniversário.

Sir Karl Popper(KP): Muito obrigado.

AC: Sir Karl, apesar da sua impressiva idade, o senhor é um filósofo muito ativo. Poderia dizer-me em que é que trabalha atualmente? Está ainda a desenvolver o seu sistema?

KP: Oh, sim. Veja bem, eu sempre trabalho em várias coisas ao mesmo tempo. A minha última publicação foi mais uma contribuição para a nova edição alemã do meu livro “Lógica da Descoberta Científica”. O meu editor alemão sempre quer que eu acrescente qualquer coisa antes que uma nova edição seja publicada, e eu normalmente uso a oportunidade para acrescentar um apêndice. Por isso, recentemente, há uns quinze dias, publiquei o meu vigésimo apêndice à décima edição alemã do livro, que de outra forma apareceria sem nenhuma revisão. O apêndice contém uma nova definição de independência probabilística. Assim, eu trabalho nessas coisas o tempo todo. Estou a trabalhar sobre os pré-socráticos, Parménides, geometria de Aristóteles, e em muitas outras coisas.

AC: Então parece continuar com os interesses expressos no seu famoso artigo “Voltar aos Pré-Socráticos” e nos dois volumes de “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”. Está também a voltar ao seu trabalho sobre Platão, a quem devotou o primeiro e controverso volume da “Sociedade Aberta”?

KP: Oh, sim! Continuo interessado em Platão. Por acaso fiquei recentemente interessado na geometria pré-euclidiana, ou seja, em geometria sem a ideia de um sistema fechado axiomático, e na geometria de Aristóteles. Estou interessado, antes de tudo, no famoso diálogo de Platão, “Ménon”, que, obviamente, não é de todo geometria axiomática. E há algo em Aristóteles que, conceptualmente, é semelhante às ideias de Platão no “Ménon”. A ideia euclidiana tem sido, claro, imensamente importante, por exemplo para os “Principia Mathematica” de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead, e por aí fora. Tudo depois de Euclides é axiomático, mas penso que a prova de Platão no “Ménon” é, por assim dizer, uma prova absoluta, não relativa a suposições… Não há suposições ali. Penso que esses tipos de provas matemáticas absolutas, sem suposições, foram fatalmente negligenciadas. Foi uma área negligenciada que é muito importante para mim.

AC: Eu recordo que na sua “Sociedade Aberta”, em notas muito ricas do livro, se referia às ideias matemáticas de Platão, particularmente em “Timeu”…

KP: Em conjunto, a filosofia grega é maravilhosa. Não gosto da ética de Platão, a sua filosofia social é, em parte, extremamente inteligente, mas a sua atitude é autoritária e ditatorial, e não humanitária. Por isso, não gosto da sua atitude moral mas admiro a sua inteligência.

AC: Alguma vez voltou a estudar Hegel, outro “inimigo da sociedade aberta”?

KP: Não! Não! Eu ainda detesto Hegel! Prefiro ler Kant. Tenho algumas primeiras edições dos trabalhos de Kant que consulto frequentemente.

AC: Sobre que aspeto da filosofia de Parménides é que trabalha atualmente?

KP: Acredito que Parménides era um materialista que acreditava que as coisas inamovíveis são reais. Agora, qual era realmente a sua atitude? A minha teoria é que ele acreditava que a vida e a luz não eram reais; mas a morte era real, bem como os objetos imóveis; o corpo morto era, para ele, parte da realidade. Mas a vida é uma ilusão, a luz é uma ilusão, o amor é uma ilusão. Ele fala destas coisas na segunda parte do seu poema, que é dedicado à vida, ao amor e à luz; é, portanto, sobre ilusões, não sobre o que é real. Quando algo é inamovível é real, quando se move não é real. É isto que eu penso ser a sua teoria. Ele aprecia a beleza, a vida, mas todas essas coisas estão indo embora ou desaparecendo. São, por isso, ilusão. É isto que eu penso ser a sua verdadeira filosofia. E penso que ninguém tenha dito isto. Penso que ele era um pensador muito original e interessante, e que era, de facto, um cientista e um astrónomo, um importante investigador em astronomia.

AC: O interesse dele pela astronomia poderia ter sido estimulado pela influência pitagórica…?

KP: Sim, provavelmente. E estava-o guiando, como aconteceu com Einstein.

AC: Pode dizer algo mais sobre isso?

KP: Sim. Einstein acreditava que o universo era determinístico. Ou seja, já existia num espaço quadrimensional, com o futuro e tudo dentro dele. Eu tentei mostrar-lhe que ele estava errado. De qualquer forma, trata-se de um universo-bloco em quatro dimensões, como em Parménides. Foi por isso que apelidei essa visão de “Parménides-Einstein”. É muito fácil a um cientista adotar esse ponto de vista porque se trata realmente de uma forma de materialismo – um universo-bloco como uma unidade tridimensional ou quadrimensional.

AC: Mas você argumentou contra este ponto de vista. Você defendeu que o universo é aberto. Que tipo de argumentos usou para convencer Einstein a abandonar essa visão?

KP: Antes de tudo, nada no mundo inteiro sugere isso. Se você vivesse na Antártida, uma tal visão talvez fosse defensável. Mas a diferença entre o nosso mundo e a Antártida mostra que essa visão é errada. A vida é incrivelmente variada e incrivelmente produtiva, está sempre a produzir coisas novas. É como a música, as artes, que são incrivelmente produtivas e criativas. Mozart, Beethoven ou, se preferir, Chopin – embora, devo confessar, eu não seja particularmente apaixonado por Chopin, também ele era criativo e trouxe algo de novo ao mundo, um novo estilo, uma nova forma de tocar. E o mundo está, da mesma forma, cheio de coisas criativas; mas a atitude determinística do universo-bloco fecha a nossa mente e não nos deixa ver um dos aspetos mais encorajadores e interessantes do mundo.

AC: Há alguns anos, em junho de 1989, assisti à sua palestra, ministrada perante os ex-alunos da London School of Economics, sobre conhecimento objetivo e epistemologia evolucionária. Fiquei com a impressão de que os seus pontos de vista sobre essas questões não mudaram desde a publicação de “Conhecimento Objetivo”.

KP: Desenvolvi-os, mas não os mudei. Nos últimos catorze anos trabalhei muito de perto com um bioquímico, Günther Wächtershäuser, sobre os problemas do gene da vida. Ele é professor de bioquímica evolucionária em Regensburg, na Alemanha.

AC: Quais são os seus novos pensamentos sobre a epistemologia evolucionária?

KP: Antes de tudo, acredito que o princípio da epistemologia não deve ser as observações que fazemos, mas a nossa aprendizagem intelectual; o tópico da epistemologia é este: mudar as nossas teorias, melhorando-as.

AC: Este ponto de vista é um elemento da sua crítica à tradição empirista. A rejeição dessa tradição tem constituído um ponto de partida da sua epistemologia e filosofia da ciência.

KP: Sim, claro. Os nossos sentidos têm uma função biológica a desempenhar e essa função biológica não serve apenas para nos fornecer sensações, mas também para nos dar um conhecimento importante para a vida. Não podíamos fazer nada apenas com sensações. O ponto decisivo não é a observação, mas as expectativas. Estas são biologicamente importantes.

AC: Algo que está dentro de nós, não fora…

KP: Se assim preferir, mas não há uma grande diferença. A expectativa é acerca do que nós cremos encontrar do lado de fora. O nosso conhecimento é para nos ajudar nas nossas ações e no nosso futuro. O nosso conhecimento é feito de expectativas e a nossa vida é baseada nelas. Você não espera que eu tire uma arma do meu bolso e dispare sobre você. A expectativa de que eu o trate pacificamente é fundamental para a nossa conversa e não se baseia na observação, já que você não olhou nos meus bolsos. Temos de nos orientar constantemente em tudo que estamos a fazer ou a não fazer e tudo isso é baseado em expectativas. Temos sempre expectativas sobre o que vai acontecer.

AC: … Que são posteriormente confirmadas ou não…

KP: Estas expectativas são também a base das nossas hipóteses e teorias. Obviamente, o nosso conhecimento é todo acerca disso. Não acerca se isto é ou não é uma laranja, por exemplo. Eu refiro-me a todas estas experiências, se o ovo está aberto por trás ou não. É perfeitamente verdade que, se eu lhe mostrar um ovo, você não vai esperar que ele esteja aberto atrás, claro, mas é o que você espera, não o que você vê. Da mesma forma, você espera que a minha cabeça não esteja aberta atrás, e por aí fora. Então, nós temos de olhar para o nosso conhecimento tendo em mente a sua função, e esta é fundamentalmente a mesma dos animais. Até as plantas esperam que coisas aconteçam, e também elas se ajustam aos eventos futuros.

AC: Neste ponto é natural que eu pergunte: quais são as fontes dessas expectativas?

KP: A fonte das nossas expectativas é em parte o nosso conhecimento inato, por assim dizer, o conhecimento que remonta ao nosso ajustamento darwiniano ao mundo. Uma criança, por exemplo, ajusta-se ao ambiente circundante através do seu conhecimento inato. Aliás, esta é a razão porque a televisão é tão perigosa, porque a televisão faz parte do ambiente da criança e ajusta-se a ela.

AC: De facto, a criança espera que o mundo seja muito parecido com a imagem que a televisão passa – e geralmente fica fortemente dececionada…

KP: Exatamente! Isso é muito perigoso. Tudo o que fazemos está relacionado com a tarefa de um organismo para se ajustar ao meio ambiente. Animais e plantas. Antecipação e expectativa são particularmente importantes para animais que se podem mover. No seu movimento eles têm de antever o que vai acontecer, como um motorista num carro. Se você conduz um carro ou uma bicicleta, você antecipa o que irá acontecer a seguir. É isso que faz a nossa consciência.

AC: Então pode dizer-se que somos apenas um conjunto de expectativas, impulsos e desejos, e que no processo de cumprimento de nossas expectativas e impulsos, nós somos transformados juntamente com essas expectativas e desejos, que são os nossos principais impulsionadores…

KP: Sim, é isso mesmo.

AC: Sir Karl, o senhor é um dos defensores mais ativos do liberalismo, um crítico severo do marxismo e de todos os tipos de historicismo, um porta-voz inflexível da democracia. O senhor dedicou grande parte da sua atividade filosófica ao combate ao comunismo e ao totalitarismo, pregando a defesa da sociedade aberta. Qual foi a sua reação à revolução democrática na Polónia e em outros países da Europa Central, que marcaram a queda do sistema comunista e abriram esses países ao mundo ocidental?

KP: Claro que gostei dessas mudanças. Mas devo dizer que não penso que o marxismo tenha sido definitivamente derrotado. Estou certo de que ele regressará uma e outras vezes. Talvez nem tanto na Polónia, mas seguramente na Rússia. Mas até talvez na Polónia, e mesmo no Ocidente. Penso que as pessoas têm tendência para serem historicistas. Veja, se você olhar para um jornal qualquer, seja em que língua for, verificará que quando alguém escreve sobre política, implicitamente acredita que o político bom, justo e sábio é aquele que antecipadamente sabe o que acontecerá a seguir, aquele que tem o dom da profecia no campo da política. Mas em minha opinião isto representa um fantástico preconceito, um tipo de loucura. Você não pode prever o futuro. O futuro não está fixado, é aberto. Tudo o que pode fazer é tentar adivinhar muito vagamente como será. Você não pode prever quando morrerei: posso morrer hoje, ou posso viver mais cinco anos – você pura e simplesmente não pode prever isso. Nenhum médico que seja realmente consciencioso pode prever o que realmente acontecerá a um paciente, exceto, talvez, em casos extremos. Se você não pode prever quando morrerei, como é possível prever seja o que for acerca de toda a sociedade? Assim, a crença de que o futuro pode ser determinado é, simultaneamente, equivocada e errada. Mesmo se o futuro fosse determinado, poderíamos não ser capazes de o prever; mas não é determinado e não podemos prevê-lo! Acreditar no contrário é ser vítima de uma superstição, uma superstição idiota que é bastante poderosa, um pouco por todo o lado. É por isso que o marxismo não desaparecerá, pois o marxismo não é apenas uma superstição deste tipo – é uma superstição “científica”. Então aparecerá de novo, uma e outra vez.

AC: Em geral, estamos testemunhando agora, apesar dos seus esforços, um forte reaparecimento do historicismo na filosofia contemporânea. Um dos muitos proeminentes pensadores dessa nova onda é Alasdair MacIntyre…

KP: Oh, sim. Eu conheci-o quando ele era muito novo e era um marxista. Fui convidado para um encontro do qual ele também participou. Parece que ele agora é um tomista…

AC: Além disso, em muitas disciplinas filosóficas pode sentir-se uma forte influência das famosas “Investigações Filosóficas” de Ludwig Wittgenstein, sobre quem você sempre foi muito crítico.

KP: Lamentavelmente, é verdade. É terrível. Eu penso que realmente a filosofia contemporânea britânica é muito má… desinteressante… maçadora… O segundo livro de Wittgenstein é extremamente maçador. O seu primeiro livro, “Tratado Lógico-Filosófico” tinha características bem diferentes. Em geral, a filosofia é dominada por diversas modas: historicismo, estruturalismo, novo historicismo, pós-estruturalismo, pós-modernismo e outras – tudo modas filosóficas. Mas a moda em ciência ou filosofia é algo terrível. Está lá, não há nada a fazer. Mas é algo que deveria ser desprezado, não seguido.

AC: Algum dos filósofos britânicos seguiu a filosofia do racionalismo crítico que o senhor iniciou aqui?

KP: Sim, o meu ex-aluno e assistente, David Miller. Ele acabou de publicar um livro sobre o assunto. Chama-se “A Defesa do Racionalismo Crítico”. Ele trouxe-me o livro ontem, como presente de aniversário.

AC: Quando prevê que a tradução alemã do seu livro “Conjeturas e Refutações” seja publicada?

KP: As minhas “Conjecturas”, apenas a primeira metade do livro, estão agora a ser lançadas em alemão. As “Refutações” sê-lo-ão mais tarde. Muitas pessoas tentaram traduzir o livro, mas eu achei todas as traduções péssimas. A tradução tem de ser feita com muita consciência. E eles não o fizeram. Agora foi o próprio editor quem traduziu e remeteu para nós. A senhora Mew fez uma primeira correção, eu fiz uma segunda, e daí resultou um livro muito bom.

AC: É nas suas “Conjeturas e Refutações” que você introduz muitos conceitos filosóficos que foram posteriormente severamente criticados por muitos filósofos da ciência, por exemplo, “verosimilhança”, “corroboração”…

KP: Oh, sim! Tudo na minha teoria da ciência foi criticado, mas todas essas críticas não eram boas. David Miller respondeu a algumas críticas no seu livro, embora eu tenha apenas olhado de relance, porque ele mo deu apenas ontem; e eu também tentei responder-lhes no meu livro “Em Busca de um Mundo Melhor”.

AC: No prefácio que escreveu especialmente para a edição polaca de “Conhecimento Objetivo”, você fez uma menção calorosa a Alfred Tarski. Muitos leitores polacos estão interessados na sua relação pessoal com Tarski, a quem este seu livro é dedicado, bem como com muitos outros representantes da escola de lógica e filosofia de Lvov-Warsaw.

KP: Encontrei-me com Tarski pela primeira vez em Praga há sessenta anos, em agosto de 1934. Foi aí que conheci também Janina [Hossiason-Lindenbaum]. Participei então, pela primeira vez, no Congresso Internacional de Filosofia. O congresso não foi muito interessante, mas foi precedido por uma conferência preliminar, organizada por Otto Neurath, em nome do Círculo de Viena. Depois disso Tarski transferiu-se de Praga para Viena, onde ficou um ano e onde ficámos amigos. Do ponto de vista filosófico, a minha amizade com Tarski foi muito importante para mim. Graças a Tarski compreendi o poder da noção de verdade absoluta e objetiva, e como ela pode ser defendida. Não sei como é hoje, mas naquele tempo as pessoas da Polónia eram mais sérias que as outras. Não quero dizer que não tivessem sentido de humor, não é isso, mas que elas estavam mais seriamente empenhadas em pensar do que pessoas da Áustria, da Alemanha, da Inglaterra, ou de qualquer outro lado. Eram pessoas muito, muito boas e sérias.

AC: Conheceu outro eminente lógico da escola de Lvov-Warsaw, Jan Lukasiewicz?

KP: Sim, era um homem simpático. Gostei muito dele. Conhecemo-nos nos exames de doutoramento de outro lógico polaco, Czeslaw Lejewski. Eu era o supervisor da tese e Lukasiewicz foi convidado para examinador externo.

AC: Como você provavelmente sabe, ele foi ajudado por Heinrich Scholz a fugir da Polónia ocupada pelos nazis e foi-lhe dado, por recomendação do primeiro-ministro da Irlanda, De Valera, ele próprio um matemático, o cargo de professor em Dublin.

KP: Eu conheci Heinrich Scholz. Encontrei-me com ele no Congresso de Paris em 1935, que foi organizado por Otto Neurath. Estou feliz por ele ter ajudado Lukasiewicz, ele não me mencionou isso. Schödinger também esteve na Irlanda e também foi levado por De Valera. O meu professor de física teórica, Hans Türing, quando soube que eu ia a Inglaterra, disse-me para eu visitar Schödinger em Oxford. Isto foi em 1935. Recentemente, fiquei abalado com a morte do meu amigo Jerzy Giedymin, eminente filósofo da ciência polaco, que passou muitos anos em Inglaterra. Não há muito tempo que ele foi visitar a Polónia e aí morreu.

AC: Muitos estudiosos da Polónia e de outros países da Europa Oriental – eu incluído – devem muito a George Soros que fundou uma série de instituições que permitem a troca de ideias, e o contacto entre elas e pessoas no Ocidente. Uma das fundações de Soros tem o nome de “Open Society Foundation,” que é uma alusão ao seu livro “A Sociedade Aberta”. Como vocês se encontraram?

KP: Ele era um aluno meu, há muitos anos. Mas mantivemos sempre contacto. Encontrei-o recentemente durante a minha visita a Praga. Ele também me visitou duas ou três vezes aqui. É sempre um pouco difícil para nós; quer dizer, eu não quero continuar com a relação professor-aluno. Estou muito contente por você ter sido ajudado por ele. Soros ajuda muita gente. Por exemplo, ele forneceu água a Sarajevo quando a cidade estava sitiada…

AC: Um dos seus amigos mais chegados era o laureado com o Prémio Nobel, Friedrich Hayek, que escreveu bastante sobre a teoria do liberalismo e a metodologia das ciências sociais.

KP: Sim, conheci-o por muitos anos. Em 1944, quando eu ainda estava na Nova Zelândia, ele remeteu-me um telegrama oferecendo-me uma cadeira de leitor na London School of Economics. Aceitei o convite e vim para Londres. Deixei a Nova Zelândia mesmo antes de terminar a guerra com o Japão, mas depois da guerra na Europa. O convite chegou enquanto a guerra na Europa ainda decorria. Ocupei o cargo em 1945, e em 1949 fui nomeado Professor de Lógica e Método Científico, também na LSE. Friedrich Hayek era três ou quatro anos mais velho que eu. Fomos muito próximos.

AC: Ambos eram fortes críticos dos regimes totalitários. Friedrich von Hayek era conhecido nos antigos países comunistas como o autor de “O Caminho para a Servidão”. Você é mais conhecido pela “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”. Ambos defendiam o liberalismo que, a meu ver, apresentava traços conservadores evidentes. Por exemplo, você, no livro que já mencionei, “Conjeturas e Refutações”, disse que o mundo das democracias liberais do Ocidente, mesmo que não seja o melhor dos mundos possíveis, é certamente o melhor de todos os mundos que existem. Esteve alguma vez tentado a mudar essa visão?

KP: Sim. Sim, mas apenas tentado.

AC: Não mudou então de ponto de vista sobre este assunto?

KP: Não. Quando alguém pretende ser crítico tenta mudar de ideias, pensa nas matérias vezes sem conta. Mas não mudei de opinião.

AC: Mas como você bem sabe, as nações dos países da Europa Central, que passam por um processo de transformação muito doloroso, expressaram repetidamente o seu desapontamento com a política de liberalização económica ali imposta, e nas eleições realizadas recentemente nos países da Europa Central, questionaram inequivocamente essa política. Temos de enfatizar que eles tinham todas as razões para o seu ceticismo; os liberais recém-nascidos na Europa Central deram o seu melhor para merecerem esta resposta. O princípio do mercado livre tornou-se uma receita universal e acrítica para todos os problemas em todas as esferas da vida social, uma panaceia. Atualmente, muitos resultados indesejáveis das tentativas iniciais de reforma são agravados pela surpreendente incompetência dos políticos liberais. A sua corrupção já se tornou lendária. Embora graves limitações do princípio do livre mercado se tenham tornado evidentes, os seus defensores liberais recusam-se a enfrentar os factos – tal como, não há muito tempo, os comunistas fizeram.

KP: Bem, eu ainda acredito que de certa forma é preciso termos um mercado livre, mas também acredito que endeusar o que está fora do princípio do livre mercado é um disparate. Se nós não tivermos um mercado livre, então é bastante óbvio que as coisas que são produzidas não são realmente produzidas para o consumidor. O consumidor pode pegar ou largar. As suas necessidades não são tidas em conta no processo de produção. Mas tudo isso não tem uma importância fundamental. Humanitarismo, sim, tem importância fundamental. Tradicionalmente, uma das principais tarefas da economia era pensar o problema do pleno emprego. Desde aproximadamente 1965, os economistas desistiram disso; acho isso muito errado. Tal não pode ser um problema insolúvel! A nossa primeira tarefa é a paz, a segunda é conseguir que ninguém tenha fome, e a terceira é tentar o pleno emprego. A quarta tarefa é, claro, a educação.

AC: Eu pensei que você diria isso. Acontece porém que no mundo contemporâneo – mesmo na melhor parte dele – nenhuma dessas tarefas é fácil de realizar. Que tipos de problemas vê como obstáculos à concretização da tarefa da educação?

KP: Presentemente, o que mais faz perigar os esforços na educação é a televisão. A educação simplesmente não consegue prosseguir se deixarmos a televisão fazer o que quiser. É impossível que a educação funcione em confronto com a televisão, a menos que esta reconheça que tem também uma tarefa educacional que ultrapassa o mero entretenimento. Caso contrário, não podemos ter educação. Do ponto de vista democrático, a televisão deve ser controlada, pela simples razão de que o seu potencial poder político é quase ilimitado. Se você for dono da televisão, pode fazer aquilo que quiser. E um tal poder tem de ser controlado. A minha proposta é olhar para o problema do controlo televisivo à semelhança do controlo exercido sobre o pessoal médico. Os médicos também precisam de ser controlados, e eles fazem isso, em grande parte, por si mesmos. Por exemplo, têm de ter uma certa educação. O mesmo se aplica ao sistema de controlo dos advogados, que têm a sua própria organização que os controla. Graças a este sistema de controlo, os advogados não roubam o dinheiro dos seus clientes e os médicos não matam os seus pacientes. É preciso integrar toda a gente que trabalha para a televisão num qualquer tipo de organização semelhante. Essas pessoas teriam de se tornar membros de tal organização com base em alguma educação, depois de submetidos a exames apropriados para avaliar a sua consciência das tarefas educacionais e do seu grau de responsabilidade. Teriam de aprender que a sua influência é muito grande e a sua responsabilidade é igualmente grande. É responsabilidade pela nossa civilização. O seu primeiro objetivo seria a luta contra a violência. E, de acordo com estes princípios, se alguém fosse considerado irresponsável, a sua licença poderia ser-lhe retirada. Sem este sistema de regulação estamos a entrar no caos, violência e crime. A crescente onda de crimes é largamente induzida pela televisão.

AC: Como entende o papel das igrejas nas sociedades contemporâneas?

KP: Essa é uma pergunta muito importante. As igrejas fizeram demasiada política e muito pouco no apoio a pessoas que necessitam de ajuda espiritual. A Polónia, claro, é quase completamente católica. Eu penso que a Igreja Católica cometeu muitos erros… muitos erros sérios… O primeiro grande erro foi cometido em 1890 quando o papa se tornou infalível. Foi um desenvolvimento muito tardio – desnecessário, contra a tradição, a história e o senso comum. Então, claro, temos a sua atitude em relação ao controlo familiar, ao planeamento familiar, e por aí fora. A posição da Igreja Católica sobre estes assuntos é muito perigosa e irresponsável. Tomemos como exemplo a Igreja de Inglaterra. Está quase completamente envolvida na política, uma política muito imatura. Tradicionalmente, a igreja, incluindo a Igreja de Inglaterra, tem sido um veículo de educação, de literatura, de história, de boas tradições; mas agora, é incrível como as pessoas da Igreja não têm educação; essas pessoas são terríveis, não sabem nada acerca da sua própria história, da sua própria tradição. As melhores tradições religiosas estão na América, embora até na América algumas igrejas e instituições religiosas possam ser assustadoras…

AC: Recordemos aqui acontecimentos muito recentes em Waco, Texas, onde muitas pessoas, seguidoras de David Koresh, morreram numa terrível explosão…

KP: Sim. E na Alemanha a Igreja, durante as primeira e segunda grandes guerras, foi absolutamente terrível. O líder da igreja protestante alemã disse coisas como ” a guerra é a guerra de Deus”, e todos afirmaram que tinham conhecimento íntimo dos planos políticos de Deus. Foi terrível… E tudo isto teve as suas consequências. As igrejas realmente falharam. É muito triste…

AC: Como primeira prioridade, você mencionou a paz. Mas agora, justamente quando uma parte do mundo se libertou pacificamente da opressão totalitária, testemunhamos terríveis conflitos no Sul da Europa…

KP: … e em África, e em breve teremos noutros lugares. Os nossos políticos não levam suficientemente a sério a sua tarefa. Parecem não ver quão importante ela é. Os políticos falharam. Eu penso que politicamente perdemos uma grande oportunidade. Os países ocidentais deveriam ter feito uma oferta aos russos. Deveríamos ter-lhes dito: “Olhem para a nossa parte do mundo. Vivemos todos em paz, estamos em paz com o Japão, com a China, com todos. Vocês não querem juntar-se-nos?” Realmente deveríamos ter feito tal oferta no tempo certo, por volta de 1988. Mas isso não foi feito. E desde o colapso da União Soviética que somos nós quem está preocupado… Mas os filósofos também falharam, também mostraram a sua irresponsabilidade. Em geral, as coisas não parecem muito boas nos nossos dias.

AC: Você não parece realmente muito otimista. Isto quer dizer que abandonou a sua atitude ativista e otimista? É ainda um otimista, como afirmou tantas vezes nos seus livros?

KP: Sim, apesar de tudo isto mantenho-me um otimista em relação ao mundo. É nosso dever sermos otimistas. Apenas deste ponto de vista podemos ser ativos e fazer o que pudermos. Se formos pessimistas, já desistimos. Precisamos manter-nos otimistas, temos de ver como é maravilhoso o mundo, e tentarmos fazer o que pudermos para melhorá-lo.

******************************

Notas:

1 Ao que parece, Karl Popper gostava de receber os amigos na sua casa em Kenley, no sul de Londres, a sua última morada em Inglaterra. João Carlos Espada foi um dos que o visitaram por diversas vezes, entre muitos outros. Os relatos sobre esses encontros, para quem admira Popper, são documentos preciosos. Um registo de um desses encontros, desta feita por ocasião do nonagésimo aniversário de Popper, foi publicado em 1992 no magazine “Intellectus”, do Instituto de Ciência Económica de Hong Kong. Esse artigo é escrito por Eugene Yue-Ching Ho, tal como nós, um confesso admirador de Karl Popper. Esse registo pode ser lido em: http://www.tkpw.net/hk-ies/n23a/?fbclid=IwAR2Lc6lnOK-nNDzR5Gk2SOfyR3BCAoJRnvk_9-974LngVeEqHCbU9DrlH2M.

******************************

Foto retirada de: http://www.justificando.com/2017/08/18/paradoxos-da-democracia-popper-e-critica-liberal-ao-liberalismo-ingenuo/.

******************************


Popper

Há 118 anos, nascia, em Viena, Karl Raimund Popper. Filósofo, dedicou a sua vida à pesquisa sobre várias matérias, sobretudo ciência, por acreditar que o método científico é o que mais nos pode aproximar da verdade. Saber o que é a ciência foi, portanto, um dos objetivos mais importantes da sua epistemologia. Tão importante que ele próprio desenvolveu critérios de demarcação para afastar a pseudociência da ciência verdadeira, dando como exemplos de não-ciência o marxismo, a psicanálise e o adlerianismo, correntes muito em voga na sua época. Um dos critérios de demarcação científica é a testabilidade. Ao não serem testáveis, marxismo, psicanálise e adlerianismo não podem ser científicos. Claro que, ainda hoje, os defensores dessas doutrinas usam todos os subterfúgios possíveis para as justificarem, mas essa é precisamente a atitude anti-científica, pois o que o cientista deve fazer é testar por todos os meios as suas teorias e tentar falsificá-las, por forma a aquilatar da sua validade. Foi o que sempre fez Einstein, e é por isso que Popper tanto o admirava, apesar de nem sempre concordar com ele. No fundo, o que Popper mais gostava em Einstein era a sua honestidade intelectual.

No campo da sociologia, a filosofia de Popper é a uma tentativa de evitar a guerra entre as nações e a violência entre os homens. Popper abominava a violência e achava que esta, embora impossível de erradicar, podia ser largamente evitada. Isso só é possível nas sociedades livres e democráticas, aquelas em que os governantes são depostos sem derramamento de sangue. Além disso, as sociedades democráticas são as únicas em que o poder está disperso (quanto mais melhor) e não apenas nas mãos de um único homem, ou de um pequeno grupo ou da direção de um qualquer partido. Nas sociedades liberais o poder deve ser exercido e controlado, tanto quanto possível, por instituições e não por pessoas. Por fim, as sociedades livres e democráticas são igualmente as únicas passíveis de serem melhoradas e aquelas em que cada um de nós, não apenas quem detém o poder, pode efetivamente contribuir para o seu melhoramento. É, aliás, isso que vem acontecendo: são os países livres e democráticos aqueles que mais melhoram e reformam, aqueles que atingiram os mais elevados níveis de desenvolvimento social na história da humanidade. Se formos honestos, reconheceremos que, apesar dos erros cometidos, vivemos no melhor mundo de sempre. Claro que o desenvolvimento criou problemas imprevistos, alguns bastante graves, como sabemos. Mas depende inteiramente de nós, não de um qualquer iluminado, resolvê-los. É por isso que liberdade requer responsabilidade, e todos carregamos, de ambas, a nossa quota-parte. A construção de um mundo melhor continua, na parte que nos toca, nas nossas mãos.

******************************

Foto retirada de: https://wsimag.com/es/cultura/61187-karl-popper-y-la-sociedad-abierta

******************************

O centenário de Amália

Se fosse viva, Amália teria completado 100 anos no dia 1 de julho último, pois, dizem, ela nasceu nesse dia, no ano de 1920. Amália, porém, só foi registada uns dias mais tarde, há precisamente cem anos (23/7/1920), e o 23 de julho era o dia em que gostava de comemorar o seu aniversário (há quem diga que Amália queria ser”Leão” e não “Caranguejo”), pelo que permaneceu como data oficial. Escrevemos já dois artigos neste blogue sobre Amália — aqui e aqui — e não vamos dizer muito mais. As palavras são sempre escassas, ficam sempre aquém, e o melhor é mesmo ouvi-la. Amália Rodrigues, reconhecida no estrangeiro e não só em Portugal, cantou dentro de muitos géneros musicais, não apenas fado, embora tenha sido no fado — e dentro deste nos fados não tradicionais compostos por Alain Oulman — que encontrou a sua expressão mais alta. A cumplicidade artística entre ambos (para nosso deleite) está bem patente no vídeo que aqui deixamos, a nossa singela homenagem a Amália, no dia da evocação dos cem anos do seu nascimento.

Ensaio de “Soledad”, uma música de Alain Oulman com letra de Cecília Meireles.

******************************

Popper e Llosa

Mario Vargas Llosa, premiado com o Nobel da Literatura em 2010, foi convidado para vir a Lisboa, em outubro de 2016, e encerrar um ciclo de oito conferências dedicadas ao tema “Que Democracia?”, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Apesar desta conferência ter quase quatro anos, o seu tema é atual. Decidimos publicá-la na íntegra, porque a influência da filosofia política de Karl Popper, que aliás não é escondida, antes salientada, no discurso de Llosa é notável. Esta charla pode mesmo constituir uma boa introdução ao pensamento político de Popper para um(a) iniciado(a). Lamentavelmente, este vídeo foi apagado do youtube. Em alternativa, deixamos um discurso proferido por Llosa numa cerimónia em que foi agraciado com o título de doutor honoris causa, um dos muitos que lhe foram outorgados, neste caso, na Universidade Diego Portales, no Chile. A influência de Popper no pensamento de Vargas Llosa é iniludível, e está bem patente dentro do minuto 43 deste vídeo quando Llosa afirma: “a leitura de A Sociedade Aberta e Seus Inimigos mudou inteiramente a minha vida”.1

Nota:

1 No seu mais recente livro (ver “A nossa edição”), Mario Vargas Llosa refere, além de Popper, outros autores que influenciaram o seu pensamento. São eles, por ordem de apresentação: Adam Smith, José Ortega e Gasset, Friedrich August von Kayek, Raymond Aron, Sir Isaiah Berlin e Jean-François Revel.

******************************

A nossa edição:

Mario Vargas Llosa, O Apelo da Tribo, Quetzal, Lisboa, 2019.

******************************

Santiago, Cabo Verde

Quando, ainda no século XV, os navios portugueses fundearam algures em Cabo Verde, nenhuma das dez ilhas que hoje constituem o arquipélago era habitada (nada de muito surpreendente se tivermos em consideração que estas pequenas ilhas vulcânicas se encontram a mais de 500 quilómetros da costa ocidental africana) e a primeira a ser ocupada foi, precisamente, Santiago. A atual povoação de Cidade Velha foi desde o início e durante muitos anos a localidade mais importante da ilha, mas a capital, hoje, é Praia, onde ficam a sede do governo e os principais serviços e equipamentos públicos. Santiago, dizem os historiadores, serviu como entreposto de escravos pouco tempo depois do início da colonização do arquipélago, mas, uma vez que todas as ilhas estavam desabitadas, os escravos não eram dali. Este facto tem levantado e conduzido a muitas questões, algumas apaixonadas, sobre quem são de facto os cabo-verdianos[1]. Não vamos entrar por aí, a única coisa que afirmamos sem hesitação é que em Cabo Verde existe um povo culturalmente singular. Povo e cultura que vale a pena conhecer.

Cidade da Praia (foto da Fla).

Por outro lado, os cabo-verdianos podem justamente sentir-se orgulhosos por terem construído uma sociedade democrática que, em muitos aspetos, dá cartas a países bastante mais ricos (e não, forçosamente, mais desenvolvidos). Isto não deixa de ser surpreendente, se tivermos em conta as grandes dificuldades que este povo enfrenta: além de estarem muito longe dos grandes centros económicos e de distribuição, os cabo-verdianos têm ainda de enfrentar um clima adverso, seco, com todas as graves consequências que isso acarreta. Apesar disso, do ponto de vista social, são bastante mais desenvolvidos que outros países lusófonos, como Angola e Moçambique, e do que a esmagadora maioria dos países subsarianos. Em muitos itens, são mesmo bastante mais desenvolvidos que o gigante Brasil[2]. Cabo Verde é mais livre, mais seguro e mais democrático que muitos países, apesar de incomparavelmente mais pobre que a esmagadora maioria deles. Tudo isso é obra e mérito do seu povo.

Lateral do edifício que alberga a Sala-Museu Amílcar Cabral, na Praia.

Como seria de esperar, o principal motor económico do arquipélago é o turismo, muito importante não só pelas receitas diretas, mas igualmente pela captação de investimento estrangeiro e pela criação de empregos. Nós fomos apenas mais dois a juntar aos muitos milhares de turistas que visitam Cabo Verde todos os anos. Nos quatro dias em que estivemos na ilha de Santiago, ficámos hospedados na Praia. A partir daí, visitámos todos os pontos considerados mais interessantes da ilha, e não só. Começámos pelo que estava mais perto, o centro da Praia, conhecido como Plateau, por ficar num pequeno planalto sobre a marginal, o porto e o mar: uma espécie de baixa lisboeta (embora mais pequena), mas no alto. Visitámos a interessante Sala-Museu Amílcar Cabral, plena de informações sobre a luta de libertação; entrámos no mercado municipal, algo que sempre fazemos, desde que tenhamos oportunidade, nas cidades que visitamos; almoçámos; deambulámos pelas ruas; indagámos; dialogámos; passámos pelo palácio presidencial; percorremos, como soem fazer os verdadeiros caminhantes, todo o tricotado do centro histórico da Praia.

O presidente Jorge Carlos Fonseca e o embaixador do Bangladesh, com residência em Lisboa, Ruhul Siddique.

Mas Praia não é só Plateau. Vale a pena descer ao mercado de Sucupira, misturar-se com as gentes, sentir os sons, as cores e os cheiros, e petiscar um pastel acompanhado por uma Strela geladinha, talvez, como nós fizemos, na roulote Nôs Casa. É aí, na grande praça Alexandre Albuquerque, que podemos ver as incontáveis carrinhas Toyota Hiace (as “iáces”, como lhe chamam os locais[3]) que podem transportar-nos a qualquer povoação da ilha. Foi o que fizemos para chegar à Cidade Velha: apanhámos uma iáce. Pelo caminho fomos conversando com um simpático e jovem adepto do F.C. de Porto, que nos surpreendeu ao informar-nos sobre os vários dialetos crioulos da ilha. E nós, inocentes, que pensávamos haver apenas um… Conversando com este e outros cabo-verdianos, pudemos aperceber-nos da grande ligação que existe a Portugal: a televisão que veem é portuguesa, os clubes de futebol de que são adeptos são portugueses[4], as universidades para onde vão estudar ficam maioritariamente em Portugal e até os embaixadores estrangeiros que vêm apresentar credenciais ao presidente moram em Lisboa e não aqui.

Primeira Strela, no mercado de Sucupira.

A Cidade Velha, como já dissemos, foi a localidade mais importante nos primórdios da colonização[5], e é hoje uma pequena e simpática urbe que se percorre facilmente a pé. Fica junto ao mar, na base de uma colina que no topo exibe uma fortaleza do século XVI, recuperada e em bom estado de conservação, o forte de São Filipe. Entre elas (fortaleza e cidade), socalcos onde ergueram casas precárias, com pequenos pátios ou lajes, e, aqui e ali, crianças brincando, velhos descansando, cabras cabritando, galinhas depenicando. (Difícil deve ser alimentar os animais com tanta secura). Depois da visita à fortaleza, invertemos a marcha, agora mais fácil, e iniciámos a descida da colina até ao núcleo da Cidade Velha, sobranceiros ao casario e ao mar. Já cá em baixo, passámos pelas ruínas da antiga catedral, a primeira a ser construída no ocidente africano, e finalmente sentámo-nos numa esplanada junto à praia vulcânica, descansando um pouco e tomando bebidas frescas para enganar o calor. Pouco depois, na pequena praça central, enquanto esperávamos a iáce que nos transportaria de volta à Praia, comprámos a um vendedor de rua umas mangas pequeninas, que comemos mais tarde no hotel, e se revelariam divinais. Desta vez ocupámos os dois lugares da frente da iáce, ao lado do motorista. Depois do jantar já não saímos[6], pois tínhamos planeado que no dia seguinte iríamos acordar bem cedo para conhecermos o norte da ilha.

Segunda Strela, na Cidade Velha.

Para circular em Santiago alugámos um carro com motorista, o senhor Wostelindo Carvalho, por 80 euros[7]. A ilha de Santiago é montanhosa, pelo que, para atravessá-la tivemos de subir e descer algumas estradas íngremes. Depois da localidade de Assomada, passámos pelo belo Parque Natural da Serra da Malagueta, de onde é possível vislumbrar as ilhas do Fogo e de Maio, e descemos em direção ao Tarrafal. Um pouco antes da cidade, cerca de um quilómetro, no lugar de Chão Bom, fica a antiga colónia penal, hoje transformada em Museu da Resistência. Éramos os únicos visitantes pelo que pudemos correr todo a estrutura deste antigo campo de concentração, desde a cozinha ao refeitório, passando pelas celas comuns, as disciplinares ou “solitárias”, até às casas de banho e o posto médico, sem nos cruzarmos com uma única pessoa. Quando chegámos ao campo o calor era tórrido, e não pudemos deixar de pensar no sofrimento que corresponderia a estar fechado na “Frigideira”. Houve presos que aí passaram de castigo 1, outros 20, outros ainda 60 dias, mas um deles, Gabriel Pedro, permaneceu 135 dias na “Frigideira”, cerca de quatro meses e meio. Ainda assim, não foi um dos 36 homens que pereceram às terríveis condições desta colónia penal para onde eram enviados, sobretudo, presos políticos que se opunham ao Estado Novo e ao ditador Salazar.

Ontem, Campo de Concentração do Tarrafal; hoje, Museu da Resistência.

Os primeiros anos de funcionamento do campo de concentração, que entrou em funcionamento em 1936, foram os piores. O principal problema para os presos do Tarrafal eram as doenças[8], pois o diretor da prisão alegava não ter verbas para dietas e medicamentos. Face aos muitos casos de doença, em fevereiro de 1937, o médico Esmeraldo Pais da Prata[9] foi enviado à colónia penal com o principal objetivo de verificar se os presos não fingiam estar doentes para se esquivarem ao trabalho. Este médico fascista constituiu um pesadelo permanente. Recusava-se a mandar ferver a água insalubre que provinha de uma fonte a 700 metros, aprovava o estado de deterioração das magras rações distribuídas aos presos[10], dava cobertura aos trabalhos forçados e aos castigos na “Frigideira”, negava a medicação, inclusive aquela enviada pelas famílias dos deportados, e participava diretamente, de arma na mão, na repressão aos detidos, insultando-os e lançando-lhes frequentemente palavras jocosas. Uma das suas frases famosas, que pode ler-se num dos painéis do atual museu, é: “Não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbito”.

Apesar de tudo isto, muitos presos conseguiram sobreviver graças à solidariedade existente entre eles. Ferviam a água às escondidas, com ferramentas improvisadas, construíam filtros de pedra vulcânica e porosa, organizavam a distribuição dos medicamentos enviados por familiares e organizações de caridade e de outros parcos recursos que escapavam ao controlo dos guardas. E foi a chegada de outro médico, Manuel Baptista dos Reis, desta vez um prisioneiro, que, auxiliado por um enfermeiro chamado Virgílio de Sousa, veio ajudar em muito os presos do Tarrafal, evitando que a mortandade fosse ainda maior. Mesmo assim morreram 36 presos: 32 portugueses, 2 guineenses e 2 angolanos. O campo funcionou nestas condições degradantes até 1956.

A “Holandinha” foi a cela disciplinar que veio substituir a “Frigideira”. Esta ficava isolada, fora do recinto do campo, e foi demolida. Um sobrevivente do Tarrafal, o guineense Augusto Pereira da Graça, conhecido por “Neco”, afirmou sobre a “Holandinha”: “Eu não sei dizer qual era a temperatura dentro deste cubo, mas o indivíduo entrava para lá e, depois de cinco minutos, parecia que lhe tinham dado um banho. Era um calor insuportável. Pode-se dizer um calor infernal. Passei 15 horas ali, mas parecia que tinham sido 15 anos.[11] “

Em 1962, reabriu sob a designação de Campo de Trabalho de Chão Bom, destinado a encarcerar anti-colonialistas da Guiné-Bissau, Angola e Cabo Verde. Entretanto, as autoridades portuguesas negavam a existência desta colónia penal. Em 1963, a missão permanente de Portugal nas Nações Unidas considerava “sem fundamento” as informações que circulavam sobre aquele campo de concentração. Foi Amílcar Cabral, um excelente diplomata, quem evocou as normas da Convenção de Genebra sobre a proteção de prisioneiros de guerra e conseguiu a libertação de três prisioneiros portugueses, entregando-os à Cruz Vermelha, em Dakar, no dia 15 de março de 1968. Perante as denúncias de Cabral, uma Missão da Cruz Vermelha visitou o Tarrafal em fevereiro de 1969, conseguindo que fossem libertados todos os presos considerados “recuperados”. Nessa altura as condições no campo já não eram as mesmas das dos anos 30, 40 e 50. Os presos podiam ir à praia próxima, assistir a sessões de cinema, consultar livros, jornais e revistas na biblioteca, ir a consultas ao Hospital da Praia e até estudarem e fazerem exames nesta cidade.

Praia do Tarrafal.

Após a desativação, o “Campo da Morte Lenta”, como ficou conhecido por quem lá passou, serviu como centro de instrução militar, escola e, desde o ano 2000, Museu da Resistência, tornando-se o espaço mais visitado do arquipélago. Classificado como Património Cultural Nacional de Cabo Verde desde 2006, integra a lista indicativa deste país a Património Mundial pela UNESCO. Em 27 de fevereiro do presente ano (2020), o governo cabo-verdiano adjudicou a uma empresa portuguesa sediada em Barcelos – a Vilacelos – uma empreitada[12] para reabilitar o antigo Campo de Concentração do Tarrafal, que deverá ter a duração de oito meses, e que é considerada indispensável para satisfazer os requisitos exigidos pela UNESCO para a candidatura a Património Mundial, que o governo cabo-verdiano pretende apresentar dentro de um ano. Além desta empreitada, estão previstas verbas para a instalação e funcionamento do futuro museu. O artista português Vhils será convidado para fazer um trabalho no local.

Demora-se algum tempo a recuperar o ritmo normal quando se sai do espaço onde funcionou o campo do Tarrafal. Felizmente que a praia é ali mesmo ao lado e logo, provavelmente, a mais bonita da ilha. Tomámos um daqueles longos e deliciosos banhos que tornam alguns locais inesquecíveis. À hora combinada fomos ter com o senhor Wostelindo, já a pensar no almoço que, como previsto, aconteceu no restaurante Sol & Luna: bom peixe grelhado, à moda tropical, com legumes, arroz, batata frita e vinagrete. Confirmámos que o Tarrafal é o melhor ponto da ilha de Santiago para quem gosta de praia e descanso; e é também, sem dúvida, um bom lugar para comer peixe, a avaliar pelo que comemos, mas também pelos que vimos nos alguidares das peixeiras na praia, e nas bancadas do mercado municipal.

Barcos de pesca estacionados numa praia do Tarrafal.

No regresso à cidade da Praia passámos pela Aldeia dos Rabelados, em Espinho Branco, uma pequena comunidade que viveu durante muitos anos isolada[13], desde que a igreja oficial portuguesa rejeitou, ainda no tempo do colonialismo, as suas práticas religiosas (que incluíam a poligamia e o animismo), e quis substituir os sacerdotes locais de “batina negra”[14] pelos novos sacerdotes, de “batina branca”, enviados do continente. Apesar de uma parte da população ter aceitado os novos padres, outros não os aceitaram – e a partir daí foram considerados rebelados . Passaram então a viver isolados em comunidade, nas montanhas, sem água e sem luz, dependendo da agricultura, da pesca e do artesanato. Graças a Maria Isabel Kouassi, uma artista plástica e terapeuta cabo-verdiana, que viveu na Costa do Marfim e na Suíça, internacionalmente conhecida por Misá, os rabelados têm, há mais de vinte anos, uma representante que luta pelos seus interesses e que os tornou conhecidos um pouco por todo o mundo. Misá conseguiu entrar na comunidade e cada vez que voltava levava algo novo: roupa, alimentos, água, médico ou professor. Graças ao trabalho de Misá, as crianças passaram a frequentar o jardim de infância e a escola, e pelo menos uma delas continuou os estudos e licenciou-se. Paralelamente, Misá criou uma oficina de artes – a Rabelarte – destinada a dotar os jovens dos conhecimentos técnicos necessários à criação de peças que possam vender a turistas que visitem o local. Para tal, ela própria deu formação em desenho e pintura, conseguindo também a colaboração de um voluntário japonês que durante três meses ensinou às crianças técnicas de cerâmica.

Na aldeia dos Rabelados, em Espinho Branco.

Quando visitámos a aldeia estivemos na oficina da Rabelarte e comprámos um singelo quadro a uma jovem artista local. A visita a esta aldeia foi enriquecedora e surpreendente. Com as experiências do dia ainda pulsando em nós, já com o sol baixo, continuámos a nossa descida até à Praia, primeiro junto à costa, passando por Calheta de São Miguel e Pedra Badejo, depois pelo interior, chegando ao hotel Cesária quando se punha o sol. Tínhamos planeado jantar no Quintal da Música no último dia em Santiago, mas esse restaurante estava fechado. Queríamos um restaurante onde se pudesse ouvir música local, e, em alternativa, alguém nos sugeriu o Campanas. Fomos lá. Comemos bem e, como era o último dia e a música estava boa, bebemos ainda melhor. Reparámos, sobretudo, num dos músicos, um virtuoso violinista chamado Nho Nani, natural da ilha do Fogo. Conversámos com ele e com Manuel dos Santos, um guitarrista, também do Fogo, também virtuoso. Despedimo-nos. No dia seguinte, bem cedo, o senhor Wostelindo estaria à nossa espera à porta do hotel para nos levar ao aeroporto.

Na casa de Josefa, jovem artista rabelada.

******************************

Notas:

[1] A população cabo-verdiana é composta por 71% de mulatos, 28% de africanos e 1% de europeus.

[2] Ver o nosso artigo “Os Países-Modelo” aqui: https://ilovealfama.com/2020/04/24/paises-modelo/. Verificar-se-á que Cabo Verde está à frente do Brasil no que toca à liberdade económica, à liberdade humana, à liberdade de imprensa e à democracia. Cabo Verde é também um país incomparavelmente mais pacífico e seguro que o Brasil.

[3] Demorámos um tempo considerável até percebermos o que queriam dizer-nos com : “podem apanhar uma iáce”…

[4] É comum ver pessoas com as camisolas dos clubes portugueses, sobretudo, como seria de esperar, do Benfica, do Porto e do Sporting.

[5] Mas na altura em que foi fundada deram-lhe o nome de Ribeira Grande. Diz-se que o mudaram para evitar confusões com uma povoação homónima em Santo Antão. O Sítio Histórico da Cidade Velha, foi classificado em 2009 pela UNESCO como Património da Humanidade, pelos critérios II, III e VI. O critério II prende-se aos monumentos e vestígios ainda existentes na Cidade Velha enquanto testemunhos do seu papel nas trocas comercias. Critério III, pela sua paisagem urbana, marítima e pitoresca que remetem aos mais de 3 séculos de escravidão dos seres humanos. Já o critério VI, por ser o berço da primeira sociedade mestiça que se difunde pelo Atlântico através da gastronomia, farmacopeia, e outros saberes.

[6] Embora Cabo Verde seja um país relativamente seguro, não é de todo aconselhável circular à noite por locais desconhecidos, a não ser de táxi.

[7] O senhor Wostelindo está contactável através do facebook, no seguinte endereço: https://www.facebook.com/profile.php?id=100013451105546.

[8] O paludismo, a biliosa, a tuberculose e as infeções intestinais eram os males mais frequentes. Mas também o reumatismo, as avitaminoses, com os casos beribéri, escorbuto e xeroftalmia, anemia palustre, e doenças hepáticas e gástricas.

[9] Era conhecido entre os presos como o “Tralheira”.

[10] A comida era sempre a mesma, mal cozinhada e de péssima qualidade. Os presos tinham de tapar as narinas com bolas de pão para poderem tragá-la.

[11] https://www.dw.com/pt-002/augusto-pereira-da-gra%C3%A7a-recorda-os-dias-amargos-no-tarrafal/a-17656372.

[12] No valor de 29,5 milhões de escudos cabo-verdianos, ou seja, o equivalente a 265 mil euros. Mais 22 milhões de escudos (cerca de 200 mil euros) para a instalação e o funcionamento do futuro museu.

[13] O nome “Rabelados” (“rebelados”, ou “rebeldes” em português) deve-se à sua recusa em aceitarem os preceitos da Igreja Católica tradicional. No entanto, os integrantes da comunidade consideram-se “Revelados”.

[14] Estes “sacerdotes negros” saíram dos seminários que os franciscanos, chegados a Cabo Verde em finais do século XVII com o objetivo de evangelizar a população, criaram para formar sacerdotes. Ou seja, eram sacerdotes locais.

******************************

Referências:

******************************

Japão

1- Breve contexto histórico

O Japão é por variadas razões um dos mais fascinantes países do planeta. Isolado durante a maior parte da sua história, teve sempre um papel importante quando se integrou na comunidade internacional, chegando a ser, no período da Grande Guerra, a par dos Estados Unidos, um dos dois países mais poderosos do mundo. A primeira abertura do Japão deu-se no século XVI, na época em que o grande aventureiro português, Fernão Mendes Pinto, chegou ao arquipélago, mas durou pouco tempo[1]. Cansados do proselitismo europeu, os japoneses expulsariam os missionários e fechar-se-iam de novo, alcançando a estabilidade política com o domínio do xogunato Tokugawa[2], um governo dinástico militar que durou mais de 250 anos (até 1867). Em 1854, o Japão assinou com os Estados Unidos o Tratado de Kanagawa e, quatro anos depois, o Tratado de Amizade e Comércio, que marcaram o início da nova abertura japonesa, ainda que forçada[3]. Seja como for, isso permitiu ao Japão modernizar-se e industrializar-se intensivamente, tornando-o capaz de, nos finais do século XIX e inícios do século XX, derrotar militarmente a China e a Rússia. Esse período de extraordinário desenvolvimento ficou conhecido com Era Meiji (1868-1912), quando governou o imperador Mutsuhito Tenno. (Até à Restauração Meiji os imperadores não tinham poder e quem governava o Japão eram ditadores militares, cujo poder era hereditário, denominados xoguns). Sucessivamente, os japoneses ocuparam a península da Coreia, a Formosa (atual Taiwan), o sul da Ilha Sacalina[4], a Manchúria e a China. Em 1941, cometeram o erro de atacar os Estados Unidos e ocupar a maior parte dos territórios do sul e sudeste asiáticos, precipitando a entrada dos americanos na II Guerra Mundial.

A nossa visita ao Japão começou em Yokohama. Depois de um passeio pelo centro da cidade e uma entrada na Chinatown, subimos pela Landmark Tower, uma torre com 295,8 metros de altura e 73 andares, no elevador mais rápido do mundo. Demorámos apenas 40 segundos a atingir o 69º andar, aquele onde fica o Sky Garden, um piso panorâmico, com bar, livraria e uma vista incrível de 360º.

Apesar da derrota na II Guerra Mundial[5], o Japão tornou-se uma potência económica e um aliado dos Estados Unidos, registando, até aos anos noventa do século XX, três décadas de desenvolvimento económico sem precedentes. O imperador manteve-se como símbolo da unidade nacional, mas o poder executivo passou a ser exercido por políticos eleitos. O país modernizou-se, democratizou-se e manteve-se até hoje uma potência económica. Não possuindo grandes recursos naturais, sobretudo ao nível energético[6], é, no entanto, um colosso industrial, exportando produtos de altíssimo valor acrescentado para todo o mundo: a marca-Japão, embutida em itens diversificados e de grande consumo, como automóveis, máquinas fotográficas, televisores, telemóveis, entre muitos outros, faz parte do quotidiano dos cidadãos de, praticamente, todos os cantos do planeta[7].

No dia 11 de março de 2011, o maior terramoto da história japonesa, seguido de tsunami, devastou o nordeste da ilha de Honshu (a maior do Japão), matando milhares de pessoas e provocando danos irreparáveis na central nuclear de Fukushima[8]. No ano seguinte chegou ao poder o atual primeiro-ministro, Shinzo Abe, o político que se mantém há mais tempo no cargo, desde a II Guerra Mundial.

O dia seguinte foi integralmente passado em Tóquio, uma capital gigantesca. Nesta foto podemos ver o edifício da estação televisiva Fuji, uma das construções emblemáticas da cidade. Um terço da população japonesa vive na região de Tóquio.

2- O Japão natural

O Japão é um país insular que conta com cerca de 7 mil ilhas[9], das quais apenas 421 são habitadas: imagine-se as maravilhas que se podem encontrar em muitas delas, sobretudo nas mais remotas! As ilhas principais são Hocaido, Honshu (onde se situa a capital, Tóquio), Shikoku e Kiushu. No entanto, é importante o papel das pequenas ilhas exteriores na proteção do território, pois todas as fronteiras internacionais do Japão estão no mar. Apesar deste país ocupar apenas o 61º lugar do mundo em termos de território (cerca de 378 mil km2), a sua zona económica exclusiva (ZEE) atinge uma área de 4.470.000 km2, a sexta maior do planeta. O Japão é assim um país marítimo por excelência, com amplas vantagens no que toca à exploração dos seus amplos recursos marítimos (sobretudo a pesca) e ao comércio por via marítima (o Japão possui a quarta maior frota mercante do mundo), mas igualmente com alguns problemas, sobretudo as disputas com outros países da região[10] sobre a soberania de algumas ilhas e águas territoriais.

Ao fim da tarde fomos até Tsukiji, onde fica o famoso mercado de peixe de Tóquio. Na rua do mercado pudemos provar uns saborosos frutos do mar cozinhados, numa pequena loja, com maçarico… (Se estás no Japão, sê japonês).

O clima do Japão é diversificado, variando entre o tropical no extremo sul e o temperado frio nas regiões do norte. A altura média do país é de 438 metros e o ponto mais alto situa-se no monte Fuji, 3.776 metros acima do nível do mar. Como já foi dito, o país não possui grandes recursos naturais do ponto de vista energético (ou mineral), sendo o maior importador mundial de carvão e gás natural liquefeito, e o segundo maior importador de petróleo. Situado no chamado “anel de fogo do Pacífico”[11], o Japão está sujeito a uma intensa atividade sísmica e vulcânica[12], e também a tufões e tsunamis. Ao contrário do que acontece na maioria dos países temperados, no Japão chove sobretudo no início de Verão, e chove muito. Essa peculiaridade faz com que a produtividade agrícola seja muito elevada, apesar de apenas 14% do seu território ser cultivado. A elevada pluviosidade também faz com que a floresta japonesa, que cobre cerca de 70% do território, recupere rapidamente depois dos cortes.

Mesmo assim, o desmatamento das florestas tropicais tem contribuído para o esgotamento dos recursos florestais, não sendo este o único problema ambiental que o Japão enfrenta: as chuvas ácidas, provocadas pela intensa atividade de indústrias poluentes, acidificam a água de rios, lagos e mares; a poluição atmosférica é significativa[13]; a pesca intensiva constitui uma ameaça para algumas espécies; e, um assunto cada vez mais controverso, a produção de energia nuclear, pode provocar desastres catastróficos, como o de Fukushima, além de produzir resíduos cuja eliminação é muito problemática, se não impossível.

O Japão é o 11º país mais populoso do mundo, com mais de 125 milhões de habitantes, embora a taxa de natalidade atual seja muito baixa (1.43), o que o torna num dos países com maiores problemas no que toca ao envelhecimento da população.

Depois do aperitivo na rua, fomos jantar ao restaurante Sushi Zanmai Honten, ainda em Tsukiji, apenas guiados pela nossa intuição. Observámos que tinha muita gente, sobretudo japoneses, pelo que nos pareceu uma boa opção. Preferimos comer ao balcão ao lado de um casal japonês que nos foi dando algumas dicas. Provámos, muito provavelmente, o melhor atum das nossas vidas. À saída, quando tirámos esta foto, ainda não tínhamos percebido que estivéramos num dos melhores restaurantes de sushi em todo o mundo.

3- Cultura e sociedade

Como já vimos, o Japão é uma potência económica; e do ponto de vista da qualidade dos serviços que oferece aos cidadãos é, igualmente, um país extremamente desenvolvido: bons sistemas de saúde e educação, e um excelentíssimo sistema de transportes. Seria expectável, portanto, que fosse igualmente um país socialmente desenvolvido, o que efetivamente acontece, pese embora alguma desigualdade de género e de rendimentos. Isto ocorre, pelo menos em parte, porque a tradição tem um peso significativo na sociedade nipónica, cujas raízes são substancialmente diferentes das ocidentais. Os japoneses têm um grande orgulho na sua identidade e cultura. As religiões dominantes são o xintoísmo e o budismo, com muitos indivíduos a praticarem ambas[14]. Mas o que os japoneses defendem, sobretudo, é uma distinção étnica e linguística, sendo dos povos menos cosmopolitas do mundo, com poucos imigrantes e regras muito rígidas para os estrangeiros que pretendam viver no Japão. Isso sente-se (nós sentimo-lo) no contacto com as pessoas comuns, apesar da afabilidade de muitos delas.

Estas questões de identidade estão na base do longo conflito entre o Japão e a Coreia, com ambos a reivindicarem superioridade em relação ao outro. Porém, estudos recentes revelam que, à semelhança do que acontece com israelitas e palestinianos, o que os separa é muito menor do que o que os une, sendo povos geneticamente irmanados, que partilham uma longa história, apesar das desavenças.

Para regressarmos ao hotel onde estávamos hospedados, em Haneda, nos arredores de Tóquio, tínhamos de apanhar dois comboios suburbanos, o que, só por si, já é uma aventura, sobretudo para quem não sabe ler uma palavra que seja em japonês, a única língua em que estão inscritos nos painéis das gares os nomes das incontáveis estações e linhas. Não, a vida do turista não é aqui facilitada… Mas valeu a nossa persistência: viajarmos como verdadeiros japoneses foi para nós um desafio – superado. Não podemos deixar de realçar a pontualidade extrema (ao segundo!) das partidas e chegadas destes comboios, algo indispensável numa rede urbana tão densa que mais parece uma teia de aranha. Incrível.

Quando visitamos o Japão, percebemos quase imediatamente duas realidades distintas: a imagem familiar das modernas cidades ocidentais, com demonstrações por todo o lado de grande desenvolvimento tecnológico, e a cultura nacional, que consubstancia uma visão do mundo bem diferente do cosmopolitismo ocidental. Apesar disso, há uma aproximação gradual entre as culturas ocidental e nipónica, sobretudo nas artes e no desporto[15]. Se é certo que tradições artísticas, como o kabuki (o mais tradicional teatro popular japonês), ou desportivas, como o sumo (luta tradicional) continuam a atrair vastas camadas da população, é igualmente verdade que a música clássica, o rock, o futebol e o cinema ocidentais têm cada vez mais adeptos (e praticantes) no Japão. Em sentido contrário, temos a manga (banda desenhada japonesa) e o anime (desenhos animados) extremamente populares entre os jovens de muitos países ocidentais, como os Estados Unidos ou o Brasil; e também o sushi, que se tornou um tipo de comida popular em todas as grandes cidades americanas e europeias, o mesmo se podendo dizer do sashimi, ambos tendo por base o tradicional modo japonês de confecionar peixe fresco cru[16].

Gostaríamos de ter tido muito mais tempo, embora saibamos que nenhum tempo seria suficiente, para conhecermos o Japão. Quem sabe, um dia talvez possamos voltar… Por agora, resta-nos terminar este artigo reafirmando convictamente o que dissemos no início: o Japão é um país fascinante!

O topo do monte Fuji é o ponto mais alto do Japão: 3.776 metros. Esta foto, tirada do avião que nos levaria até Londres, na viagem de regresso a casa, fixa a última imagem da nossa visita ao país do sol nascente.

******************************

Notas:

[1] A história do Japão cruza-se com a história de Portugal, porquanto os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao país do sol nascente, em 1542. (Ver nosso artigo em https://ilovealfama.com/tag/cristovao-ferreira/).

[2] Assim chamado por ter sido fundado, em 1603, por Tokugawa Ieyasu.

[3] Após a conquista da Califórnia ao México, em 1848, seguiu-se a descoberta de ouro, o que levou a uma explosão do tráfego marítimo americano na costa do Pacífico. A navegação de navios mercantes e baleeiros norte-americanos alargou-se, e muitos navios naufragaram, alguns em águas oceânicas próximas do Japão. Vários marinheiros americanos foram capturados e mortos pelos japoneses devido à política isolacionista do xogunato Tokugawa. Os americanos queriam que os marinheiros naufragados fossem ajudados e não mortos, bem como pretendiam que os navios americanos pudessem comprar carvão no Japão. Assim, o presidente americano Millard Fillmore enviou o comodoro Matthew Perry ao Japão com uma frota de quatro navios, dois deles vasos de guerra. O Japão na época não tinha navios nem máquinas a vapor. Perry deixou uma carta com as exigências americanas e disse que voltaria passado um ano para receber a resposta. Menos de um ano depois (em fevereiro de 1854) Perry regressou com nove navios de guerra. O xogum assinou o primeiro tratado japonês com um país ocidental e terminou com 215 anos de política de isolamento. Seguiu-se um período conturbado até ao fim do xogunato, que coincidiu com o início da Restauração Meiji e o enorme impulso na modernização do Japão.

[4] Recuperada em 1945 pela União Soviética.

[5] A forma como os japoneses se comportam na guerra diz muito sobre a sua cultura. São guerreiros ferozes e preferem morrer a renderem-se. E isso não acontece apenas com os militares: famílias inteiras cometeram suicídio para não se renderem aos americanos na II Guerra Mundial. Como se sabe, os japoneses continuaram a lutar mesmo depois da derrota de alemães e italianos e só após terem sido alvo de dois ataques atómicos, em Hiroshima e Nagasáqui, se renderam (2 de setembro de 1945).

[6] Foi essa falta de recursos a principal razão da política expansionista japonesa.

[7] Ainda não desembarcáramos em Yokohama e já nos deparávamos com uma amostra significativa do poderio económico japonês. Milhares e milhares de automóveis, alinhados sobre terraplenos gigantescos, aguardavam a sua vez de serem exportados, algures, para algum canto do mundo.

[8] Mais de 170 mil pessoas foram evacuadas e a radiação em indivíduos, solos e águas vai manter-se por muitos anos mais, assim como os esforços para contenção dos danos causados pelo acidente.

[9] A Guarda Costeira do Japão contabiliza as ilhas com mais de 100 metros de circunferência. De acordo com este critério, as ilhas japonesas são 6852. Quinze delas são ilhas vulcânicas ativas.

[10] Especialmente com a China.

[11] Cerca de 90% dos terramotos e 75% dos vulcões terrestres ocorrem no anel de fogo do Pacífico.

[12] Alguns vulcões no Japão constituem um elevado risco, como são, entre outros, os casos dos montes Unzen e Sakurajima (este último perto da densamente povoada cidade de Kagoshima), considerados “vulcões da década” pela Associação Internacional de Vulcanologia e Química do Interior da Terra (IAVCEI). Ver: https://www.iavceivolcano.org/

[13] O Japão é o quinto maior emissor mundial de dióxido de carbono proveniente do consumo de energia.

[14] A prática de ambas as religiões produz um dado curioso: a soma da percentagem de xintoístas (70,4%) com a de budistas (69,8%) é superior a 100%.

[15] Haverá poucos exemplos tão paradigmáticos da diversidade individual quanto uma grande orquestra ou uma equipa de futebol.

[16] Há quem se refira à “m.a.s.s. culture”: manga, anime, sushi e sashimi.

******************************

Referências:

******************************

Malásia

Aurora em Langkawi.

A Malásia é um país original, com algumas características muito particulares. Desde logo, a descontinuidade do território: uma parte na península da Malásia e outra parte na ilha de Bornéu (que divide com a Indonésia e o pequeno Brunei) separadas pelo Mar da China meridional. Depois, a população, constituída por três etnias distintas – malaios (62%), chineses (20,6%) e indianos (6,2%). É bastante curioso que os próprios partidos políticos representem essas etnias, e não classes ou ideologias, como é tradicional. Finalmente, a localização estratégica da Malásia, junto ao estreito de Malaca, que os navios que passam do Mar da China para o Mar de Andamão, e vice-versa, têm de percorrer. Esta zona do globo é, desde há muito, um ponto de encontro entre mercadores chineses, indianos, árabes e persas, um ponto nevrálgico, que aguçou a cobiça dos europeus: primeiro dos portugueses, depois de holandeses e britânicos. Para lá de tudo isto, a Malásia é um paraíso tropical: as florestas húmidas ocupam cerca de 60% do seu território e mantêm-se inalteradas desde há 100 milhões de anos; albergam espécimes incríveis dos reinos vegetal e animal.

A Sky Bridge.

Durante os séculos XVIII e XIX, a Grã-Bretanha estabeleceu colónias e protetorados na área da atual Malásia, os quais seriam ocupados pelo Japão durante a II Guerra Mundial, entre 1942-1945. Em 1948, os territórios governados pelos britânicos na península malaia, excetuando Singapura, formaram a Federação da Malásia, que se tornaria independente em 1957. Em 1963 juntaram-se à Federação as antigas colónias britânicas de Singapura, Sabah e Sarawak, estas duas na costa norte da ilha de Bornéu. Os primeiros anos da independência foram conturbados, com a retirada da Federação de Singapura (logo em 1965), reivindicações das Filipinas sobre Sabah, e confrontos com a Indonésia. Com o mandato do primeiro-ministro Mahathir Mohamad (1981-2003), a Malásia conseguiu diversificar a sua economia, passando da dependência quase exclusiva da exportação de matérias-primas para o desenvolvimento de manufacturas, serviços e turismo. Nos últimos anos, a Malásia vem tentando atrair investimentos em alta tecnologia, indústrias e serviços baseados no conhecimento.

Um percurso considerável até atingir o topo de Mat Cincang, o segundo monte mais alto de Langkawi (610 metros). Lá em cima, nos dias claros, avista-se, ao norte, a Tailândia e, a sudoeste, a ilha de Sumatra, na Indonésia.

A aposta na tecnologia permitiu um desenvolvimento enorme no campo das telecomunicações, pelo que a Malásia é, hoje, um dos países mais avançados nas tecnologias 4G e 5G, com cobertura de quase todo o território nacional. O segredo do relativo sucesso do país parece ser o de criar oportunidades para o conjunto da população, independentemente da etnia ou credo religioso[1], criando as condições de base, através de instituições democráticas, para a consolidação de uma sociedade liberal. De facto, pudemos constatar que a Malásia é uma sociedade tolerante, observando, nas ruas, tal como já acontecera na nossa visita à Tailândia, a harmonia entre as diferentes comunidades, muito diferente da que (não) ocorre, por exemplo, em alguns países do Médio Oriente.

Primeiro exemplo da arquitetura mogol[5] na Malásia: edifício Sultão Abdul Samad (1894-1897). Simétrico, possui uma torre-relógio com 41 metros de altura. Ocuparam este espaço a Federação de Estados Malaios (em 1897) e o Supremo Tribunal da Malásia (em 1972). Atualmente, está aqui instalado o Ministério do Turismo e Cultura da Malásia.

Assim, pudemos visitar tranquilamente mesquitas, pagodes, templos, igrejas, mercados tradicionais e apreciar, nos espaços públicos, a diversidade de costumes inerente a uma sociedade multicultural. Após termos estado em George Town[2], a nossa visita pela Malásia prosseguiu com uma paragem em Langkawi[3] e outra em Kuala Lumpur. Lankawi é uma pequena ilha (talvez do tamanho do Faial, nos Açores) situada no Estreito de Malaca, mas bem perto da costa continental, a uns meros 15 kms. Toda virada para o turismo, possui belas praias (sobretudo Tanjung Rhu, no norte, e Pantai Cenang, no sul), parques naturais e zonas de montanha, com profusa vegetação. Além disso, tem alguns equipamentos interessantes, como sejam um teleférico que nos conduz ao topo do monte Mat Cincang, onde encontramos uma ponte pedestre que parece suspensa no vazio. Pudemos visitar também dois museus, um etnográfico e um outro dedicado ao ciclo do arroz (museu Laman Padi); e visitámos ainda um enorme centro de artesanato[4], com vários stands de artesãos locais, alguns vendendo peças bastante interessantes. Como seria de esperar, tudo gira em torno do turismo nesta ilha, “porto livre de impostos”, desde 1987.

Twin Towers, em Kuala Lumpur. 452 metros de altura.

Kuala Lumpur, como grande capital, é mais cosmopolita. Alguns ocidentais instalaram-se aqui para aproveitarem as oportunidades de negócio que a abertura malaia vem oferecendo[6]. A parte antiga da cidade é a mais interessante. Aí encontrámos o mercado central (antiga sede do governo britânico), a Chinatown, o Palácio Nacional[7], a Praça da Independência e alguns edifícios interessantes, como o Tudor, do Royal Selangor Club, e a bonita catedral de Santa Maria a Virgem, dos finais do século XIX. Desde essa zona mais antiga da cidade, junto ao rio Kelang, seguimos a pé até à mesquita nacional da Malásia (Masjid Negara).Não longe ficam os templos Kuil Sri Maha Mariamman (hindu) e Sin Sze Si Ya (taoísta) e o Museu Nacional da Malásia (Muzium Negara). Após tomarmos uma água de coco junto ao mercado central, retemperámos forças para subirmos até à quarta torre de telecomunicações mais alta do mundo (Menara Kuala Lumpur), terminando a nossa visita à capital da Malásia nas emblemáticas Petronas Twin Towers.

******************************

Notas:

[1] A religião oficial é o islamismo (cerca de 61%), mas budistas (20%), cristãos (9%), hindus (6%), bem como outros credos, incluindo alguns tradicionais chineses, são respeitados.

[2] Ver nosso artigo sobre George Town aqui: https://ilovealfama.com/2020/05/29/street-art-george-town-malasia/

[3] Langkawi, em malaio, significa “águia”.

[4] Complexo Cultural e Artesanal Budaya.

[5] Apesar do império Mogol ter tido uma relação direta com o império Mongol (Babur, o fundador da dinastia Mogol, era descendente de Gengis Khan) foram realidades diferentes. O império Mogol durou de 1526 a 1857 e compreendia a maior parte dos territórios atuais da Índia, e dos Paquistão, Afeganistão e Bangladesh. Era, no seu apogeu, provavelmente o mais rico e poderoso do planeta. Profundamente islâmico, entrou em declínio nos finais do século XVIII sendo definitivamente sepultado pela expansão de um outro império, o britânico.

[6] Conversámos sobre a realidade malaia com dois ocidentais: um guia turístico espanhol, que também tem um restaurante na cidade, e um senhor inglês que já vive em Kuala Lumpur há 30 anos.

[7] Conhecido como Istana Negara.

******************************

Phuket e Phang Nga, Tailândia

A baía de Patong, na ilha de Phuket.

A Tailândia reúne excelentes condições para a prática do turismo ligado ao mar: ilhas idílicas, clima tropical, paisagens arrebatadoras, povo acolhedor, e um destino relativamente barato para os padrões ocidentais. Na nossa curta estadia estivemos na ilha de Phuket, desembarcando na localidade de Patong, uma das mais atingidas pelo tsunami de 26 de Dezembro de 2004. Daí tomámos um autocarro em direção a Phang Nga.

Ilha de James Bond.

Chegados ao Parque Nacional, apanhámos de imediato uma lancha para a ilha Kao Ping Gun, atualmente conhecida por ilha James Bond, devido às filmagens finais do filme “O Homem da Pistola Dourada”, que ali decorreram. O percurso de lancha é feito através de uma paisagem quase surrealista, repleta de penhascos calcários. O nosso ponto de paragem seguinte foi em Koh Panyi, um povoado flutuante, com casas construídas sobre estacas e passadeiras de madeira entre elas. A povoação tem mesquita, escola, lojas e vários restaurantes. Almoçámos num deles. A população residente é muçulmana e vive quase exclusivamente do turismo.

Recinto desportivo flutuante na povoação de Koh Panyi.

Quando finalmente a lancha nos deixou em terra firme tomámos de novo o autocarro, que rumou ainda mais para Norte, até Krasom, onde visitámos o templo budista Suwan Khuha, situado dentro de uma gruta, um dos mais importantes da Tailândia. Era já noite cerrada quando regressámos a Patong, agora extremamente animada, com as ruas repletas de turistas, fumo, cheiros, sons, incontáveis bares, restaurantes, e todo o tipo de comércio, incluindo a prostituição. Ao contrário da maioria dos lugares, é quando começa a noite que Patong acorda.

No interior de Suwan Khuha.

******************************