Açores, grupo central.

O Pico visto da Calheta, em São Jorge.

Vento Leste não dá nada que preste.

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas.

As nove ilhas açorianas dividem-se em três grupos: oriental, central e ocidental. Enquanto cada um dos dois grupos mais afastados têm apenas duas ilhas, o grupo central é constituído por cinco ilhas: Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial[1]. Estas três últimas localizam-se muito perto uma das outras, pelo que é possível viajar entre elas através de travessias regulares, asseguradas por embarcações locais. Terceira e Graciosa ficam um pouco mais longe, ainda assim não tanto que não possam ser visitadas da mesma forma. É perfeitamente possível, portanto, incluir as cinco ilhas dentro de uma mesma viagem ao grupo central dos Açores. No nosso caso, viajámos entre Pico, São Jorge e Faial de barco, e entre Pico e Terceira de avião, antes do regresso a Lisboa, a partir de Angra do Heroísmo.

No primeiro dia da nossa viagem voámos de Lisboa para o Pico[2], onde ficámos instalados num alojamento local perto de São Roque. A melhor forma de percorrer as ilhas açorianas, sobretudo para quem não tenha muito tempo, é de carro. Foi o que fizemos em todas elas. O aluguer de automóveis é fácil e barato, e não envolve muita burocracia.

O azul do mar e o verde da terra: as cores dos Açores.

Todas as ilhas dos Açores são diferentes, embora todas tenham também coisas em comum, destacando-se, claro, a ligação à Natureza: o mar e os prados verdejantes. Ambos constituem as tradicionais fontes de rendimento dos açorianos, a que se vem juntando, até agora de forma sustentável, o turismo. É muito importante que o turismo cresça (pois ainda há espaço para crescer) sustentavelmente.

A ilha do Pico, a mais jovem dos Açores, tem uma característica interessante: é lá que fica a montanha que dá nome à ilha, a mais alta de Portugal, precisamente, o Pico. Muitas vezes coberto de nuvens cerradas, uma subida ao Pico não é recomendável sem acompanhamento, sobretudo no Inverno, quando o tempo se torna ainda mais instável. Era nossa intenção fazê-lo, mas tal não foi possível, porque o tempo não o permitiu. “Tempo” que é peculiar nos Açores. De facto, é normalíssimo encontrarmos um céu carregado de nuvens num dos lados de uma ilha e um céu limpo no lado oposto, a poucos quilómetros de distância. Verificámos isso numa viagem anterior a São Miguel e também nesta viagem, no Pico, no Faial, na Terceira e em São Jorge. A montanha do Pico pode cobrir-se totalmente de nuvens, ou apresentar um anel de nuvens no meio, deixando a base e o topo a descoberto, ou ficar com apenas o cume ou a base cobertos, ou outra qualquer alternativa: são poucos os dias completos do ano em que a montanha se encontra totalmente visível, do topo à base.

Feminina, em forma de seio, assim é a montanha mais alta de Portugal.

Outra atração da ilha do Pico são os currais, vinhas protegidas por muros de pedras. Estas vinhas são plantadas no chão de lava negra, fruto de erupções vulcânicas ocorridas no século XVIII, e a que o povo dá o nome de “mistérios”. Esses muros perfazem muitos milhares de quilómetros, há quem diga que os suficientes para circundarem o globo terrestre, e são testemunho da persistência das gentes do Pico. Os cachos pendurados nas frágeis videiras teimam em persistir também. O vinho do Pico é raro, especial, único, apropriado para acompanhar os peixes e frutos do mar da região, sobretudo o que resulta das castas brancas. O verdelho do Pico atingiu por mais de dois séculos fama internacional, chegando à mesa dos czares da Rússia. No século XIX, assistiu-se ao fim do “ciclo do verdelho”, tendo as vinhas sido devastadas pelos oídio e filoxera. É nesta época que muita gente da ilha emigra para o Brasil e a América do Norte. No século XX as vinhas foram recuperadas e, desde 2 de julho de 2004, a Paisagem da Cultura da Vinha do Pico foi elevada ao estatuto de Património Mundial pela UNESCO[3].

A flora primitiva e endémica do Pico é muito rica e rara, e algumas das espécies têm estatuto de proteção. A diversidade faunística e florística tem vindo a ser ampliada, com a introdução de novas espécies, sobretudo florestais. A zona oeste da ilha, onde predominam os terrenos de lava, é considerada uma zona privilegiada e única para o cultivo não apenas da vinha, mas também de árvores de frutos.

As vinhas e pomares do Pico são testemunhos da persistência das suas gentes, os picoenses, também conhecidos como picarotos.

As três principais localidades do Pico são Madalena, São Roque e Lajes, as duas primeiras com cais onde atracam navios que fazem ligações às outras ilhas do grupo. Lajes do Pico, no lado sul da ilha, onde o mar é mais calmo, fica junto a uma larga baía, e é uma vila muito bonita onde se come regiamente[4]. Foi a primeira localidade do Pico a ser habitada. Para cruzar a ilha de norte para sul, ou vice-versa, é necessário subir e descer o planalto central, o que proporciona vistas espectaculares sobre as encostas da ilha e o mar[5]. São Jorge e o Faial são vistos de vários pontos do Pico e parecem ali mesmo à mão. No entanto, as viagens de barco não são fáceis pois o mar, sobretudo no Inverno, pode ser tumultuoso e perigoso. São inúmeros os casos de naufrágio ocorridos nas travessias entre ilhas.

A vida marítima, sobretudo a faina da pesca, é largamente retratada na literatura açoriana, cuja tradição é injustamente desconhecida da maioria dos portugueses. A obra mais famosa de um escritor açoriano sobre os Açores é provavelmente Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, mas muitos outros romances e contos, de escritores desconhecidos do grande público, como Ernesto Rebelo, Tomás da Rosa ou Vasco Pereira da Costa, mereceriam a nossa atenção.

Uma das célebres fajãs dos Açores. Ao fundo, a ilha Graciosa. São Jorge tem mais de sessenta fajãs.

Dois dias depois de nos termos instalado no Pico, fomos visitar a ilha de São Jorge. Do cais de São Roque embarcámos no Gilberto Mariano[6] rumo à simpática vila de Velas, de onde partimos à descoberta da “Ilha Castanha”. Antes de embarcarmos pudemos testemunhar uma minúscula parte das dificuldades que as águas açorianas colocam às gentes do mar. Os marinheiros não conseguiam estabilizar a embarcação, pois a ondulação não o permitia, e só conseguimos entrar no navio a correr, num pequeno intervalo entre duas vagas. Muitas vezes, as carreiras são suspensas ou fica interditado o transporte de viaturas, não sendo possível levar o carro para outra ilha. Isso aconteceu connosco, pelo que tivemos de alugar um novo carro em São Jorge, coisa que fizemos também no Faial e na Terceira[7].

São Jorge é a ilha mais central dos Açores. Do Pico da Esperança, o ponto mais alto da cordilheira que atravessa longitudinalmente a ilha, é possível avistar todas as ilhas-irmãs do grupo central. Uma das atrações de São Jorge são as fajãs. Uma vez que são terrenos planos que entram pelo mar, proporcionam imagens lindíssimas quando vistas de cima por quem desce da cordilheira central. Entre outras, visitámos as fajãs dos Cubres e da Caldeira do Santo Cristo, bem como as piscinas naturais da Fajã das Pontas, na costa norte da ilha. Quanto às localidades, tal como no Pico, são três as principais: Velas, Calheta e Topo. Esta última foi a primeira a ser habitada e possui um pitoresco porto de pesca. Em Velas encontram-se belas igrejas, sobretudo a igreja de Santa Bárbara, construída no século XVIII, uma das mais bonitas igrejas açorianas, classificada como Monumento Nacional, e na Calheta vale a pena visitar as piscinas naturais. São Jorge é um paraíso para os amantes dos desportos náuticos. Quem goste de um bom banho de mar pode desfrutar, além das piscinas naturais, de praias de calhau rolado em vários pontos da ilha.

Nos prados dos Açores pasta o melhor gado bovino do país. O queijo de vaca da ilha de São Jorge é de qualidade superior, sobretudo o de cura prolongada, de cerca de dois anos.

Na volta de São Jorge, devido ao estado do mar, o Gilberto Mariano não pode atracar em São Roque do Pico. Desembarcámos na Madalena e daí um táxi pago pela empresa de transporte marítimo levou-nos a São Roque, onde tínhamos o carro. No dia seguinte regressaríamos a Madalena para mais uma viagem de barco, desta feita até à cidade da Horta. O Faial é uma ilha pequena (quando comparada com as vizinhas Pico e São Jorge), quase redonda, que se circunda percorrendo poucos quilómetros de carro. Para a atingirmos, de barco, temos de atravessar o célebre canal do Faial. São incontáveis as histórias sobre incidentes que ocorreram ao longo do tempo nesta travessia. Pudemos sentir a força do mar, as correntes cruzadas, o vento agreste. Imagine-se quando isto era feito à vela!

Na Horta, elevada a cidade em 1833 como reconhecimento à sua adesão à causa liberal, tomámos um carro alugado e iniciámos a nossa visita ao Faial. A nossa primeira paragem foi na Caldeira, uma cratera com cerca de 2 km de diâmetro e 400 metros de profundidade, bem no centro da ilha. A área circundante, onde imperam as hortênsias azuis[8] e se destacam cedros, zimbros, faias, fetos e musgos, está classificada com Reserva Natural[9]. Um estreito caminho, protegido por uma cerca, contorna a cratera, proporcionando vistas incríveis sobre o mar, o Pico e as encostas verdejantes do Faial.

Encosta sudeste da Ilha Azul, o célebre Canal do Faial e a Ilha do Pico.

Descendo pelo mesmo caminho, chegámos à estrada que circunda a ilha, iniciando esse circuito no sentido contrário aos do ponteiro do relógio. Passámos por várias localidades, entre as quais, Praia de Almoxarife, Ribeirinha, Salão, Cedros e Praia do Norte, até atingirmos os Capelinhos, onde visitámos o farol e o Centro de Interpretação. A história do vulcão dos Capelinhos é famosa. As erupções começaram em setembro de 1957, a cerca de 1 km da costa, sob o mar, e duraram mais de um ano, até outubro de 1958. O material expelido formou uma pequena ilha que mais tarde, através de um istmo, se uniu ao Faial, que viu, assim, a sua área aumentada em 2,4 km 2. A população, aterrorizada, com muitas casas e culturas arrasadas, emigrou em larga escala para a América, deixando a ilha com menos de metade da população[10]. No Centro de Interpretação pudemos observar uma excelente exposição sobre a formação das nove ilhas açorianas, todas de origem vulcânica, todas “plantadas a meio do Atlântico, nos instáveis limites de diversas placas tectónicas e a curta distância da dorsal médio-atlântica”[11].

O material expelido por um vulcão sub-aquático formou os atuais Capelinhos.

O atual território dos Açores, a cerca de 760 milhas náuticas de Lisboa e de 2110 de Nova Iorque, faz parte de uma vasta plataforma oceânica situada entre as placas norte-americana (a oeste), euro-asiática (a nordeste) e africana ou núbia (a sul), a denominada Microplaca dos Açores, cujas zonas mais elevadas correspondem às nove ilhas e ilhéus a elas associados. Essa microplaca terá sido formada há uns “meros” 60 milhões de anos.

A nossa viagem em torno da ilha continuou sem mais paragens em direção à cidade da Horta, passando por Castelo Branco, Feteira e Flamengos. Nesta última localidade se instalaram, no século XV, um grupo de flamengos comandados por Josse Van Huerter[12]. Depois do almoço na Horta, dedicámos algum tempo a deambular por esta bonita cidade. Destacam-se as igrejas de Nossa Senhora do Carmo, de São Francisco, de São Salvador e o porto da Horta, escala para inúmeras embarcações que cruzam o Atlântico, e onde se encontra um simbólico paredão com inscrições de mensagens desenhadas por tripulações de todo o mundo.

Porto Pim e a cidade da Horta vistos do Monte Guia.

Vale a pena subir ao Monte da Guia (tal como os Capelinhos um antigo vulcão que se juntou à ilha do Faial após uma erupção no mar) e desfrutar da vista deslumbrante sobre a cidade da Horta e a enseada de Porto Pim, junto à qual se encontra a Fábrica da Baleia, uma infraestrutura industrial, antiga fábrica transformada em Centro do Mar, onde estão expostos os equipamentos necessários ao aproveitamento integral dos cachalotes. Aí funciona também o Centro Virtual de Interpretação Marinha.

Foi em Porto Pim que, depois de descermos do Monte da Guia, repousámos numa esplanada, tomando uma cerveja, deixando correr o pouco tempo que restava até a hora de partida da embarcação que nos transportaria de novo à nossa ilha-base, o Pico.

A cidade da Horta com seu casario branco e a própria “Ilha Azul” foram ficando para trás, à medida que o navio, sobre um mar enrolado, se aproximava dos dois ilhéus da Madalena (“Deitado” e “Em Pé”), a porta de entrada para o porto homónimo, aonde chegámos ao anoitecer.

A simpática praia de Porto Pim. Ao fundo, o edifício da Fábrica da Baleia.

A última ilha que visitámos foi a Terceira, que fica a cerca de meia-hora de voo do Pico. Após o desembarque nas Lajes, dirigimo-nos à empresa de aluguer de automóveis e, já ao volante de uma nova viatura, prosseguimos para Angra do Heroísmo para deixar as malas na pousada e logo seguirmos viagem à descoberta deste novo território. Como não tínhamos ainda almoçado, fomos primeiro à procura de um restaurante à beira-mar, com a ideia de comermos um peixe grelhado. Indicaram-nos, precisamente, o “Beira-Mar”, em São Mateus da Calheta, mas estava fechado. Porém, alguém nos disse que o “Quebra-Mar”, uns 200 metros mais à frente, estava aberto e era do mesmo dono, pelo que nos dirigimos para lá. Este estava aberto. Abrimos a refeição com umas cracas e depois provámos uma sopa de peixe servida dentro de um pão, a que se seguiu um boca-negra grelhado; para acompanhar, um verdelho dos Biscoitos[13]. Reconfortados, iniciámos a nossa viagem à volta da ilha, desta vez na direção dos ponteiros do relógio.

Depois de São Mateus passámos por várias localidades até pararmos em Biscoitos, no lado oposto (norte) da ilha. Aqui se encontram umas piscinas naturais muito bonitas, formadas entre as rochas pela entrada da maré alta. Segundo nos disseram, é um dos locais de veraneio preferidos dos terceirenses. A paragem seguinte foi em Praia da Vitória, uma cidade orgulhosa do seu passado por ter sido aí, em 11 de agosto de 1829, que os absolutistas afetos a D. Miguel sofreram a primeira derrota militar dos liberais. Ao comando destes esteve o duque da Terceira, não permitindo que os 4000 homens transportados em vinte e uma embarcações conseguissem desembarcar na então Vila da Praia[14], que ganhou, ainda nesse ano, a designação de Praia da Vitória.

Sopa de peixe servida dentro de um pão. Uma especialidade do “Quebra-Mar”, em São Roque, na Terceira.

Algo que não se pode perder na Praia da Vitória é uma visita à Casa-Museu Vitorino Nemésio. Muitas curiosidades sobre a sua biografia podem ser aqui desvendadas[15]. A ação do seu romance mais famoso, Mau Tempo no Canal, é passada precisamente nas quatro principais ilhas do grupo central que visitámos: Pico, Faial, São Jorge e Terceira. A entrada na casa onde Nemésio nasceu fez-nos recuar à nossa própria infância, e ao programa televisivo, ainda a preto-e-branco, Se Bem me Lembro

Nos dois dias que passámos na ilha Terceira deparámos em todas as freguesias com “Impérios”, edifícios em honra do Espírito Santo, a maioria pintada com cores garridas pelos habitantes locais. Em todo o arquipélago, não apenas na Terceira, sobressaem além dos “Impérios”, as festas em honra do Divino Espírito Santo. Na Terceira, a duração destas festas vai desde o dia de Pentecostes até ao final do verão[16]. Durante os festejos, sobretudo nas povoações mais rurais, os terceirenses divertem-se com as touradas à corda, uma tradição caricata e perigosa que tem particular incidência nesta ilha. Embora as festas do Divino Espírito Santo possuam uma estrutura tradicional comum, apresentam bastantes variantes entre as várias ilhas do arquipélago e, dentro da mesma ilha, entre os vários Impérios.

Vista panorâmica da Praia da Vitória. Aqui nasceu e brincou Vitorino Nemésio.

No segundo dia na Terceira fomos conhecer o Algar do Carvão, “Monumento Natural Regional”, sensivelmente no centro da ilha, formado por grutas com cerca de 90 metros de profundidade, onde se podem ver estalactites e estalagmites, e uma lagoa que sobe ou desce consoante a chuva. A água escorre pelas paredes e o ambiente é muito húmido. O Algar do Carvão é uma “chaminé vulcânica”, formada há cerca de 3200 anos. Numa das grutas tivemos o privilégio de assistir a um mini-recital de um guia turístico açoriano que, para mostrar a extraordinária acústica do local, cantou a Avé Maria de Schubert, perante uma plateia boquiaberta. Se algum empresário de bel canto for um dia ao Algar do Carvão, é bem possível que contrate este magnífico cantor.

O tempo restante desta nossa viagem aos Açores passámo-lo deambulando por Angra do Heroísmo, uma das mais belas cidades açorianas, com papel destacado, como vimos, na história de Portugal. O património edificado é rico. A Sé Catedral, a Igreja da Misericórdia, os Convento e Igreja de São Francisco, o Palácio dos Capitães Generais, o Alto da Memória, o Mercado Duque de Bragança, valem todos uma visita. O Monte Brasil, onde fica a Fortaleza de São João Baptista, e as vistas que de lá se proporcionam sobre a cidade de Angra, é algo que nenhum visitante pode perder.

Na noite do nosso segundo dia na “Ilha Lilás”, iniciámos, com o coração cheio, a última etapa da nossa viagem, desta feita, rumo ao Algarve.

Um dos Impérios da ilha Terceira.

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Notas:

[1] Pensa-se que as ilhas açorianas dos grupos oriental e central foram descobertas em 1427 e as duas ilhas do grupo ocidental (Flores e Corvo) em 1452.

[2] As ligações diretas entre Lisboa e o Pico iniciaram-se em 2005 e vieram dar um novo impulso ao turismo na ilha.

[3] Engloba os sítios do Lajido da Criação Velha e do Lajido de Santa Luzia.

[4] A gastronomia do Pico é rica, com destaque para o caldo de peixe, o arroz de lapas, o polvo guisado com vinho e a linguiça com inhames, entre outros, acompanhados por pão e bolo de milho caseiros.

[5] São inúmeros os miradouros do Pico nas estradas que sobem de Madalena, São Roque e Lajes para o centro de ilha. Destaque para o miradouro da Terra Alta, entre Santo Amaro e Piedade, com uma vista imponente sobre a ilha de São Jorge.

[6] Gilberto Mariano é uma figura quase mítica da Madalena do Pico. Analfabeto, fez durante muitos anos a entrega de cartas, encomendas, dinheiro, etc. na cidade da Horta, no Faial. Na volta, era portador de notícias de picarotos deslocados na ilha vizinha e de medicamentos em falta. Não há notícia de qualquer extravio de alguma mercadoria que lhe tivesse sido confiada, mesmo em tempos de invernia. Iniciou a sua atividade nos “Barcos do Pico” e depois na Empresa das Lanchas do Pico. Era particularmente dotado em amarrar embarcações nos dias de grande temporal. Conhecido como o “Gilberto das Lanchas”, tinha também, devido à sua envergadura e destreza, uma alcunha peculiar – o Arricana – aportuguesamento da palavra inglesa hurricane (furacão). Gilberto Mariano nasceu (1909) e morreu (1991) na Madalena do Pico.

[7] Numa viagem que inclua várias ilhas, como a nossa, é preferível alugar carro em cada ilha, porque o preço é praticamente o mesmo do que aquele que se pagaria pelo transporte de um único carro entre ilhas, e sobretudo porque isso evita os riscos associados à impossibilidade de transportar a viatura nas embarcações que fazem as travessias, devido ao estado do mar.

[8] Os grandes maciços de hortênsias justificam o título de “Ilha Azul”, que é atribuído ao Faial.

[9] Em todas as ilhas existem reservas naturais onde se podem observar algumas das quase 1000 espécies vegetais que povoam as ilhas, sendo que destas cerca de 300 são nativas e 60 endémicas.

[10] John F. Kennedy, então senador americano, esteve envolvido no Azorean Refugee Act, uma medida que facilitou a emissão de vistos às famílias faialenses. Esta medida abriria definitivamente as portas à emigração açoriana para os Estados Unidos. Estima-se que entre 1960 e 1990 tenham emigrado para os Estados Unidos da América cerca de 90 mil açorianos.

[11] https://nationalgeographic.sapo.pt/historia/grandes-reportagens/1554-capelinhos-setembro2007.

[12] Os moinhos de vento que encontramos nos Açores seguem a tradição flamenga.

[13] Uma boa informação sobre os peixes da gastronomia açoriana pode ser encontrada em: file:///C:/Users/User/Downloads/155267.pdf.

[14] Os Açores tiveram uma importância capital na luta entre liberais e absolutistas, e a Terceira, desde o início da Revolução de 1820, no Porto, aderiu à causa liberal. Em 1828, D. Miguel proclamou-se rei e o liberalismo caiu, mas enquanto o comandante militar da ilha de São Miguel apoiou os miguelistas, os terceirenses mantiveram-se fiéis ao liberalismo. Angra do Heroísmo foi transformada em sede da Junta Provisória (isto é, capital do Reino) em nome de Dona Maria, filha de D. Pedro. Em recompensa ao apoio dado à causa liberal, D. Maria II atribuiu, a Angra, o cognome de “mui nobre leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo” e à Praia da Vitória, o de “muito notável”. D. Pedro, após uma viagem pela Europa em que buscou apoios aos liberais, chegou à Terceira em 3 de março de 1832. Pouco depois, os liberais atacariam São Miguel e conquistariam a ilha. Todo o arquipélago acaba por aderir ao liberalismo. Os “Bravos do Mindelo”, um exército de 7500 homens comandados por D. Pedro, entrou no continente e, em 1834, recuperou a coroa portuguesa para Dona Maria II.

[15] O jovem que nos guiou pela casa era excelente, competente, com um gosto evidente e entusiástico pelo seu trabalho e, logo, pelas vida e obra de Vitorino Nemésio.

[16] As festas do Divino Espírito Santo têm natureza caritativa e o objetivo é a entrega do bodo aos mais necessitados da freguesia. Tudo começa no domingo da Trindade (o primeiro após o Pentecostes) com o sorteio para saber quem serão os mordomos do ano seguinte. O primeiro a ser eleito recolhe as insígnias do Espírito Santo – a coroa e a bandeira – e guarda-as em sua casa até a Pascoela, quando começam os festejos. É então que se realiza a coroação, sendo a coroa colocada, na igreja da freguesia, na cabeça do Imperador – criança ou adulto – que depois a leva em procissão até a casa de outro mordomo que a guarda por uma semana.

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Viena, Budapeste e Bratislava

A construção do parlamento húngaro durou de 1885 a 1904. Aqui foram usados 40 milhões de tijolos, 500 mil pedras decorativas e 40 quilos de ouro. 242 esculturas decoram o exterior e o interior deste edifício neogótico. É o maior edifício da Hungria e o terceiro maior parlamento do mundo.

BUDAPESTE

São três capitais muito próximas[1], ligadas pelo rio Danúbio, perfeitamente visitáveis num fim de semana prolongado. Os voos diretos low cost entre Faro e Budapeste, operados pela companhia húngara Wizz, tornaram esta escapadela ao coração da Europa ainda mais irresistível. A nossa visita começou por uma cidade monumental. Em Budapeste, somos brindados com magníficas obras de arte por todo o lado, sejam edifícios, pontes ou esculturas. A parte mais interessante da cidade é a que fica junto ao rio, na margem oeste (Buda) ou leste (Peste), onde dois edifícios, respetivamente, se destacam: o Palácio Real e o Parlamento húngaro. O Palácio alberga o Museu de História de Budapeste, a Biblioteca Nacional Széchenyi e a Galeria Nacional Húngara. Foi nesta última que tivemos o ensejo de visitar uma exposição sobre Frida Kahlo e a sua obra, patente ao público aquando da nossa visita. Seguindo a história deste imponente palácio podemos acompanhar grande parte da atribulada história de Budapeste e da própria Hungria, um país no centro da Europa, ocupado por mongóis, turcos, austríacos, russos, alemães e soviéticos. O Castelo de Buda, como agora é mais conhecido o palácio, foi inicialmente mandado construir por Sigismundo de Luxemburgo (1368-1437), rei da Hungria e das Terras Checas, à época, um dos mais poderosos soberanos europeus. Mais tarde, sob o reinado de Matias I (1458-1490), foi ampliado dentro do estilo renascentista, mas a ocupação turca, de 150 anos, e a consequente reconquista de Buda (com a ajuda dos Habsburgos), em 1686, provocaram a sua destruição.

Pátio dos Leões, no Palácio Real.

Seguiu-se um período que ficou conhecido como a “Era das Reformas”, quando muitas edificações emblemáticas, como a Academia Húngara das Ciências, o Museu Nacional e a Ponte Széchenyi (“Ponte das Correntes”), foram erguidas. Porém, um conflito armado traria de novo a destruição; desta feita, a revolução contra os Habsburgos, de 1848. Só a partir de 1867, após um acordo com o Império dos Habsburgos, Buda e Peste conheceram um novo impulso, desta vez o maior de sempre. Na viragem para o século XX uniram-se para formar Budapeste, esta lindíssima cidade que conhecemos. Data desta época a construção do Parlamento, o maior edifício da Hungria, cujo projeto foi desenhado por Imre Steindl. Mas, uma e outra vez, o processo de desenvolvimento seria interrompido, primeiro pela Grande Guerra (1914-1918) e, um quarto de século mais tarde, pela II Guerra Mundial, quando os soviéticos bombardearam e destruíram mais uma vez o Palácio Real, onde os alemães se aquartelavam. Nessa altura, já Budapeste era conhecida pelos seus belos cafés e esplanadas, pelos banhos termais, pela vida noturna e oferta cultural e, claro, pelas extraordinárias obras de arquitetura e escultura espalhadas por toda a cidade, tal como hoje.

Exposição de e sobre Frida Khalo, na Galeria Nacional Húngara, em Budapeste.

Quem visitar Budapeste poderá encontrar, antes ou já no decurso da viagem, roteiros que invariavelmente incluirão, além dos referidos Palácio Real e Parlamento, as pontes sobre o Danúbio (Ponte das Correntes, Ponte Isabel, Ponte da Liberdade e Ponte Margarida), a Colina Gellért (onde fica a Estátua da Liberdade), o Palácio Sándor, a Catedral de São Matias, o Bastião dos Pescadores, os Banhos (Király, Rác, Gellért, Rudas, Veli Bej), o Museu Etnográfico, a Basílica de Santo Estevão, o Grande Mercado de Budapeste, o Bairro Judeu e a sua monumental sinagoga , a Baixa de Peste, o Jardim Botânico, o Palácio das Artes, a Praça dos Heróis, o Passeio do Danúbio (ao longo do qual podemos encontrar belíssimas esculturas), etc., etc., etc.

Em Budapeste há muito que admirar. E quando cai a noite, a cidade não perde beleza, antes ganha cambiantes de oiro que refletem dos edifícios sabiamente iluminados. É quando um passeio de barco ao longo do Danúbio nos parece mais apropriado. Para acabar a noite, nada melhor que um drink no Szimpla Kert, um edifício perto do bairro judeu[2] que alberga bares, restaurantes, galerias, discoteca, lojas, e onde atuam músicos diversos ou DJs, todos os dias.

No interior do Szimpla Kert.

A decoração, mais ou menos caótica, as paredes interiores cobertas por uma panóplia incrível de objetos, constituem uma atração suplementar. O próprio edifício apresenta uma fachada exterior ornamentada com mísulas entre os pisos, balaustradas sob as altas janelas e a varanda central, e pequenos frontões sobre as mesmas: além de robusto e clássico, é mesmo muito bonito. A rua onde fica o Szimpla Kert tem vários restaurantes e bares e toda esta zona tem grande animação noturna. Uma visita a este espaço é algo que o recém-chegado a Budapeste não pode perder.

VIENA

Por seu lado, Viena é igualmente uma cidade monumental. Partindo de Budapeste de comboio, atingimo-la em cerca de duas horas e meia. A primeira coisa que convém fazer ao chegar à cidade é comprar um título de transporte que permite circular durante 24 horas em qualquer transporte público de Viena, pela módica quantia de oito euros. Recomenda-se vivamente a utilização do metropolitano, que é rápido, abrangente e de alta frequência.

Belvedere superior, Viena.

A nossa primeira paragem foi no Palácio Belvedere[3], um conjunto formado por dois edifícios principais e um parque histórico, desenhado no começo do século XVIII pelo prestigiado arquiteto Johann Lucas von Hildebrandt e considerado um dos conjuntos barrocos mais belos do mundo. Era residência de Verão do general austríaco Príncipe Eugénio de Saboia e é hoje parte do Património da Humanidade da UNESCO. A nossa visita incidiu sobre o Belvedere Superior, originalmente espaço de representação (o príncipe vivia no Belvedere inferior), agora espaço que alberga algumas das mais importantes pinturas do mundo, integradas numa coleção que inclui vários milhares de peças.

Desde logo, os quadros de Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, mas igualmente obras de outros autores austríacos, desde a Idade Média até aos nossos dias. E obras de Rodin, Monet, Manet, Van Gogh, Renoir, entre muitas outras. Uma manhã (ou tarde) inteira não é muito tempo para apreciar as belezas deste espaço que, nem seria necessário dizê-lo, são imperdíveis.

O famoso “Beijo”, de Klimt, a maior atração do Belvedere Superior.

Depois de Belvedere[4], ocupámos o nosso tempo à procura de locais relacionados com a vida de Karl Popper, nascido nesta cidade de Viena em 1902, uma tarefa que não se afigurou muito fácil. Constatámos, com alguma surpresa, que a maioria dos vienenses com quem falámos não conhecia Karl Popper[5]. Mesmo assim, conseguimos estar na rua onde ficava a casa em que viveu grande parte da infância, no liceu que tem o seu nome e na universidade de Viena, que frequentou. Por vezes, é muito interessante conhecer uma cidade através dos locais onde uma pessoa que admiramos viveu… A Universidade de Viena é particularmente interessante, com o seu enorme átrio sob cujas arcadas figuram bustos dos proeminentes alunos que ali estudaram (e são imensos!), Popper incluído.

Da Universidade rumámos ao coração de Viena, à praça onde se ergue a magnífica catedral de Santo Estevão. Nesta praça e nas suas imediações encontram-se muitos dos charmosos cafés de Viena, onde o viajante pode retomar o fôlego para nova caminhada.

Busto de Popper na Universidade de Viena.

Assim, da Stephans-Platz seguimos a pé até ao imponente palácio Hofburg, centro do poder dos Habsburgos, soberanos do Ducado da Áustria desde o século XII até o século XX[6]. Tudo aqui é grandioso. O palácio em si mesmo, com as suas mais de 2.600 salas, a Heldenplatz, para onde fica virado, os grandes jardins, a estatuária, o trabalho arquitetónico. O Palácio Hofburg, residência oficial do Presidente da Áustria, foi, como já dissemos, ocupado durante séculos pelos Habsburgos, era a sua residência de Inverno. Quisemos conhecer também a residência de Verão e, para isso, tomámos o metro e rumámos ao Palácio de Schönbrunn. Como seria de esperar, deparámo-nos com mais um conjunto (edifícios, estátuas, jardins) imponente. O Palácio de Schönbrunn, em estilo barroco, é realmente muito belo. Com esta visita a Schönbrunn terminou também a nossa visita a Viena. O comboio que nos transportaria a Budapeste já vinha a caminho. Quem disse que num único dia não se pode ver muito de uma cidade?

Palácio de Schönbrunn. Aqui se realizam, ao ar livre, magníficos concertos de Verão.

BRATISLAVA

Da nossa “sede”[7], em Budapeste, demos um salto de 200 quilómetros, desta feita de autocarro, a outra capital europeia, Bratislava. Esta cidade não tem a monumentalidade de Budapeste ou de Viena. Isso torna-se óbvio quase de imediato. Tal não surpreende, pois a Eslováquia, um pequeno país que na sua forma atual tem apenas 27 anos, foi sempre um território integrado num país ou império maiores. Fez parte do Reino da Hungria e depois, quando este integrou o Império Austro-Húngaro, passou a ser parte também desse império. Após a dissolução deste, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, checos e eslovacos criaram a Checoslováquia, que duraria até 1993, quando os dois países se tornaram independentes, após o processo da “Revolução de Veludo”. Pelo meio, entre 1939 e 1945 (Segunda Guerra Mundial), ainda existiu uma república eslovaca supostamente independente, mas na realidade um estado fantoche controlado pelos nazis. De ascendência eslava, os eslovacos são um povo resiliente que tem desenvolvido enormemente o país desde a independência e, sobretudo, desde a sua integração na União Europeia e, posteriormente, na Zona Euro. É um dos países mais igualitários do mundo em termos salariais, apenas superado pelas Ilhas Faroé[8].

Praça do Município Velho, no centro histórico de Bratislava.

Percorremos Bratislava a pé. Do terminal rodoviário ao centro, e volta. A cidade é muito mais pequena, muito mais tranquila e muito menos turística que Viena ou Budapeste. Sendo uma capital europeia há menos de trinta anos, não pode ter a grandeza de outras que o são há séculos. Mas, mesmo assim, Bratislava tem os seus encantos. Na zona histórica sobressai a Praça do Município Velho, com os seus cafés e esplanadas. Não muito longe (tudo em Bratislava é perto), no topo de uma colina sobranceira ao Danúbio, destaca-se o Castelo de Bratislava, residência do presidente da República, cuja construção se iniciou ainda no século X. Daqui, a 85 metros de altura, pudemos desfrutar de uma bela vista sobre o centro da cidade e o Danúbio, lá em baixo. Na volta, fomos observando as esculturas que ornamentam muitas das ruas do centro histórico e são uma atração da cidade. Finalmente, entrámos no Palácio Pálffy, onde se encontra a Passagem de Matej Kren, que suscita a ilusão de um espaço infinito de livros. Um espaço infinito de livros na Terra e um espaço infinito de estrelas no Céu. Assim terminou a nossa viagem.

Passagem Matej Kren, em Bratislava.

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Notas:

[1] Viena e Bratislava são as duas capitais mais próximas do mundo, separadas por apenas 65 quilómetros de estrada.

[2] A grande Sinagoga Dohani, a segunda maior do mundo, fica no bairro judeu de Budapeste.

[3] Uma entrada no Belvedere superior custa €22,00.

[4] O palácio foi vendido pelos herdeiros do príncipe Eugénio a Maria Teresa da Áustria, que o batizou de Belvedere (“bela vista”, em italiano).

[5] Outros vienenses ilustres, cujas ideias Popper combateu, são mais populares em Viena, na Áustria e, provavelmente, no mundo. Referimo-nos sobretudo a Freud e a Wittgenstein. O primeiro tem mesmo um museu com o seu nome em Viena.

[6] A Primeira Guerra Mundial, grande destruidora de impérios, não poupou o Império Austro-Húngaro.

[7] Ficámos quatro noites hospedados no Capital Guesthouse Budapest, por €137,00. A localização é boa, muito perto da estação ferroviária e relativamente perto do Danúbio e do centro histórico, e a relação qualidade-preço é bastante aceitável.

[8] Conferir o coeficiente de Gini ou ver nosso artigo aqui: https://ilovealfama.com/2020/04/24/paises-modelo/

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Santiago, Cabo Verde

Quando, ainda no século XV, os navios portugueses fundearam algures em Cabo Verde, nenhuma das dez ilhas que hoje constituem o arquipélago era habitada (nada de muito surpreendente se tivermos em consideração que estas pequenas ilhas vulcânicas se encontram a mais de 500 quilómetros da costa ocidental africana) e a primeira a ser ocupada foi, precisamente, Santiago. A atual povoação de Cidade Velha foi desde o início e durante muitos anos a localidade mais importante da ilha, mas a capital, hoje, é Praia, onde ficam a sede do governo e os principais serviços e equipamentos públicos. Santiago, dizem os historiadores, serviu como entreposto de escravos pouco tempo depois do início da colonização do arquipélago, mas, uma vez que todas as ilhas estavam desabitadas, os escravos não eram dali. Este facto tem levantado e conduzido a muitas questões, algumas apaixonadas, sobre quem são de facto os cabo-verdianos[1]. Não vamos entrar por aí, a única coisa que afirmamos sem hesitação é que em Cabo Verde existe um povo culturalmente singular. Povo e cultura que vale a pena conhecer.

Cidade da Praia (foto da Fla).

Por outro lado, os cabo-verdianos podem justamente sentir-se orgulhosos por terem construído uma sociedade democrática que, em muitos aspetos, dá cartas a países bastante mais ricos (e não, forçosamente, mais desenvolvidos). Isto não deixa de ser surpreendente, se tivermos em conta as grandes dificuldades que este povo enfrenta: além de estarem muito longe dos grandes centros económicos e de distribuição, os cabo-verdianos têm ainda de enfrentar um clima adverso, seco, com todas as graves consequências que isso acarreta. Apesar disso, do ponto de vista social, são bastante mais desenvolvidos que outros países lusófonos, como Angola e Moçambique, e do que a esmagadora maioria dos países subsarianos. Em muitos itens, são mesmo bastante mais desenvolvidos que o gigante Brasil[2]. Cabo Verde é mais livre, mais seguro e mais democrático que muitos países, apesar de incomparavelmente mais pobre que a esmagadora maioria deles. Tudo isso é obra e mérito do seu povo.

Lateral do edifício que alberga a Sala-Museu Amílcar Cabral, na Praia.

Como seria de esperar, o principal motor económico do arquipélago é o turismo, muito importante não só pelas receitas diretas, mas igualmente pela captação de investimento estrangeiro e pela criação de empregos. Nós fomos apenas mais dois a juntar aos muitos milhares de turistas que visitam Cabo Verde todos os anos. Nos quatro dias em que estivemos na ilha de Santiago, ficámos hospedados na Praia. A partir daí, visitámos todos os pontos considerados mais interessantes da ilha, e não só. Começámos pelo que estava mais perto, o centro da Praia, conhecido como Plateau, por ficar num pequeno planalto sobre a marginal, o porto e o mar: uma espécie de baixa lisboeta (embora mais pequena), mas no alto. Visitámos a interessante Sala-Museu Amílcar Cabral, plena de informações sobre a luta de libertação; entrámos no mercado municipal, algo que sempre fazemos, desde que tenhamos oportunidade, nas cidades que visitamos; almoçámos; deambulámos pelas ruas; indagámos; dialogámos; passámos pelo palácio presidencial; percorremos, como soem fazer os verdadeiros caminhantes, todo o tricotado do centro histórico da Praia.

O presidente Jorge Carlos Fonseca e o embaixador do Bangladesh, com residência em Lisboa, Ruhul Siddique.

Mas Praia não é só Plateau. Vale a pena descer ao mercado de Sucupira, misturar-se com as gentes, sentir os sons, as cores e os cheiros, e petiscar um pastel acompanhado por uma Strela geladinha, talvez, como nós fizemos, na roulote Nôs Casa. É aí, na grande praça Alexandre Albuquerque, que podemos ver as incontáveis carrinhas Toyota Hiace (as “iáces”, como lhe chamam os locais[3]) que podem transportar-nos a qualquer povoação da ilha. Foi o que fizemos para chegar à Cidade Velha: apanhámos uma iáce. Pelo caminho fomos conversando com um simpático e jovem adepto do F.C. de Porto, que nos surpreendeu ao informar-nos sobre os vários dialetos crioulos da ilha. E nós, inocentes, que pensávamos haver apenas um… Conversando com este e outros cabo-verdianos, pudemos aperceber-nos da grande ligação que existe a Portugal: a televisão que veem é portuguesa, os clubes de futebol de que são adeptos são portugueses[4], as universidades para onde vão estudar ficam maioritariamente em Portugal e até os embaixadores estrangeiros que vêm apresentar credenciais ao presidente moram em Lisboa e não aqui.

Primeira Strela, no mercado de Sucupira.

A Cidade Velha, como já dissemos, foi a localidade mais importante nos primórdios da colonização[5], e é hoje uma pequena e simpática urbe que se percorre facilmente a pé. Fica junto ao mar, na base de uma colina que no topo exibe uma fortaleza do século XVI, recuperada e em bom estado de conservação, o forte de São Filipe. Entre elas (fortaleza e cidade), socalcos onde ergueram casas precárias, com pequenos pátios ou lajes, e, aqui e ali, crianças brincando, velhos descansando, cabras cabritando, galinhas depenicando. (Difícil deve ser alimentar os animais com tanta secura). Depois da visita à fortaleza, invertemos a marcha, agora mais fácil, e iniciámos a descida da colina até ao núcleo da Cidade Velha, sobranceiros ao casario e ao mar. Já cá em baixo, passámos pelas ruínas da antiga catedral, a primeira a ser construída no ocidente africano, e finalmente sentámo-nos numa esplanada junto à praia vulcânica, descansando um pouco e tomando bebidas frescas para enganar o calor. Pouco depois, na pequena praça central, enquanto esperávamos a iáce que nos transportaria de volta à Praia, comprámos a um vendedor de rua umas mangas pequeninas, que comemos mais tarde no hotel, e se revelariam divinais. Desta vez ocupámos os dois lugares da frente da iáce, ao lado do motorista. Depois do jantar já não saímos[6], pois tínhamos planeado que no dia seguinte iríamos acordar bem cedo para conhecermos o norte da ilha.

Segunda Strela, na Cidade Velha.

Para circular em Santiago alugámos um carro com motorista, o senhor Wostelindo Carvalho, por 80 euros[7]. A ilha de Santiago é montanhosa, pelo que, para atravessá-la tivemos de subir e descer algumas estradas íngremes. Depois da localidade de Assomada, passámos pelo belo Parque Natural da Serra da Malagueta, de onde é possível vislumbrar as ilhas do Fogo e de Maio, e descemos em direção ao Tarrafal. Um pouco antes da cidade, cerca de um quilómetro, no lugar de Chão Bom, fica a antiga colónia penal, hoje transformada em Museu da Resistência. Éramos os únicos visitantes pelo que pudemos correr todo a estrutura deste antigo campo de concentração, desde a cozinha ao refeitório, passando pelas celas comuns, as disciplinares ou “solitárias”, até às casas de banho e o posto médico, sem nos cruzarmos com uma única pessoa. Quando chegámos ao campo o calor era tórrido, e não pudemos deixar de pensar no sofrimento que corresponderia a estar fechado na “Frigideira”. Houve presos que aí passaram de castigo 1, outros 20, outros ainda 60 dias, mas um deles, Gabriel Pedro, permaneceu 135 dias na “Frigideira”, cerca de quatro meses e meio. Ainda assim, não foi um dos 36 homens que pereceram às terríveis condições desta colónia penal para onde eram enviados, sobretudo, presos políticos que se opunham ao Estado Novo e ao ditador Salazar.

Ontem, Campo de Concentração do Tarrafal; hoje, Museu da Resistência.

Os primeiros anos de funcionamento do campo de concentração, que entrou em funcionamento em 1936, foram os piores. O principal problema para os presos do Tarrafal eram as doenças[8], pois o diretor da prisão alegava não ter verbas para dietas e medicamentos. Face aos muitos casos de doença, em fevereiro de 1937, o médico Esmeraldo Pais da Prata[9] foi enviado à colónia penal com o principal objetivo de verificar se os presos não fingiam estar doentes para se esquivarem ao trabalho. Este médico fascista constituiu um pesadelo permanente. Recusava-se a mandar ferver a água insalubre que provinha de uma fonte a 700 metros, aprovava o estado de deterioração das magras rações distribuídas aos presos[10], dava cobertura aos trabalhos forçados e aos castigos na “Frigideira”, negava a medicação, inclusive aquela enviada pelas famílias dos deportados, e participava diretamente, de arma na mão, na repressão aos detidos, insultando-os e lançando-lhes frequentemente palavras jocosas. Uma das suas frases famosas, que pode ler-se num dos painéis do atual museu, é: “Não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbito”.

Apesar de tudo isto, muitos presos conseguiram sobreviver graças à solidariedade existente entre eles. Ferviam a água às escondidas, com ferramentas improvisadas, construíam filtros de pedra vulcânica e porosa, organizavam a distribuição dos medicamentos enviados por familiares e organizações de caridade e de outros parcos recursos que escapavam ao controlo dos guardas. E foi a chegada de outro médico, Manuel Baptista dos Reis, desta vez um prisioneiro, que, auxiliado por um enfermeiro chamado Virgílio de Sousa, veio ajudar em muito os presos do Tarrafal, evitando que a mortandade fosse ainda maior. Mesmo assim morreram 36 presos: 32 portugueses, 2 guineenses e 2 angolanos. O campo funcionou nestas condições degradantes até 1956.

A “Holandinha” foi a cela disciplinar que veio substituir a “Frigideira”. Esta ficava isolada, fora do recinto do campo, e foi demolida. Um sobrevivente do Tarrafal, o guineense Augusto Pereira da Graça, conhecido por “Neco”, afirmou sobre a “Holandinha”: “Eu não sei dizer qual era a temperatura dentro deste cubo, mas o indivíduo entrava para lá e, depois de cinco minutos, parecia que lhe tinham dado um banho. Era um calor insuportável. Pode-se dizer um calor infernal. Passei 15 horas ali, mas parecia que tinham sido 15 anos.[11] “

Em 1962, reabriu sob a designação de Campo de Trabalho de Chão Bom, destinado a encarcerar anti-colonialistas da Guiné-Bissau, Angola e Cabo Verde. Entretanto, as autoridades portuguesas negavam a existência desta colónia penal. Em 1963, a missão permanente de Portugal nas Nações Unidas considerava “sem fundamento” as informações que circulavam sobre aquele campo de concentração. Foi Amílcar Cabral, um excelente diplomata, quem evocou as normas da Convenção de Genebra sobre a proteção de prisioneiros de guerra e conseguiu a libertação de três prisioneiros portugueses, entregando-os à Cruz Vermelha, em Dakar, no dia 15 de março de 1968. Perante as denúncias de Cabral, uma Missão da Cruz Vermelha visitou o Tarrafal em fevereiro de 1969, conseguindo que fossem libertados todos os presos considerados “recuperados”. Nessa altura as condições no campo já não eram as mesmas das dos anos 30, 40 e 50. Os presos podiam ir à praia próxima, assistir a sessões de cinema, consultar livros, jornais e revistas na biblioteca, ir a consultas ao Hospital da Praia e até estudarem e fazerem exames nesta cidade.

Praia do Tarrafal.

Após a desativação, o “Campo da Morte Lenta”, como ficou conhecido por quem lá passou, serviu como centro de instrução militar, escola e, desde o ano 2000, Museu da Resistência, tornando-se o espaço mais visitado do arquipélago. Classificado como Património Cultural Nacional de Cabo Verde desde 2006, integra a lista indicativa deste país a Património Mundial pela UNESCO. Em 27 de fevereiro do presente ano (2020), o governo cabo-verdiano adjudicou a uma empresa portuguesa sediada em Barcelos – a Vilacelos – uma empreitada[12] para reabilitar o antigo Campo de Concentração do Tarrafal, que deverá ter a duração de oito meses, e que é considerada indispensável para satisfazer os requisitos exigidos pela UNESCO para a candidatura a Património Mundial, que o governo cabo-verdiano pretende apresentar dentro de um ano. Além desta empreitada, estão previstas verbas para a instalação e funcionamento do futuro museu. O artista português Vhils será convidado para fazer um trabalho no local.

Demora-se algum tempo a recuperar o ritmo normal quando se sai do espaço onde funcionou o campo do Tarrafal. Felizmente que a praia é ali mesmo ao lado e logo, provavelmente, a mais bonita da ilha. Tomámos um daqueles longos e deliciosos banhos que tornam alguns locais inesquecíveis. À hora combinada fomos ter com o senhor Wostelindo, já a pensar no almoço que, como previsto, aconteceu no restaurante Sol & Luna: bom peixe grelhado, à moda tropical, com legumes, arroz, batata frita e vinagrete. Confirmámos que o Tarrafal é o melhor ponto da ilha de Santiago para quem gosta de praia e descanso; e é também, sem dúvida, um bom lugar para comer peixe, a avaliar pelo que comemos, mas também pelos que vimos nos alguidares das peixeiras na praia, e nas bancadas do mercado municipal.

Barcos de pesca estacionados numa praia do Tarrafal.

No regresso à cidade da Praia passámos pela Aldeia dos Rabelados, em Espinho Branco, uma pequena comunidade que viveu durante muitos anos isolada[13], desde que a igreja oficial portuguesa rejeitou, ainda no tempo do colonialismo, as suas práticas religiosas (que incluíam a poligamia e o animismo), e quis substituir os sacerdotes locais de “batina negra”[14] pelos novos sacerdotes, de “batina branca”, enviados do continente. Apesar de uma parte da população ter aceitado os novos padres, outros não os aceitaram – e a partir daí foram considerados rebelados . Passaram então a viver isolados em comunidade, nas montanhas, sem água e sem luz, dependendo da agricultura, da pesca e do artesanato. Graças a Maria Isabel Kouassi, uma artista plástica e terapeuta cabo-verdiana, que viveu na Costa do Marfim e na Suíça, internacionalmente conhecida por Misá, os rabelados têm, há mais de vinte anos, uma representante que luta pelos seus interesses e que os tornou conhecidos um pouco por todo o mundo. Misá conseguiu entrar na comunidade e cada vez que voltava levava algo novo: roupa, alimentos, água, médico ou professor. Graças ao trabalho de Misá, as crianças passaram a frequentar o jardim de infância e a escola, e pelo menos uma delas continuou os estudos e licenciou-se. Paralelamente, Misá criou uma oficina de artes – a Rabelarte – destinada a dotar os jovens dos conhecimentos técnicos necessários à criação de peças que possam vender a turistas que visitem o local. Para tal, ela própria deu formação em desenho e pintura, conseguindo também a colaboração de um voluntário japonês que durante três meses ensinou às crianças técnicas de cerâmica.

Na aldeia dos Rabelados, em Espinho Branco.

Quando visitámos a aldeia estivemos na oficina da Rabelarte e comprámos um singelo quadro a uma jovem artista local. A visita a esta aldeia foi enriquecedora e surpreendente. Com as experiências do dia ainda pulsando em nós, já com o sol baixo, continuámos a nossa descida até à Praia, primeiro junto à costa, passando por Calheta de São Miguel e Pedra Badejo, depois pelo interior, chegando ao hotel Cesária quando se punha o sol. Tínhamos planeado jantar no Quintal da Música no último dia em Santiago, mas esse restaurante estava fechado. Queríamos um restaurante onde se pudesse ouvir música local, e, em alternativa, alguém nos sugeriu o Campanas. Fomos lá. Comemos bem e, como era o último dia e a música estava boa, bebemos ainda melhor. Reparámos, sobretudo, num dos músicos, um virtuoso violinista chamado Nho Nani, natural da ilha do Fogo. Conversámos com ele e com Manuel dos Santos, um guitarrista, também do Fogo, também virtuoso. Despedimo-nos. No dia seguinte, bem cedo, o senhor Wostelindo estaria à nossa espera à porta do hotel para nos levar ao aeroporto.

Na casa de Josefa, jovem artista rabelada.

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Notas:

[1] A população cabo-verdiana é composta por 71% de mulatos, 28% de africanos e 1% de europeus.

[2] Ver o nosso artigo “Os Países-Modelo” aqui: https://ilovealfama.com/2020/04/24/paises-modelo/. Verificar-se-á que Cabo Verde está à frente do Brasil no que toca à liberdade económica, à liberdade humana, à liberdade de imprensa e à democracia. Cabo Verde é também um país incomparavelmente mais pacífico e seguro que o Brasil.

[3] Demorámos um tempo considerável até percebermos o que queriam dizer-nos com : “podem apanhar uma iáce”…

[4] É comum ver pessoas com as camisolas dos clubes portugueses, sobretudo, como seria de esperar, do Benfica, do Porto e do Sporting.

[5] Mas na altura em que foi fundada deram-lhe o nome de Ribeira Grande. Diz-se que o mudaram para evitar confusões com uma povoação homónima em Santo Antão. O Sítio Histórico da Cidade Velha, foi classificado em 2009 pela UNESCO como Património da Humanidade, pelos critérios II, III e VI. O critério II prende-se aos monumentos e vestígios ainda existentes na Cidade Velha enquanto testemunhos do seu papel nas trocas comercias. Critério III, pela sua paisagem urbana, marítima e pitoresca que remetem aos mais de 3 séculos de escravidão dos seres humanos. Já o critério VI, por ser o berço da primeira sociedade mestiça que se difunde pelo Atlântico através da gastronomia, farmacopeia, e outros saberes.

[6] Embora Cabo Verde seja um país relativamente seguro, não é de todo aconselhável circular à noite por locais desconhecidos, a não ser de táxi.

[7] O senhor Wostelindo está contactável através do facebook, no seguinte endereço: https://www.facebook.com/profile.php?id=100013451105546.

[8] O paludismo, a biliosa, a tuberculose e as infeções intestinais eram os males mais frequentes. Mas também o reumatismo, as avitaminoses, com os casos beribéri, escorbuto e xeroftalmia, anemia palustre, e doenças hepáticas e gástricas.

[9] Era conhecido entre os presos como o “Tralheira”.

[10] A comida era sempre a mesma, mal cozinhada e de péssima qualidade. Os presos tinham de tapar as narinas com bolas de pão para poderem tragá-la.

[11] https://www.dw.com/pt-002/augusto-pereira-da-gra%C3%A7a-recorda-os-dias-amargos-no-tarrafal/a-17656372.

[12] No valor de 29,5 milhões de escudos cabo-verdianos, ou seja, o equivalente a 265 mil euros. Mais 22 milhões de escudos (cerca de 200 mil euros) para a instalação e o funcionamento do futuro museu.

[13] O nome “Rabelados” (“rebelados”, ou “rebeldes” em português) deve-se à sua recusa em aceitarem os preceitos da Igreja Católica tradicional. No entanto, os integrantes da comunidade consideram-se “Revelados”.

[14] Estes “sacerdotes negros” saíram dos seminários que os franciscanos, chegados a Cabo Verde em finais do século XVII com o objetivo de evangelizar a população, criaram para formar sacerdotes. Ou seja, eram sacerdotes locais.

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Referências:

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Japão

1- Breve contexto histórico

O Japão é por variadas razões um dos mais fascinantes países do planeta. Isolado durante a maior parte da sua história, teve sempre um papel importante quando se integrou na comunidade internacional, chegando a ser, no período da Grande Guerra, a par dos Estados Unidos, um dos dois países mais poderosos do mundo. A primeira abertura do Japão deu-se no século XVI, na época em que o grande aventureiro português, Fernão Mendes Pinto, chegou ao arquipélago, mas durou pouco tempo[1]. Cansados do proselitismo europeu, os japoneses expulsariam os missionários e fechar-se-iam de novo, alcançando a estabilidade política com o domínio do xogunato Tokugawa[2], um governo dinástico militar que durou mais de 250 anos (até 1867). Em 1854, o Japão assinou com os Estados Unidos o Tratado de Kanagawa e, quatro anos depois, o Tratado de Amizade e Comércio, que marcaram o início da nova abertura japonesa, ainda que forçada[3]. Seja como for, isso permitiu ao Japão modernizar-se e industrializar-se intensivamente, tornando-o capaz de, nos finais do século XIX e inícios do século XX, derrotar militarmente a China e a Rússia. Esse período de extraordinário desenvolvimento ficou conhecido com Era Meiji (1868-1912), quando governou o imperador Mutsuhito Tenno. (Até à Restauração Meiji os imperadores não tinham poder e quem governava o Japão eram ditadores militares, cujo poder era hereditário, denominados xoguns). Sucessivamente, os japoneses ocuparam a península da Coreia, a Formosa (atual Taiwan), o sul da Ilha Sacalina[4], a Manchúria e a China. Em 1941, cometeram o erro de atacar os Estados Unidos e ocupar a maior parte dos territórios do sul e sudeste asiáticos, precipitando a entrada dos americanos na II Guerra Mundial.

A nossa visita ao Japão começou em Yokohama. Depois de um passeio pelo centro da cidade e uma entrada na Chinatown, subimos pela Landmark Tower, uma torre com 295,8 metros de altura e 73 andares, no elevador mais rápido do mundo. Demorámos apenas 40 segundos a atingir o 69º andar, aquele onde fica o Sky Garden, um piso panorâmico, com bar, livraria e uma vista incrível de 360º.

Apesar da derrota na II Guerra Mundial[5], o Japão tornou-se uma potência económica e um aliado dos Estados Unidos, registando, até aos anos noventa do século XX, três décadas de desenvolvimento económico sem precedentes. O imperador manteve-se como símbolo da unidade nacional, mas o poder executivo passou a ser exercido por políticos eleitos. O país modernizou-se, democratizou-se e manteve-se até hoje uma potência económica. Não possuindo grandes recursos naturais, sobretudo ao nível energético[6], é, no entanto, um colosso industrial, exportando produtos de altíssimo valor acrescentado para todo o mundo: a marca-Japão, embutida em itens diversificados e de grande consumo, como automóveis, máquinas fotográficas, televisores, telemóveis, entre muitos outros, faz parte do quotidiano dos cidadãos de, praticamente, todos os cantos do planeta[7].

No dia 11 de março de 2011, o maior terramoto da história japonesa, seguido de tsunami, devastou o nordeste da ilha de Honshu (a maior do Japão), matando milhares de pessoas e provocando danos irreparáveis na central nuclear de Fukushima[8]. No ano seguinte chegou ao poder o atual primeiro-ministro, Shinzo Abe, o político que se mantém há mais tempo no cargo, desde a II Guerra Mundial.

O dia seguinte foi integralmente passado em Tóquio, uma capital gigantesca. Nesta foto podemos ver o edifício da estação televisiva Fuji, uma das construções emblemáticas da cidade. Um terço da população japonesa vive na região de Tóquio.

2- O Japão natural

O Japão é um país insular que conta com cerca de 7 mil ilhas[9], das quais apenas 421 são habitadas: imagine-se as maravilhas que se podem encontrar em muitas delas, sobretudo nas mais remotas! As ilhas principais são Hocaido, Honshu (onde se situa a capital, Tóquio), Shikoku e Kiushu. No entanto, é importante o papel das pequenas ilhas exteriores na proteção do território, pois todas as fronteiras internacionais do Japão estão no mar. Apesar deste país ocupar apenas o 61º lugar do mundo em termos de território (cerca de 378 mil km2), a sua zona económica exclusiva (ZEE) atinge uma área de 4.470.000 km2, a sexta maior do planeta. O Japão é assim um país marítimo por excelência, com amplas vantagens no que toca à exploração dos seus amplos recursos marítimos (sobretudo a pesca) e ao comércio por via marítima (o Japão possui a quarta maior frota mercante do mundo), mas igualmente com alguns problemas, sobretudo as disputas com outros países da região[10] sobre a soberania de algumas ilhas e águas territoriais.

Ao fim da tarde fomos até Tsukiji, onde fica o famoso mercado de peixe de Tóquio. Na rua do mercado pudemos provar uns saborosos frutos do mar cozinhados, numa pequena loja, com maçarico… (Se estás no Japão, sê japonês).

O clima do Japão é diversificado, variando entre o tropical no extremo sul e o temperado frio nas regiões do norte. A altura média do país é de 438 metros e o ponto mais alto situa-se no monte Fuji, 3.776 metros acima do nível do mar. Como já foi dito, o país não possui grandes recursos naturais do ponto de vista energético (ou mineral), sendo o maior importador mundial de carvão e gás natural liquefeito, e o segundo maior importador de petróleo. Situado no chamado “anel de fogo do Pacífico”[11], o Japão está sujeito a uma intensa atividade sísmica e vulcânica[12], e também a tufões e tsunamis. Ao contrário do que acontece na maioria dos países temperados, no Japão chove sobretudo no início de Verão, e chove muito. Essa peculiaridade faz com que a produtividade agrícola seja muito elevada, apesar de apenas 14% do seu território ser cultivado. A elevada pluviosidade também faz com que a floresta japonesa, que cobre cerca de 70% do território, recupere rapidamente depois dos cortes.

Mesmo assim, o desmatamento das florestas tropicais tem contribuído para o esgotamento dos recursos florestais, não sendo este o único problema ambiental que o Japão enfrenta: as chuvas ácidas, provocadas pela intensa atividade de indústrias poluentes, acidificam a água de rios, lagos e mares; a poluição atmosférica é significativa[13]; a pesca intensiva constitui uma ameaça para algumas espécies; e, um assunto cada vez mais controverso, a produção de energia nuclear, pode provocar desastres catastróficos, como o de Fukushima, além de produzir resíduos cuja eliminação é muito problemática, se não impossível.

O Japão é o 11º país mais populoso do mundo, com mais de 125 milhões de habitantes, embora a taxa de natalidade atual seja muito baixa (1.43), o que o torna num dos países com maiores problemas no que toca ao envelhecimento da população.

Depois do aperitivo na rua, fomos jantar ao restaurante Sushi Zanmai Honten, ainda em Tsukiji, apenas guiados pela nossa intuição. Observámos que tinha muita gente, sobretudo japoneses, pelo que nos pareceu uma boa opção. Preferimos comer ao balcão ao lado de um casal japonês que nos foi dando algumas dicas. Provámos, muito provavelmente, o melhor atum das nossas vidas. À saída, quando tirámos esta foto, ainda não tínhamos percebido que estivéramos num dos melhores restaurantes de sushi em todo o mundo.

3- Cultura e sociedade

Como já vimos, o Japão é uma potência económica; e do ponto de vista da qualidade dos serviços que oferece aos cidadãos é, igualmente, um país extremamente desenvolvido: bons sistemas de saúde e educação, e um excelentíssimo sistema de transportes. Seria expectável, portanto, que fosse igualmente um país socialmente desenvolvido, o que efetivamente acontece, pese embora alguma desigualdade de género e de rendimentos. Isto ocorre, pelo menos em parte, porque a tradição tem um peso significativo na sociedade nipónica, cujas raízes são substancialmente diferentes das ocidentais. Os japoneses têm um grande orgulho na sua identidade e cultura. As religiões dominantes são o xintoísmo e o budismo, com muitos indivíduos a praticarem ambas[14]. Mas o que os japoneses defendem, sobretudo, é uma distinção étnica e linguística, sendo dos povos menos cosmopolitas do mundo, com poucos imigrantes e regras muito rígidas para os estrangeiros que pretendam viver no Japão. Isso sente-se (nós sentimo-lo) no contacto com as pessoas comuns, apesar da afabilidade de muitos delas.

Estas questões de identidade estão na base do longo conflito entre o Japão e a Coreia, com ambos a reivindicarem superioridade em relação ao outro. Porém, estudos recentes revelam que, à semelhança do que acontece com israelitas e palestinianos, o que os separa é muito menor do que o que os une, sendo povos geneticamente irmanados, que partilham uma longa história, apesar das desavenças.

Para regressarmos ao hotel onde estávamos hospedados, em Haneda, nos arredores de Tóquio, tínhamos de apanhar dois comboios suburbanos, o que, só por si, já é uma aventura, sobretudo para quem não sabe ler uma palavra que seja em japonês, a única língua em que estão inscritos nos painéis das gares os nomes das incontáveis estações e linhas. Não, a vida do turista não é aqui facilitada… Mas valeu a nossa persistência: viajarmos como verdadeiros japoneses foi para nós um desafio – superado. Não podemos deixar de realçar a pontualidade extrema (ao segundo!) das partidas e chegadas destes comboios, algo indispensável numa rede urbana tão densa que mais parece uma teia de aranha. Incrível.

Quando visitamos o Japão, percebemos quase imediatamente duas realidades distintas: a imagem familiar das modernas cidades ocidentais, com demonstrações por todo o lado de grande desenvolvimento tecnológico, e a cultura nacional, que consubstancia uma visão do mundo bem diferente do cosmopolitismo ocidental. Apesar disso, há uma aproximação gradual entre as culturas ocidental e nipónica, sobretudo nas artes e no desporto[15]. Se é certo que tradições artísticas, como o kabuki (o mais tradicional teatro popular japonês), ou desportivas, como o sumo (luta tradicional) continuam a atrair vastas camadas da população, é igualmente verdade que a música clássica, o rock, o futebol e o cinema ocidentais têm cada vez mais adeptos (e praticantes) no Japão. Em sentido contrário, temos a manga (banda desenhada japonesa) e o anime (desenhos animados) extremamente populares entre os jovens de muitos países ocidentais, como os Estados Unidos ou o Brasil; e também o sushi, que se tornou um tipo de comida popular em todas as grandes cidades americanas e europeias, o mesmo se podendo dizer do sashimi, ambos tendo por base o tradicional modo japonês de confecionar peixe fresco cru[16].

Gostaríamos de ter tido muito mais tempo, embora saibamos que nenhum tempo seria suficiente, para conhecermos o Japão. Quem sabe, um dia talvez possamos voltar… Por agora, resta-nos terminar este artigo reafirmando convictamente o que dissemos no início: o Japão é um país fascinante!

O topo do monte Fuji é o ponto mais alto do Japão: 3.776 metros. Esta foto, tirada do avião que nos levaria até Londres, na viagem de regresso a casa, fixa a última imagem da nossa visita ao país do sol nascente.

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Notas:

[1] A história do Japão cruza-se com a história de Portugal, porquanto os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao país do sol nascente, em 1542. (Ver nosso artigo em https://ilovealfama.com/tag/cristovao-ferreira/).

[2] Assim chamado por ter sido fundado, em 1603, por Tokugawa Ieyasu.

[3] Após a conquista da Califórnia ao México, em 1848, seguiu-se a descoberta de ouro, o que levou a uma explosão do tráfego marítimo americano na costa do Pacífico. A navegação de navios mercantes e baleeiros norte-americanos alargou-se, e muitos navios naufragaram, alguns em águas oceânicas próximas do Japão. Vários marinheiros americanos foram capturados e mortos pelos japoneses devido à política isolacionista do xogunato Tokugawa. Os americanos queriam que os marinheiros naufragados fossem ajudados e não mortos, bem como pretendiam que os navios americanos pudessem comprar carvão no Japão. Assim, o presidente americano Millard Fillmore enviou o comodoro Matthew Perry ao Japão com uma frota de quatro navios, dois deles vasos de guerra. O Japão na época não tinha navios nem máquinas a vapor. Perry deixou uma carta com as exigências americanas e disse que voltaria passado um ano para receber a resposta. Menos de um ano depois (em fevereiro de 1854) Perry regressou com nove navios de guerra. O xogum assinou o primeiro tratado japonês com um país ocidental e terminou com 215 anos de política de isolamento. Seguiu-se um período conturbado até ao fim do xogunato, que coincidiu com o início da Restauração Meiji e o enorme impulso na modernização do Japão.

[4] Recuperada em 1945 pela União Soviética.

[5] A forma como os japoneses se comportam na guerra diz muito sobre a sua cultura. São guerreiros ferozes e preferem morrer a renderem-se. E isso não acontece apenas com os militares: famílias inteiras cometeram suicídio para não se renderem aos americanos na II Guerra Mundial. Como se sabe, os japoneses continuaram a lutar mesmo depois da derrota de alemães e italianos e só após terem sido alvo de dois ataques atómicos, em Hiroshima e Nagasáqui, se renderam (2 de setembro de 1945).

[6] Foi essa falta de recursos a principal razão da política expansionista japonesa.

[7] Ainda não desembarcáramos em Yokohama e já nos deparávamos com uma amostra significativa do poderio económico japonês. Milhares e milhares de automóveis, alinhados sobre terraplenos gigantescos, aguardavam a sua vez de serem exportados, algures, para algum canto do mundo.

[8] Mais de 170 mil pessoas foram evacuadas e a radiação em indivíduos, solos e águas vai manter-se por muitos anos mais, assim como os esforços para contenção dos danos causados pelo acidente.

[9] A Guarda Costeira do Japão contabiliza as ilhas com mais de 100 metros de circunferência. De acordo com este critério, as ilhas japonesas são 6852. Quinze delas são ilhas vulcânicas ativas.

[10] Especialmente com a China.

[11] Cerca de 90% dos terramotos e 75% dos vulcões terrestres ocorrem no anel de fogo do Pacífico.

[12] Alguns vulcões no Japão constituem um elevado risco, como são, entre outros, os casos dos montes Unzen e Sakurajima (este último perto da densamente povoada cidade de Kagoshima), considerados “vulcões da década” pela Associação Internacional de Vulcanologia e Química do Interior da Terra (IAVCEI). Ver: https://www.iavceivolcano.org/

[13] O Japão é o quinto maior emissor mundial de dióxido de carbono proveniente do consumo de energia.

[14] A prática de ambas as religiões produz um dado curioso: a soma da percentagem de xintoístas (70,4%) com a de budistas (69,8%) é superior a 100%.

[15] Haverá poucos exemplos tão paradigmáticos da diversidade individual quanto uma grande orquestra ou uma equipa de futebol.

[16] Há quem se refira à “m.a.s.s. culture”: manga, anime, sushi e sashimi.

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Referências:

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Malásia

Aurora em Langkawi.

A Malásia é um país original, com algumas características muito particulares. Desde logo, a descontinuidade do território: uma parte na península da Malásia e outra parte na ilha de Bornéu (que divide com a Indonésia e o pequeno Brunei) separadas pelo Mar da China meridional. Depois, a população, constituída por três etnias distintas – malaios (62%), chineses (20,6%) e indianos (6,2%). É bastante curioso que os próprios partidos políticos representem essas etnias, e não classes ou ideologias, como é tradicional. Finalmente, a localização estratégica da Malásia, junto ao estreito de Malaca, que os navios que passam do Mar da China para o Mar de Andamão, e vice-versa, têm de percorrer. Esta zona do globo é, desde há muito, um ponto de encontro entre mercadores chineses, indianos, árabes e persas, um ponto nevrálgico, que aguçou a cobiça dos europeus: primeiro dos portugueses, depois de holandeses e britânicos. Para lá de tudo isto, a Malásia é um paraíso tropical: as florestas húmidas ocupam cerca de 60% do seu território e mantêm-se inalteradas desde há 100 milhões de anos; albergam espécimes incríveis dos reinos vegetal e animal.

A Sky Bridge.

Durante os séculos XVIII e XIX, a Grã-Bretanha estabeleceu colónias e protetorados na área da atual Malásia, os quais seriam ocupados pelo Japão durante a II Guerra Mundial, entre 1942-1945. Em 1948, os territórios governados pelos britânicos na península malaia, excetuando Singapura, formaram a Federação da Malásia, que se tornaria independente em 1957. Em 1963 juntaram-se à Federação as antigas colónias britânicas de Singapura, Sabah e Sarawak, estas duas na costa norte da ilha de Bornéu. Os primeiros anos da independência foram conturbados, com a retirada da Federação de Singapura (logo em 1965), reivindicações das Filipinas sobre Sabah, e confrontos com a Indonésia. Com o mandato do primeiro-ministro Mahathir Mohamad (1981-2003), a Malásia conseguiu diversificar a sua economia, passando da dependência quase exclusiva da exportação de matérias-primas para o desenvolvimento de manufacturas, serviços e turismo. Nos últimos anos, a Malásia vem tentando atrair investimentos em alta tecnologia, indústrias e serviços baseados no conhecimento.

Um percurso considerável até atingir o topo de Mat Cincang, o segundo monte mais alto de Langkawi (610 metros). Lá em cima, nos dias claros, avista-se, ao norte, a Tailândia e, a sudoeste, a ilha de Sumatra, na Indonésia.

A aposta na tecnologia permitiu um desenvolvimento enorme no campo das telecomunicações, pelo que a Malásia é, hoje, um dos países mais avançados nas tecnologias 4G e 5G, com cobertura de quase todo o território nacional. O segredo do relativo sucesso do país parece ser o de criar oportunidades para o conjunto da população, independentemente da etnia ou credo religioso[1], criando as condições de base, através de instituições democráticas, para a consolidação de uma sociedade liberal. De facto, pudemos constatar que a Malásia é uma sociedade tolerante, observando, nas ruas, tal como já acontecera na nossa visita à Tailândia, a harmonia entre as diferentes comunidades, muito diferente da que (não) ocorre, por exemplo, em alguns países do Médio Oriente.

Primeiro exemplo da arquitetura mogol[5] na Malásia: edifício Sultão Abdul Samad (1894-1897). Simétrico, possui uma torre-relógio com 41 metros de altura. Ocuparam este espaço a Federação de Estados Malaios (em 1897) e o Supremo Tribunal da Malásia (em 1972). Atualmente, está aqui instalado o Ministério do Turismo e Cultura da Malásia.

Assim, pudemos visitar tranquilamente mesquitas, pagodes, templos, igrejas, mercados tradicionais e apreciar, nos espaços públicos, a diversidade de costumes inerente a uma sociedade multicultural. Após termos estado em George Town[2], a nossa visita pela Malásia prosseguiu com uma paragem em Langkawi[3] e outra em Kuala Lumpur. Lankawi é uma pequena ilha (talvez do tamanho do Faial, nos Açores) situada no Estreito de Malaca, mas bem perto da costa continental, a uns meros 15 kms. Toda virada para o turismo, possui belas praias (sobretudo Tanjung Rhu, no norte, e Pantai Cenang, no sul), parques naturais e zonas de montanha, com profusa vegetação. Além disso, tem alguns equipamentos interessantes, como sejam um teleférico que nos conduz ao topo do monte Mat Cincang, onde encontramos uma ponte pedestre que parece suspensa no vazio. Pudemos visitar também dois museus, um etnográfico e um outro dedicado ao ciclo do arroz (museu Laman Padi); e visitámos ainda um enorme centro de artesanato[4], com vários stands de artesãos locais, alguns vendendo peças bastante interessantes. Como seria de esperar, tudo gira em torno do turismo nesta ilha, “porto livre de impostos”, desde 1987.

Twin Towers, em Kuala Lumpur. 452 metros de altura.

Kuala Lumpur, como grande capital, é mais cosmopolita. Alguns ocidentais instalaram-se aqui para aproveitarem as oportunidades de negócio que a abertura malaia vem oferecendo[6]. A parte antiga da cidade é a mais interessante. Aí encontrámos o mercado central (antiga sede do governo britânico), a Chinatown, o Palácio Nacional[7], a Praça da Independência e alguns edifícios interessantes, como o Tudor, do Royal Selangor Club, e a bonita catedral de Santa Maria a Virgem, dos finais do século XIX. Desde essa zona mais antiga da cidade, junto ao rio Kelang, seguimos a pé até à mesquita nacional da Malásia (Masjid Negara).Não longe ficam os templos Kuil Sri Maha Mariamman (hindu) e Sin Sze Si Ya (taoísta) e o Museu Nacional da Malásia (Muzium Negara). Após tomarmos uma água de coco junto ao mercado central, retemperámos forças para subirmos até à quarta torre de telecomunicações mais alta do mundo (Menara Kuala Lumpur), terminando a nossa visita à capital da Malásia nas emblemáticas Petronas Twin Towers.

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Notas:

[1] A religião oficial é o islamismo (cerca de 61%), mas budistas (20%), cristãos (9%), hindus (6%), bem como outros credos, incluindo alguns tradicionais chineses, são respeitados.

[2] Ver nosso artigo sobre George Town aqui: https://ilovealfama.com/2020/05/29/street-art-george-town-malasia/

[3] Langkawi, em malaio, significa “águia”.

[4] Complexo Cultural e Artesanal Budaya.

[5] Apesar do império Mogol ter tido uma relação direta com o império Mongol (Babur, o fundador da dinastia Mogol, era descendente de Gengis Khan) foram realidades diferentes. O império Mogol durou de 1526 a 1857 e compreendia a maior parte dos territórios atuais da Índia, e dos Paquistão, Afeganistão e Bangladesh. Era, no seu apogeu, provavelmente o mais rico e poderoso do planeta. Profundamente islâmico, entrou em declínio nos finais do século XVIII sendo definitivamente sepultado pela expansão de um outro império, o britânico.

[6] Conversámos sobre a realidade malaia com dois ocidentais: um guia turístico espanhol, que também tem um restaurante na cidade, e um senhor inglês que já vive em Kuala Lumpur há 30 anos.

[7] Conhecido como Istana Negara.

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Phuket e Phang Nga, Tailândia

A baía de Patong, na ilha de Phuket.

A Tailândia reúne excelentes condições para a prática do turismo ligado ao mar: ilhas idílicas, clima tropical, paisagens arrebatadoras, povo acolhedor, e um destino relativamente barato para os padrões ocidentais. Na nossa curta estadia estivemos na ilha de Phuket, desembarcando na localidade de Patong, uma das mais atingidas pelo tsunami de 26 de Dezembro de 2004. Daí tomámos um autocarro em direção a Phang Nga.

Ilha de James Bond.

Chegados ao Parque Nacional, apanhámos de imediato uma lancha para a ilha Kao Ping Gun, atualmente conhecida por ilha James Bond, devido às filmagens finais do filme “O Homem da Pistola Dourada”, que ali decorreram. O percurso de lancha é feito através de uma paisagem quase surrealista, repleta de penhascos calcários. O nosso ponto de paragem seguinte foi em Koh Panyi, um povoado flutuante, com casas construídas sobre estacas e passadeiras de madeira entre elas. A povoação tem mesquita, escola, lojas e vários restaurantes. Almoçámos num deles. A população residente é muçulmana e vive quase exclusivamente do turismo.

Recinto desportivo flutuante na povoação de Koh Panyi.

Quando finalmente a lancha nos deixou em terra firme tomámos de novo o autocarro, que rumou ainda mais para Norte, até Krasom, onde visitámos o templo budista Suwan Khuha, situado dentro de uma gruta, um dos mais importantes da Tailândia. Era já noite cerrada quando regressámos a Patong, agora extremamente animada, com as ruas repletas de turistas, fumo, cheiros, sons, incontáveis bares, restaurantes, e todo o tipo de comércio, incluindo a prostituição. Ao contrário da maioria dos lugares, é quando começa a noite que Patong acorda.

No interior de Suwan Khuha.

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Street Art, George Town, Malásia

“Brother and Sister”. George Town é uma cidade fotogénica.

Provavelmente será um dos nomes mais comuns de cidades em todo o mundo. Nós próprios já estivéramos noutra Georgetown, a capital das ilhas Caimão, mas esta, em particular, apesar de igualmente situada numa ilha, é a capital da província de Penang, na Malásia, que, “em reconhecimento da preservação histórica e cultural”, passou, juntamente com Malaca, a ser considerada Património Mundial UNESCO em Julho de 2008. Estas cidades situam-se no Estreito de Malaca, uma passagem marítima estratégica, desde há muitos séculos.

“Old Motorcycle”, de Ernest Zacharevic.

Quando, em 1511, Afonso de Albuquerque conquistou Malaca, esta era o ponto mais ocidental até onde navegavam os marinheiros chineses (muitos dos quais aí se instalaram na chamada Colina Chinesa), e para onde navegavam igualmente, mas em sentido contrário, indianos, persas e árabes para comprarem sedas e porcelanas. Hoje, mais de cinco séculos depois, o Estreito de Malaca, com 800 kms de comprimento e, no ponto mais estreito, apenas 3 kms de largura, é vital para a China, pois é por lá que passam os navios oriundos do Golfo Pérsico, carregados do petróleo de que este país tanto necessita. Continua, pois, a ser uma zona nevrálgica do globo, onde muitos interesses se cruzam.

“Brother and Sister on Swing”, de Louis Gan.

Para assinalar a passagem de George Town a Património Mundial, o governo malaio decidiu promover uma competição destinada a encontrar a melhor proposta artística para as ruas da zona histórica da cidade. O vencedor foi o coletivo Sculpture at Work, que apresentou, em 2012, uma série de 52 caricaturas em ferro, intitulada Marking George Town, as quais narram, em imagens, episódios da história do burgo. Os criadores foram Tang Mun Kian, Baba Chuah, Reggie Lee e o consagrado autor de banda desenhada malaio, Julian “Lefty” Kam. Estas peças fazem parte de um roteiro que foi sendo enriquecido com obras de outros artistas, nomeadamente, do lituano Ernest Zacharevic, com o projeto Mirrors George Town.

“Kids on Bicycle”, na Lebuh Armenian, é considerado o melhor trabalho, em George Town, de Ernest Zacharevic.

Os trabalhos de Zacharevic em George Town são uma combinação de objetos com pinturas, permitindo aos visitantes interagir com as obras. Os modelos retratados, normalmente crianças, são pessoas reais da população local. Um mapa com indicação dos pontos onde se podem ver estes trabalhos está disponível em vários pontos turísticos de George Town. Foi com um exemplar na mão que percorremos toda a cidade. Nessa altura não sabíamos que Ernest Zacharevic já estivera em Lisboa, em 2015, na inauguração da sua terceira exposição individual (a primeira na Europa), The Floor is Lava, na Galeria Underdogs.

Uma das 52 caricaturas em ferro das paredes da cidade. “Para consternação dos paroquianos da Igreja Portuguesa, a rua da Igreja também abrigava a sede da sociedade secreta Ghee Hin”. Como se vê, os portugueses não foram esquecidos.

É patente em George Town um contraste harmónico entre as culturas chinesa, indiana e malaia. Existe tolerância religiosa. A população é simpática e pacífica, como simpático é o custo de vida, realmente acessível, nomeadamente no que toca à alimentação e ao alojamento. Vale seguramente a pena visitar os templos Kuan Yin (budista), Sri Mariammam (hindu) e Kapitan Keling (muçulmano), bem como o forte Cornwallis e o templo do clã chinês Khoo Kongsi, entre muitos outros locais de interesse.

“Little Boy with Pet Dinosaur”, na Ah Quee Street, ainda um trabalho de Ernest Zacharevic.

A zona histórica está concentrada junto ao porto e pode ser percorrida a pé, mas, com calor intenso, talvez seja aconselhável fazê-lo no início ou no final do dia. Outra forma interessante de circular é alugando uma bicicleta; pode também apanhar-se o Cat Bus, e fazer uma viagem grátis em torno da cidade. Quem quiser hospedar-se com estilo pode ficar no Eastern & Oriental Hotel, um palácio colonial convertido em hotel de cinco estrelas, onde se pode tomar um magnífico pequeno-almoço debruçado sobre o mar. Por tudo isto, sobretudo para os amantes da street art, vale a pena visitar George Town, uma cidade histórica, colorida e verdadeiramente fotogénica.

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Parque Natural da Ria Formosa

Cacela Velha, talvez o recanto mais charmoso do Parque.

A presença humana na Ria Formosa é muito antiga. Os romanos fundaram aqui uma importante cidade da Hispânia — Balsa — e, antes deles, já fenícios e cartagineses se haviam instalado no mesmo local. Os restos dessa cidade encontram-se debaixo de terra, na Torre d’Aires, mas há outras evidências à superfície que confirmam a posição estratégica da ria. As fortalezas dos Cavaleiros de Santiago, em Cacela, e de São João da Barra, em Cabanas, e o já muito arruinado forte de Santo António, em Tavira, foram construídos nesta zona porque os navios que contornavam a costa, oriundos do Mediterrâneo, tinham de passar por aqui.

As praias da Ria são uma boa alternativa às praias de mar aberto, sobretudo para quem tem crianças.

Para lá da posição estratégica, toda a zona do Parque Nacional da Ria Formosa foi, e é, igualmente importante do ponto de vista económico. As armações de atum, vitais para as populações do Sotavento durante os séculos XIX e XX, sobretudo para as famílias que, em comunidade, ocupavam os arraiais, foram também fonte de rendimento para trabalhadores e trabalhadoras da indústria conserveira. O cemitério de âncoras, no Barril, é um vestígio icónico desses tempos, quando os incríveis cães d’água (raça hoje reconhecida como “cão d´água português”) ainda ajudavam na faina.

Praia do Barril: bela e singular.

A extração de sal, com certeza muito antiga, manteve-se até hoje; e a flor de sal de Tavira, usada pelos mais afamados cozinheiros de todo o mundo, é de qualidade superior. Outro produto típico da Ria Formosa são as ostras, que beneficiam do movimento das marés e do sol algarvio para ganharem uma especial depuração. As mais famosas são as do Moinho dos Ilhéus, exportadas para vários países e disponíveis para degustação no restaurante Noélia e Jerónimo, em Cabanas, um dos melhores locais para comer em Portugal; e as mais populares são as dos viveiros da Fábrica, que se podem provar na Casa da Igreja, em Cacela Velha (talvez na volta da praia, como manda a tradição).

Praia da Terra Estreita.

Daí, do magnífico miradouro de Cacela Velha, podemos distinguir, entre ria e mar, uma língua de areia fina e comprida, que se estende até ao Barril — são as melhores praias da Europa! E, por todo o lado, arbustos, árvores, flores e frutos tipicamente mediterrânicos: não apenas a tríade figo, alfarroba e amêndoa, mas também citrinos, nêsperas e medronhos, entre muitos outros. Nas salinas, as aves são tão variadas que, só por elas, já vale a pena sair de casa: flamingos, mergulhões, garças, maçaricos, patos bravos, pernilongos, corvos marinhos e a raramente avistada galinha sultana (caimão), símbolo do Parque. No mar, sempre generoso, os melhores peixes e mariscos.
Pura sorte, nestes tempos de confinamento, termos, a dois passos, esta ria tão singular, onde na última década cientistas da Universidade do Algarve salvaram da extinção o icónico cavalo marinho.

Ilha-barreira de Cacela. As melhores praias da Europa.

E é precisamente da ria que biólogos desta universidade, colaborando com empresários, investigam sobre produtos — como as algas — que, depois de tratados, são comercializados nas indústrias agrícola, alimentar, farmacêutica e cosmética, entre outras. A Necton, uma empresa sediada em Olhão, exporta microalgas e sal para dezenas de países, espalhados pelo mundo. A ria é, pois, fonte de riqueza, e nela trabalham milhares de pessoas.

Sempre diferente, sempre formosa.

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De Roma a Durban

Uma viagem pode ser mais ou menos interessante, sendo que o mais ou menos, depende, em larga medida, de ti. Indaga, observa, busca, reflete.

O Êxtase de Santa Teresa.
  • Embora já tivéssemos estado várias vezes em Roma, nunca tínhamos entrado na belíssima igreja de Santa Maria da Vitória. Em trânsito para Civitavecchia, pouco mais deu para ver. O objetivo era admirar a escultura de Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, que é, de facto, sublime. Esta zona, bem próxima da Praça da República e da estação ferroviária Termini, contém várias igrejas e basílicas, pelo que, nas curtas duas horas que estivemos na cidade, pudemos ainda visitar a igreja de São Bernardo (San Bernardo Alle Terme) e a Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires (Santa Maria degli Angeli e dei Martiri), ambas arquitetonicamente grandiosas.
  • Em Civitavecchia comemos uma pizza simples (Margheritta), mas excelente. Vinha a ferver e, a acompanhá-la, uma cerveja gelada. Era sexta-feira à noite, e as praças e bares da cidade estavam bastante movimentados. Civitavecchia é uma cidade interessante, com boa qualidade de vida e muito turismo. No dia seguinte, sábado, embarcámos no MSC Orchestra, que nos acolheria na longa viagem até Durban, na África do Sul.
  • Chania, em Creta, não frustrou as nossas expectativas. A zona do porto veneziano é a mais charmosa da cidade: uma baía onde o mar praticamente beija as casas — quase todas restaurantes com esplanadas, onde se come bons peixe e marisco — e, por trás, ruelas coloridas e casas com sacadas floridas (vimos umas, de madeira, muito interessantes), onde uma mesa e duas cadeiras convidam a desfrutar… a dois. Claro que Chania vive sobretudo do turismo que, mesmo nesta altura do ano, face ao clima favorável, é intenso. Mas, se aqui a temperatura estava muito agradável, ela iria subir ainda, à medida que nos deslocávamos para sudeste, em direção ao Canal do Suez.
  • Agora mesmo vi passar uma ave, um passarinho isolado, que cruzou o navio de bombordo para estibordo. Não era uma gaivota, nem um atobá ou um albatroz, era muito mais pequeno. Haverá alguma espécie de aves que possa viver saltitando de navio em navio? Talvez pudesse haver. Num navio sempre há comida, espaço para dormir e provavelmente algum lugar seguro para construir um ninho.
Descansando um pouco em Chania, Creta.
  • Mediterrâneo, o centro da Terra, foi aqui que tudo começou. Devido ao seu posicionamento, o clima, aqui, é excecional, com pequenas amostras espalhadas um pouco pelo globo: pequenas partes da Austrália, da Califórnia, da África do Sul e do Chile. O clima, naturalmente, está ligado ao que o solo dá, ou, melhor dizendo, é o solo que se liga ao clima. Por isso a região mediterrânica é tão privilegiada. Aqui encontramos os cereais indicados para produzir o melhor pão, as videiras e oliveiras que originam os melhores vinhos e óleos; e muitos outros frutos típicos, como o figo, o limão e a laranja, a romã, a alfarroba e o tomate. Da melhor agricultura nasce a melhor gastronomia, mas este clima também influencia os animais que habitam terra e mar. Entre eles, homens e mulheres do mais belo que podemos encontrar e que construíram aqui, no Mediterrâneo, as formas mais elevadas de cultura. A propósito: Daniel Zafrani, um artista-mimo israelita, cria sketches plenos de humor, originalidade e beleza. Vimo-lo atuar no navio e tivemos o privilégio de falar com ele, e observar que, além de criativo, é também muito simpático e humilde. Uma pessoa luminosa.
  • O Canal do Suez é daquelas obras de engenharia universais (Agostinho da Silva escreveu um artigo interessante sobre o construtor francês do canal). Os navios seguem em comboio num único sentido de cada vez, por isso é normal esperar-se horas pelo comboio que vem em sentido contrário ao nosso. Rebocadores e pilotos são necessários em todo o percurso e a velocidade é forçosamente lenta. A meio-caminho há um lago enorme, onde se espera de novo por outro comboio. Normalmente não se consegur percorrer o canal em menos de 24 horas. Do navio podemos ver muitas obras, barcos que cruzam o canal transportando viaturas e pessoas, uma ou outra ponte, linhas de caminhos de ferro, postos de controlo, campos e cidades inteiras.
Canal do Suez.

Saindo do canal, entramos diretamente no Mar Vermelho. O nosso navio não continuou para sul, antes virou à esquerda e subiu pelo Golfo de Aqaba, fazendo um “V”. O golfo é estreito, sendo visíveis, de qualquer ponto, as duas margens — à esquerda o Egito, à direita a Arábia Saudita — até chegarmos ao fim, ou um pouco antes, onde já avistamos lá ao fundo as duas cidades lado-a-lado — Eilat e Aqaba. Agora já é Israel em vez de Egito, e Jordânia em vez de Arábia Saudita. As duas cidades estão rodeadas de montanhas de calhaus e areia, onde não há vegetação. Dá para perceber que não chove. O próprio ar é quente e seco, dificilmente aqui haverá um inverno verdadeiro. De facto, a uma semana de novembro, ainda é verão. Nas praias veem-se pessoas a desfrutar da água morna, a 26 graus. Ambas as cidades vivem do turismo associado às atividades náuticas, sobretudo Eilat, uma vez que Aqaba é, além de destino de mar, um excelente ponto de acesso a Petra, Património Mundial pela UNESCO. Há uma notória diferença entre as praias de Eilat e as de Aqaba, as primeiras com excelentes infraestruturas, com pessoas de fatos de banho como se vê nos nossos países, enquanto em Aqaba as mulheres ficam na areia da praia todas cobertas a ver os filhos e os maridos desfrutando na água. Muitos dos homens têm o tronco coberto enquanto tomam banhos de mar.

  • Apesar das diferenças culturais, Aqaba e Eilat são praticamente iguais do ponto de vista natural, verdadeiras cidades gémeas. Como vimos, ambas se situam na enorme baía formada no final do golfo de Aqaba e, além disso, ambas estão rodeadas por desertos; ambas dão acesso ao Mar Morto, partilhado por Jordânia e Israel; e, claro, ambas estão sujeitas ao mesmo tipo de clima. Estas semelhanças naturais deverão ter alguma influência sobre a boa convivência que parece existir, mas o fator decisivo é o acordo de paz celebrado nos anos 90 entre os dois países, que vem sendo escrupulosamente cumprido até os dias de hoje. A Jordânia tem-se mostrado, inequivocamente, o vizinho mais fiável de Israel.
Passeando ao anoitecer pelo porto de Eilat, Israel.
  • Que a Jordânia é, entre os países árabes, um estado tolerante, nós já tínhamos constatado numa anterior visita. Mas que os países árabes fossem, em geral, tolerantes e os melhores onde se viver, isso nunca nos passou pela cabeça. Pois foi o que nos disse o chefe da Igreja Ortodoxa de Aqaba (Igreja de São Nicolau), Samih “Basilious” Al-Marji, uma igreja que, segundo Samih, acolhe quinze fiéis. Encontrámos este padre almoçando numa rua de Aqaba. Reparando que o observávamos, ele próprio encetou uma conversa connosco, perguntando de onde éramos. Quando soube que eu era português referiu-se a Fátima com grande simpatia. Disse-nos que tinha um filho que vivia nos Estados Unidos e que ele próprio poderia lá viver, mas que a Jordânia era um país melhor para se morar e que os países árabes eram os mais tolerantes. Disse que a sua igreja estava sempre aberta, jamais a fechava. Ficou visivelmente satisfeito quando lhe pedimos para tirar uma foto com a Fla, dizendo que ela era muito bonita e tanto eu quanto ele tínhamos muita sorte em estar ali com ela. Antes de nos despedirmos fez questão de nos abençoar com o sinal da cruz.
  • Um dos livros que trouxe para a viagem foi Astrofísica para Gente com Pressa, de Neil de Grasse Tyson, um autor que desconhecia. O livro está dividido em 12 capítulos, adaptados (2017) de ensaios publicados na revista Natural History. É um livro com poucas páginas, sintético, que se lê muito bem. Há uns tempos que não lia um livro sobre astrofísica e foi bom retomar o tema. É notória a admiração do autor por Einstein. Embora isto seja tudo menos invulgar, não deixou de ser um motivo de simpatia para quem, como eu, é igualmente um admirador confesso do grande físico alemão. Apesar da incrível intuição, ou imaginação (o autor deste livro vai mais por aqui), ou inteligência, ou de tudo isso junto, que caracterizava Einstein, este nunca achou, ou sequer sugeriu, que a sua teoria da relatividade fosse a palavra final. Popper admirava muitíssimo a humildade de Einstein. Ambos estavam convencidos de que Einstein tinha razão no confronto que manteve durante grande parte da sua vida com os cientistas aderentes à chamada “interpretação de Copenhaga”, segundo a qual a realidade quântica depende do ponto de vista do observador, ou seja, não é independente de quem a observa. Deus não joga aos dados, a célebre frase de Einstein foi dita em reação a essa interpretação de Copenhaga, Popper foi dos poucos que sempre concordou com Einstein, mas a mecânica quântica funciona e Einstein é geralmente considerado perdedor nesse confronto com Bohr e seus seguidores.
Fla com Samih “Basilious” Al-Marji.

Isto não é dito no livro, mas é algo bem conhecido e considerado pela quase totalidade dos cientistas como ponto assente. Mas talvez a história ainda venha a dar razão a Einstein e a quem com ele concorda, como Popper e eu. A principal objeção de Popper à mecânica quântica, no que toca ao aspeto conceptual e teórico, é a pretensão dos seus autores de que ela é uma teoria definitiva e inquestionável — atitude contrária à de Popper em relação à ciência. Mas se a história nesta questão específica ainda não abonou em favor de Einstein, já o fez em relação a outra questão específica em que se pensava que Einstein se teria enganado (ele próprio, com a sua proverbial humildade, admitiu que errara), mas que agora, com novos dados proporcionados pela tecnologia, tudo indica, veio a verificar-se que Einstein tinha razão.

Esta questão tem a ver com a “constante cosmológica”, ou lambda, uma força oposta à da gravidade que preservava aquilo em que Einstein e a maioria dos físicos da sua época acreditavam — um universo estático. E voltamos ao livro. Tyson faz uma cronologia dos acontecimentos. Em 1916, Einstein publica a Relatividade Geral (RG), incluindo nas suas equações um termo, que apelidou de “constante cosmológica”, representado pela letra maiúscula grega “Λ” — o lambda. Em 1929, treze anos depois, Edwin P. Hubble, um astrofísico norte-americano, descobriu que o universo não era estático, tendo reunido provas convincentes de que as galáxias mais distantes da Via Láctea se afastam desta mais rapidamente (para tentarmos perceber como isto acontece podemos imaginar a expansão de um balão) do que as que lhe estão próximas.

Quando Einstein tomou conhecimento de que o universo estaria em expansão, descartou o lambda, presumindo o seu valor como zero, e chamou à “constante cosmológica” o “maior erro” da sua vida. No entanto, o lambda nunca foi completamente esquecido, ciclicamente voltava à baila. Até que, em 2011, três cientistas foram galardoados com o Prémio Nobel da Física por um trabalho que remonta a 1998 e reabilita o lambda de Einstein. Estes cientistas — Saul Perlmutter, de Berkeley, Brian Schmidt, de Camberra, e Adam Riess, de Maryland — descobriram que o Universo se expande mais rapidamente do que se pensava e que essa “força”, que supera o indicado pela velocidade de recessão, só faz sentido se regressarmos à “constante cosmológica” de Einstein, que prevê uma energia escura responsável por 68% de toda a massa-energia do Universo. Como? Vejamos o que nos diz Tyson.

O contacto com o mar, dentro de um navio seguro, é relaxante.

A forma do nosso Universo a quatro dimensões provém da relação entre a quantidade de matéria e energia que existe no Cosmos e a velocidade a que o Cosmos se está a expandir. Uma medida matemática conveniente para isso é o ómega: Ω, mais uma letra maiúscula grega com um papel bem importante no Cosmos. Se tomarmos a densidade de matéria-energia do Universo e a dividirmos pela densidade matéria-energia necessária para quase travar a expansão (conhecida por “densidade crítica”), obtemos ómega. Uma vez que tanto a massa quanto a energia fazem distorcer, ou curvar, o espaço-tempo, ómega revela-nos a forma do Cosmos. Se ómega é menor do que 1, a massa-energia real situa-se abaixo do valor crítico e o Universo expande-se para sempre em todos os sentidos, tomando a forma de uma sela, onde divergem linhas inicialmente paralelas. Se ómega for igual a 1, o Universo expande-se para sempre, mas não completamente. Nesse caso, a forma é plana, preservando todas as formas geométricas que aprendemos na escola sobre linhas paralelas. Se ómega exceder 1, as linhas paralelas convergem e o Universo curva sobre si próprio, acabando por voltar a entrar em colapso na bola de fogo de onde veio (…)

Entretanto, a partir de 1979, o físico norte-americano do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Alan H. Guth, juntamente com outos colegas, avançou um ajustamento para a teoria do Big Bang que esclarecia alguns problemas de um universo tão suavemente cheio de matéria e energia como o nosso. Um subproduto fundamental desta atualização do Big Bang foi o facto de considerar o valor de 1 para ómega. Não metade. Não dois. não um milhão. Um. (…)

Havia, no entanto, um outro pequeno problema: a atualização previa três vezes mais massa-energia do que a encontrada pelos observadores. Teimosamente, os teóricos afirmaram que os observadores simplesmente não estavam procurando como deve ser. No final das contas, só a matéria visível não representava mais do que 5% da densidade crítica. E a misteriosa matéria escura? Também a acrescentaram. Ninguém sabia o que era e ainda não sabemos o que é, mas contribuiu seguramente para os totais. Daí, obtemos cinco ou seis vezes mais matéria escura do que matéria visível. Mas ainda é muito pouco. Os observadores estavam perdidos e os teóricos respondiam: “continuem a procurar”. Ambos os campos tinham a certeza de que o outro estava errado — até à descoberta da energia escura. Esse componente único, quando adicionado à matéria comum, à energia comum e à matéria escura, fez subir a densidade de massa-energia do Universo para o nível crítico. Satisfazendo quer observadores quer teóricos (…)

Então, que coisa era aquela? Ninguém sabe. A resposta mais próxima que alguém conseguiu foi presumir que a energia escura é um efeito quântico — onde o vácuo do espaço, em vez de ser vazio, na verdade fervilha de partículas e das suas parceiras de antimatéria. Aparecem e desaparecem em pares e não duram tempo suficiente para serem medidas (…) Sim, estamos um bocadinho perdidos. Mas não abjetamente perdidos. A energia escura não anda à deriva, sem uma única teoria em que se ancorar. A energia escura habita um dos portos mais seguros que podemos imaginar: as equações da relatividade geral de Einstein. É a constante cosmológica. É o lambda. O que quer que seja a energia escura, já sabemos como a medir e como calcular os seus efeitos sobre o passado, o presente e o futuro do Cosmos. Sem dúvida que a maior asneira de Einstein foi ter declarado que o lambda fora a sua maior asneira.1

Mar Vermelho: a foto comprova a justeza do nome.
  • Pois bem, para um grande admirador de Popper, como eu, é gratificante constatar a atualidade do génio de Einstein e do seu espantoso legado. Popper e Einstein são dois dos maiores pensadores do século XX e de toda a história da humanidade, e viam a realidade de ângulos diferentes, mas complementares. Popper estudou (sobre) as implicações filosóficas da relatividade geral de EInstein e procurou, inclusive, que a sua filosofia influenciasse a física einsteiniana nos dois breves encontros que aconteceram entre ambos nos Estados unidos. A admiração de Popper por Einstein era evidente. E tudo indica que Einstein também admirasse Popper. Pela minha parte, admiro ambos.
  • A maioria da matéria-energia não é, portanto, diretamente visível, mas apenas detetável, pois está abaixo ou acima do espetro visível, nos espetro dos infravermelhos ou ultravioletas.2 Tudo tem que ver com ondas que preenchem o espetro eletromagnético e as suas frequências (descobertas por Hertz), no fundo, com tudo o que vibre, incluindo o som. Quem fala em frequência pode falar igualmente em comprimento de onda, uma vez que são interdependentes, ou seja, para a mesma velocidade, se aumentarmos a frequência diminui o comprimento e vice-versa. A fórmula é simples: velocidade = comprimento x frequência.
  • Só no século XIX, muito depois dos primeiros telescópios, é que se começaram a construir equipamentos para detetar a luz invisível ao olho nu. Os primeiros foram os radiotelescópios, que têm de ser muito grandes, uma vez que detetam comprimentos de onda igualmente grandes. O maior radiotelescópio do mundo foi construído na China, na província de Guizhou, e tem uma superfície superior a trinta campos de futebol. Outra classe de radiotelescópios são os interferómetros, constituídos por conjuntos idênticos de antenas de prato ligados eletronicamente, cobrindo grandes áreas. O que tem a resolução mais elevada estende-se por oito mil quilómetros, entre o Havai e as Ilhas Virgens, com antenas de 25 metros. Chama-se Very Long Baseline Array.

Por seu turno, na banda das microondas temos on ALMA (Atacama Large Millimeter Array), com 66 antenas, instalado nas montanhas dos Andes, no norte do Chile. Já na outra onda do espetro eletromagnético, temos as ondas ultracurtas e de alta frequência dos raios gama, medidas por picómetros. Estes são instrumentos sofisticadíssimos de um metro de comprimento. Assim, hoje me dia há telescópios (nome genérico dado a todos estes aparelhos) de todos os tipos, que nos permitem detetar os comprimentos e frequência de ondas que cobrem todo o espetro eletromgnético. Uns estão localizados na Terra, mas a maioria no espaço, permitindo aos astrofísicos explorar o Universo.

  • Entretanto, enquanto decorria esta incursão pela Astrofísica, fomos nos deslocando para Sul. Descemos rapidamente pelo golfo de Aqaba, mas demorámos dois dias a percorrer o Mar Vermelho. Que mar curioso, estreito e comprido. Não fui pesquisar, mas palpita-me que tenha bem mais de mil quilómetros de comprimento. As águas estão calmíssimas e a temperatura do ar é cálida à noite e inclemente durante o dia. No entanto, é nesta zona de calmaria que atuam grupos de piratas, sobretudo somalis. Há precauções que foram tomadas no nosso navio. Alertas azul, amarelo e vermelho. Pessoal de segurança especializado segue a bordo. As luzes são reduzidas à noite.
Uma noite, no Golfo de Aden, chegámos ao camarote e deparámos com este “miminho” em cima da cama…
  • Mas já saímos do Mar Vermelho e nada aconteceu. A probabilidade de algo acontecer é, aliás, muito baixa. O nosso navio não é fácil de assaltar e os piratas não são parvos. Claro que a zona de pirataria não se resume ao Mar Vermelho, é muito maior, e aqui no golfo de Aden ainda estamos dentro dela. E o mesmo quando entrarmos no Oceano Índico. A pirataria, aliás, pode ocorrer em qualquer mar do mundo, é uma daquelas práticas antigas que persistem. Mas ninguém aqui dentro parece preocupado, e nós também não.
  • Quem nunca fez um cruzeiro não faz ideia, ou faz uma ideia errada, do que se passa dentro de um navio Para começar, dentro de um navio de cruzeiro coexistem pessoas de múltiplas nacionalidades. Isso é a primeira coisa boa. Conviver com gente de diferentes raças e culturas torna-nos mais abertos e tolerantes. Depois, é preciso perceber que há sempre coisas a acontecerem no navio que, tal como uma cidade famosa, nunca dorme. Há sempre alguém da tripulação, a todo o momento, a trabalhar para nós, passageiros. A nossa vida a bordo está, por isso, muito facilitada. Na nossa cabina, a cama é grande, o colchão confortável; os lençóis são de algodão de excelente qualidade; as toalhas de banho são trocadas todos os dias; a cabina é limpa, aspirada e arrumada duas vezes por dia, de manhã e à noite. Quanto à comida a bordo, bom, é difícil até falar. O buffet está aberto 20 horas por dia, só encerra entre as 2 e as 6 am. Os horários das refeições são alargados, há sempre algo para comer. Quem quiser comida menos saudável — como cachorros, pizzas, hamburgueres, batatas fritas e uma panóplia enorme de doces — tem tudo isso disponível; e quem quiser algo mais saudável — como todo o tipo de saladas, frutas, ovos de todas as formas e feitios, sopas diferentes a cada 12 horas, arroz integral, leguminosas, etc — também o encontra em abundância. E todos os tipos de pastas, charcutaria, queijos, carnes e peixes. Uma fartura. Come o que quiser, quando quiser, e já está tudo pago à partida. Tem ainda direito a café e chás e, se comprar o cruzeiro nos Estados Unidos (ou através de uma agência online sediada nos Estados Unidos, como foi o nosso caso), tem direito também a água engarrafada, sem pagar mais nada por isso. Apenas se pagam bebidas alcoólicas, refrigerantes e outras bebidas que não água.

Em geral todos os navios de cruzeiro têm vários restaurantes,3 havendo lugar marcado num deles para o jantar, e o passageiro opta por tomar a sua refeição no restaurante ou no buffet. Estão também disponíveis vários bares, alguns temáticos, a maioria com música ao vivo, onde se pode “beber um copo”, dançar, participar em eventos organizados pela equipa de animação, etc. Há espaços dedicados aos adolescentes — salão de jogos, salas de convívio, discotecas — e às crianças, havendo a possibilidade dos pais a deixarem ao cuidado da equipa especializada para o efeito durante várias horas por dia. Há piscinas e jacuzzis (embora não sejam a nossa praia). Há o ginásio, modernamente equipado, spa, salão de massagens, sauna, cabeleireiro, etc, etc. Há boutiques de roupa e lojas onde se podem comprar óculos, relógios, perfumes, jóias, entre vários outros produtos. Há atividades diversas para se participar todos os dias, algumas bem interessantes. Todos os dias há dois espetáculos no Teatro — uma enorme sala com capacidade para muitas centenas de pessoas — com equipas residentes ou artistas convidados. Nós também não sabíamos, nem sequer imaginávamos: alguns destes espetáculos são de grande qualidade, mesmo! Tudo é realizado com extremo profissionalismo. É verdade que nem todos os cruzeiros são propriamente espetaculares, mas se se souber escolher,4 uma viagem de cruzeiro pode ser uma experiência fantástica.

… e, claro, aproveitámo-lo com boa vontade e bastante prazer.
  • Fim da manhã e eis que uma voz anuncia em várias línguas: ” Bom dia senhores passageiros, vamos dar-lhes algumas informações sobre as condições de navegação. Hoje é o dia 28 de outubro de 2019 e são, neste momento e neste local, 11 horas e 35 minutos. O céu está limpo e a temperatura do ar é de 31 graus celsius, a mesma da água do mar que neste local tem cerca de 500 metros de profundidade. A humidade é de 71% e a pressão atmosférica de 1012 milibares. As ondas são de Leste com força 3 e o vento de força 4. Navegamos a uma velocidade de 19 nós e estamos a 647 milhas de Salalah”.

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  • Hoje faz anos a minha filha, Rita, e não posso dar-lhe os parabéns. Espero fazê-lo amanhã em Salalah. E hoje, também, acordámos com um mar cavado, de ondas largas — o equivalente às ondas de rádio no espetro eletromagnético. Descobrimos um espaço no último deck (superior) do navio, à popa, que funciona como discoteca à noite, mas que durante o dia tem muitos lugares disponíveis onde podemos sentar-nos, colocar as pernas em cima das mesas baixas, ler e apreciar o mar. E hoje vou começar a ler um novo livro, de um autor igualmente novo para mim, mas de quem a Fla gosta muito, Andrew Solomon. O título em português deste livro é Longe da Árvore. Vamos a isso.
  • O funcionário mais simpático do MSC Orchestra é do Zimbabwé, tem 28 anos e chama-se Jabulani (palavra que, segundo o próprio, quer dizer “felicidade”).
  • Ainda o navio não tinha acostado a Salalah e já tínhamos observado uma coisa: o seu porto é moderno e movimentado, plenamente marítimo, pelo que deve ser de águas profundas. Foram levadas a cabo intervenções de relevo e outras estão em curso, como se pode ver pela imensa maquinaria em laboração. Um enorme quebra-mar foi construído, permitindo a estabilização dos navios. O terminal de contentores é bastante grande — um retângulo comprido perpendicular ao mar, construído de raíz, o que permite a acostagem de navios de um lado e do outro. Quando chegámos estavam três grandes navios carregados de contentores neste cais, mas reparámos que havia, pelo menos, espaço para outros três. Havia também um terminal de granéis com navios a laborar. Noutro cais estava um navio de cruzeiros da Aida Cruises, mas podiam estar dois ou três. O porto faz um grande círculo com uma única saída e está a ser objeto de obras de vulto no seu interior. Esta é outra vantagem de andar de navio — podemos perceber o que se passa num porto. E, uma vez que mais de 80% do comércio mundial se faz por via marítima, isso permite-nos ter uma ideia do que se passa numa dada região (o hinterland do porto), se tivermos olhos suficientemente experimentados. Uma vez que já estivemos na capital de Omã, Muscate, e no porto vizinho de Muttrah, podemos dizer, sem grande margem de erro, que o grande porto de entrada de mercadorias é Salalah, o qual fica fora da cidade, uns 10 quilómetros para Oeste.
Pormenor de Salalah, Omã.

Sobre a cidade propriamente dita não haverá muito a dizer. Prevalece a cor creme dos edifícios sem telhado, calor abrasador (um paquistanês do Punjab disse-nos que Agosto é o melhor mês, quando chove e fica tudo verde), muito comércio no Centro e as omnipresentes mesquitas. À semelhança dos Emirados Árabes ou do Qatar, também em Omã o mais interessante para ver fica fora das cidades.

  • Dr. Steven Kopits, do hospital Johns Hopkins. Quero ver o rosto dele, preciso ver o rosto dele. E gostava também de conhecer o rosto de Betty Adelson. As redes sociais, tantas vezes diabolizadas (quase sempre com razão), são uma ajuda tremenda para pessoas que se afastam dos padrões comuns, com identidade horizontal. Tudo isto vem a propósito do livro que comecei a ler — Longe da Árvore — e será retomada mais à frente.
  • Hoje é 31 de outubro e vai haver, logo à noite, a festa do Halloween. Vamos a caminho de Malé, numa rota sudeste e, pela primeira vez, apanhámos um mar ligeiramente picado. (Os termos que uso aqui para caracterizar o estado do mar são meus e só em alguns casos coincidirão com os termos técnicos). Lá fora está vento, mas nós estamos confortavelmente instalados no local do costume, no último deck do navio, desfrutando de uma vista invejável sobre o mar. As ondas e o vento vêm de sudoeste.

Antes que me esqueça, quero registar algo, ainda a propósito do livro que estou a ler, Longe da Árvore. Sou daqueles que acham que o mundo está melhor e que nunca existiu uma sociedade tão justa quanto a nossa, apesar dos inúmeros problemas. (É claro que me refiro às sociedades democráticas do tipo “ocidental”). Dada a longevidade (considerável, em muitos casos) das democracias, pode parecer que já quase tudo foi alcançado e que nos últimos anos praticamente não se avançou. Ora, isto não é verdade, bem pelo contrário, e Longe da Árvore comprova-o. A integração de crianças com deficiências na sociedade, bem como a denúncia de instituições onde muitas dessas crianças eram simplesmente despejadas e maltratadas, tem sido muitíssimo maior nos últimos anos. Este é um dado incontornável que, só por si, mostra como, para uma parte significativa da humanidade, o mundo está muito melhor.

  • A palavra “deficiência” quer apenas dizer que não se é eficiente.
  • O behaviorismo — ao colocar um ênfase extremo na educação — ajudou à integração das crianças deficientes, em oposição ao eugenismo.
  • Relativamente ao autismo, há uma luta feroz entre os defensores da neurodiversidade e os que são antivacinas.
  • Jae Davis. Kit Armstrong.
Malé, Maldivas.
  • A República das Maldivas é um arquipélago constituído por 1190 pequenas ilhas, agrupadas em 28 atóis naturais. Destas ilhas, duzentas são permanentemente habitadas, e apenas umas poucas têm um comprimento superior a dois quilómetros. O território atinge quase 750 kms de norte a sul e cobre uma área total de cerca de 90.000 kms2 . As grandes massas de terra mais próximas são a Índia, a 480 kms e o Sri Lanka, a 650 kms. As Maldivas já eram habitadas quando, no século XVI, foram governadas pelos portugueses, a partir de Goa. Em 1752, houve um período de influência “malabari” (muçulmanos vindos da Índia) de apenas três meses. E em 1887 as Maldivas tornaram-se um Protetorado Britânico. No entanto, durante este período, não se registou presença britânica em Malé e o governo das Maldivas pelos seus sultões continuou até ao final de 1952. A primeira república foi implantada em 1 de janeiro de 1953. Esta administração, no entanto, teve vida curta e o sultanato regressou em 1954, acabando por ser abolido em 1968 com a formação da segunda república. A independência face aos britânicos ocorrera entretanto em 1965. Embora sem qualquer subordinação constitucional à rainha, as Maldivas tornaram-se membro da Commonwealth em 1984.5

O que impressiona quando se chega a Malé e se entra em contacto com a população local — um dos aglomerados mais concentrados do mundo, com 400.000 habitantes — é a sua consistência cultural. A população é 100% muçulmana; não se encontra uma bebida alcoólica em nenhum restaurante (embora nos tivessem dito que se arranja álcool e outras substâncias clandestinamente); mulheres, homens e crianças tomam banho de mar com o corpo coberto, mesmo aos estrangeiros não é permitido tomar banho em biquini ou em tronco nu, em Malé. Claro que nos resorts espalhados pelas outras ilhas os estrangeiros podem banhar-se como fazem nos seus países, caso contrário os maldivianos perderiam as indispensáveis receitas do turismo.

Apesar da rigidez cultural, imposta pela religião, os habitantes são, em geral, extremamente simpáticos e solícitos. Alguns falam inglês, mas a maioria não. Visitámos os mercados de peixe e de fruta, bem como toda uma secção de peixes secos, conservados em sal, dispostos em prateleiras como se fossem tábuas de madeira. Há uma abundância enorme de um tipo de atum, pequeno, que pode ser vendido inteiro ou em filé, depois de lhe retirarem a pele, a cabeça e a espinha central com uma destreza impressionante, em segundos.

Com Jabulani, na pequena lancha que nos transportou de Malé para o MSC Orchestra.

As mulheres andam cobertas da cabeça aos pés sob o intenso calor. A cultura cria uma barreira entre a natureza e as pessoas. Mas ninguém parece incomodar-se com isso. São os estrangeiros (e, bom, claro, alguns habitantes locais privilegiados) que vêm desfrutar destas águas maravilhosas, límpidas e cálidas,6 das areias finíssimas, dos passeios marítimos e aéreos. As Maldivas são, de facto, um dos paraísos terrestres e, a avaliar pelo movimento dos aviões no aeroporto de Malé, há muitas pessoas a descobri-lo, incluindo chineses, com o seu faro natural e o seu capital financeiro. A novíssima ponte — inaugurada há um ano — construída entre a ilha de Hulhumale, onde fica o aeroporto internacional, e a capital Malé, foi financiada pelos chineses: 50% a fundo perdido e 50% para amortizar em suaves prestações anuais.

  • Oceano Índico. Há vários dias que navegamos nestas águas tão familiares aos portugueses seiscentistas. Ao que parece, eles foram os primeiros europeus a definir rotas e a assentar praças no Índico. Os adversários mais temíveis, no que toca ao domínio comercial da região, eram os árabes.
  • À meia-noite, entre 4 e 5 de novembro, cruzámos a linha do Equador e já estamos no Hemisfério Sul. Temos visto muitos peixes voadores pelo caminho. E terminei o livro que comecei a ler há seis dias, Longe da Árvore (mais de mil páginas). O título remete para um provérbio alemão que diz “a maçã nunca cai longe da árvore”, o que quer dizer que os filhos nunca se afastam muito do que são os pais. Esta ligação entre pais e filhos transmite aos últimos a chamada “identidade vertical”, embora haja casos excecionais em que prevalece a identidade de grupo, a chamada “identidade horizontal” — longe da árvore, portanto.

Claro que nada disto é a preto e branco, e algumas vezes as duas identidades podem coincidir; por outro lado, todas as identidades são diferentes (como o próprio conceito indica, obviamente), pois dependem de múltiplos fatores, também diferentes. Andrew Solomon estudou dez grupos, que destacou em cada um dos dez capítulos do livro: surdos, anões, síndrome de Down, deficiências, autismo, esquizofrenia, prodígios, violação, crime, transgéneros — aos quais acrescentou um primeiro capítulo sobre “Filhos” e um último intitulado “Pais”.

Baía de Beau Vallon, em Mahé, Seychelles.

Eu diria que há três dimensões, interligadas, neste livro: informativa, formativa e ética. A primeira faz, digamos assim, um ponto da situação sobre os desenvolvimentos que ocorrem dentro de cada grupo — o antes, o agora e o que se pode esperar no futuro — ilustrados com casos reais (centenas deles) que Solomon pesquisou, às vezes in loco, durante mais de uma década. A segunda mostra-nos como, mesmo em casos em que os próprios pais, à partida, pensam não suportar (sobretudo deficiências graves, autismo, esquizofrenia, violação e crime), o amor quase sempre acaba por vencer, através da aceitação da pessoa (filho ou filha) tal como ela é. A terceira coloca a questão dos limites. Passou-se rapidamente, e ainda bem, de uma época em que muitas destas pessoas excecionais eram descartadas pela sociedade (colocadas em instituições ou mesmo mortas), há uns meros trinta anos, para a época atual, em que as crianças que nascem com futuras identidades horizontais, veem reconhecido o seu direito a uma vida digna por parte do Estado e das famílias, perspetivando-se já um futuro em que os filhos poderão ter características de alguns destes grupos, escolhidas pelos pais. Surdos podem querer ter filhos surdos, anões podem querer ter filhos anões, rejeitando qualquer tipo de tratamento.

Alguns destes grupos constituem-se já como subculturas, como é o caso das comunidades surdas e gay, por exemplo, e o mesmo pode acontecer com portadores do síndrome de Down e outros, cujos pais, por razões diversas, não consideram que os seus filhos tenham qualquer patologia. Daí não estarem interessados numa cura, assumindo para os filhos uma identidade própria, que em nome da diversidade, se deve perpetuar. Até que ponto isto é legítimo e saudável constitui apenas uma questão entre muitas controversas que os desenvolvimentos científicos, técnicos e sociais vieram colocar na ordem do dia. No último capítulo, “Pais”, Solomon aborda a sua própria experiência enquanto progenitor, descrevendo o seu trajeto de pai homossexual, mostrando-nos o quanto o exemplo de tantos outros pais, que aceitaram as identidades horizontais dos filhos, foi importante para ele, inspirando-o e mostrando-lhe que só há um caminho justo, entre a rejeição e a idolatria — a via do amor.

A mais badalada praia de Mahé — Beau Vallon.
  • Seychelles. Só o nome já faz sonhar. As diferenças com as Maldivas são significativas, mesmo que as magníficas águas sejam semelhantes. Enquanto as Maldivas são constituídas por muitas ilhas pequenas, as Seychelles são constituídas por quatro ilhas grandes — Mahé, La Digue, Silhouette e Traslin — e umas cem ilhas pequenas; enquanto as Maldivas são planas (e correm um risco enorme de inundação se as águas do mar subirem devido ao aquecimento global), as Seychelles são montanhosas, com vegetação densa; enquanto as Maldivas são 100% muçulmanas, as Seychelles têm diversidade religiosa; enquanto nas Maldivas muitas pessoas não falavam inglês, nas Seychelles toda a gente fala inglês, além do crioulo. Tudo faz muita diferença em desfavor das Maldivas.

Estivemos dois dias nas Seychelles e a nossa estadia resumiu-se à ilha principal, Mahé, onde se situa a capital, Port Victoria. Alugámos um carro e percorremos toda a ilha. No primeiro dia fomos para Norte, até à praia mais famosa (e, provavelmente a maior) de Mahé, Beau Vallon, muito frequentada por turistas. Às quartas-feiras ocorre aqui uma feira, com música, comidas e bebidas locais e venda de artesanato. Depois do pôr do sol, que observámos de uma praia vizinha, junto a uma aldeia de pescadores, regressámos pela mesma estrada a Port Victoria. As estradas nas Seychelles são estreitas e algumas particularmente perigosas, com curvas apertadas, sem proteção e sem bermas. Acresce que os condutores, sobretudo dos autocarros, também não ajudam. Não estando habituados a estas condições e sendo a primeira vez que conduzíamos com o volante à direita, tivemos alguma dificuldade em adaptar-nos e passámos por alguns calafrios.

No segundo dia em Mahé acordámos às cinco da manhã e apanhámos a estrada que sai de Port Victoria para a costa oeste da ilha, atravessando o maciço central. No topo há um lugar onde se encontram as ruínas de uma antiga missão, chamada Venn’s Town,7 e um lindo miradouro, onde a rainha Isabel II esteve a tomar chá e a apreciar as vistas, em 1972. Depois, percorremos toda a costa oeste, de norte para sul, parando em algumas praias. Já na metade sul da ilha, fizemos um desvio, saindo da estrada principal para visitarmos mais uma praia. Seguimos a indicação da placa que anuncia “Anse du Soleil”. A partir de um certo ponto a descida para a praia é íngreme, mas pode levar-se o carro até lá ao fundo. O estacionamento é que é extremamente reduzido, pelo que, na maioria das vezes o carro terá que ficar um pouco longe da praia. Nós fomos os primeiros a chegar, por isso não tivemos esse problema. Ficámos encantados com a Anse Soleil. A praia é muito bonita, a areia muito branca e fina, o mar transparente. Banhámo-nos, tiramos fotos, e concordámos em como aquela era uma das praias mais belas em que já tínhamos estado.8

Anse Louis, na costa oeste da ilha de Mahé.

Voltámos à estrada, circundando a ilha, até atingirmos a costa leste, menos recortada e mais batida, com algumas boas praias para os surfistas. Seguimos pela estrada paralela ao aeroporto e, pouco depois, estávamos em Port Victoria. Tivemos tempo para entregar o carro e ainda dar uma volta a pé pela cidade. Aqui, os artigos para turistas são caros. A t-shirt mais barata que encontrámos custava o equivalente a 27 euros; um pequeno livro sobre a História da Seychelles, 30 euros. Enfim, nada de surpreendente. Falámos um pouco com um habitante local que conduz pessoas em passeios às outras ilhas e nos forneceu algumas informações interessantes. Perguntámos-lhe se ele sabia quem, antes dos conhecidos períodos francês e britânico, tinha passado pelas ilhas, e ele respondeu: “piratas”. E os portugueses não passaram por aqui? “Sim, sim, o Vasco da Gama também passou por cá mas os portugueses nunca se estabeleceram aqui.”

Estávamos no fim da época das chuvas, que dura até dezembro, e quando o nosso navio largou de Port Victoria, às seis da tarde, não pudemos tirar as fotos da cidade que havíamos planeado fazer ao pôr do sol, como despedida. O poente estava carregado de nuvens escuras. Esse brusco cerrar de pano aliviou de alguma forma a nossa nostalgia.

  • Primeiro dia no mar, depois das Seychelles. Acordámos com o mar agitado, picado, e um vento de frente para o navio bastante forte. A tripulação distribuiu sacos para o enjoo. A nossa rota é agora sudeste, em direção às Maurícias. E eu vou começar a ler o meu terceiro livro de viagem,9 uma releitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Machado é um dos meus dois escritores brasileiros favoritos, em parceria com o grande João Guimarães Rosa.

Hoje é sexta-feira, 8 de novembro de 2019.

  • Ainda antes de chegar às Maurícias, em dois dias, portanto, acabei de ler o Dom Casmurro. Será que Machado não esclareceu em vida o que pretendeu mostrar-nos através dos ciúmes de Bentinho? Ou preferiu adensar o mistério? Talvez nem uma coisa nem outra. A mim parece-me evidente que ele quis mostrar como uma mente perturbada pode criar uma realidade paralela. E fá-lo magistralmente, de acordo com o extraordinário escritor que é.
Parque Chamarel, Maurícia.

Ficámos dois dias na ilha principal das Maurícias, uma ilha com 1865 km2 e 330 kms de linha costeira, desabitada até 1505, quando aqui chegaram os portugueses. Alugámos um carro, continuámos a conduzir pela esquerda e, em ambos os dias que aqui estivemos, viajámos para Sul. No primeiro, fomos até à praia Flic en Flac, ao Parque Chamarel e terminámos na magnífica praia Le Morne, no sopé do Monte Brabant, Património Mundial pela UNESCO.

No segundo dia fomos até à cratera do extinto vulcão Trou aux Cerfs, de onde se avista praticamente toda a ilha, ao Grand Bassin e às Rochester Falls. Depois de entregarmos o carro, tivemos tempo ainda para passear pela capital, Port Louis. De tudo isto, do que é que gostamos mais? Da praia Le Morne10, sem dúvida. O pôr do sol, ali, foi magnífico.

Pareceu-nos interessante a diversidade cultural da Maurícia, com praticantes de várias religiões a conviverem pacificamente. Quando aqui estivemos, tinham ocorrido há poucos dias eleições legislativas. Uma senhora de uma banca de jornais e um cliente informaram-nos que o rosto que aparecia na capa de todos os jornais era o do primeiro-ministro, reeleito para um segundo mandato. Perguntámos se o partido dele é de esquerda ou de direita e informaram-nos que nas Maurícias só há dois partidos, o do governo e o da oposição, e que nenhum é de esquerda ou de direita. Então são partidos étnicos ou religiosos? Garantiram-nos que “não”. Ficamos sem perceber como se formaram os principais partidos desta república parlamentar e com vontade de esclarecer esta questão.

  • A dimensão das ilhas que visitamos vem sempre aumentando ao longo da nossa viagem, reparámos agora. Malé, Mahé, Maurícia e Reunião, aonde chegámos hoje. Considerando a posição geográfica, Malé e Mahé estão à mesma distância do Equador, embora a primeira no Hemisfério Norte e a segunda no Hemisfério Sul. Não resistimos à tentação de fazer uma comparação entre ambas. Pois agora o mesmo acontece em relação às Maurícias e à ilha francesa de Reunião.11
No topo do Maïdo. Ao fundo, a costa ocidental de Reunião e as melhores praias da ilha. (Foto de Fla)

Nesta ilha de dimensão considerável, altas montanhas (a mais alta acima dos 3 mil metros) e vulcões ativos, estivemos apenas dez horas, oito das quais com um carro alugado. Como seria de esperar, dado estarmos numa região de França, o ordenamento do território alterou-se significativamente: melhores estradas, melhores edifícios, melhor sinalização, mais riqueza evidente. Depois, a ilha é de uma beleza natural deslumbrante. Pudemos verificar isso do topo do Maïdo — integrado no Parque Nacional de Reunião, Património Mundial pela UNESCO — a 2100 metros de altitude, observando para leste os “três circos” (assim denominados, suponho, devido à sua forma) — Mafate, Salazie e Cilaos — e, do lado oeste, lá bem no fundo, uma porção enorme de costa, orlada por um risco branco — as ondas a baterem no recife de coral — deixando as praias protegidas da rebentação. (Por cima das praias viam-se algumas nuvens brancas, esparsas, bem abaixo de nós).

Foi numa dessas praias, Saline-les-Bains,12 que nos banhámos depois de descermos do Maïdo, por estradas secundárias e sinuosas, via Trois Bassins, fazendo um pequeno desvio para encontrarmos um caminho de tamarindos que a Fla queria ver. A praia, uma das mais badaladas da ilha, é, de facto, belíssima, com a água incrivelmente transparente e de temperatura excelente. A poucos metros da linha de água, ao longo da praia, árvores altas, que não são coqueiros, fornecem sombra refrescante, natural e gratuita. Não soubemos identificá-las. A parte mais profunda das suas raízes está cravada na areia mas a parte superior está a descoberto, provavelmente pela erosão provocada pelo vento, e serve para acomodar os pertences dos banhistas.

Depois da praia passámos por Saint Paul e fomos aos Egrets Les Bassin, onde très cascatas. Tivemos tempo de ver apenas uma.13 A água no lago onde a cascata cai é limpíssima e convida a um banho, mas, mais uma vez, não tivemos tempo. Quando entregámos o carro em La Possession, onde acostou o navio, a Fla reparou que tínhamos feito 150 quilómetros exatos. Apesar do tempo escasso, estávamos muito satisfeitos com a nossa experiência, e um pouco cansados. Tudo o que vimos superou as expectativas e podemos dizer que, se tivéssemos de escolher entre Maurícia e Reunião, a nossa escolha recaíria, sem hesitação, pela última. Reunião deve ser um local fantástico para se viver.

Os portugueses, ao que parece, foram os primeiros europeus a encontrar estas ilhas. À ilha de Reunião — atualmente um dos mais remotos territórios da União Europeia — deram-lhe o nome de Santa Apolónia, mas não a povoaram. Aproveitaram os franceses, que tomaram posse da ilha em 1642. Hoje é mais um départment francês.

A magnífica praia de Salines-les-Bains.
  • Como já referimos, conhecemos um rapaz no navio, um empregado de mesa, chamado Jabulani Gwamuri. Tem 28 anos, é do Zimbabwé e é muito simpático. Ele adora ir a terra “apanhar ar” e procura sempre turnos de trabalho que lho permitam, mesmo que para isso tenha de trabalhar mais horas. Vimo-lo em Malé e também na Maurícia. Foi aqui que nos anunciou que “hoje à noite” (“hoje” é o dia em que o navio esteve em Reunião) haveria um espetáculo no Teatro em que os protagonistas seriam membros da tripulação, e que ele iria atuar. Prometemos-lhe que iríamos assistir e assim o fizemos. Levámos a câmara fotográfica para registarmos a atuação de Jabulani e fazermos-lhe uma surpresa. Quando chegámos procurámos um lugar apropriado, na segunda fila da plateia, e acabámos também por fotografar a atuação de outros “artistas”. Levei a minha lente 1:8 de 50 mm (eu sei que não é nenhum suprassumo, mas faz-se o que se pode), e as fotos ficaram, realmente, muito boas.

O Teatro encheu e o espetáculo acabou por ser surpreendente, com quatro ou cinco cantores e cantoras a destacarem-se pela excelência das interpretações. Jabulani foi o quinto ou sexto a entrar em palco, interpretou uma canção hip-hop e, apesar de nervoso, não desiludiu. Não conseguimos referir-nos a todos, mas, como dissemos, houve excelentes interpretações. Lembramo-nos de um rapaz do Camboja e outro da Indonésia que estiveram muito bem.

Até que entrou em palco um marinheiro, condutor de lanchas, corpulento, mais largo que o Pavarotti mas com menos barriga, que começou a interpretar New York, New York. Infelizmente, logo na segunda frase, esqueceu-se da letra. A música continuou enquanto ele passava a mão pelo rosto, procurando desesperadamente lembrar-se das palavras; baixou a cabeça e voltou as costas ao público, curvado, envergonhado. Depois, enquanto grande parte do público cantava em vez dele, incentivando-o, e a música continuava, olhou para a entrada dos bastidores e abriu os braços, desesperado, implorando socorro. Foi quando um colega que já tinha atuado entrou em palco e começou a cantar, conseguindo que o nosso “Pavarotti” retomasse, quase no final, a canção, terminando-a com o público, carinhoso, a aplaudi-lo fortemente. Ainda isto acontecia e eis que se ouvem os primeiros acordes de Nessun Dorma. O condutor de lanchas encetou a interpretação com uma belíssima voz de tenor e arrancou aplausos entusiásticos do público, que continuava a animá-lo; a meio da atuação notámos que se enganou na letra e teve uma ligeiríssima hesitação, mas conseguiu superar rapidamente e seguir em frente; depois, já na parte final, arrancou da caixa torácica um vozeirão incrível, arrebatador, que fez todo o teatro erguer-se em apoteose. Ouviam-se gritos enquanto toda a gente aplaudia, de pé; e o gigante Pavarotti parecia um menino.

Muito simpática e bonita, Nomonde Mdalose é dona de uma voz fabulosa. Que encontre em breve o palco que o seu talento merece – o mundo!

A penúltima atuação foi de uma jovem sul-africana que trabalhava no balcão da Receção do navio, com uma voz incrível. Como, logo desde o início, percebemos que a sua atuação era extraordinária, desatámos a fotografá-la. Tudo se conjugou para que as fotos ficassem belíssimas — os movimentos, a roupa, a expressão — e ficaram. Foi, sem dúvida, uma das melhores atuações da noite, a par da do Pavarotti. Houve ainda tempo para ver e ouvir uma excelente cantora e entertainer peruana, após o que subiram ao palco todos os intérpretes da noite para um último aplauso. Foi realmente emocionante.

  • No dia seguinte, editamos as fotos de Jabulani e da cantora sul-africana, e decidimos levá-as no computador para que ambos as vissem. Fomos à receção e Nomonde Mdalose estava lá a trabalhar. Enquanto pedíamos uma impressão da fatura das nossas despesas no navio, demos-lhe os parabéns pela atuação do dia anterior e, virando o ecrã do computador, que pousáramos em cima do balcão, para ela dissemos-lhe que tínhamos tirado umas fotos — e mostrámos-lhas em tela grande. A minha capacidade descritiva é insuficiente para transcrever em palavras a sua alegria. Disse-nos que não tinha uma única foto cantando, e agradeceu-nos muitíssimo. Entregámos-lhe um cartão SD com 18 fotos que ela depois copiou e guardou.

À noite, após o jantar, pegámos no computador e fomos procurar Jabulani. Encontrámo-lo trabalhando nos bares exteriores do deck 13 e, quando antevimos uma oportunidade, chamámo-lo e começámos a mostrar-lhe as fotos. Ficou louco. That’s me!?, perguntava, Ohohoh! Amazing! Perguntou se podia mostrar as fotos aos colegas e, perante o nosso óbvio assentimento, chamou-os. Estava visivelmente feliz e orgulhoso, e isso deixou-nos também radiantes. Quando o deixámos, ainda se desfazia em mil agradecimentos…

Começo da última noite a bordo. O final de um cruzeiro memorável.

Ficámos muito contentes por termos proporcionado estes momentos de felicidade a estas pessoas. A apresentadora do espetáculo de ontem — uma jovem poliglota que está à frente do departamento de excursões — referiu, antes de chamar todos ao palco para a ovação final, que é preciso coragem para sair da zona de conforto e enfrentar uma audiência de milhares de pessoas; que isso é ainda mais difícil quando se está longe de casa, da família e dos amigos; e que a única coisa que compensava essa ausência era todos os que trabalhavam a bordo serem eles próprios membros de uma outra família, não menos verdadeira, porque real, a “família-tripulação”. Lembrei-me da “identidade horizontal” de Solomon. E pensei que, assim como o talento que vemos em todo o lado, e bem expresso neste espetáculo, também os sentimentos, anseios e esperanças humanos não têm nacionalidade, são universais. Um navio, com a sua diversidade identitária, tal como, em menor escala, uma grande orquestra sinfónica, mostra-nos como o ser humano é um só, independentemente do local onde nasceu ou vive.

  • E cá estamos a dois dias de navegação do destino final deste cruzeiro — Durban. Ontem e hoje choveu o tempo todo, o mar esteve agitado, o vento forte. Passámos muito perto do extremo sul de Madagáscar.
  • Último dia de navegação. De manhã passámos abaixo do canal de Moçambique, e o tempo melhorou gradualmente. Entretanto, disseram-nos que a SAA (Southern African Airways) está em greve, pelo que muitos voos foram cancelados. Embora os nossos voos não sejam através dessa companhia, estamos um pouco apreensivos, com receio de sermos afetados. Mas não adianta stressar.
No Jardim Municipal Tunduru, Maputo.
  • Quando chegámos a Durban o tempo estava nublado. Depois de uma enorme fila para o controlo de passaportes, apanhámos um shutlle para o aeroporto por 10€/pessoa. Talvez por ser sábado, não tivemos dificuldade em atravessar a cidade. O nosso cruzeiro terminara, mas ainda não a nossa viagem. Antes do regresso a casa, ainda havia Moçambique e Eswatini, que trataremos noutro artigo. Saímos de Civitavecchia no dia 19 de outubro; hoje é o dia 16 de novembro. A nossa viagem por mar durou 29 dias. Daqui a uma semana estaremos em casa.
Na estrada, em Eswatini.

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Notas:

1 “Astrofísica para Gente com Pressa”, Neil deGrasse Tyson, Gradiva, Lisboa, 2017, 1ª ed., pp. 77-81.

2 Para lá dos infravermelhos, as microondas e as ondas de rádio; e para lá dos ultravioletas, os raios-x e os raios gama.

3 Alguns com cozinheiros premiados com estrelas Michelin, como são os casos de Harald Hohlfarht, alemão, com três estrelas e Ramón Freixa, espanhol, com duas estrelas.

4 Há que ter em conta preço, navio, companhia, itinerário e vendedor.

5 Fonte: “Mysticism in the Maldives”, Ali Hussein, Novelty Printers, Malé, 1991.

6 Águas plenas de golfinhos alegres que nos dão as boas-vindas, como aconteceu aquando da chegada do nosso navio.

7 Em tributo a Henry Venn, secretário da Missão entre 1841 e 1873.

8 A Anse Soleil faz parte da nossa lista de praias mais belas do mundo (aqui).

9 Também trouxe na bagagem dois livros sobre fotografia, mas não posso dizer que os li, pois são sobretudo livros de “consulta”, não propriamente de leitura.

10 Também a Le Morne faz parte da nossa lista de praias mais belas do mundo (ver nota 8).

11 Até porque as ilhas Reunião, Maurícias e Rodrigues pertencem ao mesmo arquipélago — o Arquipélago de Mascarenhas. (Os nomes denunciam a presença portuguesa).

12 Mais uma da nossa lista (nota 8).

13 A mais bela e espetacular cascata de Reunião é a do Vale de Langevin.

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