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Viagens de todo o tipo, tamanho e duração, realizadas por um andarilho de Alfama.






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O Vietname é um país ainda muito marcado pelo colonialismo e pela guerra2, mesmo que para as novas gerações esses tempos façam já parte da história . À semelhança da China (embora as comparações com a China não sejam muito bem recebidas no Vietname), o seu regime de partido único vem abrindo a economia do país à iniciativa privada. Essa abertura tem permitido o investimento estrangeiro, o incremento do turismo e a criação de mais infraestruturas, num país onde ainda falta quase tudo. Isto proporcionará, em princípio, a criação de empregos, o aumento do consumo e do poder de compra3, em suma, uma melhoria significativa na vida dos (cerca de 95 milhões) de vietnamitas.
Porém, a abertura económica será sempre insuficiente, se não conduzir à abertura política. E abertura política implica um sistema educativo livre, sem condicionamento ideológico. Como em todas as sociedades, também no Vietname a batalha do bem-estar social começa na Educação.
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1 Foto de Fla.
2 As consequências da guerra foram terríveis e ainda se sentem hoje. Os americanos lançaram quatro vezes mais bombas sobre território vietnamita do que todas as bombas lançadas durante a II Guerra Mundial. Os efeitos são, ainda hoje, devastadores, com vastas regiões envenenadas com a dioxina TCDD presente nos milhões de litros de agente laranja lançados dos aviões norte-americanos.
3 Do PIB per capita.
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O Sri Lanka é um país bastante influenciado pela proximidade à Índia, de onde chegaram os primeiros habitantes da ilha. No século XIV uma dinastia do Sul da Índia formou um governo tamil no Nordeste do território, antes da chegada dos portugueses, que dominaram o comércio nas zonas costeiras, no início do XVI. Depois vieram os holandeses (século XVII) e mais tarde os ingleses (século XVIII), que, à época, formavam já o maior império mundial de sempre. Na altura a ilha era conhecida como Ceilão e, embora independente desde 1948, apenas lhe mudaram o nome para Sri Lanka em 1972.

Depois disso, as crescentes tensões entre a maioria singalesa e a minoria tamil culminaram numa guerra civil, que se iniciou em julho de 1983 e durou mais de um quarto de século. Negociações intermediadas pela Noruega conduziram a um cessar-fogo em 2001, mas a guerra nunca verdadeiramente terminou e ganharia nova força, em 2006, até os tamis serem derrotados, em maio de 2009. Os governantes pós-conflito, primeiro o presidente Mahinda Rajapaksa e depois o presidente Maithripala Sirisena e o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe (o Sri Lanka tem um regime semi-presidencialista), procuraram desenvolver o país, criando infraestruturas (sobretudo com financiamento chinês), e aprofundar a democracia, respeitando os direitos humanos e promovendo a reconciliação nacional.

De acordo com dados governamentais, cerca de 900.000 pessoas deslocadas devido ao conflito interno, estavam realojadas em outubro de 2017 (o total de habitantes do Sri Lanka ronda os 22 milhões e meio). A reconciliação nacional parece bem encaminhada. O desenvolvimento do país passa também pelo combate à corrupção (um dos principais problemas), pelo potenciamento da excelente localização geográfica (sobretudo para o comércio marítimo) e pelo incremento do turismo, como pudemos comprovar durante a nossa curta estadia.

Resta dizer que, a par da corrupção, um dos principais problemas do Sri Lanka é a degradação ambiental: as atividades de mineração provocam a erosão de zonas costeiras; e o saneamento básico é ainda incipiente, o que, em conjunto com os resíduos industriais, provoca a poluição dos recursos de água potável. Uma boa forma de conhecer Colombo, a capital, é alugando um tuk-tuk, pelo preço médio de 10 dólares/hora. O motorista levá-lo(a)-á aos locais mais interessantes (o que durará, no máximo, 4/5 horas). Isto, claro, contribuirá ainda mais para a poluição da cidade, que, como também foi notório durante a nossa estadia, é bastante elevada. Porém, passear a pé durante o dia em Colombo é pouco recomendável – o calor é muito difícil de suportar.

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Apesar da sua ligação à China, Hong Kong mantém uma grande autonomia, devido à condição de ex-território britânico. A concentração de pessoas é ainda maior do que em Singapura. O único remédio é construir em altura, por isso os arranha-céus estão por todo o lado. Pontualmente, às oito da noite, milhares de pessoas assistem todos os dias ao espetáculo Symphony of Lights, nos passeios marítimos de ambos os lados do Victoria Harbour .

Circulando por aí pudemos ouvir línguas de viajantes vindos de todas as partes do globo. Eles são a prova de que Hong Kong é, hoje mais do que nunca, um dos territórios mais cosmopolitas do mundo. Apesar disso, a ameaça chinesa é uma constante na vida dos habitantes do território. Embora sob soberania da China desde 1997, Hong Kong possui um estatuto autónomo que se prolongará até 2047. Houve quem pensasse que este período de 50 anos fosse suficiente para que Hong Kong funcionasse como uma espécie de farol para a China, atraindo este gigantesco e multifacetado país para os direitos humanos e a democracia.

Quase a meio do percurso, o que se verifica é que nada disto ocorreu, antes pelo contrário, para grande preocupação, evidenciada em enormes manifestações, dos habitantes de Hong Kong. A política da China é de uma enorme hipocrisia. Mas as potências ocidentais não estão isentas de responsabilidades ao tolerarem a simulação e propaganda chinesas. Tudo isto porque o gigantesco mercado chinês proporciona enormes lucros a muitas empresas ocidentais. Disto se vão aproveitando os chineses para grande preocupação de todos os territórios vizinhos, sobretudo Hong Kong, Macau e, muito particularmente, Taiwan.

A China tem claramente uma política expansionista que só será travada (se o for) quando o Ocidente perceber que tem de colocar a política à frente dos negócios, aplicando medidas económicas restritivas, e mesmo sanções, que travem a expansão chinesa e o desrespeito pelos direitos humanos, ajudando a criar as condições necessárias para a implantação de uma verdadeira democracia. O povo de Hong Kong merece a nossa admiração pela sua luta pela liberdade. Foi com esse sentimento que nos despedimos.
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Desculpem interpolar-vos, mas é só para dizer que podem encher a vossa garrafa com água da rede as vezes que quiserem. A água canalizada é muito boa, muito melhor que a engarrafada, e é gratuita, claro. São de onde? Ah, Brasil e Portugal. Deixe-me perguntar-lhe uma coisa, qual a temperatura em Setembro? Sim, estou a pensar visitar o seu país. Em Portugal fala-se inglês? “Great”. Vocês, portugueses, são extraordinários, estiveram em Malaca há muitos anos. Gosto de estudar a história dos países que quero visitar. Espere, deixe-me ver uma coisa no telemóvel, cá está, “Formosa”, foi o nome que vocês deram à ilha de Taiwan. Quer dizer “linda”, não é verdade? Sim, sim, a língua oficial de Singapura é o malaio, mas como pode ver a que usamos realmente é o inglês, a língua do comércio e dos negócios. Repare, os países que quiseram retomar as línguas nativas, como o Sri Lanka, ficaram para trás. Eu sei, é o antigo Ceilão português. Estão gostando da cidade? Ah, ótimo, pois ainda bem que estão aqui para ver com vossos olhos. Muitos estrangeiros não entendem o nosso sistema, pura e simplesmente, não percebem. Sabe, nós não temos pensões de reforma em Singapura. Eheheh, vejo que ficou surpreendido, é normal, todos se surpreendem, mas funciona lindamente. Como? Bem, o patrão desconta 20% do seu salário para um fundo próprio e você outros 20%. Quando se reforma o dinheiro é seu. O sistema de educação? Claro, é exigente, os alunos são avaliados com rigor e os que se destacam são escolhidos para o governo e cargos públicos. A oposição? Existem seis partidos no parlamento, mas as pessoas têm escolhido sempre o mesmo desde a independência. Sabe, somos um país extremamente estável. E também pequeno, claro, é por isso que o espaço é tão valorizado. Com um espaço tão reduzido não temos terrenos agrícolas (isto não deixa de ter a sua ironia, pois os terrenos onde se ergue Singapura não são os mais adequados para a agricultura), mas isso não nos preocupa, e muito menos desde que comprámos terrenos férteis na China e na Indonésia. Mesmo assim, veja bem, nesta terra reduzida somos 5,5 milhões, sem contar com os 17 milhões que nos visitam anualmente e os 50 milhões que circulam pelo nosso aeroporto. Somos um “hub” nos transportes marítimo e aéreo, e somos um país atrativo porque os impostos são baixos. O teto dos impostos que pagamos sobre o rendimento estava em 20% mas há pouco passou para 22%. Pessoas como eu pagam 9 ou 10%. Além disso, não somos nacionalistas e o investimento estrangeiro é bem-vindo, desde que seja bom. Repare, o nosso herói nacional é um britânico, Sir Stamford Raffles. Bem sei que pode parecer um bocado estranho para um europeu, mas isto é Singapura. Sabe, tenho um amigo espanhol, bem, na verdade é amigo de um amigo meu, que me disse um dia que trabalhamos de mais e não temos qualidade de vida. Ai é, temos talvez o melhor sistema de saúde do mundo e não temos qualidade de vida? Ahahah! Como funciona? Vejo que o senhor se interessa, ainda bem que está aqui para ver com seus olhos! O sistema de saúde é universal e cada cidadão pode recorrer a hospitais públicos ou privados, que concorrem entre si, enquanto o Estado garante regras equitativas. Cada um contribui com uma percentagem do salário, de acordo com as suas possibilidades. “It works!” Gastamos com o nosso sistema de saúde menos de 5% do PIB, cobrindo todas as áreas, incluindo a saúde mental, com as melhores práticas mundiais. Sabia disso? Bom, espero que apreciem a cidade, observem, vejam como funciona. Foi um prazer conhecer-vos, boa viagem!

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Os cruzeiros de reposicionamento são cruzeiros mais longos (há uma tipologia de cruzeiros com duração ainda mais longa, denominada “volta ao mundo”) e servem para os navios se deslocarem para zonas do globo (por exemplo do Mediterrâneo para as Caraíbas ou vice-versa) onde operam durante alguns meses, normalmente em condições climatéricas (e, claro, económicas) favoráveis à sua atividade. Daí a expressão: reposicionamento. São cruzeiros com menos procura e, por isso, mais baratos (se tivermos em consideração o custo unitário/dia). O principal problema é a época em que se realizam: em geral, quando as pessoas não estão de férias. Mas, desde que se tenha disponibilidade, valem a pena. O cruzeiro que aqui resumidamente relatamos teve origem em Génova, no dia 6 de dezembro, e terminou no Dubai, 18 dias depois, contemplando sete países. Vejamos os principais lugares por onde passámos.











O navio (MSC Splendida) ficará agora cerca de três meses e meio no Golfo Pérsico até partir para o Mar da China, onde cumprirá mais uma temporada, circulando entre países como o Japão, a Coreia do Sul e, claro, a própria China. Nessa nova viagem de reposicionamento, de Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos) a Yokohama (Japão), durante 26 dias, visitará mais nove países – do Médio ao Extremo-Oriente. Mais um cruzeiro de reposicionamento muito atrativo para quem tiver disponibilidade de viajar em abril, mês em que decorrerá a viagem.
Entretanto, seria muito interessante que uma indústria tão próspera quanto o é a dos cruzeiros marítimos e fluviais, mostrasse uma maior (e efetiva) preocupação ambiental. Um grande navio de cruzeiro (e há que ter em conta que eles são cada vez maiores) polui o equivalente a mais de 100.000 automóveis, algo inconcebível numa época em que as questões ambientais constituem uma prioridade a nível mundial.
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