Pós-escrito (1986) à Autobiografia Intelectual de Popper

Foi-me pedido pelos editores deste livro que escrevesse um curto pós-escrito, e foi posta a questão de saber se ainda penso como pensava quando escrevi originalmente o livro em 1969 e quando disse (na página 176) que sou o filósofo mais feliz que conheci.

A questão refere-se ao meu otimismo, à minha crença em que vivemos num mundo maravilhoso. Esta minha crença não fez mais que reforçar-se com o tempo. Sei bem que há muita coisa errada na nossa sociedade ocidental. Mas ainda não tenho dúvidas de que ela é a melhor que alguma vez existiu. E muito do que está errado é devido ao facto de ser dominada pela religião. Refiro-me à crença religiosa dominante de que o mundo social em que vivemos é uma espécie de inferno. Esta religião é difundida pelos intelectuais, em especial os que têm como profissão o ensino, e pelos meios de comunicação. Há quase uma competição pela condenação e ruína: quanto mais radicalmente se condena a nossa sociedade ocidental, maior parece a possibilidade de se ser ouvido (e talvez, de desempenhar um papel de primeiro plano nela).

De mãos dadas com esta propaganda, de acordo com a qual as nossas democracias liberais ocidentais estão condenadas, está a crença, partilhada por muitos intelectuais, de que o marxismo é uma ciência, e que podemos “saber”, graças ao poder preditivo da ciência, que o credo marxista acabará por sair vitorioso. E a inevitabilidade da vitória do comunismo implica que o Ocidente deveria simplesmente render-se em vez de tentar – em vão, claro! – resistir à inexorável propagação do comunismo através do uso da força militar. De modo que seria o Ocidente o único responsável por uma guerra atómica. Deste modo, o Ocidente é visto como um terrível monstro que ameaça o mundo, numa tentativa sem sentido de impedir o advento do paraíso comunista na terra.

Os intelectuais são, com razão, progressistas; mas o progresso não é fácil de alcançar, e o mero progressivismo é perigoso, visto que pode levar facilmente a decisões erradas. Voltando-se para o marxismo como um programa progressivo e vendo-o refutado, os intelectuais tornaram-se ainda mais radicais. Porque descobriram que podem conservar o seu credo marxista se responsabilizarem a resistência ao marxismo dos Estados “capitalistas” (ou seja, não marxistas) pelo facto do marxismo ser tão mal sucedido. (Por exemplo, muitos podem pensar que foi essa resistência que forçou a União Soviética a gastar tanto dos seus recursos em armamentos).

O sonho de uma utopia marxista e de um radicalismo utópico e o ódio pelo Ocidente não marxista levou a coisas como o apoio à violência e a afirmação de que liberdade no Ocidente está presentemente ligada ao industrialismo, como forma escondida do totalitarismo, e , portanto, ainda pior do que qualquer forma manifesta do totalitarismo. Esta é a roupagem moderna de uma doutrina política característica dos comunistas ocidentais, que encontrei pela primeira vez em 1919: a política do “quanto pior, melhor” (para as oportunidades do comunismo).

Parece-me que há apenas uma coisa que podemos aprender com os russos: dizem ao seu povo que está a viver na melhor sociedade de sempre.

Qualquer pessoa que esteja preparada para comparar seriamente a nossa vida nas democracias liberais ocidentais com a vida noutras sociedades será forçada a concordar que temos na Europa e na América do Norte, na Austrália e na Nova Zelândia, as melhores sociedades e as mais igualitárias que alguma vez existiram no decurso da história humana. Não só há muito poucas pessoas que sofrem agudamente de falta de alimentos ou falta de alojamento, mas há infinitamente mais oportunidades para os jovens escolherem o seu próprio futuro. Há uma pletora de possibilidades para os que desejam aprender, e para os que desejam divertir-se de várias maneiras. Mas talvez o mais importante é que estamos preparados para dar ouvidos a críticas informadas e ficamos certamente felizes se forem feitas sugestões razoáveis para o melhoramento da nossa sociedade. Porque a nossa sociedade não só está aberta à reforma, como está ansiosa por reformar-se.

Apesar de tudo isto, a propaganda a favor do mito de que vivemos num mundo horrível tem tido sucesso.

Abram os olhos e vejam como é belo o mundo, e como temos sorte, nós, os que estamos vivos!

******************************

A nossa edição:

Karl Popper, Busca Inacabada – Autobiografia Intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008, pp. 273-5

******************************

O “Custo Portugal”

cof
Os preços num posto de venda de combustíveis de Ayamonte, em 20 de fevereiro de 2017.

Temos a sorte de morar a pouco mais de 20 quilómetros de Espanha, onde a gasolina é cerca de 25% mais barata que em Portugal. Por outras palavras, em quatro depósitos cheios em Espanha, um é oferecido, se compararmos com os preços no nosso país. Mas não são apenas os combustíveis líquidos que são mais baratos em Espanha. Em termos comparativos, o gás é ainda mais barato que a gasolina. Na mesma bomba onde abastecemos o carro, em Ayamonte, o preço de uma garrafa de gás é de € 12,89 cerca de metade do custo em Portugal, que ronda os €25,30. E o mais espantoso é que essas garrafas de gás são de uma marca bem nossa conhecida — a Galp.

Para lá dos combustíveis (cujo imposto, só em 2016, rendeu cerca de 2.600 milhões de euros ao Estado) há que referir ainda os custos da eletricidade, que são igualmente (ou talvez ainda mais) exorbitantes aqui. O elevado custo da energia  no nosso país conduz-nos desde logo a duas questões fundamentais.

1- A quem servem as entidades reguladoras e da concorrência em Portugal?

Essas entidades podem servir determinados fins — nomeadamente os dos membros das administrações das mesmas (cujas remunerações, curiosamente, são quase sempre muito acima dos 10.000 euros mensais) e os das empresas que supostamente deveriam fiscalizar— mas dificilmente os interesses dos consumidores, como obrigam, aliás, os seus estatutos. E não se pense que isto se passa apenas no setor energético, onde os preços dos combustíveis são sensivelmente os mesmos nas principais gasolineiras. Veja-se o que acontece com as empresas de telecomunicações, que levam a cabo contratos absurdos (verdadeiros atentados num país da dimensão de Portugal), dando às principais sociedades anónimas desportivas os milhares de milhões que nos roubam aos poucos, todos os meses, através de contratos leoninos, perante a passividade geral.

2- Que impacto têm estes impostos indiretos e esses monopólios ou cartéis sobre a economia?

Como é evidente, têm um impacto enorme, quer nas famílias quer nas empresas (cerca de um terço dos  custos das pequenas e médias empresas – que representam 99% do total – provém do consumo de combustível). E as vantagens são sempre para os mesmos: os dezenas de milhar de boys da administração pública que aí permanecem com cargos de chefia intermédios, e os milhares de que circulam entre o Parlamento, os ministérios, os bancos e a cúpula das grandes empresas públicas e algumas privadas, muitas destas com negócios privilegiados com o Estado. O que se passou na Caixa-Geral de Depósitos, na PT, na REN, etc. está aí bem presente nas nossas memórias para nos lembrar que o sistema político-administrativo-económico em Portugal está doente.

cof
Garrafas de gás da Galp à venda em Ayamonte.

Esta é a situação geral. Os políticos, da esquerda à direita e da direita à esquerda, estejam no Governo, na Assembleia da República, nas empresas públicas ou naquelas com negócios com o Estado, estão lá para se governar. É para isso que, salvo honrosas exceções, se inscrevem nos partidos políticos. Portugal não tem recursos para alimentar tanta voracidade dos militantes políticos (nem, há que dizê-lo, de alguns empresários sem escrúpulos). E enquanto não deixarmos de ser uma sociedade egoísta, onde impera a ganância desmedida, não podemos acreditar no Estado: minado como está por parasitas partidários, ele consumirá uma fatia exageradamente grande da riqueza do país. É isso que acontece nos países atrasados, e Portugal é ainda em larga medida um país atrasado, algures entre o primeiro e o terceiro mundos. Continuamos a precisar de melhores políticas de Educação (uma das áreas que mereceria um amplo consenso nacional, como acontece em alguns países) para crescermos de forma mais homogénea. Até lá, temos não só o direito mas sobretudo o dever de desconfiar de um Estado todo-poderoso. E temos igualmente o dever de exigir, por todos os meios legítimos possíveis, a condenação dos políticos corruptos bem como dos testas-de-ferro que despudoradamente usam para roubar o país. Os passos que damos são demasiado lentos e, dado que não estamos sozinhos (metade dos países de Leste que entraram muito depois de nós na UE já nos ultrapassaram), precisamos de diminuir aceleradamente o pesado “custo Portugal”.

******************************

Ciência e Pseudo-Ciência – o Critério de Demarcação de Popper

I

Quando recebi a lista de participantes neste curso e me dei conta de que havia sido convidado para falar perante colegas filósofos, pensei, após alguma hesitação e consulta, que preferiríeis, provavelmente, ouvir-me discorrer acerca daqueles problemas que me despertam maior interesse, e com cujos desenvolvimentos estou mais familiarizado. Decidi, por conseguinte, fazer o que nunca antes fizera: oferecer-vos um relatório do meu próprio trabalho na área da Filosofia da Ciência desde o Outono de 1919, data em que comecei a debater-me com o problema de “Quando é que uma teoria deve ser classificada como científica”, ou, “Existe algum critério que determine o caráter ou estatuto científico de uma teoria?”

O problema que na altura me preocupava não era “Quando é que uma teoria é verdadeira”, ou “Quando é que uma teoria é aceitável?” O meu problema era diferente. Queria distinguir entre Ciência e pseudo-ciência, sabendo muito bem que a Ciência muitas vezes se engana, e que a pseudo-ciência pode tropeçar acidentalmente na verdade.

Eu conhecia, como é óbvio, a resposta mais generalizadamente aceite para o meu problema: que a Ciência se distingue da pseudo-ciência – ou da “metafísica” – pelo seu método empírico, que é essencialmente indutivo, procedendo da observação ou da experiência. Mas isso não me satisfazia. Pelo contrário, formulei muitas vezes o meu problema em termos de distinção entre um método genuinamente empírico e um método não-empírico ou mesmo pseudo-empírico – ou seja, um método que, apelando embora para a observação e a experiência, não atinge, todavia, critérios científicos. Este último método pode ser exemplificado pela astrologia, com a sua prodigiosa quantidade de dados empíricos baseados na observação – em horóscopos e em biografias.

Mas, dado que não foi o exemplo da astrologia que me conduziu ao meu problema, deveria, talvez, descrever sumariamente a atmosfera em que ele emergiu e os exemplos pelos quais foi estimulado. Após o colapso do império austríaco, tinha ocorrido uma revolução na Áustria: o ar estava carregado de slogans e ideias revolucionárias, e de novas e frequentemente extravagantes teorias. De entre as teorias que despertavam o meu interesse, a Teoria da Relatividade de Einstein era, de longe, e sem dúvida, a mais importante. Três outras eram a Teoria da História de Marx, a Psicanálise de Freud e a chamada “Psicologia Individual” de Alfred Adler.

Corriam grandes disparates acerca destas teorias e, em especial, acerca da Teoria da Relatividade (como ainda hoje acontece) mas eu tive sorte com aqueles que me iniciaram no seu estudo. Todos nós – o pequeno círculo de estudantes a que eu pertencia – estávamos empolgados com o resultado das observações de eclipses de Eddington, observações essas que, em 1919, proporcionaram a primeira e significativa confirmação da teoria da gravidade de Einstein. Foi uma grande experiência para nós, e uma experiência que viria a exercer uma influência duradoura no meu desenvolvimento intelectual.

As outras três teorias que mencionei eram também amplamente discutidas entre os estudantes dessa época. Eu próprio tive ocasião de entrar pessoalmente em contacto com Alfred Adler, e até mesmo de cooperar no seu trabalho social com as crianças e jovens dos bairros operários de Viena, onde ele havia fundado clínicas de assistência social.

Foi durante o Verão de 1919 que comecei a sentir uma crescente insatisfação relativamente a estas três teorias: a Teoria Marxista da História, a Psicanálise e a Psicologia Individual. E comecei a ter dúvidas em relação às suas pretensões a um estatuto científico. O meu problema, de início, talvez se pudesse formular nestes simples termos: “O que há de errado no Marxismo, na Psicanálise e na Psicologia Individual? Por que é que são tão diferentes da Teoria de Newton e, em especial, da Teoria da Relatividade?”

Para tornar este contraste nítido devo explicar que, na altura, poucos de nós teriam dito que acreditávamos na verdade da teoria da gravitação de Einstein. Por aqui se vê que não era o facto de duvidar da verdade dessas outras três teorias que me incomodava, mas sim algo diferente. Nem era, tão-pouco, que eu simplesmente considerasse a física matemática mais exata do que as teorias do tipo sociológico ou psicológico. O que, por conseguinte, me preocupava, não era o problema da verdade, pelo menos nessa fase, nem o problema da exatidão ou mensurabilidade. Era antes o facto de eu sentir que essas outras três teorias, dando-se embora ares científicos, tinham, na realidade, mais em comum com os mitos primitivos do que com a Ciência – de sentir que se pareciam mais com a Astrologia do que com a Astronomia.

Descobri que alguns desses meus amigos, que eram admiradores de Marx, de Freud e de Adler, estavam impressionados por um certo número de pontos em comum destas teorias e, em especial, pelo seu aparente poder explicativo. Com efeito, estas teorias pareciam capazes de explicar praticamente tudo o que sucedia nos domínios a que se referiam. O estudo de qualquer uma delas parecia exercer o efeito de uma revelação ou conversão intelectual, abrindo os nossos olhos para uma verdade nova, oculta dos ainda não-iniciados. E, uma vez assim abertos os nossos olhos, víamos exemplos confirmativos em toda a parte: o mundo estava cheio de verificações da teoria. O que quer que acontecesse confirmava-a sempre. Desta maneira, a sua verdade parecia manifesta. E os descrentes eram, evidentemente, pessoas que não queriam ver a verdade manifesta; que se recusavam a vê-la, fosse porque essa verdade era contra os seus interesses de classe, ou por causa das suas repressões, que estavam ainda por “psicanalizar” e a berrar por tratamento.

O elemento mais característico desta situação parecia-me ser o incessante caudal de confirmações, de observações que “verificavam” as teorias em questão. E esta ponto era constantemente salientado pelos seus partidários. Um marxista não podia abrir um jornal sem descobrir, em cada página, provas confirmativas da sua interpretação da História. Não apenas nas notícias, mas também na sua apresentação – que revelava a tendência de classe do jornal – e sobretudo, como é óbvio, naquilo que o jornal não dizia. Os psicanalistas freudianos enfatizavam que as teorias eram constantemente confirmadas pelas suas “observações clínicas”. No que diz respeito a Adler, fiquei muito surpreendido com uma experiência pessoal. Uma vez, em 1919, relatei-lhe um caso que, a mim, não se me afigurava particularmente adleriano, mas que ele não teve, no entanto, dificuldade em analisar à luz da sua teoria de sentimentos de inferioridade, apesar de não ter, sequer, visto a criança em questão. Ligeiramente chocado, perguntei-lhe como é que podia ter tanta certeza. “Por causa da minha experiência de mil casos semelhantes”, foi a resposta – perante a qual não pude deixar de comentar: “E com este novo caso, suponho, esse número já deve ter aumentado para mil e um”.

Aquilo que eu estava a pensar era que as observações que ele anteriormente fizera podiam não ter sido muito mais consistentes do que esta; que cada uma delas teria sido, por sua vez, interpretada à luz de “experiência prévia” e simultaneamente contabilizada como confirmação adicional. E confirmação de quê?, perguntei a mim próprio. Unicamente de que um caso podia ser interpretado à luz de uma teoria. Mas isso, refleti eu, significava muito pouco, uma vez que qualquer caso concebível podia ser interpretado à luz da teoria de Adler, ou também da de Freud. Posso ilustrar este ponto com dois exemplos muito diferentes de comportamento humano: o exemplo de um homem que empurra uma criança para a água com a intenção de a afogar; e o exemplo de um homem que sacrifica a sua vida numa tentativa de salvar a criança. Qualquer um destes dois casos pode ser explicado, com idêntica facilidade, em termos freudianos e em termos adlerianos. De acordo com Freud, o primeiro homem sofreria de repressão (digamos de uma componente do seu complexo de Édipo), enquanto o segundo teria atingido a sublimação. De acordo com Adler, o primeiro homem sofria de sentimentos de inferioridade (que teriam produzido, talvez, a necessidade de provar perante si próprio que tinha coragem de cometer um crime); e o mesmo se passaria com o segundo homem (cuja necessidade seria a de provar a si próprio que tinha coragem para salvar a criança). Não me consegui lembrar de nenhum comportamento humano que não pudesse ser interpretado nos termos de qualquer uma destas teorias. E era precisamente esse facto – o facto de se adequarem sempre, de serem sempre confirmadas – que constituía, aos olhos dos que as admiravam, o ponto mais forte a seu favor. Mas que em mim começou a despertar a ideia de que essa aparente força era, na realidade, a sua fraqueza.

No que respeita à teoria de Einstein, a situação era notavelmente diferente. Tomemos um exemplo típico: a previsão de Einstein, logo a seguir confirmada pelos achados da expedição de Eddington. A teoria gravitacional de Einstein havia conduzido à conclusão de que a luz devia ser atraída pelos corpos pesados (como o Sol), precisamente do mesmo modo que os corpos materiais. Em consequência, podia ser calculado que a luz de uma estrela fixa distante, cuja aparente posição era próxima do Sol, alcançaria a Terra vinda de uma direção tal, que essa estrela pareceria estar levemente desviada do Sol. Ou, por outras palavras, que as estrelas próximas do Sol pareceriam ter-se afastado um pouco dele e umas em relação às outras. Este é um fenómeno que não pode, normalmente, ser observado, na medida em que o brilho ofuscante do Sol torna as estrelas invisíveis durante o dia. Mas durante um eclipse é possível fotografá-las. Se a mesma constelação for fotografada de noite, podemos medir as distâncias nas duas fotografias e verificar o efeito previsto.

Ora o aspeto impressionante deste caso é o risco envolvido numa previsão deste tipo. Se a observação demonstrar que o efeito previsto está definitivamente ausente, então a teoria será simplesmente refutada. A teoria será incompatível com determinados resultados possíveis da observação – de facto, com resultados que toda a gente antes de Einstein teria esperado1. Isto é bastante diferente da situação que anteriormente descrevi, quando as teorias em questão se revelaram compatíveis com os mais diferentes comportamentos humanos, de modo que se tornava praticamente impossível descrever qualquer tipo de comportamento que não pudesse ser invocado como alegada comprovação dessas teorias. Estas considerações conduziram-me, no inverno de 1919-20, a conclusões que posso agora reformular da seguinte maneira:

1- É fácil obter confirmações ou verificações para quase todas as teorias – desde que procuremos confirmações.

2- As confirmações só deverão ser tidas em conta se forem o resultado de previsões arriscadas, ou seja, se, não esclarecidos pela teoria em questão, tivermos esperado um acontecimento incompatível com a teoria – um acontecimento que teria refutado essa teoria.

3- Toda a “boa” teoria científica é uma interdição: proíbe que determinadas coisas aconteçam. Quanto mais a teoria proibir, melhor será.

4- Uma teoria que não seja refutável por nenhum acontecimento concebível será uma teoria não-científica. A irrefutabilidade não é uma virtude da teoria (como as pessoas muitas vezes julgam), mas sim um defeito.

5- Todo o teste genuíno de uma teoria constitui uma tentativa de a falsificar ou refutar. Testabilidade equivale a falsificabilidade. Mas há graus de testabilidade: algumas teorias são mais suscetíveis de ser testadas, estão mais expostas à refutação do que outras; assumem, por assim dizer, maiores riscos.

6- As provas confirmativas não devem ser tidas em conta, exceto quando são resultado de um teste genuíno da teoria; e isso significa que podem ser apresentadas como uma séria, ainda que malograda, tentativa de falsificar essa teoria (costumo falar agora, nestes casos, em “provas corroborantes”).

7- Algumas teorias genuinamente testáveis, mesmo depois de se ter concluído pela sua falsidade, são ainda sustentadas pelos seus adeptos – mediante a introdução ad hoc de uma hipótese auxiliar, por exemplo, por via de uma reinterpretação ad hoc da teoria, feita de um modo que escape à refutação. Ainda que um procedimento deste tipo seja sempre possível, a teoria só é salva da refutação à custa da destruição ou, pelo menos, do rebaixamento do seu estatuto científico. (Descrevi mais tarde esta operação de salvamento como uma “distorção convencionalista” ou um “estratagema convencionalista”.

Poderíamos resumir tudo isto dizendo que “o critério do estatuto científico de uma teoria é a sua falsificabilidade, ou refutabilidade, ou testabilidade“.

II

Talvez possa exemplificar o que acaba de ser dito com a ajuda das várias teorias até agora mencionadas. A teoria da gravitação de Einstein satisfazia claramente o critério da falsificabilidade. Mesmo se, na época, os nossos instrumentos de medição não permitiam que nos pronunciássemos com inteira segurança sobre os resultados dos testes, havia uma clara possibilidade de refutar a teoria.

A astrologia não passou no teste. Os astrólogos foram muito influenciados e iludidos pelo que acreditavam serem provas confirmativas – tão influenciados que não se deixavam abalar por quaisquer provas de sinal contrário. Além disso, formulando as suas interpretações e profecias de um modo suficientemente vago, tornavam-se capazes de apresentar uma explicação satisfatória para tudo quanto poderia ter constituído uma refutação da teoria, caso esta e as profecias tivessem sido enunciadas de uma forma mais precisa. Para se furtarem à falsificação, destruíram, assim, a testabilidade da sua teoria. Esta é, aliás, uma artimanha típica dos videntes: o fazer previsões tão vagas que dificilmente podem falhar – tornando-se, por conseguinte, irrefutáveis.

A teoria marxista da História, a despeito dos sérios esforços de alguns dos seus fundadores e partidários, acabou por adotar esta prática divinatória. Nalgumas das suas primeiras formulações (por exemplo, na análise que Marx faz do caráter da “revolução social vindoura”), as suas previsões eram testáveis e foram, de facto, falsificadas2. Todavia, em vez de aceitar as refutações, os partidários de Marx reinterpretaram a teoria e a evidência dos factos no sentido de as pôr de acordo. Desta forma, salvaram a teoria da refutação. Mas fizeram-no graças à adoção de um expediente que a tornou irrefutável. Submeteram, deste modo, a teoria a uma “distorção convencionalista” e, com esse estratagema, invalidaram a sua muito proclamada reivindicação de um estatuto científico.

As duas teorias psicanalíticas estavam noutra categoria. Eram simplesmente não-testáveis, irrefutáveis. Não havia nenhum comportamento humano imaginável que as pudesse contradizer. Não pretendo com isto significar que Freud e Adler não tivessem razão em determinadas coisas. Pessoalmente, não duvido de que muito do que disseram se reveste de uma importância considerável, e poderá bem vir a ter, um dia, o seu papel numa ciência psicológica passível de ser testada. Mas isto significa, de facto, que aquelas “observações clínicas” que os psicanalistas ingenuamente acreditam confirmar a sua teoria não estão em melhor posição para o fazer do que as comprovações diárias que os astrólogos encontram na sua prática3. E no que se refere à epopeia freudiana do Ego, do Super-Ego e do Id, não haverá muito mais razões para lhe conferir um estatuto científico do que haveria em relação à colectânea homérica de histórias do Olimpo. Estas teorias descrevem alguns factos, mas sob a forma de mitos. Contêm sugestões muito interessantes em matéria psicológica, mas que não são suscetíveis de ser testadas.

Ao mesmo tempo, apercebi-me de que esses mitos podiam ser desenvolvidos e tornar-se testáveis; que, historicamente falando, todas – ou quase todas – as teorias científicas têm origem em mitos, e que um mito pode conter importantes antecipações de teorias científicas. Exemplos disso serão a teoria da evolução por ensaio e erro de Empédocles, ou o mito de Parménides do Universo-bloco imutável, no qual nada acontece nunca, e que, se lhe acrescentarmos uma outra dimensão, se transforma no Universo-bloco de Einstein (no qual, de igual modo, nunca nada acontece, na medida em que tudo está, sob um ponto de vista tetradimensional, determinado e estabelecido desde o princípio). Pareceu-me, por conseguinte, que se uma teoria fosse considerada não-científica ou “metafísica” (como poderíamos dizer), não teria por isso de ser considerada irrelevante, insignificante, “desprovida de significado” ou “sem sentido”4. Mas não poderia pretender ser apoiada por provas empíricas em sentido científico – ainda que, num sentido genético, pudesse perfeitamente ser “resultado da observação”.

(Houve numerosas outras teorias com este caráter pré-científico, ou pseudo-científico, algumas das quais, infelizmente, tão influentes quanto a interpretação marxista da História – caso, por exemplo, da interpretação racista da História, que é mais uma dessas poderosas teorias “omniexplicativas” que exercem sobre os fracos de espírito o efeito de uma revelação.) Deste modo, o problema que tentei resolver ao propor o critério de falsificabilidade não era um problema de sentido ou significado, nem um problema de verdade ou aceitabilidade. Era antes o problema de traçar uma linha (tão clara quanto possível) entre os enunciados, ou sistemas de enunciados, das ciências empíricas, e todos os outros enunciados – quer sejam de caráter religioso, metafísico, ou simplesmente pseudo-científico. Anos mais tarde – terá sido por volta de 1928 ou 1929 – chamei a este meu primeiro problema o “problema da demarcação“, na medida em que diz que os enunciados, ou sistemas de enunciados, para poderem ser considerados científicos, têm de ser capazes de se confrontar com possíveis, ou imagináveis, observações.

******************************

Notas:

1 Esta é uma simplificação um pouco excessiva, dado que cerca de metade do efeito de Einstein pode ser derivado da teoria clássica, desde que admitamos uma teoria balística da luz.

2 Vd., por exemplo, a minha obra A Sociedade Aberta e seus Inimigos, cap. 15, secção III, e notas 13-14.

3 As “observações clínicas”, à semelhança de todas as outras observações, são interpretações à luz de teorias; e é unicamente por essa razão que conseguem dar ideia de apoiar as teorias à luz das quais foram interpretadas. Mas o apoio verdadeiro só pode ser obtido das observações que sejam efetuadas como testes (ou seja, como “tentativas de refutação”). E para isso é necessário que os critérios de refutação sejam antecipadamente estabelecidos: é preciso determinar que situações observáveis, se efetivamente observadas, ditarão a refutação da teoria. Mas que tipo de respostas clínicas poderiam constituir uma refutação satisfatória para o analista, não apenas de um determinado diagnóstico psicanalítico concreto, mas de toda a psicanálise em si? E terão tais critérios alguma vez sido objeto de discussão ou de acordo por parte dos psicanalistas? Não haverá, pelo contrário, todo um conjunto de conceitos analíticos, como o de “ambivalência” (não estou a sugerir que a ambivalência não exista), que tornaria difícil, se não impossível, chegar a um acordo sobre tais critérios? Para além do mais, em que medida tem sido investigada a questão de saber até que ponto as expectativas (conscientes ou inconscientes) e as teorias do psicanalista influenciam as “respostas clínicas” do paciente? (Para já não falar das tentativas conscientes de influenciar o paciente, propondo-lhe interpretações, etc.). Há anos, apresentei a expressão “efeito de Édipo” para descrever a influência de uma teoria, de uma expectativa, ou de uma previsão sobre o acontecimento que por ela é previsto ou descrito. Lembrar-se-ão certamente de que a cadeia causal que conduziu ao parricídio de Édipo teve início na previsão desse acontecimento pelo oráculo. Esse é um tema característico e recorrente de tais mitos, mas que não parece ter atraído o interesse dos psicanalistas, e talvez não por acaso. (O problema dos sonhos confirmativos sugeridos pelo psicanalista é discutido por Freud, por exemplo em Gesammelte Schriften, III, 1925, onde ele diz na pág. 314: “Se alguém afirmar que a maioria dos sonhos que podem ser utilizados numa psicanálise… tem origem na sugestão [do psicanalista], nenhuma objeção lhe pode ser colocada do ponto de vista da teoria analítica. Não há, porém, nada nesse facto”, acrescenta ele, surpreendentemente, “que diminua a fiabilidade das nossas conclusões”).

4 O caso da astrologia, hoje em dia uma típica pseudo-ciência, pode ilustrar este ponto. A astrologia foi atacada pelos aristotélicos e outros racionalistas, até ao tempo de Newton, pelo motivo errado – pela sua afirmação, atualmente aceite, de que os planetas tinham “influência” sobre os acontecimentos terrestres (“sublunares”). De facto, a teoria da gravidade de Newton e, em especial, a teoria lunar das marés, foi, em termos históricos, uma descendente do conhecimento astrológico. Newton, segundo parece, terá sentido bastante relutância em adotar uma teoria proveniente do mesmo saco de, por exemplo, a teoria de que as epidemias de gripe (“influenza”) se devem a uma “influência” astral. E Galileu, sem dúvida pela mesma razão, rejeitou efetivamente a teoria lunar das marés – a sua desconfiança em relação a Kepler pode ser facilmente explicada pela sua desconfiança em relação à astrologia.

******************************

A nossa edição:

Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, Lisboa, 2003, pp. 55-63.

******************************

Ainda o Turismo

Alfama
O bairro histórico de Alfama.

A Associação de Turismo de Lisboa divulgou hoje um relatório do qual destacamos os seguintes dados, relativos ao ano de 2015.

– 8.437 milhões de euros gerados pelo turismo na região de Lisboa.
– 149.914 novos postos de trabalho motivados pelo turismo.
– 7,3 milhões de hóspedes (o dobro de 2005).
– Aumentos proporcionados pelo turismo em 2015, relativamente ao ano anterior (2014): + 240 milhões de euros na hotelaria; + 200 milhões de euros na restauração; + 140 milhões de euros em transportes e compras; + 100 milhões de euros em congressos.
– De acordo com pesquisa levada a cabo pela ATL, 91% da população lisboeta considera que o turismo causa um impacto positivo na cidade.

As pessoas que estão cansadas e incomodadas devido ao aumento do número de turistas em Lisboa, sobretudo nos bairros históricos, deveriam olhar com atenção para estes números. A realidade mostra que o turismo é o setor que mais contribui para que a economia não esteja, nestes tempos difíceis, muito pior. A diminuição do desemprego em Portugal deve-se, em larguíssima medida, ao aumento do turismo. O “comportamento” positivo das nossas exportações deve-se também ao turismo, que representa 15% do total. Em suma, os milhões de cidadãos que nos visitam são os grandes responsáveis pela melhoria dos dados económicos do país. As receitas do turismo em 2016 ascendem, em todo o país, aos 12.680 milhões de euros, um crescimento de 10,7% face a 2015.

Entretanto, o Porto foi considerado o melhor destino europeu para 2017. O turismo diversifica-se em Portugal, já não é apenas Lisboa e o Algarve. Os prémios recorrentes que vencemos provam a nossa vocação turística. Uma vocação que se baseia numa característica genuinamente lusa — a universalidade do nosso povo e a qualidade, tão nossa, de bem-receber.

******************************

Um Encontro com o Marxismo

Mantive-me socialista durante vários anos, mesmo depois de ter rejeitado o marxismo; e se pudesse haver um socialismo combinado com liberdade individual, ainda seria socialista. Porque nada poderia ser melhor do que viver uma vida modesta, simples e livre numa sociedade igualitária. Passou-se algum tempo até eu reconhecer que isto não era mais que um belo sonho, que a tentativa para alcançar a igualdade põe em perigo a liberdade e que, perdida a liberdade, nem sequer entre os não-livres haverá igualdade.

O encontro com o marxismo foi um dos acontecimentos mais importantes do meu desenvolvimento intelectual. Ensinou-me uma porção de lições que jamais esqueci. Mostrou-me a sabedoria do dito socrático, “Sei que nada sei”. Tornou-me um falibilista e inculcou em mim o valor da humildade intelectual. E tornou-me mais consciente das diferenças entre pensamento dogmático e pensamento crítico.

******************************

A nossa edição:

Karl Popper, Busca Inacabada — Autobiografia Intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008, pp. 57-8.

******************************

Popper e o Liberalismo

******************************

Para evitar mal entendidos, quero deixar bem claro que emprego sempre os termos “liberal”, “liberalismo”, etc., no sentido em que ainda são geralmente usados em Inglaterra (embora, talvez, não nos Estados Unidos). Com “liberal” não me refiro a um simpatizante de um qualquer partido político, mas simplesmente a um homem que valoriza a liberdade individual e está desperto para os perigos inerentes a todas as formas de poder e autoridade.

******************************

A nossa edição:

Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, Lisboa, 2003, p.10.

******************************

Keynes – Uma Teoria Útil à Economia Mundial

keynes
John Maynard Keynes.

Quando após a Primeira Guerra Mundial, França e Inglaterra impuseram à Alemanha, além de outras sanções, o pagamento do esforço de guerra que tinham realizado (incluindo os empréstimos que tinham pedido aos Estados Unidos), o mundo entrou numa gravíssima crise económica, da qual sairia apenas depois de terminada a II Guerra Mundial. Antes da Grande Guerra, no início do século XX, a Alemanha era já o país mais industrializado da Europa e o seu grande motor económico. Ao passar, no espaço de meia década, de um país rico a um país devedor, esse papel ficou comprometido. A Alemanha viu-se obrigada a valorizar a sua moeda para saldar a pesada dívida que a obrigaram a contrair, e isto provocou uma inflação crescente, que nem dois avultados empréstimos dos Estados Unidos conseguiram estancar. No final dos anos vinte, a Alemanha deparou-se com uma hiperinflação e os Estados Unidos entraram em profunda recessão. Keynes tinha avisado que isto poderia acontecer na sua obra As Consequências Económicas da Paz, onde alertava para os graves perigos do desequilíbrio mundial causado pelas sanções à Alemanha.

Keynes pensou na melhor forma de resolver o problema causado por um mundo em depressão. A solução encontrada por Keynes foi a de propor uma política expansionista do Estado para reanimar a economia. (Isto contrariava o que acontecera logo após a Primeira Guerra Mundial, e o que acontece hoje na Europa). Grandes investimentos públicos – estradas, caminhos-de-ferro, portos, aeroportos, hospitais, escolas – para criar emprego, aumentar o consumo interno, fazer subir os preços, criar condições para o investimento privado e assim dinamizar por dentro o crescimento, até a produção começar a crescer e por essa via crescerem também as exportações, e assim se atingir um novo equilíbrio. De acordo com Keynes, fazer o ajustamento por via de cortes salariais não era solução. Isso não permitiria que os preços subissem e não contribuiria para que as empresas contratassem mais pessoas.

Por desenvolver uma resposta inovadora ao enorme desemprego resultante da Grande Depressão, Keynes inaugurou uma nova disciplina económica – a macroeconomia. O desemprego não é determinado pelo nível dos salários, mas pelo nível de produção e, em última análise, a nível mundial, resulta do Paradoxo da Poupança, da contração geral das economias. É geralmente aceite que se deve à aplicação no terreno das ideias de Keynes a retoma económica que ocorreu, sobretudo, após a II Guerra Mundial e que se prolongou por décadas. Esse período ficou conhecido como era keynesiana, um período entrecortado com algumas crises financeiras localizadas, sobretudo na década de setenta, mas sem a dimensão da anterior Grande Depressão nem da grave crise económica que afeta hoje a União Europeia, particularmente os países do Sul pertencentes à zona-euro. Estes abdicaram da prerrogativa de desvalorizarem as suas moedas, ao aderirem à moeda-única, e isto, na prática, resulta no mesmo que voltar à rigidez do padrão-ouro. Nestas condições, é muito difícil que estes países endividados consigam cumprir as suas obrigações financeiras.

De acordo com David Vines e Peter Temin, a resposta adequada está ainda em Keynes. É preciso que as economias mais fortes, nomeadamente a Alemanha, adotem políticas expansionistas, induzindo as economias mais fracas, nomeadamente a Grécia, Portugal, Espanha e Itália, a exportarem mais, investirem mais, criarem emprego e riqueza. Só assim poderão equilibrar-se. Como todos sabemos, esta visão é muito polémica. A Europa está dividida entre a visão keynesiana e a dos liberais e monetaristas que acham que os países endividados têm de emagrecer ainda mais, mesmo que esse emagrecimento implique o fim do Estado Social, tal como o conhecemos, um Estado Social que não podemos sustentar sem endividamento excessivo. Polémicas à parte, certo é que será necessário que os nossos países passem muitos anos a exportar mais do que importam para pagar à Alemanha. Mas para onde exportar o que é necessário se todos os países querem também exportar mais do que importam? Para a situação mudar é imperioso ultrapassar este Paradoxo da Poupança, mas não se vislumbra, com os atuais políticos europeus, como isso possa acontecer.

******************************

A nossa edição:

Peter Temin & David Vines, Keynes – Uma Teoria Útil à Economia Mundial, D. Quixote, 1ª edição, Lisboa, 2015.

******************************

Marx e os Anarquistas

A teoria do definhamento do Estado é profundamente irrealista, e penso que poderá ter sido adotada por Marx e Engels essencialmente para obterem vantagem em relação aos seus rivais. Os rivais a que me refiro são Bakunin e os anarquistas; Marx não gostava que o radicalismo de quem quer que fosse ultrapassasse o seu próprio. Como Marx, também eles aspiravam à derrocada da ordem social existente mas dirigiam os seus ataques contra o sistema político-legal, em lugar do sistema económico. Para eles, o Estado era o inimigo que se tornava imperioso destruir. Não fossem os seus concorrentes anarquistas, e Marx, partindo das suas próprias premissas, teria chegado facilmente ao reconhecimento da possibilidade de que a instituição do Estado, sob o socialismo, desempenhasse funções novas e indispensáveis, como seja as de salvaguardar a justiça e a liberdade que lhe foram conferidas pelos grandes teóricos da democracia.

******************************

Karl Popper, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 317-18 (nota 8 ao cap. 17).

******************************

Sobre a História

Não há uma história da humanidade, há apenas um número indeterminado de histórias de todo o tipo de aspetos da vida humana. E um deles é a história do poder político. Esta é elevada à categoria de história universal. Mas isto, a meu ver, constitui uma ofensa contra qualquer concepção decente de humanidade. É pouco melhor do que tratar a história das fraudes, ou do roubo, ou do envenenamento como sendo a história da humanidade, porquanto a história da política do poder nada mais é do que a história do crime internacional e dos assassínios em massa (incluindo, é verdade, algumas tentativas para os eliminar). Esta história é ensinada nas escolas e alguns dos maiores criminosos são exaltados como os seus heróis.
Mas não haverá de facto uma história universal, no sentido de uma história concreta da humanidade? Não pode haver. Deve ser esta a resposta de qualquer humanitário, creio eu, e especialmente a de qualquer cristão. Uma história concreta da humanidade, se a houvesse, teria de ser a história de todos os homens. Teria de ser a história de todas as esperanças, lutas e sofrimentos humanos. Porque não há homem algum que seja mais importante do que qualquer outro. E é evidente que essa história concreta não pode ser escrita. Teríamos de fazer abstrações, de selecionar, de deixar coisas de lado. Mas, desse modo, chegamos às histórias múltiplas; e, entre elas, à história do crime internacional e do assassínio em massa que tem sido propagandeada como a história da humanidade.
Mas porque foi escolhida a história do poder e, não, por exemplo, a da religião ou a da poesia? São diversas as razões. Uma é a de que o o poder nos afeta a todos e a poesia a apenas uns poucos. Outra é que os homens estão inclinados a adorar o poder. Mas é inquestionável que a adoração do poder é uma das piores espécies de idolatria humana, uma relíquia dos tempos de prisão, de servidão humana. O culto do poder nasceu do medo, uma emoção que é desprezada com razão. Uma terceira razão pela qual o poder político se converteu no cerne da “história” é que aqueles que detinham o poder queriam ser adorados e podiam impor os seus desejos. Muitos historiadores escreveram sob a supervisão de imperadores, de generais e de ditadore
s.

******************************

A nossa edição:

Karl Popper, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, vol.II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, pp. 265-6.

******************************

Estreito de Messina, Itália

estreito-de-messina
Em primeiro plano a Villa San Giovanni, na Calabria; em segundo, a costa oriental da Sicília (entre estes dois planos encontra-se o Estreito de Messina); em terceiro plano, o Etna.
estreito-de-messina2
A localidade de Torre Faro no extremo Nordeste da Sicília. Para quem vem de navio do Sul (de Malta, como foi o nosso caso), aqui é o fim do Estreito de Messina. O centro da cidade que dá nome ao estreito, fica uns oito quilómetros antes deste extremo.
stromboli
Continuando a subir chegamos ao Mar Tirreno, onde são visíveis as belas ilhas Eólias – Património Mundial da UNESCO. Uma das oito é  esta ilha de Stromboli, onde se situa um dos três vulcões ativos de Itália.

******************************